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segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Cronicas da Autobio - A Árdua Tarefa em Decidir um Destino - Por Luiz Domingues

Aconteceu em meados de 2001, no tempo da Patrulha do Espaço...


Recebi o convite certa vez para ser componente de um corpo de jurados, a fim de apreciar e eleger uma banda vitoriosa num embate desses em tom de festival. Menos mal, pela questão de cada artista ter pelo menos 30 minutos de exposição no palco, não era um festival tradicional nos moldes da qualificação de compositores, elegendo músicas inéditas, tampouco show de calouros, buscando aspirantes a cantores, mas sim, um festival de bandas cover ou melhor dizendo, bandas “tributo”, visando premiar a melhor performance da noite. E a premiação era bem razoável ao vencedor, oferecendo uma quantia em dinheiro e uma data para uma apresentação regular e remunerada, na casa. O mundo das bandas cover não é da minha predileção e mesmo os mais convincentes intérpretes que empenham-se com afinco impressionante a reproduzir o trabalho de artistas consagrados, não comovem-me, apesar de todo o seu esforço e apuro, com todo o respeito. Não menosprezando sua labuta e nem mesmo o seu nível técnico, muitas vezes bem alto e que justifica sua condição para reproduzir o trabalho de artistas de alto nível, ainda assim, ou mesmo por isso, sempre vou achar que seria bem mais interessante que tais artistas da reprodução musical do trabalho alheio, dedicassem-se ao trabalho autoral e não tenho dúvida, muitos tem um talento criativo, latente e enorme, portanto, contribuiriam com a formatação de uma cena artística muito mais forte e claro que levo em consideração que muitos gostariam de ter uma carreira autoral sustentável, mas num país como o Brasil, isso é praticamente impossível. Indo além, cabe ressaltar que jamais eu poderei deixar de reconhecer que artistas que dedicam sua carreira à execução do trabalho consagrado de outrem, também estudaram para aprender a tocar instrumentos e cantar, muitas vezes por anos a fio com dedicação e mediante sacrifícios pessoais acentuados, além de invariavelmente, terem gasto um significativo montante para investir em bons instrumentos; equipamentos e acessórios para poder atuar com qualidade assegurada de seu áudio, portanto, mais um esforço pessoal notável. E para encerrar minhas ressalvas respeitosas aos músicos que vivem desse tipo de expediente, é lógico que sendo uma atividade honesta, tem a sua legitimidade e além disso, o simples fato de que através desse trabalho, podem colocar comida em cima da mesa de suas respectivas famílias, já tem o meu inteiro respeito e convenhamos, desperdício de talento a parte, o que fazem é manter acesa a chama da arte vinda da parte de artistas consagrados que admiramos, portanto, não poderia ser nunca considerado um malefício, mas muito pelo contrário, é uma espécie de serviço de perpetuação da boa arte, tendo seu valor agregado, portanto. Só mais um ponto a ressaltar-se, também não é fácil tocar geralmente para plateias desinteressadas e quase sempre embriagadas / drogadas e muito mais ocupadas em procurar parceiros sexuais nas noitadas, do que prestar atenção em tais músicos, portanto, tem esse lado obscuro e desagradável para quem atua nas ditas bandas cover, como dissabor pessoal, eu reconheço e solidarizo-me com tais músicos.


Feitas as minhas respeitosas ressalvas para quem milita nesse mundo profissionalmente, digo que não fiquei nada empolgado ao receber o convite para ser componente de um corpo de jurados, a fim de analisar performances de bandas cover, por todas as razões acima elencadas, mas acrescento que fiquei constrangido em ter a responsabilidade de fazer um julgamento pessoal de cada banda ali a colocar suas esperanças de vitória e a depender de minha avaliação. Se fosse pela minha vontade, o tal festival jamais teria enfoque na competição, mas haveria de ser uma mostra livre, com cada banda fazendo seu show e sem julgamentos da parte de ninguém, a não ser pela legítima espontaneidade do público, mediante a intensidade maior ou menor da salva de palmas; gritos & assovios e até mesmo de uma eventual vaia, que não é agradável para o artista em cima do palco, mas é aceitável como manifestação natural e legítima mediante um possível desagrado por parte da audiência. Mas não era essa a intenção da casa de espetáculos que convidou-me e como ali eu já houvera participado com shows de minha banda, a Patrulha do Espaço, em ocasiões próximas passadas, recusar teria sido uma quase afronta aos dirigentes do estabelecimento, mesmo porque o convite fora feito sob o signo da honraria, denotando que minha participação era-lhes importante por eu ser membro de uma banda autoral consagrada no Rock Brasileiro e por conseguinte, minha presença ali, no seu imaginário e nos músicos das bandas cover que apresentar-se-iam, era tida como um estímulo, e certamente um sinal de status da casa em ter alguém ali oriundo de uma banda de projeção nacional, compondo o corpo de jurados. OK, diante dessas prerrogativas, lá fui eu num sábado a noite de 2001, ao bairro Assunção, da cidade de São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista, fazer parte dessa aventura diferente, pois nunca houvera sido convidado para tal tarefa, anteriormente.


