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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Língua de Trapo - Capítulo 23 - Falando de Todos e Agradecendo-lhes... - Por Luiz Domingues

Reta final desta parte da minha historia na música...
Como de costume, deixo a ressalva de que a qualquer momento, o capítulo pode reabrir, caso haja adendos para acréscimos; correções; material de áudio / vídeo inédito; fotos e / ou peças de portfólio etc etc. E também como de praxe, encerro falando dos personagens dessa história, e sobretudo, sobre a minha gratidão para com essas pessoas, e pela oportunidade de ter sido membro dessa banda.

Bem, o embrião primordial do Língua de Trapo, foi o Boca do Céu, minha primeira banda, e do Laert Sarrumor. O início da história do Língua, é o fim da história do Boca do Céu, portanto, está devidamente narrado nos dois capítulos respectivos. Sob o ponto de vista do Língua de Trapo, foi fundamental a entrada do Laert na Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, em 1979, quando ali conheceu colegas que foram essenciais para a formação da banda.

Se por um lado, o nosso prosaico "Boca do Céu" era uma raiz primordial, não podemos de deixar de considerar que o talento do Laert só pôde explodir para valer, quando encontrou-se com outros artistas emergentes e igualmente talentosos, como Guca Domenico; Carlos Mello (Castelo); e Pituco Freitas, num primeiro instante.
A veia humorística dos três, que citei no início (excetuo o Pituco numa primeira análise, pois logo no começo, a sua porção humorística não era explícita, visto que ele direcionava a sua carreira para tornar-se um cantor "sério", e só depois aflorou o cantor performático que ele viria a tornar-se).

O começo, como um despretensioso grupo musical e poético, visando realizar um sarau para a recepção de calouros, foi o primeiro êxito musical de minha carreira (descontadas as apresentações do Boca do Céu no Festival do meu colégio, em 1977, que foram boas, para o nível que tínhamos). Eu e Laert vínhamos de uma labuta forte com a nossa primeira banda, o Boca do Céu, mas tivéramos poucas ações concretas e positivas para comemorar. Por isso, quando ouvimos aquela saraivada de aplausos após o término do sarau, cumprimentamo-nos com bastante euforia, pois ele e eu, sabíamos que era o nosso primeiro sucesso, enfim, após quase três anos.

E dali em diante, a veia humorística moldou aquele grupo, que passou a ser chamado de "Laert Sarrumor e os Cúmplices".
Guca e Carlos Melo (Castelo), eram (são), extremamente criativos, e alimentavam a banda com músicas, e ideias sensacionais de piadas. Tudo amalgamado pela política, é claro. Vivia-se ainda os ecos da ditadura, e pelos corredores da faculdade, os debates eram acalorados. Fui levado e "encaixado" na banda pelo Laert, mesmo sendo ainda um estudante secundarista, e sobretudo por ser um rocker de carteirinha, o que em alguns aspectos, poderia ser considerado um empecilho num primeiro instante, mas finquei raízes, e fiquei.

Da esquerda para a direita, Luiz Domingues; Laert Sarrumor; Guca Domenico e Paulo Estevam Andrade. Em pé, encostado na porta e só assistindo, o hoje saudoso Lizoel Costa, que em poucos dias entraria para a banda e tornar-se-ia um membro histórico. Segunda apresentação desse grupo raiz do Língua de Trapo, em agosto de 1979, numa sala de aula da Faculdade de Jornalismo Cásper Líbero, em São Paulo. Foto : Rivaldo Novaes
 
O começo, com shows ultra improvisados em salas de aulas, sob condições inóspitas de áudio, fazem-me ter orgulho de nossa tenacidade. A entrada de Lizoel Costa; depois Serginho Gama e Fernando Marconi, encorparam a banda de uma forma incrível. O pianista Celso Mojola, também contribuiu bastante, com sua sofisticação erudita / jazzística. Outra presença incrível, deu-se com Ayrton Mugnaini Jr., um gênio, sem dúvida.

Depois, a fase dos festivais de MPB pelo interior, e no circuito universitário, onde o crescimento era muito animador, fazendo com que a banda obtivesse um crescimento vertiginoso. Minha primeira saída, em janeiro de 1981, por motivação financeira foi triste, mas eu não tinha alternativa, infelizmente. Tivesse uma estrutura mínima que garantisse-me por alguns meses, teria sido a conta certa para eu permanecer e acompanhar o Língua de Trapo no salto quântico, que já em 1982 teve, e assim mudado da água para o vinho, profissionalizando-se, em todos os sentidos.

Mas, não adianta chorar o leite derramado. Não foi assim que aconteceu, e tudo ocorreu conforme precisava ter acontecido, simples assim...
Minha volta em 1983, foi dramática, no sentido de que voltei sem a chance de redimir-me de minha saída de 1981. Ou seja, voltei com a data da nova saída já programada como um fato, só faltando defini-la.

Foi maravilhoso ter tido a segunda chance, voltando a ter convívio com velhos amigos, e tomar um banho de profissionalismo, pois quando voltei, de certa forma, eu ainda era o rapaz de 1981, em muitos aspectos, mas eles tinham dado um salto enorme à minha frente. Portanto, fora o prazer, tive uma escola, que serviu-me, e muito para a continuidade de minha carreira. Nessa segunda fase, acumulei muitas histórias, que contei com prazer na narrativa, mas claro, omiti várias, por considerar que seriam inadequadas por expor pessoas publicamente, e a minha autobiografia é light.
Não tenho nenhuma intenção de fazer uma autobiografia clichê de "Rock Star", falando sobre excessos, mesmo porque (e quem conhece-me pessoalmente, sabe bem disso), eu não sou assim. A segunda saída da banda, em julho de 1984, foi bastante sofrida para o meu emocional, mas acredito que essa cicatriz não exista mais, ainda bem.


