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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Chave / The Key - Capítulo 4 - Reconhecimento; Consideração & Respeito - Por Luiz Domingues



Eu já estava em outra sintonia há meses, envolvendo-me em vários projetos musicais novos e simultâneos, principalmente a partir do segundo semestre de 1990 (tudo contado com detalhes nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos"), quando no início de outubro de 1990, recebi um telefonema do Beto Cruz. Ele queria comunicar-me que finalmente o Chicão, da loja / selo Devils Discos, sinalizara que o disco "A New Revolution", do "The Key", havia chegado da fábrica, e que começaria a trabalhar sua divulgação; distribuição, e que a banda poderia fazer sua parte, fazendo shows de lançamento.

 -"ótimo, legal, muito grato por avisar-me, parabéns e guarde minhas cópias de recordação, que eu pego assim que possível"... respondi-lhe. Mas ele tinha algo a pedir-me além desse comunicado. Segundo contou-me, quando soube que o disco sairia, marcou dois shows numa casa noturna chamada "Woodstock"(localizada na rua da Consolação, perto da Avenida Paulista), para serem os shows oficiais de lançamento, e que a nova banda que havia montado, estava toda animada e ensaiada, mas em cima da hora, o baixista que entrara no meu lugar, um rapaz chamado Hermes (havia sido baixista de uma banda de Heavy-Metal oitentista chamada "Sabotagem", e que havia aberto shows da Chave do Sol no Teatro Lira Paulistana, no ano de 1985), tinha abandonado a banda, seduzido por um convite de última hora que sinalizara um cachet melhor...
Ora, com tudo marcado, mesmo sabendo que eu já estava em outra sintonia há meses, e que não gostava daquela sonoridade, não tinha como pensar em recorrer a outro baixista com o pouquíssimo tempo de antecedência que tinha para cumprir tais datas. Nem precisava pedir duas vezes, pela amizade e total consideração ao fato de que ele era o responsável por ter mantido a chama acesa, desde a dissolução abrupta e sofrida da nossa Chave do Sol, claro que comprometi-me a colaborar. Apesar de ter esquecido aquele material, bastou um audição para eu retomar tudo e não seria por falta de um baixista que sua nova e renovada banda deixaria de apresentar-se dignamente, e fazer o lançamento do disco. Então, foi uma das situações mais bizarras da minha carreira, pois eu fui tocar como convidado de uma banda que eu não pertencia, mas havia sido membro de sua, digamos, "encarnação anterior", mas que reformulara-se inteiramente e até um novo nome tinha, e que por sua vez, em sua origem, havia sido uma banda montada emergencialmente para suprir as necessidades inadiáveis de uma banda recém dissolvida, chamada A Chave do Sol...era para dar um nó na cabeça de qualquer um...

Bem, a nova formação dessa "The Key", na verdade rebatizada pela terceira vez como "A Chhave" (assim mesmo, com dois "H"...), consistia de Beto Cruz, como único remanescente original d' "A Chave" de 1988; Pedro Loureiro (que pouco tempo mais tarde ficaria conhecido no mundo do Heavy-Metal, como "Kiko" Loureiro, guitarrista do "Angra", e hoje em dia, membro da banda americana, "Megadeth"); Gustavo Winkelmann, baterista (ex-aluno e roadie de Ivan Busic); e Marcelo Castilha, nos teclados.
Eu já tinha compromisso no Rio de Janeiro para tais datas, mas o Beto ofereceu-me um arranjo no qual não perdi meu apontamento, viajando de ponte-aérea após o segundo show, quando normalmente faria o trajeto usando ônibus.

Rara foto desse show de outubro de 1990, de autoria desconhecida, mas que uma amiga minha da época, Índia Dias, que era amiga da namorada do Edu Ardanuy, disponibilizou-me via Facebook

Bem, toquei nos dias 5 e 6  de outubro de 1990 (com público respectivo de 70 e 150 pessoas presentes), ajudando meu amigo Beto e seus novos colegas, e certamente confundindo a cabeça de muitos fãs ali presentes com minha inesperada presença naquele palco. Foi bastante estranho estar ali naquelas circunstâncias, por tudo o que já expus, naturalmente.

O jovem e então desconhecido, guitarrista, Pedro "Kiko" Loureiro", outro menino prodígio que o Beto descobriu e projetou para o Rock brasileiro, mais detidamente no mundo do Rock pesado 

Mas também foi prazeroso poder ajudar o Beto e seus novos companheiros, sem dúvida alguma. Sobre essa turma, não tenho grandes lembranças por um convívio tão curto. Eu só conhecia muito superficialmente o baterista Gustavo, por vê-lo em algumas ocasiões acompanhando o Ivan Busic, com quem estudara e trabalhara, mas nunca havíamos conversado. Pareceu-me na hora que tinha uma boa técnica e poderia crescer como músico.
Sobre o tecladista Marcelo Castilha, no pouco que conversamos, ele disse-me que aquele som não era a sua "praia", e que sua formação era mais jazzistica, em princípio.

E sobre o Pedro "Kiko" Loureiro, pareceu-me muito determinado do que queria na vida, e sendo ainda mais jovem que o Eduardo Ardanuy, quando este entrou naquela "A Chave", de 1988, demonstrava também uma técnica impressionante, e totalmente calcada em guitarristas virtuoses da egrégora de Yngwie Malmsteen, Steve Vai e congêneres. Na sua performance.mostrou uma postura de palco frenética, assemelhando-se ao Eddie Van Halen, correndo e pulando o tempo todo, demonstrando condição atlética, diferente do Edu que era bem comedido nesse aspecto, tocando parado, focado no instrumento. Bem, para os propósitos da banda e no intuito de dar continuidade àquele trabalho, que era o projeto do Beto, creio que mais uma vez ele descobrira um garoto prodígio para suprir tal necessidade de alto grau de excelência técnica. Outro fato, o Beto havia mudado seu nome artístico, aliás saíra grafado assim no LP "A New Revolution", cuja capa só fui conhecer ali nos bastidores da casa de shows "Woodstock". Agora, ele assinava como Roberto Malltauro, suprimindo o Cruz, sobrenome do pai. Malltauro segundo contou-me, era sobrenome da avó materna, e a troca de nome atendia a orientação de uma numeróloga que consultara. Aliás, a banda também não era mais "The Key", mas "A Chhave", assim com dois "H", também por obra da orientação dessa estudiosa. Um poster dessa nova fase da banda, com tais membros e nome renovado, chegou a ser publicado na Revista "Rock Brigade", em 1990, mas logo de início, o baixista já havia saído, sem ao menos ter feito um show sequer.

O poster citado acima, mostrando a derradeira tentativa do Beto em manter a banda na ativa, com formação inteiramente renovada e até com mudança ortográfica no seu nome, publicado na Revista "Rock Brigade", em 1990. Da esquerda para a direita em pé : Hermes; Pedro "Kiko" Loureiro; Marcelo Castilha, e Gustavo Winkelmann; Sentado : Beto Malltauro (Cruz) 

Tais agruras não diziam-me mais respeito, é claro, mas eu torcia para o Beto obter sucesso, pois sabia de sua luta que eu achava extraordinária, e certamente que ele merecia ter chegado a algum lugar melhor. Não sei dizer o que aconteceu-lhes detalhadamente após esses dois shows que cumpri a título de ajuda fraternal. Sei apenas que logo após esses shows de lançamento do LP "A New Revolution", ainda no final de 1990, o Beto recrutou um novo baixista para ser membro definitivo, chamado Carlos Zara Filho, que era conhecido como "Zarinha", e era filho do famoso, e já falecido ator, Carlos Zara. Mas logo a seguir, essa banda dissolveu-se definitivamente, e ele, Beto, mudou-se para os Estados Unidos em 1991, onde passou a viver desde então.

No meu caso, o fim havia sido ainda em 1989, com minha saída após a gravação do LP "A New Revolution", e essa participação em 1990, fora meramente ocasional, sem vínculos profissionais, e apenas por amizade. Portanto, dou por encerrada a história dessa banda surgida nos primeiros dias de 1988, e que na sua curta trajetória, teve poucos momentos bons, mas que apesar das diferenças e incômodos inerentes, fica na minha memória como um exercício de luta pela sobrevivência e respeito pelas pessoas que dispuseram-se a tentar manter uma chama acesa. 

Eis o link para ouvir tal álbum, "A New Revolution", em sua versão integral, no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=ZWpSUkxbthY




A seguir, faço as últimas considerações...