Desconfortável pela missão desagradável em ter que estabelecer parecer sobre a performance de outros artistas, e pior ainda que isso, meu voto significar alegria para um e frustração para os demais, imbuí-me de resignação pela situação inevitável e assim munido com as fichas de cada banda em mãos e caneta, fui escrevendo meus relatórios sobre o que achei de cada uma e suas respectivas atuações. Infelizmente, a grande maioria ali inscrita para o festival, professava o Heavy-Metal como seu baluarte e notadamente eis aí um gênero musical que desgosto profundamente. Pior ainda, entre os que atuaram dentro dessa vertente, alguns representaram bandas internacionais voltadas ao dito "Metal Melódico”, pleno de virtuosismos, exageros & afins, tornando minha noite uma tortura sonora a sentir-me desconfortável em ter que opinar nessas circunstâncias adversas. Claro, esforcei-me ao máximo para não misturar meu gosto pessoal com a análise e procurei exprimir no relatório, os méritos de cada banda e emitir, quando fiz comentários negativos, um tom de crítica construtiva, sem execrar deméritos, mas sugerindo melhorias que espero terem absorvido com respeito e quiçá enxergando algo bom para corrigirem.

Somente uma banda agradou-me pela proposta estética e tratou-se de uma “Janis Joplin Cover”, cuja vocalista esforçou-se muito para chegar minimamente perto da voz e performance da grande pérola de Port Arthur / Texas, mas convenhamos, isso é quase humanamente impossível. Conheci algumas cantoras que dedicam-se a isso com brilhantismo, caso de Vera Negri nos anos oitenta e Xandra Joplin e Fabi Joplin mais recentemente, e de fato, essas três são muito boas na proposta de fazer tributo a Janis Joplin, mas mesmo assim, Janis é inimitável em essência, tamanha a sua condição monstruosa, sobre-humana, praticamente. Mas eu fiquei tão feliz por ver uma banda fazer um tributo a um ícone sessentista dessa grandeza, ali em 2001, quando a maioria estava naquele momento inebriada por "Iron Maiden"; "Metallica"; "Dream Theater"; "Red Hot Chilli Peppers" e "Motorhead", que cheguei a escrever no relatório que chegou às mãos da banda, que eles haviam salvado a minha noite. E o grupo era bom, tocava com um balanço legal. A cantora não era ruim, mas apenas sua tarefa era inglória ali e como um trunfo a mais, eles tiveram o bom gosto de usar um visual “hippie chic” bem convincente, fugindo do estereótipo de um figurino de festa a fantasia mal ajambrado e caricato.

E foi assim, após uma overdose de Heavy Metal e virtuosismos sem fim, ao menos pude ouvir canções como “Ball and Chain”; “Try” e “Piece of my Heart”, com uma performance bacana e no tocante às minhas avaliações, esforcei-me a ser 100% justo em minhas ponderações ao emitir opiniões sinceras e procurando ser construtivo ao comentar aspectos negativos. Mas vamos combinar assim, doravante : festivais para novatos, sim, mas sem caráter de competitividade; sem avaliações; notas; vencedor e perdedores, mas com espaço para todos tocarem livremente e de preferência, executando suas composições próprias, certo ? A cena musical agradece...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Cronicas da Autobio - Quase um Toque Glitter em 1983... - Por Luiz Domingues

Foto promocional da Chave do Sol, em maio de 1983. Click de Seiji Ogawa

Aconteceu no tempo da Chave do Sol, no primeiro semestre em 1983. 

Estávamos lutando com muito empenho, saindo do completo anonimato exercido para qualquer banda sem recursos dando seus primeiros passos na carreira e dentro desses limites ainda estreitos, tendo proporcionalmente um momento de expansão incrível. Isso porque, do primeiro show oficial da banda, em setembro de 1982, até esse ponto entre fevereiro e abril de 1983, havíamos passado de uma série de espetáculos em casas de menor expressão, para uma temporada num espaço de shows dos mais badalados da noite paulistana, com forte frequência de artistas; produtores musicais; gente do mundo fonográfico e do jornalismo cultural, fora a presença massiva da jovem burguesia da pauliceia. O grande “boom” da nossa banda ocorreria alguns meses depois quando as portas da TV revelaram-nos ao grande público, é bem verdade, mas esse “momentum” de fevereiro a abril de 1983, marcou-nos pelo primeiro pico de euforia ante os sinais de progresso iniciais que experimentávamos.

