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sábado, 1 de agosto de 2015

Sala de Aulas - Capítulo 9 - Adeus, Mundo Didático... - Por Luiz Domingues


Quando 1999 iniciou-se, eu ainda tinha três ou quatro alunos, mas já estava bastante propenso a não prosseguir mais. Essa dinâmica de não renovação, vinha desde o segundo semestre de 1996, e estava mais do que claro que era irreversível, mesmo que eu quisesse e lutasse por isso, com vigor. Mas apesar de todo o meu entusiasmo pelo desenvolvimento positivo do Sidharta, a seguir, era ainda muito nebuloso na prática, tal futuro promissor para a banda.
                     Ensaio da Patrulha do Espaço, em 1999

Foi só em meados de março, que o Sidharta deu uma reviravolta total e metamorfoseou-se na Patrulha do Espaço, revivida. A partir de abril, quando a Patrulha do Espaço estava oficialmente trabalhando e gerando expectativas de entrar rapidamente na estrada, para valer, que anunciei aos poucos alunos que ainda tinha, a minha decisão de encerrar e minha atividade como professor.
Minha última aula, ocorreu em abril de 1999, e meu último aluno a deixar a sala de aulas, foi José Eduardo Niglio, também conhecido como "Zé Louco" pelos outros alunos, e que mantém laços de amizade comigo e principalmente com o pessoal do Tomada até hoje, tendo até participado de vídeo clips e trabalhado como Web Designer dessa banda de meu ex-aluno, Marcelo Bueno.

Não senti o baque emocional por ter encerrado tal fase de minha vida, porque estava mergulhando novamente na música como sempre quis fazer, ou seja, com exclusividade total. Claro que nesses doze anos em que ministrei aulas, a prioridade sempre foi a mesma, porém nesse período, de 1987 a 1999, a carreira artística deixou também espaço para a atividade didática, e mesmo tendo entrado nessa atividade pela necessidade, e não por vocação ou prazer, foi muito importante para a minha trajetória musical em vários aspectos. Encerrando este capítulo e partindo para considerações finais, registro que tive um aluno extra, em caráter gratuito, muitos anos depois, por volta de 2003, quando o filho caçula do Rolando Castello Junior, James Castello, manifestou vontade de aprender a tocar baixo. Mas foram poucas aulas, pois a Patrulha vivia na estrada, e o próprio James viajou conosco muitas vezes, trabalhando como roadie da banda. Então foi isso, encerrando essa trajetória da minha vida na música, tecerei as considerações finais...


Nunca pensei em ser professor, embora tenha uma admiração total por essa profissão, que considero nobre, fundamental e extremamente injustiçada, muitas vezes. A primeira vez que deparei-me com tal atividade, foi na verdade um pedido de um amigo que gravitava na órbita da Chave do Sol, minha banda nos anos oitenta, da parte de um rapaz chamado Iran Bressan, guitarrista que tocava numa banda iniciante chamada "Archibald's Band", que posteriormente mudou seu nome para "Fênix". Iran queria na verdade algumas dicas sobre teoria musical, e nada sobre instrumento, pois na prática, já tocava com desenvoltura, nessa época, 1983. Foram poucas aulas, em caráter gratuito e ministradas na residência do guitarrista da Chave do Sol, Rubens Gióia, em nossa sala de ensaios.
Somente em meados de 1987, quando a banda passava por fase difícil em vários aspectos, e eu precisando de reforço financeiro, que acatei a sugestão do baterista Zé Luiz Dinola, para abraçar tal atividade em paralelo, com objetivo concreto, passando a dividir o meu tempo com as atividades musicais normais da minha carreira.
Tal dinâmica portanto, com carreira artística dividindo-se com horário para lecionar, seria minha rotina daí, julho de 1987, até abril de 1999.

A primeira aula que ministrei oficialmente, foi em julho de 1987, portanto, e no escritório onde por anos, as atividades do fã-clube da Chave do Sol foram desenvolvidas. Tal estabelecimento pertencia ao pai do Zé Luiz Dinola. Meu primeiro aluno chamava-se Zé Roberto e não era adolescente, mas já adulto, e tinha um bom nível ao instrumento, portanto ficou pouco, saindo ainda no mesmo ano.
Não pude ficar muito tempo ali, portanto, pois tinha que dividir o espaço com o próprio Dinola, que também ministrava aulas de bateria. Mudei minhas aulas então para a residência do Beto Cruz, vocalista da Chave do Sol na ocasião, e que também abrigava os ensaios da banda, em 1987. Nessa fase, de agosto de 1987, até março de 1989, marcou uma ascensão com o aumento do número de alunos, e o esboço do que seria o método que eu mesmo inventei para trabalhar. Tal metodologia era simples ao extremo, com o uso e o abuso de exemplos oriundos do Rock anos 1960 / 1970, minha base afetiva natural. Mas nesse primeiro instante, a clientela ainda era formada por um grosso de adeptos do Heavy-Metal oitentista. Era um pouco sofrido no meu caso, pois muitos queriam que eu ensinasse-lhes coisas que eu mal conhecia, pois tal gênero (e seus muitos derivados), nunca foi de meu agrado.

Luiz Domingues tocando sax, lendo partitura de um songbook do "Yes"... concepção bizarra do amigo Carlos Muniz Ventura, em seu estúdio fotográfico. Foto de 1989 

Em março de 1989, quando mudei minhas aulas para a minha própria residência, finalmente aí, começou uma escalada vertiginosa em termos de quadro de alunos. Daí até 1996, teria os anos de pico, com média alta de alunos, atingindo um grau de praticidade muito grande. Estava amoldado à função, como jamais pensei que fosse estar algum dia.

De 1989 em diante, o perfil dos alunos foi mudando, "metaleiros" foram escasseando, e uma nova safra foi surgindo. Adeptos de novas sonoridades noventistas, foram surgindo, notadamente seguidores do Guns n' Roses, mas também entusiastas do Grunge de Seattle, seguidores indie rock "pós" pós-punk, e os primeiros sinais de apreciadores de som vintage.

No ano de 1990, mudei de endereço, mas sem prejuízo algum ao enorme fluxo de alunos que tinha.

Nova mudança residencial em setembro de 1991, e agora, tal nova morada (e sobretudo sua sala de aulas), transformar-se-ia no símbolo máximo da minha atividade como professor.

A velha sala da Rua Castro Alves, na Aclimação, marcou época, e de 1992 em diante, mitificou-se como o grande QG de uma turma que vibrou como nunca a "good vibe woodstockiana" que cala-me fundo

Uma turma notável, onde muitos tornaram-se amigos eternos; companheiros de ideais; e até sócios em empreendimentos artísticos, casos de Rodrigo Hid e Marcello Schevano.

Nem a súbita e inexplicável queda de movimento, a partir do segundo semestre de 1996, tirou esse brilho. E assim, encerrei minha atividade de professor em abril de 1999, ciente de que se nunca foi meu objetivo de vida ser um professor, enquanto "estive" professor, dei o meu melhor. Alguns aspectos que preciso enumerar :
 

1) Sobre o método - Baseei-me nos meus influenciadores naturais, para criar exercícios, e propor o desenvolvimento da percepção do aluno. Era 90% prático, em essência, com teoria básica e imprescindível para iniciar o entendimento, mas sobretudo, apostando na capacidade inventiva do próprio aluno. Com a prática didática, eu aprendi que o aluno precisava apenas confiar em sua própria capacidade instintiva. Quem embarcou sem medo nessa sutileza de minhas aulas, deu-se bem.

2) Abordagem - Principalmente no início, quando a maioria esmagadora dos que procuravam-me eram fãs da Chave do Sol, meu primeiro desafio era quebrar o gelo. A inibição para tocar na minha frente, mesmo que já tivesse uma boa noção do instrumento, era total, portanto, aprendi a quebrar qualquer barreira que pudesse existir entre nós, e ganhando a confiança do aluno, tudo ficava mais fácil para ambos.