 

Como foi amplamente explicado desde o início deste específico capítulo, "A Chave" / "The Key" / "A Chhave", uma banda com três mudanças de nome em sua curta trajetória, nunca foi a continuação natural da Chave do Sol como muitos acreditam.
Ela nasceu sim, das cinzas da Chave do Sol, mas por pura necessidade proveniente de uma situação dramática, onde por um lado, a súbita e triste dissolução da velha Chave do Sol mostrou-se implacavelmente incontrolável para seus membros remanescentes (eu, Luiz Domingues; Rubens Gióia, e Beto Cruz), e por outro lado, havia o lançamento do disco "The Key" para ser trabalhado enquanto divulgação, mas bem pior que isso, dívidas pesadas para administrar-se, contraídas pela produção do disco, e com a qual não tivemos apoio externo algum.

Portanto, nesse cenário dramático, não havia outra solução a não ser montar uma banda em caráter de emergência, para suprir compromissos inadiáveis que a Chave do Sol já tinha firmado, e a duras penas, fazer a divulgação do disco que fora lançado poucos dias antes da discussão que fulminou a banda, de forma triste. O ideal, reitero, teria sido nós conversarmos dias depois dessa fatídica reunião tensa, e com a cabeça mais fria, termos colocado os nervos no lugar e dado prosseguimento à carreira da Chave do Sol, normalmente. Muito provavelmente teríamos inclusive a volta do nosso baterista original, José Luiz Dinola, que havia anunciado saída da banda no início do segundo semestre de 1987, mas que no fim desse mesmo ano, já havia desistido da ideia de estudar odontologia e abandonar a música. Essa teria sido a melhor das soluções para a crise que nossa banda atravessou no final de 1987, mas infelizmente não foi o que ocorreu.

Rompidos com nosso cofundador, Rubens Gióia, e sem nenhuma possibilidade de cogitar não cumprir os compromissos firmados e divulgar e vender desesperadamente o LP The Key, eu e Beto não tivemos alternativa. Quando comecei a escrever a minha autobio, em junho de 2011, ainda usando a plataforma da saudosa Rede Social Orkut (numa comunidade chamada "Luiz Domingues", aberta pelo meu amigo, Luiz Albano), minha proposta foi a de escrever tal relato focado em capítulos exclusivos dedicados a cada trabalho que fiz na minha carreira. E no caso específico da Chave do Sol, sabia desde o início que essa etapa final, onde teria que descrever seu final abrupto e triste (e consequente início de atividades forçadas de uma outra banda com outro nome, mas gravitando em sua órbita, então denominada "A Chave"), teria que ser muito claro na narrativa, e tomar muitos cuidados para não magoar ninguém. Isso porque é óbvio que o Rubens Gióia; eu, Luiz Domingues, e Beto Cruz, saímos muito magoados dessa história, e mesmo tendo resgatado a nossa amizade, ele, Rubens, ainda acha que a formação dessa nova banda foi um ato de traição de minha parte, e do Beto. E da parte do Beto, e estendendo aos três componentes que fizeram parte dessa nova banda formada em 1988, poderia ficar a impressão de que eu desprezo essa banda chamada "A Chave". Portanto, tomei todos os cuidados para deixar claro os motivos dessa banda ter sido formada, para que os fãs do trabalho da antiga Chave do Sol e principalmente, o Rubens Gióia, saibam que jamais quis que ele fosse substituído por outro guitarrista, e indo além, jamais quis que A Chave do Sol terminasse um dia, aliás, pior ainda do jeito que aconteceu.
E para o Beto; Ardanuy; Ribeiro; e Rapolli, que minha contrariedade com o trabalho dessa nova banda formada em 1988, era meramente estética, e que jamais teve algo de ordem pessoal com qualquer um deles.

No caso do Beto, muito pelo contrário, sou-lhe eternamente grato pela sua luta; determinação, e forte poder de iniciativa, para num cenário de hecatombe nuclear, sair correndo para buscar salvação, quando a reação normal da maioria das pessoas nessa situação, seria a de apenas resmungar pelos cantos, lamuriando e chorando o leite derramado. Portanto, realço a força de vontade e garra do Beto Cruz, que reputo ser o grande artífice da criação desse trabalho, fazendo-o ter vida; visibilidade; notoriedade e também credito-lhe o descobrimento de três talentos jovens que após essa passagem pela banda, cresceram uma barbaridade nas suas carreiras, individualmente falando : Eduardo Ardanuy; Fábio Ribeiro, e Pedro "Kiko" Loureiro, sendo este último citado, numa etapa em que eu nem estava mais presente na formação da banda.
De fato, o Beto tinha / tem talento como "garimpeiro de talentos", e poderia até ter colocado-se no mercado musical como executivo de gravadora, ou mesmo um "manager", para ganhar dinheiro nessa específica função, que requer um talento quase extra sensorial, eu diria. Sobre a banda, acho que ela cumpriu sua função inicial que era de suprir necessidades prementes.

Posteriormente, quando assumiu-se como um novo trabalho e buscou sua identidade, pecou por vários motivos e escolhas a meu ver. Faço a minha mea culpa, é claro, pois nada fiz para exercer minha influência para coibir aspectos que desagradavam-me, mas não querendo justificar, mas apenas constatar, não era o momento para eu forçar mudanças que aproximassem-me do que eu realmente gostaria de fazer como estética artística. Não havia clima algum para propor uma guinada para sonoridades sessenta / setentistas em 1988, e apesar de eu estar começando a ter vontade de voltar às minhas raízes, naquela época em específico, isso ainda não era forte o suficiente dentro da minha realidade, e principalmente pelo ambiente externo que era totalmente avesso, é claro. Fora isso tudo, meus novos colegas jamais aceitariam tais ideias, pois sua mentalidade estava em outra esfera, pura e simplesmente.

E por fim, a "situação financeira da época versus dívidas", não permitir-nos-iam devaneios estéticos. O negócio era tocar o máximo possível, promover o novo trabalho e vender o disco The Key, que nem pertencia diretamente à essa banda, mas era a única forma de livrar-nos de dívidas contraídas para que ele, o próprio LP, pudesse ter sido lançado. Portanto, era uma condição estranha e muito incômoda. Pelo aspecto da exposição pública, esse novo trabalho gerou inúmeras confusões, é claro. Para muitos fãs e jornalistas, tal banda foi a continuação simples da Chave do Sol, mas isso não era correto. Tal confusão também só serviu para acirrar melindres, e isso entristece-me até hoje, é claro.

Portanto, quando comecei a escrever a autobiografia, tomei a decisão de separar os respectivos capítulos, para firmar na história a clara divisão que existe entre uma banda, A Chave do Sol, e a outra, A Chave / The Key. Para efeito biográfico, lamento ter poucas fotos desse trabalho, por isso a escassez de opções para ilustrar os capítulos. Foram poucos shows entre 1988 e 1989, e também não muitas peças de portfólio. Conforme descrevi nos capítulos, também foram poucos os momentos felizes que tive, ou ocorrências amenas e divertidas, pois além de eu não ter afeiçoado-me ao trabalho, o clima nesses meses era mais de apreensão pelas dívidas contraídas, portanto, minha visão desse trabalho é mais taciturna, aliás, foi o trabalho mais sombrio sob esse aspecto, da minha carreira. Isento os companheiros dessa jornada de qualquer culpa nesse processo, é claro !!

É bastante controverso o resultado sonoro do LP "A New Revolution", não só pela estética adotada, mas pelo áudio que foi bastante prejudicado pela mixagem, que achatou os instrumentos, para privilegiar os solos de guitarra. De minha parte, não posso queixar-me, pois tão aborrecido que estava por não gravar da forma que desejava, fazendo minhas linhas de baixo livremente, não acompanhei as sessões e assim, moralmente falando, não tenho o direito de reclamar a posteriori, contudo, o resultado é decepcionante, a meu ver. Todavia, vendo pelo lado heroico com o qual o Beto Cruz tanto lutou para isso ser alcançado, é uma conquista, é claro. Não tenho absolutamente nada contra os companheiros dessa jornada e pelo contrário, agradeço-lhes muito por terem aceitado a proposta insalubre que o Beto fez-lhes de segurarem um explosivo nas mãos, naquele início de 1988...
Agradeço-lhe também pelo esforço em dar dignidade para essa banda nascida em condições tão inóspitas, tão inadequadas pelas circunstâncias. 


Apesar de tudo, acho que o esforço de todos valeu a pena, e fico contente por verificar que eles demonstram carinho por esse momento de suas carreiras, em entrevistas que concedem na mídia, e que de certa forma, foi o estopim de suas carreiras, caso dos mais jovens na ocasião, Edu e Fabio, e mesmo numa situação posterior até à minha participação, de Kiko Loureiro. E ao Beto, principalmente, por ter sido a força motriz dessa banda. Hora de falar de seus membros e de agregados que gravitaram na sua órbita.

