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terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Patrulha do Espaço - Capítulo 3 - Eu Alimento-me do Tempo, Busco no Passado a Referência que Constrói o Presente e sou o Futuro...Viva a Chronophagia ! - Por Luiz Domingues


As previsões de Nostradamus não confirmaram-se; não aconteceu o bug do milênio; os computadores não explodiram, George Harrison sobreviveu às facadas do agressor em sua casa...
Já o ano 2000 parecia promissor para a Patrulha do Espaço.

                                 Acervo de Rodrigo Hid

Com os cachets que fizemos nos shows de dezembro no Centro Cultural São Paulo, e um show marcado fora de São Paulo para a metade de janeiro, estávamos em condições de iniciarmos as gravações do novo CD da banda.

Era um marco para nós, pois rapidamente daria um sentido artístico à volta da banda, tirando-lhe o ranço de um prolongamento de carreira inútil, como mero caça níquel em shows nostálgicos. Como já afirmei anteriormente, uma volta só faz sentido se o artista tenha lenha algo a propor, ou mais incisivamente falando, algo para acrescentar, artisticamente. Então, sob esse ponto de vista, era muito importante um disco novo mostrando essa nova formação, e sobretudo as canções novas, que levavam a Patrulha de volta às suas raízes sessenta / setentistas, pois desde 1985, com o lançamento do EP "Patrulha'85", a banda havia perdido suas características, enveredando pelo som pesado, quase Heavy-Metal. 

E no início dos anos noventa, acabou gravando um disco nessas características, e cometendo o equívoco (minha opinião, que fique bem entendido, sei que tem gente que gosta desses trabalhos e discorda do meu ponto de vista), de regravar seu próprio material.

Nesse disco "Primus Inter Pares"deve ter duas ou três inéditas, e as restantes são regravações de músicas da própria Patrulha, mas com arranjos pesados, quase no limiar do Heavy-Metal. O time de músicos formado pelo Júnior nesse LP, foi excelente. 

René Seabra no baixo; Rubens Gióia na guitarra; Xando Zupo na outra guitarra, e Percy Weiss nos vocais. Mas, infelizmente, apesar da qualidade musical da gravação, e performance individual muito boa de cada um, o resultado não agrada-me, exatamente pelo ranço de Heavy-Metal oitentista, ali presente.

Interiormente falando, eu não via a hora de gravar o novo material e tirar esse ranço.

E assim, preparamo-nos nos primeiros dias de 2000, fazendo os ensaios ainda no estúdio do Paulo Antonio Pagni ("P.A."), com o objetivo de aprontarmo-nos para o estúdio. Antes porém, tínhamos um show pela frente. E não era apenas mais uma data a ser cumprida, mas o nosso primeiro show fora de São Paulo, portanto um grande marco para a banda, que literalmente cairia na estrada.

Esse show estava marcado para a cidade de Praia Grande, litoral sul de São Paulo. Nem era uma viagem tão longa assim, pelo contrário, pois a Praia Grande é um município que faz parte da chamada "Baixada Santista", uma concentração de cidades agrupadas no entorno da cidade de Santos, a principal cidade daquela região litorânea do estado de São Paulo. Para tanto, contratamos um micro-ônibus, que por acaso pertencia a uma empresa de turismo, de quatro primos meus. E que por gostarem de Rock, batizaram-na de "Magic Bus". Nada melhor para os anseios da Patrulha naquele momento, do que cair na estrada num ônibus com esse nome, evocado direto da egrégora do The Who...


A grafia do nome da empresa de meus primos, teve que ser alterada, por motivos de direitos reservados, mas a intenção era mesmo fazer alusão ao The Who...

Patrulha do Espaço pronta para viajar ao litoral com o "Magic Bus". Na frente de todos, Carlos Fazano, então guitarrista do "Supernova", que viajou conosco.

Esse primeiro show fora de São Paulo, foi bastante excitante para nós nesse sentido, pois representava o coroamento de todo o esforço do projeto Sidharta para eu e os meninos, e certamente representava para o Júnior, um renascimento da Patrulha em moldes que ele devia sonhar, mas há anos não conseguia concretizar.


Foi uma viagem tranquila e bastante prazerosa, com a banda animada, e sob espírito de companheirismo, camaradagem e sobretudo, alegria por estarmos dando um passo importante ao iniciarmos uma fase de apresentações em outras cidades, além de São Paulo. Realizamos a viagem inteira assistindo vídeos que levei do meu acervo. Lembro-me de termos visto as biografias do "The Yardbirds" e "The Animals"; um especial acústico do "Black Crowes", e um documentário sobre o "Jethro Tull".                             

 Claudia Fernanda, a produtora da Patrulha do Espaço, à época

Praia Grande fica muito próxima da capital, São Paulo, portanto, em questão de 1 hora, já estávamos rodando na principal avenida daquele município, a Avenida Kennedy, procurando pelo endereço do local onde apresentar-nos-íamos. Na comitiva da Patrulha, levamos dois roadies : Toni Rodrigues Peres (ex-guitarrista da banda Essex, irmão do meu ex-aluno Alexandre "Leco" Rodrigues Peres e também ex-roadie do Pitbulls on Crack), daí eu tê-lo indicado num primeiro instante.

Carlos Fazano, que acompanhou-nos nesse show na cidade de Praia Grande / SP
 
E também, Carlos Fazano, guitarrista da banda "Supernova", e que conhecera logo no início de meu período de aulas, em 1987, no Jardim Bonfiglioli. Eu sempre tentava ajudar os dois da melhor maneira que eu pudesse, e assim, coloquei-os na equipe para esse show.

Chegamos bem no local do show, e o clima na viagem foi o melhor possível. O ônibus era muito confortável, e divertimo-nos a viagem toda, pois eu levei várias fitas VHS de shows e documentários bacanas, conforme já mencionei anteriormente.

Eu observava o clima de companheirismo entre todos, e posso incluir o meu primo, Helder Pomaro entre nós, por também estar integrado, e apreciando muito a viagem, apesar de obviamente estar focado em dirigir o micro ônibus com segurança. Chegamos ao local do show, e arrumamos tudo com rapidez.

Tratava-se de um salão rústico, de propriedade de um moto clube local, cujo nome era "Renegados Bar". Lembro-me de termos recebido a visita de um produtor fonográfico independente, que chegou bem cedo, e acompanhou toda a preparação e soundcheck, esticando até o show.




 
Montando o palco e realizando o soundcheck, no período da tarde no Renegados Moto Clube de Praia Grande / SP

Ele sondava a banda para talvez lançar o álbum que começaríamos a gravar no final de janeiro de 2000, e de fato, a conversação avançou por semanas, mas o desfecho não foi bom...

Estávamos também estreando o nosso primeiro banner de fundo de palco, que havíamos mandado fazer logo no início do ano, graças aos cachets que angariamos em dezembro de 1999.


 
Palco montado e pronto para o show do Renegados Moto Clube

Fomos descansar num hotel próximo, e quando voltamos para o show, verificamos que a casa não estava lotada, mas quem compareceu, era realmente um público antenado. Eram Rockers que vieram principalmente de Santos, e assim que passamos por eles, para dirigirmo-nos ao palco, fomos saudados com gritinhos de euforia.


 
Depois, uma moça que ali conhecemos e tornar-se-ia uma peça importante como convidada para o CD "Chronophagia", contou-me que essa euforia fora instantânea, só por verem-nos vestidos como Rockers setentistas. O show foi esplêndido.


 
Era um público pequeno, mas enlouqueceu do começo ao final. Quando tocamos "Sendo o Tudo e o Nada"; "O Pote de Pokst", e "Sr. Barinsky" entre outras, houve momentos de comoção, que impressionaram-me profundamente, ao ponto de ir além da emoção momentânea, mas fazendo-me racionalizar a situação de uma forma muito positiva. Enquanto tocava, e via aquela euforia, era inevitável não imaginar que aquela emoção gerada multiplicar-se-ia doravante, e o reconhecimento do extraordinário talento de Rodrigo e Marcello, aliado ao alto nível e bagagem do Junior, reconhecidamente um baterista de nível internacional, mais a qualidade das canções, e sobretudo pela atmosfera de "Good Vibes" que estávamos resgatando, levar-nos-ia ao sucesso, até extrapolando os limites do nicho do Rock underground, onde habitávamos.

Eu observava aquelas reações de euforia, e aquilo parecia-me uma projeção do futuro da Patrulha, com essa guinada de volta às suas raízes, além do reconhecimento do talento sem igual dos dois jovens multi-instrumentistas. Aquilo que eu sabia desde os primórdios do Sidharta, estava materializando-se na minha frente.

O público enlouquecendo com a polivalência de ambos, trocando de instrumentos o show inteiro e desempenhando com extrema categoria, todos eles, o que era de fato, impressionante. Nesse show do "Renegados Moto Clube", eles arrancaram gritos de euforia, e eu tive a epifania que seria o começo de um sucesso enorme.



Encerrada essa jornada Rocker, com toda a sua glória sessenta / setentista, voltamos para São Paulo contentíssimos com o desempenho artístico, além de um cheque no bolso, que garantia o início das gravações do novo CD. Tivemos problemas com os dois roadies, mas não vale a pena esmiuçar aqui. Infelizmente, o Júnior aborreceu-se, e não quis mais a presença de ambos na equipe.



Para encerrar esta etapa, resta dizer que a moça que conhecemos era a vocalista Alexandra "Joplin", que era uma das melhores cantoras cover da Janis Joplin, no estado de São Paulo.

O Júnior que havia visto uma apresentação dela na baixada santista, sabia de seu potencial vocal, e convidou-a a participar do disco "Chronophagia", coisa que contarei mais para a frente. E assim foi o nosso primeiro show fora da cidade de São Paulo...
Ele ocorreu no dia 14 de janeiro de 2000, no Renegados Bar, de Praia Grande / SP. O público naquela noite, foi de 120 pessoas.

Passada a data desse show no litoral, a concentração foi total na pré-produção da gravação do novo disco.

Providenciamos equipamentos e instrumentos que gostaríamos de ter além dos nossos, como reforços para a gravação, e fazíamos contatos para alinhavar os convidados especiais que tocariam no disco, e toda a parte burocrática.

E logo surgiu a ideia também de fazermos um show no próprio espaço do estúdio, e aproveitar todo o equipamento para gravar também o show e dessa forma, termos opções de músicas ao vivo para um futuro lançamento. Claro, com isso, dobrou o nosso trabalho, pois acumulando as gravações, tínhamos que preparar o show e sobretudo esmerarmo-nos para divulgá-lo convenientemente.

Cabe explicar que o estúdio Camerati funcionava numa charmosa casa com arquitetura arrojada, e que houvera sido residencial.
Ficava no elegante Bairro Jardim, da cidade de Santo André, na região do ABC paulista. Era na verdade, um mini Centro Cultural, com o estúdio funcionando numa construção erguida no quintal da casa, com um belo jardim.