A Chave do Sol em temporada nas noitadas badaladas do Victoria Pub de São Paulo, entre fevereiro e abril e 1983

Todavia, ao mesmo tempo em que vivíamos tal euforia por estarmos nessa aura de expansão e glamour, tocando nessa casa de espetáculos com contrato fixo e interagindo com artistas que estavam ou estiveram no mainstream, tínhamos também o dissabor de ver nossa incrível vocalista estar tratando-nos com frieza, denotando distanciamento, emitindo sinais de que deixar-nos-ia, e de fato foi o que consumou-se logo que o contrato com a casa expirou. Sem nossa vocalista que era um achado pela sua inacreditável voz e beleza pessoal, e sem o contrato com a casa, tivemos um momento de incertezas e amargura, posso dizer, que foi breve (ainda bem), e quando fomos parar na TV, poucos meses depois, tudo mudou e tal perda ficara tão pequena que não cabia mais lamentos pela nossa "Tina Turner loira" ter ido embora, e as noitadas animando festas com atores da Rede Globo a dançar na pista embalados pelo nosso som, não repetirem-se mais. Mas nesse breve ínterim, quando vivemos uma curva descendente e angustiante, uma proposta de reformulação surgira, proveniente ainda daquelas tantas ofertas e abordagens que recebemos aos montes nos bastidores dessa casa e da parte de gente ligada em produção musical e que vira-nos em ação naquela badalação toda. Tirante os lunáticos (a maioria), que formularam propostas irreais e / ou bizarras, uma surgiu e que poderia ser uma solução imediata para suprir a falta de nossa ex-vocalista. Tratava-se de um artista que não sabíamos se tinha de fato dotes vocais acentuados, mas de antemão, era reconhecidamente um dançarino performático consagrado; ator e com potencial para a comédia também, pois posteriormente ficou relativamente famoso atuando em programas de humorismo da Rede Globo, compondo personagens ao lado de monstros dessa vertente, tais como Chico Anysio e Jô Soares.

Dançarino / performer / ator / comediante e ex-Dzi Croquettes, Paulo César Bacellar da Silva, nome artístico, "Paulette"

Segundo o rapaz que fez a sugestão, tal artista procurava uma banda de Rock com o nosso “pique”, para buscar um espaço no mundo da música e pelo fato de ser uma figura performática, seria uma combinação explosiva a junção de sua arte como dançarino e performer, com nosso som. Bem, o rapaz em questão chamava-se Paulo César Bacellar da Silva, conhecido pelo nome artístico de “Paulette”, simplesmente um dos “Dzi Croquettes”. Para os mais jovens, é bom explicar que “Dzi Croquettes”, foi um grupo de dança & teatro, formado no início dos anos setenta e que tinha uma forte identidade contracultural, isso é uma verdade, além de chocar a sociedade pela montagem de seus espetáculos fortemente erotizados e sob a bandeira do homossexualismo, ou seja, se hoje em dia tal postura não chega a escandalizar com o mesmo ímpeto, ali nos anos setenta, com ditadura militar pegando fogo (ou chumbo, como queiram), ao lado dos Secos & Molhados e Edy Star, a turma liderada pelo bailarino / cantor & coreógrafo, Lennie Dale, era o que havia de mais transgressor nesse sentido.

Capa do DVD do documentário premiado sobre a trajetória dos Dzi Croquettes, com um dos seus componentes em destaque, no caso, o/a próprio(a) Paulette

Nossa reação com a sugestão não foi com preconceito, de forma alguma, mas questionamos o que essa associação e direcionamento a ser adotado com um vocalista tão fortemente identificado com tal mote, poderia agregar ou até atrapalhar a nossa trajetória. Discutimos isso com ênfase no interno da nossa banda, logicamente. Analisando friamente, havia aspectos pró e contra acentuados nessa possível entrada de Paulette na nossa banda. Pelo lado bom, um artista tarimbado na dança e no teatro, absolutamente performático e “desbundado”, sob qualquer aspecto (fora ter seu prestígio pessoal muito maior do que a nossa banda reunia naquele instante), poderia ser um fator de expansão para nós. Portas poder-se-iam abrir na mídia; angariar simpatias imediatas, formação de opinião etc. Pelo lado negativo, pairava a dúvida, pois se Paulette era um artista experiente e consagrado pela sua atuação com os Dzi Croquettes, como “cantor”, era uma incógnita. 
Paulette em três momentos de sua carreira : na primeira foto com os Dzi Croquettes e tendo sua madrinha na foto, a superstar norte-americana, atriz e cantora, Liza Minelli a prestigiá-los (Paulette está na parte superior da foto, sendo o mais alto). Na segunda foto, Paulette com protagonismo na novela "Dancin' Days" da Rede Globo, em 1977, causando furor ao dançar com a personagem interpretada por Sonia Braga, e na terceira, já no avançar dos anos oitenta para os noventa, atuando nos programas humorísticos da Rede Globo


Sim os Dzi Croquettes cantavam em suas montagens teatrais. Os espetáculos eram essencialmente musicais pela obviedade da dança ser o mote maior dessa trupe, mas daí a ser vocalista de uma banda de Rock e ainda mais com os propósitos que regiam-nos, baseados na estética sessenta-setentista, requer-se-ia muito mais que alguém que cantasse afinado e dentro da pulsação / andamento, mas precisávamos de uma voz portentosa, em nível dos padrões que seguíamos em nossas influências.