Em suma, tenho um tremendo orgulho de ter sido um membro fundador; ter participado de duas formações da banda, e ter um registro fonográfico; peças de portfólio; fotos, e alguns vídeos disponibilizados no You Tube. Cabe dizer que esse material que possuo, é ínfimo, pois deveria ter muito mais coisas. Espero resgatar esse material, e assim que conseguir obtê-lo, ainda que em doses homeopáticas, disponibilizo por aqui, de pronto.

Vida longa ao Língua de Trapo !

Orgulho de fazer parte dessa saga !

Hora de citar os personagens dessa história, que acompanharam-me. Começo falando do pessoal de apoio, principalmente dos que estiveram comigo em minha segunda passagem pela banda, em 1983 / 1984, quando a banda estava numa condição profissionalizada.


Laerte Vicente

Laert Vicente era / é um bom roadie, amigo e com um talento para vender discos, fora do comum. Era raro o dia em que ele não vendesse pelo menos uma caixa de LP's nos shows, e naquela época, o padrão de uma caixa saída do estoque de gravadora, comportava 175 LP's. Divulgador; filipetador e colocador de cartazes experiente, além de ser roadie do Língua, praticamente até hoje, tornou-se um divulgador de espetáculos, requisitado no mercado.  

Na primeira aparição da Chave do Sol no programa "A Fábrica do Som", que está disponibilizada no You Tube, ele aparece como espectador da performance em destaque, pois estava sentado no chão, bem próximo ao palco e batucando sobre ele. Tem um vídeo ao vivo do Língua, acho que do ano 2000, em que ele aparece como personagem, fazendo o "último Hippie do mundo", ou coisa que o valha, aproveitando seu visual de Hippie da "velha guarda"... 


Ayrton Mugnaini Junior

O Ayrton Mugnaini Junior, foi o músico que substituiu-me de imediato, assim que deixei a banda pela primeira vez, em 1981. Ele não efetivou-se na banda, mas sempre gravitou na sua órbita, como colaborador. É multi instrumentista; compositor; cantor; arranjador; jornalista e uma enciclopédia humana ambulante sobre o quesito música. Quando criaram o Google, certamente inspiraram-se no Ayrton como modelo, pois ele é impossível. É inacreditável que um Ser Humano possa armazenar tanta informação num cérebro. Considero-o um gênio.



Cassiano Roda & Marcelo Moraes
 
Cassiano Roda e Marcelo Moraes também foram pessoas que ajudaram muito a banda. O Marcelo e seu talento nato de Stand-Up Comedy, usando a improvisação para acomodar as pessoas nas arquibancadas do Lira Paulistana, era inacreditável. E Cassiano Roda, como um colaborador com algumas parcerias em composições e ideias de piadas para os shows.


Jerome Vonk

Jerome Vonk foi um empresário muito eficiente, mas que colocava-se numa posição de igualdade conosco. Talvez por ser bem jovem, pouca coisa mais velho que o João Lucas que era o membro mais velho entre os componentes da banda. Muito culto, educado, mas ao mesmo tempo um tremendo brincalhão, tinha o pulso para impor-se como um comandante, quando necessário, mas na maior parte do tempo, era "um de nós". Holandês de nascimento, "afrancesou" o seu nome, pois segundo dizia-nos, não conseguiríamos pronunciá-lo, na fonética holandesa. Poliglota e amante de Blues; Jazz e Rock Sessenta / Setentista, tinha / tem uma bagagem muito legal na música, por ter sido um Road Manager de confiança de Claude Nobs, o organizador do Festival de Montreux, na Suíça. Como o Jerome era / é europeu, mas com vivência no Brasil desde criança, além de ser um poliglota, conhecia bem o temperamento dos brasileiros e suas manias, portanto, era o profissional ideal para lidar com os artistas brasileiros, na noite brasileira, tradição do Festival. E de fato, sua brasilidade era tão grande, que não havia nenhum resquício de sotaque no seu português. Pelo contrário, falava / fala um português impecável e com sotaque de paulista / paulistano....

Gostei muito de trabalhar com ele, e tanto foi assim, que por pelo menos duas vezes, tentei fazer com que ele tornasse-se empresário da Chave do Sol, tempos depois. A banda crescia e justificava tal pretensão de nossa parte, contudo, ficou nítido que ele nunca enxergou tal potencial, pois não aceitou nossos pedidos, em duas ocasiões. E lembro-me que ele ficou bastante embaraçado em falar-nos isso. Deve ter sido uma saia justa para ele, pois éramos amigos, e eu tinha muitas esperanças na banda, mas ele não devia enxergar dessa forma. Encontrei-o por acaso num show do Jethro Tull, em 1988. Conversamos muito rapidamente, apenas.

Muitos anos passaram-se, e em 1994, eu recebi um telefonema dele. Estava em outra empreitada musical, desta feita, presidindo o escritório de uma gravadora holandesa em São Paulo. Estava montando o escritório da "Roadrunner", um selo especializado em Heavy-Metal e derivados, e queria um funcionário de confiança para assumir a posição de diretor artístico para cuidar das contratações, e supervisionar as gravações de tais artistas. Fiquei muito contente com o convite, mas meu inglês era abaixo do sofrível, e essa condição era sine qua non para o cargo. Fora isso, o mundo do Heavy-Metal sempre foi um planeta distante e desinteressante para o meu gosto, por isso, declinei do convite. Curiosamente, alguns meses depois, a própria gravadora entraria em negociação com o Pitbulls on Crack (minha banda na ocasião), visando a nossa contratação para o cast. E as conversas sendo conduzidas pela Alê, baixista da banda Indie, "Pin Ups", que assumiria o cargo anteriormente oferecido para a minha pessoa.

