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terça-feira, 21 de junho de 2016

1970, Pra Frente, Brasil...na BR 3... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues

 

Chegando ao dez anos de idade em meio a um bombardeio de informações, estava cada dia mais empolgado com tudo o que envolvia cultura em geral, e ao mesmo tempo começando a projetar a adolescência com sentimentos paradoxais em certos aspectos.

Ao mesmo tempo em que estava apreciando crescer e ter mais contato com todas as possibilidades que apresentavam-se, um lado meu ficava triste por estar abandonando signos infantis que tanto gostava. Tal crise de identidade começou mais ou menos no ano anterior e durou até 1972, mais ou menos, quando completei doze anos de idade.
Eu, Luiz Domingues, em foto 3/4 para a carteirinha da escola, aos 10 anos de idade, em 1970, a bordo de uma camisa pseudo-psicodélica da marca "Gledson", que nesse ano fez uma promoção : "compre três camisas psicodélicas e ganhe um poster de um Beatle". Foto do acervo familiar.

Tais posters, eram gigantes de fato, e as estampas disponíveis eram as das fotos individuais dos quatro Beatles, provenientes do encarte do "Álbum Branco", de 1968. Escolhi a foto do Ringo Starr, nada melhor do que uma "Photograph", não é mesmo ?  Queria ter os quatro posters, é claro, mas 12 camisas não foi possível ganhar na ocasião, e logo a promoção acabou...

No futuro, eu perceberia que nada que eu gostava na infância seria perdido pelo simples fato de crescer ser inexorável. Sei que a maioria das pessoas pensa assim e quando atinge a adolescência e vida adulta, abandona o elo com a infância totalmente, por vários motivos, mas não foi o meu caso, pois não penso que eu seja apenas o presente, mas sinto-me como um ser integral, ou seja, o resultado da somatória de todas as experiências acumuladas desde o berço até o último suspiro, que espero seja na velhice avançada. Mas em 1970, não tendo essa maturidade, estava nesse pequeno dilema existencial e havia bombardeio social o tempo todo a influenciar-me. Fumar, por exemplo, era um signo social fortíssimo nos anos sessenta, uma tradição cultural massacrante que arrastava-se há décadas, talvez desde o século XIX, acredito e ouvindo a criançada à minha volta da escola; observando os adolescentes do curso ginasial que eu via fumando no pátio da escola; mais o bombardeio midiático, sentia-me pressionado, mesmo porque, havia o mote da transição da infância para a adolescência e o cigarro (com as bebidas alcoólicas, também), era uma espécie de símbolo desse ritual social, para mostrar coragem de abandonar a infância e assumir-se adulto.
Meu pai era um fumante inveterado. Conheci-o fumando desde sempre, e mesmo com ele não dando a entender que incentivar-me-ia abertamente, se eu começasse a fumar, ele não se oporia, sei disso, mas não aos dez anos, embora ele mesmo tenha começado aos onze, nos anos quarenta. Essa era uma das preocupações que passei a nutrir nessa crise existencial que citei, pois mesmo criança inocente e sem discernimento algum, já nutria verdadeira ojeriza ao tabaco e não pretendia de forma alguma sequer experimentar, pois já achava o cheiro e a fumaça, deprimentes. Como seria se pressionassem-me na escola, e, mesmo que isso não acontecesse ainda no curso primário, sabia que ao ingressar na etapa escolar a seguir, o "curso ginasial", isso seria quase inevitável e mesmo não conhecendo a palavra "bullying" naquela época, isso de fato já existia e os boatos que ouvia entre os coleguinhas, falando de fatos ocorridos com irmãos mais velhos, preocupava-me.

Paralelo a isso, as conversas dos adultos sobre as drogas, beiravam o ridículo, com os boatos que espalhavam-se sobre traficantes que colocavam drogas nas guloseimas vendidas em cantinas escolares e mesmo por conta de vendedores ambulantes de pipocas na porta da escola, com o objetivo de viciar novos "clientes". Cheguei a ouvir gente idosa afirmando isso, como se fosse um fato concreto que tal disposição seria obra dos "subversivos" que a ditadura militar estava combatendo...

Indo mais ou menos nessa linha, aí foi na mídia mesmo, eu li uma reportagem numa revista de atualidades, dando conta de que o governo militar estudava "proibir" algumas gírias que os jovens estavam usando, pois todas seriam alusivas às drogas e isso seria portanto, um plano diabólico dos comunistas para minar a nossa sociedade. Palavras como "Barato"; "Curtição"; "Careta"; "Grilo"; "Cafona" e "Transa" (que nessa época não tinha conotação sexual), estavam na mira das "autoridades". Sem comentários...

Mudando de assunto, logo no início de 1970, adquiri um hábito que geralmente é mais popular entre idosos, mas que enriqueceu demais o meu vocabulário. Tornei-me fã das palavras cruzadas, passando a comprar não só gibis e figurinhas nas bancas, mas também as edições da revista "Coquetel". Na escola, o 3º ano do curso primário transcorreu com alguns percalços. Primeiro, que a professora nova que foi-nos designada, apesar de ser bacana, e que chamava-se "Dona" Valquíria, não tinha o temperamento dócil e com a característica pedagógica de incentivar os alunos elogiando seus pequenos progressos, como a anterior que a turma toda adorava, Dona Maria Tereza. Ela nunca foi rude, gritou ou foi desagradável conosco, mas era bem menos paciente e suas aulas eram a toque de caixa, passando o conteúdo didático tradicional e sem maiores preocupações extracurriculares. Curioso, era para esperar-se que fosse o contrário, visto ser Dona Valquíria, uma mulher muito mais jovem, eu diria, aparentando ser recém formada do curso de magistério, com 19 ou 20 anos de idade apenas.   
Minha escola fazia um enorme "L" entre as Ruas Gomes de Carvalho (portão principal); Baluarte (face lateral); e Casa do Ator (portão dos fundos), mas com a divisão do terreno entre o Estado e a Prefeitura, em 1970, perdemos toda a face dos fundos e a metade da face lateral. Esse mapa acima, que é bem mais moderno (não existia a avenida Hélio Pellegrino na época que descrevo, por exemplo, e pelo contrário, justamente ali corria o córrego Uberabinha), dá uma ideia boa do que falo e o balão verde mostra a entrada antiga da escola e que hoje em dia (2016) é uma escola de enfermagem da Prefeitura, conforme mostra a foto abaixo e claro, a entrada da escola está muito modificada nos tempos atuais.

