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sexta-feira, 22 de julho de 2016

1975, Tubular Bells... - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Por Luiz Domingues



Cheguei à metade da década de setenta, com a percepção de um adulto, mas claro, ainda com muitas pendências infantojuvenis para cumprir, até poder considerar-me de fato, maduro. Logo de início, e por falar em pendências, precisava fazer as provas da 2ª época, a pairar no ar a "humilhante" possibilidade da repetência, a assombrar-me. Estudei, fiz o que pude dentro das minhas possibilidades na ocasião, mas infelizmente fui reprovado. Eu que já tinha começado o ensino fundamental tardiamente por conta do imbróglio burocrático que tive em 1967 (relatado em detalhes no capítulo correspondente desse ano), agora teria que amargar mais um atraso.
 
                              Luiz Domingues, em 1975     

Fiquei chateado, é claro, e meu pai esboçou repreender-me, mas pesou em sua consciência, acredito, pois deve ter ponderado que eu nunca fora um menino rebelde, com atitudes desrespeitosas e muito menos ostentava histórico com arrolamento de confusões perpetradas no ambiente escolar, tampouco em parte alguma e ainda bem, não associou meu entusiasmo pelo Rock como algo que estivesse a desviar a minha atenção, ao ponto de perder o foco nas obrigações escolares etc. Consummatum est, absorvi com resignação a repetência e salvo algum aborrecimento momentâneo, a vida seguiu...
O ambiente de 1975 para o Rock parecia inalterado e vibrante, mas a visão que eu tenho hoje em dia é um pouco diferente, amparado que sou pelo distanciamento histórico, que amplia a visão para um patamar macro e isento. Vejo, ao olhar para trás, que ainda havia muita vida inteligente e ativa no panorama internacional, certamente, mas as ratazanas que sempre estão à espreita no seu intuito destruidor, estavam a agir pelas beiradas, a arquitetar seus planos de sabotagem. Tais planos ficariam proeminentes só em 1977, mas desde bem antes a conspiração estava por armar-se e creio, que em 1975, já dava seus sinais pela Europa, notadamente na Inglaterra, e seguramente nos Estados Unidos, igualmente. Mas aqui no Brasil, os ecos desse baixo astral anti contracultural estavam longe de incomodar-nos, ainda. Pelo contrário, por levar-se em conta o fato de que o movimento Hippie chegara com enorme atraso por aqui, a estourar somente por volta de 1972, quando a grande explosão nos Estados Unidos e Inglaterra houvera, sido em 1967, esse foi um fator decisivo para que a euforia aqui esticasse até 1977, certamente, para empalidecendo só em meados de 1978, pelo menos.

Em resumo, por isso que a minha percepção em 1975, foi sob absoluta normalidade em prol da continuidade, sobretudo, da euforia toda perpetrada pelo Rock e contracultura em geral. Nessa toada, a vida seguiu então em torno da intensa progressão que a música provocava-me como efeito devastador em meus propósitos.

O fato de eu ter sido repetente na vida escolar, trouxe-me alguns aspectos positivos, por incrível que pareça. Isso por que nessa fase da vida, um ano faz muita diferença na percepção de crianças e adolescentes e dessa forma, quando as aulas começaram, eu ali com 14 anos, a caminhar para os 15, deparei-me com uma classe formada predominantemente por alunos mais novos, entre 12 e 13 anos de idade, na média. Diante dessa nova realidade e ao sair completamente da minha normalidade comportamental, senti-me impelido a mudar um pouco o meu estilo natural de ser e agir, ao tornar-me, digamos, um pouco mais saliente. De forma alguma tornei-me mais agressivo, altivo e dado a portar-me como um rebelde debochado e cínico, a tomar atitudes agressivas ou desrespeitosas com mestres; funcionários; diretoria, e tampouco colegas. Jamais chegaria nesse ponto, sou um hippie pacifista e ultra respeitoso para com os demais, por natureza intrínseca. Todavia, em 1975, a situação em sentir-me mais "experiente" que os demais, fez-me deixar de ser tão tímido e recatado, ao assumir uma postura de maior proeminência, liderança etc.   

Meus amigos foram aprovados, no entanto, em 1974 e assim, em 1975, foram cursar a oitava série. Apenas mais três ou quatro reprovaram e destes eu não tinha quase contato, a não ser aquele freak, chamado Luiz, que eu conhecia desde 1973, quando voltara para a minha escola. Em 1974, ele deu-me alguma atenção quando notou que eu acompanhava o Rock, e de fato, eu já conhecia muita coisa, conforme relatei em passagens relativas ao ano anterior. Mas agora, com ele a estar ainda mais velho (já beirava os 18 anos de idade, acredito), e pelo visto, a cursar duas ou três vezes cada série (a arrastar a conclusão do curso fundamental, ad infinitum...), éramos os Rockers daquela nova classe, a "sétima C". E foi através desse rapaz, que um fato extraordinário começaria a mudar a minha vida, e claro que só hoje eu percebo isso claramente, apesar de ter sido apenas uma sutileza, na época.

Pois um dia, mais ou menos em maio de 1975, esse sujeito abordou-me no horário do recreio e contou-me algo que considerei impressionante. Segundo ele, um programa de rádio estava no ar todo dia, da meia noite às duas da manhã, a tocar Rock nacional e internacional da melhor qualidade e com um apresentador que parecia ser um hippie com altas conversas paralelas, a discorrer sobre literatura; teatro; cinema, e mais uma série de coisas correlatas ao Rock, com o mesmo espírito contracultural. E o mais inusitado disso, tratava-se de um programa executado em uma emissora "careta" ao extremo, em pleno "dial" alojado na onda AM, e tal estação pertencia à uma ordem monástica de origem católica. Ufa... absolutamente inacreditável ! Em princípio fiquei atônito. Mas claro que fui conferir e aí...
Assista acima, uma performance ao vivo para um especial de TV em 1973, com Mike Oldfield a executar a parte 1 de "Tubullar Bells", logicamente acompanhado por outros músicos, porque ao vivo não dava para tocar tudo sozinho. O trecho final, que o Jaques usava como "BG" de sua locução mágica, todas as noites, começa por volta do minuto 18' desse vídeo. E o início da obra, é o trecho que foi usado como trilha sonora de abertura do filme : "O Exorcista". Tudo absolutamente..."altamente" !!
 
Bem, o programa, "Kaleidoscópio" arrebatou-me inteiramente e durante dois anos (1975 e 1976), fui seu ouvinte assíduo a receber a carga imensa de sua influência contracultural, a sedimentar ainda mais o meu apreço pelos ideais e assim, possibilitar o início de um borbulhar na minha mente, sobre algo diferente em relação à música.

Nomeei este capítulo como "Tubular Bells", para estabelecer uma referência direta à música / álbum homônimo de Mike Oldfield, e que tanto significado tem na minha formação artística e pessoal, por ter sido usado como tema de encerramento, toda noite, do programa, "Kaleidoscópio", como um fundo mágico para a locução de improviso, mas sempre inspirada e "pirada", do grande, Jaques Sobretudo Gersgorin, ao qual o chamávamos informalmente como : "Jaques Kaleidoscópio"

Sobre o impacto gerado pelo Kaleidoscópio, escrevi uma matéria sobre tal programa e sem dúvida que tem uma carga emocional enorme nesse texto, pois representou muito para a minha formação contracultural, tal atração radiofônica. 

Eis abaixo o Link para ler tal matéria em meu Blog 1 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/06/kaleidoscopio-altamente-rock-por-luiz.html

A aproveitar o ensejo do que descrevo, outro fator que foi mais uma gota d'água para fomentar a vontade concreta para entrar no mundo da música, deu-se alguns meses depois, e foi tão fundamental quanto a descoberta do Kaleidoscópio. 