Ícones do Glitter Rock britânico setentista, nas duas primeiras fotos (David Bowie & Spiders From Mars ao vivo, e Marc Bolan & T.Rex, também ao vivo, na segunda), e na mesma época, na terceira foto, artistas com a mesma proposta no Brasil, mostrando uma montagem com dois atores do Dzi Croquettes + Secos & Molhados + Edy Star
 
Outro aspecto, estávamos nos anos oitenta e não nos setenta. Se fosse em 1973, com a corrente do Glitter Rock britânico vivendo seu momento de ouro e com o reflexo tupiniquim expresso nos Secos & Molhados e com Edy Star, sobretudo, teria sido uma oportunidade de ouro, sem dúvida alguma. Mas no ambiente oitentista hostil, dominado pela arrogância blasé da estética Pós-Punk, não era a melhor estratégia a ser adotada. Se havia uma pequena seara simpática ao velho Glitter setentista, tal minúscula brecha residia no então em voga, “New Romantic", uma variante da "New Wave”, esta por sua vez, uma vertente mais amena do Pós Punk, menos robótica e presunçosa, com mais colorido e bom humor, pensemos assim, apesar da fragilidade musical gritante. Mas apesar disso, tal oportunidade era temerária pela sua menor força no mercado mainstream do emergente BR-Rock em questão, e sendo assim, creio que não valeria a pena o risco de ficarmos estigmatizados por um erro de estratégia, em caso de fracasso.

                  Os Dzi Croquettes em ação nos anos setenta

Mesmo assim, aceitamos conversar com Paulette e ouvir seus planos, é claro. Mas um fato novo ocorreu e não tivemos a chance de conviver com Paulette, pois a reunião foi desmarcada por ele mesmo, alegando impedimento momentâneo e posteriormente nunca mais tivemos notícias suas, a não ser vendo-o atuando nos programas humorísticos de TV que citei acima. Teria sido interessante ou não A Chave do Sol ter tido Paulette do Dzi Croquettes como seu vocalista ali naquele ínterim entre o nosso ponto inicial de anonimato total e o começo da proeminência através de nossas aparições no programa “A Fábrica do Som”, da TV Cultura de São Paulo ? Certamente teria sido um caminho muito diferente, tirando-nos daquela imagem que forjamos ao grande público, atuando como trio, fazendo uma espécie de Jazz-Rock setentista e anacrônico aos tempos oitentistas, certamente.

Bem, tenho um enorme respeito pelo trabalho dos Dzi Croquettes, e diante disso, só pela cogitação, já foi honrosa ter tal hipótese de um artista com essa bagagem pessoal em nosso caminho. Paulette faleceu em 1993, infelizmente. Encerrando, esta é uma passagem obscura da história da Chave do Sol, que tenho certeza, nenhum fã da banda nunca imaginou ter existido, até ter lido esta crônica...

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Crônicas da Autobio - O Multi Tecladista que não Conhecia Música - Por Luiz Domingues

Aconteceu em 1979, entre o final do Boca do Céu / Bourréebach, e o início do Língua de Trapo



Mais ou menos entre julho e setembro de 1979, o Boca do Céu, minha primeira banda, e que havia mudado de nome para Bourréebach no início de 1978, já havia encerrado atividades há meses. Nesse ínterim, ao final de junho e no início de agosto, eu já havia apresentado-me duas vezes com o "Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero", que era, nada mais, nada menos que o embrião do Língua de Trapo. Mas como não havia ainda a firmeza de propósitos para que tal grupo formado por estudantes de jornalismo tornasse-se uma banda, e apesar de um de seus articuladores ter sido o meu amigo Laert Julio, vulgo Laert “Sarrumor”, também ex-membro do Boca do Céu, eu coloquei-me aberto a conhecer outros músicos e quem sabe ingressar numa banda montada ou em vias de ser formada. Pouco tempo mais tarde, por volta de outubro de 1979, meu amigo, o baterista Cido Trindade convidar-me-ia a ingressar na banda de apoio do cantor / compositor e pianista, Tato Fischer. O que foi na prática, o primeiro trabalho que realizei fora de uma banda autoral, como um clássico “side man”, ou como fala-se em português, “músico de apoio” para um artista solo como ele.


Fachada da Escola Estadual de Segundo Grau, Osvaldo Catalano, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, onde completei o ensino secundário, em 1979 

Mas antes disso, tive uma experiência no mínimo estranha e que não contei no texto da minha autobiografia oficial, porque julguei fora de propósito ali, mas como crônica avulsa, vale a menção.

Um conhecido meu da escola (em 1979, eu cursava o 3º ano do curso colegial da Escola Estadual de Segundo Grau, Osvaldo Catalano), sabedor da minha luta para tornar-me músico / artista, falou-me que sabia de um rapaz que procurava músicos para a formação de uma banda de Rock. Segundo ele, tal rapaz era tecladista, tinha um excelente nível técnico e teórico, era bem equipado e estava com bastante entusiasmo para trabalhar.