Outro fato dentro da escola, foi que nesse ano fomos comunicados que haveria uma separação do imenso terreno que ocupávamos, com aquele pátio que mais parecia um sítio, cheio de árvores, sendo diminuído drasticamente. Nossa escola teria redução de espaço, passando a existir até o galpão onde ficava o teatro, e o outro lado seria dividido por um muro onde construir-se-ia ali uma nova escola, que seria gerida pela prefeitura, sendo que a nossa escola permaceria estadual. Então, durante todo o ano de 1970, nossas aulas que já tinham a interferência habitual dos aviões (passando muito baixo, em processo de pouso, chegando no aeroporto de Congonhas), conviveram também com o barulho ensurdecedor das obras da construção do outro colégio que passaria a funcionar a partir de 1971, com sua entrada principal voltada para a Rua Casa do Ator.  
        Foto de um lance do jogo Brasil x Romênia, Copa de 1970

Fora esse incômodo, o 3º ano do curso primário transcorreu com tranquilidade. Um fato marcante aconteceu em junho, durante a realização da Copa do Mundo, quando na véspera do terceiro jogo do Brasil na fase de grupos (Brasil x Romênia), a criançada quis bater num garoto que afirmou que torceria contra o Brasil. Ali foi meu primeiro contato real com o conceito do ufanismo. 
Não participei do bullying que impingiram-lhe, mesmo porque eu abominava tal tipo de ação covarde, mas aquela afirmação fez-me pensar bastante, pois fiquei chocado, sem mensurar nada a respeito da negativa com qualquer embasamento conjuntural da situação política do país à época e talvez esse menino tenha inocentemente expressado tal sentimento, por ter ouvido conversas dos adultos de sua família e que talvez fossem antipatizantes da ditadura de direita que assolava o país naquela ocasião. Mas certamente eu não tinha esse embasamento nessa época para ter tal leitura dos fatos. Apenas fiquei chocado, pois não achava ser possível alguém sendo brasileiro, falar abertamente e com tal convicção, que não torceria para a seleção do Brasil vencer.  

E já que falei de Copa do Mundo, vivendo já a emoção do futebol desde 1968, compreendendo não só o jogo em si, mas acompanhando os bastidores, via rádio, TV e jornais, claro que assisti a competição com total interesse e torcendo muito.
Já tinha visto as partidas das eliminatórias em 1969, e como quase todo pequeno torcedor, orgulhava-me em ver jogadores do meu time serem convocados. Hoje em dia, e já faz muitos anos na verdade, quando convocam jogador do meu time, fico muito indignado, mas... isso é assunto para matérias sobre futebol que escrevo para colaborar com Blogs como o "Futebol Apaixonante" e "Planet Polêmica", e que republico no meu Blog 1, portanto não vou desviar o foco agora.  
Portanto, assisti todos os jogos que pude, não só os do Brasil, mas incluso o jogo de abertura com direito à cerimônia, em 31 de maio de 1970 (México 0 x 0 URSS). A festa do Brasil Tricampeão mundial foi impressionante. O povo estava contagiado pelo massacre ufanista, embalado pelo hino da seleção ("noventa milhões em ação, pra frente Brasil, do meu coração"...), e pensando exclusivamente em futebol, manipulação midiática e política a parte, aquele time ganhou e encantou pela beleza plástica do futebol apresentado, portanto, a euforia era justificável.
Só não entendo até hoje algumas escolhas na escalação, apesar da excelência do meio de campo para frente, a defesa era frágil e não precisava ter sido assim. Excetuando-se Carlos Alberto Torres que era de fato o melhor lateral direito do país, uma defesa com Brito, que era um zagueiro tosco e Piazza que era volante, jogando improvisado como quarto zagueiro, além de um goleiro mediano como Félix, e com todo o respeito ao saudoso Everaldo, na lateral esquerda, mas que era fraco, de fato, realmente com tantos jogadores mais categorizados atuando no país e muitos nem convocados, realmente a sorte era mesmo que havia muita genialidade do meio para a frente.  


E não execrem-me, sei que Gerson jogou muito e foi fundamental na meia, mas Ademir da Guia era muito superior tecnicamente e deveria ter sido cérebro daquele meio de campo. Talvez com o Gerson jogando de ponta de lança no lugar de Tostão (que foi bem na função é verdade, também), mas creio que com Ademir da Guia como maestro, a orquestra teria tocado ainda melhor, se é que possível pensar nisso diante do que aquela seleção de 1970, jogou. 

Após a vitória acachapante e consagradora, meus pais e eu fomos dar uma volta na rua para ver o carnaval do povo e digo que nunca vi tanta euforia, num foguetório e buzinaço incrível, mediante carreata, gritaria etc etc. Acredito que foi no Brasil inteiro, talvez com mais ou menos euforia em algumas localidades, mas ali, no entorno do meu bairro, onde vi e ouvi a manifestação popular, foi retumbante.  

Cerca de um mês depois, no caminho que eu fazia para ir à banca de jornais mais próxima de casa para comprar meus gibis, havia um outdoor com a propaganda de uma indústria de lâminas de barbear, enaltecendo a conquista, com os dizeres : "O caneco é nosso", e a foto da Taça Jules Rimet, símbolo do tricampeonato. E tal outdoor ficou meses sem ser trocado. Até o início de 1971 estava lá, embora já descascando pela ação do tempo.

