Neste meu Blog 3, dedico todo o espaço para cuidar da minha carreira musical. Além de publicar os textos na íntegra, dos meus livros autobiográficos, apresento também material em geral de todas as bandas pelas quais atuei e atuo, sob permanente construção.
O
ano começou bem para a nossa extinta banda, no aspecto da repercussão
midiática espontânea e também no campo das manifestações de fãs e
admiradores do trabalho. Nessa área, eu não tinha dúvida de que entre
tantas bandas pelas quais eu atuei ao longo da minha trajetória na
música, todas arregimentaram admiradores e constantemente recebiam pelas
redes sociais as mais variadas e carinhosas manifestações de apoio.
No
entanto, certas bandas mantinham maior apelo nesse sentido e assim, eu cito A
Chave do Sol como uma das, senão a banda que mais recebia tais
acaloradas demonstrações. Que alegria era olhar em uma rede social e
verificar que sempre havia alguma menção de apreço por um trabalho, que em
tese não existia mais, há longos trinta e sete anos, a contabilizar o
final das atividades da banda a este instante no qual eu escrevi este
trecho da minha autobiografia, ou seja, a compreender o período, 1987-2024.
O
decantado show "reunião" que eu vinha a comentar há tantos capítulos
anteriores, ainda estava em gestação técnica e mesmo que nenhuma
sinalização proposital tenha precipitado rumores a respeito, o fato foi
que a banda mesmo a estar completamente inerte, movimentava atenção e
carinho de seus muitos admiradores.
Por
exemplo, em janeiro de 2024, fomos novamente escalados pela Webradio
Crazy Rock para constarmos de dois de seus programas dedicados ao Rock
nacional: o "Só Brasuca" e o "Momento Só Brasuca" e ambos produzidos por
pessoas diferentes na estrutura da emissora e segundo apurei, ambos frutos de pura coincidência e não algo programado para fazer parte de uma
'blitzkrieg" proposital para favorecer a nossa banda.
Ocorreu
na edição 366 do programa "Só Brasuca" da Webradio Crazy Rock, a
execução da música "Lírio de um Pantanal" d'A Chave do Sol. Semana de 20
a 26 de janeiro de 2024
E
no programa "Momento Só Brasuca", a música: "A Woman Like You" tocou na
edição 273, na mesma semana do outro programa, ou seja, entre 20 e 26
de janeiro de 2024
Que
bom, pois assim tivemos uma dose dupla logo nesse início de ano, a se
configurar um mês triste para a banda, no sentido de que fora em janeiro
de 2021 que nós perdemos o nosso cofundador e por muitos aspectos, o
grande mentor da nossa banda, no sentido de haver criado a sua
identidade primordial.
Outro
fato que despertou a minha atenção foi que "viralizou" através da rede
social Facebook, o vídeo d'A Chave do Sol a tocar a música "Anjo
Rebelde", por ocasião da nossa sexta participação no programa "A Fábrica
do Som" da TV Cultura de São Paulo, em junho de 1984.
Ora,
até aí tudo bem, como eu já disse anteriormente, havia sempre um
admirador a propor vídeos nossos como publicação em grupos temáticos ou a
esmo, através de seus respectivos perfis dessa, e de outras redes
sociais, entretanto, desta feita a multiplicação que esse vídeo gerou em
fevereiro de 2024, foi surpreendente.
E
a repercussão foi sensacional. Foram muitos os comentários carinhosos
expressos através de diversas publicações feitas por pessoas que eu nem
conhecia, a denotar a viralização. Senti-me impelido a responder à maioria delas e muitas dessas pessoas adicionaram-me como amigo, de
imediato, a estreitar relação de amizade, o que foi muito bom.
Claro,
em tempos de gente odiosa que expressava comentários desagradáveis por
uma questão de princípios degradados e oriundos de uma ação de hipnose coletiva, a
destruir o seu poder cognitivo, houve a incidência de dois comentários
negativos em meio a mais de duzentos ali assinalados. Um deles, inclusive, eu achei
respeitoso, no sentido de que o rapaz viu o vídeo e a denotar ter
conhecido a nossa banda apenas naquele instante com quarenta anos de
defasagem, elogiou o nosso instrumental, mas criticou a vocalização
(ah, o nosso grande dilema vivido durante a nossa trajetória, e o leitor
que acompanha este relato desde o seu início, sabe bem desse fator).
Respondi ao rapaz de uma forma cordial a lhe explicar rapidamente a
questão e a reconhecer que salvo em breves momentos, quando tivemos bons
vocalistas, o nosso padrão vocal era de fato o nosso ponto fraco.
Paciência.
Já
o outro rapaz foi muito mal-educado ao se expressar com um palavrão gratuito,
assim, sem contextualizar melhor a sua opinião sobre o nosso trabalho, e
então, o meu silêncio foi a melhor resposta.
Todavia,
as dezenas de comentários elogiosos e muitos deles a conter
exemplificações de lembranças pessoais a edulcorar a nossa banda como
partícipe de suas respectivas vivências, foi algo que muito me comoveu. E isso sem
contar com a questão do sucesso que a publicação fez por si só, a movimentar
muitas republicações.
Um
desses rapazes que se manifestou nessas publicações, chamado: Eduardo
Benzatti, mostrou-me via foto, a sua coleção de "bottoms" e entre eles,
ele exortou-me a reparar no bottom d'A Chave do Sol que nós produzimos
no ano de 1984, presente na foto, em excelente estado de conservação, a
parecer que ele o comprara hoje em dia.
Em
10 de fevereiro de 2024, eu estive presente no programa "Rádio
Matraca", exibido pela USP FM de São Paulo, para me apresentar com uma
outra banda minha revivida, o Boca do Céu, mas pude falar bastante sobre
A Chave do Sol e nessa ocasião, a nossa música "Luz", foi executada.
Eis o link para o podcast permanente dessa entrevista:
Já
em 11 de fevereiro de 2024, a emissora Webradio "Run Music Run" exibiu
uma reprise do programa "Classic Albuns", produção independente do
ativista cultural, Julio Verdi, a destacar o nosso álbum "The Key",
lançado em 1987.
E
para coroar esse bom começo de ano para uma banda extinta há tantos
anos, eis que fomos novamente escalados para a execução no programa "Só
Brasuca" em sua edição de número 370, através da canção "A Chave é o
Show". Ocorreu na semana de 17 a 23 de fevereiro de 2024.
Mais novidades viriam a seguir.
