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sábado, 11 de junho de 2016

1965 - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - 1965: Ao Partir para a Segunda Infância e a Aproveitar a Vibração dos Anos Sessenta - Por Luiz Domingues

Com a metade de década de sessenta consolidada e concomitante ao fato de que eu também estava a alcançar o final da primeira infância e certamente a ganhar cada dia mais consciência do mundo e de seus signos socioculturais inerentes, foi o momento mágico de estar vivo no instante em que o vulcão psicodélico entrou em seu momento de clímax, a iniciar a grande erupção da década. 

Ao analisar friamente, se dependesse de escolha, o ideal para o meu caso teria sido nascer ao final dos anos quarenta ou mais tardar na primeira metade da década de cinquenta, ou seja, para ter sido criança nos anos cinquenta e adolescente nos sessenta e assim me possibilitar a chance de receber a carga sessentista revolucionária direto no peito, em condições plenas de absorvê-la, sob uma forma intensa e consciente. Mas eu não estou a reclamar. Trata-se de uma constatação apenas.

Eis a minha persona em 1965: o pequeno Luiz Domingues em 1965, aos cinco anos de idade... acervo familiar

Estar com cinco anos de idade em 1965 foi um privilégio, no sentido mais pueril, porém sincero, por simplesmente estar ali, vivo e a receber aquela carga cultural incrível, ainda que não diretamente e em condições de entendê-la integralmente, absorvê-la e a interagir com ela de uma forma imediata.  

Mesmo ainda pequeno, absolutamente infantil e alheio ao ambiente cultural que borbulhava, os respingos do que acontecia na sociedade, já chegavam até os meus sentidos. Fora algo inexorável. 

Uma constatação sutil, mas que eu já percebia ainda que sem atribuir nenhum juízo de valor, pelo âmbito cultural ou tampouco com conotação sociocultural, naturalmente, se deu pela observação de revistas, principalmente, pois levemos em conta que a transmissão da televisão na época era inteiramente em preto e branco. E nesse sentido, quero enfatizar a importância da enorme profusão de cores para a cultura Hippie que se forjava.

Através de revistas de atualidades como "O Cruzeiro", "Manchete" e até na "Intervalo", que era uma revista que cobria os bastidores da TV, e do rádio, dava para notar que o colorido generalizado proposto pela lisergia contracultural que estava a chegar, portanto a quebrar a sobriedade das vestimentas tradicionais das pessoas, em sua imensa maioria.  

Os primeiros sinais da explosão do movimento Hippie já se mostravam, embora ainda fossem informações não muito concretas sobre o que ocorria e sem que os analistas sociais e culturais pudessem cravar que um "movimento" estivesse a chegar, propriamente dito.

Bob Dylan & Joan Baez, cada vez mais influentes no ambiente sessentista de meio de década

Foram ainda ecos do movimento Beat Generation, ao misturar ideias progressistas em torno do conceito da igualdade, infiltrações de lideranças estudantis e artistas avantgarde, tudo sob um mesmo caldeirão e sem definir corretamente o que toda aquela ebulição desencadearia, mesmo por que, tudo foi puro experimento.  

Mas na minha inocente percepção infantil da época, eu olhava os signos secundários de tais ideias, expressas em atitudes artísticas e comportamentais e simpatizava com tudo, mesmo sem consciência do que representavam exatamente, dada a minha tenra idade.

George Harrison já apontava para o oriente em 1965. "Se oriente rapaz", como disse o Gilberto Gil

O massacre perpetrado pelas opiniões contrárias, vindas da parte de adultos conservadores e atônitos com as novidades, fora imenso. E tendo em vista que minha área de contato social ainda era muito restrita, estou a falar sobre familiares, parentes, amigos dos adultos e vizinhos, ou seja, o núcleo do "meu mundo" social se mostrava ainda bem diminuto. 

Logo de início, o repúdio total aos cabelos longos que os novos Rockers usavam e que haviam chamado a atenção da sociedade em geral e de uma forma bem negativa, foi uma constante em meu meio social. 

Da parte de todos, incluso as mulheres que me cercavam por grau de parentesco ou não, as opiniões em desagrado foram intensas, ao irem dos comentários exaltados em forma de repúdio, ao escárnio. Claro, naquele imaginário arraigado que já remontava ao padrão institucionalizado desde o início do século XIX, cabelo longo ou curto, delimitava a diferença de gêneros dentro desse paradigma equivocado.

Ninguém parava para pensar que humanos do sexo masculino a usarem cabelos longos, foram considerados "normais" na sociedade durante a maioria dos séculos, ao longo da história, mas que por força da revolução industrial, ao final do século XVIII, a questão da praticidade do cabelo aparado, em contar com operários a trabalharem por horas a fio em maquinários pesados, tornava assim menor a possibilidade de acidentes por conta de cabelos presos em máquinas e foi o que pesou para se criar um novo paradigma, daí em diante, ao dar conta de que ter cabelo longo ou curto, teria a ver com sexualidade e/ou demarcação de gêneros.

A questão dos cabelos longos apresentados pelos Beatles, chamou demais a atenção na mídia e opinião pública

Tão anti-paradigmática que se tornou tal ousadia da parte desses novos Rockers, que há registros de até apedrejamentos pelas ruas, durante os anos sessenta, quando os primeiros "cabeludos" tiveram coragem de saírem às ruas com o comprimento do cabelo sobre as orelhas, um padrão de tamanho muito acima do aceitável pelos padrões militarizados praticados pelos homens de então e certamente que tais jovens corajosos foram influenciados pelos Beatles e seus pares.  