Falando sobre quem apoiou essa banda...
Claro que por ter nascido das cinzas da Chave do Sol, infelizmente diga-se de passagem, muitas pessoas que eram apoiadoras da antiga banda extinta, deram seu apoio à essa nova banda criada.
 

Sou grato portanto a Carlos Muniz Ventura, que entendeu perfeitamente as circunstâncias com as quais ela foi criada, e continuando normalmente sua amizade com Rubens Gióia, soube entender e separar as divergências que separaram-nos e assim  acompanhou a trajetória curta desta nova banda, e participou, fazendo fotos promocionais, e até catálogo para patrocinador, caso do poster para a Revista "Rock Brigade", com propaganda da luthieria "Tajima" (cujo set fotográfico foi sua própria residência no bairro da Vila Pompeia, na zona oeste de São Paulo).

Eduardo Russomano, que muito ajudou-nos nos momentos iniciais e dramáticos, e que por ter sido roadie e colaborador da Chave do Sol, compreendeu bem a situação que precipitou a criação dessa nova banda.

Ricardo C. Aszmann, nosso colaborador e amigo no Rio de Janeiro, que comprou essa luta, e muito apoiou-nos. Grato por tudo, incluso as tentativas em 1989, quando eu mesmo já estava praticamente de saída, mas ele acabou acompanhando-me pessoalmente a fazer contatos no Rio e Niterói, visando shows e entrevistas (até no escritório da "Artplan", levou-me).

Chicão, o dono da loja / selo Devil Discos, que acreditou nesse trabalho e foi muito prestativo na produção do LP "A New Revolution". Ele era inexperiente na ocasião como produtor, mas foi de um entusiasmo e força de vontade exemplar, não medindo esforços para colocar nas prateleiras o melhor resultado possível e dele, não tenho queixa alguma, e pelo contrário, só tenho elogios e guardo um pequeno constrangimento pessoal, pois acho que ele conheceu-me num momento ruim de minha trajetória pessoal, e deve ter ficado com a impressão de que eu desprezei tal produção, e na verdade, minha contrariedade era outra, e está bem explicada nos capítulos anteriores. Portanto, deixo claro que minha impressão sobre o seu papel na história dessa banda é a melhor possível.

César Cardoso, meu aluno, que foi roadie e muito entusiasmado por essa banda, meu muito obrigado por tudo !

Paulo Toledo e Fernando Costa, ex-membros do "Inox", que eram os donos do Bar Black Jack, e que abriu suas portas para muitos shows nossos.

João Cucci Neto, que tentou ajudar, intermediando contatos internacionais.

Antonio Carlos Monteiro; Sérgio Martorelli; André "Pomba" Cagni e Fabian Chacur (mais que isso, Fabian deu-me muitas dicas nessa fase, sobre a mídia), que assinaram várias resenhas e matérias em suas respectivas publicações na imprensa escrita.

Os irmãos do Beto Cruz, principalmente Claudio e Marcos Cruz, por inúmeras manifestações de ajuda em shows e nos bastidores. E não esquecendo de Mario Sodré, sócio do Claudio na ocasião, que também foi solícito conosco.

Tibério Correa, que também nos ajudou em várias indicações para shows.


Todo o staff do estúdio Big Bang pela gentileza, hospitalidade e profissionalismo.

Os irmãos do José Luiz Rapolli : Fernando, que também é um ótimo baterista, e Sueli Rapolli.

Os pais do Fábio Ribeiro, pessoas amabilíssimas e cuja bondade e solidariedade, até mereceu menção específica na história desta banda.

Os irmãos e primos do Eduardo Ardanuy, que também ajudaram bastante.

E as namoradas de todos na época, que foram presentes, também.  No meu caso em específico, sou muito grato a minha namorada nesse período, Sandra Regina, que acompanhou toda a transição entre o fim da velha Chave do Sol e toda a saga da formação da banda dissidente, "A Chave / The Key", apoiando-me muito nos momentos difíceis e ajudando, inclusive fazendo de seu apartamento no bairro de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, hospedaria para a banda por ocasião de show naquela cidade, realizado em 1988. Lembro-me de que a namorada do Rapolli ficou grávida em 1988, portanto, sua filha Rebeca, hoje uma mulher madura, foi concebida durante a existência dessa banda.

Hora de falar dos componentes...

Falando sobre os companheiros dessa jornada :

Theo Godinho

Theo Godinho era guitarrista da banda oitentista Jaguar, ao lado do baterista José Luiz Rapolli. Ótimo guitarrista, tinha uma orientação pesada, mas certamente vinha de escola setentista. Sua participação na banda foi curtíssima, apenas pelo fato de que em comum acordo, verificamos que um sexteto era inviável pela massa sonora envolvida. Ele poderia ter ficado tranquilamente se não houvesse também a presença do Edu Ardanuy. Pessoa de ótima índole, apesar de sua super curta participação, a impressão que deixou-me foi a melhor possível. Depois dessa breve participação em nosso conjunto, foi membro de muitas bandas nos anos posteriores, e também envolveu-se com produção de audiovisuais. Infelizmente  deixou-nos em 2012, muito precocemente por sinal, e deixando uma lacuna. Atualmente sua filha, Thais Godinho, que é jornalista, está fazendo pesquisa de campo reunindo elementos para fazer uma biografia de seu pai, e quem sabe até um documentário para resgatar sua história e legado artístico. Acho tal atitude dela, belíssima como filha, e certamente merecida por parte do Theo.

José Luiz Rapolli 

Eu conhecia-o superficialmente desde 1985, mais ou menos, por conta de ter visto sua banda, "Jaguar" atuando, mas só cumprimentávamo-nos nessa época, sem estabelecer amizade.
Quando o Beto anunciou que ele seria o baterista da nova banda, fiquei contente com a escolha e sua aceitação, e não desapontei-me, posteriormente. Rapolli não tinha a mesma técnica de José Luiz Dinola, com o qual trabalhei por cinco anos na Chave do Sol, mas era / é um ótimo baterista. Por outro lado, ao contrário do Dinola que era muito fechado no conceito do Jazz-Rock, Rapolli era muito mais próximo de minha formação no quesito das preferências musicais, demonstrando grande apreço pelo som das décadas de sessenta e setenta, itens proibitivos em tempos xiitas de pregação niilista, naquela década de oitenta. Dessa forma, ficamos rapidamente amigos e sem dúvida, as conversas que tivemos, principalmente em viagens de ônibus onde dividimos os assentos, representam os poucos momentos agradáveis que guardo na memória sobre o período dessa banda. Tal impressão favorável, motivou-me a procurá-lo, cerca de nove anos depois, em 1997, para integrar o projeto de uma nova banda que eu estava criando, chamada Sidharta (história inteiramente contada em capítulo específico na minha autobiografia), mas não deu certo, pois eu interpretara mal essa situação de 1988, e anos depois, não fazia sentido algum, conforme está explicado na história daquela outra banda. Independente disso, Rapolli é um rapaz calmo, gentil e solícito, com o qual gostei de ter contado nesse período difícil que foi esse de 1988 /1989, na trajetória curta da A Chave / The Key.

Anos depois, soube que estava tocando em bandas cover pela noite paulistana, e que firmara-se com um "Pink Floyd Cover", que tornou-se uma dessas bandas tributo que primava pela perfeição em executar o repertório da banda homenageada etc e tal. E também foi membro do "Big Balls", banda do guitarrista Xando Zupo, com o qual eu tocaria no "Pedra", anos depois.

