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segunda-feira, 16 de novembro de 2020

Crônicas da Autobiografia - A História do Apelido Mal Compreendido - Por Luiz Domingues

Aconteceu em um momento da carreira entre 1976 e 1999, sob vários trabalhos realizados. Acervo: Luiz Domingues

Eis que por volta de 1974, eu estava inserido em uma informal roda de conversa formada por colegas da sétima série do primeiro grau, que eu cursava na ocasião, quando surgiu uma discussão sobre origens ascendentes, quando cada partícipe da reunião, discorreu sobre o seu caso em particular. 

Quando chegou a minha vez, eu esclareci aos demais que a minha era lusitana, com avós portugueses e de imediato, os colegas estigmatizaram-me como "português" e mais rapidamente ainda, corruptelas com intenções satíricas surgiram aos montes, tais como: "Portuga", "Tuga", "Tigues", "Tigueis", "Tiges", "Tiga", entre outros, até que fixou-se como: "Tigueis", e grafado dessa forma, da mesma maneira com a qual é pronunciada.

Pelo lado emocional, não houve problema algum em ser apelidado por minha origem, e pelo contrário, tenho orgulho da minha condição lusófana, da terra dos meus avós, suas tradições forjadas em Cantanhede, distrito de Coimbra, na província da Beira Litoral, caso do meu avô e de alguma remota aldeia medieval, pertencente ao distrito de Bragança, na província de Trás-os-Montes, de onde veio a vovó. Por conta de tais fatores, não enxerguei nenhum malefício em ser chamado pelo apelido.

O aspecto ruim, no entanto, logo sobressaiu-se, pois a verdadeira intenção de atribuir-me o apelido, foi uma forma para estigmatizar-me de uma maneira desonrosa, no sentido de que a intenção camuflada foi atribuir-me a pecha de um rapaz dotado de pouca inteligência, a seguir a brincadeira maldosa e paradigmática de que todo português seria uma pessoa a deter pouca ou nenhuma inteligência. Mais do que irritar-me por assim ser considerado pelos demais e ter que ouvir as suas piadas descabidas, irritava-me ouvir tais pilhérias injustas, ao lembrar-me de meus avós, vilipendiados gratuitamente por extensão. 

É óbvio que eu nunca achei graça de piadas maldosas, nesses termos, aliás, nem apenas sobre a suposta falta de inteligência dos portugueses, mas também sobre outras pechas igualmente injustas, e impostas à outras colônias tais como: a ingenuidade dos japoneses, a frieza dos alemães, a arrogância dos ingleses, a ganância dos norte-americanos, a cólera dos espanhóis, o caráter bonachão dos italianos, a mesquinharia dos judeus, o mercantilismo exacerbado dos povos árabes, o maquiavelismo dos ciganos, a falta de escrúpulos dos indígenas ou a indolência dos africanos etc. Ou seja, estigmas negativos tão somente, como se tais povos fossem marcados por tais características e pior ainda, como se isso fosse uma verdade absoluta e generalizada a dar conta que "todo" cidadão com tal origem em específico, fosse regido por tal atribuição de cunho negativo.

Bem, a pensar no aspecto positivo em ser reconhecido com tal apelido, a revelar a minha origem, e não apenas baseado na segunda intenção explícita da parte dos outros colegas que estudavam comigo na mesma sala de aulas, eis que eu deixei que o apelido ganhasse uma proeminência além da alcunha e assim, não incomodei-me em ser assim chamado, a predominar e sobrepujar o meu nome real. Sei que foi por ingenuidade de minha parte, mas o fato é que o apelido marcou de uma forma tamanha, que quando eu comecei a tocar, o apelido tornou-se o meu nome artístico, por osmose. 

Ainda nos tempos iniciais do "Boca do Céu", em 1976, a tratar-se da minha primeira banda, o apelido deu margem para a confusão, quando uma senhora ao saber do meu apelido, fez menção de que seria uma alusão a uma suposta homossexualidade de minha parte, visto eu ter aparência de Hippie, com o uso de cabelos longos, mas na compreensão dela, muito equivocada por sinal, a longa cabeleira veio a ser entendida como algo a evocar o aspecto feminino, somado ao apelido que ela interpretara como: "Tigresa", deu-lhe essa falsa impressão, e assim, ao cantarolar a melodia da canção homônima do Caetano Veloso, ironizou-me, naqueles dias de 1977.

Foto promocional d'A Chave do Sol, de 1984. Acervo: Luiz Domingues

Foi nos tempos do Língua de Trapo e d'A Chave do Sol que outros problemas advieram. Com a exposição midiática a atingir-me mais fortemente, eis que a questão da fonética e da grafia, se tornaram questões proeminentes. 

O apelido gerou um sem-número de confusões, ao ser escrito ou falado das mais diversas maneiras e a gerar estupefação, algumas vezes. Além das variantes que eu já citei, outras surgiram, tais como: "Tigu", "Tigez", "Tigis", ou seja, eu percebi que a intenção inicial em torno da origem lusitana estava completamente obscurecida e as pessoas tendiam a pensar ser tal denominação, algum nome ou sobrenome de origem estrangeira, mas de alguma raiz exótica, não latina.

O famoso baixista e luthier, Antonio Carlos Lopes, popularmente conhecido como "Tiguez". Acervo: Internet

Eis que um problema extra surgiu, quando eu tomei conhecimento que um outro baixista, muito bom por sinal e que tornara-se um luthier famoso no meio musical paulistano, também usava o mesmo apelido e eu passei, por conseguinte, a ser constantemente confundido com ele e vice-versa. 

Diversos músicos, alguns bem famosos do mainstream da música profissional, inclusive, passaram a abordar-me para falar sobre reparos em seus respectivos instrumentos, exatamente por confundir-me com esse colega a usar o mesmo apelido, mesmo que no caso dele, a grafia por ele mesmo sugerida para designá-lo, fosse outra. 