Há registro também de escolas que suspenderam alunos das aulas, ao emitirem recados explícitos aos seus pais, para obrigar seus filhos a visitar um salão de barbearia, caso contrário, tais alunos seriam expulsos da instituição, sob alegação de quebra de decoro, preservação dos "bons costumes" e todo o tipo de argumentação inerente (e descabida, certamente), etc. 

Claro que mediante tal tendência com esse massacre todo advindo da parte dos adultos conservadores, a criticar e estigmatizar os cabeludos como possíveis homossexuais, por estes adotarem supostamente uma marca registrada do gênero feminino, seria a de eu passar a detestar tal costume, ao repudiá-lo sem contra argumentação e não vou negar e edulcorar a minha autobiografia ao dizer que aos cinco anos de idade eu comprei a ideia da revolução sociocomportamental dos artistas e simpatizantes desse novo modismo. 

Claro que eu acreditava piamente nas opiniões dos que me cercavam e assim, eu não reclamava em ir ao barbeiro todo sábado para manter um corte de cabelo, com comprimento ínfimo, conhecido entre os barbeiros pelo jargão: "americano curto", totalmente militarizado. 

Mas ao mesmo tempo, eu não conseguia ter antipatia pelos cabeludos e a cada dia, gostava mais dos Beatles e de artistas congêneres, quase todos a adotarem o mesmo visual, com cabelos escandalosamente longos para os padrões das pessoas tradicionais, mas que vistos hoje em dia, são na verdade, cabeleiras bem discretas, nada mais que isso...

Outro signo que já mencionei, mas vou reforçar, foi a constatação de que as vestimentas e tudo o que envolveu propagandas que eu via nas páginas das revistas, começaram a ficar muito coloridas. 

Um mundo sóbrio, com cores preto, branco e cinza, estava a ficar para trás, sutilmente e uma explosão de cores parecia estar a invadir uma porção maior do espectro cultural e social, para deixar de lado o nicho essencialmente infantil, onde até então, as cores eram melhor aceitas, como signo adequado, digamos assim. 

Dava para notar isso nas revistas, como já disse, mas ao analisar a posteriori, o processo já ganhava outros veículos, notadamente o cinema e em breve a TV, embora a transmissão em cores ainda demorasse para chegar no Brasil, só a ocorrer oficialmente em 1972. 

Entretanto, nos Estados Unidos os testes já estavam avançados e a partir de 1966, se tornou oficial, enfim. Em uma prova de que a explosão do Flower-Power no pós-1966, teve guarida em um ambiente supostamente avesso a tais ideias, como o das produções de TV, pesou o fato de que assim que o veículo passou a adotar tal recurso, os seus produtores se esforçaram ao máximo para usar toda a potencialidade da novidade tecnológica em si, e aí, por uma feliz coincidência, ao perceber a movimentação contracultural nas ruas, a produção televisiva incorporou muito das suas ideias, para ajudar a quebrar resistências ("pero no mucho", eu sei), e adotar assim, a profusão das cores como padrão em produções em geral, a serem veiculadas.

Para falar especificamente de 1965, ainda não foi o momento exato da explosão disso tudo o que estou a comentar, mas foram sinais que se mostraram claros a respeito de sua chegada mais incisiva para muito em breve, e eu já estava ali nesse começo de ventania, que precipitaria o furacão sessentista acentuado.

E no que me dizia respeito particularmente, tudo o que já comentei sobre carga cultural recebida com progressiva consciência se acentuara, certamente, com o meu desenvolvimento natural e o apreço adquirido, cada vez mais forte, por tudo o que já gostava e o que viria a descobrir nesse ano, ao potencializar a minha proximidade com diversas formas de arte e aspectos culturais.

O cinema estava cada vez mais importante na minha vida. Sou um afortunado, pois a grade de filmes exibidos na televisão dessa época, foi massiva e com uma profusão de películas de qualidade, muito grande. O grande grosso dos filmes exibidos, foram provenientes do cinema oriundo de Hollywood, mas ao se levar em consideração o fato de que se tratara de um lote de filmes oriundos das décadas de vinte, trinta, quarenta e cinquenta, principalmente, mesmo as obras mais comerciais, apresentavam qualidade. 

Nesses termos, até obras de orçamento classe "B", eram boas, sob o ponto de vista cultural e artístico em linhas gerais e assim, passavam na TV, sem parcimônia, ao estarem ali disponíveis para quem quisesse absorvê-las e foi o meu caso, apesar da pouca idade. 

Já falei em capítulos anteriores sobre essa influência e citei alguns diretores que eu gostava, mesmo sem saber detalhadamente nada mais sofisticado sobre os seus respectivos currículos, filmografia e nem sonhar ainda em entender a sua estética, meandros culturais etc. Mas o importante foi que essa carga primordial fomentou o apreço que reputo ter sido gigantesco nessa fase e inexorável, portanto.

               O grande, Fred Zinnemann: é matar ou morrer!

Bem, nesse contexto, admirar diretores como King Vidor, Leo McCarey, Fred Zinnemenan, George Stevens, Vincente Minnelli (o pai da atriz/cantora, Liza Minnelli), Cecil B.de Mille, George Cukor, e tantos outros, incluso os que já citei em capítulos anteriores, só se reforçara substancialmente.