Fábio Ribeiro

Desde meados de 1986, eu ouvia dizer de um jovem tecladista que despontava no cenário do Rock underground, chamado Fábio Ribeiro. Tais comentários, inicialmente vinham de meu amigo e roadie da Chave do Sol, Eduardo Russomano, hoje saudoso, e que conhecia e admirava-o. No final de 1987, ele foi convidado pelo Beto Cruz e fez uma participação especial com A Chave do Sol, no Teatro Mambembe e caprichosamente, seria o último show dessa banda que dissolver-se-ia poucos dias depois graças à um desentendimento entre seus membros remanescentes : eu; Luiz Domingues; Rubens Gióia e Beto Cruz. Quando uma nova banda foi criada emergencialmente para suprir a agenda da Chave do Sol recém implodida, Beto não teve dúvidas e convidou Fábio Ribeiro para fazer parte. Tecladista de sólida formação teórica, gostava, e isso era raro naquela época, de Rock Progressivo setentista, apesar de estar bem antenado nas sonoridades modernas e oitentistas, também. Muito técnico, era um solista virtuose e piloto de vários sintetizadores, à moda antiga dos tecladistas setentistas clássicos.
Como pessoa, era / é um rapaz muito educado, simples e isso era fruto de ter sido criado por pais extremamente bondosos, que inclusive já citei bastante nesta história desta banda. Muito jovem; versátil; muito técnico; com vasta bagagem teórica; e virtuose como solista, era inevitável que chamasse muito a atenção, e recebesse muitos convites. Portanto, ainda fazendo parte de nossa banda, estava também envolvido com muitas outras bandas de Hard-Rock e Heavy-Metal, onde gravou discos; tocou ao vivo com tais artistas, e manteve sempre uma banda autoral e de orientação progressiva setentista, chamada "Desequilíbrios", além de um projeto solo e experimental, "Blezki Zatsaz". Nos anos 1990 e 2000 foi membro de bandas como "Angra" e "Shaman" do mundo do Heavy Metal, e do "Violeta de Outono", além de abrir seu estúdio particular. Toca com muita gente hoje em dia e é representante de várias marcas de teclados internacionais no Brasil, além de ser um experiente professor de música e programação de teclados / tecnologia. Em 2003, acompanhei as gravações de bateria do Rolando Castello Junior, como membro da Patrulha do Espaço, fazendo a respectiva guia para ele gravar em duas faixas nas quais a nossa banda participou do disco solo do guitarrista Xando Zupo, "Z-Sides", no estúdio do Fábio Ribeiro. Falamo-nos pelas redes sociais da internet e devo-lhe uma visita, eu confesso, para um café no qual ele convida-me há anos.


 
Eduardo Ardanuy

Descoberto pelo Beto Cruz, Edu Ardanuy chegou nessa nova banda com fama de virtuose, e de fato o era. Tocava com uma técnica absurda, e era obcecado por tocar muito mais ainda, estudando com muito afinco. Circunspecto e calado, passou-me a impressão inicial de que era obcecado pela técnica e se essa não era a minha visão da música e nunca será, ao menos eu respeitava-o em sua determinação e admirava-o por ser focado no seu objetivo, coisa rara para um menino de 20 anos de idade, que geralmente tem dificuldade em focar numa meta. Foi por sua mentalidade que a banda pautou-se doravante, e construiu sua curta carreira e isso não era o que eu desejaria, certamente. Mas claro que sou-lhe grato pela sua participação, e se não era a minha predileção aquela sonoridade, isso não era nem de longe sua culpa, e apenas foi um arranjo do acaso que uniu-nos ali naquela situação. Não comunicávamo-nos muito nesse período em que trabalhamos juntos. Seu diálogo mais direto era com o Beto e o Fábio, musicalmente falando. Mas sempre houve respeito mútuo e sou-lhe grato por ter socorrido-nos naquele momento inicial muito difícil e pela persistência, também. Dentro do mundo do Rock pesado e em específico das vertentes do Hard e Heavy oitentistas / noventistas e de orientação virtuose, Edu é referência e certamente é considerado um dos maiores guitarristas do mundo, e isso é extraordinário, é claro. Ele é reverenciado em publicações especializadas internacionais; citado por guitarristas do nível de Steve Vai, e tudo isso é muito merecido, logicamente. Tocou por muitos anos no super trio "Dr. Sin", uma das mais significativas bandas brasileiras do mundo pesado e ultra técnico, além de muitos trabalhos solo. Tornou-se um dos maiores professores do Brasil e recentemente abriu com seus irmãos uma escola de música que é referência nesse mundo dos apreciadores do Rock pesado e do virtuosismo, chamada "Clã Ardanuy". Apesar de na época não termos ficado muito próximos, sei que ele é gente boa, e em muitas ocasiões em que encontramo-nos em bastidores de shows, nos anos 1990, e 2000 em diante, sempre foi muito cordial e simpático comigo.

Beto Cruz

Considero Beto Cruz, a força motriz dessa banda chamada A Chave / The Key. Sua determinação em tirar da cartola um coelho que parecia impossível de ser encontrado, foi extraordinária no início.
Agindo como um verdadeiro produtor executivo, não mediu esforços para criar uma banda "do nada", e fazer com que ela tornasse-se apta a competir no difícil mercado da música, em tempo recorde. Sou-lhe muito grato por todo o esforço empreendido; pela solidariedade; pela garra; pela luta; pelos sacrifícios pessoais que teve; pela mão na massa, e tudo mais que puder elencar em termos de trabalho árduo e obstinado. Peço-lhe desculpas se de minha parte, não correspondi na mesma intensidade, mas creio que está bem explicado neste relato, os motivos de minhas contrariedades e acentuada perda de energia no decorrer do processo, que esvaiu-me as forças. Seu prêmio por esse esforço hercúleo, é o disco que registrou tal momento e a descoberta de valores artísticos que muito brilharam, brilham e brilharão ainda, graças ao seu olhar arguto.
Sobre sua personalidade; o que fez depois dessa banda; e faz atualmente em termos artísticos, já descrevi no final do capítulo sobre A Chave do Sol, portanto, é só consultar ali. Está encerrada essa etapa da minha trajetória na música.

Agradeço aos companheiros dessa jornada e mais uma vez peço-lhes desculpas por ter sido excessivamente franco em relação às minhas impressões contra o trabalho em si na minha ótica e gosto pessoal, e reitero, nenhuma contrariedade de minha parte tem caráter pessoal contra quem quer que seja, e pelo contrário, sou grato a todos pelo companheirismo, numa etapa que foi muito difícil particularmente na minha carreira. De todos os capítulos que escrevi na minha autobiografia na música, este foi sem dúvida o mais difícil, pela complexidade de escrever e não deixar margem de dúvida a alimentar melindres para ninguém envolvido, seja o Beto Cruz; os membros novos, e tampouco o Rubens Gióia. Espero sinceramente que todos entendam as colocações com a máxima clareza. E agradeço também aos fãs do trabalho, que não são muitos, devido as circunstâncias que essa banda enfrentou e pela maneira a qual expressou-se artisticamente. 

Para efeito de cronologia desta minha autobiografia, daqui em diante, vem a história do Pitbulls on Crack, iniciada em janeiro de 1992, contudo, do período em que saí desta banda, 1989, até o início do Pitbulls, tem muitas histórias de projetos e tentativas de bandas autorais, além de trabalhos alternativos que fiz, e que estão relatados nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos". Basta consultar ou reler, por ali.

Um agradecimento ao saudoso Theo Godinho, pela força inicial nos dois primeiros shows emergenciais de 1988 !
Muito obrigado aos amigos Fábio Ribeiro; Eduardo Ardanuy e José Luiz Rapolli !! Muito obrigado, Beto Cruz, por absolutamente tudo o que envolveu essa banda !! Grato, A Chave / The Key, pelo esforço em tentar manter uma chama viva ! Muito obrigado, amigo leitor, por ter acompanhado esta etapa da minha autobiografia na música !!

A Chave / The Key - Capítulo 3 - Escassez; Disco & Esgotamento - Por Luiz Domingues

O ano de 1989 entrou, mas o ânimo estava muito mais baixo. Tudo bem que o início de 1988 havia sido ainda pior sobre outros aspectos, com aquela hecatombe do final de 1987 ainda precipitando-se fortemente sobre nós, mas não poderia dizer que o início de 1989 fosse renovado de esperanças por dias melhores, aliás, no quesito "esperança", o panorama não era muito pródigo.
Bem, a despeito da cena não muito favorável, a luta continuava para essa banda, embora eu estivesse cada vez mais deslocado emocionalmente dessa luta. Um fato novo ocorreu logo no início desse ano novo, quando o Beto anunciou que havia feito um contato nos Estados Unidos, na sua última viagem àquele país. Sinceramente não lembro-me muitos detalhes, mas o fato é que havia conhecido um produtor de shows em Miami, e este interessara-se pela nossa banda, mediante exame de nosso material, incluso a demo tape gravada recentemente, e apesar de sua simplicidade total. Nesses termos, uma reunião foi marcada para aprofundar detalhes e assim, o Beto quis levar mais um integrante da banda nessa viagem para reforçar a nossa representatividade e o escolhido foi o Fábio Ribeiro.