Na parte da frente da casa, os quartos foram adaptados como salas de reunião e escritórios, e um amplo salão, onde antes devia ser uma enorme sala-de-estar residencial, era um auditório que poderia abrigar cerca de 200 pessoas, para shows. Contudo, o Camerati que fora um estúdio badalado e caro no final dos anos oitenta e início dos noventa, passava por um processo de profunda decadência. Fazia tempo que não promovia shows em seu espaço, e o aspecto era de abandono, com sujeira e mobília velha, e mal cuidada. Na parte do estúdio, a limpeza também já não era exemplar, e o equipamento ainda que funcionando, estava antiquado. Nós comemoramos o fato de gravarmos ainda em sistema analógico, usando a velha máquina "Ampex" de 24 pistas, e a mixagem seria no método antigo de "pilotagem", com várias mãos tendo que colaborar nos momentos estratégicos de mudanças, etc e tal. Mas, se queríamos fazer som vintage, tudo isso estava vindo a calhar, com os nossos propósitos de resgate sonoro 1960 / 1970. 

O primeiro dia de gravação ocorreu em 26 de janeiro de 2000, mas no dia 25, fizemos toda a preparação do estúdio, visto que decadente, não tinha clientes além de nós. Sendo assim, tivemos toda a liberdade para arrumar todo o equipamento da maneira que queríamos, e ainda por cima, decorá-lo à vontade. Levei inúmeras fotos de artistas do Rock dos anos 1960 e 1970; ícones da contracultura; esoterismo & afins.
Colocamos essas figuras espalhadas pelo estúdio inteiro, e diversos incensários, sempre com incensos queimando a exaustão. Durante aqueles dias, raramente ficávamos ali sem que pelo menos um incenso estivesse aceso. No final, tínhamos ali uma autêntica "Tenda Hippie", armada. Toda essa atmosfera foi amplamente fotografada e filmada, mas esse material ficou com o Júnior, e não sei se ele providenciou a sua digitalização. Tomara que sim !!

Levamos o órgão Hammond do Rodrigo, que era um estorvo para ser transportado, mas vital para os nossos propósitos. Nossa aparelhagem foi reforçada por alguns equipamentos emprestados gentilmente por amigos, e o restante estava a contento. Naquele instante, estávamos 100 % afiados para gravar, e a animação era total entre nós.


Sala da técnica do Estúdio Camerati em janeiro de 2000.  De costas, usando camisa colorida, Paulo Zinner ao lado do técnico, Zoroastro Barany. Em pé atrás, Rolando Castello Junior; Sentados : Luiz Domingues e Marcello Schevano (encoberto pela máquina de gravação, "Ampex". Foto : Eduardo Donato

Particularmente, eu olhava aquele estúdio repleto de equipamentos, e aquelas fotos pelas paredes, e tinha um imenso orgulho por ter batalhado tanto para promover esse sonho, desde muito tempo antes. Mesmo antes do Sidharta nascer oficialmente, aquilo remontava à lata psicodélica do Pitbulls on Crack; recuava aos anos 1980 com todas as frustrações decorrentes das adversidades estéticas daquela década; continuava a jornada retroativa, e encontrava-se com o adolescente Luiz Domingues nos anos setenta, e seus sonhos...

Foi um momento bonito para a minha trajetória pessoal, ver aquele "circo Hippie" montado, e diante do que expus acima, todo o esforço para chegar à concretização desse momento. Adoraria ver as filmagens da gravação desse disco, pois lembro-me bem, foram diversas fitas gastas nessa operação, e cada canto daquele estúdio foi enquadrado pela câmera. 

Marcello Schevano gravando flauta na primeira foto e abaixo, a banda posando com Paulo Zinner, produtor do álbum, na técnica do Estúdio Camerati. Janeiro de 2000. Fotos : Eduardo Donato

Então, deixando tudo arrumado na véspera, iniciamos os trabalhos efetivamente no dia 26 de janeiro de 2000. Tradicionalmente, iniciamos pelo levantamento do som da bateria, após o término da fase de microfonação.

Apesar de estar decadente, o Camerati não tinha falhas técnicas, e estava tudo funcionando perfeitamente, ainda bem.

O Júnior montou sua Pearl na parte mais ampla, com bastante possibilidade de obter um reverb natural muito intenso, a la John Bonhan, nos discos do Led Zeppelin. O set de baixo foi montado numa casinha fechada, porém envidraçada. Ali pude tocar com um volume muito alto, mas a questão da timbragem, foi muito prejudicada na gravação desse disco, por um problema que relatarei logo mais.

Luiz Domingues gravando os baixos do CD "Chronophagia", em janeiro de 2000 

Tinha tudo para ficar incrível, com essa ambientação, mas não ficou como deveria, infelizmente, e isso eu explico depois. O set de teclados ficou numa lateral do amplo salão, escorado por biombos. Colocamos o Hammond numa parede, e o piano acústico, na outra.

Aliás, esse piano estava com teclas quebradas, e completamente desafinado, naturalmente, mas alguns dias antes de gravarmos, o Marcello bancou os reparos, e um senhor idoso, afinador, trocou teclas; cordas arrebentadas, e afinou perfeitamente o piano. E o som dele no disco, soou bem legal. Finalmente, o set de guitarras foi montado na parte traseira do salão, onde também com biombos, os dois puderam gravar num volume ensurdecedor, esquentando as válvulas dos amplificadores ao máximo, aproveitando a sua respectiva saturação.

O objetivo era ganhar tempo, e gravar pelo menos três dos quatro instrumentos básicos. A ideia era que gravássemos somente as bases, deixando os solos para sessões especificas. Dessa forma, bateria; baixo, e pelo menos um dos instrumentos harmônicos, estava sempre "valendo" nessas sessões iniciais. Particularmente não gosto de gravar assim, preferindo o método tradicional de um por vez, mas gravar ao vivo com a banda toda tem seus encantos também, pelos fatores emoção; empolgação, garra etc. Tudo isso foi amplamente fotografado e filmado.

Na primeira foto, infelizmente sem qualidade técnica, a banda reunida num desses dias de gravações do CD Chonophagia. Na segunda, Rolando Castello Junior preparando o gongo que usou na faiza "Sendo o Tudo e o Nada". Fotos : Eduardo Donato

Foram três dias de gravações seguidas. Começávamos as 15:00 h. e esticávamos a exaustão, varando a madrugada. Enfim, conseguimos gravar todas as bases. Baixo; bateria, e várias bases de guitarra e teclados, foram finalizadas nesses dias iniciais de trabalho. E a ideia de fazer um show no meio do caminho, no mesmo espaço do Camerati, estava confirmada. Para tanto, na semana anterior, fizemos um agito de divulgação, pois na semana de gravações isso seria impossível. Claro, aproveitaríamos toda a estrutura do estúdio para gravar o show.  

Zoroastro Barany, popular "Zôro", e que pilotou os botões na gravação do CD Chronophagia e também na captura do show ao vivo. Foto : Eduardo Donato

O técnico Zoroastro Barany, "Zôro", teve um trabalho insano, pois teve que esticar dúzias de cabos, com um multicabo enorme, ligando o mini palco do salão de shows, à sala da técnica do estúdio. Era uma distância razoável, pois, havia um quintal ajardinado no meio do caminho, com árvores e bancos, parecendo uma pracinha interiorana. 

E como o estúdio estava em processo de desmanche, o Zôro trabalhava sozinho. Algumas vezes aparecia um outro técnico lá, mas como visitante. Era o Daniel "Lanchinho". Ele era solícito, e quando aparecia, ajudava de forma altruísta, mas não era uma constante. Esse Daniel parecia mais experiente que o "Zôro", e houvera sido técnico do Camerati anteriormente, portanto, conhecia bem o estúdio, e seu equipamento. Naquele momento, trabalhava em outro estúdio, mas vez por outra aparecia para acompanhar a nossa gravação, e dar sua ajuda. Ele tinha o apelido "Lanchinho", porque começou a sua carreira de técnico como office-boy do estúdio, e invariavelmente era designado para ir comprar lanche para os técnicos e artistas que ali trabalhavam, durante os anos de "vacas gordas" do estúdio, com grandes artistas ali gravando. No dia do show / gravação ao vivo, ele apareceu, mas não chegou cedo, portanto, o trabalho pesado ficou mesmo para o Zôro. Ter que microfonar tudo foi uma loucura. E tivemos todo o trabalho de tirar o nosso equipamento de dentro do estúdio, e o deslocarmos para o salão do show...

Transportar o órgão Hammond do Rodrigo era a tarefa mais penosa e delicada, pois além de pesado, tinha todo o cuidado com a questão de balançá-lo o menos possível, devido ao seu motor, cheio de componentes frágeis e principalmente o corpo externo, com teclas e botões do draw bar, tudo vintage.

E uma surpresa foi armada pelo Paulo Zinner e a Claudia Fernanda, então namorada do Júnior. Eles comunicaram-me previamente a sua intenção, mas pediram-me sigilo. No dia do show, o Júnior chegou ao Camerati e teve uma surpresa incrível : a sua ex-bateria Ludwig, com a qual tocou e gravou diversos álbuns da Patrulha !!


Eles localizaram o atual dono do instrumento e alugaram-na com o intuito desse show ao vivo ser feito com ela. Foi uma incrível surpresa para o Júnior que emocionou-se, claro, pois aquela Ludwig marrom tinha muita história para contar.


 
Foi com ela inclusive, que a Patrulha abriu o show do Van Halen em 1983, e particularmente, foi a primeira coisa que vi quando entrei no Ginásio do Ibirapuera, naquela noite quente de janeiro de 1983.
E não foi só esse trabalho duro de preparação do palco / gravação do show ao vivo que tivemos.


Com o Camerati decadente, não havia nenhuma estrutura disponível. Tivemos que alugar um P.A. para o show; iluminação para reforçar os poucos spots que ainda funcionavam no salão, e providenciar pessoas para cuidar da bilheteria; bar (tivemos que providenciar tudo; das bebidas ao material de limpeza), e principalmente pessoas para suprir todas as funções.

Da esquerda para a direita : Paulo Zinner; Rolando Castello Junior, e o dono da Ludwig que pertencera ao Junior nos anos 1970 / 1980

Isso sem contar que tivemos que providenciar cortinas, pois o salão estava desfalcado; sem cenário; estrutura cenográfica, coxias etc.
Era um espaço em processo de extinção, infelizmente, e a Patrulha do Espaço era o seu "Canto do Cisne", tanto em termos de gravação, como show ao vivo. 

Era o dia 29 de janeiro de 2000.

Montamos toda a estrutura para o show & gravação, e a organização toda do evento. Contamos com o apoio de vários amigos, é verdade. Roberto Garcia ficou no bar; Ricardo Schevano ajudou a Claudia Fernanda na bilheteria, e o Eduardo Donato filmou, e fotografou o show.

Não compareceu muita gente. Digamos que naquela correria, falhamos na divulgação, mas mesmo assim, 120 pagantes deram o ar de sua graça, e uma renda ainda que pequena, certamente ajudou no esforço para bancar a gravação do CD.


 

E o melhor de tudo : saímos dali com uma gravação ao vivo; com tudo microfonado devidamente; órgão Hammond e piano acústico, fora a bateria Ludwig gigante, onde o Júnior tocou como nos velhos tempos, fazendo viradas bem ousadas.