Na música, concomitante aos ecos das mudanças vindas do exterior, via bandas de Rock e com a obviedade dos Beatles por formar a sua comissão de frente, havia uma briga subliminar que eu não entendia, é claro, mas já sentia, nos bastidores. 

Uma ala, formada por artistas mais veteranos e que se apresentavam sempre trajados como se fossem participar de um baile de debutantes (além do seu gestual padrão cheio de formalidades e impostação vocal exagerada, com notas esticadas em demasia, invariavelmente), estavam em desgraça nessa época, sendo minados ou por artistas jovens e "americanizados" que vinham a abrir espaço na mídia, por seguirem os passos da evidente explosão da Beatlemania, ou por artistas de uma nova vertente na MPB.

Não foi tão novidade assim, mas a turma que veio no bojo da Bossa Nova ao final dos anos cinquenta, continha a proposta artística diametralmente oposta aos veteranos, ao atuarem com música e atitudes minimalistas, baseadas na contenção total de exageros vocais e opção pelo quase sussurro, letras a beirar o blasé e gestual e visual ultra comedidos em suas respectivas performances ao vivo. 

Arvoraram-se de deter base intelectual e cultural avantajadas, e queriam, veladamente, destruir (no bom sentido do termo), a velha MPB que já se alongava no panorama artístico midiático, há décadas. 

É claro que eu também não sabia nada sobre tais questões com cinco anos de idade, mas o fato é que estive ali no meio desse bombardeio entre os três grupamentos citados acima, onde se criou uma animosidade que possuía um viés político forte por trás, muito além da guerra entre estéticas, simplesmente.

Com a ditadura militar em pleno curso e mesmo que ainda não fosse totalmente de chumbo nesse período, artistas ligados na Bossa Nova e similares, dentro do espectro da música dita, "Folk" (ao generalizar tal alcunha ao cubo), logicamente que muitos deles se mostravam simpáticos aos ideais igualitários (claro, houveram exceções, não se pode levar tal análise à generalização total e ser tomada portanto como via de regra), enquanto os Rockers em geral eram considerados alienados e usados pelo sistema, a velha guarda se portava comprometida com a camada conservadora da sociedade, mais por osmose alienada, do que convicção.

No subliminar, isso na verdade foi o que mais contou naquele instante, e quando os festivais de MPB começaram a fazer sucesso nas emissoras de TV, com os da TV Record, em proeminência total, tal briga ideológica a usar a música como ferramenta (ou arma, melhor a dizer), ficou mais clara.  

Na minha inocência à época, eu achava que fosse uma guerra só pelo aspecto da estética, pelo fato de serem jovens a aspirarem se impor diante dos velhos e eu não apreciava essa luta, vista por esse aspecto, pois desde a tenra idade, abominava a ideia em se desprezar o passado, os valores antigos, ícones e tudo mais, mesmo que não nutrisse nada contra os jovens e as novidades, e pelo contrário, a simpatizar muito com os cabeludos e suas guitarras estridentes, igualmente. 

Atribuo tal tipo de sentimento pela influência absurda que os filmes antigos exerceram sobre a minha consciência e diante da simpatia por épocas e costumes passados em total convivência pacífica com o presente e o futuro, sem conflito algum.  

Tal traço de minha personalidade revelar-se-ia indelével. Ao contrário de noventa e "tantos" por cento do povo brasileiro que mantém ojeriza ao passado (não frequentar museus é traço sintomático e lastimável de nosso povo, por exemplo), eu já tinha essa incompreensão pelo fato das pessoas em geral desprezarem o passado, como se ele não tivesse nenhum valor. 

O caráter efêmero com o qual a maioria enxergava a construção cultural da civilização sempre me incomodou e eu atribuo em grande parte, pela construção sistemática desse sentimento, por conta do fascínio que os filmes me causaram, ao me impelir a gostar de história de uma forma geral, porém mais que isso, para nutrir respeito e admiração por quem viveu antes e trabalhou para que tivéssemos uma civilização construída, da qual usufruímos no presente.

Ainda ao não exercer a minha verve esmeraldina com consciência em 1965, mas o meu time trabalhou bem nesse ano: Campeão do Torneio Rio-SP 1965 (primeira foto), e a representar o Brasil na inauguração do estádio Mineirão, em Belo Horizonte: Palmeiras/Brasil 3 x 0 Uruguai.

Fora desses aspectos de ordem "macro", na vida pessoal uma mudança ocorrer-me-ia, aliás de forma literal, pois a minha família se mudou da residência da Rua Redenção, no bairro do Belenzinho, para quebrar um paradigma e tanto para um menino que ali chegara com apenas três meses de vida, e portanto não conhecera outro universo nos seus primeiros cinco anos de existência. 

Bem, lá pelo final de 1965, nos mudamos para um sobrado no Tatuapé, bairro vizinho, muito perto do Viaduto Azevedo e da Biblioteca Municipal Cassiano Ricardo, esta na altura do nº 4000 da Avenida Celso Garcia. 

O Viaduto estava em fase de acabamento final, ainda não inaugurado e apesar de ser sempre um menino tímido, com dificuldade para me socializar, ali nos poucos meses em que habitamos aquele sobrado, eu brinquei com a criançada da rua e redondezas, com o viaduto inteiramente livre para nós, como se fosse um parque de diversões comunitário.