Encontrei o Jerome várias vezes naquele escritório durante a década de noventa e uma vez ele brincou comigo, dizendo que eu e ele devíamos ser as únicas pessoas naquele ambiente, sem tatuagens e piercings... éramos Rockers da velha guarda, do tempo em que tatuagem era coisa de presidiário ou marinheiro, enfim...
Algum tempo depois, ele foi o gerente da Rádio Kiss FM, uma emissora que entrou com tudo no mercado, e sob a sua batuta como programador geral, só tocava clássicos do Rock, numa programação dos sonhos. Mas um belo dia, a programação começou a ficar esquisita e claro, o "holandês voador", tinha saído...

Estamos conectados no Facebook, também, mas falamo-nos pouco, atualmente.


Cida Ayres

Figura importantíssima durante a segunda passagem que tive na banda, Cida Ayres foi uma produtora exemplar. Braço direito do Jerome, e querida por todos nós, era uma mão na roda em todas as circunstâncias. Em meio ao turbilhão de indisposições e melindres em que vivi na minha segunda passagem pela banda, por conta de estar em duas bandas autorais simultaneamente, e com interesses conflitantes de agenda, para a minha sorte, ela acabou afeiçoando-se à Chave do Sol, também, e deu-nos muita mão, inclusive facilitando o fechamento de shows. Agradeço muito a ela, por tudo de bom que proporcionou-me no trabalho cotidiano com o Língua de Trapo, e também pela ajuda que deu à Chave do Sol.
Fiquei muitos anos sem falar com ela, mas soube que estava atuando como produtora, com a empresária da Xuxa, Marlene Matos, no próprio "Xou da Xuxa". Fiquei muito contente por saber que crescera como produtora e de fato, ela tinha um talento nato para tal função. Depois disso, ela trabalhou com duplas sertanejas do mainstream, e foi executiva de gravadora multinacional.  

Em 2010, encontramo-nos na extinta Rede Social Orkut, e ela gostou de alguns clips do Pedra, minha banda na ocasião. Chamou-me para uma conversa, e mostrou-se interessada em ajudar-nos. Uma segunda reunião foi agendada, e dessa vez eu levei a Cida Cunha, que estava voluntariando-se para fazer produção para o Pedra. A conversa foi boa, a Cida Ayres passou inúmeros contatos fortes de Rádio e TV que tinha para a sua xará. Coisas grandes de TV aberta, inclusive. Contudo, nada logrou êxito, pois tratava-se de uma outra época, e nesses tempos de jabá, só o contato e a amizade, não bastavam. Ela deu o seu melhor, mas evidentemente que não teve culpa alguma por nada ter dado certo. Mas legal, fiquei contente em vê-la bem, trabalhando numa produtora de vídeos, e ainda tentando ajudar-me, tantos anos depois.


Louis Chilson

Louis Chilson foi uma figura sensacional para nós, acompanhando bem a trajetória da banda em 1983 e 1984. Produtor e diretor de cinema, foi o responsável pela produção; direção e edição da vinheta do vídeo, em película de Super-8, que fazia parte do show.
Tremenda pessoa legal, é um americano meio brasileiro, por ser filho de mãe brasileira e portanto, falar português sem sotaque. Muito culto, cinéfilo e formado em cinema pela UCLA, tornou-se um ótimo amigo naqueles meses em que estive na banda, pela segunda vez. Seu conhecimento de cinema era enciclopédico, e tivemos muitas conversas sobre o assunto, além de séries clássicas de TV, também uma paixão mútua. Depois, reencontramo-nos no Facebook, em 2012.


Paulo Estevam Andrade / Saulo / Nilma Martins M/ Dico 


Falando de quatro figuras da primeiríssima formação do "Grupo de Poesia e Arte da Faculdade Cásper Líbero", Paulo Estevam Andrade (também conhecido como "Paulo Sustenido"); Saulo; Nilma Martins e Dico, não tenho muito o que dizer, pois foram pessoas que sumiram da vida do Língua de Trapo, com muita rapidez. Passada a segunda apresentação desse grupo, em agosto de 1979, somente o Dico, prosseguiu um pouco mais, e ele tinha um potencial de humor bem legal, mas a vida o levou para um outro lado. Sobre o Paulo Estevam Andrade, reencontramo-nos no mundo virtual em 2012, onde contou-me que desde aquela época, voltara para a sua cidade natal, Marília, no interior de São Paulo e lá desenvolveu uma carreira como professor até os dias atuais.


Celso Mojola

Celso Mojola era / é um tecladista de sólida formação erudita, mas que gostava muito de Jazz, também. Estudante de música na USP, tinha ouvido absoluto, ou seja, percebia desafinações de instrumentos com uma precisão maior que a de afinadores eletrônicos. Participou da primeira fase da banda com bastante desenvoltura, inclusive gravando a primeira Demo-Tape da banda, em 1980. Quando saí em 1981, ele parecia firme na banda, mas alguns meses depois, soube que o novo tecladista era João Lucas, irmão do baixista Luiz Lucas, que substituíra-me em 1981. Também conectou-se comigo no Facebook, mas nunca conversamos além dos cumprimentos iniciais pelo adicionamento etc. 


Fernando Marconi

Fernando Marconi entrou na banda, ainda em 1979, e como era um músico de muito talento e estudioso, tinha pretensões a tornar-se um músico de alto nível, e portanto interessado em orbitar no mundo da música instrumental; Jazz; Fusion e similares. O que talvez nem ele suspeitasse, era que tinha também uma veia humorística, e ele foi mais um trunfo para o Língua de Trapo. O Fernando era / é muito gente boa, e sempre foi cordial comigo. 
Nunca esqueço-me de uma passagem, onde fui à sua residência, e tive curiosidade de tocar num par de congas, um instrumento de percussão cuja sonoridade aprecio muito, desde que pilotado por um percussionista de ofício, e não um curioso desavisado, e sem técnica, como eu era (sou). Ele deixou que eu tocasse, e alguns minutos depois, não parava de rir, vendo as bolhas que brotaram nas minhas mãos, como incauto... enfim, percussão é coisa séria...