O
ano de 2024 transcorreu enfim com aquela perspectiva de que o decantado
show de reunião e homenagem ao Rubens Gióia seria confirmado a qualquer
instante. A proposta formal de um projeto por escrito fora preparada
pela Marcinha Oliveira, empresária do Língua de Trapo e também do Boca
do Céu, ao propor um mini festival a conter quatro shows previsto para
dois dias, com possibilidade de três.
A
ideia seria ter o mote em torno de artistas que apresentar-se-iam na
mesma noite com uma banda na qual foram membros no passado e também com a
atual daquele momento.
Neste
caso, Laert Sarrumor tocaria com o Boca do Céu e na mesma noite com o
Língua de Trapo. Eu também faria uma participação com o Língua de Trapo,
por ter sido membro dessa banda e tocaria com o Boca do Céu.
No
dia seguinte, A Chave do Sol faria o show tributo pelo Rubens Gióia e
no caso, a minha presença como membro dessa histórica banda seria
completada pelo show d'Os Kurandeiros a seguir, minha então banda da
atualidade.
E
ainda haveria a perspectiva de uma extensão do festival, novamente com
uma banda minha do passado, o Pitbulls on Crack que faria o show de
lançamento de dois discos "bootleg" que eu estava a produzir desse grupo
e a seguir, aconteceria um segundo show d'Os Kurandeiros ou mesmo do
Boca do Céu.
O
projeto foi intitulado como: "ontem e hoje", para sinalizar essa
questão dos músicos envolvidos com trabalhos do passado e do presente.
Muito
bacana o projeto, com pelo menos três bandas de renome envolvidas,
e certamente que todos os envolvidos criaram boas expectativas. No
entanto, o tempo se pôs a passar e a resposta não chegava nunca.
Foi
quando uma pessoa cuja identidade não vem ao caso mencionar, contudo, a
se mostrar como uma fonte fidedigna, me confidenciou que ouvira uma
pessoa ligada à produção do local que pleiteamos organizar o mini
festival e que a seguinte frase fora proferida por esse rapaz: "tem
projeto que nem precisa de análise para saber se dará certo ou não. Esse
não "vira".
Ora,
eu até respeitaria a opinião, acaso ela fosse formalizada como um
resposta oficial à nossa empresária, mas o ano de 2024 finalizou-se e
isso não aconteceu. Lamentável o descaso e muito discutível a opinião do
rapaz, para dizer o mínimo.
Para os fãs das quatro, quiçá cinco bandas envolvidas nesse projeto, eu lastimo um tipo de colocação desse porte.
Mas
a honradez d'A Chave do Sol não se abalaria com uma suposta negativa dessa
monta e assim, tivemos ao longo de 2024, como de costume, menções,
citações, execuções radiofônicas e aí sim, a memória da banda se manteve
engrandecida. Ao contrário da opinião maledicente desse rapaz, a nossa extinta, porém
querida banda, "virou".
Na
edição 393 do programa "Só Brasuca" pela Webradio Crazy Rock, com sete
execuções de 17 a 23 de agosto de 2025, a música "18 horas", nosso tema
instrumental lançado no longínquo ano de 1984, tocou.
"Change
my evil ways", canção que lançamos em 1987 através do LP "The Key", foi
a música escalada para tocar no programa "Só Brasuca" da Webradio Crazy
Rock em sua edição de número 400 e a música tocou por sete vezes entre
21 e 27 de setembro de 2025
Programa
"Vinil no Brasil" pela Webradio Orra Meu, tratou por analisar grandes
álbuns do Rock nacional e internacional e naturalmente que fiquei
honrado por ver o LP The Key em meio aos discos elencados, quase todos
de artistas gigantescos dos anos setenta. 30 de setembro de 2024.
Na
semana de 21 a 27 de dezembro de 2024, a música "Sun City" que lançamos
no ano de 1987, através do Lp The Key, tocou por sete vezes no programa
"Só Brasuca" pela Webradio Crazy Rock
E
para encerrar o ano de 2024, a nossa banda recebeu a indicação de dois
radialistas da Webradio Orra Meu para constar no programa "Hall da
Fama", em 30 de dezembro como um especial de Reveillon. Cesar Freitas e
Marcos Almada escolheram "18 horas" e "Sun City", respectivamente, para
nos representar no especial promovido pela emissora. Fiquei naturalmente
honrado com as nomeações.
E
para celebrar tal resultado, a emissora produziu dois clipes especiais, um para cada música, com imagens a mesclar a banda nos anos
oitenta, mediante ilustrações e animações modernas. Clipes singelos, mas
sinceros da parte da emissora, e assim foi claro que fiquei feliz por isso.
1) A Chave do Sol - 18 horas - Clip 2024 - Produção e edição: Emmanuel Barreto/Webradio Orra Meu
Eis o link para assistir no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=JXnOW0Mn8ns
2) A Chave do Sol - Sun City - Clip 2024 - Produção e edição: Emmanuel Barreto/Webradio Orra Meu
Eis o link para assistir no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=wUG9kLarxaM
Bem, e assim se encerrou o ano de 2024 para a nossa banda extinta na prática, mas eterna na sua grandiosidade.
A
perspectiva de um show reunião, ficara difícil na opinião de um
visionário de plantão, mas eu ainda não desistira e dessa forma, mantive
a esperança.
De
uma forma penosa para todos os fãs do Golpe de Estado, colegas e amigos
em geral dos membros e ex-membros, eis que recebemos atônitos a nota de
falecimento do grande baixista, Nelson Brito, membro fundador desse
histórico grupo de Rock, em 12 de julho de 2024.
Ocorreu
exatamente dez anos após o súbito falecimento do guitarrista Hélcio
Aguirra e desta feita, o efeito surpresa que nos acometeu na perda do
amigo Hélcio, teve outra perspectiva em relação ao Nelson, pois foi um
perecimento anunciado, dada a constatação de que ele fora acometido de
grave doença gastro-intestinal e que teve a agravante da somatização
infeliz de uma doença contagiosa que teve. Nesse ínterim, a
potencializar a sua completa perda de imunidade, foi minada a sua
possibilidade de recuperação, pois o seu quadro geral piorou muito,
portanto, os médicos fizeram de tudo, mas não deu para salvar o meu
amigo e grande artista.
Eu
fiz uma visita no hospital em que ele esteve internado em julho, assim
que soube que saíra da UTI e fora para o quarto para se recuperar, mas
assim que cheguei ao recinto, ele teve uma nova crise e foi reconduzido à
UTI e assim, receio que ele não percebeu a minha presença, e a minha
fala, mesmo com a sua esposa, Heloísa a enfatizar isso para ele notar
que eu estava ali ao seu lado a lhe falar palavras de incentivo.