A Biblioteca Municipal Cassiano Ricardo, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, inaugurada em 1952, mas que eu só conheci ao final de 1965, quando me mudei para um sobrado a um quarteirão dali.

A minha lembrança (já nessa nova habitação), é a do rádio da cozinha a tocar Beatles e Roberto Carlos, a todo vapor. 
Na TV, o programa Jovem Guarda começou a ser exibido em agosto desse ano e aos domingos, era assistido por todos, pois se por um lado os adultos detestavam cabeludos & guitarras, por outro, havia a docilidade quase popularesca de seu cancioneiro com forte apelo suburbano e mesmo ao desagradar os conservadores, em relação ao visual dos artistas que ali começaram a se apresentar, eles assistiam. No princípio, não me empolguei de uma forma arrebatadora, mas também assistia por osmose, é claro

Nessa mesma época eu gostava também dos filmes realizados com marionetes, que se tornaram uma febre e geralmente tais produções vinham da Inglaterra. Os prediletos foram: Thunderbirds e Stingray, logicamente. 

Visto sob o olhar da atualidade, ao pensar em tecnologia como a concebemos nos dias atuais, a técnica desses seriados era muito tosca. Mas eles são tão absurdamente adoráveis, que pouco me importa se dá para ver a imperfeição de sua realização, com fios de nylon visíveis nas maquetes e nos bonecos...

Eis acima a abertura oficial, dublada em português, com a magnífica trilha sonora de abertura de Jonny Quest, um desenho magnífico!
 
Outra atração que eu apreciava muito e que se tornou paixão eterna, fora um desenho animado da companhia Hanna Barbera, com traços mais realistas do que a sua produção normal. Tratou-se de "Jonny Quest", um desenho animado totalmente focado nas temáticas da aventura e Sci-Fi, certamente concebido para "meninos grandes", pré-adolescentes como se diz hoje em dia. 

Adoro essa animação, sem reservas, dos personagens aos roteiros, da música tema espetacular (que beleza é esse tema com quase dois minutos, uma eternidade para um tema de abertura, com aquele jazz incrível a passear por várias mudanças estilísticas, no padrão de uma suíte, a evocar música asiática, africana, caribenha e certamente a sugerir os múltiplos cenários por onde os personagens interagiam). 

Foi um desenho feito para meninos na faixa dos dez anos de idade acompanhar, mas no meu caso, aos cinco, fui capturado para sempre.

Lembrança boa de 1965, dois seriados mais antigos, que eu descobrira ao assistir reprises que passavam no período vespertino : Ivanhoe e Os Três Mosqueteiros. 

"A Deusa de Joba" (Darkest Africa/King of Jungleland), produção da Republic Pictures, de 1936, para ser exibida nos cinemas da época. Na TV dos anos sessenta passava como seriado normal, misturado às produções feitas específicas para tal veículo, e no Brasil, também ficou conhecida como : "O Homem de Java". Recomendo o canal de YouTube "TV a Lenha e Os Viajantes do Tempo" de onde copiei o link, pois ele contém muitas raridades incríveis.

E por falar em produção antiga, seriados feitos para o cinema nos anos trinta e quarenta, como "Rockteer", A Deusa de Joba (que aqui no Brasil ficou conhecido também como: "O Homem de Java"), Flash Gordon e outros, haviam sido readaptados para serem exibidos na TV e eu os adorava.
Na política, houve eleição para prefeito das capitais em 1965, a última antes da ditadura cortar esse direito do cidadão, para só voltar quando o regime de exceção se encerrou, vinte anos depois.

E com meu pai sempre envolvido em campanhas, comitês e afins, fui com ele em várias ações dessa campanha, a bordo de uma pickup Rural Willys que pertencia ao candidato que ele apoiou na ocasião, incluso em visitas à emissoras de rádio onde este candidato concedeu entrevistas. 

Claro, com cinco anos de idade, ao acompanhar o meu pai e um candidato a prefeito de São Paulo no mesmo carro para tais finalidades de campanha, no meu imaginário infantil, foi algo muito grandioso, ao fazer me sentir privilegiado por estar a vivenciar tal movimentação de perto. Foi uma candidatura, hoje eu sei, estratégica, com o risco calculado da derrota iminente, mas com claro objetivo estratégico para preparar o terreno para futuras candidaturas a visar um degrau a mais na vida parlamentar. 

Vereador que já o era a exercer um mandato, ele planejou com tal oportunidade, a possibilidade de usar uma alavanca para se eleger deputado estadual em eleições futuras e foi o que ocorreu, quando emendou cinco ou seis mandatos consecutivos, a se solidificar no parlamento estadual. 

Uma curiosidade engraçada dessa campanha, de tal candidato, que foi uma figura muito conhecida no bairro do Belenzinho (ali fora seu reduto eleitoral natural), foi que o jingle de sua campanha se revelou uma paródia de uma música Pop francesa (na verdade, a sua intérprete era belga de nascimento), que havia se tornado um mega sucesso mundial no ano de 1963, chamado: "Dominique".

Cantada por uma freira, se tratara de uma canção Folk, muito alegre e com ares infantis que encantou as pessoas, mas também foi alvo de pilhérias múltiplas, pelo fato de ser pueril e cantada por uma freirinha, considerada "prafrentex", para usar uma gíria da época.