Passava pela banca de jornais da esquina das Avenidas Santo Amaro e Pavão, em Moema, na zona sul de São Paulo, quando tive a visão de uma miragem. Em meio a inúmeras publicações, deparei-me com uma revista em preto e branco, mas com uma imagem que enlouqueceu-me. Era uma foto ao vivo do "The Who", e o nome da revista era : "Rock, a História e a Glória". Claro que comprei-a imediatamente e aí... apaixonei-me de pronto pelo seu teor e muito mais que isso, pelo texto escrito por tantos jornalistas que ali militavam e dos quais, tornei-me fã também pela qualidade da sua redação, influência que carrego também por esse aspecto. Aliado ao Kaleidoscópio e por tudo mais que vinha a acumular desde muitos anos antes, foi em 1975, tardiamente, é bem verdade, que tomei a decisão em inserir-me concretamente na música. Como isso seria possível, eu não sabia, pois não entendia nada de música, técnica e teoricamente a falar, além de não ter nenhum contato direto com músicos ou aspirantes a. Estava a credenciar-me a tornar-me músico, apenas a basear-me na força de vontade e nada mais. Nem mesmo sabia por onde começar, mas estava decidido na minha mente e também no coração.

Sobre o que foi a revista, "Rock, a História e a Glória", eis abaixo o Link que direciona à matéria em meu Blog 1 :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/07/rock-historia-e-gloria-por-luiz.html

Ainda a mencionar o âmbito escolar, nesse ano, a professora de português que era jovem e lembrava-me bastante a atriz, Sonia Braga, fisicamente, propôs uma quermesse cultural, a aliar as tradições de uma festa junina normal, mas para tentar incorporar elementos do folclore brasileiro, ao estimular trabalhos nesse sentido etc. Bem salutar a iniciativa, mas com todo o respeito ao "Bumba Meu Boi" (do qual não vou questionar, tampouco desdenhar de forma alguma, por reconhecer e respeitar a sua importância como peça do folclore brasileiro), mas o fato é que a grande pergunta que fiz na época e ainda faço, é : se folclore é manifestação cultural de um povo e diz muito de suas tradições locais, como achar que nós, paulistanos a viver uma realidade sociocultural completamente dispare de uma tradição nordestina que diz respeito à cultura sertaneja, que exprimi uma realidade que não é nem de longe a nossa, poderíamos interessarmo-nos e entusiasmarmo-nos com uma manifestação a descrever sobre boiadas, vaqueiros etc ?

Claro que a intenção foi a melhor possível e absorvemos o conteúdo, mas tal questionamento que fiz à época, vale para os dias atuais, pois sendo paulistas e com a agravante de sermos paulistanos, portanto nascidos e criados na extrema urbanidade de uma megalópole, tudo bem saber teoricamente o que representa a festa do "Bumba Meu Boi", mas não deveríamos ter contato com algo que realmente dissesse-nos respeito ? Se folclore é isso, ou seja, manutenção de cultura popular genuína, não seria melhor passar-nos outro conteúdo, mais a ver com a nossa realidade ? História dos bairros da cidade, origem de seus nomes, e até a música de Adoniram Barbosa; Germano Mathias; Demônios da Garôa e outros genuinamente paulistanos, teria mais a ver...

E dessa festa do "Bumba Meu Boi", em um sábado a noite, o que mais marcou-me mesmo, foi que depois da exibição do folclore já citado, o serviço de som mandou sons mais a ver conosco e entre eles, um compacto duplo (daqueles que vinham encartados na Revista Pop), tocou muitas vezes, para salvar a minha noite. De um lado continha a canção, "Postcard", do The Who e do outro, "Como Vovó Já Dizia", do Raul Seixas. "Jurubeba" do Gilberto Gil e "Ready to Love", com Cat Stevens completavam o disco.

"We're having a lovely time, wish you were here"

"Quem não tem colírio, usa óculos escuro"...
 

Outro fato inusitado e que teve pouca importância ali no calor dos acontecimentos, mas que deu-me prazer e um certo estalo sobre aptidões, ocorreu ligado novamente às aulas de português. E foi com a mesma professora que idealizara a festa do folclore, e que diga-se de passagem, tinha ótimas intenções, mas era questionada por alguns pais por não ministrar muito conteúdo teórico, ao demonstrar claramente gostar mais de trabalhar aspectos culturais ligados à língua portuguesa, postura que na minha percepção atual, foi bem louvável. Desta feita, a professora Carmem propôs à classe que realizássemos uma discussão sobre a instituição do casamento, ao tentar extrair de mentes imaturas ainda, um lampejo de compreensão maior da vida adulta, que aproximava-se para nós. De tal discussão de grupo, que revelou-se praticamente um psicodrama, eu diria, surgiu a ideia em criarmos uma peça teatral a ser encenada no velho teatro da escola. Claro, escrever; produzir e encenar uma peça, mesmo ao ser amadora e despretensiosa ao extremo (em termos "artísticos", bem entendido, visto que haveria por ostentar o seu valor pedagógico), estava além das nossas possibilidades e apesar da professora ter gostado da ideia, logo a descartamos. Contudo, surgiu a ideia para realizarmos sketches curtas a retratar situações do casamento, e assim, talvez fossem mais viáveis. Dessa forma, trabalhamos nisso por algumas semanas, mas nada foi "encenado" oficialmente, com tais ensaios a suprir o que realmente interessava, ou seja, a discussão do tema.

Onde eu entro nessa história, é que sem aptidão alguma para interpretar, mesmo ao sentir-me em 1975, um pouco menos tímido, eu logo dei um jeito para ser útil de outra forma. Tratei de escrever o texto e "dirigir" os "atores". Escrever era paixão desde a infância e "dirigir", é claro que eu não tinha nenhuma noção real a respeito, completamente alheio ao mundo do Teatro; TV e Cinema que era, mas eu tinha um trunfo em minha formação pessoal : minha paixão pelo cinema, que cultivara desde a infância, trouxe-me uma carga com influências naturais e muito rica. Claro que eu não tinha noção técnica alguma, mas ao basear-me em minha memória afetiva das centenas de filmes que havia visto, descobri concretamente um prazer que conhecia vagamente nas minhas brincadeiras na infância, notadamente, com o "Forte Apache", que fazia a minha criatividade voar e ali eu praticamente "dirigia filmes" imaginários. Sendo assim, assumi o papel de "diretor" nos exercícios propostos e apesar do amadorismo todo, recebi elogio da dona Carmem, que chegou a dizer-me que achara-me presunçoso ao candidatar-me a ser o "diretor" nesse simulacro de encenação teatral, mas que estava surpreendida. Totalmente intuitivo e influenciado por enquadramentos de cinema, creio que dei minha contribuição ali no âmbito escolar e amadorístico e claro, tenho certeza de que adoraria ser diretor de cinema, se pudesse, pela pálida experimentação que ali degustei ...

Foi como no futebol, quando desenvolvi capacidade em preparar as jogadas e meu prazer maior era dar passes certeiros, de preferência lançamentos longos para os atacantes concluir em gol. Ser diretor representava em minha concepção juvenil, a mesma função, em tese. pois armava-se toda a cena, embora a fama ficasse com os atores, aos olhos do grande público. Portanto, mais que aptidão, a questão de gostar em trabalhar para a coletividade, sempre foi um traço natural de minha personalidade e tal conceito eu levaria para a música. Não tenho e nunca tive a menor preocupação em ser considerado um bom músico, para ser enaltecido individualmente. Meu prazer era / é estar inserido sob uma realidade coletiva, e ser uma peça da engrenagem, a trabalhar para o todo.

Fora disso, ao falar sobre o meu desempenho escolar, o ano transcorreu bem. Meu ano de 1975, nesse aspecto, foi como time grande que cai para a segunda divisão e cumpre a "penitência" na divisão inferior, mas com facilidade, pois pouco precisei estudar desta feita, para ser aprovado sem a necessidade sequer de exames finais, ao alcançar a média suficiente nas avaliações bimestrais.