Para encerrar o assunto futebol, meu time estava numa transição, com aquela máquina sessentista sendo renovada, dando início à uma reformulação que só engrenaria a partir de 1972. Então, em 1970, o máximo que conseguiu foi o vice-campeonato brasileiro, mas pelo menos com o consolo de mais uma Libertadores para disputar em 1971, garantida. E só mais um adendo, misturando minha vida escolar e o futebol. Eu ainda era bem "grosso", não tinha desenvolvido técnica, mas joguei no time da classe, no campeonato interno da escola. E fiquei muito empolgado, porque o gol da vitória no jogo final (acabou 3 x 2, para o meu time), surgiu no fim do jogo, graças a um passe meu. Não foi uma jogada calculada, tampouco nada refinada, mas impulsionada por um chutão que dei no desespero de fim de jogo, contudo, o fato é que esse "chuveirinho" fez a bola cair no pé do nosso atacante e aí... foi aquela euforia infantojuvenil, numa tarde de fim de novembro de 1970...

Sobre os signos culturais que influenciavam-me em 1970, eu já era um fã declarado da Soul Music e aí engloba-se R'n'B e o Funky e que fique claro, o verdadeiro Funky e não essa coisa abjeta que usa o mesmo nome, infelizmente, desde o fim dos anos noventa, acredito. Já gostava muito de inúmeros artistas dessa seara da Black Music, tendo descoberto recentemente o Jackson Five, do qual tornei-me fã, pela sua óbvia qualidade musical.

E mesmo com o Otis Redding morto, ainda apreciava-o muito (na verdade, nunca deixei de gostar de sua obra, é claro), e muitos outros como Stevie Wonder; Wilson Pickett; Aretha Franklin; James Brown; Marvin Gaye, Diana Ross e mais uma série de artistas da pesada da cena dos anos de ouro das gravadoras Motown e Stax.
A Black Music respingou forte no Brasil também e assim passei a apreciar muito o som do Tim Maia que explodiu nas rádios e TV. A reboque, o som do Roberto Carlos, nessa fase 1969 / 1970 também entrou de cabeça na Soul Music (por influência direta do Tim Maia, que alimentou-o com músicas e ideias de arranjos). E fechando a trinca, quando o festival FIC (Festival Internacional da Canção, que foi provavelmente o último suspiro dos festivais sessentistas, arrastando-se até 1972), realizou-se em sua edição de 1970, um negão alto e com uma cabeleira Black Power enorme, notabilizou-se por defender uma canção Soul chamada "BR 3".

Ator de ofício, mas com muito talento para a música, o tal "Toni Tornado" tornou-se febre nacional em 1970, e claro que eu gostei muito, com todo aquele mise-en-scene imitando descaradamente o James Brown, e daí, passei a acompanhar sua carreira, doravante.

Fora a delicadeza R'n'B do Trio Ternura; O Soul abrasileirado dos Golden Boys e Wilson Simonal que estava bandeado na Black Music desde o final dos anos sessenta, todos esses fatores tornavam a atmosfera de 1970, na minha ótica, muito negra, e sensacional. Não era negro, pelo contrário, era um rapaz britânico e branco, mas posso acrescentar o som do Tom Jones nessa onda. Não era tampouco uma novidade de 1970, mas foi mais ou menos nessa época que passei a acompanhá-lo para valer.

Foi nesse ano também que ouvi falar do Led Zeppelin pela primeira vez, mas sem computar o seu som como deveria e gostaria que tivesse sido possível, pensando hoje em dia...

Vi na TV promos do Ten Years After; Slade; Grateful Dead; Jefferson Airplane; The Who; Mungo Jerry e Iron Butterfly e achava tudo incrível. Mas ainda não tinha mais meios de ligar-me nisso tudo, além do radinho e de promos esporádicos que passavam praticamente a esmo na TV Cultura, desde 1969, e que alguns anos depois aglutinar-se-iam num programa específico para tal finalidade, chamado "TV 2 Pop Show".
Entre os mais exibidos, figurava um promo de um cantor de visual hippie, com voz rouca e muito potente, e que contorcia-se todo para cantar, como se estivesse sofrendo um ataque espasmódico. Era sempre a mesma música que era exibida e eu achava-a incrível. 

Não só ele e a canção eram legais, mas a banda que era enorme, com muitos instrumentistas e um coral de vocalistas de apoio. Em 1970, eu tinha poucas informações sobre tal artista, mas logo descobriria ser Joe Cocker, um cantor britânico sensacional e aquele promo era um excerto de um documentário que no futuro eu iria adorar, cobrindo sua turnê pelos Estados Unidos. Joe Cocker com aquela banda, cantando "Cry me a River", arrepia-me até hoje. Que os Deuses do Rock abençoem sempre os "Cães Raivosos e os Homens Britânicos"...
Eis aí o Status Quo, uma das bandas cujos promos passavam no Brasil em 1970. 

Na TV Bandeirantes também passavam promos de bandas de Rock, mas de maneira fortuita, ainda não fechados num programa exclusivo para tal.

Na MPB, fora os festivais que ainda persistiam, creio que foi nesse ano pela primeira vez que ouvi falar dos Novos Baianos; Som Imaginário; Zé Rodrix, e Taiguara.
Fora do esquadro hippie, mas também gostava de um trio vocal que costumava fazer malabarismos vocais impressionantes, usando onomatopaica em cima de jazz e música erudita. Assisti-os muitas vezes na TV cantando "Fugas" de Johann Sebastian Bach, com contrapontos que hoje eu sei serem dificílimos. Eram três irmãos, dois rapazes e uma moça, e o conjunto chamava-se "Os Três Morais", numa alusão ao sobrenome familiar. Anos depois, a mocinha partiu para uma carreira comercial com um pé no brega, fazendo dupla com seu marido, chamado Herondy. Sim, era a Jane..."Não se vá"...