Infelizmente eu presenciei a sua remoção de volta à UTI e de lá, nunca
mais o vi com vida.
Impactado
fortemente, fiquei com o questionamento sobre perdas de entes queridos,
familiares ou amigos: o que é pior? Perder um amigo subitamente como
foi o caso de Hélcio Aguirra, Rubens Gióia e Ciro Pessoa ou a saber que o
amigo está debilitado, e de forma lenta, alimentar a nossa esperança de
que melhore, mas na verdade, a situação é irreversível e dessa forma, o
sofrimento de quem parte é vagaroso e o de quem fica, angustiante?
Na
qualidade de colega de arte e amigo pessoal do Nelson, eu fui um dos
tantos que sentiu o impacto da sua perda, sem poder fazer nada para
mudar a situação, tampouco amenizar a tristeza pela qual fomos todos
acometidos com a notícia.
Particularmente,
eu fui amigo do Nelson por quarenta e um anos. Nos conhecemos em
fevereiro de 1983 nos bastidores da casa de espetáculos, "Victoria Pub"
de São Paulo, quando a minha banda na ocasião, A Chave do Sol, se
revezava com a dele, "Fickle Pickle", na missão de toda noite abrirmos
os shows do "Tutti-Frutti", lendária banda comandada pelo guitarrista
Luiz Carlini, por uma temporada longa que se estendeu até abril daquele
mesmo ano.
Nelson mal havia me conhecido nos bastidores do primeiro dia que lá
fomos tocar e me ofereceu o seu amplificador pessoal para que eu me
apresentasse e assim foi durante toda a temporada ali decorrida. Tal
passagem está narrada com detalhes no livro "A Chave do Sol" da minha
autobiografia, a corresponder ao volume V/tomo A dessa obra.
Simpático
e solícito, tornou-se meu amigo de imediato.
Desse ponto em diante, foram muitas jornadas a nos ajudarmos mutuamente.
Ele já a bordo do Golpe de Estado e eu a passar por muitas bandas
depois que A Chave do Sol encerrou atividades, mas curiosamente, sempre,
em praticamente todas pelas quais atuei, a interagir com o Golpe de
Estado através de shows compartilhados das mais variadas procedências e
assim, sempre foi um prazer estarmos juntos nos camarins, coxias, no
processo de soundcheck, mas ações de divulgação e claro, pelos palcos,
ambiente de ensaios e estúdios de gravação, além de bastidores de rádio e
TV.
Nesses
anos todos, também fui convocado a interagir como convidado em
eventuais shows que o Golpe de Estado realizou e sempre fui acolhido
pelo Nelson e demais colegas, da melhor maneira possível.
Se eu já havia sentido muito a perda do guitarrista Hélcio Aguirra que
nos deixou também de uma forma sofrida em 2014, o sentimento se repetiu
em 2024, quando soube da partida do Nelson Brito.
E
assim como participei de um show em homenagem ao Hélcio Aguirra, alguns
dias depois de seu falecimento, recebi um telefonema do meu amigo
Marcello Schevano (desde 2014, substituto do Hélcio Aguirra para a
condução da guitarra na continuidade de carreira do Golpe de Estado),
para que eu participasse de algo semelhante, para prestarmos um tributo
ao Nelson.
Seria
diferente, no entanto, na medida que aquele "tributo" no qual
participei em 2014, foi feito por um conglomerado de amigos e vários
"combos" se apresentaram a tocar músicas de bandas pelas quais o Hélcio
atuara e curiosamente, o Golpe de Estado a se tratar do seu trabalho
mais significativo, ficara praticamente de fora.
Desta
vez, seria um show regular do Golpe do Estado, data essa que estava
marcada previamente e que inclusive fora um pedido expresso da parte do
próprio Nelson, ainda consciente no leito hospitalar de que nenhuma data
agendada fosse cancelada.
Nesse
termos, outras datas foram cumpridas mediante o apoio do baixista
Daniel Kid, meu ex-roadie da Patrulha do Espaço em nossa formação
chronophágica, mas desta vez, a banda quis fixar uma homenagem a
convidar cinco baixistas que foram amigos do Nelson e assim, eu aceitei o
convite para tocar nesse compromisso que foi marcado para o dia 24 de
agosto de 2024, com pouco mais de quarenta dias da sua morte, quando eu
teria a honra de dividir o palco com o Golpe de Estado em regime de
revezamento com quatro queridos amigos meus, baixistas e todos, amigos
igualmente do Nelson, de forma fraternal.
Dessa
forma, além do Daniel "Kid" Ribeiro já citado, eu estive junto também a
Marcelo "Pepe" Bueno, Ricardo "Soneca" Schevano (meus queridos amigos
desde os anos 1990, tendo sido, ambos, meus alunos e cuja história está
inteiramente narrada no livro VI da minha autobiografia, denominado
como: "Sala de Aulas"). Além do ótimo, Fabio Cezzar, baixista de bandas
seminais como o King Bird e Casa das Máquinas versão anos 2000 e meu
amigo desde pelo menos 2007.
Todos
nos unimos à formação então atual da banda e tocarmos as belas e
complexas linhas de baixo criadas pelo nosso querido amigo que nos
deixou. Foram designadas para mim, três canções para eu tocar no show:
"Caso Sério", "Cobra Criada" e "Não é Hora", três dos muitos clássicos
da banda.
Um ensaio foi marcado para ocorrer no estúdio Orra Meu, na quarta-feira, dia 21 de agosto de 2024.
Na
área social do estúdio Orra Meu, os cinco baixistas amigos de Nelson
Brito, convocados para homenageá-lo ao vivo: Ricardo Schevano, Daniel
"Kid", eu (Luiz Domingues), Pepe Bueno e Fabio Cezzar. Dia do ensaio com
o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid.
Click: Fabiano Sá
No
dia 21 de agosto, conforme havia sido marcado pelo Marcello Schevano
previamente, eu me reuni nas dependências do estúdio Orra Meu de São
Paulo para um ensaio com os membros remanescentes do Golpe de Estado. Eu
sabia que seria um dia triste, pois fatalmente todos os envolvidos
haveriam de falar e bastante do nosso amigo em comum que partira tão
recentemente. Seria inevitável que as rodas de conversa fossem marcadas
por tal pauta.
Eu
mesmo passara os dias anteriores a rememorar passagens com o Nelson e
também com o Hélcio, ou seja, as reminiscências foram múltiplas e a
tangenciar fatalmente para um sentimento de saudade que seria difícil de
controlar.