Dessa gravação, algumas músicas foram incluídas na Coletânea "Dossiê Volume 4", que o Júnior lançou em 2001, como bônus, e certamente irei comentar sobre esse álbum na cronologia correta.


Estávamos afiados por conta da sequência boa de ensaios e shows, e principalmente por conta das sessões de gravação. Por isso, a despeito da loucura toda, e do pouco público presente, foi uma excelente apresentação, tal como houvera sido no show da Praia Grande, duas semanas antes.

Existe, portanto como já disse, uma gravação em fita de 2 polegadas, mais vídeos amadores, mas com razoável qualidade e muitas outras fotos desse show, que um dia o Júnior pode lançar. Fora as músicas "live" desse show, que entraram no disco Dossiê Volume 4. 

Realmente o P.A. que contratamos era insuficiente para conter a massa de amplificadores, com direito ao órgão Hammond genuíno, e com seu peso característico. Em alguns momentos ficamos meio sem referência de retorno, devido a pouca potência do P.A. "simplesinho" que havíamos contratado. 

Contudo, foi assim que nos apresentamo-nos...
O público era animado. Meu exército Neo-Hippie compareceu em peso. Alguns fãs do ABC, lógico, também. Com pouca divulgação, lamentamos que não viessem mais. 

Junior e Paulo Zinner, com o atual dono da bateria Ludwig que pertencera-lhe nos anos 1970 e 1980. Sentada ao lado de Zinner, a produtora Sarah Reishdan. Em pé, o empresário do Paulo Zinner à época (Wagner Silvestre), e a esposa do dono da bateria.

Cerca de dois anos depois, eu estava visitando uma loja da Galeria do Rock em São Paulo, e o lojista apresentou-me a um sujeito alemão que tinha um site sobre Hard Rock. O rapaz não entendia nenhuma palavra em português, mas ficou entusiasmado com a minha presença, pois assistira o show do Camerati in loco !! 

E após fornecer-nos o endereço virtual, pudemos ver que tinha uma resenha do show publicada no seu site, com fotos e tudo. Ele havia  entusiasmado-se, pois escreveu vários elogios à nossa performance, que legal. Contudo, esse mesmo sujeito ficou sabendo que eu tocara numa banda pesada dos anos oitenta, e como seu negócio era o Heavy-Metal, talvez ele tenha pensado que minha ex-banda, A Chave do Sol, tivesse tais características, ou mesmo mediante informações dos lojistas a meu respeito. Só sei que tempos depois fui informado que no site do rapaz, ele havia resenhado o LP "The Key", daquela banda, e falou muito mal, classificando-o como "entediante". Até aí tudo bem, não incomodar-me-ia com uma opinião desagradável sobre um trabalho meu, mas o problema é que essa resenha foi usada como texto base para descrever A Chave do Sol no "Wikipedia", e como demorei anos para inserir-me no mundo virtual, só muito tempo depois pude eu mesmo suprimir esse texto pobre e infame, e elaborar um histórico a altura da carreira daquela banda. Mas claro, aqui o assunto é Patrulha do Espaço, e isto foi só um parênteses motivado pela coincidência. Terminado o show, combinamos de voltar no domingo à tarde para ajudar o "Zôro" a desmontar toda a parafernália, e ouvirmos a gravação do show ao vivo. Ficamos entusiasmados, pois mesmo com erros, muitas músicas poderiam ser aproveitadas posteriormente, como de fato aconteceu, com várias entrando como bonus tracks na coletânea Dossiê Volume 4, no ano de 2001.

Patrulha do Espaço + Ricardo Schevano (usando camiseta do Grand Funk), e Marcelo Bueno (primeiro à direita)

Como todas as bases do disco Chronopahagia estavam prontas, iniciamos a partir da semana subsequente, a gravação de solos; vocais; participação de convidados, e por fim, a mixagem.


No dia da sessão de gravação do grande Manito (segundo, da esquerda para a direita), que imortalizou um sax sensacional em "Sunshine". Foto : Eduardo Donato

E foi então iniciada a segunda etapa das gravações. Com baixo; bateria; e muitas bases de teclados e guitarra prontas, começamos as sessões de gravação de solos. Foram dias memoráveis de gravações.

Muitos momentos mágicos de inspiração por parte do Rodrigo e do Marcello, fazendo solos infernais de guitarra, e teclados, ambos.
Lembro-me bem de uma sessão onde o Rodrigo gravou o solo de "O Pote de Pokst", utilizando uma câmera de eco Eco Sound, aquela bem típica dos anos setenta. Ele usou-a em partes de efeitos, onde sua guitarra simulou ruídos de pássaros, gaivotas para ser preciso, deixando o final da música bem emocionante, e a altura das tradições melódicas do Rock sessenta / setentista. E começaram a gravar também, os convidados do disco.



Lembro-me bem da presença da vocalista Alexandra "Xandra Joplin", que veio gentilmente de Santos, no litoral do estado, para colocar sua voz nas músicas "Sunshine", e "Terra de Mutantes".
Numa sessão ocorrida num domingo a tarde, Paulo Zinner, e o técnico de som, Daniel "Lanchinho", gravaram percussões na música "Ser".


 
Paulo gravou um micro solo de timbales, enquanto o Daniel tocou uma Conga bem "nervosa", simultaneamente. Mas o dia mais emocionante nas sessões de convidados, certamente foi quando o Manito apareceu para gravar um solo de sax, na música "Sunshine". 

Realmente, foi muito bonita a participação dele. Ele gravou em take único, sem ao menos ouvir a música previamente. Fez um solo de arrepiar, e continuou fazendo frases na parte final, numa intervenção que não era prevista por nós, mas ficou tão lindo, que deixamos assim na edição final da mixagem.

Eu, Luiz Domingues; Manito; e sua esposa na ocasião, ouvindo o resultado da gravação de seu solo na música "Sunshine"

Gravadas todas as partes instrumentais, finalizamos os vocais com tranquilidade. Já na metade de fevereiro de 2000, estávamos no processo de mixagem em andamento. A ideia dos convidados foi do Júnior, e os esforços de pré-produção, idem. O Paulo Zinner foi fácil e lógico, pois estava produzindo o disco. O Daniel "Lanchinho" foi uma opção inesperada que deu certo, pois até então nem sabíamos que ele era músico, e "pilotava" congas com desenvoltura. Já no caso da Alexandra, era uma observação antiga do Júnior que já conhecia-a vendo-a atuar como Janis Joplin cover.


 

 
E quando fomos tocar na cidade de Praia Grande, no início de 2000, ela estava presente, e foi feita uma troca de contatos.
Já o Manito, foi um pouco mais trabalhoso, mas deu certo, ainda bem.

Lembro-me bem que por uma certa imprudência de nossa parte, amigos apareceram na sessão em que o Manito iria gravar sua participação, e ficamos sem jeito para pedir-lhes que retirassem-se. Dessa forma, o estúdio lotou de curiosos, indevidamente. Isso foi desagradável, claro, mas o Manito, super experiente que era, nem intimidou-se, e gravou a sua participação com a exuberância de sua condição de virtuose, que era.



                     Ricardo Schevano; Rodrigo Hid, e Manito              

Todos os vídeos das gravações do "Chronophagia'' ficaram com o Júnior, e pelo que eu saiba, ele ainda não providenciou a digitalização desse material. Tendo novidades sobre isso, reabro os capítulos concernentes a essa etapa do relato, e acrescento-os, naturalmente. 

As sessões de gravação foram amplamente filmadas, e daria para fazer um documentário só falando desse disco. Isso inclui a participação do Manito, e seu sax inspirado.

Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Manito; Rodrigo Hid; Marcello Schevanno; Rolando Castello Junior, e Paulo Zinner

As sessões de violões acústicos; flautas e backing vocals, também foram inspiradoras ao extremo. Foram tardes; noites, e madrugadas quentes de calor de verão, trabalhando nessa fase, e regado a muita Coca-Cola; pizza, e lanches na padaria que ficava em frente ao estúdio, aliás, muito boa...

A percussão da música "Sr. Barinsky (Admirável Sonhador)", foi concebida para ser Beatles total... com uma boa dose de loucura, mas também uma porção de ingenuidade infantil, de "parquinho de diversão" de antigamente.

Sinceramente, acho que há um certo exagero no arranjo da percussão, todavia. O Junior alertou-nos sobre tal abuso do elemento lúdico, na hora, mas insistimos, achando bonito naquele instante, e assim ficou no disco. Hoje, acho que o Junior tinha razão, e eu teria suprimido aquilo...

As sessões de mixagem foram a moda antiga, pois estávamos gravando de forma analógica e dessa forma, as mixagens eram sujeitas a horas e horas de correções manuais, e na hora de fazer a edição final, teve músicas que chegaram a requerer a presença de quatro ou cinco pessoas ajudando para dar conta, humanamente falando, da operação de "pilotagem" de tantos botões.

Por ser baterista, Paulo Zinner era um perfeccionista nesse quesito, e praticamente pilotou todas as viradas do Júnior, em todas as músicas. Claro, isso foi um exercício de paciência, pois eram 15 faixas (só a instrumental de violão solo,"Epílogo", não tinha bateria). O Daniel "Lanchinho" acabou envolvendo-se, mesmo não sendo contratado. Como era ex-técnico do Camerati, e praticamente o professor do Zoroastro "Zôro" Barany, conhecia bem o estúdio, e o seu equipamento. Portanto foi uma pessoa que acabou somando.

            Zoroastro "Zôro" Barany, na pilotagem do Camerati

Como delegamos a tarefa da produção ao Paulo Zinner, deixamos, literalmente, que Paulo; "Zôro", e "Lanchinho", trabalhassem a vontade na mixagem do álbum.



Então, foram dias e dias de presença ociosa no estúdio. Ficávamos andando pelas dependências do estúdio, muitas vezes sentados nos bancos do jardim de inverno, etc. Só éramos chamados à técnica para ouvir o resultado final de cada faixa, e aí, fazíamos as nossas observações, e em caso de desagrado, expúnhamos nossas reivindicações de mudanças.


Como esse processo é sempre delicado, e muitas bandas brigam e dissolvem-se na hora de mixar um álbum, o Júnior teve essa ideia de chamar o Zinner, e outorgar-lhe o papel de produtor, com sua decisão final sendo a definitiva, mesmo que houvessem discordâncias. A despeito do Camerati estar num processo de dissolução, com um equipamento ultrapassado, e sem muita manutenção, acredito que o resultado foi de razoável para bom.


Digo isso, sem medo de errar, pois acredito que as músicas e os músicos eram muito bons (perdão pela falta de modéstia ao incluir-me nesse rol), e pelo material humano, e artístico envolvido, creio que merecíamos algo muito melhor. 


Outro ponto : o grosso desse material, foi composto com uma carga emocional tão grande, e tão bem intencionada em seus propósitos artísticos, que eu realmente estou convicto que merecia ter tido um resultado de áudio melhor, na mixagem e masterização.

 

Falando do disco em si, sem dúvida que deveria ser melhor.
Contudo, foi a melhor oportunidade que arrumamos à época e claro, a grande barreira que impediu-nos de buscar um estúdio melhor, era a financeira. 