Portanto, ambos viajaram para Miami e conversaram com o empresário que gostou de nossa banda e queria inserir-nos numa turnê, inicialmente de condições modestas, mas cabe explicar : "modestas" para os padrões americanos, pois para nós pobres Rockers brasucas e acostumados a conviver com as piores situações possíveis, seria uma turnê espetacular, com show seguidos em várias cidades, em lugares pequenos, é bem verdade, mas com uma infraestrutura que só poucos tinham acesso aqui no Brasil. Poderia ter sido a grande salvação para a banda naquele momento, não resta dúvida e mesmo profundamente contrariado com a estética adotada, no meu caso, eu teria aceitado a oportunidade logicamente, e a consequência disso é imprevisível aos olhos de hoje em dia. Poderia ter mudado a vida de nós cinco envolvidos, em vários aspectos. A banda poderia ter crescido lá fora e ter feito uma carreira sólida, crescido e alcançando fama internacional, com muito maior respeito dentro do Brasil, como é praxe para qualquer artista que consegue tal reconhecimento fora, para então ser respeitado na sua própria pátria, vide Sepultura, só para ficar num exemplo mais perto do nosso espectro ("pero no mucho"...), mas também citando Carmen Miranda, como exemplo clássico desse tipo de tendência. Mas também poderia apresentar alternativas individuais para os seus membros. Edu e Fabio por serem virtuoses e impressionarem naturalmente, fatalmente receberiam propostas para atuar em bandas americanas. Bem, meras especulações, porque nada disso ocorreu...
O fato é que o tal empresário americano ofereceu perspectiva sim de uma turnê de pequeno porte para começarmos, mas a contrapartida seria largarmos tudo e viajarmos para os Estados Unidos, imediatamente. E as condições financeiras não favoreciam-nos de forma alguma para tomar tal atitude, portanto, a proposta do empresário ficou só no sonho de dias melhores para essa banda, com uma possível etapa internacional de sua carreira. Sem verba para largarmos tudo sem receios e aventurarmo-nos nas mãos de um empresário desconhecido, num país estrangeiro e acima de tudo sabendo como são os americanos com a questão da imigração legal / permissão de trabalho / "green card", não fizemos a loucura. Restava-nos continuar labutando aqui na Terra Brasilis, absolutamente inóspita como de costume...

Lista dos melhores do ano de 1988, segundo a opinião dos leitores da Revista Rock Brigade, publicada logo na primeira edição de 1989, com três componentes de nossa banda, bem cotados nesse ranking 


O primeiro show de 1989, foi uma oportunidade boa, não resta dúvida. Fomos escalados para dividir uma noite com o Golpe de Estado, na casa de shows Dama Xoc, que tinha uma representatividade forte na cidade de São Paulo naquela altura.

Como já observei em capítulos anteriores, tratava-se de uma casa que era simpática aos artistas de pequeno e médio porte, mas isso não significava ser tarefa fácil agendar uma data ali. Portanto, quando surgia uma oportunidade dessas, claro que a agarrávamos.

Nesse dia em específico, a situação era bem clara : nós éramos uma banda derivada de uma banda que tivera tradição nos anos oitenta, mas na verdade, éramos uma banda "'zerada" em termos de status naquele instante. O Golpe de Estado surgira bem depois da Chave do Sol no cenário do Rock Paulista e brasileiro, mas agora, A Chave era uma outra banda, e não poderia usufruir do status alcançado pela banda extinta. Então, moralmente falando, era óbvio que o Golpe de Estado havia adquirido um patamar de direito maior que o que essa nova banda tinha, e daí o direito de tocar como headliner.

"Heavy-Metal" com A Chave e Golpe de Estado ??? Esses jornalistas...

Isso era inquestionável, mas daí a reivindicar uma porcentagem maior de bilheteria, após o show estar acertado com valores iguais entre as bandas, e que foi uma hipótese que foi ventilada subitamente no camarim, gerou um clima tenso e desnecessário, visto que éramos amigos de longa data, há muitos anos. Fiquei chateado com essa conversa súbita, mas logo isso foi sanado e o combinado prevaleceu, com as duas bandas dividindo fraternalmente a féria dessa bilheteria, e que foi boa, com cerca de mil pagantes presentes no Dama Xoc.

A registrar-se, foi o último show com grande público que essa banda faria, pois daí em diante, até a minha saída, alguns meses depois, só faríamos poucos espetáculos com público bem menor.
Assista acima, "Sweet Surrender", uma música inédita, e que não entrou no repertório do disco que gravaríamos ainda em 1989, ao vivo nesse show do Dama Xoc, que estou mencionando. Acervo de Nelson Junior. Eis o Link para ver no You Tube : 

https://www.youtube.com/watch?v=pn33sfyekX4
Veja acima, "The Winds Blows Chill and Cold", também inédita e que não entrou no disco "A New Revolution", em versão ao vivo no Dama Xoc, no mesmo dia. Acervo de Nelson Junior. Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=igx2NjZOaRU


Na prática, era o mesmo show de sempre, e o meu ânimo cada vez menor para continuar participando daquele trabalho e de sua sonoridade que não apreciava. O público, alheio às minhas insatisfações pessoais, estava bem animado e claro que dei o meu melhor, mesmo contrariado, em respeito a eles e aos companheiros, mas aumentava em progressão geométrica a minha vontade de deixar tal trabalho, e buscar um novo rumo na minha carreira e de fato, foi questão de poucos meses para que isso concretizasse-se.
O show no Dama Xoc, dividido com o Golpe de Estado, aconteceu em 19 de fevereiro de 1989, com cerca de mil pessoas nas dependências dessa casa de shows.

Resenha desse show com o Golpe de Estado no Dama Xoc em fevereiro de 1989, na Revista Rock Brigade

O contato com o produtor que sinalizara ter interessado-se em produzir um LP dessa banda, havia esfriado desde o final de 1988.
Na verdade, seu interesse prosseguia, mas dificuldades financeiras alheias a sua vontade estavam protelando o fechamento do acordo, e consequente início dessa produção, concretamente falando.
Mais ou menos em março de 1989, ele voltou a dar-nos perspectiva de que estava sanando suas dificuldades financeiras e que em breve, liberaria verba para darmos início a essa produção.

Bem, hora de revelar quem ele era : o dono de uma loja na "Galeria do Rock", chamada "Devils Discos", que apesar desse nome, não era necessariamente uma loja focada no mundo do Heavy-Metal. Esse rapaz conhecido como "Chicão" (Francisco Domingos Souza), na verdade tinha postura anacrônica aos anos oitenta, pois mais parecia um hippie sessenta / setentista, fã que era de música Folk latinoamericana e acústica, nos moldes de bandas como o "Tarancón", especializada por tais tradições Folk de diversos países sulamericanos, principalmente. Portanto, chegava a ser exótico um rapaz com esse gosto musical interessar-se pelo Hard-Rock cheio de virtuosismos que nossa banda fazia nessa época. Muito gentil, calmo e educado, tinha uma postura Hippie, muito mais próxima das minhas raízes contraculturais, mas em relação àquela banda e seus outros membros, mostrava-se quase antagônica.

Enfim, seu interesse nem era pela música em si, mas por ter vislumbrado uma oportunidade de investimento, já que gostando ou não aquela estética, como homem de negócios, sabia que aquela escola estilística oitentista era uma onda que muita gente seguia na ocasião e que portanto, poderia dar impulso aos seus planos de fazer seu selo crescer. Claro que era salutar ter alguém interessado em investir e de fato, mesmo demorando mais alguns meses para isso ser formalizado e materializado-se, uma coisa tem de ser salientada : sua postura como produtor seria e foi, perfeita, do começo ao fim do processo. De minha parte, só lastimo que ele tenha conhecido-me num mau momento pessoal meu, onde deve ter ficado com a impressão de eu ser um músico / artista sem grande entusiasmo por aquele trabalho. Isso, infelizmente estava acima das minhas forças naquele instante. Todavia, sabia na época e ainda mais hoje em dia, que seu esforço para "fazer acontecer" aquele LP, foi notável.

Um acordo alinhavado em 1987, em favor da velha Chave do Sol, tomou contornos de ajuste, tardiamente, e por vias tortas...
Conforme já contei nos capítulos sobre A Chave do Sol, o Beto Cruz havia fechado um patrocínio com uma luthieria que estava entrando no mercado, chamada "Vintage", para o LP The Key, que lançamos em 1987. Porém, muitos acontecimentos fizeram com que tudo mudasse de figura, pois o combinado inicialmente não confirmou-se. Resumindo : os instrumentos prometidos não saíram da forma combinada, mas apenas o baixo tinha tal perspectiva de ser entregue, e pelo fato de que eu pessoalmente pressionei (educadamente, é claro), o luthier nesse sentido. E outro fato, após quase dois anos de espera, o rapaz em questão entregou o meu instrumento para outro luthier finalizá-lo, portanto, quando recebi-o por volta de julho de 1989, ele estava com outra marca no seu headstock (a chamada "cabeça" do instrumento, onde ficam as tarraxas), e assim, o patrocínio estava inviabilizado, tecnicamente falando, mas não por minha / nossa culpa...
Mas agora, na iminência de poder contar enfim com esse baixo, o Beto agilizou um acordo com a revista "Rock Brigade", e a luthieria "Tajima", e assim, uma propaganda saiu nessa referida revista, dando conta de que éramos patrocinados por tal luthieria.