O Fernando acabou saindo abruptamente da banda, pouco tempo depois que eu voltara, em 1983. Depois dessa saída repentina dele, nunca mais tive notícias, a não ser quando comecei a navegar na Internet, e ver que ele construiu uma carreira sólida no mundo da música instrumental. Mas como esse mundo é muito fechado, apesar de ser um grande músico, não é famoso. Estamos conectados no Facebook, mas ele mostrou-se discreto ao meu contato, e eu respeitei essa postura dele, claro. Falando por fim dos componentes mais regulares das minhas duas passagens pela banda, agora.


Guca Domenico

Guca Domenico era um jovem estudante de jornalismo, com muito idealismo, fervor pela política, mas um talento para a música, nato. Compositor; violonista; cantor e letrista de mão cheia, é autor de muitas músicas de sucesso da banda, fora as ideias para piadas; gags & sketchs, que sempre enriqueceram os shows do Língua de Trapo. Guca sempre foi um rapaz alto astral, e sua presença era agradável em shows; ensaios; reuniões etc.

Guca tem carreira solo com discos e composições gravadas por outros artistas, além de muitos livros publicados e destacada atuação como professor, também. No início, era um membro oficial e subia ao palco, cantava e tocava o seu violão. Mas chegou num ponto onde tornou-se um membro honorário, sempre próximo e alimentando a banda com seu material de criação, mas participando dos shows apenas sazonalmente, como convidado especial. Vejo o Guca muito pouco atualmente. A última vez que conversamos com calma, foi no camarim do Sesc Pompeia em 2005, no show de comemoração aos 25 anos da banda (que eram 26 na verdade...). 


Carlos Melo (Castelo)

Carlos Antonio Melo e Castelo Branco é outro genial compositor que muito contribuiu para o sucesso da banda. De uns tempos para cá, passou a assinar "Carlos Castelo" ao invés de "Carlos Melo" como eu o conheci, daí eu fazer menção ao "Castelo", para deixar claro que é a mesma pessoa. Na mesma dinâmica que o Guca, o Carlos Melo subia ao palco para performances e intervenções musicais simples, fazendo backing vocals, no início dos tempos da banda. Sua imitação de Paulo Maluf, na música "Teologia do Sambão", era hilariante e levava o público ao delírio. Na minha segunda fase da banda, ele já havia adotado postura de ser membro honorário e só participando do seu núcleo de criação, mas sempre trazendo ideias incríveis. Foi através dele que o tecladista Celso Mojola entrou na banda, mas na segunda fase em que participei, o Mojola já havia sido substituído pelo João Lucas.

Carlos Melo (Castelo) prosseguiu firme no jornalismo, tendo trabalhado muitos anos no jornal "O Estado de São Paulo", onde li muitas matérias de sua autoria. Tremendo colega legal, sempre foi muito camarada comigo. Carlos foi o único membro que citou-me no documentário sobre a história do Língua... (não estou puxando a orelha de ninguém, não melindrem-se os demais "Línguas", é apenas uma constatação). Também não falo com ele desde 2005, na mesma ocasião em que conversei com o Guca.


Paulo Elias Zaidan


O Paulo Elias Zaidan era um colega da faculdade, que acompanhou todo o começo da banda, mas não atuava em demasia nos primeiros momentos. Quando eu voltei à banda, ele estava super bem como ator oficial no  grupo, com sua participação sendo vital para o desenvolvimento do show. Um dos amigos mais alto astral que conheci, era um aglutinador por natureza. Onde ele estava, não havia lugar para o mau humor, pois sempre descontraia-nos com suas brincadeiras.
Luiz Domingues e Paulo Elias na escadaria de acesso à saída de emergência do Teatro Lira Paulistana em 31 de julho de 1984. Click e acervo de Julio Revoredo
 
Nunca esqueço-me, certa vez estávamos em cartaz no Teatro Lira Paulistana, numa longa temporada. Era o período da tarde e ainda faltava bastante tempo para realizarmos o soundcheck, e portanto sem função a cumprir naquele momento, ele disse-me que faria uma performance inusitada na rua, por pura diversão. Era o lado ator / lúdico dele que sempre aflorava. Então, vestiu uma roupa de "polichinelo", maquiou-se, e munido de uma bengala, plantou-se na porta de entrada do Teatro, em plena Rua Teodoro Sampaio, com aquele movimento de carros, ônibus e pedestres apressados. Como uma estátua. ficou imóvel, e as reações das pessoas foram hilárias. Fiquei na padaria que localizava-se ao lado, observei tudo, e vou contar, não lembro-me de ter rido tanto na vida. Até uma pessoa inusitada eu vi passando e sua reação de espanto foi incrível. Era o Arnaldo Antunes, que estava passando como passageiro, dentro de um ônibus ! E naquela época, já estava tornando-se famoso, por conta dos Titãs etc e tal. Encontrei o Paulo Elias em 1992, na bilheteria de um teatro. Assistimos um espetáculo teatral juntos, por pura coincidência. Depois disso, reencontramo-nos no camarim da casa de shows Aeroanta, quando toquei na banda formada pelo Laert, num "Tributo à Janis Joplin", que ele promoveu e atuou, em 1996. Muitos anos depois, vimo-nos de novo no camarim do Sesc Pompeia em 2005, e no Bar Melograno, em 2011 e 2012. Também estamos conectados no Facebook.  


Serginho Gama

Sergio Gama e Silva, o popular "Serginho Gama", entrou na banda praticamente quando eu saí pela primeira vez, em 1981. Ele é hoje, o segundo membro mais antigo da banda, só perdendo para o Laert nessa longevidade. É igual a parceria do Ian Anderson, com o Martin Barre, no Jethro Tull, ou seja, um verdadeiro fiel escudeiro do Laert. Serginho é um grande músico; arranjador e maestro da banda, desde então. E aprendeu a ser um elemento cômico, apurando sua performance ao longo do tempo, e tornando-se assim, um músico importantíssimo para a banda, mas também importante como um ator de apoio às sketchs. Calmo, sensato e brincalhão nos bastidores, sempre foi um colega agradável comigo, ajudando-me com dúvidas de harmonia, logo que voltei. Também vemo-nos sazonalmente, mas estamos conectados nas Redes Sociais.