O Camerati em seu auge, chegou a ser um estúdio sofisticado, e bem frequentado por artistas de médio porte. O problema é que estava em processo de sucateamento, e seu dono nessa fase final, o cantor e compositor Belchior, não tinha nenhum outro interesse a não ser vender o equipamento, e devolver o imóvel ao proprietário.
Aliás, o proprietário já estava com ele praticamente vendido. De fato, poucas semanas depois que encerramos a mixagem do CD "Chronophagia", o imóvel foi remodelado, e tornou-se um restaurante japonês... 

Quanto a sonoridade do nosso disco, apesar de estar em desmanche, o Camerati poderia ter rendido um pouco mais para nós, mas não o foi, muito por convicções sonoras técnicas dos técnicos Zôro e Lanchinho. Eles eram competentes e solícitos, não é essa a minha queixa. O grande problema era a concepção de áudio que eles tinham. Para ser específico e fazer-me claro, citarei o caso do meu som, em particular. Eu gravei esse CD com os mesmos baixos; mesmo amplificador, e caixas que usei nos demais discos da Patrulha, e nos dois do Pedra. 

Ouça Chronophagia, e ouça os três do Pedra, e mesmo sendo o mesmo baixista; com os mesmos baixos, e o mesmo equipamento, a diferença é brutal. No caso do Chronophagia, o técnico Zôro tinha a concepção de gravar a banda inteira em Flat. Isso significa que ele queria gravar todos os instrumentos com a equalização achatada na região média, e na mixagem, dizia que buscaria as correções de graves e agudos, alcançando os timbres desejados para cada instrumento.

No meu caso, tinha planejado desde o tempo do Sidharta, praticamente, com qual baixo pretendia gravar cada música. Cada uma requeria uma característica sonora, e como possuía três baixos de timbres distintos e marcantes (Fender Jazz Bass; Fender Precision, e Rickenbacker), podia dar-me a esse luxo, e o trabalho merecia esse requinte. 

Num Rock progressivo como "Sendo Tudo e o Nada", que tinha frases bastante agressivas ao estilo do Chris Squire, o Rickenbacker bem agudo era essencial. Nos shows ao vivo, determinados trechos mais ousados dessa música, arrancavam uivos da plateia mais antenada nesses detalhes, e era essa atmosfera que eu queria registrar no disco.

Já numa música como "Sr. Barinsky", eu usei o Fender Jazz Bass, com um registro bem grave, e muito " aveludado", aproximando-me ao máximo do som de baixo do Paul McCartney nos Beatles, e assim por diante, cada música tinha uma caractarística diferente (em "Ser", o Fender Precision, com som metálico, e pesado, remetia ao baixo de Mel Schacher, do Grand Funk). Mas na mixagem, a realidade foi que o Zôro nada pode fazer para respeitar a característica de cada instrumento, pois com o sinal achatado em todas as faixas, praticamente todas as músicas ficaram opacas, sem distinções como eu desejava. Nos discos do Pedra, o som de baixo capturado pelo técnico Renato Carneiro, foi tão magnífico, que tornou-se referência para vários baixistas. Cada baixo, soa com seu timbre característico, e o "Chronophagia" deveria ter tido isso também. O segredo : o Renato deixou eu timbrar os meus baixos exatamente como eu queria, e usou seus conhecimentos técnicos para angular os microfones da melhor maneira possível, para capturar com fidedignidade, o som natural do instrumento; amplificador, e caixas. E com três baixos bons e caixas Ampeg, não há como errar, a não se que insista-se em deixar a equalização do amplificador "flat", como o Zôro fez nas gravações do Chronophagia, infelizmente. Só lamento, pois Chronophagia diz muito para a minha trajetória, particularmente, e precisava ter o som de baixo igual aos que eu tenho nos discos do Pedra.

A questão do Paulo Zinner ser o produtor do álbum deveria ter resolvido esse impasse, mas não mudou nada nesse quesito das equalizações flat dos baixos na resolução do áudio final, pois quanto ao aspecto técnico de áudio, ele também não tinha grandes conhecimentos, e sendo assim, confiou na concepção em que Zôro e "Lanchinho" haviam cismado. O papel dele foi mais de produtor artístico, e ateve-se mais aos detalhes musicais em si. A captura do som ficou a cargo do Zôro, e do agregado Lanchinho. 

Reafirmo, eles eram (são), muito bons técnicos, mas tinham essa concepção de gravação, capturando o sinal primordial de forma flat, para corrigir as frequências a posteriori na mixagem. Eu não entendo de áudio, nem 1% do que eles entendem, mas acho esse esquema errado para banda de Rock, principalmente se interessada em estética sessenta / setentista. Talvez funcione com outros estilos musicais (o Zôro fazia muitas gravações para artistas de pagode e axé music por exemplo, e o "Lanchinho" era especialista em blues).

Para uma banda com as nossas características, buscando "timbrões" vintage como o Black Crowes e Lenny Kravitz faziam nos anos 1990, nós deveríamos ter tido outro plano de gravação. Em relação a uma reclamação não generalizada, mas que existe da parte de alguns, dando conta de que o CD quando ouvido num volume muito alto, sofre problemas de distorções, devo esclarecer de que se isso existe, é variável de um aparelho para outro. Eu nunca reparei, e olhe que já cheguei a ouvi-lo sendo executado em P.A. de grande porte, e não reparei nesse detalhe.

O que incomoda-me nesse disco, são os timbres achatados dos instrumentos, com excesso de médios, principalmente os meus baixos. Mas, tudo isso é preciosismo. O que importa é que trata-se mesmo de um grande trabalho, e significa muito para a minha carreira por todos os valores inerentes que já expressei amplamente aqui, e no capítulo do Sidharta. Certa vez (referindo-me a um show realizado em 2011), toquei com os Kurandeiros no Centro Cultural Gambalaia, em Santo André (e curiosamente num endereço daquela cidade, muito próximo ao do antigo Camerati). Uma plateia muito jovem e Rocker, entusiasta de 1960 / 1970 compareceu em peso, e apreciou o show. Eram amigos do Samuel Wagner (que estava presente, claro), e o ele disse-me que por serem muito jovens, lamentavam muito não terem acompanhado a Patrulha da fase Chronophagia, e que enlouquecem nas histórias que ele conta-lhes de nossas andanças. Isso corrobora o que eu penso, ou seja, claro que orgulho-me muito desse CD ter deixado marcas artísticas expressivas.


Resenha de nosso show na Praia Grande, (aliás, o resenhista insistiu na ideia de que fora em Santos, mas foi na Praia Grande), que saiu na edição de fevereiro de 2000, da Revista "Rock Brigade"

Os meses de março e abril de 2000 foram de compasso de espera.
O processo de mixagem; masterização; elaboração da capa e burocracia, arrastou-se, infelizmente. Como o Camerarti era um estúdio analógico, para masterizar e formatar o material para CD, precisamos procurar um outro estúdio especializado nesse serviço.

Eu, Luiz Domingues, e Rodrigo Hid, representamos a banda numa festa da Revista "Dynamite", em dezembro de 1999, e na edição de fevereiro de 2000, nossa presença na festa foi registrada em nota, com foto. 

Após checarmos alguns lugares, fechamos com o estúdio "Turbo". Era de propriedade de um experiente técnico, chamado Oswaldo Martins, com muitos anos de trabalho como responsável pelo processo de "corte", nos tempos do vinil.

Uma das primeiras notas em imprensa virtual, o Site Wiplash, mais especializado no mundo do Heavy-Metal, falou do disco, quando ainda estávamos gravando. 

Ele "cortou" por muitos anos, e sabia que o processo era delicado. Masterizar é o último processo técnico, onde dá-se a última equalização geral, já sobre o stereo configurado, acrescentando uma camada de grave ou agudo.

O chamado "corte" era o mesmo processo, quando o acetato de vinil ia ser formatado definitivamente. Fomos então ao estúdio Turbo, que ficava (fica), próximo a Praça da República, no centro velho de São Paulo.


 
Outro exemplo de mídia virtual que apoiou-nos na época, o Site "Casa do Rock" soltou nota falando sobre a volta da banda e a gravação do novo álbum de inéditas. O curioso, é que não fazemos a menor ideia de como arrumaram a foto da banda com Paulo Zinner na técnica do Camerati !! Um mistério até hoje não respondido !

Não foi na primeira sessão, mas na segunda que finalmente consideramos a definitiva, e acompanhados do técnico do Camerati, Zôro, que gentilmente auxiliou-nos nessa decisão definitiva.



 

 
Concedemos entrevista para esse Fanzine, o "Mega Rock", que era da cidade de Mauá, vizinha de Santo André. A entrevista foi no Camerati mesmo, num daqueles dias longos, onde não tínhamos nada a fazer, a não ser esperar a definição de uma mixagem de uma música para poder opinar, mas éramos aconselhados a não ficar na técnica enquanto trabalhavam, Zôro; Lanchinho, e Paulo Zinner 

O processo da masterização é bem técnico. São horas gastas olhando para um monitor de computador, vendo gráficos, análise de espectros de frequências, e tendo pouco contato com o som propriamente dito. Realmente não dava para ficar muito melhor do que ficou na edição final, que é o que vocês escutam no CD, devido ao sinal do Camerati não ter sido dos mais felizes. Logo mais, falarei do processo da capa, que também demandou trabalho. 


O processo da capa foi o seguinte : O Júnior conhecia um desenhista excelente, chamado Johnny Adriani. Ele já havia feito trabalhos anteriores para a Patrulha, confeccionando cartazes; filipetas, e mesmo um dos logotipos que a banda adotava, justamente aquele com os dois dragões.


 
Particularmente, nunca gostei desse logotipo, não pela arte em si, que é bem feita, mas pelo seu astral meio "Heavy-Metal". Preferia mil vezes o logo anterior, com a nave estilizada, bem mais Sci-Fi, e condizente com as raízes da banda que estávamos resgatando, e tentando assim, sair daquele ranço heavy-metal que a banda adotou na metade dos anos oitenta em diante.

                         O grande ilustrador, Johnny Adriani 

O Johnny é (era, na verdade, pois ele veio a falecer em 2016, infelizmente), um paulistano que radicou-se em Campinas há muitos anos, e trabalhando com arte final, é autor de muitas capas; encartes; cartazes, e demais materiais gráficos de diversas bandas.
Ele também foi o fundador e decorador da famosa casa de shows "Delta Blues" em Campinas, que por muitos anos foi referência no circuito do Blues brasileiro, inclusive trazendo atrações internacionais importantes desse universo, para ali apresentar-se.
Bem, feitos contatos telefônicos, estabeleceu-se que iríamos a Campinas conversar com ele. Fomos então num sábado de fevereiro de 2000, e passamos horas na casa dele vendo suas ideias, portfólio etc.

Poderíamos ter escolhido qualquer ilustração pronta que ele já possuía as centenas. Era uma mais linda do que a outra, de todos os conceitos. Havia inúmeras de ambientação interplanetária, verdadeiras paisagens ao estilo do Roger Dean, absolutamente incríveis. Outras evocando mitologia; xamanismo; surrealismo, enfim, eram múltiplos os conceitos que ele abordava em sua obra. Mas como todo bom artista, ele mesmo empolgou-se, e quis criar algo exclusivo, personalizado e daí, mediante muitas conversas conosco, e ouvindo nos dias posteriores as músicas do álbum, chegou num raf que enviou-nos por E-Mail, e que aprovamos sem reservas. Fazendo jus ao conceito da palavra "Chronophagia", título do álbum, fez uma ilustração espetacular, unindo o passado ao futuro. Um rosto enigmático de um cyborg, vazado sob uma superfície onde hieróglifos egípcios parecem trazer uma mensagem.