Foto de Carlos Muniz Ventura, meu amigo fotógrafo, e coincidentemente, amigo do Luthier, Seizi Tajima, também

Era uma propaganda meio ilusória, pois não tratava-se de um patrocínio oficial e por tudo o que esclareci acima e também nos capítulos da Chave do Sol, o que valeu mesmo, além do meu baixo ter sido finalizado e entregue enfim, foi o fato da propaganda em si ter dado uma ajuda substancial na nossa divulgação. Essa foi a primeira e única vez em toda a minha carreira, que tive uma menção de patrocínio, ou "endorsement" como diz-se no jargão, pois nunca mais fui sondado por nenhum fabricante de nada que relaciona-se a equipamentos e acessórios, para tal disposição e nunca procurei ninguém, também. Conheço muitos colegas que tem muitos patrocinadores, mas eu nunca preocupei-me com isso, e sei que já fui criticado por tal postura de suposto "desprendimento", mas não é o caso. Se procurado, poderia até analisar a proposta, mas particularmente, eu nunca corri atrás disso, pois não gosto da ideia de ter que ficar vendendo a alma para ter um punhado de palhetas ou um joguinho de cordas gratuito a cada "X" tempo. Quando preciso, vou na loja, compro, e não tenho o rabo preso com ninguém. E também jamais usaria a postura de alguns colegas que ocultam marcas em instrumentos e equipamentos com fita isolante, para não fazer propaganda em fotos e /ou filmagens, para fabricantes que não "dão-lhes nada de graça".

Ora, uso Fender; Rickenbacker; Ampeg... e não espero que tais indústrias "paguem-me" por eu usar seus produtos. Abomino a ideia da mesquinharia absoluta, que transforma a cabeça de alguns colegas numa ganância sem limites, mais se portando como pilotos de F1, com dúzias de patrocínios em seus macacões. Foi essa portanto a história da Chave fazendo propaganda da Luthieria "Tajima" nas páginas da revista Rock Brigade.


Os shows estavam muito raros nesse ano de 1989, e no primeiro semestre, após aquele show no Dama Xoc, já mencionado, só tocamos no Black Jack Bar, em poucas ocasiões. Isso ocorreu primeiramente em 31 de março e 1º de abril, com públicos de 120 pessoas e 280 pessoas, respectivamente. Repetiríamos a dose em 16 de maio de 1989, com 200 pessoas na casa. Uma explicação para tão poucos shows em muitos meses, além do desânimo interno na banda, e a escassez de melhores oportunidades, também tinha um outro componente. O fato, é que Edu e Fabio estavam envolvendo-se com outros trabalhos e diante das circunstâncias, não havia como exigir deles a atenção total à nossa banda.



O Fabio estava recebendo muitos convites e passou uma boa fase viajando para Belo Horizonte, onde em princípio gravou com a banda mineira "Overdose", mas acabou recebendo outros convites, também.  




E no caso do Edu, ele formalmente entrou numa outra banda, onde vislumbrou uma oportunidade de carreira melhor que as incertezas que A Chave tinha naquele momento. Tratava-se de uma banda chamada : "Anjos da Noite", cujo vocalista era filho do cantor sertanejo, Sérgio Reis e segundo consta, o seu pai não estava medindo esforços para usar todo o seu prestígio no meio artístico, para fazer a banda atingir o mainstream. Era uma proposta musical muito mais pop do que A Chave tinha, e claro que o Edu seduziu-se por tal oportunidade, mesmo porque um de seus irmãos, e que era igualmente um guitarrista virtuose, chamado Átila Ardanuy, já era componente da banda. Enfim, daí em diante, além de todas as dificuldades que estávamos enfrentando e o meu desânimo cada dia maior, passamos a lidar também com o choque de agendas e muitos impedimentos no tocante à disponibilidade de horários para ensaios.
Pior ainda, o Edu sinalizou que usaria algumas músicas suas no disco a ser gravado pela outra banda, e não disponibilizaria-as para o nosso LP.

Isso irritou bastante o Beto, que ainda acreditava e lutava bravamente por essa banda, principalmente, mas eu estava cada dia mais alheio, e na verdade, me sentia emocionalmente fora da banda, embora estivesse protelando uma saída oficial, apenas para não deixá-la com mais um problema a resolver, tendo que procurar um novo baixista. Nesse ínterim, o produtor Chicão anunciou que estava quase pronto a dar-nos sinal verde para iniciar a produção do LP a ser gravado. Com esse clima todo que descrevi acima, era difícil reunir forças para animar-se. Mas tinha de haver um respeito um pelo outro, e sobretudo ao Chicão, que não sabia de nada disso que ocorria-nos internamente e pelo contrário, estava bem animado a produzir-nos. Portanto, isso tinha de ser levado em conta para que tirássemos não sei de onde, forças para não desapontá-lo.

Entrou o segundo semestre e dois novos shows no Black Jack Bar, seriam realizados. Estávamos muito limitados a shows esporádicos e sempre na mesma casa, mais pelo fato de seus donos serem nossos amigos, do que vivendo um momento bom na carreira. Aliás, o momento não era nada bom. Tocamos então novamente no Black Jack Bar, nos dias 14 e 15 de julho de 1989, com público respectivo de 200 e 300 pessoas. Para os padrões daquela casa de dimensões pequenas, muito bom, apesar de tudo. Uma última oportunidade de tocarmos numa casa de médio porte, ocorreria em agosto. No mesmo dia desse show, o Beto foi sozinho à emissora Brasil 2000 FM para promover tal show, durante a sua programação normal.

Novamente convocados a tocar no Dama Xoc, desta feita foi um show agendado de última hora, portanto sem muita chance de fazer-se uma divulgação decente. Dividimos a noite com uma jovem banda que praticava um Hard-Rock com bastante similaridade com o Hard setentista, chamada "Controlle", que estava para gravar um álbum, inclusive. Foi aí que conheci um bom amigo, o baixista Renê Seabra, que infelizmente já deixou-nos, recentemente (2013), de forma muito precoce e vencido por um câncer muito agressivo. Nessa noite de 9 de agosto de 1989, o público presente no Dama Xoc foi diminuto, com apenas 70 pessoas presentes. 
Veja acima, uma versão de "Paralell Paradise", proveniente desse show do Dama Xoc de agosto de 1989. Lançado por Will Dissidente no Blog A Chave do Sol em 2015. A captura de época foi de Cláudio Cruz, e a remasterização de Edgard "Bolívia Rock". 

O link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Rd7zz7bJq9k

No camarim, vieram dizer-me que os membros da banda estrangeira, "Destruction", estavam presentes assistindo-nos, mas ao contrário do que esperavam de minha pessoa, é óbvio que não comovi-me nem um pouco. Eram bem vindos como qualquer pessoa que estava ali pagando ingresso, mas eu não era nem de longe alguém simpático ao mundo do Heavy-Metal, e portanto, sabia de sua existência, mas não interessava-me nem um pouco pelo seu trabalho.
Acima, versão da música "Narrathan", também executada ao vivo no Dama Xoc em 9 de agosto de 1989. Lançada por Will Dissidente em seu Blog A Chave do Sol. Captura na época : Cláudio Cruz, com masterização de Edgard "Bolívia Rock".


O Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=E_lFkFyE1G4
Ouça, "The Call", em versão ao vivo deste show do Dama Xoc, em 9 de agosto de 1989. Lançado por Will Dissidente em seu Blog A Chave do Sol, em 2015. Captura na época de Cláudio Cruz. Masterização de Edgard "Bolívia Rock".

O Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=dA3Z_332RZg
Resenha do Show no Dama Xoc, em agosto de 1989, publicada na Revista "Rock Brigade" de outubro do mesmo ano, e assinada por André "Pomba" Cagni. Interessante a referência ao nome do álbum que ainda nem havíamos gravado, ser supostamente intitulado como "Runaway", coisa que aliás não confirmou-se a seguir, e o fato de que na foto do show em si, eu estar usando enfim o meu baixo Tajima, que havia sido entregue há poucos dias nessa ocasião, e no detalhe, um "knob" (botão), do instrumento estar faltando na foto, pois havia caído no palco logo no primeiro show, frustrando-me, naturalmente...