Além do Língua de Trapo, na atualidade, o Serginho mantém trabalhos paralelos, incluso um duo espetacular de violões com o baixista atual do Língua, Cacá Lima, onde fazem releituras sensacionais para clássicos do Rock 1960 / 1970, de forma instrumental e muito criativa e técnica. 


Nahame "Naminha" Casseb

O Nahame Casseb, popular "Naminha", é um tremendo baterista, técnico e muito preciso. Sempre que detectava erro de andamento, ficava muito bravo no palco, pois não conformava-se com os demais músicos da banda, por não terem essa percepção tão precisa quanto a dele. Mas fora esse perfeccionismo compreensível, era / é, um tremendo amigo do bem, super brincalhão, alto astral.

Descendente de árabes, mas com olhos azuis, era muitas vezes chamado de "Lawrence da Arábia", uma brincadeira óbvia, e de cunho cinematográfico, aliás, um mote algum à quase todos os "Línguas", incluso eu, éramos uma banda de cinéfilos, sem dúvida. 
Algumas vezes, eu; ele e Serginho Gama brincávamos de Rock Progressivo, nos momentos de soudcheck, paixão mútua entre nós três. Muitas vezes tocamos trechos de músicas do "Yes", para equalizar a banda no soundcheck. Desinibido, contribuída também com a parte cênica, dentro do possível, pois para os bateristas sempre fica muito difícil fazer coisas além de sua função vital.

Naminha morou muitos anos no Japão, onde acompanhou grandes artistas da MPB, em shows naquele país. Encontramo-nos em 1996, por ocasião do Show, "Tributo à Janis Joplin", organizado pelo Laert, e foi a última vez em que tocamos juntos. Falamo-nos pouco atualmente, mas estamos conectados no Facebook. Naminha é fera como como side man de artistas da pesada da MPB, tendo acompanhado vários astros, incluso o grande Cauby Peixoto, com o qual tocou até os últimos dias desse grande cantor. 


João Lucas


João Lucas é um grande músico; compositor; arranjador, e tem também uma veia de humor, muito legal. Enquanto os demais eram mais escrachados, o João trazia à banda, o elemento do humor sarcástico, de verve britânica. Quando eu voltei à banda, em 1983, temia que pudesse ter um relacionamento difícil com ele, pelo fato de eu estar substituindo o seu próprio irmão. Ledo engano e grata surpresa, tornamo-nos muito amigos e ele foi um dos que mais sentiu a minha saída, em 1984. Um homem muito culto, educado e de memória incrível, fora a paixão pelo rock; anos 1960 e cinema, era óbvio que ficaríamos muito amigos. Morador do bairro da Vila Olímpia, há muitos anos, morava na mesma rua da escola onde estudei, de 1968 a 1976. Não conhecemo-nos nessa época, mas tínhamos as mesmas raízes, lembranças, e só quem conhece bem aquele bairro da zona sul de São Paulo, sabe o que é o barulho de um Boeing passando a menos de 200 metros de nossas cabeças...

Outra paixão mútua nossa, era / é a cidade de São Paulo. Contrariando a média normal das pessoas que adoram odiar São Paulo, eu e João Lucas somos apaixonados pela Pauliceia. Essa paixão da parte dele, expressava-se às vezes de forma muito engraçada. Nunca esqueço-me de uma ocasião indo à uma cidade do interior, estávamos chegando na referida localidade, ainda sob a escuridão da madrugada, e com as ruas completamente desertas. Dormindo na poltrona da "janelinha" do ônibus, acordou quando alguém exclamou que estávamos chegando, e sonolento, olhou pela janela. Só havia um gato andando preguiçosamente pela rua deserta e ele disse : -"o que acontece numa cidade dessas ? Veja a grande novidade... um gato acabou de passar"...
Essa piada acompanhou-nos durante o dia inteiro...  

O João Lucas deve tomar banho de formol. Fiquei anos sem vê-lo, e quando encontramo-nos em 2005, no camarim do Sesc Pompeia, ele parecia ser o mesmo colega que tocava comigo em 1984 ! Falei-lhe isso, claro...
Recentemente (cerca de 2012), conectamo-nos no Facebook e conversamos bastante. Geralmente sobre política, mas a música e o Rock em específico, também são objetos de nossas animadas conversas. Trata-se de um grande amigo !
Tenho visto o João Lucas anunciando composições suas sensacionais na Internet, fortemente influenciadas por compositores como Burt Bacharach; Henry Mancini e Ennio Morricone, entre outros. São temas instrumentais perfeitos para tornarem-se trilhas de filmes, uma de suas paixões e aliás, minha também.


Lizoel Costa
 

Lizoel Costa era o mais engajado na música, quando o conhecemos no segundo semestre de 1979. Enquanto os demais eram estudantes de jornalismo envolvendo-se com a música, ele já colocava-se como músico profissional que estudava jornalismo. Através dele, tive oportunidades de ganhar dinheiro como músico, impulsionando-me por diversos trabalhos avulsos que realizei, através de suas indicações. Tais histórias malucas que vivemos juntos nesses trabalhos, estão relatadas nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos".

O Lizoel era uma figura muito legal no convívio, e certamente entre todos os membros, o que mais ligava-se em questões estratégicas de construção de carreira. Enquanto os demais "viajavam" sonhando com o sucesso, mas sem planificação objetiva alguma, ele enxergava na frente, sempre pensando na estratégia, aproveitamento de oportunidades, contatos etc.