Tal cantora se chamava: Jeanine Deckers, que realmente fora freira, mas largara o hábito, quando assumiu a sua homossexualidade e algum tempo depois se suicidou por ter entrado em depressão em um momento de derrocada pessoal, infelizmente. 

Existe um filme longa-metragem chamado, "Souer Sourire" (Irmã Sorriso"), produção de 2009, que conta a história dessa freira dominicana que se tornou um fenômeno Pop efêmero em 1963.

Tal candidato, teve uma votação pífia (17.886 votos), mas fora esperado e calculado pela sua equipe, como estratégia para outras candidaturas, como já afirmei. Tratou-se do vereador, Januário Mantelli Neto e o vencedor do pleito de 1965, foi José Vicente Faria Lima, que para muitos, figura entre os melhores prefeitos que São Paulo já teve, ao longo da história.

Notícias que eu prestava a atenção a comentar sobre a corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética, me deixavam muito interessado no assunto. 

Os filmes e seriados de Sci-Fi já haviam me contaminado com esse apreço pela conquista do espaço, descoberta e contato com civilizações interplanetárias etc. Isso foi mais um elemento tipicamente dos anos sessenta, ou seja, como adoro essa década!


Bem, é isso, 1965 chegara ao final e duas lembranças fortes desse final de ano são os  riffs de "Day Tripper" dos Beatles e "Satisfaction", dos Rolling Stones, a me impressionarem. Talvez tenham sido os primeiros estalos concretos que tive em relação ao Rock, de uma maneira mais incisiva. 

Eu não sabia o que era um "riff" em 1965 e demoraria bastante a vir a entender o que isso significava, musicalmente, mas ambos me chamaram a atenção e no melhor estilo, "Bubblegum", grudaram na minha imaginação. Foram laços a me fisgarem e eu nem havia percebido isso na época, é claro!

Continua...

quinta-feira, 9 de junho de 2016

1964 - Minha LIgação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - 1964: O Rock a Martelar, como Rita Pavone Tanto Falou! - Por Luiz Domingues

Em 1964, a minha consciência se expandia e assim, a noção de mundo já existia. Eu estava mais consciente sobre as diferenças culturais, existência de línguas e costumes diferentes entre os povos ao longo do planeta e isso foi bastante interessante na minha ótica. Concomitante a todos os estímulos culturais que já vinha a apreciar, história e geografia se tornaram matérias queridas, cada vez mais.

Eu, Luiz Domingues, em 1964, no quintal da minha residência e perto de um dos muitos carros da marca Volkswagen que o meu pai teve naquela década.

Mais que isso, aos quatro anos de idade eu já conseguia guardar informações com muito maior precisão, a expandir de uma maneira muito rápida o meu horizonte cultural.  

Além disso tudo, a minha percepção sensorial também já se mostrava outra, ao ter noção in loco da dimensão da cidade, graças às saídas mais constantes de casa em atividades familiares, ao passear no carro e conhecer assim, outros bairros e o centro da cidade. 

Observador, gostava de prestar atenção nos caminhos que o meu pai escolhia fazer na condução do automóvel, ao ponto de decorá-los, assim como o nome de ruas e avenidas. Tal poder de observação me propiciou a condição de decorar o traçado básico da cidade de São Paulo, ao formar assim, a base primordial para que eu me locomovesse nela a partir da adolescência, com segurança.

Claro, a cidade já era mega gigantesca e não parava de se expandir, principalmente nessa época, com um ritmo frenético de crescimento. Não conheço ninguém, nem mesmo motoristas de táxi super experientes que possam afirmar que a conheçam inteiramente, visto que a periferia, pelos quatro cantos é enorme, fora o fato de que existem 39 cidades vizinhas e acopladas literalmente em São Paulo e umas às outras, ao formar uma mancha urbana entre as maiores do planeta (conforme se vê na ilustração do mapa da Grande São Paulo, acima, com a cidade de São Paulo pintada de cor laranja).

Avenida São João, próximo ao cruzamento com a Praça do Correio, no centro de São Paulo, nos anos sessenta.

Portanto, posso dizer que conheço o básico, a contar do centro às quatro zonas primordiais da cidade e atribuo tal conhecimento ao prazer que eu tinha de prestar atenção nos caminhos que o meu pai escolhia percorrer e o mesmo em relação a andar no carro de meu padrinho e outros tios, ocasionalmente.  

Por falar em carro, não posso afirmar que eu seja um apaixonado pelos automóveis, como quase todo brasileiro, mas tenho sim um carinho pelos carros de época, muito mais pela associação afetiva à época do que pelos automóveis em si.

Meu pai teve muitos "fuscas" da Volkswagen na década de sessenta, mas também me lembro de ver outros carros na garagem de casa. Por ali passou um DKW, que o meu pai não gostou e passou para frente, rapidamente. Caso também de um Gordini, menos barulhento e com um design que eu gostava mais, porém era extremamente limitado pela falta de força do motor e tal comentário é fruto do que eu ouvia do meu pai, ao falar na época. Nunca dirigi um Gordini, mas acredito que fosse fraquinho, mesmo.
Não era esse exatamente o Simca do meu pai, mas essa foto ilustrativa que achei na internet retrata do que falo

O carro mais bonito que o meu pai teve nesses primeiros anos de minha vida, foi sem dúvida um Simca, que era branco e tinha detalhes em azul. Gostava muito de vê-lo a trocar as marchas na antiga manopla acoplada ao volante, que remetia aos carros antigos e que eu simpatizava por vê-los nos filmes trintistas e quarentistas principalmente, que passavam em profusão na grade da TV da época.