Com o fim da Jovem Guarda, e Roberto entrando de cabeça na Black Music, Erasmo; Wanderléa e outros nomes foram  assumindo-se mais Rockers, deixando o ranço brega que o movimento tinha. São muito bons os discos desses artistas todos, de 1969, em diante.
Ronnie Von que também tinha lançado dois discos psicodélicos sensacionais ao final dos anos sessenta, entra nesse rol, assim como Eduardo Araújo & Silvinha e Leno, da dupla Leno e Lílian, que lançou trabalhos bem bacanas nessa fase.

A decepção veio por conta dos Incríveis, que tinham tudo para deslanchar como uma super banda de Rock nos anos setenta, pela excelência de seus componentes, mas eles tinham amarras com empresários e gravadoras e sei que não era culpa deles, mas mesclavam coisas muito boas como a homenagem que fizeram a Jimi Hendrix, logo após sua morte ("Adeus Amigo Vagabundo", com uma baita introdução Hard-Rock de respeito, fazendo menção à canção "Foxy Lady" do Hendrix), mas em 1970, também lançaram um hino da ditadura militar, "Eu Te Amo, meu Brasil", que extrapola todas as fronteiras do suportável, e do qual eu peguei trauma, pois era obrigado a cantar essa pérola ufanista, todos os dias no pátio da escola, entre os anos letivos de 1970 e 1971, fazendo "ordem unida". Mas ressalto, sei que não foi culpa deles e houve pressão para que lançassem isso.

Gostava muito da Elis Regina nessa fase e daí em diante, é nítido como ela modernizou-se e abraçou um repertório mais antenado com a realidade internacional, saindo do nicho mais fechado do Jazz-Samba que professava anteriormente, e assim, do seu disco de 1970 em diante, passei a apreciar muito o seu trabalho, além também da cantora Claudia, que seguia a mesma linha e para muitos, era rival e concorrente de Elis.

Nesse bojo, o som dos irmãos Valle, Marcos & Paulo Cesar, que também era fechado no Samba-Jazz / Bossa Nova, inicialmente, mergulhou na Soul Music e com esse balanço sensacional, conquistou-me. E fora dessas novidades todas, continuava consumindo as trilhas de filmes antigos e modernos (claro que Henry Mancini; Ennio Morricone e Burt Bacharah já estavam devidamente computados, portanto.

Na TV,  uma propaganda usando um mote e um personagem fixo, fez enorme sucesso e os bordões repetidos por tal figura, ficaram tão populares quanto os que eram repetidos pelo povo, repercutindo-os de humoristas em programas popularescos.

Tratava-se de um personagem que queria agregar uma imagem "jovem" ao tradicional Guaraná Antarctica, que perdia terreno para refrigerantes estrangeiros que usavam tal mote, como a Coca-Cola; Pepsi-Cola e Fanta. Por conta do Guaraná ser muito atrelado ao público infantil, e também aos idosos, a campanha criou o conceito do "Boko Moko", um termo fantasia e inventado para designar tudo o que fosse "fora de moda"; obsoleto; ultrapassado. E assim, quem consumia Guaraná era "anti Boko Moko". Theobaldo, um humorista de programas populares da TV, encarnou tal personagem e de fato, isso tornou-se febre em 1970.

Um programa da TV Tupi que eu gostava de ver, chamava-se "Pinga-Fogo", com um tema diferente a ser discutido semanalmente e um grupo de debatedores a argumentar pró e contra. Bem menos agressivo e tendencioso do que "Quem Tem Medo da Verdade", da TV Record, e também mais sério e não fechado com a ideia de "destruir" uma pessoa ou uma ideia, apesar disso, em certas ocasiões ficava tenso no calor das contrariedades de opinião ou se esbarrava em questões que desafiavam os costumes tradicionais arraigados e nos anos sessenta, a contestação foi mola mestra da juventude que ansiava por liberdade. Muitas vezes foram feitos debates atacando os valores do movimento hippie; do Rock; da contracultura, e diversos aspectos correlatos disso tudo e nessa altura, com dez anos de idade, meu discernimento já estava maior, portanto, apesar de ainda ter mentalidade infantil, logicamente, via aqueles "velhos" destilando preconceitos inconcebíveis, armados de uma moral arcaica e já achava-os "por fora", para usar uma gíria "jovem" da época...

Sobre seriados, "Here Comes the Brides" ("E as Noivas Chegaram"), ambientado numa vila de lenhadores no estado de Washington, era bem adocicado, mas eu gostava.

"Julia", foi um dos primeiros seriados com uma protagonista negra na América. Era a luta de uma mãe viúva (cujo marido era da aeronáutica e morrera em combate na guerra do Vietnã), para criar seu filhinho, trabalhando como enfermeira num pequeno posto médico de uma fábrica. Gostava de ver a boa índole da personagem dobrando todos os preconceitos e com os brancos afeiçoando-se a ela e ao garotinho, seu filho.

Entre as séries policiais que descobri em 1970 (e algumas já eram antigas), relaciono Dragnet; Hawaii 5-0 (só pelo tema de abertura, já valia a pena...); "The Untouchables"("Os Intocáveis"), que adorava por ser ambientada nos anos vinte / trinta e portanto super familiar para o meu gosto tão sedimentado pelos filmes dessas décadas que eu adorava desde pequeno; e "Judd For Justice" (um advogado que saia às ruas para buscar provas visando preparar a defesa de seus clientes, e envolvia-se ele mesmo em confusões com a bandidagem. Em muitos aspectos lembrava "The Mod Squad", embora não fosse a intenção igual do personagem ser jovem e antenado na contracultura das ruas.

Sobre desenhos animados, creio que a safra que gostei em 1970 foi boa, com Karatê & Batfino; Super Mouse; Scooby Doo (apesar do enredo dos desenhos ser sempre o mesmo e ter virado até motivo de piada por isso : ao final, toda a fantasmagoria era uma farsa protagonizada pelo vilão improvável), e uma nova aventura de Dick Vigarista e seu cão debochado, Muttley, baseada em aviadores da I Guerra Mundial, chamada "Máquinas Voadoras" (Dastardely and Muttley and Their Flying Machines"). Apesar de todos esses que citei serem infantis e eu já não aficionar-me tanto, acho que são boas animações e que remetem-me à época.
 