Fora isso, dois círculos sobrepostos e cravados de cristais reluzentes, pareciam remeter a portais interdimensionais. Cibernética; esoterismo antigo, e física quântica andando juntos, simetricamente. Era cibernético e antigo ao mesmo tempo, tudo a ver com a proposta da banda, fazendo o som aqui e agora, (refiro-me a 2000, claro).

No encarte, muita informação, como nos velhos tempos dos encartes de discos de vinil. Em quatro páginas, uma foto de cada membro, em preto e branco e banhadas por uma espetacular camada grafite, com matiz azulada. As fotos foram clicadas numa sessão de fotos que já descrevi, no estúdio do fotógrafo Moa Sitibaldi, no ano de 1999.

Um texto explicativo sobre o conceito da "Chronophagia" foi elaborado pelo Marcello Schevano. Ele fora na verdade, o criador do conceito e da consequente escolha do título do CD, com o qual concordamos por unanimidade.

Certamente expressava com fidedignidade o que era aquele trabalho, unindo passado e futuro num presente cheio de energia.
E mais uma curiosidade : desde o tempo do Sidharta, ficávamos brincando com as similaridades que cada música tinha com bandas icônicas dos anos 1960 e 1970. A brincadeira divertia-nos, e quando chegou a parte da elaboração do encarte, resolvemos dedicar cada música a um artista que admirávamos, e cuja sonoridade da canção remetia-nos como influência, em cada uma em específico.

Eis a lista contida no encarte :

1) Sendo o Tudo e o Nada  - Som Nosso de Cada Dia

Realmente, havia muito do "Som Nosso", nessa canção prog, cheia de partes, e principalmente na parte final, com os backing vocals sendo cantados em falsete, numa vocalização com elementos de Soul Music, em pleno Rock Progressivo. Quem fazia melhor essa junção impensável do que o Som Nosso de Cada Dia ? Ouça abaixo :


Eis o Link para escutar o áudio oficial do CD "Chronophagia" de "Sendo o Tudo e o Nada":

https://www.youtube.com/watch?v=XJRy6_KQgNw


Sobre a canção em si, fora construída pelo Marcello com muitas partes, de forma minuciosa e ao receber os arranjos individuais de cada um, claro que sofisticou-se ainda mais. Foi efetivamente a primeira canção composta e arranjada pela nossa formação da Patrulha, sem que tivesse sido herdada do projeto Sidharta e demandou muitos ensaios no estúdio freak do Paulo Antonio, o popular “P.A.”, ex-baterista do RPM, para que ficasse pronta para ser gravada e executada ao vivo.
O início com piano e órgão Hammond do Marcello interagindo juntos é belíssimo, e logo os acentos de baixo e bateria dão o devido peso. A guitarra do Rodrigo inicia entrecortando com um lindo contrasolo. Chega-se numa fase “B” dessa introdução, ainda sob a mesma base harmônica, com o Junior imprimindo batida de Hard-Rock tradicional. Chega-se então na parte dois, com típica intervenção prog, através de um fraseado rápido e instigante de mini moog executado pelo Marcello em duo com a guitarra do Rodrigo, e o baixo rasga a divisão, com um fraseado de orientação “Squireana” e apesar do achatamento infeliz do timbre do meu instrumento na mixagem final, há lampejos de brilho do Rickenbacker, em algumas palhetas. São sutis, pois o correto deveria ter sido proeminente o tempo todo, mas dá para sentir. O uso do cowbell é brilhante da parte do Junior, fora suas habituais viradas inacreditáveis, sua marca registrada oficial como baterista.
Entre finalmente a primeira parte cantada e o Marcello imprimiu emoção. Uma letra que faz citações de cunho profético / filosóficas, e causa calafrios nos detratores do gênero progressivo, mas convenhamos, não espera-se outra coisa de tais opositores sistemáticos e históricos antagonistas, por pura birra paradigmática ou atroz falta de inteligência, mesmo. Uma terceira fase inicia-se com uma série de intervenções de convenções e bases harmônicas interligadas em regime de “intermezzo”, onde diversos ícones do Rock Progressivo são evocados entre frases convencionadas, quebras bruscas de compassos e andamento. Micro solos de guitarra e mini moog revezam-se em diversas dessas minúsculas passagens e lembra muito o som de bandas italianas setentistas clássicas do gênero progressivo. Surge uma parte cantada pelo Rodrigo, onde sua interpretação é quase “Soul Music”, outro ponto em comum com o velho”Som Nosso de Cada Dia”.  Após uma longa passagem instrumental, volta-se à parte “A” da canção para mais uma passagem pelo refrão, com o Marcello também cantando de forma bem negra, quase incorporando o Tim Maia. Mais uma passagem pelos solos de Moog em dueto com a guitarra e uma parte final fazendo a junção entre o Rock Progressivo e a Soul Music acontece. Em falsete, eu e Rodrigo fizemos uma melodia vocal em contraponto ao vocal solo do Marcello cantando  outra melodia. “Vou Sentindo o Som e o Sol a me Guiar” é um verso bastante emblemático para quem tanto esforçava-se para imprimir uma atmosfera 1960 / 1970 nas canções, sem dúvida alguma, um libelo hippie e Rocker da mais alta vibração. Sentia emoção e um prazer imenso em cantar isso ao vivo, pois mais que uma peça artística bonita, era um verdadeiro “Statement”, uma bandeira fincada, noite após noite em cada palco em que tocávamos e demarcando a nossa vontade em estabelecer o “religare” no Rock. Por fim, um solo incrivelmente melódico e inspirado do Rodrigo, permeado por viradas de bateria fantásticas do Junior, como se Keith Moon estivesse incorporado nele, em sua glória Rocker e o falsete sendo cantado pelo Rodrigo e eu : “Tudo... nada... tudo... nada”, enquanto o Marcello entrecortava-nos com sua interpretação solo devoz, com uma potência Black estupenda : “Sendo, Sendo o Tudo e o nada”...
Uma frase de guitarra incrível do Rodrigo, homenageando Steve Howe e um gongo ao final, abre caminho para um mantra de encerramento : “Om” ! Nada mais “Late Sixties / Early Seventies” que evocar espiritualidade de viés oriental / indiana e o gongo sendo levado ao infinito por um efeito de Eco Sound, praticamente tira o fôlego do ouvinte Rocker mais antenado, mas... era só a primeira faixa e havia mais quinze para degustar-se nesse disco...

Aliás, quando fizemos reunião para estabelecer a ordem das canções no álbum, eu não queria que essa canção abrisse o disco, por ser de fato um tema progressivo e como de praxe, longo e intrincado. Talvez raciocinando como produtor de música pop e radialistas em geral, minha opinião na época não fora esdrúxula pensando nesses termos mais práticos da estratégia de divulgação ortodoxa, porém, o Junior argumentou que era para radicalizarmos e chocarmos com uma escolha assim tão anticomercial. Perdi por três a um, tal votação, pois os garotos foram persuadidos por ele a votar nesse sentido. Hoje em dia, analisando friamente, acho que tinham razão... Chronophagia não tocaria em emissoras de FM; não teria músicas em novelas de TV e nós não apareceríamos em programas popularescos de televisão, portanto, como um álbum clássico de Rock sessenta / setentista, tinha mesmo era que radicalizar e não pensar em paradigmas de marqueteiros e impor-se como obra de arte e assim, hoje em dia orgulho-me de que nosso disco abra-se com um tema progressivo dessa metragem longa e sofisticação musical. É um disco para Rockers antenados e a eles é que devemos nossa dedicação e ponto final...

 
2) Tudo Vai Mudar  -  Humble Pie / Steve Marriott

De fato, todo o conceito do Riff em que construiu-se o refrão, era muito o estilo do Rock branco e inglês do "Humble Pie", e de seu guitarrista Steve Marriott, cheio de influência do R'n'B negro e americano... ouça abaixo :


Eis o Link para escutar o áudio oficial da música "Tudo Vai Mudar", no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=D_6HswNG_lM

Essa música nasceu do seu refrão. Eu criei a frase que permeia a vocalização em falsete, trazendo aquela carga de R’n’B super negra de inspiração na "Motown" e "Stax" em seus dias de glória. As partes mais Rock foram criadas pelo Rodrigo e a introdução entrando em contratempo foi criação do Marcello. A letra é bem “bicho-grilo” no bom uso do termo. Super astral de São Tomé das Letras / MG, digamos assim. A conversão em dueto que antecede os solos é ultra Humble Pie, não resta dúvida. A condução do Junior é tão clássica que remete aos primeiros discos da Patrulha, o que é sensacional se pensarmos nesse resgate da banda com seus primórdios. Os solos são incríveis de Rodrigo e Marcello, e o peso do baixo remete ao Mel Schacher do Grand Funk em seus momentos mais inspirados e claro que fui buscar tal fonte, fã dele que sou. Fender Precision e essa pegada mezzo Blues-Rock / mezzo R’n’B, nasceram um para o outro, acredito. Apesar de toda essa fúria Rocker, eu achava e ainda acho que a canção tem um potencial pop muito proeminente. Se fôssemos americanos, essa canção seria sucesso radiofônico sem dúvida alguma, principalmente pelo vocalise do refrão que tem apelo “bubblegum” óbvio. Aqui no Brasil é fora de cogitação pela mentalidade reinante, portanto só lastimo que tais pessoas que dominam os meandros da indústria musical, raciocinem assim...

3) O Ritual  -  Blind Faith

Essa música tinha um mapa muito semelhante ao da canção "Presence of the Lord", do LP único do Blind Faith, lançado em
1969. 


Eis o Link para escutar "O Ritual" no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ygZJdnhpOLA

Convido o leitor a ouvir as duas e comparar. A frase inicial da canção já tem um sabor gospel muito interessante que confere-lhe um apelo bluesy irresistível. O baixo dobra com o piano, enquanto um guitarra suja e plena de efeitos traz uma gosma muito bonita como camada abaixo. Marcello canta com aquele vozeirão grave, e a letra é cheia de imagens instigantes em mais um poema hermético do amigo Julio Revoredo. Os contrasolos de guitarra do Marcello são belíssimos, evocando Eric Clapton sem dúvida alguma e o Rodrigo intercala intervenções de piano, muito bonitas também, apoiando a harmonia. Percebe-se um violão riscado ao fundo em alguns trechos e o timbre de suas cordas de aço é muito belo. A parte do solo é a que levou-nos mais a estabelecer a comparação com a canção do "Blind Faith" que citei acima e o apoio do órgão Hammond com uso de Leslie em velocidade rápida, foi fundamental para dar base ao belo solo de guitarra do Marcello. Gosto muito da batida criada pelo Junior. A linha de bumbo e caixa é ultra "seventies" e dá um molho incrível à canção. E apesar dos desacertos do baixo na mixagem final do disco, a escolha de um Fender Jazz Bass para essa canção foi perfeita, modéstia a parte. E indo além, casa-se com a batida perfeita que o Junior criou na bateria.