Eu optara em seguir a fonética ao grafar "Tigueis", literalmente como se pronunciava, inclusive a usar a letra "i", intermediária como uma elevação coloquial do fonema verbalizado e ele, grafou como "Tiguez", com o uso da letra "Z", talvez a demarcar a origem espanhola, mas não tenho essa confirmação, apenas deduzo. Nunca perguntei-lhe diretamente, pois o conheço e o considero um grande músico e Luthier.

China Lee, vocalista da pesada, do grupo, Salário Mínimo, um luso-descendente com muito orgulho. Acervo: Internet

Houve até uma situação inusitada, nos anos oitenta, quando um famoso vocalista de uma banda pesada daquele cena e descendente de portugueses, perguntou-me com entusiasmo se eu também o seria. Surpreendido, achei que fora uma tentativa de brincadeira da parte dele e desconversei, ao não confirmar a minha origem. 

Entretanto, não foi essa a intenção dele e muito pelo contrário, ele estava animado com tal perspectiva e queria regozijar-se comigo, por termos a mesma origem lusitana. Arrependi-me muito em não ter compreendido a situação e fugido da verdade, por um temor que nem caberia mais, em plena idade adulta. Sim, sou descendente, com muito orgulho!

A Chave do Sol em ação em um show realizado em 1985. Acervo: Baratos Afins

Já bem aborrecido pelas confusões geradas pelo apelido, eis que eu tentei reduzir a sua estranheza ao assinar como: "Luiz Tigueis" ou "Luiz "Tigueis" Antonio, mas tal tentativa de indução não surtiu um grande efeito e assim, os aborrecimentos prosseguiram.

Isso sem deixar de mencionar que até no cotidiano, a questão do apelido causou-me constrangimentos, pois ao telefone, foram muitas as ocorrências desagradáveis com interlocutores. -"ti...o que?"
A minha foto para o encarte do álbum: "Chronophagia", da Patrulha do Espaço, lançado em 2000, e a tratar-se do meu primeiro álbum a demarcar o meu nome verdadeiro e não o antigo apelido que eu usara anteriormente. Click de Moa Sitibaldi

Foi em 1999, que enfim, eu tomei a resolução em dar um basta à todas as confusões, mal-entendidos e assim, demarquei o fim do apelido. Adotei o nome duplo, típico de meio artístico, a usar o meu nome verdadeiro. Abreviado, como: "Luiz Domingues", ficou objetivo, portanto, dentro do padrão de um típico nome artístico, embora custasse a supressão do meu segundo nome, Antonio, que particularmente eu gosto bastante e que foi o nome do meu avô português, querido e saudoso. 

Por força das circunstâncias, "Antonio" tornou-se desde sempre uma denominação bastante intimista, usado por poucos familiares, que me chamam como: Luiz Antonio, daí a opção em privilegiar o "Luiz" e o sobrenome, "Domingues", embora eu reafirme, gosto de chamar-me "Antonio", pela sonoridade da palavra e origem, além da homenagem ao meu vovô e também por ser um nome internacional, usado em várias línguas, a constar, Antonio para o português, espanhol e italiano, Anthony para os ingleses e norte-americanos, Antoine, para os franceses e cuja origem mais remota seria o Anton, que antecedera o Antonius, no latim clássico do Império Romano. Enfim, tive que abrir mão de um nome que gosto bastante, por uma questão de praticidade.

Inacreditável, a minha decisão provocou reações não muito favoráveis da parte de algumas pessoas, por conta de motivações diferentes. Tal decisão, de minha parte, teve por exemplo, a reação contrária da parte do Rolando Castello Junior, com o qual eu estava a trabalhar na ocasião, com a Patrulha do Espaço. 

A sua argumentação em desacordo, no entanto, teve fundamento, pois ele alegou que o nome artístico anterior que eu usava, estava sedimentado e portanto, seria contraproducente eu eliminá-lo, apesar de ser um incômodo sob vários aspectos.

Mas houveram também reações sem fundamento algum. Com pessoas a reclamar pela mudança, a alegar que não reconhecer-me-iam mais com um "novo" nome e engraçado, eu apenas quis ser chamado pelo meu próprio nome verdadeiro. 

E houveram outras reações piores, com pessoas a afirmar que seria tal determinação de minha parte, algo a denotar um ato de "arrogância" de minha parte, o que causou-me espanto pelo fator inusitado e completamente fora de propósito como uma hipótese plausível, ou seja, fiquei até curioso para entender a razão pela qual tais pessoas chegaram em estabelecer tal linha de raciocínio tão absurda, mas enfim, eis que aconteceu a bizarra reação da parte de algumas delas.

Eu, Luiz Domingues, a atuar ao vivo em um estúdio de São Paulo (V8), com Os Kurandeiros, em 2020. Click de Fausto Lopes           

E assim, essa é a história do apelido que eu adquiri na adolescência, e pelo qual o adotei indevidamente como o meu nome artístico a gerar-me dissabores.

Cortei veementemente tal apelido em um ponto adiante da minha vida e carreira (tardiamente até, eu reconheço), e hoje em dia, penso que esteja plenamente erradicado, embora por conta do material fonográfico de trabalhos antigos e portfólio referente à tais ocorrências, tal velho apelido ficará marcado para sempre, como um pedaço da minha história na música, eu quero crer.

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Crônicas da Autobiografia - A Pirotecnia no Estúdio Fotográfico - Por Luiz Domingues

                    Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol, em 1985

Quando nós fomos preparar as fotos de cada componente da banda, para compor o lay-out da contracapa do EP homônimo que lançamos em 1985 (no imaginário dos fãs, esse álbum foi apelidado como: "Anjo Rebelde"), a certeza de que a minha foto em específico, já estaria previamente definida, descartou praticamente a necessidade de marcarmos uma sessão oficial para obtermos fotos posadas. 