Em setembro, meu pai iniciou negociação para comprar um sobrado no bairro do Cambuci, zona sudoeste de São Paulo. Mas com o antigo proprietário mostrava-se ainda sem perspectivas para arrumar sua vida, e deixar o imóvel, o negócio ficou com seu fechamento condicionado a esse fato e assim, mais uma vez tivemos que mudarmo-nos de novo sob caráter provisório, a fim de encaixar situações. Por isso, saímos de Moema, na zona sul e voltamos à zona leste, onde ocupamos um sobrado na Rua Almirante Calheiros, esquina com a Rua dos Cristais, no bairro do Tatuapé. Foi portanto um encaixe, pois essa casa nova para onde fomos, estava vendida para a Companhia do Metrô, e ali seria tudo demolido, já a partir de 1976, para a construção da Estação Tatuapé. Assim, na base do encaixe tríplice, tudo deu certo momentaneamente, mas desta feita, com 15 anos de idade, eu tomei as rédeas da minha vida, pelo menos na decisão escolar que competia-me, e mantive a minha matrícula na escola onde estava habituado a estudar. Não importava-me em fazer uma longa viagem para manter-me a estudar naquela escola e assim concluí a sétima série enfim, ao final de 1975, e mantive a matrícula para ficar ali em 1976, a evitar uma nova troca de escola. Minha argumentação foi em torno da ideia de que ao fechar a oitava série, teria que mudar de escola forçosamente por conta da entrada no segundo grau, onde teria mesmo que procurar outra escola, e assim, meus pais não opuseram-se à minha vontade.

Foi em 1975 também que conheci um novo amigo que seria importante nessa fase em que vivia minha fase mais aguda em torno de absorver o Rock, ao ponto de querer fazer parte desse mundo. Tal colega, mostrava-se com os mesmos ideais em princípio e assim, no segundo semestre de 1975, eu; Bernardo Lopes de Almeida (que tinha dois apelidos : "Bernardão" e "Janjão"), mais três colegas que eu conhecia há anos e que estavam na oitava série, onde eu deveria estar (Jacques Leonardo de Barros; Wlademir Aparecido Chiari e Edson Coronato (apelidado Edson "Coverdale", mas curiosamente mais fã de Ian Gillan...), formamos uma banda fictícia, mas que na minha intenção, e talvez por parte do Bernardo e do Edson, poderia ter tornado-se verdadeira. Essa fora a minha determinação, certamente.

A ideia seria que todos começassem a estudar seus respectivos instrumentos, escolhidos a esmo, como se fosse uma loteria, mas sem dimensionar todas as dificuldades inerentes de um longo aprendizado para todos, isso sem falar em ter que comprar instrumentos e equipamento, ação que além da questão financeira complicada para tal, demandava ter mais conhecimentos mínimos dessa área, coisa que nenhum dos cinco citados, possuía, nem mesmo eu, que levava a sério essa sandice, e mesmo por estar a acumular bastante informação nos últimos anos, sobre equipamentos e instrumentos, pouco sabia na verdade, a não ser por reconhecer marcas e modelos, em fotos de revistas e capas / encartes de discos e vídeos na TV.

Claro que era uma infantilidade sem tamanho, revestida por toda a sua ingenuidade inerente, mas tenho muito orgulho dessa invenção quixotesca, por que em tese, foi o ato de coragem que tive para sair de uma condição de um simples apreciador de música, a mudar de estágio, para aspirante a músico. Não computo esse momento como o início concreto da minha carreira, no entanto, pois foi uma iniciativa meramente imaginária a grosso modo. Oficialmente, determinei que a minha carreira começou de fato em 1976, quando formei uma banda com um guitarrista que sabia tocar os rudimentos e tinha guitarra, portanto, além do fato de eu começar a aprender um instrumento, verdadeiramente. Mas essa quase epifania que tive ali em meados de agosto de 1975, e que faria tal delírio durar por meses a fio, foi um combustível que tive, a fortalecer o sentido da vontade dessa determinação, concretizar-se.

Escolhemos um título sugestivo para tal banda imaginária. Baseado em conceito fantasmagórico e inspirado no Black Sabbath, certamente, escolhemos o nome de,"Satanaz" para a nossa banda. Há de registrar-se a constatação de que no meu caso, o Black Sabbath não era / é, nem de longe uma forte referência em minha formação, que justificasse tal menção ao fator macabro. Gosto muito mais de inúmeros outros artistas da história do Rock, antes de lembrar-me em citar o time de Iommi & Cia.

Bem, nessa banda, supostamente eu seria baterista. Confesso, na hora das escolhas de instrumentos, optei por isso, pela simpatia que já nutria pelo instrumento. E gosto ao ponto de afirmar que se pudesse voltar no tempo, teria certamente investido nessa escolha, pois nem pensava no "baixo" nessa época e quando formei minha primeira banda real em 1976, o baixo sobrou-me, eu não o escolhi. Com esse delírio da imaginação que foi o "Satanaz", pensei e esbocei capas para discos; releases (e eu nem sabia tecnicamente o que era um "release" nessa época); histórico da banda, e fichas individuais dos seus componentes, ou seja, senso de organização eu sempre tive e desde os primórdios exerci esse lado meu em bandas das quais fui componente, com exceção de situações onde sutil ou explicitamente fui preterido desse tipo de esforço extra musical e nem vale especificar isso, aqui. E a o ápice por tratar-se de uma banda que não saiu do âmbito da imaginação : tínhamos um repertório com muitas músicas autorais, criadas de maneira surreal, na base de melodias feitas só a entoar-se, sem critério musical algum. E letras, algumas até bem razoáveis (para o padrão de adolescentes de quinze anos, bem entendido), onde uma delas chegou a ser aproveitada no tempo do "Boca do Céu", minha primeira banda de fato, e executada ao vivo, caso de "O Mundo de Hoje", que apresentamos no palco do Salão de Festas do Palmeiras, em 1977, quando disputamos o Festival Fico, do colégio Objetivo (sobre esse episódio, está tudo contado com detalhes no capítulo do Boca do Céu, nesta autobiografia. Procure no arquivo deste Blog, em postagens de fevereiro de 2015).  
Eis acima, uma peça de memorabilia que pela força das circunstâncias, ganhou ares de portfólio pessoal. Trata-se de uma manuscrito a arrolar o repertório das "músicas" que compusemos e já a fantasiar a existência de dois futuros "LP's" que gravaríamos no futuro. Absolutamente prosaico; ingênuo & infantil, mas adorável pela determinação quixotesca...
 
Esse repertório bizarro que criamos, continha músicas com títulos que são verdadeiras pérolas tais como : "Me Chamo Vampiro"; "O Encontro dos Amantes"; "O Sono"; "Cemitério dos Elefantes"; "Mina de Escola"; "Mensageiro do Além" e outras tantas desse patamar...

Na mesma época, sob um esforço pessoal e tresloucado eu diria, passei a trabalhar sozinho na elaboração de uma "Ópera-Rock", ao denotar a suprema falta de noção, mas ao mesmo tempo a estabelecer a dimensão com a qual eu estava alucinado pela ideia em adentrar nesse mundo, de uma forma real. Iria chamar-se, "O Inferno de Dante", obviamente inspirada no texto de Dante Alighieri, "A Divina Comédia". Fiquei semanas a gravar esboços de melodias e letras em torno dessa ideia, no meu pequeno gravador portátil. Claro que nada que criei nesse esforço, tinha qualidade mínima para ser apresentado eventualmente quando tornei-me músico de fato, pois tal material era sofrível, mas a intenção foi a melhor possível em 1975, e a determinação de empreender, muito comovente para a minha percepção, ao olhar para trás e enxergar-me como um garoto sonhador e com tanto ímpeto. Contudo, quando o ano letivo encerrou-se, a dispersão foi inevitável. Com a separação dos amigos, visto que três de seus componentes iriam cursar o 1º ano do ensino médio em 1976, e para tanto, ter que mudar de escola, sob tal fato inexorável, o sonho desmanchou-se tal qual uma nuvem passageira.