Foi o que aconteceu de fato, embora muitos momentos a evocar lembranças de ocorrências engraçadas
tivessem produzido boas risadas e isso amenizou a melancolia
generalizada, no sentido de que ficara a impressão de que mesmo diante do
pior cenário possível, ou seja, o desaparecimento de um amigo querido,
as risadas produzidas mediante lembranças boas, certamente amenizaram o
quadro e mais do que isso, não há melhor maneira de relembrar de alguém
que partiu que não seja pela recordação de fatos bons por ele realizados
e devidamente guardados na memória de todos.
Da
esquerda para a direita: Eu (Luiz Domingues), Roby Pontes, Daniel Kid,
Pepe Bueno e Fabio Cezzar. Ao fundo, a cantora, Lucíola Felipe, com um
homem desconhecido mais ao fundo. Dia do ensaio com o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid. Click: Fabiano Sá
Bem,
fomos ensaiar. Daniel Kid passou as três primeiras músicas com a banda,
eu toquei a seguir. Fabio Cezzar foi o terceiro e Pepe Bueno foi o
quarto. Não assisti a participação de Ricardo Schevano, pois sob estado
gripal, eu não estava 100% bem disposto e a aproveitar a carona de
Daniel Kid que estava de saída para ir ensaiar com um outro pessoal
ainda naquela noite, parti com ele que me deixou na estação Praça da
Árvore do metrô e assim facilitou a minha volta para a casa.
Ainda
no ensaio, eu conhecia e de muito tempo a categoria de todos ali
presentes. Da então atual formação do Golpe de Estado, não havia o que
dizer sobre Marcello Schevano, meu velho companheiro de duas bandas
(Sidharta e Patrulha do Espaço), pois o conhecia desde 1994 e sabia
muito bem da sua genialidade. No entanto, havia sim o que dizer, pois a
despeito de havermos tocado muitas vezes com a Patrulha do Espaço em
shows "reunião" nos últimos anos e inclusive com uma ocasião dessas a se
fazer muito recente (em junho de 2024), eis que a sua performance como
substituto do grande Hélcio Aguirra, se mostrava espetacular, pois o
Marcello Schevano de 2024, além da genialidade nata com a qual eu o
conheci trinta anos antes, estava acrescida de uma gigantesca carga de
especialização musical e também no quesito da engenharia de áudio, além
de muito experiência adquirida, portanto, a se revelar como uma forma
exemplar de músico de alto padrão.
Sobre
Roby Pontes, a mesma coisa. Eu sabia há muito tempo que ele era super
técnico, tocava desde criança, tinha uma técnica incrível e um gestual
muito personalizado e claro, impressionei-me ainda mais ao vê-lo ainda
mais técnico e experiente, com um grau de sofisticação na sua
performance ao instrumento, a chamar demais a atenção.
E
quanto ao vocalista João Luiz, o mesmo raciocínio, ou seja, eu sempre
soube que ele era dono de uma das melhores gargantas do Rock Brasileiro e
mantinha consigo um padrão de presença de palco muito exuberante, e
nesse ensaio, pude constatar que mais velho ele usara a prerrogativa
vinícola, ou seja, tal como o bom vinho, ficara ainda melhor como
vocalista e front-man de enorme desenvoltura.
Enfim,
fiquei feliz por tocar com meus amigos da banda e também dividir espaço
com os colegas baixistas, todos amigos meus e entre si a configurar ali
uma confraria Rocker muito natural e claro, todos amigos do grande
Nelson Brito. Isso amenizou a nossa dor pela perda dele, mas pelo menos
na minha mente um questionamento se materializou: e no dia do show? Será
que eu conseguiria tocar, homenagear o amigo Nelson e não me emocionar?
Será que os demais baixistas co-irmãos também se controlariam no palco
ao se deparar com os fãs do Golpe de Estado sob intensa emoção? E os
membros da banda, também conseguiriam superar a emoção?
Eu,
Luiz Domingues, Roby Pontes, o cantor Fabiano Sá, Daniel Kid, Pepe
Bueno e Fabio Cezzar. Ao fundo, Lucíola Felipe e um homem desconhecido
mais ao fundo. Dia do ensaio com o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid. Click: Ricardo Schevano
Ao
vermos a foto que o Daniel Kid preparou para registrar a participação
dos cinco baixistas convidados, eu logo falei em tom de brincadeira que
éramos os "filhos de Nelson" e assim batizou-se a nossa reunião para
celebrar a amizade que cultivamos todos nós para com ele.
"Os filhos do Nelson Brito": Ricardo Schevano,
Daniel "Kid", eu (Luiz Domingues), Pepe Bueno e Fabio Cezzar. Dia do
ensaio com o Golpe de Estado. 21 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: Daniel Kid. Click: Fabiano Sá
No
canto do palco, lá estou eu (Luiz Domingues), a me preparar para tocar
com o Golpe de Estado. Casa de Cultura Chico Science de São Paulo, 24 de
agosto de 2024. Click, acervo e cortesia: Ana Cristina Domingues
Cheguei
cedo ao ambiente da Casa de Cultura Chico Science e no caso, não se
tratava apenas do show do Golpe de Estado, mas sim de um pequeno
festival. Havia sido providenciado pela produção desse evento, uma
estrutura até surpreendente mediante um bom equipamento de PA, até a se
colocar acima das necessidades do ambiente, iluminação, um telão de
qualidade máxima para os padrões tecnológicos da época para a exibição
de imagens em alta definição, ou seja, esteve de parabéns a produção.
Estava
um dia relativamente frio e ameaçava chover, o que de fato ocorreu
assim que eu cheguei, mas não foi nada torrencial e sim sob uma rápida
ação e de forma amena. Mesmo assim, eu fiquei chateado por verificar que
o público presente que assistia a apresentação da banda que se
apresentava quando eu entrei no recinto, estava absolutamente diminuto.
Boa banda em ação, amparada por um equipamento de bastante qualidade,
iluminação legal e telão de alta definição, fiquei feliz por ver uma banda boa a se apresentar com bastante energia e qualidade musical.
Da
esquerda para a direita: Luiz Domingues, Roby Pontes na bateria, João
Luiz e Marcello Schevano. Golpe de Estado e convidados. Casa de Cultura
Chico Science de São Paulo. 24 de agosto de 2024. Click, acervo e
cortesia: Ana Cristina Domingues
Bem,
o meu estado gripal havia piorado desde o ensaio realizado três dias
antes, mas o que me preocupou mesmo foi o clima de comoção com o qual me
confrontaria. Começou o espetáculo e da coxia, vi o Daniel Kid iniciar
no baixo a tocar músicas mais recentes do Golpe de Estado, fruto da
formação mais atual da banda. A seguir, o amigo Fabio Cezzar entrou em
cena e tocou três canções dos dois primeiros discos e da coxia, eu
fiquei sensibilizado pois tais temas povoavam a minha lembrança de
convívio com a banda ainda nos anos 1980.