A minha foto não detinha uma grande qualidade técnica, no entanto, mostrou-se como uma peça extremamente expressiva, no sentido de que fora capturada ao vivo, em um momento de alta performance de minha parte, durante um show que realizáramos no Circo Voador, do Rio de Janeiro, meses antes, em outubro de 1984.

Então, eu exerci a minha dita, "mão-de-ferro", nesse sentido e ao mesmo tempo, conclamei os companheiros a pesquisarmos por fotos igualmente significativas dos demais. E assim empreendemos uma busca nesse sentido, através do nosso acervo, no entanto, apesar de termos achado fotos bem estilosas dos outros três em ação ao vivo, por um motivo ou por outro, nenhuma ficou tão expressiva ao ponto de ser aprovada com entusiasmo, a conclamar a unanimidade e nesses termos, uma sessão foi marcada para que os companheiros, Rubens Gióia, Zé Luiz Dinola e Fran Alves, fossem clicados, na esperança de que nós conseguíssemos extrair de tal sessão, uma boa foto de cada um, a compor então o painel para fechar o lay-out da contracapa do nosso álbum. 

Entretanto, um fator absolutamente inusitado ocorreu para complicar sobremaneira tal missão, no sentido de que por conta da minha foto ter sido capturada ao vivo, as demais deveriam simular tal situação, para que houvesse um equilíbrio temático à proposta. E se não fosse dentro dessa prerrogativa, não haveria sentido em manter a minha foto com tal característica e as demais, posadas, pois nesse caso, a minha foto deveria ter sido cancelada e uma sessão normal com os quatro componentes, a ser realizada com a predisposição de compor fotos posadas e quiçá, da banda reunida no mesmo quadro, e não individualmente.

Enfim, por gostarmos da minha foto em específico e mantermos a ideia de fotos com a expressividade de uma performance ao vivo, resolvemos simular um ambiente de performance de palco para fotografar os companheiros a tocar e cantar. 

Para o Rubens e também para o Zé Luiz, pela força de buscarmos simular que eles tocavam os seus respectivos instrumentos, tal resultado foi até facilitado pela postura de ambos a portar-se em seus instrumentos com bastante fidedignidade, mas o Fran a simular cantar, para ele se soltar na sessão de fotos, foi um pouco mais difícil, mesmo com o nosso som a tocar alto no estúdio, mediante o uso de uma cópia em fita K7 do trabalho ainda inacabado, a apontar para a conclusão da mixagem final do nosso novo álbum. 

Então, eis que surgiu uma ideia inusitada, mas que, apesar de assustar o fotógrafo e certamente a gerar furor na vizinhança, surtiu lá o seu efeito. 

Resolvemos usar o recurso pirotécnico de provocar explosões, mediante o uso de caixas com pólvora estratégicas para tal função, como usávamos nos shows ao vivo e assim proporcionar ao Fran, uma certa eloquência visual mais próxima de uma situação real de show, mesmo por que, não havia iluminação de teatro no estúdio do rapaz, obviamente, mas apenas a iluminação normal de um estúdio fotográfico, ou seja, adequada para tal função, mas nós queríamos a simulação de um espetáculo no palco. 

Em suma, o rapaz foi solícito em aceitar a nossa planificação e mediante o uso de lentes e filtros, tentou burlar a luz branca e assim imitar o efeito de uma iluminação para um espetáculo musical, com diferentes tipos de spots e as suas respectivas "gelatinas" a condicionar o uso de diferentes cores. 

Bem, no caso do Fran Alves, é claro que houve uma tratativa prévia para que o rapaz aceitasse a ideia de se promover explosões dentro de seu estúdio e de fato, tal expediente seria e o foi, extremamente perigoso. 

Isso sem deixar de mencionar a repercussão inevitável a ser gerada na vizinhança, pois o resultado sonoro de um efeito pirotécnico, em nada divergia de uma explosão provocada pela intenção beligerante, portanto, além de convencer o dono do estúdio, teria sido prudente avisar a vizinhança, para tranquilizá-los, se é que isso fosse possível, visto que inevitavelmente a polícia seria acionada de pronto para gerar uma confusão difícil de explicar para o delegado, a posteriori. 

Tudo pela arte! Fran Alves a levar susto com as explosões pirotécnicas geradas dentro de um estúdio fotográfico, em 1985. 

E assim se procedeu, com a nossa produtora, Eliane "Lili" Daic a comandar o painel das explosões e o Fran a levar muitos sustos em meio à fumaça gerada. Ironia do destino, tais fotos dele em específico, não ficaram tão boas e assim, e nós voltamos a cogitar usar uma dele, genuinamente ao vivo, portanto, escolhemos a chapa em que ele está absorto em um momento dramático de sua performance, a sua marca registrada no palco, mas não individualmente como desejávamos. 

Eu mesmo, Luiz, faço parte do enquadramento, embora ele, Fran, tenha sido o destaque do fotógrafo (tudo bem, na minha foto da contracapa, o Zé Luiz Dinola aparece ao fundo, igualmente). 

E quanto aos demais, sim, foram escolhidas boas fotos de ambos, oriundas dessa sessão improvisada. E no encarte do disco, mais fotos foram utilizadas, desta feita sem grande especificação, ao escolhermos clicks ao vivo de diversos shows, fotos da gravação desse próprio disco e até sobras da sessão de fotos realizada em 1984, para compor o material do disco anterior, lançado no mesmo ano em questão.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Crônicas da Autobiografia - Se Mexa aí, Baixista - Por Luiz Domingues

                Aconteceu no tempo do Pitbulls on Crack, em 1995 

Não foi a primeira vez que tal tipo de ocorrência ocorreu-me em meio à atuação dentro de uma banda de Rock, pois no tempo d'A Chave do Sol, isso já houvera acontecido em 1986 (narrei com detalhes tal situação, no capítulo nº 13 da minha história com A Chave do Sol, contido em meu livro autobiográfico: "Quatro Décadas de Rock"), mas o fato reincidiu, muitos anos depois, quando eu estava a atuar com o Pitbulls on Crack e para ser específico, tal acontecimento aconteceu em 1995.