Mas eu não conformei-me e continuei firme com a determinação em seguir com seriedade nesse plano, e antes mesmo de formar uma banda verdadeira, ainda houve uma tentativa em reorganizar o "Satanaz", no início de 1976, quando mudou-se de nome para "Medusa", a buscar inspiração na mitologia grega. Nessa aventura sem noção, ficamos reduzidos a um trio e pasmem, houve troca total de instrumentos, visto que isso fora na prática, meramente fictício. Eu seria o guitarrista, doravante... esse delírio não durou mais que dois meses, sendo restrito a algumas reuniões na residência do amigo, Edson Coronato, no Brooklin, zona sul de São Paulo. Nessa tentativa vã em fazer-se uma banda, novas músicas surgiram, como "Fura Pneu" (Fura pneu, na beira da estrada... não tinha macaco, não tinha mais nada"...); "O Vômito" (O vômito... cebola e abobrinha começou a rolar"...). Letras bizarras e que se pensar bem, se fossem lançadas por bandas metidas a engraçadas que já fizeram sucesso mainstream, poderiam "estourar", por incrível que pareça...
Ficha a conter o "repertório" do "Medusa", em 1976. Note-se que algumas "músicas" foram herdadas da antiga formação do "Satanaz", e outras novas já mostravam uma mudança no direcionamento das letras, ao partir-se para algo mais urbano e ligado ao cotidiano, e assim a fugir de fantasias e fantasmagorias.

Então foi isso, o "Satanaz" (e o "Medusa", por extensão), jamais existiu concretamente, mas acho que tem uma importância sutil no processo todo do meu envolvimento com a música.

Carteirinha escolar do ano de 1976, quando fomos obrigados a concluir a oitava série na escola vizinha, com entrada pela Rua Casa do Ator, na Vila Olímpia, zona sul de São Paulo

Para encerrar o assunto "escola", a notícia que tivemos ao final de 1975, foi de que a partir de 1976, mudar-nos-íamos para o prédio vizinho, aquele que eu vi ser construído em 1970. A conclusão da oitava série ocorreria na Escola Municipal de 1º Grau Maria Antonieta D'Alkimin Basto, portanto. A nossa velha escola seria doravante um equipamento burocrático da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, e assim o foi por muitos anos, como Delegacia de Ensino. Mais recentemente, nova mudança e nos dias atuais (2016), aquela instalação antiga mudaria de novo e agora sob administração da prefeitura, funciona ali uma escola de enfermagem. Foi portanto meu adeus ao velho prédio, onde estudei desde 1968 e criei vínculos, mesmo ao ter passado por um hiato entre 1971 e 1972, quando ali ausentei-me por força de circunstâncias alheias à minha vontade. Mas não era uma separação total ainda, pois o prédio novo ficava em tese no mesmo terreno e assim, a mudança seria só de uma instalação física porque a ambientação toda, era a mesma. E seria nessa nova escola, em um dia de abril de 1976, que o meu colega de classe, Osvaldo Vicino, que conheceria nesse ano, convidar-me-ia para formar uma banda e desta feita, verdadeira, por ele ser já um guitarrista com experiência por volta dois anos ao instrumento e possuidor de uma, de fato. E na quadra de esportes da nova escola, também em um dia do segundo semestre de 1976, conheceríamos, Laert Sarrumor. Bem, tais relatos estão escritos com detalhes na autobiografia oficial, basta procurar os capítulos referentes ao Boca do Céu. 

Falo sobre outros aspectos vividos em 1975, agora...


Em termos de TV, foi em 1975 que passei a gostar também de seriados policiais novos (de 1974, com atraso, portanto...), que chegaram, como : Baretta e Police Woman.

Um filme lançado em 1971, mas que só assisti pela primeira vez em 1975, impressionou-me bastante. Chamado, "The Omega Man" e traduzido como : "A Última Esperança da Terra", traz a história de um homem que sobrevivera ao holocausto nuclear total. Em tese, é o último humano vivo, a andar sozinho pelas ruas de Los Angeles. Mas não foi bem assim, pois o Dr. Neville não estava tão só... bem, um Sci-Fi apocalíptico bem instigante, com direito à seres mutantes e fanáticos a formar uma seita degenerada a caçar Charlton Heston / Neville e uma esperança de regeneração aos seres humanos, através de crianças salvas por uma dose de um soro milagroso de última hora e lideradas por um bando de hippies... argumento bem "seventies", portanto...

Gosto tanto desse filme que escrevi uma resenha sobre ele no meu Blog 1. Confira as minhas impressões através do Link abaixo :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/07/the-omega-man-por-luiz-domingues.html

Foi em 1975 também que a propaganda do lançamento do LP "Fruto Proibido", de Rita Lee & Tutti-Frutti foi proeminente na TV e até uma música desse disco, tornou-se tema de novela e consequentemente, ter estourado como sucesso mainstream. "Ovelha Negra'' foi a porta de entrada para eu conhecer e mergulhar no som do Tutti-Frutti, que foi uma banda de Rock espetacular, sob qualquer análise musical que pudermos imaginar. Ajudado também pelas audições no programa, Kaleidoscópio, tornei-me muito fã dessa banda, desse disco e do anterior, que também acho sensacional.

Claro que entusiasmei-me com o Festival "Abertura", que a Rede Globo realizou em 1975, ao tentar revitalizar os grandes festivais de MPB, sessentistas. O Festival não teve nem de longe o mesmo élan, mas teve seus bons momentos com muitos artistas que já militavam na MPB, a dar as caras, como Alceu Valença; Jards Macalé; Hermeto Paschoal e Walter Franco, por exemplo e as performances deles foram bem interessantes. Macalé ao devorar um botão de rosas e cuspir as pétalas, foi bastante performático e divertido.
Na "careta" TV Tupi, mais fechada em nichos tradicionais da sociedade e a dar pouco espaço para a juventude, normalmente, uma tentativa em aproximar-se do público jovem, deu-se em 1975. Chamado como, "Aleluia", foi um dito programa "jovem", a tentar falar essa linguagem contracultural, mas ao mesmo tempo, tinha o ranço brega de uma emissora popular como era a Tupi. Híbrido, tentava produzir uma atração cultural salutar, mas não deslanchava justamente por ter esse lado popularesco que incomodava quem estava a buscar outras esferas e talvez desagradasse também o seu público tradicional, que esperava o cancioneiro Pop das emissoras AM e temas de novelas da casa.  

Fabio Junior e Silvio Brito, eram os apresentadores e pareciam ser Rockers em sua intimidade, mas suas respectivas carreiras, construídas em meio ao mundo popular, não os ajudavam a angariar o respeito dos Rockers. Preconceito ? Sim, talvez... todavia, ao mesmo tempo, eles davam margem à desconfiança pelos rumos artísticos que adotavam, mas ... enfim...Fabio, inclusive, era egresso daquela onda de cantores Pop de rádio AM, que fizeram sucesso ao passar por estrangeiros. Muitos cantores lançaram-se no mercado a cantar em inglês, entre 1972 e 1975 mais ou menos, ao seguir esse modismo e usar assim, nomes falsos, como Terry Winter, por exemplo. No caso do Fabio, ele lançou discos com o pseudônimo de : Mark Davis. Já Silvio Brito, tentava pegar carona no vácuo de Raul Seixas e outros artistas malditos da MPB, com um pé no Rock, mas igualmente tinha seu lado brega a atrapalhar-lhe, infelizmente. Tal programa fez relativo sucesso e chegou a veicular um festival homônimo que seria realizado no autódromo de Interlagos nesse ano de 1975, e pelas atrações prometidas, seria um mini "Woodstock", a apresentar a nata do Rock brasileiro da época. Infelizmente, o festival foi cancelado e boatos deram conta que o truculento secretário de segurança pública do estado de São Paulo à época, um senhor adepto de ideologia radical, proibiu-o peremptoriamente. Não tenho esse dado confirmado, mas por tratar-se daquele senhor e de seu modus operandi à frente da Secretaria, não duvido nada que tenha sido o protagonista desse cancelamento.