Para
potencializar ainda mais a minha melancolia disparada de forma
implacável, eis que a imagem fixa que se usou no telão, foi uma colagem
de fotos do Nelson em ação e a cada vez que eu via o meu amigo ali, fui
acometido de pensamentos que se intensificaram no sentido de despertar
uma tristeza muito grande.
Fui
chamado ao palco e gentil como sempre, Fabio Cezzar me emprestou o seu
belo baixo Fender Precision, ou seja, a repetir o empréstimo que já
fizera no ensaio. Facilitou demais a troca rápida e o som do instrumento
estava espetacular, não mudei um centímetro da regulagem de timbre que
ele arrumara para si.
Começamos
com "Cobra Criada", uma canção oriunda do LP "Forçando a Barra", de
1988. Música mais acelerada, foi com esse impulso que tocamos e foi um
prazer tocar aquela linha de baixo tão bonita e complexa, criada pelo
Nelson Brito.
Quando
a música se encerrou, a enxurrada de aplausos e gritos foi emocionante e
eu tive a reação natural de apontar para a imagem do Nelson no telão.
Marejei os olhos e tudo se intensificou quando avistei o rosto de
Heloísa Gongora na multidão, viúva do Nelson que ao fitar-me, sinalizou
com sentido de agradecimento e ali eu embarguei de vez. Sabedor do
sofrimento que ela teve no processo todo da doença, internação e
falecimento do Nelson, é claro que só de vê-la ali presente eu já me
desequilibrei ainda mais.
A
imagem de Nelson Brito em proeminência no telão que ornou o palco. Uma
bela, emocionante e justa homenagem ao amigo que partiu. Golpe de Estado e
convidados. Casa de Cultura Chico Science de São Paulo. 24 de agosto de
2024. Click, acervo e cortesia: Ana Cristina Domingues
"Não
é Hora" foi a segunda canção na qual eu participei a suprir o som do
baixo. Canção oriunda do LP "Nem Polícia, nem Bandido", lançado em 1989.
Clássico, mais um no caso, do repertório da banda, foi cantada em
uníssono pelo público que naturalmente a adorava. Toquei e foi a
aumentar a minha sensação de angústia ao não parar de me lembrar do
Nelson e do Hélcio também.
Ricardo
Schevano, eu Luiz Domingues a sair do palco, Roby Pontes, João Luiz e
Fabio Cezzar a agradecer o público. Confraternização final da banda e
seus convidados com o público. Golpe de Estado e convidados. Casa de
Cultura Chico Science de São Paulo. 24 de agosto de 2024. Click, acervo e
cortesia: Ana Cristina Domingues
"Caso
Sério", uma bonita balada contida no LP "Quarto Golpe" de 1996,
encerrou a minha participação e a emocionar todos no recinto. Quando
acabou, cumprimentei todos os colegas da banda, o público, naturalmente,
fiz uma reverência à viúva do Nelson Brito presente na plateia e assim
que voltei ao camarim, o Ricardo Schevano viu que eu estava bem abalado.
De fato, a emoção me consumiu e ali cheguei aos prantos, bastante emocionado.
Lembrei
muito do meu querido avô, que já em idade avançada me falou certa vez
que muito mais que o medo da morte, o que estava a consumi-lo
emocionalmente, era constatar a morte de entes queridos e amigos aos
montes, o que é um fato natural quando se atinge uma idade longeva e a
sensação de amparo vai a ser minada na medida em que tombam todos ao seu
redor e com eles, vai embora também o sentimento de pertencimento ao
mundo.
Tal
sensação é obviamente deveras desalentadora e finalmente eu comecei a
experimentar o mesmo ao ver tantos amigos e familiares a desaparecer,
além de pessoas de uma geração de artistas que tanto me influenciou
também a perecer de uma forma avassaladora, no sentido que tal geração
de fato chegou a uma idade limite sob o ponto de vista biológico.
Em
suma, o meu avô teve razão ao observar tal sensação tão ruim e
finalmente eu entrei em uma fase que começara a ter esse dissabor de uma
forma bem comum, a provar que isso é de fato um sentimento devastador.
Bem,
me controlei enfim, me despedi de todos, a agradecer pela oportunidade e
na saída do camarim, ao tomar contato com parte do público que ali
aguardou para cumprimentar a todos, encontrei velhos amigos e até fãs de
trabalhos anteriores que eu tive, principalmente d'A Chave do Sol e da
Patrulha do Espaço, o que me deu alegria para amenizar um dia permeado
pela tristeza.
O
Marcello comunicou-me que esse show possivelmente repetir-se-ia em
outubro, em uma unidade do Sesc e que todos os baixistas convidados
tocariam novamente acaso pudessem confirmar presença, De antemão, eu
confirmei e pensei comigo que muito possivelmente desta feita eu estaria
mais conformado e consequentemente melhor estruturado psicologicamente
para atuar.
De
qualquer forma, tristeza a parte, dei o meu melhor e acredito que onde
quer que esteja, o Nelson recebeu a nossa boa vibração. Assim espero,
pelo menos.
1)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Cobra Criada" - Casa de
Cultura Chico Science - 24 de agosto de 2024. Filmagem e cortesia: Ana
Cristina Domingues
Eis o link para assistir no YouTube: https://youtu.be/bkCRTpxSdFk
2)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Não é hora" - Casa de Cultura
Chico Science - 24 de agosto de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina
Domingues
Eis o link para assistir no YouTube: https://youtu.be/MdoZLV57Zuo
3)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Caso Sério" - Casa de Cultura
Chico Science - 24 de agosto de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina
Domingues
Eis o link para assistir no YouTube: https://youtu.be/glHrzPxHEYA
A
banda, com os baixistas convidados (menos Daniel Kid) e o guitarrista
do grupo "Nevulla", que tocou na última música, além do público
presente. Golpe de Estado na Casa de Cultura Chico Science de São Paulo.
24 de agosto de 2024. Acervo e cortesia: João Luiz. Click: desconhecido
Conforme
me fora notificado anteriormente, eis que um novo espetáculo ficou
marcado para o Golpe de Estado, a se configurar como mais uma homenagem
ao seu saudoso baixista, Nelson Brito, meu amigo de muitas décadas. E
este com a mesma configuração anterior em relação ao espetáculo no qual
eu havia participado, ou seja, a contar com a presença de cinco
baixistas convidados, eu incluso, para suprir a ausência do nosso
querido amigo que partira.