Citroen 1948, apelidado como: "Prefet" por muitos, mas de maneira informal. Não tenho certeza se foi exatamente esse o modelo e ano do carro que meu pai teve, mas é bem parecido.
 
Mais para frente, outros carros meu pai teria, mas dificilmente a sair do espectro da Volkswagen/Willys que ele gostava mais. Teria por exemplo, um Citroen, em 1966, um carro francês que eu acredito que devia ser da década de quarenta e que eu gostava muito, porque me fazia recordar dos filmes ambientados na segunda guerra mundial. 

Infelizmente, esse em específico estava bem avariado e deu muita dor de cabeça para o meu pai, que nunca conseguiu conter os seus constantes vazamentos de óleo, sempre à beira de fundir o motor.

Eis um exemplo de Romiseta, um carro com três rodas e claustrofóbico por natureza. Era ótimo para ser estacionado em qualquer vaga, mas assustador para enfrentar o tráfego pesado...
 
Ainda a falar sobre carros, eu tive uma aventura claustrofóbica e assustadora nesse ano de 1964. Passeava com meu pai no centro da cidade, em um dia de semana, a estabelecer aquelas típicas visitas que ele me levava a realizar em seu ambiente de trabalho, quando fortuitamente ele encontrou um conhecido seu que havia acabado de comprar uma Romiseta, um carro com porte de moto, fechado sob uma cúpula minúscula e oval, com design futurista, eu diria, ao lembrar as naves espaciais usadas pela família "Jetson", dos desenhos animados. 

Claro, o rapaz, proprietário do veículo, propôs um passeio em sua nova aquisição e o meu pai aceitou na hora. Eu também gostei, porque achei o carro incrível pelo seu visual. Mas quando começamos a circular e dentro daquele espaço minúsculo, eu via a aproximação dos carros normais e sobretudo dos ônibus e caminhões (e bondes) e fiquei apavorado, diante da fragilidade total do carrinho. Era na verdade uma moto com uma casca de ovo, como carenagem, digamos assim.

Bonde a circular no centro da cidade de São Paulo, nos anos 1960.

Ainda a falar em transportes, eu já usava bastante o serviço público, logicamente acompanhado de meus pais ou parentes próximos. Passear com a vovó paterna em dias úteis após o almoço se tornou um prazer, para acompanhá-la em suas tarefas, a fazer compras etc. Sou um privilegiado, ainda pude usar o serviço dos bondes, que estava na reta final de sua existência na cidade, infelizmente.

Eu já conseguia perceber a tensão política e quando estourou o golpe, em março de 1964, ouvia as opiniões dos adultos, pró e contra, em discussões acaloradas, mas não sentia que houvesse o medo nos semblantes deles, fator que acentuar-se-ia a partir de 1968, em diante. 

Na área cultural, tudo o que já observei nos capítulos anteriores, se acentuou e mesmo sendo criança pequena, deu para perceber nitidamente que a aceleração da efervescência sessentista se mostrara enorme. Aquele clima de euforia foi tão perceptível, mesmo para uma criança ingênua e alheia que eu era, distante do epicentro do furacão, mas que mesmo assim, me contagiava.

Bem, ao descrever os aspectos culturais, toda a carga que já citei em capítulos anteriores prosseguiu e se ampliou. Os noticiários da TV e do rádio ficavam cada dia mais compreensíveis à minha percepção. Gostava de ouvir o noticiário e sempre a considerar tudo importante, pelo tom solene com o qual os jornalistas se pronunciavam.

"The Fugitive"/"O Fugitivo" e o capítulo final que parou o Brasil, quando finalmente o injustiçado Dr. Kimble (interpretado por David Janssen) encontrou o verdadeiro assassino, o famigerado "homem de um braço só"

Em 1964, um seriado me chamou muito a atenção. "O Fugitivo" mostrava a saga angustiante de um médico acusado injustamente por ter assassinado a própria esposa e durante quatro temporadas, fora paralisante ver o rapaz a procurar pelo verdadeiro criminoso e ao mesmo tempo sendo perseguido, foragido da justiça que o era. 

Achava insuportável a injustiça pela qual o personagem estava a ser submetido e torcia pelo Dr. Kimble (interpretado pelo ator, David Janssen), lograr êxito e achar o famigerado: "homem de um braço só", meliante contratado pelo verdadeiro mentor do crime. Eu apenas, não... o seriado viralizou de tal forma no Brasil que provocou reação popular no mesmo nível semelhante das novelas.

                    A engraçada série, "The Munsters"/"Os Monstros"

Outras séries sensacionais antigas e modernas que eu descobria. O que dizer de "The Munsters" (não está escrito errado, foi um trocadilho proposital)? Lógico que me tornei fã daquela família mórbida, formada por arquétipos dos filmes de terror, clássicos. Adorava todos os personagens, mas o meu predileto era o "vovô", um vampiro velho, decadente e completamente maluco. 

Defendido pelo grande, Al Lewis, um ator sensacional e que se eu fosse novaiorquino, certamente teria votado nele para prefeito, quando este se candidatou anos depois: Al Lewis for Mayor!