3) Paciência e incentivo - No aspecto psicológico, minhas aulas baseavam-se nesses dois pilares. Quem foi meu aluno sabe que minha paciência em esperar o lento progresso de cada aluno ocorrer, vinha da minha compreensão nos limites de cada um, naquele instante. Por outro lado, abomino professores que usam de bullying para estimular alunos. Conheço professor que desdenha; debocha; provoca, no intuito de fazer com que o aluno sinta raiva e desse sentimento, busque estudar muito para "provar" ao professor que não é incapaz. Trata-se de uma metodologia, eu entendo, mas eu apostei na contramão disso. Relevando erros com naturalidade; respeitando as limitações, e incentivando com elogios, a cada pequeno progresso, mínimo que fosse, meu lado espiritualizado ficava muito mais confortável comigo mesmo, e o aluno seguro de si, acreditando nele mesmo.

4) Rebeldia e insubordinação - Tive poucos casos de aborrecimentos por conta de alunos mal educados que destrataram-me por algum motivo. Relatei-os em capítulos correspondentes à sua cronologia, portanto, é desnecessário repetir.

5) A zoeira como elemento didático - Falei isso e reforço : desde o início, percebi que um ambiente descontraído tinha dupla função. Primeiro por ficar mais leve para todos. Segundo, pela percepção do aluno. Se o aluno conseguia absorver o que ensinava-lhe, com outras pessoas falando e rindo em sua volta, era um benefício e tanto à sua capacidade de percepção musical. Isso foi uma experimentação empírica, e eu diria, um achado na minha metodologia.

6) O cansaço - Não nego, muitas aulas seguidas esgotavam-me completamente. Apesar de ser prazeroso o convívio, na maioria das vezes e como tanto destaquei, principalmente de 1992 em diante, cansava-me. Principalmente nas maratonas dos sábados, onde por anos, ministrei aulas das 8:00 h. da manhã, até as 20:00, sem interrupção para almoço e jantar. De 1989 até meados de 1993, tal dinâmica era muito extenuante, e muitas vezes agravou-se pelo fato de eu ter tocado na sexta a noite / madrugada, ou ter compromisso no sábado a noite.

7) O psicólogo -  Não foram poucas as vezes que alunos afeiçoando-se à minha pessoa, buscaram aconselhamento em questões pessoais, inclusive fora do horário de aulas. Muitas vezes tive que passar horas ao telefone, acalmando aluno que havia indisposto-se com a namorada; familiares; colegas de trabalho; escola, e bandas. Era desgastante, mas nunca deixei de ser amigo extra aula, sempre que pude. Hoje, não faria o mesmo, pois isso não é saudável para ninguém.

8) Polo de agitação cultural - Sempre, desde o começo, incentivei meus alunos com seus agitos musicais, mesmo que fossem ainda insípidos, com bandas muito iniciantes. Nos capítulos, contei muitas histórias nesse sentido.

9) Política; cidadania; cultura & cotidiano - Nunca deixei que minhas aulas ficassem centradas só na música. Puxando conversa, sempre fiz questão de diversificar os assuntos, para não deixar o ambiente mumificado numa área apenas. Nas épocas de eleições, discussões acaloradas aconteceram, mas nunca houve extrapolação. Sempre num nível bacana de ideias e respeito à divergência de visão de cada um

10) Ludopédio - O futebol teve sempre espaço nas minhas aulas. O assunto era amplamente discutido, sempre. Muitas vezes fui a estádios acompanhado de alunos, e os dois campeonatos de futebol que organizei na minha garagem, foi uma das loucuras mais legais que ficarão para sempre na minha lembrança.

11) A Chave do Sol - Quando comecei a ministrar aulas, infelizmente, a minha banda passava por momento de turbulência. O grande contingente de alunos que procuravam-me com desejo de aprender comigo, eram fãs dessa banda, mas ela estava na verdade, acabando. Uma grande pena, portanto, mas nada puderam fazer para evitar isso.

12) A Chave / The Key - A dissidência da Chave do Sol que montou essa banda que teve dois nomes, teve participação mais ativa, portanto, na história de minhas aulas. Costumavam frequentar shows, e houve participação efetiva, caso de César Cardoso, aluno de 1988, que foi roadie da banda.

13) Fase híbrida - Entre 1990 e 1991, fiquei sem banda, mas tive muitas participações em projetos que não vingaram, ou que foram efêmeros. Mas muitos alunos acompanharam tais ações, caso de José Reis, que ofereceu-se para ser meu roadie em apresentações de uma banda tributo ao Black Sabbath ("Electric Funeral"), e outros trabalhos dessa natureza.

14) Pitbulls on Crack - Essa foi, sem dúvida alguma, a banda onde atuei que mais meus alunos interagiram, ajudando imensamente. Ao longo dos capítulos, contei com muitos detalhes o quanto eles ajudaram-me direta ou indiretamente a fomentar tal trabalho, e mais uma vez cito o José Reis, como exemplo de dedicação, tendo sido roadie da banda, por anos, além de Luiz Gustavo; Toni Peres Rodrigues e Ricardo Schevano, também, ainda que em tempo menor de permanência, cada um.

15) Sidharta - Sem dúvida que tal banda foi o coroamento de todo um esforço que fizemos para resgatar valores perdidos no Rock e tinha tudo a ver com os ideais que foram reverenciados na minha sala de aulas.

16) Patrulha do Espaço - Praticamente o início da banda coincidiu com o término de minhas atividades como professor, mas o grosso do meu exército Neo-Hippie, acompanhou a banda, com força total, nos anos seguintes. E nos primeiros tempos da banda, em 1999 e 2000, ajudando efetivamente na produção, em vários aspectos.

17) Pais ou Responsáveis - Nunca tive problemas com pais ou responsáveis, que recorde-me. Pequenas indisposições completamente irrelevantes para a autobiografia, nem mereceram destaque. Pelo contrário, tive bom relacionamento com a maioria esmagadora. E até casos surpreendentes, como um pai que abordou-me certa vez, só para dizer-me que seu filho era problemático, e que estava admirado como as aulas haviam-no acalmado, e que o adolescente admirava e respeitava-me. Caramba, não era um psicólogo, mas se indiretamente consegui tal feito, que maravilha para o garoto e sua família !

18) Vizinhança - Sempre tomei cuidado para não incomodar a vizinhança. Primeiro que tenho essa postura na vida, normalmente : não incomodar para não ser incomodado. Mas também, para nunca colocar em risco o meu local de trabalho, pois ter que mudar-se por alguma indisposição, seria um transtorno.

Tenho muito orgulho de todos os que passaram pela minha sala de aulas e seguiram na música, construindo, carreiras, realizando obras...
Também enaltece-me os que citam essa fase de suas vidas com saudade. É recíproco.


Caricaturas de alunos e agregados, feitas pelo aluno, Alexandre "Leco" Peres Rodrigues, em 1995

Infelizmente, e já falei isso várias vezes ao longo deste capítulo, perdi meu caderno de notas, onde tinha anotado todos os nomes de alunos. Adoraria encerrar este capítulo citando nominalmente a todos, sem exceção. Não vai ser possível, pois minha memória é geralmente boa, mas não é prodigiosa nesse nível. 

Com meu ex-aluno Wildmarc Matherson, num show do Pedra em Santo André / SP, no ano de 2009. Foto de seu acervo pessoal

Farei um esforço hercúleo para nominar todos os que lembrar-me neste instante, nem que seja pelo nome incompleto ou uso de algum apelido. Como no Blog posso editar a qualquer momento, fica a ressalva de que poderei corrigir e acrescentar sempre que minha memória refrescar-se espontaneamente, ou pela abordagem de ex-alunos nas redes sociais da internet. Isso vale também para a inclusão de materiais e fotos. Sobre fotos, aliás, tenho poucas, infelizmente. Gostaria muito de ilustrar com a foto de todos, e na época de suas respectivas etapas em meu quadro de alunos. Surgindo novas nesse sentido, posto no Blog, imediatamente.