Eu
já havia sinalizado ao Marcello Schevano que aceitaria participar
novamente e de fato, assim que ele me confirmou a data, eu reiterei a
minha predisposição para estar junto a banda e seus outros convidados,
todos eles amigos do Nelson e meus igualmente, portanto, mais uma vez
haveria de ser uma bela homenagem.
Marcado
para ser realizado na unidade do Sesc Paulista, localizado na avenida
homônima, a única diferença em relação ao show anterior foi a inclusão
de mais uma música para cada convidado, ou seja, a caracterizar um
espetáculo com vinte músicas do repertório da banda, a representar todos
os seus discos.
No meu caso, foi acrescentada a canção: "Forçando a Barra", peça de seu segundo disco, o LP homônimo, lançado em 1988.
Um
ensaio foi marcado para ocorrer nas dependências do estúdio Orra Meu,
em 14 de outubro de 2024, uma segunda-feira e com a possibilidade de
haver um segundo ensaio na quarta-feira, dia 16.
Novamente
reunido com os amigos na área livre de convivência do estúdio Orra Meu
para preparar o show tributo a Nelson Brito. Da esquerda para a direita:
João Luiz, Marcello Schevano, Fabio Cezzar, Ricardo Schevano, Daniel
Kid, eu (Luiz Domingues), Pepe Bueno e Roby Pontes. Estúdio Orra Meu de
São Paulo. 14 de outubro de 2024. Acervo e cortesia: Marcello Schevano.
Click: Letícia Helena
Na
parte musical, a banda estava afiada como sempre e todos os convidados
haviam feito bem a "lição de casa", portanto, o ensaio se provou eficaz.
Tanto que o segundo ensaio foi mantido, mas quem se sentiu seguro logo
no primeiro, nem compareceu ao segundo, o que foi o meu caso. Não fiquei
sabendo a posteriori, mas creio que esse segundo apontamento foi
cancelado, com a sensação de que não seria necessário.
O
meu único receio foi poder me controlar melhor, haja visto que no show
anterior eu senti a carga emocional pela perda do amigo e me
desconcentrei durante o show e principalmente no camarim após a minha
saída de cena, quando me senti abalado pela lembrança do dia triste que
tive ao lado da esposa do Nelson no dia em que fui visitá-lo no
hospital, pois foi justamente no momento no qual cheguei ao quarto, ele
estava a ter uma crise e só me restou tentar consolar a sua esposa no
pior momento possível. Tal recordação se aflorou assim que avistei a
presença dela na plateia durante esse show anterior e ali eu mergulhei
em um caldeirão de emoções fortes, por estar a atuar no calor do
espetáculo, a ocupar a vaga dele, a tocar as suas músicas, mediante as
suas linhas de baixo e a ter consciência do quanto ele amava a sua
banda, suas canções e assim, para potencializar ainda mais o apelo
emocional, com a sua foto gigante no painel de fundo, a esposa ali e
mirar-me e a tocar as suas canções, não foi fácil me controlar.
Paciência, sou humano também.
Na mesma intenção da foto anterior. Ensaio
do Golpe de Estado e seus convidados. Estúdio Orra Meu de São Paulo. 14
de outubro de 2024. Acervo e cortesia: Marcello Schevano. Click:
Letícia Helena
Bem,
a julgar pelo ensaio, quando nos reunimos novamente, claro que falamos
muito do Nelson, cada qual a expressar as suas muitas lembranças.
Lamentamos novamente a sua ausência, mas tudo se atenuou com as
lembranças boas que todos evocaram. Portanto, conformado exatamente
ninguém ali estava, porém, falar sobre os bons momentos que cultivamos
da amizade para com ele, nos deu alento.
E
particularmente eu me senti mais forte. Tive a certeza de que nesse
segundo show eu não haveria de me desestabilizar tanto, sem perder a
concentração e a não gerar uma energia ruim. Se existir de fato uma
espécie de "vida após a morte física", nessa dimensão na qual o Nelson
foi habitar doravante, ele recebeu a nossa energia boa ali a falarmos
coisas positivas sobre ele e no show, com toda a carga explosiva do som
produzido pela banda que ele tanto amou, através das músicas que criou, a
massa energética haveria de ser ainda maior.
Uma
ideia surgiu, a proporcionar que cada baixista convidado escrevesse um
texto a ser repercutido nas redes sociais, a dar conta de como cada um
conheceu e forjou amizade com o Nelson. Tais depoimentos ficaram
emocionantes da parte de todos os baixistas convidados e exatamente o
texto que eu preparei, o transcrevo abaixo:
"Foi
na metade de janeiro de 1983, que a minha banda na ocasião, A Chave do
Sol, conseguiu dar o seu primeiro passo um pouco maior, haja vista que
vínhamos desde setembro de 1982 a trilhar a dura labuta da típica banda
iniciante, ou seja, a nos apresentarmos em casas noturnas obscuras,
festivais underground & afins.
Isso
ocorreu quando um "olheiro" de uma casa de maior porte nos viu a atuar
em uma bar da Alameda Santos e nos convidou a assinarmos um contrato
para uma temporada no então badalado, "Victoria Pub", a viver os seus
dias de auge e a se constituir na prática de uma casa da jovem burguesia
paulistana, embora a programação fosse Rocker na essência.
A
nossa missão foi nobre: abrir toda terça e quinta os shows do
Tutti-Frutti de Luiz Carlini, Simbas & Cia., ou seja, uma formação
espetacular dessa famosa banda. Dividiríamos a missão com outra banda
que já tinha uma história pregressa no campo da música autoral a
remontar aos anos setenta, mas que nessa fase, se dedicava às releituras
de clássicos do Rock internacional dos anos 1960 e 1970, chamada como:
"Fickle Pickle", cujo vocalista era um ex-co-autor de músicas do Casa
das Máquinas, apelidado como "Catalau" e que eu conhecia desde 1980,
época na qual ele quase entrou como componente de uma banda cover pela
qual eu atuava, chamada: "Terra no Asfalto".
Os
outros componentes eu não conhecia até então, mas vim a saber que o
guitarrista, Raul Müller, era ex-membro do lendário "Lírio de Vidro" de
Kim Kehl, banda que surgira no final da década de setenta. E a super
"cozinha" da banda era constituída por Nelson Brito e Paulo Zinner,
ambos com o Fickle Pickle desde 1977, ainda com André Christovam na
guitarra e posteriormente, Chris Skepis.