O baterista do Pitbulls on Crack, Juan Pastor, tendo ao fundo, Chris Skepis e Deca. Camarim da casa de shows Olympia, de São Paulo, em outubro de 1996. Foto: Marcelo Rossi 

Bem, o que ocorreu foi que o nosso baterista, Juan Pastor, era radialista e por conta das muitas conexões que detinha entre os seus contatos, ele recebeu o convite para encaixar a nossa banda em um teste de elenco, para eventualmente efetuar-se uma possível participação em um comercial de TV. 

Assim como ocorrera em 1986, eu detestei a ideia, a adotar os mesmos argumentos que eu usei em tal ocasião e de fato, naquela época eu recusei-me a participar e somente os três companheiros desse outro trabalho, foram fazer parte de tal peça publicitária. 

Para resumir ao leitor que não teve acesso ao meu texto autobiográfico, a minha justificativa para não participar de um comercial de TV, levou em conta que a nossa banda (no caso, ao referir-me sobre A Chave do Sol), não seria citada em nenhum momento da peça publicitária e nós somente participaríamos por conta de usarmos individualmente, o estilo de aparência "Rocker" e nesses termos, eu não desejei fazer parte, exatamente por não enxergar em tal atitude, algo positivo para fomentar a divulgação do nosso trabalho e muito pelo contrário, a expor-nos como anônimos, somente pelo fato de sermos "cabeludos".

No caso do Pitbulls on Crack, a situação seria igual, mas na prática, ganhou uma conotação diferente por duas questões, e uma delas, muito particular que essa específica banda continha. 

Primeiro, por ser uma banda pautada pelo bom humor em seu ambiente interno, quase o tempo todo, por conta da personalidade humorística dos outros três membros (no entanto, não em meu caso certamente), portanto, a galhofa pautara o ambiente interno da banda e se eu não tinha (tenho) tal característica por natureza, por outro lado, admirava o senso espirituoso de meus colegas e sim, ria muito das piadas que eles criavam instantaneamente aos borbotões, durante os cinco anos em que convivemos. 

E o segundo aspecto, foi que ao contrário do que fora ventilado (erroneamente), pelos meus colegas d'A Chave do Sol, em 1986, o pessoal do Pitbulls on Crack jamais cogitou que fazer parte do comercial seria uma alavanca promocional boa para a banda e pelo contrário, nenhum deles sequer esboçou considerar que seríamos "aprovados" pelos diretores do teste de elenco para a figuração e nesse caso, a única motivação seria uma taxa monetária oferecida como uma espécie de ajuda de custo para participar do teste. 

Ou seja, bem na base da pilhéria que norteou tal grupo em sua carreira, a ideia foi: "ir lá ganhar um dinheiro e divertir-se sem compromisso". Ora, bem no espírito do tom de humorismo que sempre norteou a condução dessa banda, fomos ao estúdio televisivo, localizado no bairro do Brooklin, na zona sul de São Paulo.

Entre os membros da banda, o espírito foi esse, portanto, ao considerar ser uma grande brincadeira debochada e que eventualmente render-nos-ia um cachê simbólico. 

Dessa forma, confesso que mesmo a estar ali apenas para colaborar, visto que tudo foi ajeitado em cima da hora, e na impossibilidade de arrumar um outro simulador de baixista, se eu não fosse, eles seriam vetados para o teste, eu mantive-me incomodado em participar. Sem outra alternativa, participamos da ação, enfim. 

Os meus colegas mergulharam na brincadeira, ao melhor estilo "Spinal Tap", sem nenhum pudor e aliás, a divertirem-se muito com a pantomima, mas eu... bem, eu não era (sou), um humorista em potencial como eles e acometido por um sentimento de contrariedade absoluta em estar a fazer parte daquela ação, não esforcei-me nem um pouco, por senti-me muito mal em estar ali a ser usado como um anônimo, somente por usar cabelos longos e saber segurar um instrumento musical com fidedignidade. 

Foi então, quando o diretor que conduzia a filmagem, parou tudo e cobrou-me mais "empenho". A filmagem reiniciou-se e o sujeito que ficou visivelmente irritado com o meu desânimo, passou a soltar gritos atrás da câmera, a exortar-me a "melhorar" a minha performance. 

Bem, é claro que eu não segui a sua orientação e certamente que em sua visão, nós já estávamos "desclassificados", mesmo com o "teste" ainda em pleno curso. O ponto, na verdade, foi que a banda não pleiteou participar de forma alguma e eu, ainda mais, não participaria nem que fôssemos "aprovados", por conta das minhas convicções pessoais em torno do que representa esse tipo de ação publicitária.

E ao diretor que chamava-me com desdém a denominar-me como: -"ô, baixista", genericamente, quando ele gritava: -"melhora aí rapaz, se mexe"... eu só posso responder que eu fui (sou) um artista genuíno e mexia-me, sim, em uma apresentação verdadeira, ao sentir a vibração da notas que eu tocava, emanadas pelo meu amplificador, vibrava por ouvir a emanação dos instrumentos e das vozes dos meus companheiros, vindos dos monitores e de seus respectivos amplificadores, mas sobretudo, pela sincronia estabelecida com o público. 

Somente tal sintonia estabelecida espontaneamente cria a magia para a energia fluir a contento e o resto é falsidade em nome do "business", senhor diretor!

sexta-feira, 23 de outubro de 2020

Crônicas da Autobiografia - A Pernoitar entre os Cartuns de Caruso - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol, em setembro de 1984. Foto promocional da banda, feita na mesma época, de autoria de Carlos Muniz Ventura

No segundo semestre de 1984, a nossa banda vivia um momento muito bom, sob o impacto de uma forte expansão gerencial e midiática. Ao crescer no imaginário popular e despertar, por conseguinte, a possibilidade de se abraçar as oportunidades que surgiam aos montes, eis que por volta de setembro de 1984, a banda abriu duas frentes importantes para fomentar ainda mais a divulgação do trabalho e também para fechar shows. 