 

E assim como no caso do desenho  "The Impossibles", que citei anteriormente em outro capítulo, mais algumas atrações com personagens que eram componentes de um grupo de Rock, surgiram na TV. "Josie and The Pussy Cats"; "The Archies" e "Banana Split" (este com atores usando fantasias em tamanho natural como bichos estilizados). Este último por sinal, desdobrava-se em outras atrações, tendo embutidos, animações bem bacanas como uma versão da história dos Três Mosqueteiros e Arabian Knights, um desenho inspirado nas "1001 noites das Arábias" etc.

O Rock, mesmo sendo infantilizado nesse caso, estava sendo absorvido pela sociedade.

Fechando o assunto TV, tenho quatro relatos importantes a registrar e mesmo ainda não tendo nenhuma determinação em tornar-me artista nessa época, foram incursões que tive, muito interessantes por colocarem-me diretamente em tal veículo. Minha experiência mais próxima de estar perto da difusão cultural até então, fora em 1965, como já relatei no capítulo sobre esse ano, quando acompanhei meu pai que liderava um comitê eleitoral de um candidato a prefeito de São Paulo, por estações de rádio para que este candidato concedesse entrevistas.  

Depois disso, o contato mais próximo foi feito em esporádicas e fortuitas vezes em que vi artistas nas ruas, circulando com meus pais de automóvel, ou mesmo a pé. Mas em 1970, coisas mais contundentes aconteceram-me :  

1) A primeira ocorrência foi fortuita como a que descrevi acima, em termos de ver um artista de perto por mera coincidência. Só que desta feita, não foi algo efêmero, coisa de segundos, mas durou pelo menos uma hora e aconteceu na esquina da minha casa, do outro lado da calçada e de minha residência, por várias janelas, podia acompanhar como se estivesse instalado em um "camarote"...

Poderia ter feito como as mais de vinte crianças da vizinhança fizeram também, mas tímido, não juntei-me a elas que cercaram o carro do artista em questão, que ali apareceu, tampouco quis ir pendurar-me no muro da residência em que este artista entrou. 

Tratava-se de Ronald Golias, um humorista dos mais celebrados dos anos sessenta e setenta e que gozava um momento de mega popularidade nessa época, dado o sucesso que o programa "A Família Trapo" fazia em todo o Brasil, massificando o seu personagem, "Bronco Dinossauro", que era um típico vagabundo e ardiloso que morava de favor na casa da irmã, e azucrinava a vida do cunhado, o dono da casa, vivido pelo italiano, Otelo Zeloni.  

Pois foi num dia de 1970, que Golias estacionou seu belo Ford Galaxie branco, na esquina da Rua Quatá com a Travessa Uberabinha. Minha residência também era de esquina, e a que ele visitou ficava no outro lado da calçada que pendia para a travessa citada. Alguma criança viu quem era a celebridade que desceu do carro, tocando a campainha da residência e o boato espalhou-se rapidamente. Eu notei pelos gritos e murmurinho, mas fiquei em casa observando de longe. E ali, tive uma primeira constatação importante sobre o mundo artístico. Nem tudo o que vemos brilhando na telinha da TV, representa a verdade sobre a pessoa que o artista é, na vida real.

Claro que nenhum artista está isento de ter aborrecimentos, como qualquer pessoa normal e ter seus momentos de mau humor e nesse caso, não querer conversar amenidades com ninguém. Atores e principalmente humoristas, tendem a viver tal dilema de serem engraçados no palco, na TV e no cinema, mas não necessariamente serem assim no cotidiano. Golias era adorado pela criançada, eu incluso, mas naquele dia em específico não estava bem e diante disso, foi muito decepcionante vê-lo saindo de tal residência com um mau humor horrível e ter gritado com os seus pequenos fãs que assediaram-no, caçando autógrafos. Foi um choque ver um artista que eu achava hilariante na TV, gritando com as pessoas, fazendo gestos bruscos de descontentamento etc. Ao expulsar as crianças aos gritos, que cercavam seu carro, foi vaiado após a decepção geral.  
Bem, nunca soube o que fazia ali. Boatos deram conta que ali morava uma tia dele e de fato, era uma casa bem antiga, aparentando ser dos anos vinte, pelo menos, e ali morava uma senhora idosa. Anos depois, já adulto, cheguei a conclusão de que deve ter sido um mau dia para o artista, e que talvez estivesse contrariado por alguma razão pessoal e quem sabe, aborreceu-se ainda mais após a visita. Quem nunca passou por isso ? E aí, o assédio só incomodou-o mais ainda.  

Foi portanto uma lição importante nesse dia : artistas são seres humanos iguais a qualquer pessoa e sujeitos portanto a terem aborrecimentos a qualquer momento e não necessariamente expressando sua contrariedade com resignação. E podem mesmo não serem pessoas agradáveis no dia a dia, deixando a graça ou a docilidade para os personagens que interpretam na dramaturgia, quando fingem serem outras pessoas que não o são na vida real. Simples assim...


2) A segunda questão veio por intermédio da escola. Num determinado dia de aula, a diretora da escola entrou na minha classe e pediu para falar com a professora. Em princípio, todos acharam ser uma blitz dos agentes de saúde que sempre chegavam de surpresa para vacinar a criançada, exatamente para apanhar-nos desprevenidos e assim a resistência à terrível sessão de injeções, ser mais fácil para os enfermeiros da secretaria de saúde.
Mas não era nada disso, e logo a professora comunicou-nos que uma equipe da Rede Bandeirantes de TV visitara a nossa escola e que queriam ver um debate de crianças falando sobre a "Transamazônica", um dos maiores monstrengos que a ditadura militar criou, ou melhor, anunciava estar criando.