4) Ser  -  Grand Funk Railroad

A energia desse Hard-Rock era tanta, que caberia no "disco vermelho" do " Grand Funk". Eu incorporei tanto essa ideia, que o glissando (efeito estilístico no qual o músico passa o dedo pela corda, escorregando pelos trastes, sem preocupar-se em definir nota alguma, mas deslizando sobre várias ao mesmo tempo), violento que dei no disco (e sempre reproduzi ao vivo), remetia ao baixo do Mel Schacher, diretamente. Ouça e pense sob esse ponto-de-vista.

Eis o Link para escutar o áudio oficial da música "Ser", no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=wb02hOGOzPI

A ideia da percussão na parte do solo de guitarra foi ótima da parte do Junior. As congas executadas por Daniel “Lanchinho” são muito nervosas, fazendo uso de notas rápidas (colcheias), lembra o estilo agressivo do percussionista Jose “Chepito” Areas nos melhores anos da banda de Carlos Santana. E o amigo Paulo Zinner intercalou frases de timbales muito legais a reforçar esse conceito de latinidade agregada a um Hard-Rock setentista clássico. A atuação do Junior é maravilhosa e ao vivo, suas viradas arrancavam uivos da platéia, empolgando-nos sempre. O refrão também tem muita energia. Aquele coro com “Agora, Agora” com o Marcello eu fazendo, mais a voz solo do Rodrigo rasgando, tem uma força incrível. E ao final , o “eu, eu e você” eu sempre gostei muito de cantar. Adoro também o piano que dá apoio ao final que foi gravado pelo Rodrigo.

5) O Novo Sim  -  Luiz Carlini

Achávamos essa canção era no estilo do Tutti-Frutti. Até a parte da flauta que remetia ao Jethro Tull, numa primeira leitura, na verdade era bem o velho Tutti-Frutti do ótimo Carlini.
Essa música nasceu no violão, mesmo eu não tendo um domínio bom sobre o instrumento, mas mesmo assim consegui criar uma batida e uma harmonia pop, com bastante influência do pop setentista, acredito (pensem em Peter Frampton, por exemplo, pois foi em quem pensei também quando a criei). Com o acréscimo do arranjo e participação dos companheiros é óbvio que a música cresceu demais e ficou sofisticada, eu diria. Com o Rodrigo tocando e desenhando com desenvoltura ao violão, a canção ficou maravilhosa e como se não bastasse, o piano que o Marcello criou, deixou-a com aquela irresistível feição do Tutti Frutti dos bons tempos. O Junior trouxe a ideia de uma percussão pontual com “egg” e guiro (em português, o “reco-reco”), e isso foi genial, porque imprimiu swing à canção. O solo de guitarra é belíssimo. Apesar dos problemas que tivemos em relação a timbres, a Gibson Les Paul do Rodrigo falou bonito e emociona-me. Adoro a parte “B”, com aquela cadência harmônica que lembra-me o estilo dos “Secos & Molhados” em algum aspecto. E claro que a batida que o Junior criou contribui muito para ter-se tal impressão, aliás, muito positiva. E por fim, a parte “Jethro Tull”, para dar vazão ao solo de flauta do Marcello, tem um riff que eu criei também e gosto muito, mas tenho uma crítica sobre a gravação: acho que a flauta ficou deslocada pela ambientação, com excesso de reverber. Parece que o Marcello não está dentro da banda fazendo o solo. E também poderia ter um pouquinho mais de peso das guitarras no stereo em apoio ao baixo. Por fim, a curiosidade de uma letra escrita por um outro baterista, caso do meu amigo José Luiz Dinola, fazer parte de um disco da Patrulha do Espaço, não deixa de ser exótica, visto ser o Junior, baterista, fundador e único membro original em toda a história e discografia
da banda. Ouça abaixo :

 

Eis o Link para escutar "O Novo Sim", no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=g1EuPacOttQ


6) Sunshine  -  Arnaldo Baptista

Ha ha ha... essa parecia mesmo Patrulha do Espaço com o Arnaldo... 

O arranjo é praticamente o mesmo da versão original gravada pela própria Patrulha em seu primeiro disco de 1977, mas a nossa versão tem muitos adendos e enriqueceu-se demasiadamente, posso afirmar. O acréscimo de vocais de apoio que eu e Rodrigo reproduzíamos ao vivo e no disco teve o apoio da cantora superb, Xandra “Joplin”, é um exemplo. Além disso, a participação histórica do genial e saudoso Manito (ex-"Os Incríveis" e ex-"Som Nosso de Cada Dia"), fazendo um solo de saxofone de arrepiar, tornou-a muito mais bonita. De resto, destaca-se a sempre brilhante bateria do Junior, o piano e órgão Hammond pilotados pelo Marcello, além de sua voz solo que ao vivo encantava as plateias com as quais deparamo-nos. Gosto muito da guitarra do Rodrigo nessa canção. De certa forma, resgatou o som de John Flavin e Dudu Chermont, guitarristas dos primórdios da banda, pelo timbre e inspiração nas frases, solos e contrasolos. Aliás, gosto muito dos desenhos que ele criou.

“Como vai você ? Tudo bem ? Assistiu o futebol” ? Só o Arnaldo Baptista mesmo, para ser tão genial em explorar ideias tão aparentemente desconexas dentro do contexto, mas que revelam-se na verdade, sacadas inacreditáveis. Xandra apóia muito bem com intervenções vocais soladas ao final e ficamos muito contentes com sua participação em nosso disco. Ouça abaixo :


Eis o Link para escutar "Sunshine" no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=gdpYNPx6u8M 7) Retomada  -  Keith Richards

Pensávamos sempre nos Rolling Stones quando tocávamos essa canção. Justa portanto, essa homenagem ao mestre Richards.


Eis o Link para escutar "Retomada" no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=m58nYU16lGc
Mas é nítida também a influência de uma MPB ultra hippie setentista pelo aspecto da letra e melodia, que remonta ao "Sá; Rodrix & Guarabyra", sem dúvida. A música é do Rodrigo, que criou um riff sensacional e em cima disso construiu um belo Rock. A letra é minha e é explícita, refletindo toda a euforia que senti naqueles anos em que expressei as minhas raízes sessenta / setentistas com todas as forças, resgatando meus sonhos e ideais. Mais abaixo arrolo algumas frases dessa letra, que considero emblemáticas. Quando som e cor tornam-se uma linguagem só e nesse lampejo esotérico / lisérgico, os hippies da década de sessenta perceberam uma outra realidade através das portas da percepção, e eu escrevi pensando nessa junção louca que causa estranheza num mundo cartesiano e certamente “careta”, todavia, que sob ditames livres, e isso era a razão do "Drop out" sessentista, fazia todo o sentido :
“Cores incríveis avisto em frente, som sabor de morango e cereja, uma transação diferente, quero que você mesmo veja”...O Brilho dos sons é intenso, o som das cores, goiabada, pro yuppie neurótico e tenso, deixo a minha fé na retomada... cabelos ao vento, crianças unidas em torno da mãe terra, chuva de luzes refletidas em paz e amor se encerra”...

O cowbell que apoia a bateria é sensacional. A batida que o Junior criou é espetacular, dando toda a sustentação da canção. A pandeirola que apoia na parte B, é extraordinária, também. Lembra-me Beatles. Gosto muito do piano base do Marcello, igualmente. Já o solo de guitarra com slide é incrível, de arrepiar. E a interpretação vocal do Rodrigo é ótima. O grito de nós três ao final : “Rá”, despertava-nos sempre risadas, por fazer-nos lembrar do paranormal, Thomas Green Morton.

8) Céu Elétrico  -  Procol Harum

Poderia lembrar diversas bandas Prog-Folk, mas acredito que o som do Hammond levou-nos à delicadeza sublime do grande Procol Harum. Ouça abaixo :

 

Eis o Link de um promo da música "Céu Elétrico", numa produção de Caio Scarano Forte :


https://www.youtube.com/watch?v=sVMgJyCP3qo
 

Essa canção tem muitos atributos, a meu ver. Com uma identidade Folk-Prog acentuada, apresenta harmonia e melodia muito bonitas e com compasso em 6/8, deu possibilidade de criarmos muitos arranjos suplementares interessantes. Em seus primórdios, a canção fora concebida para ser mais folk, com arranjo acústico, mas quando o Junior sugeriu a participação de baixo e bateria, mudou um pouco sua característica, toidavia, o resultado ficou belo em minha opinião. A introdução toda desenhada numa frase complexa entre o baixo; violão; órgão e flauta e com acréscimo da caixa com batida militar, já impressiona positivamente pela sua beleza. Acho que a bateria e o baixo ficaram estupendos. Aquilo deu um sabor "Procol Harum", quem sabe “Moody Blues”, muito legal. Adoro o órgão desenhando com Leslie curta; as intervenções de flauta são muito boas e gosto muito delas. Acertei na escolha do baixo, sem falsa modéstia. O Fender Jazz Bass ornou perfeitamente no arranjo geral. Ficou lindo com a bateria e o órgão Hammond. E na frase final, dá para sentir o ronco dele, típico. Adorava cantar o backing vocals em contraponto, com o Rodrigo na frente, eu em segundo e o Marcello entrando em terceiro lugar para depois juntarmo-nos no trecho final : elé...tri..co. Letra escrita pelo guitarrista Luciano “Deca”, ainda quando este fazia parte do Sidharta, é absolutamente lisérgica. Deca nunca demonstrou apreço pela lisergia sessentista como eu. Pelo contrário, gosta normalmente de letras coloquiais e abordando o universo Rocker pelo prisma das ideias do "AC/DC" predominantemente em sua banda, o "Baranga", mas acertou a mão nessa sua composição, escrevendo uma letra que o Ciro Pessoa escreveria normalmente.

“Me sinto girando numa piscina de águas multicores. Tocando o céu circular, beijando borboletas de aço. Pinte de azul anil sobre o que você viu. Você está assistindo aos meus pensamentos, céu elétrico, céu elétrico... abaixo, o áudio oficial do disco :


Eis o Link para escutar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=0LiAh7tmOuE

9) Eu Nunca Existi  -Austin Powers

Essa foi uma sugestão irônica do Rodrigo, da qual nunca gostei. Tudo bem, acho os filmes e o personagem Austin Power divertidos, mas não creio que tenha sido uma grande escolha, pois deixou uma indicação dúbia. Parecia indicar uma ironia, e eu preferia que tivesse seguido a linha das demais. Se fosse dedicada ao "Iron Butterfly"; "Young Rascals", ou "Vanilla Fudge", teria sido mais
conveniente a meu ver. Ouça abaixo :
 

Eis Link para ouvir o áudio oficial do CD "Chronophagia", da música "Eu Nunca Existi", no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=1zj1KTR8Amk

Adoro essa canção que compus em parceria com o Rodrigo e com letra ultra instigante do poeta Julio Revoredo. A evocação sessentista psicodélica nela expressa é total. Ao tocá-la, sentia-me um componente do "Iron Butterfly" em 1968, tocando no palco do auditório Fillmore West, e podia até imaginar a figura de Bill Graham na coxia, sorrindo para nós enquanto tocávamos...
Gosto de tudo nessa canção, da harmonia à melodia, letra e arranjo geral, tudo nela emociona-me pela óbvia inspiração sessentista que tanto amo e nela é explícita. O solo de guitarra slide do Marcello é sensacional. Gosto muito do órgão Hammond e da interpretação vocal do Rodrigo. O início, aliás, com efeito na voz trazendo um ar fantasmagórico é espetacular pela psicodelia inerente. A linha do baixo com um looping de frase rápida e aquele timbre de Rickenbacker também é psicodelia pura. Que os Deuses do Rock abençoem Lee Dorman, minha inspiração nessa música, lá no Olimpo dos Rockers !