Na segunda foto acima, Bill Haley ao centro da foto, cercado por dois membros da ótima banda curitibana, "A Chave" (Carlos Augusto Gaertner / baixo, à esquerda e Orlando Azevedo / bateria, ao lado direito). Acervo e cortesia de Carlos Augusto Gaertner, que nos dias atuais, é meu amigo  

Ainda a falar sobre a TV, parecia que após Alice Cooper e o Jackson Five, o Brasil do atraso e da ditadura militar estava a dar sinais de vida inteligente ao entrar na rota dos artistas internacionais. Bill Haley and His Comets fizeram shows por aqui, e não restringiu-se somente a São Paulo e Rio, mas visitou outras cidades, caso de Curitiba, por exemplo, onde a ótima banda paranaense, "A Chave", apresentou-se na abertura. E teve especial na TV Tupi. Bill já era veterano nos anos cinquenta, quando de seu estouro midiático e reconhecido como um dos pioneiros do Rock'n Roll, portanto, nessa passagem pelo Brasil, e apesar de estar bem fisicamente, já estava bem mais velho. Mas tudo bem, sem preconceitos, e pelo contrário, que bom saber que um veterano dos primórdios do Rock cinquentista estava aqui para shows e entrevistas.

Nesse ano também, fiquei alucinado com a notícia de dois festivais que realizaram-se. Um deles foi o "Hollywood Rock", que aconteceu no campo do Botafogo, no Rio de Janeiro e o outro, em uma fazenda no interior de São Paulo, onde também a nata do Rock brasuca setentista apresentou-se. E este último, "Águas Claras / Iacanga", com clima de Woodstock, em meio à uma fazenda, com direito a lago, barro e natureza, tal como o sonho hippie de 1969, transcorrera... não fui em ambos, é claro. Estava a começar a frequentar shows de Rock na cidade, mas daí a viajar para festivais hippies e acampar, seria demais para a compreensão dos meus pais. Nem perdi meu tempo em pedir-lhes autorização, pois a resposta seria óbvia.
Como consolo, o "Hollywood Rock" do Rio, foi filmado em seus "melhores momentos", digamos assim, e no ano seguinte, 1976, foi lançado nos cinemas com o título de : "Ritmo Alucinante". Claro que o assistiria na tela grande, várias vezes nesse ano posterior. Outro fato ocorrido em 1975, que comemorei, foi quando soube ao ler na imprensa, que a peça teatral, "The Rocky Horror Show" seria encenada no Brasil, e no mesmo ano, o filme oficial também seria lançado. Espetáculo muito interessante, a misturar Rock, com cinema de terror / Sci-Fi e com todas as canções a mencionar referências dos dois gêneros, ao falar de seus clássicos, claro que interessei-me.  

Sobre The Rocky Horror Show, escrevi uma matéria a falar sobre a peça e o filme. Eis abaixo o Link para acessá-la :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/02/rocky-horror-show-por-luiz-domingues.html

Nessa altura, mesmo ainda que não frequentasse shows de Rock com regularidade (fator que só realizaria de 1976, em diante), eu já ficava a saber sobre eles, por conta da mídia. Se não nos jornais tradicionais, através de revistas especializadas como a "Rock, a História e a Glória" e "Pop", e certamente ao ouvir o programa : Kaleidoscópio. E claro que ficava com muita vontade de ir. Fiquei a saber dos shows de lançamento do disco novo d'O "Terço" "Criaturas da Noite"; do "Fruto Proibido" de "Rita Lee & Tutti-Frutti"; "São Paulo 1554-Hoje", do "Joelho de Porco" e assim por diante...
Nessa altura, já era fã do "Veludo"; "A Bolha"; "Som Nosso de Cada Dia"; "Joelho de Porco"; "Bixo da Seda"; "Made in Brazil" etc. O rock brasuca já estava na ordem do dia, em minha vida.
Mas só fui assistir outro show de Rock, depois de ter visto os Mutantes em 1974, ao final do ano de 1975, e bingo... foi o meu primeiro show internacional.  

Quando o anúncio de que o ex-tecladista do Yes, Rick Wakeman, havia marcado shows no Brasil foi confirmado, coloquei na cabeça que não perderia essa oportunidade de forma alguma. Comprei meu ingresso em uma loja de discos do antigo Shopping Matarazzo (hoje em dia funciona ali um shopping moderno, chamado : Bourbon), ao lado do Parque Antárctica, a sede do Palmeiras.  

E no dia, acompanhado por dois amigos da escola, o Bernardão que já citei e outro sujeito chamado, Mário, chegamos cedo às imediações do ginásio da Portuguesa de Desportos, o popular "Canindé", no bairro homônimo, da zona centro-leste de São Paulo. Ali, aquela atmosfera mágica que era a de um verdadeiro concerto de Rock, estava criada, plena, cheia de seus signos inerentes. Um amigo meu disse-me, muitos anos depois, que nunca mais teríamos uma simbiose tão perfeita entre artista / público, como nos anos 1960 e 1970. Eu achei isso uma afirmação pessimista, pois otimista que sou por natureza, sempre acho que o dia seguinte vai ser melhor e nessa linha de pensamento, o baixo astral que destruiu o Rock em 1977, vai acabar um dia e nós poderemos enfim resgatar o fio da meada indevidamente rompido, ainda acredito nisso... mas o tempo pôs-se a passar e se ainda mantenho-me otimista nos dias atuais (2016), é por determinação tenaz, pois o que esse amigo disse-me um dia, teve a sua razão de ser...
Ou seja, o comprometimento com os ideais era total naquela época e assim, não havia incautos nas filas de shows de Rock. Todo mundo ali vibrava e falava a mesma língua. Aquele séquito formado por freaks (cerca de sete mil, segundo o borderô oficial do ginásio da Portuguesa), com aquele visual setentista maravilhoso, com todo mundo a parecer-se hippie chic; fora o perfume inebriante de patchouly e as conversas que ouvíamos ao nosso redor não deixavam dúvidas, fora o típico "Concerto de Rock" dos anos setenta.


Vi muitos freaks a usar camisetas com o logotipo de "Yes", em meio à multidão e quando uma moça saiu da fila e colocou-se sob uma posição de destaque ao lado, muito provavelmente para ser encontrada por seus amigos os quais aguardava, foi quando alguém gritou que ela era a "bruxa do Black Sabbath", e de fato, com aquele vestido longo que usava e cabelos negros e longos, havia uma certa semelhança com a fantasmagórica mulher que ilustra a capa do primeiro disco dessa banda.  

Sobre Wakeman, seus três discos lançados de sua carreira solo, até aquele instante, eram pomposos, é bem verdade, mas belos ao extremo. Ao investir em uma música sinfônica, com direito a participação de orquestras tradicionais a atuar junto, estava a lançar o seu terceiro álbum, "The Myths and Legends of King Arthur and the Knights of the Round Table", e só pelo título enorme, dá para ter-se ideia da grandiloquência de sua música a evocar temas históricos e plenos de pompa e circunstância.  

Na noite em que fui, além desse disco na íntegra, Wakeman tocou também várias músicas do LP "The Six Wives of Henry VIII", este aliás é o meu disco predileto da carreira solo dele, pelo menos ao considerar-se os quatro primeiros, pois depois eu não acompanhei mais com tanto interesse. Banda afiada; Wakeman com sua capa de lantejoulas super exagerada e a voar entre mais de dez teclados clássicos e sonho de consumo para qualquer Rocker setentista, e a presença da Orquestra Sinfônica Brasileira, sob a batuta do bom maestro, Isaac Karabtchsvsky. Aliás, este era figura reconhecida pelo público Rocker, por comandar o programa, "Concertos para a Juventude", na Rede Globo, via "Projeto Aquarius", e ao contrário da postura costumeira de arrogância e desdém dos músicos eruditos em relação ao Rock, mostrava-se com mente aberta, com atitude respeitosa e até elogiosa em algumas ocasiões, sobre o Rock e os Rockers. E mais uma presença ilustre, que eu apreciei, o ator, Paulo Autran sentado em uma cadeira de vime, a fazer locuções pontuais, a narrar a história do Rei Arthur e sua Távola Redonda, e apreciador de história que sempre fui, claro que gostei muito. No dia posterior, gostaria de ter ido também, para ver a execução do seu disco, "Journey to the Centre of the Earth", que aliás era o mais famoso e o mais citado na imprensa, além de ter alguns de seus temas muito usados em programas jornalísticos da TV etc

Bem saí absolutamente encantado do ginásio da Portuguesa, por ter visto o meu primeiro show de Rock internacional e assim, em dezembro de 1975, fui brindado com uma experiência forte a reforçar as ideias que estavam a borbulhar na minha cabeça...