Alunos :

Zé Roberto ; Roberto Garcia Morrone; Jameson Trezena; Cristina; Marcelo "Carioca" Dias; Roberto Oliveira; César Cardoso; Cesar Talarico; Glauco Teixeira; Daniel Faria;Wagner; Dney Di Courel; Marco Antonio Rossi; Marcos Pessoto Lira; Fernando Vaz; Carlota Brito; Brito (irmão de Carlota Brito); José Reis Gonçalves de Oliveira; Daniela, Marcelo (Embu das Artes), Milton Feitas; Nando Machado; Sanches; Nelson Binatti; Peloso; Junior Peloso; Gisele; Tomás Grimas; José Carlos Ferreira; Hermeson Milani; Magá; Lincoln; Simone Zerbinato; Anderson de França; Flavio Sozigam, Alcione Sana; Christian Du Voisin; Monica Maia; Luiz Gustavo; Carlos Keller Rodrigues (Cali); Marcos Martines; Rodrigo Garcia; Alexandre "Leco" Peres Rodrigues; Thiago Fratuce; Marcelo Bueno; Sergio Frugis; Artoni; Ricardo Schevano; Jamé; Jamézinho; Mendes;  Edvaldo "Prik"; Wildmarc Matheson; Ronaldo Alexandre Barbuy; Ediane dos Santos Oliveira; Edilberto (Edil) Postól, Luiz Nannini; Marina Yoshie; Paola Pelosini; Carolina; Emmanuel Barretto; Anelise Barretto; James Castello; Titão; Fernando Moracci; Paulo de Tharso; Branchini; Flavio; Nishimoto; Roberto Takahashi; Flavio Amaya; Puppo; Eduardo Niglio; Marcos Mesquita; Marcello Garbine, e muitos outros cujos nomes não recordo-me.

Meu muito obrigado a todos eles, e estendido aos que não mencionei por puro esquecimento. Foram mais de 200 no cômputo geral, mas só citei 75, acima. Peço perdão aos demais pela omissão de seus nomes. Agradeço sobretudo pela oportunidade de ter tido um aprendizado enorme, através desse contato humano, direto. Meus alunos ensinaram-me muito mais do que eu pude ensinar-lhes, com meus parcos recursos didáticos. Deixo registrada aqui, a frase lapidar de minha sala de aulas : "Dúvidas, perguntas" ?, que eu sempre proferia ao final de cada aula, indagando a todo aluno, diretamente.

Está encerrado este capítulo da minha trajetória na música. Daqui em diante, o leitor segue lendo a história dramática da banda dissidente da velha A Chave do Sol, que tive que formar as pressas, e a contragosto  : A Chave / The Key...

Muito obrigado por ler, amigo leitor !


Sala de Aulas - Capítulo 8 - Movimento de cartas : A Derradeira Bolha Efervescente - Por Luiz Domingues

Iniciou-se o ano de 1997, com a mesma dinâmica de sempre, ou seja, janeiro sempre tendia a ser um mês de baixa frequência devido as férias escolares, mas desta feita, a normalidade não restabeleceu-se, e definitivamente, estava seguindo a estranha tendência iniciada no início do segundo semestre de 1996, quando da queda brusca do meu quadro de alunos.

E também havia uma novidade, nesse início de 1997, por um aspecto externo : desde 1992, minhas aulas interagiram fortemente com a minha banda, o Pitbulls on Crack. Contudo, neste começo de 1997, a banda iniciou uma curva descendente acentuada, e isso parece ter amalgamado-se à decadência de minhas aulas em termos de frequência. Tomei a providência de reforçar o meu quadro, visto que acomodara-me na situação (confesso), e durante quatro anos, o movimento muito bom de entrada de alunos, destituiu-me da necessidade de continuar empreendendo esforços de divulgação de minhas aulas. Simplesmente parei de providenciar colagem de cartazes anunciando-as, mas agora, era necessário tentar uma renovação visando a retomada da boa média perdida.

Para tanto, pedi à um amigo, cujo nome não revelarei (pois não acho que valha a pena expo-lo, apesar da baixaria que aprontou-me), que providenciasse tal colagem e claro, dei-lhe um suporte financeiro para tal. Mas infelizmente o tempo passou e percebendo que o telefone não tocava, descobri por outras pessoas que meus cartazes não estavam colados nas lojas da "Galeria do Rock", meu principal alvo de propaganda. Para piorar, um amigo contou-me que flagrara o elemento jogando os cartazes numa lata de lixo e rindo, ironizava-me, dizendo que eu era um "trouxa"... e nesse caso retruco, mesmo sabendo tratar-se de uma referência antiga, dos anos quarenta do século passado, mas não resisto... "amigo da onça"...


Bem, a despeito desse revés com requinte de traição, providenciei uma nova tiragem de cartazes e desta feita contratando uma pessoa idônea para a tarefa de distribuição nas lojas. Mesmo com esse prejuízo em relação aos cartazes não terem ido de fato para os murais das lojas, o retorno foi muito aquém de épocas passadas e daí, conscientizei-me de que era realmente uma época diferente e meus dias como professor estavam comprometidos, a não ser que eu buscasse uma adequação aos novos tempos, concorrendo com as mega escolas de música que existiam já em São Paulo, e com estrutura muito superior à minha simplória salinha de aulas, e fora o crescimento da internet que começava a popularizar-se naquela época, e as oportunidades de informação sobre técnicas; métodos e teoria musical on line, que começavam a sedimentar-se. Foi quando comecei a pensar mais seriamente sobre tal assunto, enfim, admitindo que novos tempos sinalizavam-me mudanças como professor.



Seguindo a tendência que estava insinuando-se desde a segunda metade de 1996, realmente nem com uma nova propagação de cartazetes pelas lojas da Galeria do Rock, foi possível voltar a ter o quadro de alunos no patamar anterior, que mantive por mais de seis anos. Na verdade, essa melhor média tinha uma durabilidade ainda maior, pois vinha desde meados de 1989, quando passei a ministrar minhas aulas em minha casa, deixando a residência do vocalista Beto Cruz, onde minha ex-banda, A Chave do Sol (depois mudando de nome para "A Chave", e posteriormente,"The Key"), ensaiou em seus tempos finais.

O fato de minha residência ficar a um quarteirão de uma estação do Metrô impulsionou essa multiplicação de alunos e dali em diante, mantive essa média por anos, até o inexplicável colapso de 1996, como tenho realçado ao longo desta narrativa. A colocação de novos cartazes em 1997, foi portanto a maneira mais prática que tive de auferir que eram tempos diferentes, e a maneira tradicional de anunciar as minhas aulas, já não era suficiente para retomar a rotina.

Claro, como já disse anteriormente, essa visão é obviamente lógica nos dias atuais, ao analisar com a devida distância histórica, mas na época, eu não tinha essa certeza toda. Estava percebendo os indícios, mas não era uma convicção. E nessa toada, o primeiro semestre de 1997 foi passando...
Para amenizar esses dois fatores de baixa, referindo-me à decadência da minha banda na época, o Pitbulls on Crack, e também a diminuição de meu quadro de alunos, havia a ainda a euforia de meu "exército de Neo Hippies" e de fato, foi o que manteve a minha sala de aulas com vida, eu diria, no decorrer desse ano de 1997, e no ano de 1998, quando um fato novo deu um impulso, não para as aulas, mas como uma espécie de manifesto estético / artístico e que no momento oportuno, vou explicitar, certamente.

 

O segundo semestre de 1997 chegou, portanto, com uma pequena reação no meu quadro de alunos, dando-me a falsa impressão de que as coisas voltariam à normalidade de outrora, mas olhando hoje em dia, está claro que tal movimentação não caracterizou isso, infelizmente. E por não ter essa percepção clara na época, animei-me, logicamente, quando logo em agosto, no pós-férias escolares, notei a presença de três ou quatro novos alunos. Mas com o passar do tempo, ficou claro ter sido uma movimentação meramente efêmera.