Diante do quadro em que encontrava-me naquele instante, com minha primeira banda autoral com atividades encerradas e o embrião do que viria a ser o Língua de Trapo ainda bem longe de esboçar ser algo promissor, aceitei o convite e coloquei-me à disposição para conhecer a proposta sonora do rapaz. Nessa altura, eu havia vencido a barreira inicial do aprendizado musical e longe de ser um músico de qualidade, ao menos sentia-me minimamente seguro para encarar o desafio de tocar com músicos de melhor nível que o meu, sem passar vergonha. Mesmo que ele fosse muito mais desenvolto e experiente, minha autoconfiança em tocar, garantia-me tal prerrogativa.



Anotei o endereço da residência do rapaz, e num sábado, pelo horário vespertino, lá fui eu com meu intrépido baixo Giannini “RK”, uma imitação grosseira do baixo Rickenbacker, e meu "filho único" então, até as imediações da Avenida Lins de Vasconcelos, onde na sua altura mediana, embrenhei-me por ruas bem arborizadas e com belos sobrados de classe média alta, num bairro chamado Vila Monumento, encravado entre bairros tradicionais da zona sul de São Paulo, como a Vila Mariana, Aclimação e Cambuci.

Fui recebido pelo rapaz, que tinha aparência não Rocker, parecendo um sujeito com outros objetivos e interesses na vida e creiam-me, apesar desses conceitos estarem sendo destruídos violentamente naquele final da década de setenta, tais signos ainda eram bastante significativos para quem envolvia-se com o Rock e claro, minha escola era totalmente calcada nas estéticas sessenta / setentistas e  dessa forma, não era questão de preconceito, mas de uma sutil demonstração de comprometimento ou não com a causa.

Ok, mesmo assim, sem preconceitos e levando em conta que nem todo Rocker podia vestir-se condizentemente com os padrões de tal estética e usar cabelos longos por questões familiares ou sociais de diversas motivações alheias à sua vontade, todavia, também passou-me pela cabeça que talvez o rapaz fosse mais um daqueles que demonstravam desencanto com tal estética. E se houve época onde isso ocorreu em massa, foi ali entre 1978 e 1981, quando muitos conhecidos e amigos meus correram ao salão de barbearia e rasparam suas longas cabeleiras, cortando o vínculo com o movimento Hippie. 

Bem, vamos ao ponto... -“muito prazer, meu nome é Luiz, sou baixista e quero tocar numa banda de Rock. E você” ?

Receptivo, porém não de forma efusiva, o rapaz foi falando de seus propósitos e ao mesmo tempo, mostrando-me seus teclados e equipamento. Pelos instrumentos ali presentes, fiquei muito impressionado. Era um arsenal de teclados, daqueles tipicamente setentistas e presentes no meu imaginário Rocker, desde sempre, vistos e revistos em fotos, capas de discos e "promos" de shows das grandes bandas daquela década. O rapaz ligou tudo e só de ouvir aqueles timbres de Mini-Moog; Clavinete; Piano Fender Rhodes e órgão Hammond, já animei-me. Tocar numa banda cujo tecladista tinha esse aparato à disposição era um sonho, certamente.

O rapaz não tinha só isso, mas vários amplificadores e um mini PA, denotando ter um poder aquisitivo bem alto, visto que naquela época, com importação fechada pela ditadura militar há anos, para ter tudo aquilo, com instrumentos e equipamentos de marcas de renome internacional, era preciso muito dinheiro, mesmo.

Pluguei meu baixo num bom amplificador, que eu sonhava ter, mas era inacessível para o meu poder monetário de então, e começamos a tocar, com minha intenção em propor improvisos a esmo, baseados em nomes do Rock nacional e internacional que seriam óbvios naquela situação. Mas aí o imponderável ocorreu...


Genial tecladista do The Nice e Emerson; Lake & Palmer, o grande e hoje saudoso, Keith Emerson 

O rapaz tinha um bom nível musical, pela técnica que exibia, mas tudo o que eu citava, ele dizia não conhecer. Com aqueles teclados incríveis, como assim não conhecer bandas de Rock Progressivo que usavam ostensivamente aqueles instrumentos em profusão ? Não sabe quem é Keith Emerson ? 


Na primeira foto, o incrível Jon Lord, hoje saudoso, então em ação com o Deep Purple, nos anos setenta, atacando (literalmente) o órgão Hammond; Segunda foto : um tecladista da pesada e grande guitarrista também, Ken Hensley, atuando nos anos de ouro do Uriah Heep, igualmente "pilotando" o órgão Hammond e um sintetizador, Mini Moog; E na terceira foto, o baixista superb, mas que também era o tecladista do Led Zeppelin, John Paul Jones, nessa foto ao vivo da banda nos anos setenta, tocando um órgão Farfisa

OK, vamos de Hard Rock, então. O que ? Não conhece nenhuma música do Deep Purple ? Nem do Uriah Heep ? Não conhece Led Zeppelin ? Como assim ?


Na ordem das três fotos acima : Elton John; Peter Frampton e Rod Stewart, três artistas egressos do Rock britânico, mas que fizeram massivo sucesso pop mainstream, em âmbito mundial na década de setenta

Ok, vamos para o mundo mais pop. Que tal Elton John ? Peter Frampton, Rod Stewart...