Então, a professora escolheu seis crianças, três meninos e três meninas e entre tais crianças, eu fui um dos escolhidos.
No dia seguinte, acompanhados da professora e da diretora, seguimos numa viatura da Rede Bandeirantes de TV, para o seu estúdio no Morumbi, zona sul de São Paulo. Lá, colocaram-nos num imenso estúdio que parecia um hangar e um produtor organizou-nos num círculo e começou a conduzir a experiência do debate, estimulando-nos a falar livremente sobre o que pensávamos dessa estrada que o governo pretendia fazer, cortando a selva amazônica, numa suposta ligação que pretendia fazer pela via rodoviária, até o oceano pacífico, atravessando países vizinhos, logicamente. Bem, minha lembrança do improviso que fizemos é de que foi pífio, e mesmo sendo criança ingênua, notava os olhares de contrariedade desse mediador em cumplicidade com um grupo de produtores que acompanhava o desenvolvimento dessa conversação livre. Encerrado o debate, levaram-nos para a escola novamente e pelo menos a professora foi honesta conosco ao dizer-nos que fôramos reprovados pela produção do programa e que iriam testar turmas de outros colégios.

Ficamos chateados, pois na nossa imaginação infantil, quando do primeiro contato, no dia anterior, ficamos certos de que nossa ida ao estúdio da TV Bandeirantes já era para gravar o programa e foi o que eu disse aos meus pais, que já mobilizavam-se para avisar parentes e amigos, vovós ficando encantadas etc. Lição número dois dos bastidores da difusão cultural : só acredite que alguma participação sua no rádio ou TV vai dar certo, depois que for ao ar...  

3) O terceiro caso que tenho a relatar, foi de fato, minha primeira aparição na tela de uma emissora de TV e na verdade, desdobrou-se numa segunda oportunidade, uma semana depois e poderia ter representado um caminho, visto que gerou a quarta ocorrência, que relatarei depois. Foi assim : meu pai conheceu uma senhora chamada Nair, que era costureira do figurino de atores, na TV Record, e que apesar de ser uma funcionária simples dentro daquela organização, tinha muitos contatos.

Um dia, meu pai perguntou-me se eu aceitava participar de um programa ao vivo, como figurante, e mesmo sendo ultra tímido, eu aceitei a oferta porque queria muito conhecer os bastidores de um programa de TV. Mais uns dias e com minha participação acertada, Dona Nair perguntou ao meu pai se não tinha outro menino para indicar, pois precisavam de mais um, mais ou menos de minha idade e assim, meu primo, Marco Turci, embarcou junto nessa aventura, e claro que eu gostei muito de ter a companhia dele. Então, lá fomos os dois para o Teatro da Record, participar do programa "Moacyr Franco Show", que era bem o estilo desse artista, multifacetado, pelo fato dele ser humorista; cantor, e apresentador, num show de variedades bem eclético, eu diria.

Era inacreditável estar naquele teatro, onde tantas produções famosas dessa emissora ocorreram. Era o palco dos grandes "Festivais da MPB" que sacudiram o Brasil e também da "Família Trapo", "Show do dia 7" e tantas outras produções que eu assistira durante toda aquela década ("A Jovem Guarda" era realizada no outro teatro da emissora, na Rua da Consolação). 

Chegando lá, estávamos munidos de uma muda de roupa velha, bem puída, que seria o nosso figurino e lá seria ainda mais  "estragada", segundo a produção informou-nos. Para um menino de 10 anos de idade (meu primo tinha 12), que eu era, fiquei impressionado com o clima caótico dos bastidores, com técnicos trabalhando apressadamente; coristas ensaiando em espaços improvisados; funcionários trabalhando e tudo parecendo estar atrasado, dando para perceber o stress no ar. Fomos levados então para uma saleta, onde uma produtora explicou-nos como seria nossa atuação com Moacyr Franco.

Era uma sketch de humor, onde ele faria o seu personagem famoso, o mendigo. A ideia era que aquelas crianças (éramos sete ou oito, não recordo-me com exatidão), representassem o papel de filhos do mendigo e que receberíamos presentes por ocasião de ser natal (e de fato era próximo mesmo do natal de 1970), e que a seguir, quando um outro ator entrasse em cena, dizendo-se dono da loja onde os brinquedos foram comprados, mas não pagos pelo mendigo, arrancar-nos-ia das mãos os pacotes e ficaríamos cabisbaixos, fazendo expressão facial de choro. Assim permaneceríamos e evitando rir das piadas que Moacyr provocaria no diálogo com o outro ator e ao final, o sujeito da loja ficaria com pena de nós e deixaria que ficássemos com os presentes, em nome do espírito natalino, blá blá blá... enfim, algo absolutamente simples e que não requeria de nenhuma criança, nenhuma técnica teatral de interpretação. Ensaiamos e tudo pareceu fácil, dando-nos segurança. Mas quando chegou a hora de ir para o palco para a encenação ao vivo, sem preparo algum; não sendo ator e só tendo uma experiência pífia de palco em 1968, com a apresentação singela da bandinha infantil da minha escola no Teatro Paulo Eiró (relatado no capítulo sobre 1968), claro que senti frio na barriga, ao ouvir os aplausos vindos do público daquele teatro que era enorme, estava lotado e ainda por cima, sob os holofotes da iluminação reforçada por canhões de luzes brancas, por conta do contraste que havia nas transmissões em preto e branco, naquela época no Brasil.
Talvez se houvesse alguma fala eu tivesse gaguejado, ficado ofegante, com taquicardia e pernas bambas, muito provavelmente, mas sendo uma performance singela e muito simples, eu cumpri o combinado, assim como meu primo, que também atuou sem problemas. 

Só tivemos contato com o Moacyr em cena, mas foi tudo bacana, apesar da bagunça incrível que eram os bastidores de um programa ao vivo, num teatro com público. Ainda ali no teatro a produtora informou-nos que gostaram de nós (como assim ? Se não éramos atores infantis com um mínimo de bagagem e pelo contrário, numa primeira experiência na vida, gostaram do que exatamente ? Só se acharam-nos adequados por não termos sido inconvenientes como meninos dessa idade normalmente seriam, nesse ambiente super excitante). 