Nessa época em que o conheci, décadas antes da Internet tornar-se aberta e popular, ele carregava na bolsa um caderno com centenas de nomes e números de telefones de músicos. Era um cadastro que organizara, e de onde vivia indicando instrumentistas e cantores para diversos trabalhos. Sempre procuravam-no perguntando-lhe : -"Lizoel, preciso de um guitarrista para tocar tal estilo de música"; -"preciso de um saxofonista para tocar Jazz"; "preciso de uma cantora de MPB"...
Ele parecia uma agência de empregos ambulante... e assim, ajudou muita gente a colocar-se no mercado e garantir o pão nosso de cada dia, ou no caso, de cada noite. Quando voltei à banda em 1983, sua veia natural para a logística e construção de carreira, estava ainda mais aguçada. Tivemos muitas conversas nesse sentido, e certamente que aprendi muito com ele. Depois que o Língua de Trapo deu uma parada, por volta de 1988, ele engatilhou um trabalho com o ex-Secos & Molhados, Gerson Conrad, na verdade, formaram uma banda : "Banda Nacional", mas que não teve longa carreira, infelizmente. Na volta do Língua de Trapo, no início dos anos noventa, ele já não fazia parte da nova formação, e estava de volta à sua cidade natal, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, onde por muitos anos foi radialista de sucesso. Inclusive, falei com ele em 2006, visando divulgar o CD de estreia do Pedra, recém lançado na ocasião. Com minha entrada na vida virtual em 2010, reativamos o contato através da extinta Rede Social Orkut, de onde soube que havia mudado-se para Brasília e trabalhava na ocasião como assessor de imprensa do Conselho Federal de Odontologia.

Infelizmente, tivemos uma péssima notícia sobre o Lizoel em 2014. Com muito pesar, anuncio que ele faleceu no dia 7 de maio desse ano, em sua cidade natal, Campo Grande / MS, aos 58 anos de idade, vítima de uma aneurisma cerebral. Fico com as lembranças boas do tempo em que trabalhamos juntos no Língua de Trapo, além de alguns trabalhos paralelos em que ele mesmo encaixou-me, dentro daquela prerrogativa citada anteriormente, exaltando sua capacidade de abrir portas para diversos músicos poderem trabalhar e ganhar dinheiro. Em 9 de maio de 2014, o programa "Rádio Matraca" realizou um programa especial em sua homenagem, que está disponível em arquivo permanente na Internet, através do Link abaixo, no site da emissora USP FM / 93.7 de São Paulo. 

http://www.radio.usp.br/programa.php?id=20

Abaixo, o Link da Folha de São Paulo, falando sobre o seu falecimento :

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2014/05/1451596-morre-aos-58-anos-o-musico-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo.shtml

Abaixo, o Link da Revista Rolling Stone noticiando também o falecimento do Lizoel :

http://rollingstone.uol.com.br/noticia/morre-lizoel-costa-da-banda-lingua-de-trapo/


Vá em paz, velho amigo e muito obrigado por tudo, "Bitcho" !! 


Pituco Freitas


Antonio "Pituco" Freitas, era um rapaz com potencial vocal espetacular quando conheci-o em 1979. Mas no início, mostrava-se sério, compenetrado. Assim foi apresentando-nos nos primeiros tempos difíceis da banda, até que um fato inusitado do destino mudou sua perspectiva artística. Graças ao nervosismo em enfrentar cinco mil pessoas num festival universitário de MPB, na cidade de Bauru / SP, em 1980, transformou-se completamente, e dali em diante, explodiu como um frontman de enorme desenvoltura cênica, praticamente um ator.

Como pessoa, um colega excepcional; amigo; prestativo e solidário. Por meio indireto, foi o responsável por eu ter conhecido o baterista José Luiz Dinola (por conta de seu irmão, o guitarrista Pitico Freitas), com o qual fundei e atuei com A Chave do Sol. 

Pituco vive no Japão há muitos anos, onde sedimentou uma carreira como cantor / violonista e compositor, voltando às suas raízes como um intérprete "sério", deixando o humor de lado, mas encantando os nipônicos com sua Bossa Nova muito bem tocada e cantada. 


Laert Sarrumor


Laert "Sarrumor", claro, sempre foi o centro irradiador, o grande dínamo de energia criativa da banda, e assim, tem sido até hoje, e sempre será. Agradeço-o por ter levado-me ao "Grupo de Poesia e Arte Faculdade Cásper Líbero", inserindo-me num novo núcleo, de onde eu supostamente não fazia parte inicialmente. De certa forma, graças a esse gesto de amizade, garantiu que a semente do Boca do Céu germinasse, dando início à uma nova cria, que só um ano mais tarde, tornar-se-ia assim o Língua de Trapo.

Como já disse, fomos encontrando-nos posteriormente nesses anos todos, após a minha saída do Língua de Trapo em 1984, em muitas circunstâncias. Divulgando trabalhos meus de outras bandas em que fui componente, no seu programa de Rádio (Rádio Matraca - USP FM); encontros fortuitos em lugares inusitados (encontros de rua, como até numa papelaria certa vez); bastidores de shows; e pelo fato dele ter afeiçoado-se ao Pedra e ter assistido muitos shows dessa banda da qual fui componente, de 2004 a 2011 e 2012 a 2015. Fui a festas de aniversário dele, e mantemos um ótimo contato permanente, pelas Redes Sociais da Internet. Quando encerrei o texto bruto da minha autobiografia referente ao Boca do Céu, no meu Blog 2, mandei-lhe imediatamente o Link para que ele lesse tudo. Vivo instigando-lhe a escrever a sua autobiografia também. Ele, que já escreveu livros de sucesso (foi best-seller absoluto por várias semanas, inclusive), e tem o traquejo, faria / fará um trabalho magnífico. Todavia, em conversa reservada, disse-me que ainda reluta em dar início. De minha parte, tem meu apoio total, e nas partes onde nossas respectivas trajetórias cruzam-se, eu adorarei ter o ponto de vista dele sobre o Boca do Céu e o Língua de Trapo, bandas onde atuamos juntos. E revelo um dado que considero pertinente, e sei que isso não o aborreceria : na época do Boca do Céu, ele mantinha o hábito de manter um diário. Portanto, munido dessas anotações, ele tem tudo para escrever tal história com muito maior riqueza de detalhes do que eu fiz, pois minhas anotações de apoio resumiram-se a datas de shows; locais e respectivo público presente, além de formação da banda e uma ou outra ocorrência especial.