Nesses termos, os companheiros, Rubens Gióia e o então novo vocalista, Chico Dias (este rapaz na verdade, permaneceu muito pouco na formação da banda), foram à Porto Alegre, onde alguns contatos dentro da mídia gaúcha, foram movimentados, e em paralelo, eu mesmo, Luiz Domingues, fui ao Rio de Janeiro, onde por conta de alguns contatos que eu mantinha na capital fluminense, tratei por incrementar o mesmo esforço. 

A grande produtora musical, Cida Ayres, em foto mais atual, dos anos 2000. Foto: divulgação na Internet

É bem verdade, que além dos contatos que eu já possuía, houve a providencial ajuda que eu (nós), recebi (emos) da produtora do Língua de Trapo, chamada: Cida Ayres, que afeiçoara-se também ao trabalho da nossa banda, "A Chave do Sol" e assim, de uma forma muito generosa, ela movimentou os seus contatos pessoais e posso dizer, foi um esforço decisivo para que em uma das abordagens que eu fui fazer no Rio, para vender um show da nossa banda no badalado espaço do "Circo Voador", se lograsse êxito, logo a seguir, graças a esse esforço despendido em setembro de 1984, e com o apoio decisivo de Cida Ayres.

Bem, ainda a falar sobre a minha ida ao Rio, para estabelecer os contatos, houve um fato a mais e que fora também uma intervenção direta da minha amiga, Cida Ayres. Eis que assim que eu elaborei a minha agenda para cumprir na cidade, percebi que seria difícil cumprir todos os compromissos em um dia apenas, mesmo se eu viajasse pela madrugada e chegasse bem cedo ao solo carioca. 

Por conta dessa logística apertada, a Cida interveio e sugeriu uma solução gratuita para eu pernoitar na cidade e assim poder contar com mais um dia para que eu pudesse trabalhar no Rio. Ela conversara com o grande cartunista, Chico Caruso, muito famoso já naquela época, por ser o chargista oficial do jornal, "O Globo" e naturalmente a colaborar com os outros veículos da mesmo empresa, incluso a Rede Globo de Televisão.

O grande cartunista, Chico Caruso, muito amigo dos membros do Língua de Trapo e que ajudou a minha outra banda, A Chave do Sol, em 1984. Foto: divulgação na Internet

Ocorre que ele, Chico Caruso, assim como o seu irmão gêmeo e igualmente a se tratar de um cartunista genial, Paulo Caruso, eram entusiastas do trabalho do Língua de Trapo, e em minha recente segunda passagem por essa banda, entre 1983 e 1984, eu pude conviver com ambos. 

Aliás, bem recentemente naquela ocasião, ainda mais com o Chico, por conta de duas temporadas que essa banda cumprira pelos palcos cariocas. Portanto, ele conhecia-me por conta de minha atuação com tal grupo e quando a Cida Ayres o procurou para que ele abrisse-nos algum contato midiático, a proposta de ajuda foi providencial e inesperada ao mesmo tempo, pois ele ofereceu-me o seu atelier para que eu lá pernoitasse. Ora, que honra, aceitei de pronto e mais que a gentileza por si só, a mostrar-se muito grande, eu animei-me com a ideia de que ficaria algumas horas em seu gabinete de trabalho, solitariamente a verificar in loco, o seu material de criação. 

         Chico Caruso em foto montagem extraída da Internet

E foi assim, Chico recebeu-me com muita galhardia, além de disponibilizar a sua biblioteca para que eu pudesse examinar o que eu desejasse durante as horas em que ali permaneceria e sobretudo, com a liberdade para eu ver os seus novos trabalhos em construção sobre a prancheta, a vontade. 

Privilegiado que eu fui, pude ver diversos cartuns em que ele estava a trabalhar, inclusive alguns já em fase de acabamento final de seu lay-out, para serem encaminhados à redação do jornal, "O Globo". Sensacional, eu fiquei muito feliz por ter tido liberdade para examinar o trabalho de um artista consagrado, em fase de elaboração, dentro do seu atelier de trabalho, localizado em uma travessa da Avenida Ataulfo de Paiva, no elegante bairro do Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro.

A Chave do Sol: ao vivo no Circo Voador do Rio de Janeiro, em outubro de 1984. Foto: Claudio T. de Carvalho

E sim, os esforços lograram êxito, e entre outras conquistas, a nossa banda participou de um festival muito concorrido, entre as grandes bandas midiáticas do dito movimento: "BR Rock 80's", no Circo Voador, logo a seguir, com um show completo que ali cumprimos ao final de outubro do mesmo ano. Portanto, A Chave do Sol agradece mais uma vez o apoio da solícita produtora musical, Cida Ayres e do grande cartunista, Chico Caruso!

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

Crônicas da Autobiografia - A Ajuda da Boca para Fora - Por Luiz Domingues

                            Aconteceu no tempo do Pedra, em 2008

É comum em uma reunião informal, em meio a uma conversação a esmo, que alguém mencione que poderia auxiliar uma outra pessoa em algum aspecto levantado no bojo da discussão. Isso ocorre geralmente em momentos descontraídos, onde ao se ouvir algum tipo de colocação que esteja mais ou menos próximo da sua alçada, uma pessoa mencione que teria ao seu dispor, uma solução, por trabalhar em um ramo que tenha a ver com a problemática ali discorrida, ou mesmo por conhecer alguém que seria um facilitador para o interlocutor resolver o seu problema ali exposto. 
 
Tal predisposição é feita de uma maneira geralmente impensada, na base do puro reflexo e imbuído por um sentimento de bom-mocismo, mas que geralmente cessa, assim que o assunto muda dentro da roda de conversa. 
 