Existia "A Família Adams" sob o mesmo mote de uma família mórbida e por ser mais antiga, pioneira na TV, mas apesar de gostar também, sempre preferi, "Os Monstros". 

Gostava também de Zorro, Hazel, Dennis the Menace, Mr.Ed, Sea Hunt (O Homem Submarino), Hitchcock Presents, Outer Limits ("Quinta Dimensão", bem no estilo de Twilight Zone), e muito outros seriados.
E mais desenhos animados: "Top Cat" ("Manda Chuva"), uma turma de gatos vagabundos que viviam em um beco, sempre às turras com o "Guarda Belo", foi muito querida, com aquela trilha sonora jazzística, sensacional e muito valorizada pela dublagem nacional a imprimir sotaques regionais brasileiros nos personagens. 

"Casper, the Friendly Ghost", ou Gasparzinho como o conheci, também entrou para o rol dos meus desenhos prediletos. A ideia de um fantasma tímido e que não gostava de assustar as pessoas, me soou simpática e claro que era sintomática a ideia de que tal identificação revelava a tendência natural em minha personalidade, em abominar o "Bullying", mesmo sem ter nem ideia do que isso significasse, tecnicamente a falar, todavia, eu achava positiva a atitude do fantasma dele não querer assustar as pessoas. 

Gostava muito de Auddie Doggie e Doggie Daddy (Bibo Pai e Bob Filho), The Huckleberry Hound Show (Don Pixote sempre a cantarolar a canção Folk: "Oh My Darling Clementine")... 

Animações antigas continuavam a serem exibidas em profusão. Produções musicais como eu já mencionei em capítulo anterior, desenhos da Disney e produções cinquentistas como da Looney Tunes (turma do Pernalonga) e Walter Lantz (Pica Pau).

As novelas brasileiras estavam a iniciar o caminho para tomar o gosto popular, portanto, já a começar a dar sinal que ocupariam o horário nobre das emissoras, em breve. 

Impressionava-me também um programa que tinha um tom misterioso, tenso e que na minha ingenuidade infantil, eu o considerava, sério. Chamava-se: "O Homem do Sapato Branco", conduzido por um homem que falava em tom sombrio, chamado: Jacinto Figueira Junior. 

Tratava-se na verdade de um precursor dos programas "mundo cão" que habitam a TV atual, hoje eu sei, por exibir casos a envolver brigas familiares, entre vizinhos ou outras contendas desse nível para que o referido apresentador fizesse as vezes de um juiz, ao mediar as queixas e supostamente encontrarem "soluções" para as rusgas. Quase sempre haviam exacerbações com as vias de fato sendo apartadas por funcionários da TV. 

A música de suspense que usavam como sonoplastia e a iluminação a buscar sombreamento na figura de Jacinto, fora o estratégico close no sapato branco que ele usava para justificar o título do programa, ajudava a aumentar o clima tenso. 

Não demorou muito para eu finalmente entender porque o meu pai ria tanto e ironizava o programa. Certa vez um rapaz, nitidamente embriagado e que mal conseguia explicar o seu caso em específico que justificara a sua presença ali, foi advertido duramente quando Jacinto lhe deu uma bronca: -"escuta aqui, rapaz, você vem a um programa de TV para resolver um problema seu e se apresenta assim, completamente embriagado, não tem vergonha?" A resposta do sujeito simplório veio de imediato: -"mas Doutor... foi o senhor que pagou as pingas para mim no boteco da esquina"... 

Ainda a falar sobre TV, eram comuns as gincanas, promovidas com apoio de emissoras de rádio em conjunto e sendo pioneiras, apesar das precariedades técnicas da época, tendo transmissões com links ao vivo, em vários pontos da cidade. Eram divertidas e inócuas ao mesmo tempo, pela profusão de tarefas tolas, é bem verdade, mas as pessoas gostavam desse clima de aventura bem prosaica.

Uma outra tradição da época foram as transmissões de desfiles de fanfarras de colégios pela TV. Aconteciam geralmente aos domingos pela manhã, direto do Parque do Ibirapuera ou do Vale do Anhangabaú. 
O herói nacional genuíno, Carlos e o seu ajudante para lá de simpático, um pastor alemão chamado, "Lobo", já estavam a encantar toda a garotada brasileira, através da série: "Vigilante Rodoviário" e claro que eu me incluía nesse séquito.

Na música, achava bem divertida a dança com os braços, proposta pela cantora, Elis Regina, que muita gente apelidou como "helicóptero", por lembrar o movimento das hélices de tal aeronave. 

Também apreciava muito o som irreverente de Jair Rodrigues com a sua música: "Deixa Isso pra Lá", quando o movimento que ele fazia com as suas mãos foi bastante imitado por todo mundo, incluso as crianças. 

Eis acima, um "frame" de uma edição do Programa "Show do Dia 7", com os apresentadores Blota Junior e Branca Ribeiro a interagirem com o elenco do programa humorístico, "A Família Trapo". 
 