Sobre o futebol, esse ano não foi tão bom para o meu time, em linhas gerais, por levantar apenas uma taça, o Torneio Ramón de Carranza, na Espanha. E não foi só um torneio qualquer, como já falei anteriormente quando do título de 1974, sobre esse mesmo torneio (o Palmeiras também venceu em 1969, portanto em 1975, foi o tricampeonato nesse torneio). O Palmeiras venceu o Real Madrid na final, por 3 x 1 e no time merengue, teve a presença de Paul Breitner, da seleção alemã de 1974, e Vicente Del Bosque, que anos mais tarde seria treinador da seleção da Espanha e campeão mundial em 2010. Joguei muito em 1975, também e acredito que foi meu auge como "jogador", que estender-se-ia até 1976. E o "botão", continuou a ser uma distração e tanto. Cheguei a cogitar fazer "peneira" em clubes profissionais e um contato queria levar-me para tentar na Portuguesa e no Juventus, mas a música já falava mais alto e no fundo, eu sabia que apesar da habilidade conquistada, era só para o âmbito escolar, sem condições de aspirar o futebol profissional, portanto, nem alimentei muito essa aspiração. 

Sobre os sons que embalaram o meu ano de 1975, a lista é gigantesca. Fora os discos que comprei, e a rede de apoio de amigos e parentes naquele intercâmbio maravilhoso com fitas K7 compartilhadas fraternalmente, o apoio do programa Kaleidoscópio, foi fundamental. O "Sábado Som" ainda existiu em boa parte do ano de 1975, e o TV 2 Pop Show também ajudou bastante. Some-se a isso as publicações e com destaque para a "Rock, a História e a Glória", cujos números anteriores que eu havia perdido, antes da edição do The Who (que fora a primeira que comprei), tratei em adquiri-los, todos. Deixo o registro de alguns discos que gostei muito em 1975, independente da forma com a qual eu os escutei.

1) Tubular Bells - Encantava-me essa obra conceitual do artista progressivo, Mike Oldfield. Ainda mais quando li em uma revista "Pop", que ele gravara o disco sozinho, a tocar todos os instrumentos (e são muitos nessa suíte musical), em um castelo medieval isolado, na Bélgica. Mas não foi só isso, o fato de um dos trechos ter sido o tema de abertura do filme, "O Exorcista", também foi excitante. E o maior dos motivos, o trecho final do lado "A", que correspondia ao encerramento como vinheta, do programa Kaleidoscópio, toda noite, assumiu atmosfera mágica como lembrança emocionante desse período da minha vida, entre 1975 e 1976. E claro, não importa quanto tempo passe, sempre que ouço esse disco e esse trecho em específico, emociono-me.  

2) Uriah Heep Live - eu já ouvia esse disco desde 1974 graças às benditas fitas K7, mas foi em 1975 que juntei um dinheiro e consegui comprar esse álbum duplo ao vivo, que considero sensacional. A versão brasileira não vinha com o book de fotos, conforme eu já tinha visto na versão inglesa que um amigo meu possuía, mas gostei muito, mesmo assim com encarte brasileiro simples, em ter podido levar essa obra dupla, para a minha casa.  

3) Lucifer's Friend - O primeiro disco dessa banda germânica mas a contar com um vocalista inglês em suas fileiras, encantou-me. Não fora nenhuma novidade, por ser disco lançado em 1970, porém só em 1975, no meu caso, uma fita K7 chegou às minhas mãos e acreditem, gastei-a no cabeçote do gravador. Que Hard Rock pesado, melodioso e inspirado ! Mein Gott ! 


4) Foi no Kaleidoscópio que passei a adorar o Rock Progressivo italiano. Já ouvia falar desde 1974, ao ler em revistas, mas foi ali no programa do Jaques, que ouvi alguns de seu principais baluartes, para tornar-me fã de seu mais famoso quarteto fantástico : PFM; Area; Banco e Le Orme. Com o tempo conheceria muito mais bandas incríveis da terra da Pizza, mas foi em 1975, que começou esse amor. Dio come ti amo !  

5) Fiquei louco, literalmente, quando ouvi o novo disco do Led Zeppelin na ocasião. Physical Graffiti é um disco permeado por canções muito fortes, tem climas épicos, grandiosos. Só compraria o disco em 1976, mas no Kaleidoscópio, o Jaques tocava todas as faixas, em doses homeopáticas, para saborear-se com prazerosa degustação.

6) Comprei o LP Stormbringer do Deep Purple, logo em janeiro de 1975, mas na verdade, como sempre acontecia no Brasil, as coisas defasavam. Nesse ano o Purple passava por mudanças radicais, mas que eu só viria a saber em 1976...

7) Via Jaques / Kaleidoscópio, também escutei muito o novo álbum do Pink Floyd, que finalmente chegara ao Brasil. Ao ouvir aquelas faixas incríveis do disco, "Wish You Were Here", ficava encantado com a sonoridade e o caráter cerebral dessa obra. E a capa, hein ? Se Roger Dean era maravilhoso com suas pinturas intergaláticas, a equipe de criação da Hypgnosis, um escritório britânico especializado em arte gráfica e que fez várias capas para o Pink Floyd, era de uma criatividade ímpar, ao não ficar atrás, embora com proposta visual, completamente diferente. Fora a sempre presente marca de estranheza nonsense a evocar surrealismo nas imagens propostas.

8) Ouvi muito o LP "The Power and The Glory", do Gentle Giant, que chegou-me também via K7. Simplesmente um álbum maravilhoso.

9) Aproximei-me ainda mais dos anos sessenta, através do Kaleidoscópio e das leituras que fiz. Não obstante tudo o que eu já gostava desde a época em questão, mesmo por ser criança naquela década, agora estava ainda mais estimulado a mergulhar profundamente nos "sixties", e foi o que fiz em 1975, sob um processo crescente, que entre 1976 e 1978 teria um auge e novos picos de euforia nos anos noventa e início dos anos 2000, conforme inclusive conto em diversos capítulos da minha autobiografia.

Ouvindo Jimi Hendrix; Sly and the Family Stone; e tantas e tantas coisas boas dos sixties, cada vez mais, fortaleci o sentimento de que representa, verdadeiramente, a década que mais gosto no Rock.

10) Apreciei muito o LP "Revolver" do "Walter Franco" nesse ano e graças ao Kaleidoscópio, também. Aliás, estava muito impressionado pela sonoridade do disco d' "O Terço", "Criaturas da Noite" e o "Snegs" do "Som Nosso de Cada Dia". Indo além, se "Tubular Bells" encantava-me no encerramento do programa, a música "Massavilha", do disco "Snegs" era a sua abertura e eu achava-a / acho, incrível.

Ouça acima a música "Massavilha", do espetacular  LP "Snegs", do "Som Nosso de Cada Dia", e que abria o programa "Kaleidoscópio", todas as noites.

11) "Quadrophenia", disco do "The Who" e que é mais que uma obra épica dessa banda fenomenal, mas um emblema, foi um dos discos que eu mais ouvi nesse ano. Ficou emprestado por uma boa temporada ao meu primo, Marco Turci, da parte de um colega de escola seu e nós o escutamos muito. Já conhecia-o desde 1974, mas nesse ano pude enfim escutá-lo muito mais e o disco arrebatou-me. Não tenho dúvidas que se já amava o The Who bastante, depois desse disco, tornou-se uma banda icônica para a minha percepção, em todos os sentidos.