Na primeira foto, os Rolling Stones em ação no ano de 1973, e na segunda, a gravação do LP "Let It Be", dos Beatles, em 1969.

Vamos tocar uma dos Rolling Stones, então ? Não sabe (??)... como assim ? Beatles, então... não é possível que não saiba ao menos tocar "Let It Be" nesse piano...



A Jam foi ficando angustiante...


Genial banda, supra sumo da sofisticação do Jazz-Rock setentista, a "Mahavishnu Orchestra"

-“Já sei, você prefere Jazz-Rock. Veja, não tenho nível para isso mas quer tentar Mahavishnu Orchestra ? Nunca ouviu falar” ?


Grandes ícones da Black Music 1960 / 1970, na ordem das fotos : Marvin Gaye; Otis Redding; Aretha Franklin; Wilson Pickett; James Brown e Jackson Five 

Está bem... pensemos na Black Music, então !! Vamos de Marvin Gaye; Otis Redding; Aretha Franklin; Wilson Pickett; James Brown… não ?? Jackson Five… mas não é possível !!


Naquela altura ainda bem atual, o disco "Sábado e Domingo", do "Som Nosso de Cada Dia" mexia com a imaginação dos Rockers tupiniquins, por fazer uma improvável mistura de estilos, entre o Rock Progressivo e o Funk Rock (e entenda "Funk" como algo completamente desassociado da conotação que a palavra adquiriu anos depois, infelizmente...) 

Vamos tocar um Funk-Rock de uma banda nacional ? Conhece o Som Nosso de Cada Dia ? E o rapaz nessa hora perguntou-me o que era “Funk”, numa época em que a palavra “Funk” denotava uma nobre variação musical oriunda da Soul Music etc etc...



E assim foi, por 90 ou 120 minutos mais ou menos e diante das negativas do rapaz e ele, num contraponto surpreendente e bastante desagradável, propondo música pop enlatada de FM, proveniente de artistas irrelevantes que não durariam até o próximo verão. Estava explicado então porque não conhecia outras esferas mais nobres da música. Educadamente um disse ao outro que a primeira Jam fora produtiva e que marcaríamos outras até conhecermos outros músicos e formarmos uma banda. Bem, esse foi o tipo de contato que jamais torci para frutificar e acredito que a recíproca foi a mesma da parte dele.





E aquela "tecladeira" toda, hein ? No mínimo o sujeito casou-se pouco tempo depois e tudo ficou ali na casa dos seus pais, até um dia em que sua mãe, já idosa e cansada de guardar aquelas “tranqueiras”, ligou para um bazar desses que aceita doações de móveis e objetos velhos e... sorte do músico que enlouqueceu comprando um Mini Moog a preço de banana, achado num depósito empoeirado assim... E acredite, isso acontece muito e eu conheço gente muito próxima com quem já toquei por anos a fio em bandas autorais, inclusive, e que já comprou teclado estrangeiro desse porte vintage, em excelente estado de conservação, por um preço ridículo e certamente sem que os responsáveis por tais lojas de objetos usados, fizessem a menor ideia de seu real valor...

domingo, 12 de novembro de 2017

Crônicas da Autobio - O Vexame Cívico que não Computei na Minha Lista de Shows... - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo dos primórdios do Língua de Trapo, e dias antes do meu primeiro trabalho avulso, em 1979...



Desde que iniciei a tocar, em abril de 1976, pelo fato de estar começando da absoluta estaca zero, sabia que precisava acelerar o processo do meu aprendizado de maneira urgente. Se pudesse contratar "Samantha Stevens" ou "Jeannie", para ajudar-me com seus poderes mágicos, seria o ideal para transformar-me numa fração de segundos num John Paul Jones da pauliceia, mas tive que amargar a morosidade de meu aprendizado, não teve jeito.


Após duas tentativas de estudar em escolas de música em 1977 e 1978, respectivamente, mas que revelaram-se frustrantes por motivos que eu contarei em outras crônicas (e sim, ambas renderam histórias pitorescas), tive uma terceira oportunidade no ano de 1979. Essa escola e esse professor também foram curiosos em muitos aspectos, mas nesta crônica quero ater-me a um só acontecimento ocorrido e que foi tão constrangedor que resolvi omitir de minha lista de shows, e teria sido a primeira apresentação na minha carreira a ser computada nos "trabalhos avulsos", antecedendo em cerca de 40 dias aproximadamente, o meu primeiro trabalho que computei de forma oficial nessa área, que foi como side man do cantor / compositor e pianista, Tato Fischer.

E como foi ? 



Bem, eu estava estudando num conservatório musical denominado “Béla Bartók”. Localizado na Penha, bairro da zona leste de São Paulo, e apesar de ter esse nome pomposo, por designar um compositor romeno erudito, “cool” entre os apreciadores da dita música “clássica”, a tal escola era simples na sua constituição e aberta a cursos de instrumentos em geral e com enfoque popular. Não era o ideal que eu precisava e buscava, mas era o que cabia no meu combalido bolso nessa ocasião e entre estudar numa escola simples e não estudar, cravei na opção “A”.