Gostava demais do "Show do Dia 7", um programa que misturava música, humor & entrevistas, realizado em todo dia 7 de cada mês, com ar pomposo, na TV Record e que ocupava o canal 7 de São Paulo, daí a menção.
Nunca fui fã do universo circense, mas assisti muitas vezes o "Cirquinho do Arrelia" que era uma atração dominical, por que simpatizava com a figura do palhaço Arrelia em si, e de seu amigo, o também palhaço, Pimentinha. Achava-os simpáticos ao extremo e apesar de não apreciar essa tradição do humor infantil, gostava da atuação de ambos. Mesmo assim, um de seus mais famosos bordões, o do cumprimento, quando não conseguiam sincronizar o aperto de mãos, me irritava profundamente, porque era o tipo de piada que não eu apreciava pelo seu caráter imbecilizante, apesar de eu ter somente quatro anos de idade e convenhamos, nessa idade seria comum gostar disso.

O Rock explodia. A Beatlemania extrapolou as fronteiras do Reino Unido e invadiu a América do Norte. Não dava mais para ignorar a invasão de cabeludos britânicos e se a América estava invadida, o mundo sucumbiu automaticamente. 

Mais que isso, por se tornar febre, decretou uma moda, com adolescentes a correr para as garagens com as suas guitarras em mãos e assim preocupar os pais, por se recusarem a visitar o salão de barbearia, semanalmente. Lembro-me nitidamente de ouvir Beatles e Rolling Stones no rádio, além de diversos outros artistas da mesma vibração, que eu não identificava no momento, mas pude conhecer bem pouco tempo depois. 

 
Fui ao cinema com minha mãe e avó paterna, em uma tarde de um dia útil e assisti uma comédia maluca, norte-americana chamada: "It's a Mad Mad Mad World", que no Brasil recebeu o nome de: "Deu a Louca no Mundo". O fato de eu ser analfabeto na ocasião e não acompanhar as legendas em português, tampouco entender o idioma inglês, não atrapalhou em demasia a minha compreensão da película, dada a sua motivação em torno do pastelão literal e cuja história pouco importava...

Alguns ícones sessentistas entre as guloseimas, entraram forte na minha vida, tais como a bala Mentex, balas de goma, o maravilhoso drops Dulcora, Guaraná Antarctica, alardeado como "Champagne" pelo seu fator borbulhante, com a faixa adicional próxima ao gargalo da garrafa, Soda Limonada, Crush, Seven Up & Grapete...
Pedir para a mamãe comprar o achocolatado em pó, Toddy, ao invés de Nescau ou Ovomaltine, por que dentro da lata continham bonecos de indiozinhos de plástico e claro, a ambição seria formar uma tribo imensa de guerreiros Apaches, todos com cheiro de chocolate em pó, por mais que fossem lavados... e o bolo Pullman, para colecionar os talheres de plástico coloridos (que infelizmente eram frágeis ao extremo e quebravam rapidamente). Arroz, somente da marca Brejeiro, para poder colecionar o boneco em formato de grão de arroz, estilizado.
O famoso boneco do Arroz Brejeiro, também colecionável e icônico nos anos sessenta...

Os cobiçados por todas as crianças, bonecos dos gangsters e do detetive Bardhal

Outra promoção que envolvia brinquedos como bonificação para estimular o seu consumo, foi da parte dos lubrificantes para autos, da Bardhal. A famosa gangue de mafiosos que na propaganda trabalhava para fundir o motor do carro do papai, além do detetive Bardhal, seu herói, foram objeto de cobiça por toda a criançada, meninos em predominância quase total, afinal de contas era uma época onde a cultura era bem delimitada sobre os brinquedos e brincadeiras separados pelos gêneros. 

Eu não tive a coleção completa, mas quase, pois cada boneco só era obtido mediante consumo dos produtos e isso não era uma coisa a ser feita com grande rotatividade, a depender de cada troca de óleo do carro.  

Eu, Luiz Domingues, a viver um momento como Índio Apache, que eu tanto gostava de ver nos filmes e seriados, em foto de 1964. 

Apesar de ter muitos carrinhos, o que eu gostava mesmo era dos brinquedos que remetessem à história ou a conflitos bélicos, conquista espacial e velho oeste norte-americano, ou seja, a brutal carga cultural recebida pelos filmes e seriados que assistia
 

Forte Apache, um brinquedo que eu gostei muito, influenciados pelos filmes do estilo western, logicamente

Os indiozinhos que vinham gratuitamente dentro das latas do achocolatado Toddy, somados aos filmes e seriados que eu via na TV, só fomentaram o desejo de obter brinquedos dessa natureza e logo o "Forte Apache" chegaria na minha vida, e muitos outros brinquedos complementares ("Caravana", "Pioneiros", "Velho Oeste" etc), para eu montar um verdadeiro set de filmagem de um filme de Western, todo dia na sala de estar de casa. 

E nas histórias que eu inventava, a contrariar o roteiro dos filmes, os índios sempre ganhavam as batalhas e colocavam a Sétima Cavalaria do exército norte-americano para correr... hilário!

Fender, Gibson, Ludwig, Rickenbacker, Hammond... nada disso fazia sentido concreto em minha percepção pessoal nessa época, mas já estavam a entrar na cabeça, mesmo que eu não soubesse o que tais marcas representavam, exatamente...

Chegáramos na metade da década e foi quando os anos sessenta explodiriam para valer. Embora ainda muito pequeno e longe dessa realidade, lá estava eu a crescer e ficar mais próximo disso tudo. O Rock estava a martelar em minha cabeça, definitivamente, como Rita Pavone tanto falou em 1964! 

Datemi un martello, Rita Pavoni...

Continua...