Um fato curioso ocorreu logo nos primeiros dias de agosto, que reputo ser digno de nota. Estava dando aulas normalmente num dia útil qualquer quando a campainha tocou. O entra e sai da minha casa era constante, e dentro da normalidade, pois não limitava-se à chegada e saída de alunos, mas com a presença de muitos agregados no sentido que minha sala de aulas era aglutinadora de amigos, e um "ponto", há anos. Mas desta vez, não era nada disso. Quando abri a porta de minha residência, deparei-me com um casal de adolescentes, sendo o rapaz, bem mais novo que a moça. A garota, que aparentava ter 16 anos de idade, mais ou menos, perguntou-me se ali era o ensaio de uma banda, e em confirmando-se, se poderiam entrar para assistir. Eram irmãos e haviam recém mudado-se para um sobrado no mesmo quarteirão da minha rua, alguns metros acima, na numeração, mas abaixo no sentido que minha rua ficava numa ladeira íngreme.


Alegando gostarem de Rock e pelo fato do rapaz, que aparentava ter 12 anos de idade, tocar violão e estar muito interessado em desenvolver-se na guitarra, viram o movimento de cabeludos com instrumentos na minha porta, além do som das aulas, e estavam interessados em conhecer-me. Bem, minhas aulas não eram sisudas, e pelo contrário, deixei claro nesta narrativa o quanto havia um clima festivo em que as aulas transcorriam, normalmente, portanto, não vi problemas em que entrassem e não só assistissem, mas interagissem, doravante. Logo tornei-me amigo de ambos e também do pai deles, o "seu" Osvaldo, que era um entusiasta em ver o seu filho desenvolver-se na música. Eles tornaram-se "habitues" da minha sala de aulas e muitas vezes trouxeram também seus irmãos menores, trigêmeos (dois garotos e uma garota), que eram crianças e deviam ter 7 ou 8 anos de idade na época, mas não pareciam interessar-se mais vividamente por música, pelo menos naquela época.

Marcello Schevano em foto de 1999, portanto, um pouco além desta parte da narrativa, em que cito fatos de agosto de 1997

Esse rapaz, prestava atenção nas aulas e notando o seu entusiasmo, pedi ao Marcello Schevano, que na época ainda não tocava comigo, mas numa questão de meses estaria envolvido no projeto Sidharta, para dar uns toques de guitarra para o rapaz. Em princípio, o Marcello assustou-se com a ideia de dar aulas, mas não seria exatamente uma aula formal, mas umas dicas, dando uma força para o rapaz que não dispunha de recursos para estudar numa escola de música, ou ter aulas particulares naquele momento, mas tinha vontade e talento, pelo que pude observar. O pai dele agradeceu-me efusivamente e eu fiquei contente por dar uma pequena ajuda ao rapaz. E serviu também para o Marcello, como experiência legal, apesar dele nunca ter interessado-se pelo nicho didático, doravante. Esse rapaz acabou progredindo muito. Mesmo depois que eu encerrei minhas atividades como professor, acompanhei sua trajetória, com bastante alegria. 


Já adolescente, o Victor, seu nome, havia passado no exame de admissão da Escola Municipal de Música, e estava estudando viola, instrumento parecido e geralmente confundido com o violino, mas de outro alcance cromático. Para explicar rapidamente aos leigos, diria ser um violino menos agudo, fazendo parte dos instrumentos de corda de uma orquestra erudita tradicional. Ao lado do violino; cello, e contrabaixo. O Victor foi crescendo no aprendizado do instrumento, e logo estava tocando na Orquestra Sinfônica Juvenil, ganhando bolsas para aperfeiçoar-se com cursos no exterior, viajando, e tornando-se um grande músico no mundo da música erudita. Nada mau para aquele menino imberbe, tímido, e que se não fosse pela ousadia de sua irmã, Samantha, talvez não tivesse tido a coragem de tocar a campainha da minha casa, e começar a interagir com jovens bem mais maduros que ele, o que deu-lhe impulso para mergulhar nos estudos de música. Agora, o talento e o ouvido bom que tinha em 1997, quando o conheci, ele já tinha.
Perdi o contato com ele e a sua família, desde que mudei-me daquele bairro, em 2007. Só lembro-me que a Samantha já tinha um filho, e uma das irmãs menores, gêmea de outros dois garotos, tinha tornado-se jogadora de vôlei de um clube renomado desse circuito (Pinheiros ou Paulistano, não lembro-me com exatidão).

Era muito bonita e estava altíssima, com porte de jogadora, mas certamente também preparada para ser modelo, graças ao porte e beleza. Mais uma bela história protagonizada pelo convívio de minha sala de aulas. Torço para que o Victor tenha uma longa e vitoriosa carreira na música erudita.



De fato, a pequena melhora no quadro de alunos, mostrou-se efêmera, logo que agosto findou-se, e a época mais forte de novas adesões, marca registrada dos anos interiores, passou com nada muito significativo ocorrendo, enfim. Em setembro e outubro, meu quadro estava reduzido, mas eram fieis ao extremo naquela união construída desde 1992, e puderam testemunhar o final de uma "Era" na minha história em particular. Eu estava de saída do Pitbulls on Crack, banda em que atravessara os anos noventa, e meus alunos acompanharam-na do início ao final. O apoio que deram desde os primeiros tempos, chegando ao ponto de serem muito ativos, como em 1994, bombardeando a 89 FM de telefonemas, foi algo fantástico para minha satisfação pessoal.

O Pitbulls on Crack era quase antagônico aos ideais de resgate 1960 / 1970 que uniu-me a essa garotada, mas a própria banda foi amoldando-se à tal anseio, muito em função da influência que imprimi, é lógico, contudo havia uma força muito grande de meus alunos nesse processo, conforme está claro neste relato. A formação do meu "exército Neo-Hippie", teve fator preponderante para o  Pitbulls on Crack adotar o rumo que tomou, principalmente na época do lançamento daquele aparato da lata psicodélica etc etc. A euforia de meus alunos, adolescentes e sempre dispostos a ajudar, ainda que tudo fosse farra para eles, norteou esses anos todos em que convivi com eles na minha sala de aulas, e eles com minha banda.

Mas agora essa Era estava para findar-se. E claro que eu angariava o apoio maciço deles em meu novo projeto, que já elucubrava na cabeça. E na minha avaliação, era óbvio que o apoiariam, pois ao contrário do Pitbulls on Crack que não encaixava-se confortavelmente na proposta, desta feita haveriam de abraçar a nova banda que eu pretendia formar, por ser 100% amparada nos ideais. Tinha tudo para ter os meus alunos apoiando a minha nova banda e confesso, estava muito esperançoso por essa adesão.

Logo que anunciei minha saída do Pitbulls on Crack, no bojo desse anúncio já tinha a novidade sobre o projeto para relatar-lhes. Não houve um hiato onde estivesse momentaneamente sem perspectivas para prosseguir a minha carreira musical, mas muito pelo contrário, desta vez eu tinha o comunicado simultâneo de uma nova empreitada, e automaticamente, era implícito que contava com a força tarefa formada por eles.

E como já disse anteriormente, se apoiaram o Pitbulls on Crack, desde 1992, não seria diferente com o novo projeto. Pelo contrário, a minha expectativa de adesão era ainda maior, pelo fato do projeto ir de encontro à estética que fomentáramos por anos ali naquela sala de aulas da Aclimação. E assim findou-se o ano de 1997, com uma enorme expectativa gerada pelo fato da nova banda estar dando seus primeiros passos. Mas só mostraríamos as primeiras músicas compostas para o projeto, no início de 1998, portanto, a expectativa de meus alunos e agregados, era enorme nesses meses, ansiando por ouvir o material etc etc. No tocante às aulas em si, o movimento no final de 1997 continuava inalterado, mostrando que realmente estava difícil recuperar o fôlego perdido em 1996. Hoje, sei que isso de fato, nunca aconteceu. Mas, mesmo vendo que essa perspectiva estava delineando-se irreversível, eu ainda tinha esperança de melhora na época, e encerrei 1997 com o desejo de que em 1998, pudesse ter crescimento no quadro de alunos, e êxito na nova banda que estava formando. E assim foi o ano de 1997, encerrando a fase Pitbulls on Crack, que teve tanta proximidade com meus alunos e minhas aulas. Um novo destino esperava-me, e para os garotos da minha sala de aulas, também. Fase 4, das minhas aulas... embarcando na viagem retrô, direto para a psicodelia sessentista !