No entanto, quem está a necessitar de uma ajuda e ouve alguém espontaneamente a apontar para uma solução plausível, interpreta tal oferecimento de uma forma literal e cobra, mesmo que de uma forma educada, tal resolução, pois a sua agonia está diametralmente oposta à falta de interesse de quem em vão propôs ajudar, mas na verdade, apenas tencionara ser agradável naquele momento efêmero da conversa coloquial, sem, contudo, manter a menor intenção de ajudar de fato. 
 
Claro que há exceção e pessoas que não falam por falar, existem e verdadeiramente se prontificam a cumprir o que prometeram, mas é uma realidade: a maior porcentagem de pessoas que assim se pronunciam, na prática, mostram-se muito incomodadas ao receber telefonemas, mensagens via internet ou até visitas presenciais, feitas da parte de quem acreditou que poderia de fato ser auxiliado nessa circunstância descrita.
Isso ocorreu muitas vezes comigo (Luiz Domingues), em diversas bandas por onde atuei, e eu também fui testemunha do mesmo ocorrido com diversos colegas, em questões semelhantes.

Por exemplo, recordo-me de uma ocasião em que eu e meus companheiros do “Pedra”, fomos participar de uma entrevista para uma emissora de rádio e o locutor, que era bem famoso na ocasião, no meio radiofônico, falou-nos reservadamente, ainda no estúdio da emissora, que gostava do nosso trabalho e que gostaria de ajudar-nos a galgar degraus mais acima em nossa carreira e para tal, ele alegou dispor de contatos com a cúpula de outras emissoras, inclusive alojadas na difusão cultural mainstream, além de empresários e executivos da indústria fonográfica. 
 
Ótimo, é claro que aceitamos de bom grado um auxílio que viesse da parte de qualquer pessoa e nesses termos, por ser um radialista famoso, não houve motivo para não acreditarmos que ele teria realmente bons contatos, e em segundo lugar, que estivesse sinceramente imbuído de boa vontade para ajudar-nos.
Marcamos então uma visita ao seu escritório para aprofundarmos esse seu gentil oferecimento, mas o que aconteceu em tal visita, revelou-se um constrangimento sob via dupla. Isso por que, assim que chegamos (no caso, eu, Luiz Domingues e Rodrigo Hid), notamos no semblante desse rapaz, que ele ficara constrangido com a nossa visita. 
 
Nessa altura, cerca de 2008, eu já ostentava uma condição como veterano na música e no Rock, e até o Rodrigo Hid, que ainda era bem jovem, já havia acumulado uma bagagem grande, portanto, não ficamos nada surpreendidos com a situação, visto que não fora a primeira vez em que deparávamo-nos com um imbróglio desse nível e inclusive, eu e Rodrigo já havíamos passado por isso, juntos, como tripulantes a bordo da nave da Patrulha do Espaço, anteriormente.
 
O rapaz foi educado, não posso queixar-me nesse aspecto, por que ele não foi deselegante de forma alguma, pois aceitara receber-nos, mediante o nosso contato telefônico prévio, convidou-nos a entrar e ofereceu-nos café, todavia, o seu desconforto mostrou-se enorme, na medida em que ficara nítido que o apoio que alardeara ofertar-nos, quando de nossa visita à emissora em que trabalhava, fora um discurso vazio, bem naquela predisposição efêmera sobre a qual eu aludi ao início desta crônica. 
 
Dessa forma, sem ter nada concreto para oferecer-nos, foi muito embaraçoso quando ele, no afã para tentar cumprir o que alardeara-nos anteriormente, sugeriu que a melhor medida que a nossa banda poderia adotar para buscar uma melhor notoriedade pública, seria inscrevermo-nos em uma Rede Social da internet, chamada: “Myspace”, que era a grande coqueluche daquele instante, por supostamente ser uma rede social formada por artistas e aspirantes a. 
Não demorou muito e tal rede entrou em um processo de decadência acentuada, pois na prática, essa rede não levava ninguém a lugar algum, visto que era formada essencialmente por artistas a mostrarem os seus trabalhos, uns aos outros, portanto, servia apenas para forjar amizades com quem pensava parecido em termos estéticos, aliás, como em qualquer rede social da Internet. 
 
Dessa forma, quando esse rapaz insistiu para que adotássemos tal estratégia de divulgação para alavancar a nossa banda e mostrou-se patente ser apenas essa a sua grande orientação, eu e Rodrigo agradecemos pela “informação”, também pela acolhida e café, mas partimos, sem ressentimentos para com ele, pois percebemos de imediato que a sua colaboração anteriormente expressa, houvera sido uma clássica colocação de momento, sem nenhuma profundidade, como muitas vezes acontece não apenas no meio artístico, mas na vida de uma maneira geral.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Crônicas da Autobiografia - O Falso Incentivador de Talentos - Por Luiz Domingues

                  Aconteceu no tempo d’A Chave do Sol, em 1986

Apesar da nossa banda jamais ter chegado perto de um espectro popular, isso não significou que não tenhamos tentado atingir uma mídia mais abrangente, popular em essência e até popularesca, pois nunca nutrimos preconceito contra nenhum meio difusor de cultura. 
 
É lógico que sabíamos que a nossa estética não permitiria que um dia alcançássemos uma popularidade gigantesca, pois é óbvio que sabíamos que não seria o caso. E nem desejávamos tal sucesso nesses termos, porém, por outro lado, sempre achamos válido participar de programas de rádio e TV não necessariamente fechados no espectro do Rock e igualmente termos reportagens ao nosso respeito, publicadas em jornais e revistas populares.  
 