Alguns dias depois, faríamos o derradeiro show dessa banda, e cabe uma análise. Esse episódio, na verdade, já foi contado sob outro viés, no capítulo "Sala de Aulas", pois envolveu diretamente um aluno meu. Foi o seguinte : meu aluno Marcelo Dias, popular "Marcelo Carioca", era componente de uma banda chamada "Êxito", de São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista.
Um dia chegou na minha aula, dizendo-me que sua banda tinha conseguido uma data num dos três teatros mantidos pela prefeitura de São Bernardo do Campo, no caso o Teatro Elis Regina, e que pelo fato de sua banda ser desconhecida, não fazia sentido usarem a data sozinhos, sob o risco de não reunirem condições de arrebatarem um grande público. Portanto, fez-me o convite para que A Chave fosse escalada nessa data, e sua banda fizesse a abertura do show. Puxa, muito bacana a atitude dele em formular-me tal gentil oferecimento, mas o que ele não sabia, é que o clima era desolador nessa banda, que tinha o compromisso de gravar um disco, mas na prática, estava quase dissolvida, com apenas o Beto ainda lutando bravamente para mantê-la de pé, e talvez com apoio do Zé Luiz Rapolli, em tese. Eu estava exaurido, e Fabio & Eduardo, entretidos com outros trabalhos. Então, passei tal informação aos demais e mesmo nesse clima desfavorável da banda em processo de desmantelamento, todos aceitaram fazer o show.
Daí em diante, todo o mérito por tal produção ter sido um sucesso, deve ser creditado ao meu ex-aluno, Marcelo e seus companheiros, que trabalharam com muito afinco para tal. Muito compreensível, pois eram jovens e davam seus primeiros passos como músicos.
Essa história foi contada igualmente no capítulo "Sala de Aulas", mas agora eu avanço um pouco mais aqui.

Sob o ponto de vista do show em si, foi uma apresentação com bastante energia, pois o público respondeu com muito entusiasmo.
A banda estava dilacerada internamente, mas a sinergia no palco, com a devolutiva de um público muito quente, contagiou-nos, tornando a performance ótima, como se a banda estivesse em grande forma, e não era o caso, na verdade. Foi o último show dessa banda e dessa formação, pois a seguir só dedicamo-nos à gravação do álbum, e após o processo de gravação, um longo período seguiu-se até que o Beto novamente reformulasse-a inteiramente e tentasse prosseguir no ano de 1990, e parte de 1991.
Se A Chave nada tinha a ver com a velha Chave do Sol, embora para muitos fosse sua continuidade forçada, após mais uma reformulação e nova troca de nome (o LP que gravamos já seria creditado à uma banda chamada "The Key"), não havia nenhum cabimento em que algum fã ou jornalista ainda acreditasse que fosse uma continuidade...
Enfim, o show no Teatro Elis Regina, em São Bernardo do Campo, ocorreu no dia 13 de agosto de 1989, com abertura e preciosa produção dos componentes do "Êxito", e com cerca de 300 pessoas na plateia. Tal banda de meu aluno mudaria de nome, formação e orientação artística, alguns meses depois, e em 1990, convidar-me-iam para produzir uma Demo-Tape. Tal história, está contada com detalhes nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos" de minha autobiografia. O nome da banda tornar-se-ia : "Aura".
Algum tempo depois e eles mudariam de novo de nome para "Via Lumini", gravando dois discos e fazendo relativo sucesso entre apreciadores do Rock Progressivo setentista, tão vilipendiado e desprezado na década de oitenta. No meu caso, era adorável, é claro... sobre A Chave, só restava-nos gravar o álbum...

Entramos em processo de gravação do álbum, em julho de 1989.
O Chicão, produtor, fechou acordo com um estúdio de bom nível, mas que não era badalado no meio. E exatamente por estar iniciando-se no mercado, praticava precificação mais acessível.
Contudo, tinha uma maquinário de primeira qualidade e suas instalações cheiravam a tinta, com tudo novinho em folha e instalado num belo e amplo sobrado no bairro do Alto de Pinheiros, que é um quadrante extremamente residencial do bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, e com a maioria das casas sendo de alto padrão, ou mesmo mansões. Tal estúdio chamava-se : "Big Bang". Um dos sócios era Marcelo Galbetti, membro do Premeditando o Breque, banda contemporânea do Língua de Trapo, egressa portanto daquela cena da "Vanguarda Paulista", surgida entre 1979 e 1982, mais ou menos. O outro sócio, e que era dono do imóvel, chamava-se Marco Mattioli. Não ensaiamos muito, mas aquelas músicas eram bem rodadas, sendo que as tocávamos desde 1988 nos shows, portanto, não havia o que temer em termos de perda de tempo nos takes básicos de gravação. A metodologia foi na base do "um-por-um", portanto fizemos a captura da bateria mediante guia no primeiro e segundo dia, com o Rapolli gravando sua parte com bastante eficiência. De última hora, resolvemos gravar "No Quarter", do Led Zeppelin, e claro que era inviável inseri-la no disco por conta da fortuna que seria ter que pagar as taxas à editora que controla tal canção, mas gostamos de ter uma versão nossa dessa canção épica, talvez pelo simples prazer de ouvir em casa, secretamente. Contudo, na hora da mixagem, claro que tal devaneio foi descartado e muito provavelmente essa versão foi apagada ali mesmo em 1989, assim que deixamos o estúdio e outro cliente foi usar as fitas, prática comum em estúdios profissionais. 


A música "Before the Bridge Falls Down", era uma versão com outra letra de "Sun City", do repertório da Chave do Sol, e acho hoje em dia muito constrangedor que tal canção forjada nesses termos, tenha sido inserida no LP, embora muitas modificações na melodia principal tivessem sido efetuadas. Deveríamos na verdade, ter gravado uma música inédita e de fato, havia várias que acabaram ficando de fora da seleção final, caso de "Paralell Paradise", que era um tema instrumental do Fabio Ribeiro, muito inspirado no Prog Rock setentista e bem bonito, na minha opinião.
Algum tempo depois, já em agosto, eu passei umas três horas da minha vida gravando a minha parte, sozinho com o técnico, Michael Angel, numa noite de sexta feira, quando lembro-me que ficamos conversando animadamente sobre os anos setenta. E nessa altura, era tudo o que eu queria, ou seja, voltar para as minhas raízes e livrar-me da década de oitenta. 


Assista acima, o clip da música "When We Was Fab", do então mais recente disco do George Harrison, que havia acabado de ser lançado, e aquele mergulho na nostalgia da psicodelia sessentista começou a fazer-me crer que sim, era possível resgatar a minha verdade, e ela contrastava com o mundo oitentista hostil.
"Muito tempo atrás quando éramos fabulosos"... pois é, isso deu-me o "click" que eu precisava para dar um chute no pesadelo oitentista, e voltar a sonhar com minhas raízes 1960 / 1970... apesar de que na letra da canção, Harrison não fala em nostalgia pelos anos sessenta propriamente dita (pelo contrário, tem um certo escárnio embutido, mas tudo bem, ele era britânico e esse tipo de humor sarcástico faz parte da cultura deles), causou-me tal efeito emocional, e daí, minha vida começou a mudar, de volta às minhas raízes. Não que tivesse-as abandonado, isso jamais. Mas por um longo período (a década de oitenta inteira), convivi com a ideia de que tudo o que eu amava havia sido destruído, portanto, uma semente de esperança começou a germinar... 
 

Tal música e o disco inteiro do Harrison ("Cloud Nine"), mais o LP solo do Keith Richards também recém lançado em 1989 ("Talk is Cheap"), representavam um fio de esperança na minha combalida expectativa "vintage" e o descarte do ranço oitentista em que inseri-me por absoluta falta de escolha, estava prestes a ocorrer. Um dissabor ainda na gravação da guia, reforçava tudo o que enfatizo. Ouvindo as convenções que eu e Rapolli havíamos criado para enriquecer algumas canções, o Edu pediu para não as gravarmos, mas fazermos uma base simples, pois julgava que aquelas frases atrapalhavam-no nos seus solos. Bem, reduzido a um baixo reto, quase sem frases, a gravação do disco tornou-se ainda mais penosa para a minha discografia. Portanto, esse trabalho é certamente o mais simples que fiz em minha carreira inteira, com uma participação pífia, tocando baixo contínuo, numa nota só, na maior parte do tempo, de forma medíocre. Aborreci-me tanto com isso e somado a toda a insatisfação acumulada desde 1988, que desliguei-me completamente dessa produção, fato raro e que entristece-me, pois sempre gostei de acompanhar todo o processo.
Mesmo alheio e chateado, ainda acompanhei a gravação dos companheiros, para dar apoio moral, mas nessa altura, o Beto já sabia que eu estava desligado da banda. Aliás, esse comunicado já havia sido feito antes mesmo de entrarmos no estúdio, quando ele pediu-me para eu gravar o disco. É claro que não deixaria-o sem apoio, tampouco os companheiros e o produtor Chicão que estava super entusiasmado e gastando muito dinheiro.