Bem, é isso...

Falei de todos os músicos das duas passagens em que estive na banda, os membros honorários que muito contribuíram para o sucesso dela, e de todos os que estiveram mais diretamente ligados à sua produção. Agradeço a cada um pela oportunidade de ter feito parte dessa história. Último capítulo dessa importante etapa de minha trajetória musical. Encerrando, pelo desculpas pelas saídas que tive de efetuar, e pelas mágoas e transtornos decorrentes desses dois atos desagradáveis que cometi contra a instituição Língua de Trapo. Sinto orgulho de ter feito parte dessa história.

A banda está em atividade até os dias atuais (no ano de 2016, quando encerrei o texto bruto da autobiografia, o Língua estava prestes a participar da premiação do Grammy Latino, nomeado em várias categorias pelo seu último e ótimo álbum, lançado nesse ano, denominado "O Último CD da Terra"), espero que assim prossiga por muitos anos, arrancando as gargalhadas sinceras do público, e também fazendo-o pensar, pois o humor do Língua não é o popularesco, mas sim o de poder reflexivo. Quando o Língua de Trapo provoca risadas nas pessoas, elas riem de si mesmas, refletidas no espelho, vendo que a sociedade e o poder político e econômico, são meramente reflexos da nossa própria mentalidade. Riem, mas pensam a seguir. Meu muito obrigado a todos que estiveram comigo nessas duas etapas de minha carreira. 

Meu muito obrigado ao Laert "Sarrumor" Julio Pedro Jesus Falci, um artista genial que conheci num dia em 1976, e que graças ao seu talento e perseverança, deu-me a mão, e puxou-me de um sonho impossível para a realidade da música e da arte.

Vida longa ao Língua de Trapo !!

Daqui, a minha autobiografia na música segue com os capítulos dos Trabalhos Avulsos.

Língua de Trapo - Capítulo 22 - O Pós-Língua de Trapo, como Ex-Membro - Por Luiz Domingues


O pós-Língua de Trapo teve desdobramentos em minha vida, e o primeiro fato, ocorreu ainda em 1984. Minha primeira interação com a banda, na condição de ex-membro, ocorreu ainda nesse mesmo ano. Mais ou menos em outubro ou novembro, não recordo-me ao certo, fui assistir um show do Língua de Trapo, no teatro Sesc Pompeia. Foi estranho assistir com tão pouco tempo decorrente de minha saída. Era como se eu fosse ainda da banda, pois sabia de cor todas as músicas; as marcações; as trocas de roupas; piadas; vinhetas de áudio e vídeo...

Ou seja, se o Mário Campos tivesse uma indisposição qualquer, eu pegaria o baixo, e faria o show inteiro, sem problemas, pois não enferrujara, apesar de três ou quatro meses passados.


Laert Sarrumor; Ayrton Mugnaini Jr. & Alcione Sana, em foto dos anos noventa, representando o programa radiofônico, "Rádio Matraca", da USP FM de São Paulo. Na segunda ilustração, a capa do EP lançado pela Chave do Sol em 1985

Quando o EP da Chave do Sol saiu em 1985, fizemos uma entrevista no programa de rádio que o Laert liderava, "Rádio Matraca", na USP FM. Ainda em 1985, tive um contato ainda mais próximo, e foi sensacional nesse caso, pois pude amenizar, e muito, o meu sentimento de remorso por ter deixado a banda, quando  senti-me útil, numa circunstância especial para eles.

O Língua de Trapo estava classificado para participar do Festival de MPB que a Rede Globo lançou naquele ano, tentando resgatar o glamour dos festivais dos anos sessenta. Era de fato, muito grandioso para aquele momento, e apesar de estar muito aquém dos festivais sessentistas (verdadeiros clássicos icônicos e registrados na história da MPB), sob o ponto de vista artístico, fez bastante barulho em 1985. Estavam prestes a lançar um novo LP com inéditas, naquele ano e participar de tal festival, parecia ser o empurrão que faltava-lhes para enfim ingressar no mainstream da música. Então, recebo o telefonema do Laert, solicitando-me um favor.



Como era um evento de responsabilidade, e o baixista Mário Campos não tinha um baixo importado de qualidade naquela ocasião, o pedido era para que eu emprestasse o meu baixo para a primeira eliminatória que fariam no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, e eventualmente, se classificados, precisariam novamente do meu instrumento, na final, a ser realizada no Maracanãzinho, no Rio de Janeiro. Claro que aceitei na hora, por vários motivos. Primeiro pelo apreço à minha ex-banda, da qual tenho orgulho de ser membro fundador; pela qualidade do trabalho; pela amizade com todos os membros daquela formação; por simpatia pelo Mário Campos, um amigo muito gente boa, mas também por outro motivo, mais "egoísta", de minha parte : a oportunidade de amenizar o meu remorso por ter deixado a banda...

E assim, na 1ª eliminatória em que participaram, fui levar meu baixo para o Mário usá-lo, no Ginásio do Ibirapuera, onde assisti o soundcheck da banda, e observei os bastidores de uma produção global, e de peso pesado. A grandiosidade de tal produção, impressionava pela estrutura. O equipamento usado, era gigantesco, parecendo show de Rock internacional, e a parte de aparelhagem de TV, era o que havia de mais moderno na época, claro.
Circulando pelos corredores, os participantes não eram "ilustres desconhecidos", como seria de esperar-se de um festival para revelar novos artistas, mas pelo contrário, havia muitos medalhões, em claras intervenções de gravadoras, era óbvio.
Fiquei muito orgulhoso de ver minha ex-banda nesse evento, num "momentum" que parecia (e era), ainda mais bacana do que aquele que eu experimentara como membro, entre 1983 e 1984.
Dessa forma, senti-me mais que orgulhoso, mas feliz por vê-los nessa ascensão, e de certo, aliviado por meu remorso estar agora, muito diminuído, para não dizer erradicado.