Sendo assim, fomos convidados a participar do programa da semana seguinte, e desta feita, não participando de uma sketch de humor, mas de um número musical do Moacyr. Aceitam ?? Claro que aceitamos e assim ficou marcado...
Infelizmente, meu primo que já sentia-se febril no dia da nossa primeira aparição, dias depois caiu de cama, diagnosticado com hepatite, que tirou-o de circulação por algumas semanas e estragou a sua participação no segundo programa, e certamente as suas férias escolares de 1971...
Sem a companhia dele, eu fui mais inseguro para a segunda participação, por ter que lidar com crianças estranhas, mas paciência.
O esquema foi o mesmo, chegando no período da tarde no teatro e vendo aquela bagunça incrível nos bastidores. Apesar daquele ambiente parecer caótico, eu estava gostando muito de tudo aquilo e de fato, anos depois, quando comecei a frequentar bastidores de TV com as bandas onde toquei, eu gostava muito de observar tudo o que acontecia e nos relatos dessas minhas aparições na telinha, tem muitas histórias pitorescas, relatadas nos diversos capítulos da minha autobiografia na música, e basta consultar o arquivo deste Blog para ler ou mesmo reler. Nessa segunda participação que fiz, seria mesmo um número musical conforme havia explicado-me a produtora, uma semana antes. Nessa tarde, fiquei empolgado vendo artistas famosos do humorismo da TV Record, que circulavam por ali e participariam de outros quadros, casos de Walter Stuart e Walter D'Ávila. Usando figurino próprio e minha mãe tendo sido informada para orientar-me a usar "roupa de festa", lá fui eu todo "arrumadinho".

Juntaram as crianças que participariam do número e levaram-nos à uma saleta onde havia um piano. O rapaz que tocaria, ensinou-nos a música em si, que era uma canção muito melodramática, bem ao estilo do cancioneiro do Moacyr como cantor, e nesse aspecto, mesmo reconhecendo que ele cantava bem e indo além, acho que tinha um vozeirão potente e afinado, suas canções pendiam para um certo mau gosto, indo com um pé no brega popularesco, mas pelo viés da velha guarda da MPB, com aquelas impostações vocais exageradas, esticando notas desnecessariamente no afã de mostrar virtuosismo e dramaticidade etc. Bem, a intervenção das crianças seria singela. Era para ficar ao lado do piano, e fazer um coro em uníssono e ali ninguém era cantor mirim testado previamente, portanto, a participação era muito simples, apenas reforçando o refrão e deixando o Moacyr fazer sua interpretação em paz nas outras partes da canção, sem ter que aturar nossa desafinação inevitável.

Não havia microfones individuais para cada um (ainda bem), mas apenas um ou dois microfones postados como "overall" para captar uma massa coletiva das vozes infantis ao fundo, e hoje eu sei, proposital, para não comprometer o Moacyr, que certamente atrapalhar-se-ia a cantar ouvindo um coro infantil desafinado.
Passamos a música umas três vezes na saleta com o pianista e quando fomos chamados ao palco, confesso, mal conseguia lembrar-me da melodia que deveria entoar e muito menos da letra, com as palavras a balbuciar...
Mal chego ao lado do piano, com aquele holofote fortíssimo a esquentar-me absurdamente, olho para um camarote à minha esquerda e vejo meus pais que sorrindo, acenaram-me. Dava para ver nos seus semblantes o orgulho que estavam sentindo e isso desestabilizou-me por alguns segundos.

Lembro-me que "enrolei", cantando poucas partes que realmente consegui memorizar naquele "ensaio" caótico feito poucos minutos antes nos bastidores. E outra lembrança nítida : os olhares de reprovação do Moacyr para as crianças que desafinaram bastante, mas dessa isento-me, pois mais fingi do que cantei de fato...

Muitos aplausos sucumbiram ao término da canção, denotando que o público achou tudo Ok, sem perceber a insegurança das crianças.

Hoje em dia eu penso que a presença das crianças foi uma bobagem absolutamente descartável ali. Apesar do tema ser a "esperança" (por dias melhores), visto ser um programa evocando o ano novo que aproximava-se, e por isso a produção insistiu nisso, teria sido muito melhor o Moacyr cantar acompanhado do pianista, num número musical intimista e seguro, sem essa artimanha, mas... foi assim que aconteceu, e não foi ideia minha... ha ha ha !

Por conta dessa segunda aparição no "Programa Moacyr Franco Show", o contato que tínhamos na TV Record, a valorosa Dona Nair, convidou-me e ao meu primo, para fazermos teste como atores para uma novela que a emissora faria em 1971... e essa é a quarta ocorrência sobre TV que vivi em 1970.

4) Atores em uma novela... eu e meu primo aceitamos o desafio. Não éramos atores; não tínhamos preparo algum e nem teatrinho infantil de escola havíamos feito na vida, mas gostamos da participação no programa do Moacyr Franco. Demos sinal verde para a Dona Nair que alertou nossos pais que em caso de aprovação, teríamos obrigações a cumprir com as gravações da novela, participações em outros programas da grade da emissora e talvez até ações fora da TV para promover a mesma. Com isso, talvez perdêssemos algumas atividades escolares, mas muitas crianças conseguiam conciliar "vida artística" com atividades escolares e que não haveria prejuízo. Meus pais já não gostaram muito dessa conversa, devo dizer. Mesmo assim, cheguei a receber um script para decorar e que já eram diálogos da personagem. Achei o material volumoso e preocupei-me se conseguiria de fato decorar tudo. E nem passava pela cabeça que sem técnica alguma, nem mesmo de expressão corporal, o simples fato de ter capacidade de decorar o texto, era a mera cereja no bolo nesse cômputo final, pois desprovido de qualquer indício de talento para ser ator, com aquela timidez infernal que eu tinha desde o berço, é claro que não passaria no teste.  