O professor de baixo era um sujeito gente boa, brincalhão e que logo mostrou-se amigo, mas de contrabaixo ele não sabia nada. Era na verdade um professor de violão e que na falta de um baixista de ofício, ministrava aulas para aspirantes nesse instrumento, imbuído daquela máxima de quem toca violão e guitarra, por conseguinte, toca baixo, também. Claro que os princípios dos três instrumentos são os mesmos, mas ao mesmo tempo em que existem similaridades, existem particularidades distintas entre os três, portanto, são raros os músicos que dominam as três linguagens com desenvoltura em cada uma. 



Nas aulas ele oferecia-me para trabalhar, um baixo Giannini, imitação do modelo Gibson 335 (e que eu até gostava pelo design, pensando no Jack Casady, um baixista que admiro e que usava bastante o Gibson 335 na sua banda, o Jefferson Airplane), mas que não tinha som de nada, como quase todo baixo nacional tosco daquela época, ficando só na imitação grosseira do design de um instrumento importado consagrado, caso do Gibson.

Além disso, sua metodologia de ensino era modorrenta, pedindo-me para marcar tônica e quinta acima ou quarta abaixo dos acordes que fazia ao violão, tocando músicas do Roberto Carlos que cantava em plenos pulmões, denotando que adorava-as, certamente.



- “A-ma-da Amante-i-i-i”...



E nessa altura, 1979, eu já tinha evoluído muito por conta própria, tocando linhas de baixo sofisticadas de baixistas internacionais do Rock que eu apreciava, em cima de seus discos. Portanto, tocar músicas do Roberto Carlos fazendo marcações simplórias, além de não agradar-me em nada, é óbvio que não engrandeciam o meu aprendizado musical. Mesmo assim, fui insistindo no curso, e pedindo sempre que ele oferecesse um conteúdo melhor e mais compatível com meu gosto musical, coisa que nunca ocorreu, até que eu cansasse-me e "tirasse meu time de campo".



Todavia, não consegui evitar que ele convocasse-me para uma apresentação que eu tinha certeza de que seria constrangedora, e da qual não consegui escapar, pois ele argumentou que eu era o único aluno de contrabaixo em condições de tocar nesse evento e o diretor apelava para a minha colaboração, até sinalizando eventuais descontos nas mensalidades se eu comprometesse-me a participar.

A escola formaria uma banda para participar de um evento cívico, numa sala de cinema daquele bairro, no dia da Pátria, 7 de setembro, dia da Independência do Brasil. Sem jeito para recusar, aceitei fazer parte e lá fui eu convocado a participar de um ensaio na escola e aí, o que eu previa ser vergonhoso, comprovou-se na prática ser ainda pior do que eu esperava. Tratava-se de uma série de adolescentes tocando violão batido, bem naquela dinâmica pobre de iniciantes; um baterista que mal conseguia manter a pulsação nas três peças básicas do instrumento; um mini naipe de metais bem desafinados que chegavam a castigar o ouvido, e o pior de tudo, como cereja do bolo, um coral formado por alunos de canto, ainda mais desafinado e que dava vergonha alheia. Mas podia piorar...



Quando tomei conhecimento do repertório sugerido, deu desespero, com uma versão medonha dos hinos nacional e da independência e um medley de músicas bregas. Pior ainda, quando informaram-me que usaríamos uma toga como uniforme da escola e cada setor da banda com uma cor alusiva à bandeira do Brasil. No dia da apresentação, com o teatro lotado, a única amenidade que eu tive foi o fato de terem acatado meu pedido de usar a toga de cor verde, por motivos óbvios para quem conhece-me ou leu minha autobiografia com atenção, e convenhamos, pelo menos isso...


A performance foi uma tortura. A banda era horrorosa, o som daquela simulacro de Gibson 335, na verdade um Giannini, péssimo, e as togas verde; amarelo; azul; e branco, só não foram piores que a constrangedora desafinação geral e luta pelo andamento perdido, com aquele garoto da bateria tendo atuação catastrófica. E ocorreu o óbvio : se a maioria ali era ruim demais, imagine isso somado ao nervosismo do efeito “Stage Fright” (medo do palco).


Bem, não lembro-me nem do nome de ninguém ali, mas torço para que caso alguém ali tenha profissionalizado-se, tenha de fato melhorado o seu nível musical, pois naquele dia de setembro de 1979, eu não era nenhum grande músico, longe disso, mas sofri com a inaptidão total dos demais, fora o clima de ufanismo barato do evento, com direito a discursos da parte de “lideranças do bairro”, aqueles aspirantes a políticos que fazem dessas atividades, mini palanques para angariar simpatias no seu reduto. Foi tão insípido que não computei como apresentação oficial minha e no caso, teria sido o meu primeiro trabalho avulso, de fato. A única coisa que foi positiva nesse dia foi o comentário do professor de saxofone da escola, que vendo minha expressão facial de aborrecido ante a situação, passou por perto e disse-me : -”que dureza”... quase como uma manifestação de solidariedade. E tal afirmação sintetizou o que representou aquilo...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Crônicas da Autobio - Cantar Ária de Ópera, Soterrado - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo do Terra no Asfalto... em 1980




Uma vez o vocalista da minha banda cover entre 1979 / 1982, "Terra no Asfalto" (Paulo Eugênio Lima), convidou-me a conhecer um professor com quem estava tendo aulas de canto. Tratava-se de um senhor idoso, com forte sotaque estrangeiro, provavelmente de algum idioma do leste europeu.