“Perdoe meu estranho rosto, pois eu exalto o espírito. Desculpe-me, eu acredito em mim, na encruzilhada da vida eu não sofro. Notívago a procura de várias mortes e vidas pois há entre nós um universo e não um verso só...
Eu sou um estranho, sou um estranho projeto, eu nunca existi”...

Julio Revoredo genial em evocar uma atmosfera de estranheza digna de "Twilight Zone" e que faria Stephen King sorrir ao ler suas frases, lá no Maine...
Como de praxe, Junior arrebenta na bateria, sua capacidade de criar linhas de bateria é extraordinária. Aqui, desenha junto com a linha do baixo, esticando as frases. Gosto muito das frases precisas que ele criou num intermezzo onde eu fiz bicordes em acentuações.


10)  Alma Mutante  -  Yes

De fato, possui também elementos Prog, próximos da sonoridade do "Yes", mas tem também uma convenção criada pelo Rodrigo, que por usar uma escala cromática, também remetia ao "Wings". Tire suas conclusões... ouça abaixo :
Eis o Link para escutar no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=9rP9zsupaXA


Na verdade, ela mescla elementos Hard; Prog, e Pop. Gosto muito das guitarras tanto base quanto solo dessa canção, que são extremamente bem executadas. A intervenção de mini moog é rápida, mas estratégica. Gosto demais do riff primordial que tem uma energia fantástica e o peso de baixo e bateria que essa música ganhou, ficou incrível. A letra é minha e também evoca valores sessenta / setentistas, como um ato de fé, quase messiânico em seu ardor pela vibração positiva de outrora. E a ideia do uso da palavra “mutante” não era exatamente referência aos Mutantes / banda, mas sim no sentido literal da palavra "mutação".
“De agora em diante minha alma mutante, leva de encontro ao sonho de Aquarius, não deixe escapar pelos seus dedos como água fugidia, seus sonhos de vida, seus sonhos de vida”...
Pois é, a ideia é não perder a próxima oportunidade e não deixar o sonho ser destruído e sim, tornar-se concreto !!

11)  Nave Ave  -  Mutantes

Aqui também havia divergências. O Júnior achava a parte "A", super Elton John. Em vários shows, ele ao anunciá-la, chegou a brincar, dizendo que tocaríamos "uma do Elton a seguir". Eu por minha vez, achava similaridade com o "Traffic". Na minha concepção, poderia estar em qualquer álbum daquela magnífica banda, na fase pós LP "John Barleycorn Must Die". Mas de certa forma, tinha algo do Mutantes fase Prog, também. Ouça abaixo :
Eis o Link para ouvir o áudio oficial oriundo do CD "Chronophagia", da música "Nave Ave", no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=WwLatBT92HA


E por conta desse detalhe acabou sendo dedicada à banda dos irmãos Dias Baptista. Canção belíssima composta pelo Marcello, com uma introdução toda climática ao piano elétrico e interpretação vocal eletrizante do Rodrigo, era uma das mais queridas e pedidas nos nossos shows e arrancava berros de regozijo pelo seu final apoteótico. Tudo é muito bonito nessa canção, numa inspiração das mais felizes do disco inteiro. Adoro a harmonia e melodia, as intervenções de backing vocals, e a parte final dos solos onde o revezamento entre órgão e guitarra é lindo e o Junior arrebenta com uma condução de ritmo à bateria, incrível, e ao vivo ele empolgava-se ainda mais e fazia-me ir junto nos seus improvisos esfuziantes, com a música a ficar inacreditável, com clima de euforia gerado em todos os shows. Letra forte do Julio Revoredo mais uma vez, e com uso de palavras não coloquiais que conferiram à melodia, um verniz sofisticado ao extremo.
“Então no fluxo da ordem ergue-se a desordem e o caos e uma pergunta no ar aflige o sem face ígneo ser...quem deterá o vôo da nave que perscruta a névoa sem ser ave ?  


12 ) O Pote de Pokst  -  Led Zeppelin

Aqui não haviam dúvidas. Uma balada épica com elementos folk; mesclados a um acento bluesy; com direito a improvisos, e com letra cheia de misticismo, magia etc. E nos shows, os improvisos geralmente arrancavam suspiros do público, com climas "Zeppelinianos" fantásticos. Os meninos só não usavam o arco de violino nas guitarras, mas o clima era o mesmo. Adoro essa atmosfera de brumas místicas que essa música propõe de maneira subliminar e diretamente, eu acredito. Tiramos o chapéu para Roy Harper e o Led Zeppelin, é claro...
O riff é belo ao extremo. Gosto muito da levada da bateria e baixo e mesmo admitindo que o Fender Precision cairia bem, igualmente, o Fender Jazz Bass timbrou bem e fez a sua devida conexão com uma referência minha desde sempre, o senhor John Paul Jones. Gosto muito dos backing vocals e confesso, emocionava-me fazendo-o ao vivo junto ao Marcello, sentindo-me num momento mágico, por vários motivos, mas neste caso em específico, por saber internamente que estávamos exercendo a magia e como magos, encantando o nosso público. De fato, essa canção gerava euforia e emoção pura, sempre nos shows. Os solos e bases de guitarra são lindíssimos, e os climas que o Junior criou nas quebradas da bateria e propondo diversas mudanças de ritmo e andamento, são históricos eu diria, e sem falsa modéstia, estão no panteão de suas melhores criações na carreira inteira da Patrulha, em termos discográficos.   
Eis o Link para escutar "O Pote de Pokst" no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=yWeOM7seVaM

13) Spaced  - Timothy Leary

Essa faixa era um micro solo de bateria que a partir daí, virou uma praxe nos discos da Patrulha da nossa formação. Sempre que a sessão de bateria encerrava-se, o Junior pedia para o técnico gravar mais um take, com ele sozinho criando um solo. A ideia era boa de fato, e a escolha do nome da canção, remetendo à loucura, e também dubiamente ao caráter espacial da origem da nossa banda, também era boa. Quanto à homenagem, diante de tanta loucura, ninguém melhor que o velho Tim Leary para ser lembrado / evocado... bem, aqui a técnica e a garra Rocker do Junior, expressa-se numa rápida intervenção solo de sua parte.
Acima, "Spaced" está no mesmo link junto com "Terra de Mutantes", para escutar no You Tube.

Eis o Link para acessar no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=QUQHA43Y3-A
  
14) Terra de Mutantes  -  Leon Russell

Aqui a impressão era unânime: Leon Russell, fase Mad Dogs and The Englishmen na cabeça, e não discute-se mais isso !! 
Eis o Link do áudio oficial do CD "Chronophagia", da música "Terra de Mutantes", no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=iII9EwftjAE


Eis outra canção que eu adorava tocar por conta dessa deliciosa atmosfera de R’n’B. Adoro o piano dessa canção e a interpretação vocal do Marcello com sua rouquidão, lembrando o Tim Maia. A mudança para uma parte mais Rock com a voz do Rodrigo é igualmente bela e as intervenções da nossa convidada, Xandra Joplin, rasgam em vários momentos, apoiadas pelo órgão Hammond de uma maneira muito legal. Adoro o acento de guitarra acompanhando a subida numa escala, nessa parte. Gosto muito da batida do Junior e o casamento dessa levada com a estratégica pandeirola a conferir balanço. Fui de Fender Precision nessa música, mas sem virulência, mais comedido, evocando o Blues. Por falar nisso, ótimo solo do Rodrigo, super bluesy, e muito bonito. Mais uma letra instigante do poeta Julio Revoredo, desta feita quase psicodélica :
“O Sol violeta aflou de seus olhos azuis. O seu corpo dourado deu voltas em meus pensamentos, trazendo sonhos de paz e amor”...

15 ) Sr. Barinsky (Admirável Sonhador) -  Paul McCartney

Bem, era uma típica canção Beatle, não era ?
Eis o Link para escutar "Sr. Barinsky" no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=dLA6a44nn4Q


Fácil, fácil de imaginar-se o Paul tocando piano no estúdio Abbey Road em 1968, nas sessões de gravação do LP “White Album”, dos Beatles... apesar de não saber tocar piano, sei montar meia dúzia de acordes e sustentar um ritmo simplório em staccato 4/4... e foi assim que brincando num teclado, compus essa canção no final de 1997, para o projeto Sidharta e fiquei muito contente por tê-la gravado com a Patrulha. Claro que já falei sobre as motivações dela que são explicitamente Beatles, e cabe acrescentar que o personagem temático dessa canção, um senhor possivelmente de origem polonesa, tratava-se de uma imagem de um homem recluso e amargurado, que simplesmente não tinha forças para interagir com o mundo e assistia a vida passando pela sua janela, embora soubesse que sua melancolia oprimia-o e no fundo, ele não queria desperdiçar a vida, mas simplesmente não reunia forças para mudar tal estado de coisas. Claro que minha pobre condução ao piano melhorou muito quando a função passou para o Rodrigo no disco e nos shows... ha ha ha !! Adoro o som de “saloon do velho oeste” que ele imprimiu em certos trechos. O solo do Marcello à guitarra é magnífico e o Junior simplesmente arrebenta com seu arranjo ultra inspirado, cheio de ousadias, praticamente fazendo um solo com a música em curso. De certa forma, é como se o Ringo Starr tocasse um trecho da canção, e o Ginger Baker aparecesse para atuar também, em outro... sua sugestão de colocar a bateria no mono foi também um achado e isso tornou-a ainda mais uma “Beatle song” em essência. A ideia do baixo fazendo uma condução bem Paul McCartney, observando o astral de anos trinta, com tônica e quinta acima / tônica e quarta abaixo, é obviamente proposital. Adoro essas evocações do passado que os Beatles e outras bandas britânicas faziam nos anos sessenta, geralmente com inspiração no cancioneiro popular britânico e europeu em geral dos anos vinte e trinta do século vinte. O Fender Jazz Bass foi a melhor solução que achei para timbrar, pois queria mesmo era ter gravado com um "Hofner" e com aquele timbre característico com pouco ou nenhum "sustain". Poderia ter usado o Rickenbacker com a chavinha no meio, buscando o médio anasalado, que também é bem McCartney, mas o Fender Jazz Bass timbrou muito bonito. Já falei em outro trecho da narrativa sobre os excessos cometidos na percussão e hoje dou razão ao Junior que na hora "chiou" e ele tinha razão... menos é mais. Adorava cantar os backing vocals ao vivo dessa canção. Foi criação minha, mas tal predileção não foi por esse motivo, mas pelo significado das palavras apoiando o texto, que eu achava (acho) que tinha (tem) força interpretativa. Gosto muito do timbre saturado da guitarra base da Gibson SG do Marcello. Aquela sujeirinha a mais da distorção que ele escolheu é um espetáculo, fora os desenhos que ele criou, que são lindos.