Quando o ano de 1998 entrou, se por um lado a euforia pela minha nova empreitada musical era total, não só pela novidade, mas principalmente pelo mergulho radical na atmosfera retrô, pensando exclusivamente no aspecto das aulas em si, não havia mesmo perspectiva de melhora no contingente, confirmando-se a expectativa de que a tendência seria a de piorar as coisas, ao invés de melhorar, como eu esperava desde a metade de 1996. Paciência... era um ciclo que caminhava para o seu final, mas era preocupante, no sentido de que naquele momento, o Sidharta era só um projeto de médio e longo prazo, e por seu caráter radical em torno de um ideal e estética, anticomercial ao extremo.

Portanto, esse início de 1998 era de euforia para a minha percepção, por conta do projeto, mas também preocupante pela queda brusca, e em progressão, da minha renda pessoal. Praticamente mantive a turma do final de 1997, com algumas baixas como salientei acima, e algumas poucas novas adesões, casos da volta de dois alunos antigos (Mônica Maia Netto, e Christian Du Voisin), e dois novos Puppo  e Flavio Amaya. Mônica havia ligado-me e eu achava inicialmente que queria algum apoio referente à sua banda, mas surpreendi-me quando afirmou que queria voltar a ter aulas. Ela era da safra de 1992, e saíra por volta de 1996, ou seja, numa condição bastante avantajada em relação a quando chegara, praticamente estaca zero. 

A novidade era que não era mais casada com o Dr. Nelson Maia Netto, mas mantinha simpática amizade com o ex-marido, tanto que na primeira aula de sua volta, fez questão de telefonar para ele, e passar-me o fone para eu repercutir a sua volta, diretamente ao seu ex-marido. E doravante, voltara a usar seu nome de solteira : Monica Schwaezwald. No caso do Christian Du Voisin, que fora um aluno de 1991, também fiquei surpreendido, pois a despeito da nossa boa sincronia em assuntos gerais, especificamente na parte musical, tínhamos nossas divergências. Ele tinha uma orientação "modernosa" e meu método, baseado na música das décadas de 1960 e 1970, parecia não agradar-lhe exatamente.

Ele nunca expressou isso verbalmente, mas era quase nítida essa discordância. Contudo, pela amizade, e deixando claro que não havia muito mais o que eu poderia acrescentar-lhe numa nova fase de aulas, ainda assim ele insistiu que gostaria de retomar seus estudos comigo. Antecipando um ocorrido de alguns meses depois, ele de fato anunciou vontade de interromper o curso novamente, e cerca de dois anos depois, por volta de 2000, ligou-me para dizer-me que "precisava dizer-me uma coisa", que havia guardado para si durante muito tempo : -"eu nunca gostei das suas aulas. Achava-as fracas, e queria mesmo era encontrar um professor que ensinasse-me Jazz"...
A franqueza com a qual falou, não foi fácil para ele, pois antes de disparar tal revelação, pediu-me desculpas antecipadas e teve o cuidado de explicar-me que guardara aquilo por muito tempo, mas precisava desabafar. Indo além, fazia a ressalva de que não era nada pessoal e que pelo contrário, gostava da minha pessoa, etc etc.

Claramente devia estar passando por algum tipo de terapia psicanalítica e incentivado por seu terapeuta, devia estar buscando as suas catarses pessoais, o que particularmente, achei bastante saudável, como prática que todo mundo deveria exercitar (acreditem, "engolir sapos",  faz muito mal para a saúde !!). Certamente que aceitei ouvir suas ponderações e admirei a franqueza e a coragem de tomar tal atitude, depois de duas passagens pelas minhas aulas, demonstrando uma grandeza de caráter extraordinária. Quanto a revelação em si, não surpreendeu-me em nada. Mas, de maneira alguma esbocei desculpar-me por nada, pois não era o caso. De minha parte, fiz o melhor nas duas passagens pelas quais ele teve em minha aulas, e se não apreciou, era problema dele. Se percebia que ele não gostava, ao mesmo tempo, sabia que estava evoluindo, portanto, desabono-me de qualquer ônus nesse caso, e tanto que, corroborando com essa tese, quando procurou-me para combinar uma volta, eu ponderei se ele tinha certeza do que desejava, pois realmente não achava que poderia acrescentar mais alguma coisa, mas ele insistiu e convenhamos, já era bem mais maduro quando voltou, inclusive não sendo mais adolescente.

Flavio Amaya com o baixo na mão, estudando, e Puppo, sentado ao lado. Garotos bons, que não vibravam com a onda retrô da maioria, mas eram muito bacanas como pessoas, e inteligentes ao extremo.

Já o Puppo, cujo primeiro nome esqueci-me completamente, mas desconfio ser Marcelo, era um rapaz muito esforçado e gente boa.
Logo descobri que era fanático por seriados americanos, coisa que sempre acompanhei com entusiasmo, também, e nas nossas aulas, conversamos muito sobre o assunto, de forma prazerosa. Outra particularidade sobre esse aluno, era que apesar de apreciar a minha aula, e sua metodologia toda calcada em anos 1960 / 1970, o som que ele gostava mesmo era o Thrash-Metal, "Sepultura" sobretudo.
Fanático pela banda dos irmãos Cavalera, deu-me informações interessantes sobre esse universo tão oposto ao meu, e muitas vezes conversando sobre o Pitbulls on Crack, que ele conhecia, falou-me coisas significativas sobre os anos 1990, e como funcionava a cabeça da garotada que seguia esse mundo peso-pesado.

Chegou a dizer-me que muita gente desse mundo, achava o Pitbulls on Crack, "bunda-mole". Rimos muito disso, mas fazia sentido tais pessoas terem tal conceito sobre essa banda onde atuei na maior parte dos anos noventa, embora, convenhamos, tal revelação não mudava nada para a minha vida pessoalmente, pois tratava-se de um público radical.

E o japonês Flavio Amaya, era uma figuraça. Apesar de ser do interior de São Paulo, era torcedor fervoroso do Vasco da Gama, e em sua explicação prosaica sobre tal estranha escolha de um clube não paulista para torcer, dizia que seu pai estudara medicina no Rio de Janeiro, e por conta disso, ele tornara-se torcedor do Botafogo e assim, para contrariá-lo, tornara-se vascaíno. Bem ele era bastante fanático, inclusive fazendo parte de uma torcida organizada, e costumava viajar ao Rio para assistir jogos, embora morasse em São Paulo, e fosse do interior (Presidente Prudente). Assim foi o começo de 1998...


Só por volta de fevereiro de 1998, é que os primeiros resultados audíveis do projeto Sidharta puderam ser ouvidos pelos meus alunos, que esperavam por isso desde que anunciei o início dos trabalhos, ainda em 1997. Lembro-me bem quando convidei vários deles, numa quinta, que era ainda o dia mais repleto de alunos, apesar da debandada geral, para uma pausa, visando uma breve audição de uma fita K7, oriunda de um ensaio da banda. Era uma gravação tosca sob todos os pontos de vista, mas um verdadeiro tesouro para eles, e para eu também, por toda a expectativa que envolvia esse projeto.

Além da precariedade de uma gravação feita num gravador portátil sem apuro técnico algum, gravando a massa bruta de um ensaio equalizado sem nenhum critério, e levando-se em conta o fato de que eram os primeiros passos ainda da banda, com poucas músicas compostas e ainda sob fase de arranjos, claro que todos vibraram com a perspectiva de ouvir tal material. Dessa forma, aglomeramo-nos dentro e no entorno de meu próprio carro que estava estacionado na garagem de minha casa, e que ficava acoplada a sala de aulas no patamar térreo da residência e ansiosamente, aguardaram eu dar o "play" no toca-fitas do automóvel...