Aliás, isso de fato ocorreu e eu diria com uma profusão até surpreendente, pois a nossa banda foi habitue de um programa radiofônico bastante popular da Rádio Excelsior/Globo, no caso do “Balancê”, apresentado por Fausto Silva, também em programas da Rádio Jovem Pan, aparecemos em muitos programas femininos na TV aberta e até em programa com a participação do famigerado “Menudo” já havíamos  participado, além de termos sido citados em publicações em jornais e revistas populares, como: “Amiga TV Tudo”, Revista “Homem” e o Jornal “Notícias Populares”, o famoso “espreme sangue”, um jornal centrado no jornalismo policialesco e notadamente sensacionalista a abordar crimes hediondos, daí a pecha de verter as suas páginas em sangue.
"Saudade" (Rubens Gióia / Beto Cruz), proveniente da demo-tape que a nossa banda gravou em abril de 1986

Eis o link para assistir no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=nKeUh16MY_I 

Então, sem preconceitos, resolvemos em 1986, assim que lançamos uma demo-tape com material inédito, abordar alguns programas populares de algumas emissoras de rádio e TV, onde o pai do Rubens Gióia, o saudoso e muito bondoso para com a nossa banda, Dr. Rafael Gióia Junior, mantinha boas relações de amizade. 
 
Isso se dava pelo fato do Dr. Rafael ter tido em paralelo à sua carreira política (ele foi vereador na cidade de São Paulo, deputado estadual e deputado federal por vários mandatos), uma atividade como poeta, com livros lançados, além de ter sido um radialista que trabalhou em grandes emissoras. 
 
Como radialista, ele teve programa por muitos anos e daí, conhecia muitas pessoas no meio radiofônico e também no televisivo. Mesmo afastado de tal atividade naquele momento dos anos oitenta, ele ainda conhecia muita gente que estava na ativa nesse meio e ao ter em vista que a nossa banda crescera por nossos próprios esforços, em uma batalha árdua que travávamos desde 1982, de livre e espontânea vontade, sinalizou que gostaria de auxiliar-nos, visto que nós também deixamos claro que estávamos abertos a explorar programas fora do mundo do Rock, onde justamente ele detinha os seus contatos.
 
Eis que ele preparou então uma bela carta de apresentação, personalizada para cada contato que detinha e foram muitos. Mediante material da banda e as cartas do Dr. Rafael, visitamos escritórios de produção radiofônica, televisivas e redações de jornais e revistas populares. 
 
Na prática, o resultado obtido em nosso favor foi nulo, pois certamente que o nosso som fugira do espectro habitual desses órgãos difusores, e nem ficamos inteiramente frustrados com tal resultado pífio, em face da realidade de sermos artistas de um outro mundo estético, sem dúvida.
Entretanto, em um caso em específico, algo muito desagradável ocorreu. Tratou-se de um programa popular de TV, tradicional e que na época era exibido pelo TV Record de São Paulo. O seu apresentador era um sujeito com longa trajetória já ostentada naquela época, famoso por inventar bordões e maneirismos popularescos. 
 
Para muitas pessoas, ele era um exemplo de bom mocismo, por forjar a imagem de que ajudava artistas iniciantes a galgar degraus na carreira etc. e tal. E ao contrário de outras pessoas que foram recomendadas pelo Dr. Rafael, mais a atuar nos bastidores, neste caso, o seu contato direto foi com esse comunicador.
Eu, mesmo em pessoa, Luiz Domingues, fui o designado para estabelecer a abordagem com o tal apresentador e senti-me seguro para estabelecer tal contato, pois além de estar acostumado a visitar emissoras e redações (esta é na prática, uma das minhas únicas boas lembranças dos anos oitenta, visto que eu tenho saudade do tempo em que não havia nenhuma dificuldade para um artista independente em pessoa fazer tal tipo de abordagem, algo impossível nos dias atuais), havia comigo a carta do Dr. Rafael em mãos, como uma espécie de salvo-conduto valioso. 
 
Todavia, nessa altura, já com alguma experiência acumulada, é evidente que eu não fui confiante de que daria tudo certo sem reservas, visto que nesse mundo, mesmo com tais bons indícios dos quais eu dispunha, na verdade eu já havia acumulado frustrações nos anos anteriores e tornara-me mais cauteloso para lidar com os órgãos de comunicação. Ainda bem que eu fui com tal reserva pessoal, aliás, pois uma surpresa desagradável ocorreu-me. 
Cheguei às dependências da TV Record, que ainda mantinha os seus estúdios nas instalações da Avenida Miruna, no bairro de Moema, na zona sul de São Paulo e enquanto aguardava pela chegada do tal astro da TV. Tive um momento de recordação pessoal muito boa ao mirar aqueles painéis antigos que ostentavam fotos de momentos gloriosos que essa emissora tivera nos anos cinquenta e sessenta, sobretudo. 
 
Foi quando um funcionário avisou-me que o figurão chegara e que atender-me-ia em poucos minutos. Todavia, assim que eu vi a persona do tal astro popular, já notei que o seu passo apressado em minha direção, a somar-se ao seu semblante fechado a denotar extrema contrariedade, não fora um bom indício. 
 
Em uma questão de segundos, ele mal respondeu a minha saudação de “boa tarde” e com muita rispidez, falou em um tom duro: -“o que você quer?” 
 
Bem, ao notar que ele estava pouco receptivo, fui o mais sucinto que eu pude em minha explicação e nem mesmo quando citei o nome do Dr. Rafael, ele sensibilizou-se e deu-me um mínimo de atenção. Profundamente contrariado, falou-me que não estava a entender o que eu desejava, como se fosso possível não haver compreendido a minha explicação muito objetiva. 
 
Irritado, ele ignorou o material de minha banda, para sair a resmungar que estava muito ocupado e que simplesmente não tinha tempo para ouvir alguém a perturbá-lo, mas logicamente a usar um outro palavreado a insinuar que uma determinada parte da anatomia masculina tendia a inflar-se quando um homem era sujeito a aborrecimentos em geral.
O saudoso, Dr. Rafael Gióia Junior, pai do nosso guitarrista, Rubens Gióia. Poeta sensível, ele soube valorizar com galhardia o trabalho da nossa banda, A Chave do Sol, e foi um incentivador da nossa luta. Como diz uma canção do nosso próprio repertório, "saudade" desse gentleman!