Foi um furor a apresentação do Língua de Trapo, que assisti pela TV, apesar deles terem disponibilizado-me um convite. Com "Os Metaleiros Também Amam", satirizaram o Heavy-Metal, e toda aquela baboseira em torno do termo "metaleiro", uma invenção imbecil da parte de marqueteiros do Festival Rock in Rio, recém realizado, e massificado a exaustão pela Rede Globo.

Eu nunca gostei de Heavy-Metal, mas tinha muitos amigos nesse meio, e sei de um montão de gente que passou a odiar mortalmente o Língua de Trapo, por conta dessa sátira, tomando-a como uma afronta pessoal...
E durante o festival, não foram só os "metaleiros" que ficaram indignados. O público comum da Rede Globo, escandalizou-se com a indumentária quase indecente com a qual o Pituco Freitas apresentou-se.

O crítico Zuza Homem de Mello, chegou a exaltar-se durante a transmissão ao vivo, tecendo duras críticas ao Língua, e ao Pituco em específico. Bem, eu vibrei com a performance, a sátira e tudo mais. E até um certo orgulho por ver meu baixo em ação, eu senti...
Eles classificaram-se, e novamente emprestei-lhes o meu baixo, que viajou ao Rio, sem a minha presença...


Depois dessa ocasião, só tive encontros sazonais e individuais com membros da banda, até que em 1996, o Laert procurasse-me para fazer parte de uma banda, que faria um Tributo à Janis Joplin.
Essa história já foi contada no capítulo "Trabalhos Avulsos".

Mais encontros casuais nos anos seguintes, e em 2005, fui convidado para o show de lançamento de uma caixa comemorativa de 25 anos de existência da banda, com o próprio Laert ironizando tal efeméride por estar "errada", visto que em 2005, comemorava-se na verdade, 26 anos...
Nesse dia, ao chegar ao camarim, eu estava eufórico, porque acabara de entrevistar o mítico radialista Jaques, do programa "Kaleidoscópio", numa produção proporcionada pelo jornalista Bento Araújo, que publicou-a na edição n°11, da revista Poeira Zine (Thin Lizzy, na capa).


E, sabedor que o Laert também amava o Kaleidoscópio, uma paixão setentista comum a nós dois (Serginho Gama também era muito fã), cheguei com essa novidade, e os telefones do Jaques em mãos, para que o Laert convidasse-o a participar do seu programa radiofônico, "Rádio Matraca", coisa que de fato ele engatilhou para o início de 2006, e onde eu tive o prazer de participar, também.
Fora essa questão, o show do Língua foi hilariante como sempre, e vários ex-membros estavam presentes, quando ao final, todos foram chamados ao palco para participar de um coral de "Concheta", que foi filmado, mas que nunca achei no You Tube, e talvez esteja engavetado para um lançamento em DVD, no futuro.

       Pedra abrindo o Uriah Heep em 2006. Foto : Grace Lagôa

Foi nesse dia que o baixista Luiz Lucas, falou-me sobre um empresário que estaria a trazer "dinossauros" do Rock setentista internacional para um festival, e que poderia encaixar o Pedra, minha banda na ocasião, nesse evento. De fato, um ano depois, o Pedra estaria abrindo o show do Uriah Heep.


No dia em que o Jaques "Kaleidoscópio" foi ao programa Rádio Matraca, em 2006 : Da esquerda para a direita, Alcione Sana (minha ex-aluna de baixo... mundo pequeno...); o diretor da USP FM (Marcelo Bittencourt); Jaques e Laert. Ao fundo, Zé Brasil, líder do Apokalipysis, histórica banda de Rock setentista. Eu não estou no enquadramento dessa foto, mas estava ao fundo, perto do Zé Brasil, e do jornalista Bento Araújo. Foto : Grace Lagôa
Nessa segunda foto, enfim no enquadramento, com tantos amigos juntos ao grande Jaques "Kaleidoscópio", uma das maiores influências setentistas que tenho na contracultura em geral. Em pé, da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Zé Brasil (Apokalypsis); Bento Araújo (editor da Revista Poeira Zine); e Marcio Gali Ortiz (sonoplasta da USP FM). Sentados : Alcione Sana; Marcelo Bittencourt (diretor da USP FM); Jaques Sobretudo Gersgorin (Kaleidoscópio), e Laert Sarrumor. Foto : Grace Lagôa


Depois disso, teve essa entrevista do Jacques no Rádio Matraca, e outra em que participei com o Bento Araújo, falando sobre os shows do Alice Cooper, em 1974, no Brasil. 

Laert Sarrumor & "Os Três do Pedra", em abril de 2011 no Melograno Bar de São Paulo

E finalmente, em 2011, o Pedra acabaria fazendo seu último e melancólico show (a banda voltaria à ativa, um ano depois), num projeto encabeçado pelo próprio Laert, no Melograno Bar, em São Paulo. De fato, ele era (é), um fã do trabalho do Pedra, e ficou chateado por saber do fim da banda, lamentando isso em off para nós, mas também publicamente pelas redes sociais da Internet, principalmente no Facebook.

Mas, quando o Pedra voltou às atividades, em 2012, ele vibrou, e  programou-nos para mais um show no mesmo espaço, coisa que fizemos com muito prazer. Basicamente foram esses os meus momentos pós-Língua, depois de deixar a banda no ano de 1984...

Pedra & Laert Sarrumor no Melograno Bar de São Paulo, em dezembro de 2012

Continua...