Mas, aconteceu um fenômeno interessante e inesperado. Eu não diria que não gostaram, mas houve uma certa decepção com a percepção que tiveram das três primeiras músicas com as quais o Sidharta estava trabalhando nos seus primeiros ensaios. Falando francamente, e eles tinham essa liberdade certamente, disseram-me que haviam criado a expectativa de sons mais pesados, mais calcados no Hard Rock setentista, e as primeiras canções que ouviram, eram muito leves para a sua expectativa inicial. Não que não gostassem, mas estavam esperando uma safra inicial de canções mais pesadas, ou mais Prog Rock, e como estávamos trabalhando com um Soul; um Rock'n Roll tradicional; e uma balada, de certa forma decepcionaram-se.

Bem, essa primeira impressão dissipou-se logo a seguir, e questão de poucas semanas depois, estavam gostando do material que estava sendo composto e visitando os ensaios elétricos da banda, em grande profusão. E na euforia dessa movimentação dos primeiros passos do Sidharta, uma ideia maluca aventada numa aula, ganhou ares de seriedade, e concretizando-se, tornou-se a meu ver, o último suspiro de criatividade dentro do meu pequeno universo da sala de aulas. Não era só pelo Sidharta, mas certamente pelo "conjunto da obra", isto é, a "cereja de um bolo" que vinha sendo preparado há anos.

Era o coroamento, talvez, de um esforço coletivo de euforia e resistência em prol de um ideal, e que norteara os melhores anos da minha atividade como professor de música, como já salientei diversas vezes, período esse iniciado em 1992. Ainda tendo a Internet visitada por poucos, e não existindo as redes sociais, resolvemos usar uma metodologia antiquada mas ainda eficaz, para provocar reações. Era uma enorme brincadeira, mas que tornou-se uma realidade, quando imbuímo-nos da determinação de concretizá-la, e para valer. O movimento de cartas... o último sopro de vida nas minhas aulas !



Claro que as broncas eram múltiplas, mas a raiz era uma só. A ideia básica seria portanto, atacar com vozes aparentemente desconectadas entre si, mas denotando terem esse ponto em comum.

Contudo, esse tipo de conjectura nem aconteceu na época, pois o movimento criou-se de forma espontânea, e não como balão de ensaio de experimento de laboratório, portanto, devo deixar claro que apesar de que o grosso de meus alunos já estava deixando a adolescência naquela altura, não havia esse tipo de colocação da minha parte naquele instante. A percepção de que poderia haver uma estratégia nessa abordagem, era só minha, nesse caso. Mas, claro que eles compactuavam com muitos pontos, para não dizer todos, do que passaríamos a defender como leitores. Entre os quais : estávamos fartos de  aturar o tratamento  desdenhoso com o qual a mídia mainstream dava para tudo o que remetesse às décadas de sessenta e setenta, ainda fechadas num manual de redação iniciado em 1977, e que ali, no calor do final dos anos noventa, parecia que não tinha nenhum indício de mudar; o enaltecimento à estéticas toscas derivadas do Punk Rock, também era um braço natural dessa equação e numa lógica cartesiana simples, se isso era "bom", tudo o que era oponente, era "ruim" e durma-se com um barulho desses...

Na questão do "niilismo", por exemplo, cabe reflexão. Eu não sou contra o conceito em si, mas aborrece-me profundamente, a maneira com a qual os marqueteiros usaram tal conceito, deturpando-o, e criando de forma irresponsável, um paradigma maldito que serviu para formatar todo o avançar da história do Rock nas décadas de oitenta e noventa, principalmente. A consequência desse ato tresloucado qual poderia ser ?

Enfim, acho lastimável que um golpe publicitário que visava lucros imediatos para um dono de uma lojinha de artigos sadomasoquistas, tenha tomado essa proporção inimaginável, e causado esse estrago que reputo ser quase irreversível. Esse é um ponto. Outra questão, é que se filosófica e esteticamente não seja contra o niilismo em si, não significa que aprecie-o. Apenas respeito-o como linha de pensamento, mas de forma alguma tenho simpatia pela sua visão de mundo. Eu não gosto da ideia de que uma renovação cultural só possa ser construída após a destruição sumária de outra estética.

Não gosto nada desse conceito de que uma cultura deva ser aniquilada para que outra possa nascer. No meu conceito, é uma ideia errada sob vários aspectos, senão vejamos :
1) Fomenta o ódio como fator de força, pois o início é o ato de demolição da estética antiga. Se começa com ódio, já começou bem equivocado, portanto, a meu ver;
2) Não vejo porque o passado deva ser destruído para que construa-se um presente renovado. Acredito em somatória e não divisória. O que passou foi importante, e certamente contribuiu para o que somos hoje, e não deve ser "destruído".
3) Abomino a ideia de que o passado não tenha valor só porque ficou no passado. O troglodita anônimo que inventou a roda é tão importante quanto o nerd mais genial que acabou de criar o mais novo aplicativo moderno da internet, ou o cientista que acaba de fazer uma descoberta incrível em alguma universidade de ponta.
4) Pior que tudo é deturpar o conceito do niilismo para tirar vantagem. Se eu estou nos anos setenta e não sei tocar um instrumento musical, mas quero ser rocker, realmente caiu como uma luva essa "norma", pois era muito mais fácil destruir o Rock Progressivo e o Jazz-Rock, do que amargar anos de dedicação, aprendizado... ou seja, essa pusilâmine mentalidade tornou-se conveniente para os preguiçosos de plantão. Enquanto observador da cultura, o cidadão comum amargava uma mídia vendida e monoliticamente fechada nesse conceito há anos !
Por quê ?

Porque uma série de jornalistas fechou-se nesse conceito, não só porque acreditava nisso, mas pelas conveniências pessoais inerentes e assim, redações passaram a usar essa determinação de forma ferrenha, como um verdadeiro manual de redação. Tudo o que remetia ao passado era descrito com desdém, e tudo o que seguia a cartilha de 1977, enaltecido... um comportamento fascistoide que muito assemelhava-se aos métodos da ditadura militar e não  surpreende-me muito que tenham copiado tal metodologia. Se isso tivesse ocorrido ali só no calor da "revolução Punk", vá lá, era até compreensível. Mas perdurar por décadas era uma vergonha !!!
Portanto, nosso foco inicial era esse, denunciar tal disparidade, e usando de várias prerrogativas, conforme descreverei a seguir.

Baseado no que disse no parágrafo anterior, o direcionamento das cartas precisava ser multifacetado, para dar vazão a tantas broncas que tínhamos, ainda que a raiz de todas fosse a mesma. Portanto, as primeiras cartas que enviamos, batiam mais na tecla do desrespeito sem sentido que as publicações tinham com artistas de épocas mais remotas; e com a natural má vontade desdenhosa com artistas modernos inspirados em tais estéticas, como se os poderosos de plantão portassem-se como guardiões desse baixo astral, garantindo que nunca mais ninguém achasse o fio da meada perdido. Eu mesmo escrevi as cartas e usando nomes e endereços falsos, ainda que com a fidedignidade de nomes de ruas, números e cep das residências descritas como remetentes.

Foi um começo tímido, mas logo teríamos muito o que comemorar, com a primeira carta publicada, gerando confusão dentro do fórum de leitores, e despertando a atenção dos jornalistas de plantão. Com a primeira publicação, animamo-nos mais ainda, e com a adesão natural da garotada, mais uma festa ocorria na minha sala de aulas, aliás, o grande canto do cisne dessa etapa da minha vida, pois foi realmente o último sopro de vida na velha sala de aulas.

Roberto Garcia Morrone era meu ex-aluno, mas um entusiasta da causa, participava do esforço, e foi dele a primeira carta publicada.

Escrever, no meu caso sempre foi fácil, portanto, logo assumi a função de "redator mor" dessa força-tarefa, e a missão dos garotos era apenas a de passar a limpo os rascunhos que distribuía nas aulas e colocar no correio. Alguns escreviam por conta própria, também, naturalmente. Meu maior desafio nessa fase inicial não era nem o de usar argumentação farta para atacar a ação escusa da mídia, pois isso era fácil, óbvio ululante, mas sim a necessidade de buscar formas de expressão diferentes entre si, buscando incorporar um personagem diferente a cada carta, simulando ser outra pessoa.