Lembro-me de ter visto o esforço que o Fabio fez para gravar várias camadas de teclados, inclusive alugando um órgão Hammond e sua respectiva caixa Leslie, do Fernando Costa, o "The Crow", que deu um trabalho incrível para ser levado à sala de gravação, que só era acessada mediante uma ínfima e perigosa escada espiral. Portanto,  entendo-o perfeitamente quando dá entrevistas e sente-se chateado pela mixagem ter arruinado quase que inteiramente seus esforços, transformando a participação dos teclados nesse disco, numa mera "caminha" harmônica chinfrim, que não condizia com a técnica e criatividade de um músico de seu nível. De minha parte, nem tinha como queixar-me da mixagem, pois não participei de suas sessões, já considerando-me fora da banda. De fato, o baixo está "lá para trás", mas não importava-me muito, visto que as linhas são burocráticas, simples e sem atrativos.

Todo o trabalho de produção da capa e encarte foi feito pelo Beto e pelo Chicão. A escolha da ordem das músicas; o texto da ficha técnica e escolha das fotos, e até mesmo o título do álbum. "A New Revolution" foi o nome escolhido para esse álbum.

A capa foi obra de um rapaz chamado Marcos Aurélio, com o Logo a cargo de Sandra Regina Gonçalves Jacinto



Fotos da capa, de Eric de Haas, extraídas de dois shows no Dama Xoc, em São Paulo, em 1988 e 1989

Por problemas que eu nem sei dizer quais foram, pois já não era mais membro da banda, esse disco só foi lançado no mercado, muitos meses depois, no final de 1990, tornando sua divulgação extremamente confusa. Não tenho um recorte sequer de jornal ou revista com uma nota ou resenha sobre o seu lançamento. Nem sei se saiu algo de fato, mas claro que deve ter saído.

Não sei dizer quanto tempo mais os demais membros ainda ficaram nessa banda, pois a partir dessa obrigação moral de gravar o disco, eu despedi-me. Creio que ninguém ficou, pois soube que o Beto iniciou imediata reformulação da banda. Mas, por motivos dos quais também desconheço, que eu saiba, tal nova formação não chegou a fazer shows no final de 1989, tampouco no decorrer de 1990. Contudo, por incrível que pareça, em outubro de 1990, quando finalmente o disco ficou pronto, o Beto ligou-me para formular-me um pedido que era inacreditável pelas circunstâncias, mas que eu não poderia recusar em consideração a todo o esforço e sofrimento que esse amigo teve para manter a chama acesa (explico isso depois)...

Ouça acima o disco, enquanto lê a análise de cada faixa abaixo e leve em consideração que por enquanto não existem postagens das faixas em separado no You Tube ou outros portais, e quando houver, posto aqui, naturalmente. Eis o link para ouvir tal álbum, "A New Revolution", em sua versão integral, no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=ZWpSUkxbthY


Sobre o disco em si, apesar das contrariedades todas já expostas ao longo da narrativa, claro que tem seus méritos musicais para quem aprecia tal estética e o nível dos músicos que gravou-o é indiscutível. Eis abaixo uma breve análise, no meu ponto de vista.


Welcome (Intro)”                      


Era a introdução que fazíamos nos shows, a partir de abril de 1988 quando a banda enfim adotou postura própria, desvencilhando-se da ideia de ser uma banda montada para suprir datas da extinta, A Chave do Sol. Bem épica, lembra o "Rainbow" de certa forma. O "sinth" em forma de Chorus é bem típico desse tipo de arranjo melodramático.

“We Hear the Call”

Soa bem "modernosa", com jeito de Hard-Rock oitentista. Tem lampejos de convenções de baixo e bateria que não foram suprimidos e isso é bacana. A melodia é boa, não dá para negar e para quem gosta de virtuosismo, claro que a guitarra é excelente, inegavelmente. Os teclados ficaram muito prejudicados, pois tem intervenções de piano que são bem bonitas, mas não destacam-se exatamente por tais equívocos da mixagem. O Riff é bom e a frase padrão feita em looping, idem. 

“Before the Bridge Falls Downs”

Que ideia maluca regravar “Sun City” com modificações até radicais na linha melódica, letra e arranjos !! Por que não gravamos uma música inédita ? Que nó na cabeça dos fãs da velha Chave do Sol isso gerou, e absolutamente desnecessário. O resultado não é ruim, o arranjo novo tem seus méritos e acho que a melodia modificada é até bacana. Ouso dizer que ficou mais americanizado, no sentido pop e benéfico do termo, mas como estratégia da banda, acho um desastre.

“Storm Clouds”

Essa é ultra oitentista. Parece uma canção do “Toto”, “Journey’; “Foreigner” e similares. Até acho o refrão bom, mas a roupagem toda é muito pasteurizada para o meu gosto. O solo em parte desdobrada é bonito, não nego...

“Pretty Old Lover”

Essa talvez seja a minha predileta, pois ainda que de forma recôndita, evoca algo que remonta vagamente ao glitter Rock americano do “Edgar Winter’s White Trash” e “Shock Treatment”. Com partes bem marcadas por convenções fracionadas, dava-me tal associação com o som do albino texano e seus asseclas (sim, eu gosto do baixo do saudoso Dan Hartman !). Apesar do desastre sonoro em que esse disco, “A New Revolution” tenha revestido-se, o timbre do Fender Jazz Bass soa bem por alguns trechos dessa canção. A melodia é pop e ao final, o Beto soltou o Robert Plant que habita-o interiormente... mas apesar de até exagerar na imitação, não é que é agradável...? Baby, baby, baby... 

“Empty Bed”

Um surpreendente blues como introdução, mas claro, pelo viés modernoso oitentista, certamente pensado para soar como Steve Vai, e logo a cair num Hard-Rock acelerado ao estilo "Van Halen", que poderia constar de qualquer álbum daquela banda. Parece “Panamá”, daquela banda, inclusive... só faltava o Beto sair dando saltos pelo palco, a la David Lee Roth...
E por que aquela pasta de reverber na bateria ?? Todo produtor de discos nos anos oitenta era obcecado por essa mania, por que será ??

“Waiting for Tomorrow”

Parece a pegada do Deep Purple dos anos oitenta, com certos signos setentistas, mas mediante roupagem “modernosa”. Acho boa a melodia e o refrão, assim como o riff primordial. Aqui o meu Fender Jazz Bass soou como deve-se, e dá para sentir seu ronco característico.

“This is my Way”

Essa música é tão pop oitentista que parece estarmos ouvindo um disco do “Poison”, “Bon Jovi”, sei lá... mas reconheço que o refrão é bom, inclusive na modulação de backing vocals, todo desenhado com dinâmicas acentuadas. Tem uma pegada mais Rock’n Roll no solo, apesar do virtuosismo inevitável da guitarra.

“A New Revolution”

Outro Hard oitentista pop, é absolutamente calcado no Van Halen daquela época, via Sammy Hagar, com objetivo nítido de soar no padrão de rádio FM americana. Bom riff e melodia, não resta dúvida. Tem algumas passagens onde cometi o indefectível “slap” no baixo... onde minha cabeça estava ? Perdão aos Deuses do Rock !! Os arpejos da guitarra com aquele timbre e chorus em excesso são bem a face daquele período de fim de anos oitenta, e lembram o som do Trevor Rabin, naquele “Yes” de plástico dos anos oitenta, naturalmente.

Bem, desconheço atualmente disponibilidade das faixas separadamente desse álbum no You Tube ou outro portal de vídeos da internet, portanto, segue abaixo apenas a indicação do Link para ouvir o disco inteiro. Encerrando, músicas como “Paralell Paradise”; “Wind Blows Chill and Cold”; “Narrathan”; “Sweet Surrender”; “Open Your Heart and Your Soul”, ficaram de fora desse álbum e eram mais significativas na história dessa banda, mas na hora da escolha do repertório, optou-se por canções mais “pop”. Bem, não recrimino a intenção dessa estratégia que era válida pelo aspecto mercadológico, mas artisticamente foi uma pena, pensando em arte, exclusivamente.

Eis o link para ouvir tal álbum, "A New Revolution", em sua versão integral, no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=ZWpSUkxbthY



Continua...