Simpático, mas mostrando-se exigente como professor, tinha métodos de ensino não usuais e o Paulo Eugênio, nosso vocalista, estava empolgado, confiando no curriculum do mestre, mas ao mesmo tempo, apreciando muito as loucuras por ele propostas.


Fazer exercícios de cabeça para baixo, era um deles. E lá se pôs o velhinho a falar do fluxo sanguíneo e a pressão na caixa toráxica para emitir-se sons nessas circunstâncias adversas. Parecia fazer sentido pela explicação superficial, mas tinha algum fundamento científico ? Nunca soube a resposta. Mas o Paulo Eugênio estava empolgado, porque achava as loucuras fascinantes, bem naquele espírito Rocker de valorizar tudo que não é usual, quebrando paradigmas e ignorando fronteiras. Visto por esse aspecto, eu até entendia e também apreciava a loucura toda.



Para reforçar o conceito, Beatlemaníaco inveterado que era, Paulo Eugênio citava diversas loucuras perpetradas pelos Beatles nos estúdios Abbey Road de Londres, onde gravaram todos os seus discos e em diversos livros biográficos da banda, constam relatos dando conta que as ideias mais malucas foram tentadas ali para obter sons diferentes. De fato, eu também conhecia algumas dessas histórias, como por exemplo músicas que John Lennon gravara pendurado de cabeça para baixo para extrair um timbre vocal exasperante segundo seu desejo, para canções tensas.

Portanto, encontrar um professor de canto lírico, com formação de música clássica tradicional, mas com a cabeça completamente aberta para métodos malucos, foi um achado que ele comemorava e assim, empolgado, realizou várias aulas e fez questão de levar-me para conhecê-lo.



Numa rápida conversa antes da aula começar, falou-nos que amava a música erudita, mas recusava-se a assistir concertos de qualquer natureza no Brasil. Motivo : tinha ouvido absoluto e não suportava a desafinação dos músicos brasileiros... dois pontos aqui para observar :

Primeiro : ouvido absoluto é quando a pessoa tem a percepção de ouvir as notas musicais identificando-as pela sua vibração. É uma precisão tão grande ou maior do que a de afinadores eletrônicos. O lado mau de quem tem essa capacidade, é que qualquer som da natureza pode representar uma tortura constante, pois dificilmente vai soar 100% afinado. O sujeito ouve um toc toc na porta e dependendo da parte da madeira que a pessoa percutiu com a mão, pode ser qualquer nota (digamos que seja uma nota “sol”, como mero exemplo, mas não inteiramente afinada no padrão, todavia alguns “comas” acima ou abaixo da afinação perfeita. E entenda “comas” como subdivisões harmônicas microscópicas de uma nota musical.



Segundo ponto : era para ofendermo-nos quando ele, sendo um imigrante estrangeiro aqui radicado falava-nos abertamente que nossos músicos eruditos, incluso os de alto padrão das grandes orquestras, não afinavam seus instrumentos corretamente ?

Creio que não e de fato, nem abalamo-nos com tal afirmação.



Então, a proposta da aula que assisti foi bastante exótica numa primeira instância. Eu pelo menos nunca havia visto tal coisa antes. Pois no fundo do quintal da casa onde esse senhor vivia com sua esposa, havia uma caixa de areia. Outros moradores deviam tê-la usado como uma mini horta ou pomar, mas ele tirou a terra e fez uma espécie de cova, onde tinha uma quantidade de areia razoável ao lado, para ser usada.



Pediu ao Paulo Eugênio que se deitasse ali e o cobriu com areia, usando uma pá, deixando-o inteiramente coberto, só com a cabeça de fora e ali, por cerca de uma hora, deu voz de comando para que ele fizesse exercícios vocais. Dava para ver que Paulo fazia um esforço tremendo no diafragma completamente comprimido pela areia sobre seu corpo e a voz saia com dificuldade. O professor incentivava-o a prosseguir, fazendo correções o tempo todo. Quando acabou, o Paulo estava extenuado. Parecia que havia participado da prova da maratona olímpica. Mas relatou-me que o esforço empreendido ajudava-o a cantar enfim com o impulso respiratório do diafragma, como cantor profissional deve fazer e não forçando a garganta. 




Aparentemente fazia muito sentido. Perguntado se eu desejava matricular-me no curso do velhinho maluco e passar pelo mesmo tipo de exercício, disse a ambos que iria pensar no caso...


Bem, isso aconteceu na metade de 1980, e até hoje não pensei se devo aceitar ou não...