16) Epílogo - Cosmos

O Marcello quis algo diferente nessa música instrumental de violão. Pensamos em Steve Howe, e tantos outros nomes plausíveis nesse caso, mas a decisão dele foi respeitada, e ficou mesmo para o "Cosmos" (não o do Pelé, tampouco o do Carl Sagan...).
Eis o Link para escutar "Epílogo", no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=fgEJ82IV3DE 


Acho essa peça instrumental de violão, muito bonita. A ideia em si, trouxe um élan ao disco, que muito orgulha-me, pois como cereja do bolo, acabou trazendo mais uma evocação setentista ao relembrar guitarristas da década de setenta que gravaram faixas acústicas e instrumentais em meio a discos ultra elétricos de suas bandas, principalmente no espectro do Rock Progressivo. Portanto, ter mais um ícone “vintage” no álbum foi de uma felicidade ímpar. Só acho que merecia uma captação e timbragem melhor, pela beleza da peça e a boa execução do Marcello. Não é o melhor timbre de violão, longe disso, e sem dúvida deveria ter ficado bem melhor.



Fechada a capa e o encarte, e com o áudio masterizado, tomamos as providências burocráticas cabíveis para enviar a master para a fábrica. Em compasso de espera para a chegada da remessa, voltamos nosso foco à divulgação e shows. E nesse quesito, o mês de maio foi muito bom, pois tivemos quatro eventos muito significativos de divulgação, praticamente preparando o terreno para o lançamento do disco que estava chegando. A primeira coisa bacana na verdade foi agendada no final de abril, mas o resultado impresso, saiu no dia 3 de maio de 2000.

Fomos procurados pela reportagem do jornal "O Estado de São Paulo", interessado em entrevistar-nos. Já havíamos tido uma reportagem bacana no caderno " Ilustrada" da "Folha de São Paulo", em dezembro de 1999, e agora sairíamos no "Estadão", ou seja, dos três maiores jornais do Brasil, só faltaria "O Globo" do Rio, para dar-nos esse super espaço. E assim, foi num dia de semana por volta das 11:00 h da manhã, que a reportagem do "Estadão" aportou na residência do Rodrigo, para entrevista e fotos. A repórter foi bastante gentil e demonstrava conhecer o assunto, fazendo-nos perguntas pertinentes. Tiramos várias fotos, e a que ilustrou a matéria, foi uma tirada em torno de uma mesa de bilhar no salão de jogos da residência. A matéria saiu publicada no mesmo dia em que faríamos a nossa primeira aparição num programa de TV, ao vivo, e que rendeu-nos bastante visibilidade. 

Chamava-se "Turma da Cultura", realizado pela TV Cultura de São Paulo. A produção da TV chegou no meio da tarde com um micro-ônibus, onde levamos nosso equipamento de palco, inclusive o órgão Hammond do Rodrigo. Levamos adereços, e muito incenso, simulando mesmo nossos shows ao vivo, para criar na TV, a melhor atmosfera possível. Chegando aos estúdios da TV Cultura (localizado na Barra Funda, zona oeste de São Paulo), passamos o som e arrumamos todos os detalhes, auxiliados pela Sarah Reishdan, uma produtora musical experiente em shows internacionais (fora tradutora de artistas como "Deep Purple"; "Jethro Tull", e "Robert Plant & Jimmy Page", em diversas vindas desses artistas ao Brasil), e que trabalhara com diversas bandas de Rock independentes. Ela estava dando uma ajuda à Patrulha, e nos próximos dois anos, seria produtora de alguns shows para a banda. O programa "Turma da Cultura" era uma espécie de "Altas Horas", só que apresentado por adolescentes. Tratava-se de um casal de adolescentes, atores de produções da própria Cultura, como "Castelo Ra-Tim-Bum" e similares. Eles entrevistavam duas ou três pessoas falando sobre um tema que variava dia-a-dia, e isso intercalava-se com uma atração musical, que também interagia nas conversas. Tinha um público"teen" presente, geralmente uma turma de escola, e na base do embalo, também interagiam dançando, e aplaudindo etc etc.

Arrumamos tudo e fizemos um bom soundcheck. Claro, num pequeno estúdio televisivo, não dava para tocar com a pressão sonora de um show de Rock, mas estava bem ajeitado para nós, com um som legal de monitores. Caprichamos no visual e aparatos, e isso despertou a atenção dos apresentadores, e de telespectadores que manifestavam-se via chat de internet, já começando a ficar popular em 2000. 

O assunto em pauta na discussão com convidados, era "Política", e a banda interagiu com o Júnior sendo convidado a dar seu depoimento sobre a juventude nos anos 1960 e 1970, em relação ao momento político daquela época etc e tal. Tocamos "Tudo Vai Mudar", inicialmente, com grande desenvoltura. Estávamos super afiados, tocando  regularmente desde março de 1999, e acabáramos de gravar o CD "Chronophagia", portanto em grande forma artística.

Abaixo, a performance de "Tudo Vai Mudar" : 

Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=BqhIC7KUdAs&feature=youtu.be


Foi uma excelente performance, com o trabalho soando coeso, com desenvoltura musical, e sobretudo, com a firmeza típica que espera-se numa apresentação de TV, onde o recado tem que ser muito contundente.

Intercalando com a entrevista dos outros convidados, também fomos entrevistados. Claro, o assunto "origens da Patrulha + Arnaldo Baptista" veio à tona, com o Júnior tendo que lidar com essa pergunta inevitável e muitas vezes enfadonha, pois o foco era o trabalho atual saindo do forno, mas os pauteiros do jornalismo em geral só enxergavam a Patrulha, basicamente pelo viés do Arnaldo, e sua curta participação na banda, com apenas 8 meses entre 1977 e 1978. Paciência... esse foi um ônus que o Júnior sempre teve ao longo da carreira toda da Patrulha, e é um estigma difícil de livrar-se. Abaixo, "Sunshine"
"Sunshine", ao vivo no programa "Turma da Cultura", da TV Cultura de São Paulo, em 3 de maio de 2000

Eis o link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=CChSuzSu6Ew

A segunda música que tocamos, foi " Sunshine", com outra ótima performance. Destaco os bonitos desenhos que o Rodrigo criou, ornando muito bem a canção, com sua guitarra. Depois tocamos "Ser", com um peso incrível, e uma novidade especial para essa apresentação : por sugestão do Júnior, o Rodrigo fez uma intervenção de timbales, durante o solo do Marcello, chamando a atenção dos câmeras, que enquadraram-no bem nesse momento. 
"Ser", nessa aparição na TV Cultura de São Paulo

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=SQfulR_HOhc
Numa abordagem direta comigo, os apresentadores perguntaram-me sobre o nosso visual; os adereços sobre os amplificadores, e principalmente a enigmática foto do Dr. Timothy Leary, num porta-retratos colocado sobre o órgão Hammond.
Mesmo com pouco tempo, e num programa direcionado a um público adolescente, que evidentemente não entenderia as minhas explicações, dei meu depoimento da melhor forma que pude, naquela circunstância de tempo escasso. A quarta canção foi "O Ritual", nosso "momento Blind Faith"...  


Abaixo : "O Ritual"
"O Ritual", em versão ao vivo no mesmo programa citado


O Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=1sHLbrKA4rE
 

Com a ida de Rodrigo aos teclados e Marcello à guitarra, essa troca de instrumentistas sempre impressionava e tínhamos a certeza de que isso multiplicava-se em termos de público telespectador.

Acima, o programa na íntegra, com as entrevistas com a banda e a música "Nave Ave" cortada, pelo final da atração.

Eis o link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=q4j6Q0SOIwY

De fato, algumas manifestações vieram pelo chat, e uma chamou-nos a atenção, vindo de um rapaz da cidade de Avaré, interior de São Paulo. Era um rapaz chamado Dárcio, e ele era presidente de um dos maiores fã-clubes dos Mutantes do país. Segundo suas próprias palavras, havia ligado a TV a esmo, e tomou um susto com a Patrulha no programa, pois nem imaginava que a banda havia voltado, e com essa proposta de resgate total das raízes 1960 / 1970, até no visual.

Versão on line da entrevista para o "Estadão" - 3 de maio de 2000

Ficou tão entusiasmado que passou a acompanhar-nos com vivo interesse dali em diante, e até shows arrumou para nós, graças aos seus contatos na cidade de Avaré. Falarei sobre isso, oportunamente. Encerrando, tocamos "Nave Ave", mas o programa acabou, e mal dando para chegar na parte "B" da música, os caracteres começaram a subir, e assim que saiu do ar, os técnicos sinalizaram para pararmos a execução da canção. Foi uma ótima performance, e no ônibus da TV Cultura, voltando para a casa do Rodrigo, onde guardamos todo o equipamento, fomos conversando sobre o grande dia que tivéramos, com matéria no "Caderno 2", do  Jornal "O Estado de São Paulo", e exibição ao vivo no programa "Turma da Cultura".

Foto clicada por Marcelo Santarosa, no estúdio da Rádio Brasil 2000 FM, em 23 de maio de 2000

Contentes com essa repercussão, ainda assistimos a nossa aparição na TV, na mesma noite, visto que a família do Rodrigo havia gravado a nossa participação televisiva, no velho videocassete. Estávamos num momento importante de expansão por esses acontecimentos amontoados no mês de maio de 2000, e ainda haveria mais coisas boas para acontecer.

A primeira, foi o convite formulado pela Rádio Brasil 2000 FM, onde participaríamos de um programa ao vivo, tocando no estúdio da emissora e respondendo perguntas de ouvintes. Eu já tinha participado desse programa com o Pitbulls on Crack, em 1997, e conhecia o seu formato. Dessa maneira, comparecemos ao estúdio da Rádio em 23 de maio de 2000, onde tocamos diversas canções e respondemos várias perguntas. Foi uma excelente performance, com a banda muito afiada, e a gravação feita numa simples fita K7 que ficou tão bem mixada que o Júnior aproveitou o material dessa noite para colocar como "bonus tracks" na coletânea "Dossiê Volume 4, que lançaria no ano seguinte, em 2001. E a última boa de maio, foi o convite da Revista da 89 FM para entrevistar-nos. Essa entrevista foi realizada no estúdio de ensaio / gravação do tecladista De Boni, então tecladista do Terço.

Resenha do CD assinada por Marcos Cruz para o Site Wiplash

O jornalista que entrevistou-nos era uma avis rara dentro daquele universo da 89 FM, um jornalista chamado Daniel Vaughan, que tornou-se amigo e aliado, doravante, por admirar e respeitar a Patrulha, principalmente pelo tipo de resgate sonoro que propúnhamo-nos a fazer com aquela volta, evocando os anos 1960 / 1970. Maio de 2000, foi um mês de oportunidades muito boas no campo da divulgação.

Continua...

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