De certa forma, tratou-se de um treinamento e tanto de redação e estilo, pois mesmo sem técnica alguma, "na raça", tinha que ser várias pessoas ao mesmo tempo, e invariavelmente, na maioria dos casos, tendo que "pensar" como adolescente de final de anos noventa, e não como um homem maduro chegando aos quarenta, minha real condição à época.


E nesses termos, comecei a escrever buscando diferenciação nos estilos de redação, usando gírias e maneirismos linguísticos condizentes com os adolescentes do final dos anos noventa, e abordando diversos aspectos inerentes da temática central que norteava-nos. Como era uma discussão ampla, era obviamente cabível que houvesse diversos flancos para serem atacados, e foi nessa determinação que trabalhei forte nesses meses de 1998.

Carlos Fazano, não era meu aluno, mas um agregado das aulas desde 1987, e um dos mais entusiasmados nesse movimento, por conta de suas convicções fortemente coadunadas com a "vibe aquariana".

Alguns alunos e colaboradores agregados também contribuíram com textos, mas o grosso do material foi mesmo disponibilizado por eu mesmo. A maior parte dos textos era criação minha, e todos os dias, entregava aos meus alunos e agregados, material para que eles fizessem cópias com sua caligrafia ou usando seus meios de digitação (máquinas de escrever ainda eram bastante usadas nessa época, apesar da internet estar a cada dia, mais popular). Mas o grande momento para essa movimentação, foi quando as primeiras cartas começaram a ser publicadas nos grandes jornais.

Melhor ainda, quando notamos que os jornalistas estavam incomodando-se, ao darem respostas previsíveis, visto serem comprometidos com uma ordem estética contrária. Era quase a prova cabal de que minha tese não era um delírio, tampouco objeto de teoria da conspiração, mas de fato, nas redações dos grandes jornais, tal prerrogativa era seguida com ferrenha disciplina militarizada...
A quem interessa manter essa famigerada mentalidade como status quo crônico na difusão cultural ???

Evidentemente que uma euforia juvenil contaminou minha garotada, assim que viram a primeira carta ser publicada. E à medida que as cartas foram sendo publicadas em significativa constância, é óbvio que os editores desses órgãos, farejaram alguma coisa no ar.

Não um embuste, mas alguma coisa acontecendo que poderia caracterizar a existência de uma nova tendência cultura; cena; febre; formação de tribo, ou o que fosse, e assim merecia investigação...
Já havíamos publicado cartas na Folha de São Paulo; no "Estadão" (Jornal O Estado de São Paulo); Jornal da Tarde; e na revista Rock Brigade, mas só a partir de um certo tempo, comecei a "caçar" os recortes para a formação de um possível portfólio. 

Portanto, perdemos várias publicações, e claro, fica a ressalva de que eu não tinha condições de fazer "clipagem", que é um serviço de assessoria de imprensa que caça implacavelmente qualquer nota que saia publicada, providenciando cópia para formação de portfólio etc e tal. Mas na base da cooperação, eu e meus alunos fomos ajudando-nos mutuamente e conseguimos reunir um número razoável de recortes de tais publicações.

Alexandre "Leco" Rodrigues Peres, em foto dos anos 2000, gravando o primeiro álbum do Klatu, sua banda até os dias atuais

Portanto, já tínhamos conseguido bons resultados, quando um de meus garotos participantes, Alexandre "Leco" Peres Rodrigues, recebeu um telefonema inesperado em sua residência. A redação do "Caderno 2", que era (é), o caderno de arte & cultura do "Estadão", entrou em contato, solicitando entrevista, com o mote "jovens que apreciam ícones culturais de décadas passadas". Seu nome fora pinçado entre as cartas, e mediante a velha e boa "lista telefônica", baseado em seu endereço residencial no remetente da carta, acharam seu número telefônico residencial. Bem, ele recebeu a reportagem e foi fotografado com muitos discos de sua coleção pessoal, e usando camiseta com a estampa do LP "O Jardim Elétrico", dos Mutantes.

Comemoramos tal publicação, pois era uma prova inequívoca de que nossos esforços estavam frutificando. Claro que eu nunca achei que mudaríamos por um passe de mágica, a mentalidade dos jornalistas fechados no paradigma maldito, tampouco seríamos entendidos pelos jovens jornalistas que em geral, nem desconfiavam que existia essa questão arraigada e velada, dentro de redações. Todavia, achava que era uma semeadura importante...
Mais que isso, era uma constatação interessante, também...

Sem dúvida, com essa prosaica manifestação de cunho caseiro, conseguimos mexer com redações de jornais top da mídia brasileira, provando que no marketing, a "formação de opinião" é tudo...

Ora, se com poucos adultos; alguns adolescentes e uma ferramenta singela que era a velha cartinha enviada pelo correio, fizemos esse barulho, despertando a atenção de jornalistas e editores, o que poderíamos fazer se tivéssemos dinheiro para bancar uma agência top de propaganda e marketing ?  E se tivéssemos um grande contingente de "formadores de opinião" trabalhando em nosso favor ?

Pois é, se o paradigma na imprensa nacional era o de que o Rock brasileiro nascera em 1980, na cidade de Brasília, sem dúvida que tal ideia estapafúrdia fora trabalho dos tais formadores de opinião, porque está a milhas da verdade histórica. Isso explica muita coisa, enquanto estratégia de marketing. E não tenho dúvida, as coisas só melhoram no patamar cultural, na hora em que esse paradigma for quebrado. E em se considerando que estou comentando sobre o panorama de 1998, mas levando-se em conta que neste momento, 2016, as coisas não melhoraram, como pelo contrário, pioraram muitíssimo, deduzo com tristeza que ainda adormece a força latente que um dia libertar-nos-á desse grilhão que amarra-nos desde 1977.
Mas um dia, conseguiremos... sou um otimista por natureza, e acredito que as sementes jogadas, ainda que demorem para dar-nos frutos, não falharão.


Bem, além dos momentos de grande euforia que embalaram os meses entre fevereiro e agosto de 1998, os progressos da minha nova banda, "Sidharta", e das bandas de alunos e agregados que irmanavam-se nessa "vibe retrô", também ajudaram nessa equação aquariana. Bandas como o "Soulshine" (o embrião primordial do "Tomada"); "Supernova" e "Tomate Inglês", mobilizavam as atenções de todos os meus alunos, que apoiavam-se mutuamente em mutirões de divulgação, e esforço em lotar os espaços onde apresentavam-se, inicialmente em bares de pequeno porte; festivais colegiais; festas em praças públicas, ou em qualquer lugar onde pudessem atuar.

Outro evento que uniu muito a minha garotada, foi um projeto do Centro Cultural São Paulo chamado "Terça Blues", que era realizado no hall de entrada daquele complexo cultural, ao ar livre, portanto. Eu não toquei, mesmo porque, o Sidharta era a minha única banda na ocasião, e nós estávamos com a proposta de apenas ensaiarmos e montarmos um repertório autoral naquele ano, sem marcarmos apresentações. Nenhuma banda de aluno meu tocou, também, pois era um projeto específico de Blues, e geralmente representado por nomes já consagrados dessa vertente musical, e sem maiores chances para bandas novas do circuito.

Porém, tornou-se um acontecimento que mobilizou a minha tropa de maneira natural, "batendo ponto" no evento, toda terça feira, as 18:00 horas. Mais que isso, o evento foi crescendo rapidamente, e já no meio do ano, reunia centenas de pessoas, talvez assustando os dirigentes do Centro Cultural que talvez dimensionassem desenvolver-se como um evento "light", para reunir poucas pessoas no "Happy Hour", para apresentações quase intimistas, a beira da lanchonete externa do complexo.