Através do Marco Turci, também tomei contato com o som do "Jane", que ele adorava. Banda progressiva alemã, maravilhosa. Já conhecia o "Nektar" há tempos, aí li uma matéria na revista "Rock, a História e a Glória" a tratar sobre o "Krautrock", a escola germânica de Rock Progressivo, com respingos no experimentalismo e na psicodelia, e daí foi mera questão de tempo para chegar no "Amon Düul II", "Can"; "Guru-Guru"; "Tangerine Dream" e mais uma dúzia de bandas alemãs, sensacionais.

12) Eu que já gostava do "Ten Years After" há tempos, demorou, mas finalmente algumas de suas obras chegaram em minhas mãos... lembro-me bem que o LP "SSSSH", de 1969, que tocou muito na festa de aniversário do meu primo, Marco Turci, e pudera, eu controlei a pick up...

13) O já citado, "Fruto Proibido" de "Rita Lee & Tutti Frutti" também entrou para a lista dos favoritos de 1975. Audição obrigatória no Kaleidoscópio.
14) Outro disco que ouvi primeiro pelas saudosas fitas K7 e que deixou-me completamente arrebatado, foi o LP "Relayer", do "Yes". Aliás, uma história curiosa ao extremo, o famoso trecho final da suíte "The Gates of Delirium", que ganhou a alcunha de "Soon" e foi lançada como música separada do contexto da obra (e fez surpreendente sucesso Pop, assim, como se fosse uma música separada), foi usada como tema de uma novela da antiga TV Tupi. Ao dar-lhe ares melodramáticos, eis que na cena em que o protagonista / vilão da novela, "Ídolo de Pano" (interpretado pelo ator, Denis Carvalho), morre, ao rolar colina abaixo, em plena Praça do Por do Sol, em Pinheiros na zona oeste de São Paulo ao som de "Soon". Eu via e não acreditava nessa bizarrice...

15) "Selling England By The Pound", do "Genesis"... eu comecei a ouvir esse disco alucinadamente ainda em dezembro de 1974, mas continuei firme nessa vibração em 1975. E logo a seguir, quando ouvi o disco posterior, "The Lamb Lies Down on Broadway",  também fiquei encantado pelo álbum

16) Em 1975, comprei o LP "Sabotage", do "Black Sabbath" e gosto bastante de sua sonoridade, apesar da sua loucura, no sentido da demência mesmo, estar impregnada em suas canções.

17) E comprei o meu primeiro disco do "Queen", chamado "Sheer Heart Attack", que na verdade foi o terceiro da discografia dessa banda. Adoro esse álbum, e sem nenhuma exceção, gosto de todas as faixas.
18) Comprei também o LP "Spartacus" do "Triunvirat", banda germânica, formado por um trio e que tinha uma sonoridade muito parecida com a do "Emerson; Lake & Palmer". A despeito da acusação de ser copiadora do ELP, eu não comprei essa má impressão, e gosto muito da banda e desse disco em específico, que considero, primoroso.

19) Assim que saiu o LP "Return to Fantasy", do "Uriah Heep", corri para a loja e trouxe-o para casa. Gostei muito do seu conteúdo e da entrada do John Wetton na banda, que é um tremendo baixista, embora eu fosse / sou muito fã do saudoso, Gary Thain, que Wetton substituira.

20) Levei para a casa também o LP "Hair of the Dog" do "Nazareth", cuja faixa título gosto muito, com palavrão no refrão e tudo.

21) Quase furei o vinil do LP "Shinin'On", do "Grand Funk", de tanto escutá-lo. E claro, o par de óculos em 3D para ficar a olhar a capa e o encarte com esse recurso, estragou rapidamente...  

22) Ouvi bastante o LP "Captain Fantastic and the Brown Dirt Comboy", do Elton John, via K7 e também pelo fato de várias canções desse disco ter tornado-se hits radiofônicos Pop, e vou além, gosto imensamente da produção desse artista, na década inteira de setenta. Adoro a banda com que trabalhou em quase todos esses álbuns, incluso o saudoso, Dee Murray, um baixista de extremo bom gosto.  

23) Foi em 1975 também que comprei o meu primeiro disco do ELP. Já conhecia o som de todos os seus discos, via K7, mas só nesse ano tive o primeiro vinil, "Tarkus".

24) Uma banda norteamericana que era considerada muito "nova" no panorama do Rock em 1975, chamou-me a atenção de imediato. Chamada, "Aerosmith", tinha um vocalista com um fôlego incomum, com postura cênica, acrobática e que nitidamente imitava Mick Jagger, pelo menos fora o que pareceu-nos. Mas eu gostei muito do som de seus primeiros discos que ali conheci no Kaleidoscópio. "Seasons of Wither" com aquele arpejo de guitarra e efeito de ventania a permeá-lo, era / é muito bonito.   

25) O LP "Godbluff", da banda de Rock Progressivo britânica, "Van Der Graaf Generator", que meu primo, Marco Turci, comprou, é uma das melhores lembranças que tenho de 1975. Decorei aquele disco, certamente. Essa banda entraria para a lista de minhas paixões eternas.

26) Foi em uma tarde de 1975, ao mudar de canal na TV, que  deparei-me com a capa do novo disco recém lançado do "Humble Pie", chamado : "Street Rats". Paro para ouvir o que dizem e miro a apresentadora de programa feminino, chamada, Clarice Amaral, que fazia relativo sucesso na TV Gazeta de São Paulo, na época, e completamente alheia ao Rock, a tecer um comentário dos mais desprezíveis e sem noção que eu já ouvira, movido a preconceito e ignorância. Se não conhecia o trabalho do artista, para que falar dele e execrá-lo, movido a idiossincrasia e ignorância ? Nunca entendi a postura e só posso deduzir que ela tivera algum problema pessoal com o divulgador da gravadora que levara tal obra à produção de seu programa, pois faça-me o favor... que continuasse a falar de suas receitas de bolo; dicas de maquiagem e tendências da moda, que era o que ela entendia... não foi o melhor disco do Humble Pie, reconheço, mas as bobagens que essa mulher falou, foram típicas de quem não tinha noção alguma do assunto. A parafrasear o Rei da Espanha : "Por quê não te calas" ?  

27) LP's da MPB que eu ouvi em 1975, "Joia" e "Qualquer Coisa", ambos do Caetano Veloso; "Refazenda" do Gilberto Gil e "Minas", do Milton Nascimento. Gostava da "Tuca", uma artista que hoje em dia é pouquíssimo lembrada, e a dupla Folk / Hippie, "Luli & Lucina".

Sobre a Tuca, escrevi uma matéria em meu Blog 1. Eis abaixo o Link para você conhecer um pouco da sua história na música :

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/10/tuca-uma-artista-esquecida-por-luiz.html

"David Bowie largou o Rock e agora quer virar Soul Man nos Estados Unidos"... cheguei a ler manchete de revista assim em 1975, ao dar conta de mais uma guinada camaleônica em sua carreira. De fato, entre 1975 e 1976, ele mergulhou no som de Black norteamericano e o fez bem, ao cercar-se de grandes músicos e lançar um disco que eu gosto muito, embora alguns críticos sejam ácidos em relação ao trabalho ali contido. Alheio a tais opiniões contrárias, eu gosto de "Young Americans" e claro... Fame..fame...fame... 


Ao ler matérias nas revistas, fiquei ansioso para ouvir o novo disco do "Pretty Things", uma banda britânica sessentista e sensacional. Naquele meio de década de setenta, o Pretty Things mergulhara no Hard-Rock, com "Silk Torpedo", lançado pela gravadora do Led Zeppelin e com John Paul Jones no comando dessa produção. Mas só muito tempo depois tive acesso à esse disco....