Em
suma, eu conheci o Nelson ali nos labirínticos corredores do Victoria
Pub e fiquei muito sensibilizado pela sua generosidade, pois mesmo sem
me conhecer, ele ofereceu-me o seu amplificador para que eu o usasse nos
quatorze shows que A Chave do Sol ali realizou.
Jamais
me esqueci desse gesto solidário da parte dele e dali em diante,
ficamos amigos e solidários um com o outro por anos a fio.
E
como eu gostava de vê-lo a atuar, assistindo da coxia do Victoria Pub e
vibrando com a execução perfeita que ele interpretava das linhas de
baixo de John Entwistle, Paul McCartney e Bill Wyman entre outros ídolos
nossos do Rock da década de 1960, com aquela volúpia Rocker
avassaladora, bem no espírito dessa cena que amávamos.
Veio
a posteriori o Golpe de Estado e a sua consagração pessoal como artista
contundente e famoso no meio Rocker brasileiro. A minha carreira foi
diferente em comparação à que ele construiu com uma banda apenas, porém,
e não por coincidência mas por afinidade, todas as bandas pelas quais
eu atuei doravante, interagiram fortemente com o Golpe de Estado,
portanto, foram inúmeras as histórias construídas conjuntamente pelos
bastidores de shows, ambientes de rádio, TV e redações de jornais que
visitamos para falar sobre shows, discos sendo lançados e outras ações
promocionais, além da colaboração direta, um com o outro nas produções
de estúdio, quando gravamos discos com as nossas respectivas bandas e
sem contar com as "canjas" nos shows, um na banda do outro.
Até
que um dia ele partiu para viver em uma outra dimensão. O que isso
mudou na nossa amizade? Nada, pois continuamos a ser amigos e um dia eu
irei viver nessa outra dimensão, também, e lá, continuaremos a cultivar a
nossa amizade a celebrarmos juntos o som do The Who, Beatles e Rolling
Stones e conversarmos animadamente sobre as peripécias do Dr. Smith,
Robot & Will Robinson, entre tantas coisas que gostamos e somente
quem viveu os anos sessenta sabe do que estou a falar".
Bem,
o dia do show chegou e lá fui eu imbuído de produzir mais essa boa
energia junto aos colegas para que o Nelson a recebesse, fosse lá onde
estivesse.
O
palco montado e sob a fase de preparação de iluminação. Golpe de Estado
+ convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18
de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Marinho Rocker
Cheguei
cedo às dependências do Sesc Paulista, unidade localizada em plena
avenida Paulista, bem perto de uma das saídas da estação Brigadeiro do
metrô, ou seja, a apenas duas estações de onde eu morava, foi muito
fácil chegar ali a usar o próprio metrô e isso foi possibilitado por
conta da extrema gentileza do baixista, Fabio Cezzar, que me emprestara o
seu baixo durante a realização do ensaio prévio e atendeu ao meu pedido
de um novo empréstimo no show, ou seja, isso viabilizou que eu chegasse
às dependências daquela unidade sem instrumento, portanto a usar o
transporte público sem nenhum problema. Mais uma vez, o amigo Fabio
Cezzar foi extremamente gentil, como aliás, é de seu estilo, como um
grande colega que o é.
O
pequeno auditório dessa unidade não foi o local do espetáculo. Para tal
evento, um palco alternativo foi montado no saguão de entrada, a
simular um pequeno salão com maior capacidade, fechado por portas de
vidro e cortinas, ou seja, foi uma alternativa interessante para poder
receber um público maior.
Marinho
Rocker, ativista cultural e colecionador de discos, e eu (Luiz
Domingues), durante o exercício vespertino do soundcheck. Golpe de Estado +
convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de
outubro de 2024. Acervo e cortesia: Marinho Rocker. Click: Eduardo dos Santos Drummond
A
passagem de som estava em curso e toda a estrutura que a banda teve no
show anterior do qual eu também participei, repetira-se em termos de
equipe de apoio.
O
telão já estava ligado para os devidos testes de iluminação e as fotos a
exibir imagens do Nelson Brito, estavam a reluzir. Olhei para tais
imagens munido de um grande respeito ao amigo que partira, contudo, me
senti mais forte desta vez, isto é, percebi que estava preparado para
fazer o show sem abalo emocional como ocorrera no espetáculo anterior do
qual participei.
Encontrei-me
com todos os membros remanescentes da banda, os componentes da equipe
técnica, uma série de pessoas ligadas aos bastidores do Golpe de Estado e
claro, foi um prazer estar com eles, todos imbuídos da vontade de dar o
melhor para reverenciar a memória do Nelson Brito.
Na
primeira foto, Pepe Bueno, o empresário do Golpe de Estado, Tiago Claro
e eu (Luiz Domingues). Foto 2: banda e convidados minutos antes de
irmos para o palco. Da esquerda para a direita: Ricardo Schevano, Roby
Pontes, João Luiz, Pepe Bueno, Marcello Schevano, eu (Luiz Domingues),
Fabio Cezzar e Daniel "Kid". Na foto 3, João Luiz, Daniel Kid e eu (Luiz
Domingues). Golpe de Estado + convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc
Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Clicks, acervo e
cortesia: Billy Albuquerque
No
camarim, o clima foi de extrema camaradagem como sempre e
inevitavelmente, lembramos de muitas histórias a envolver o Nelson, que
realmente deixou saudade para todos ali. Fomos avisados pelo diretor de
palco do Sesc que estava na hora da banda se posicionar perto do palco a
esperar o áudio protocolar com os anúncios obrigatórios sobre
segurança, prevenção de incêndios e saída de emergência do local.
Bem,
a luz de serviço apagou no ambiente e sob os gritos de euforia do
público presente ante a adrenalina típica de início de espetáculo, eis
que a banda entrou no palco com o primeiro baixista convidado, Daniel
Kid, e eles tocaram temas mais modernos da banda, exatamente compostos e
gravados por essa formação e a se revelar nesse momento como os últimos
trabalhos que Nelson Brito realizou na sua carreira artística e vida,
propriamente dita.
Daniel
Kid, meu amigo de longa data, ex-roadie da Patrulha do Espaço que me
acompanhou durante quase toda a trajetória da nossa formação
Chronophágica em turnês. Ele foi o primeiro baixista convidado,
exatamente como acontecera no espetáculo anterior. Golpe de Estado +
convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de
outubro de 2024. Clicks, acervo e cortesia: Billy Albuquerque
Fiquei
atrás do palco a observar o show e a verificar que a banda estava a
tocar com uma energia muito grande e o público estava ainda mais quente,
a gerar uma sinergia excelente. Que bom, o Nelson mereceu receber essa
energia tão forte lá na dimensão na qual habitava naquele instante.