Portanto, com cada terça sendo concorrida ao extremo, o clima de euforia extrapolou as fronteiras do Blues, e o clima era de show de Rock. Impressionava-me, mais que o grande contingente em si, a impressionante presença de jovens, com características pró-retrô, visíveis. Pela grande profusão de neo-hippies cabeludos; meninas com saias floridas e flores na cabeça; uso de camisetas com estampas de bandas de Rock dos anos 1960 e 1970...
Era assim, uma constatação muito legal de que aquela tendência não era só a de um nicho específico de "iniciados" anacrônicos dentro da minha sala de aulas, mas havia centenas de jovens vibrando a mesma coisa, espalhados pela cidade.

Portanto, o movimento de cartas tinha mais significado sociocultural do que eu imaginava, e claro que na iminência de colocar minha nova banda na estrada, assim como as bandas de alunos e agregados caminhando juntas, formariam uma pequena cena, com absoluta certeza. 

Falando especificamente de minhas aulas, tal momento de euforia generalizada, maquiou com alegria, o final da minha "Era" como professor. Nessa altura, metade de 1998, meu quadro de alunos era baixo, assemelhando-se aos primeiros momentos de minha atividade de professor, quando logo no começo, julho de 1987, comecei com poucos, tateando no escuro ao adentrar num campo de atividades inteiramente novo, obscuro e de minha parte, sem nenhum traquejo. Preocupava-me, é claro, essa situação pelo ponto de vista financeiro, mas ao mesmo tempo, minha confiança em tempos animadores para a minha nova banda, era muito grande.
Dessa forma, toda essa animação pelas cartas sendo publicadas, somadas às bandas que forjavam-se, deram-me muito gás nessa fase de 1998.


Os últimos meses de 1998, foram portanto, ainda marcados pela euforia toda que descrevi nos parágrafos anteriores, mas para o meu lado, com clima de despedida, porque sentia mesmo que meu tempo como professor, esgotava-se. Independente de eu estar muito interessado em voltar a dedicar-me exclusivamente à carreira musical, e nessa altura, o Sidharta já dava mostras de estar encorpado o suficiente para dar seus primeiros passos fora da toca dos ensaios, mesmo que não houvesse essa determinação e euforia de minha parte, forçosamente teria que partir para outra, porque os alunos rareavam. No final de 1998, meu quadro era muito inferior à minha média histórica, e os poucos que ainda sobraram, eram alunos adiantados, que eu já não tinha mais nada para ensinar praticamente, portanto, aptos para buscar uma qualificação pedagógica mais avançada, ou simplesmente darem-se por satisfeitos e tomarem seu rumos, com suas bandas e projetos.

Um último registro de aluno que faço, referente a essa época, meses finais de 1998, foi na presença de um rapaz taciturno que apareceu mais ou menos em agosto. Chamava-se Marcelo Garbine. Ele tinha um visual "quase" punk, usando normalmente jaqueta de couro com tachinhas e calçando coturnos, além de camisetas com estampas de bandas punk; hard-core, e metal crossover. Mas também era cabeludo, muito provavelmente adepto da cultura crossover, que misturava conceitos das tribos punk e headbanger, tendência que surgira mais contundentemente no final dos anos oitenta. Era bastante inteligente, aliás, muito mesmo, pois nas conversas que tínhamos, fazia muitas citações artísticas interessantes, no campo da literatura, principalmente. Indo além, gostava de falar de política; sociologia; filosofia; e religião, o que era-me surpreendente, quando evocava textos teológicos em suas manifestações. Tinha temperamento forte, não aceitando facilmente uma contra-argumentação, e revelava também suas contrariedades mais exacerbadas, num tom de quase revanchismo, aspecto chato, naturalmente, mas eu entendia ser uma consequência natural daquela armadura punk na qual revestia-se. Então, era um contraponto e tanto à euforia Neo-Hippie que norteava a minha sala de aulas na época, pois ele questionava a nossa predileção pela Era aquariana do Rock, elencando argumentos para demolir nossas ideias, sob o ponto de vista punk. E aí, vinham a reboque, manifestações até antagônicas, eu diria, pois contestando o esoterismo aquariano dos saudosistas de Woodstock, ele usava argumentação protestante, de ordem calvinista, falando em arrebatamento espiritual, mas ao mesmo tempo, citava Rosa Luxemburgo, uma pensadora marxista ferrenha...
Portanto, essa mixórdia exótica de um cristão protestante e certamente orientado por ideologia calvinista; supostamente entusiasta do comunismo; e adepto da anarquia punk, parecia uma vitamina composta por ingredientes díspares entre si, e que tendia a explodir o copo de um liquidificador...
Independente dessa confusa elaboração de pensamentos, era um rapaz muito inteligente, de fato, e tinha um livro editado, chamado : "A Refeição dos Micróbios".

Nesse exemplar de seu livro que deu-me, seu nome tem letras duplas, denotando origem italiana, mas no site, a grafia mostrou-se diferente, e por isso suprimi o "L" e o " N" duplos, como consta na capa de seu livro.

Ele deu-me um exemplar e sua leitura comprovou tudo o que descrevi acima, ou seja, o rapaz tinha uma inteligência acima do comum, com grande capacidade de expressão. Seu livro mostrou-se intenso e denso, eu diria. Contudo, a linha de raciocínio era diametralmente oposta ao que penso e tenho como ideal. Com atmosfera lúgubre, beirando a morbidez de um filme de zumbis, atirava bala para todos os lados, numa rajada de metralhadora muito corrosiva, bem ao estilo punk de niilismo raivoso, mais procurando destilar o ódio ao sistema, na forma de sua destruição sumária, sem nenhuma intenção de construir nada melhor para substitui-lo, mas apenas aniquilá-lo...
Bem, é uma linha de pensamento eu sei... tem gente que ama Nietzsche, não é o meu caso, prefiro Gandhi e sua bondade incompreensível e até irritante para quem não entende o que é "ahimsa" em meio ao mundo hostil em que vivemos. Sou hippie até a medula e não gosto de escuridão, gosto de cores, sons, vibrações positivas...
Mas sou também respeitoso e sei reconhecer um talento, mesmo que pregue ideias diametralmente opostas às minhas. Esse foi o caso desse aluno, sua linha de pensamento, e sobretudo, pelo que expressou no seu livro. Como aluno, era bastante inteligente, e mesmo ficando pouco tempo no meu quadro de alunos, nunca deu-me problemas, pelo contrário, portou-se muito bem. Creio ter sido o último aluno "figura" que tive...

Marcelo Garbine em foto bem mais atual, com visual muito diferente da época em que o conheci, e mais maduro, certamente.

Pesquisando na Internet, para achar seu paradeiro, eis que descubro que prosperou muito como escritor / pensador, e mantém um site muito bem organizado e recheado de vida inteligente, chamado : "Mingau Ácido". Pelo que observei, seu crescimento como pensador foi muito grande, e hoje, muito mais maduro, tem um grande trabalho cultural. Fiquei muito contente por descobrir isso.

Seu site :  http
://mingauacido.com.br/

Ainda em 1998, haveria um último ato dos meus Neo-Hippies, em dezembro...

O Sesc anunciou a inauguração de mais uma unidade em São Paulo, desta feita no bairro de Santo Amaro, na zona sul da cidade. Nessa inauguração ocorrida em dezembro de 1998, fomos em massa, como tantas vezes fizemos ao longo dos anos noventa, prestigiar um show de Rock internacional que ocorreria em tal cerimônia de inauguração.


 
Vimos os shows de "Magic Slim", um bluesman americano de relativa fama, eu diria, e o outro, muito mais famoso a apresentar-se seria "Ike Turner", polêmico guitarrista; bandleader, e cantor, que notabilizou-se pela dupla que tinha com a ex-esposa, Tina Turner, nos anos sessenta / setenta.


Bem, era o fim de 1998, e Ike já não tinha aquele apelo todo, portanto, e muita gente presente no show, mal sabia de quem tratava-se. Outros, ao contrário, gritavam provocações, mas na base da galhofa, sobre o fato dele ter maltratado Tina Turner por anos a fio etc etc. Mas eu gostei do show e minha "tropa", que naquela noite tinha mais de 35 pessoas, seguramente, também. Foi o último ato de 1998, fechando-o bem, eu diria.

Continua...