Bem, diante de tal grosseria, não ficamos chateados com a falta de perspectiva de não participarmos de seu programa, e nem mesmo eu em particular fiquei ofendido com o desdém descabido. Somente poupamos o Dr. Rafael desse acontecimento, e que certamente o desapontaria, dada a consideração que ele sentia por esse pulha. 
 
Para todos os efeitos, o material fora entregue, com a sua carta de recomendação e a nossa não escalação para o programa se ateu-se apenas por uma contingência da agenda do programa, portanto algo normal no meio televisivo. 
 
Para o Dr. Rafael, fica aqui mais uma vez o meu agradecimento pelo fato cabal de que não apenas por tal episódio, mas a pensar na conjuntura completa, ele foi um grande incentivador da nossa banda.

E para essa figura que destratou-me e por extensão, a minha/nossa banda, e que construiu a sua imagem popular como um especialista em “ajudar” artistas em início de carreira, não chego a dizer que desapontou-me, pois eu sabia que a falsidade exibida na TV, sempre foi grande, mas evidentemente que lastimo a sua atitude grosseira. 

E claro, para ele que viveu de audiência a sua vida inteira, não vou citar o seu nome, justamente para não dar-lhe a notoriedade indevida.

sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Crônicas da Autobiografia - A Antevisão do Erro - Por Luiz Domingues

              Aconteceu sempre, durante toda a carreira

Tirante os músicos eruditos que tocam a ler partituras ou que decoram mentalmente peças com tamanho gigantesco e extremamente complexas (e que além disso, contam com a orientação de um maestro dotado de um conhecimento absurdo, ao ter em sua mente decoradas as respectivas partituras de todos os instrumentos de uma orquestra sinfônica), o fato é que há um sentimento comum para todo músico, que é o de saber exatamente quando está a chegar uma parte de uma música em que ele sabe que detém uma dificuldade para executá-la e também sobre as pendências que os seus companheiros possuem na mesma canção, ou em outras.
Claro, nada que não seja sanado com tranquilidade em sessões de ensaios, mediante uma conversa franca com os colegas de trabalho e na base da solidariedade. E mesmo que não haja um sentimento de amizade entre os componentes de uma banda, a boa execução de uma música ao vivo, é um objetivo em comum, portanto, se qualquer componente errar, é uma mácula para a banda inteira, daí haver o sentimento comum de que ninguém falhe, para não comprometer o resultado geral do grupo. É o óbvio ululante. 
 
O fato, é que o músico sabe das suas próprias dúvidas e onde precisa esclarecer algum detalhe em que esteja a falhar, sob o ponto de vista harmônico, melódico ou rítmico. 
 
No entanto, há um sentimento que é recorrente em relação ao erro, que eu acredito, seja comum para muitos, senão todos os músicos, que é a identificação da falha (ou dificuldade premente que ele, músico, detenha para saná-la), e à medida em que a música avança, o músico fica a aguardá-la, como se fosse uma contagem regressiva, ou seja, o momento fatídico em que ele sabe que possivelmente errará, ou terá no mínimo, uma grande dificuldade para executar tal trecho difícil, a contento, e isso vale para todos os demais companheiros que o músico sabe que estejam na mesma situação.
A explicar melhor: o efeito psicológico extremamente negativo em torno dessa angústia progressiva, classifiquemos dessa forma, ajuda decisivamente a aumentar a possibilidade do erro de fato, concretizar-se. 
 
Portanto, trata-se de um sentimento que produz amargura e ansiedade. É um horror tocar com esse tipo de expectativa prévia, pois tira completamente o foco e sobretudo a espontaneidade do músico. Isso é muito potencializado se o músico toca com um grupo que produz um tipo de música muito complexa, que trabalha com estruturas sofisticadas em termos rítmicos, ou seja, um tipo de música a conter convenções intrincadas, onde os instrumentistas precisam estar rigorosamente juntos na execução, sob o sério risco de arruinar-se a performance como um todo, se um  músico (ou mais de um, pior ainda), errar tais marcações. 
 
É claro, músicos de alto gabarito, raramente erram e se isso ocorre, são ágeis em consertar ou disfarçar para seguir em frente a minimizar o efeito de seus erros. 
 
Muitas vezes, músicos sorriem entre si quando alguém erra, como um sinal de um comprometimento solidário, e as pessoas leigas, tendem a nem perceberem os erros. 
É comum, no camarim de um pós-show, os músicos comentarem sobre os erros e se o clima for amistoso dentro da banda, tais falhas são tratadas com bom humor, até. E nesses termos, quando pessoas leigas em música abordam os músicos para cumprimentá-los, é bem comum que estas rasguem elogios, ao sinalizar que não captaram os possíveis erros. 
 
Dentro dessa dicotomia, o fato é que a visão mais crítica do músico, tende a analisar a sua própria performance de uma forma deveras negativa, ao mostrar-se mais minucioso em sua autoavaliação. O mesmo caso ocorre em estúdio, quando os músicos sabem, nota por nota, onde erraram e querem regravar para corrigir. 
 
No entanto, é ao vivo que o sentimento da antevisão dos eventuais erros, mais torna-se proeminente. Aquele sentimento interno que é disparado, exatamente a apontar o momento preciso onde erraremos por conta de alguma dúvida não ajustada previamente, atormenta-nos. E o mesmo acontece em relação aos companheiros. 
 
É horrível igualmente, você saber exatamente onde o companheiro tenderá a falhar e para não comprometer a banda, você mesmo ser obrigado a errar propositalmente, para fazer parecer que o suposto erro alheio passe como um arranjo proposital da música, a desafiar as leis da teoria musical e assim minimizar o desastre em prol do bem comum de sua banda.
Qual é o antídoto para não passar por tal tipo de situação em um show ao vivo? Sobretudo: ensaio com afinco, conversa franca entre os componentes da banda e a garantia de um ambiente interno solidário entre os membros do grupo. E nada mais.