Terminadas
as quatro músicas defendidas pelo Daniel Kid, Fabio Cezzar foi chamado
ao palco e mais um amigo meu e do Nelson pôde dar a sua contribuição
para reverenciar a arte do nosso amigo em comum que partira.
O
grande Fabio Cezzar, outro amigo que admiro não só pela sua excelência
musical, mas também pela sua generosidade que é muito grande. Golpe de Estado +
convidados (tributo a Nelson Brito). Sesc Paulista de São Paulo. 18 de
outubro de 2024. Clicks, acervo e cortesia: Billy Albuquerque
Fabio
Cezzar tocou as suas quatro músicas e chegou a minha vez. Fui chamado
ao palco e das mãos desse amigo, sem intervenção de um roadie, peguei o
seu belo baixo Fender Precision e me preparei nos últimos ajustes para
poder tocar, enquanto o vocalista, João Luiz, anunciava-me mediante
palavras bonitas em tom de elogio, de uma forma muito gentil.
Tudo pronto para o show prosseguir! Vamos todos juntos pelo Nelson!
Eu,
Luiz Domingues, com Roby Pontes na bateria e o grande amigo que partiu,
Nelson Brito presente nas imagens do telão. Golpe de Estado +
convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click,
acervo e cortesia: Billy Albuquerque
Logo
a seguir, o Marcello iniciou os acordes da música: "Não é hora" e nós
fomos juntos e resolutos a executar mais uma música que construiu a fama
do Golpe de Estado, ou seja, mais uma obra que teve a alma de Nelson
Brito na concepção de tal criação.O
público reagiu com um calor impressionante e eu fiquei feliz por tal
reação tão efusiva de forma espontânea, ou seja, a provar que Nelson
Brito e Hélcio Aguirra, dois componentes que partiram para não mais
voltar, mas que na verdade, jamais estarão esquecidos, pois a música os
eternizou.
Os remanescentes da última formação do Golpe de Estado. João Luiz, Roby Pontes e Marcelo Schevano, pela ordem. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque
"Cobra
Criada" veio a seguir, a imprimir ainda mais energia. Pus-me a tocar e
mais preparado para enfrentar os apelos emocionais, vi a presença da
viúva de Nelson Britona plateia e desta vez, eu não me desestabilizei ao ponto de perder a concentração.
"Caso
Sério", que é uma balada muito bonita, e com a marca de três micro
solos muito melódicos criados pelo Nelson, levantou suspiros da plateia.
Tocamos com emoção, certamente, mas concentrados para exercer a missão.
Eu, Luiz Domingues em mais dois flagrantes do show. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque
E
para encerrar a minha participação no espetáculo, tocamos juntos a
música "Forçando a Barra", uma peça que eu não havia tocado no primeiro
show.
Música muito energética e ao mesmo tempo com um sentido mais setentista em sua essência, foi um prazer tocá-la.
Pepe
Bueno a preparar o seu pedestal de microfone na primeira foto e na
segunda, Ricardo Schevano a tocar enquanto Heloisa Gangora, a viúva de
Nelson Brito e Pepe Bueno estão a observar ao lado e eu (Luiz
Domingues), mais ao fundo. Fabio Cezzar está no canto direito do
enquadramento, por detalhes. Golpe
de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de
2024. Foto 1: Click, acervo e cortesia: Marinho Rocker e na foto 2,
click, acervo e cortesia de Billy Albuquerque
Encerrada a minha participação, Pepe Bueno entrou em cena para defender quatro músicas que a ele foram designadas para tocar.Acompanhei
a sua participação e a seguir, foi a vez de Ricardo Schevano subir ao
palco para encerrar o show. Que momento bonito na minha ótica foi ver os
dois a atuar, sendo que ambos, foram meus alunos nos anos noventa.
Lembrei-me deles naqueles anos, quando estavam bem novos sob o ponto de
vista cronológico, e com muita vontade de se tornarem músicos
profissionais e agora eu ali a vê-los a brilhar muito, com carreiras
solidificadas em plena maturidade de suas vidas, foi também emocionante
nesse aspecto.
Na
última música, "Noite de Balada", todos os baixistas convidados foram
chamados a estar no palco novamente e a viúva de Nelson Brito, Heloisa Gangora, também ali compareceu e foi emocionante criar essa energia tão positiva
para encerrar o espetáculo em altíssimo astral.
Heloisa Gangora, Pepe Bueno, eu (Luiz Domingues), João Luiz e Daniel Kid nos momentos finais do show. Golpe de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de 2024. Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque
Missão
cumprida, saí do Sesc Paulista com a sensação boa de que prestei o meu
tributo pessoal ao amigo que nos deixara três meses antes, com muito
respeito e força à sua esposa e a honrar a banda que ele tanto amou na
sua vida, além de dar um alento aos seus fãs que estavam a sofrer com a
perda do baixista fundador da banda.
Na primeira foto, eu, Luiz Domingues, no camarim. Na segunda, as imagens de Nelson Brito no telão ao fundo do palco. Golpe
de Estado + convidados. Sesc Paulista de São Paulo. 18 de outubro de
2024. Foto 1: Click, acervo e cortesia: Billy Albuquerque. Foto 2: Click, acervo e cortesia: Ana Cristina Domingues
Obrigado
pela amizade, Nelson Brito! Você agora está na companhia de Hélcio
Aguirra, John Entwistle, Brian Jones, John Lennon, Keith Moon, George
Harrison, Jimi Hendrix e tantos outros. Não demorará muito para eu me
juntar a esse seleto rol de Rockers. A música é eterna, você está
eternizado na sua música!
1)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Cobra Criada" - Sesc
Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina
Domingues
Eis o link para assistir no YouTube https://youtu.be/pcF7kUoMnoI
2)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Não é hora" - Sesc
Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina
Domingues
Eis o link para assistir no YouTube: https://youtu.be/pd6hF5EHH-I
3)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Não é hora" - Sesc
Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Ana Cristina
Domingues
Eis o link para assistir no YouTube: https://youtu.be/eFXlxtQpyTs
4)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Não é hora" - Sesc
Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Michel
Camporeze Teér
Eis o link para assistir no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=-InKEDdlrT0
5)
Golpe de Estado convida Luiz Domingues - "Caso sério" - Sesc
Paulista-SP - 18 de outubro de 2024. Filmagem e cortesia: Michel
Camporeze Teér
Eis o link para assistir no YouTube: https://youtu.be/pwixqERP92c