A novela em si era uma adaptação do romance do escritor, Mark Twain, chamada "O Príncipe e o Mendigo". Tal versão adaptada estava sendo elaborada pelo escritor Marcos Rey e a direção seria de Dionísio Azevedo. O elenco tinha grandes atores, veteranos e tarimbados do teatro, da própria TV e do cinema. O protagonista seria um jovem ator chamado Carlos Eduardo, que poucos anos depois ficaria famoso na TV com o nome artístico de Kadu Moliterno. A mocinha seria feita por uma ninfeta chamada Nádia Lippi, que também ficaria famosa nos anos setenta pelas novelas e pelos filmes que faria. Meu primo desistiu porque ainda estava doente, recuperando-se e eu, por um misto de fatores. Primeiro que convenci-me que ser ator não era a minha e mesmo que eu achasse que fosse, faltava-me talento e técnica, e pesou também que meus pais acharam bonitinho eu ter feito dois programas na TV, mas daí a isso virar algo sério, já não haviam apreciarado a ideia.

Bem, tenho 99.9% de certeza de que não passaria no teste, mas digo que ali, no final de 1970, foi um primeiro vislumbre que tive concreto com o mundo artístico, bastidores de TV etc.
A novela só foi ao ar de fato, em 1972, mas aí eu já estava em outra, começando minha muito sutil aproximação mais contundente com a música e ser ator era algo totalmente fora de questão, certamente, mas quando a vi no ar, claro que lembrei-me do episódio de 1970, e pensei que poderia estar ali. Poucos anos depois, a música e o Rock em específico, levar-me-iam para esse mesmo mundo, não na profusão que deixasse-me mega popular, mas dando-me impulsos significativos para aproveitar o veículo e aí englobo também o rádio e a imprensa escrita. Foi assim então, a minha incursão em quatro episódios, pela TV, em 1970. 

Falando de cinema, lembro-me dos outdoors espalhados pela cidade inteira, anunciando um filme chamado "Ana dos Mil Dias", que contava a história de Ana Bolena, uma das seis esposas do Rei Henrique VIII. Só de ver o cartaz, já fiquei louco para assisti-lo, visto ser um filme enfocando a história europeia pós-Medieval.

Não deu certo de ver ali no calor de seu lançamento, só vim a conhecê-lo muitos anos depois na TV, mas a lembrança dos outdoors e dos "tijolos" nos cadernos de cultura dos jornais, ficou. 

Mais um que fiquei curioso para assistir vendo a divulgação pelos jornais e revistas, foi "M.A.S.H.", uma comédia de humor negro satirizando a Guerra da Coreia nos anos cinquenta, mas que subliminarmente, cutucava o conflito da vez, e que foi muito maior, no Vietnã. Porém só fui conhecê-lo anos depois pela TV, e já com o seriado derivado em pleno curso, sendo exibido também.

Um que assisti no cinema, e era compatível com minha idade, foi o segundo filme do Roberto Carlos, chamado "O Diamante Cor-de-Rosa". Ainda naquela predisposição sessentista de fazer filmes com astros da música misturando aventura & espionagem, tal película mostrava Roberto Carlos; Erasmo Carlos & Wanderléa numa aventura maluca para desvendar o mistério envolvendo uma estatueta que sinalizaria a existência de um tesouro e mais do que isso, provaria cabalmente que os Fenícios teriam descoberto a América e em especial o Brasil, séculos antes de Colombo / Espanhóis e Cabral / Portugueses. É um filme muito divertido para o público infantojuvenil e claro que aos dez anos de idade, achei-o muito "bacana" e falando da trilha sonora, foi bem no auge da fase "Soul Music" do Roberto, portanto, a meu ver, foi sua melhor fase, antes de mergulhar no mundo da música dita "romântica", um tremendo eufemismo para designar o "brega".

No mundo dos quadrinhos, estava eu firme e forte colecionando gibis da editora Ebal, consumindo os universos Marvel e DC Comics, quando comemorei a criação de um herói 100% brasileiro, chamado "Judoka". Só muitos anos depois, fui saber que outros super heróis genuinamente brasileiros haviam sido criado antes do "Judoka" ("Dínamo"; "O Flama" etc), mas foi legal ter essa euforia por ver um herói mais identificado com a nossa cultura, luso-brasileira.

Na euforia da Copa do Mundo, e já sendo um palmeirense praticante, colecionei outra despesa para o bolso do meu pai. Além dos muitos gibis; pacotes de figurinhas e das palavras cruzadas da Coquetel, passei a consumir uma revista que acabara de ser lançada, chamada "Placar", totalmente fechada no mundo do futebol. Tal revista acompanhar-me-ia na minha vida, por muitos anos doravante e provocaria um certo dilema, como um choque cultural interessante, eu diria, mas do qual não falarei agora. Prefiro dissecar isso em capítulos posteriores quando enfocar os anos setenta e falar da minha adolescência.

Bem, acho que 1970 foi um ano em que recebi uma forte carga cultural e que indo além, colocou-me numa fase de despedida da infância e um vislumbre do que seria a adolescência. 
Minha ligação com o Rock estava cada dia mais forte, mas em 1970, creio que o laço com a Black Music intensificou-se muito, também. Fim de década, fim de um ciclo pessoal na minha formação pessoal, estava dizendo adeus à década que mais gosto, a de sessenta, mas aprendendo a lidar com a ideia da mutação inexorável do tempo, o que não deixou de ser uma tremenda lição.

Como dizia Joe Cocker em 1970, na canção "Space Captain" : -"Until we die, until we die... Learning to live togheter"...
Ooh... Aah... Ooh... Aah... until we die, until we die... Learning to live togheter... learning to live togheter...

Que viesse 1971; a década de setenta; mais a adolescência e o aprofundamento nas questões culturais em geral, sobretudo o Rock.

Continua...