"Ex-vocalista do Yardbirds, mergulha no Hard-Rock"... muitas notícias que lia, só pude comprovar tempos depois, pelo inevitável atraso que existia no Brasil. Sendo assim, só fui ouvir o som do "Armageddon", uma banda muito afiada, a transitar entre o Hard e o Jazz Rock, bem depois de 1975.  
A foto acima é de um show da turnê dos Stones em 1975, a primeira com Ron Wood na banda, como o novo guitarrista e com dois músicos de apoio, o espetacular Billy Preston aos teclados e um percussionista com o curioso nome de Ossie Osbourne e que deixou muita gente atônita, por achar tratar-se do vocalista do Black Sabbath, mas era só um sujeito com nome parecido... se esse show tivesse ocorrido de fato, teríamos morrido apunhalados, não no palco como diz a letra de "It's Only Rock'n Roll", mas dizimados na plateia pela emoção. E com Billy Preston no time ainda por cima... 
 
A rede de boatos sempre estava a solta, mas em 1975, chegou a ser noticiado em jornais e revistas, que os Rolling Stones haviam confirmado show no Brasil, a incluir o nosso país na turnê do novo disco, "Black and Blue". Atônitos, ficamos sem respirar ao imaginar tal evento e o peso que teria em uma época onde o nosso país era tão carente de atrações internacionais. Mais que isso, os Stones tinham peso extra por ser muito mais que uma super banda internacional, mas um, ou mais degraus acima dessa qualificação. Teria sido, portanto, algo monstruoso ao nossos padrões, imaginar ter os Stones aqui em 1975, e nada contra os shows mega que fazem costumeiramente por aqui há anos (dos anos noventa para cá), mas ver os Stones em 1975, seria outra história, pelo fato inexorável de ser uma banda com energia artística a todo vapor, a criar e "causar" em relevância para o Rock. Nos dias atuais são ultra profissionais e admira-se a incrível vitalidade que tem em fazer shows de Rock com três horas de duração sendo septuagenários, fora a tecnologia ultra moderna que tem à disposição como aparato visual impressionante, mas insisto, ver os Stones em 1975, seriam outros quinhentos...
                      Stones em 1975... Black and Blue nas veias...

Mais que um boato plantado, de fato os nomes das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro estavam impressas na lista oficial de cidades da tour e todo mundo ficou muito excitado por aqui.
Outdoor de 1975, em Los Angeles, a anunciar datas da etapa americana da tour de 1975, dos Stones, e a incluir datas na América do Sul, com quatro shows previstos para o Brasil, dois em São Paulo, e dois no Rio. Está no canto direito inferior da foto.
 
Mas uma desculpa esfarrapada qualquer foi usada para justificar o cancelamento dos shows no Brasil e a frustração foi grande. Não existe uma versão oficial e definitiva sobre tal cancelamento, a não ser que eu não saiba disso. Mas pelo que lembro-me, o regime autoritário de então, vetou tais apresentações, ao temer convulsões no seio da juventude...  

Outras bandas também foram especuladas. O Traffic, por conta do baterista, Jim Capaldi, namorar uma mulher brasileira na época (Ana Capaldi, mais tarde sua esposa). E de fato, ele veio morar no Brasil, ainda nos anos setenta, e o Traffic chegou a ser citado na imprensa com possível passagem por aqui.

Mesmo caso de Santana, que tinha vindo duas vezes em 1971 e 1973, mas quase sem divulgação, para shows em São Paulo e Rio. Falava-se que viria mesmo em 1975, mas não aconteceu e só pudemos ter esse prazer nos anos noventa.

E mais um boato que agitou o meio Rocker, deu conta que o "Pink Floyd" viria em 1975. Tanto quanto os Stones, ver Pink Floyd na turnê do disco "Wish Were You Here", teria sido um desbunde tão grande que não gosto nem de imaginar... e de fato, não aconteceu mesmo, infelizmente. O que aconteceu concretamente ao vivo no Brasil em 1975, foi Rick Wakeman e a repercussão que gerou, foi grande, apesar de seu som calcado no Rock Progressivo não ser nada Pop em essência. Mas a novidade de um astro do Rock a apresentar-se fora um chamariz e tanto, até para o grande público e não só os Rockers antenados.

Em 1976, aí sim, as coisas começaram a acontecer com a vinda de "Genesis" e "Joe Cocker", e sob uma progressão, lentamente o Brasil foi sendo enxergado pelos artistas e empresários como um país com potencial comercial e com um público Rocker local interessado nessa produção musical internacional. Sobre Genesis e Joe Cocker, falei desses shows com detalhes nos capítulos do Boca do Céu, basta procurar o texto da minha autobiografia no arquivo deste Blog.

Para encerrar este capítulo, digo que fui aprovado no ano letivo escolar e finalmente cursaria a oitava série, em 1976. Tal repetição que eu amarguei em 1974, foi um arranjo interessante da natureza. Atraso de vida aparente, ao lamentar não estar aprovado para cursar a oitava série em 1975, eu não sabia, mas devia ter comemorado, por que em 1976, com a vida a ter outro formato, eu estaria em outra escola, para cursar o 1º ano do curso colegial, e assim, jamais teria conhecido o guitarrista, Osvaldo Vicino, e certamente Fran Sérpico e Laert Sarrumor. 
Dessa forma, talvez eu tivesse conhecido outras pessoas e tornado-me músico da mesma forma, pois a minha determinação era essa, muito forte, mas teria sido tudo muito diferente, provavelmente. E existiria também a possibilidade em não ter ajudado-me a ingressar no mundo da música se o rumo fosse outro, e assim, esta redação não existiria...  

Portanto, como não acredito no acaso, particularmente, e penso que existe uma lógica no desencadeamento dos fatores de uma equação, eu tive que repetir de ano em 1974, para ficar em outra turma em 1975, e assim conhecer o Osvaldo Vicino, em 1976.  
Família Domingues em 1975, com papai Milton à esquerda; Luiz com a bebê, Ana Cristina, no colo, e mamãe Maria Luiza a fazer o click da foto. Foto de outubro de 1975, mais ou menos...
 
Outro fator que mudou a minha vida familiar bastante nesse ano, em julho, nasceu Ana Cristina, minha irmã, e após 15 anos a viver na perspectiva de ser filho único, vi-me sob uma nova situação que nem cogitava mais ser possível em ser modificada. Seu nascimento coincidiu com a fase em que coloquei essa determinação em ser músico / artista, fortemente na cabeça, portanto, na ótica dela, ao observar-me ao longo de seu crescimento, desde o berço, ela só conheceu-me cabeludo, em meio à instrumentos e situações a envolver a música. Bem, esse foi o panorama geral sobre como o ano de 1975, impactou-me. Foi ali, no segundo semestre de 1975, que o estalo para querer ser músico, de fato, aconteceu. E tal determinação jogou-me nessa realidade a partir de 1976, ainda que o processo inicial de desenvolvimento como músico, fosse bem lento, e só em meados de 1978, eu sentisse-me um iniciante razoável, e apenas em 1979, fosse aventurar-me profissionalmente, em trabalhos paralelos às bandas onde fui membro oficial e devidamente relatados em capítulos específicos da autobiografia ("Trabalhos Avulsos"). 

Para efeito de organização, este capítulo remete ao primeiro capítulo da história do Boca do Céu, minha primeira banda real, criada em abril de 1976. Sobre os quatro primeiros meses de 1976, já dei um esboço aqui mesmo neste capítulo que cobriu o ano de 1975. Doravante, como já havia explicado anteriormente, publicarei material concernente a todas as bandas por onde passei, incluso a citar os trabalhos paralelos extra / bandas. Seguirá pela ordem cronológica idêntica a da autobiografia. Mas o assunto não esgota-se aí, pois ainda acontecerão os adendos à autobiografia, em forma de crônicas e atualizações da carreira no pós abril de 2016, ponto onde encerrei o texto autobiográfico oficial.

Agradeço ao leitor que leu com atenção este complemento, a cobrir os 15 anos iniciais da minha vida, antes de eu começar oficialmente a carreira musical, e assim tentar explicar como a música chegou-me e cativou-me ao ponto de eu querer fazer parte dela. Fatos pessoais como vida escolar e familiar foram acrescidos, pois julguei ser importantes para uma melhor compreensão do contexto todo. 
Meu muito obrigado pela atenção, até aqui.

E até breve...