Aconteceu no tempo d'A Chave do Sol, em meados de 1985
Em meados
dos anos 1980, a ligação umbilical que A Chave do Sol manteve com a
loja & gravadora Baratos Afins, foi total. Não apenas pelo fato dessa
empresa ter lançado os dois primeiros discos da nossa banda, mas por
conta de que ali naqueles balcões de sua loja física, sobretudo pelas constantes conversas
mantidas pelo telefone, o produtor fonográfico, Luiz Carlos Calanca,
era bombardeado diuturnamente com sondagens, propostas, pedidos e
consultas sobre os seus lançamentos e essa enorme gama de possibilidades
eram repassadas de imediato aos artistas que faziam parte do seu elenco
de contratados, incluso a nossa banda, certamente.
Exatamente
por ser um polo de oportunidades para todos os artistas que lançava, e
pelo fato da loja ser um espaço público e absolutamente adorável por
reunir amantes da música de várias vertentes e notadamente os Rockers, pois
não de uma forma declarada, mas de uma forma velada, predominara o
espírito Rocker ali dentro daquelas dependências.
Nessas circunstâncias,
foi normal estabelecer uma rotina de passar por ali, ao menos uma vez
por semana, tamanha a quantidade de recados que surgiam para nós e todos
os demais artistas, além de reuniões com produtores musicais de toda
monta, com as mais variadas propostas de trabalho para a nossa banda.

E um outro
fenômeno costumava ser recorrente ali: apesar da frequência ali dentro
ter sido feita com pessoas sob uma proporção em torno de 99.9% com
ligação direta com a música, apareciam também pessoas não exatamente
comprometidas com a música em si.
E foi
exatamente em uma ocasião em que eu estive ali presente com o Luiz
Calanca, a sua esposa Vitória, alguns funcionários e um amigo fraterno, o
guitarrista, Hélcio Aguirra, que nesta época ainda era componente da
banda orientada pelo Heavy-Metal, Harppia, que um sujeito ali apareceu e
pelo teor da conversa, pareceu ser amigo do Calanca, mas de uma outra
conexão social fora da música, pois a sua conversa direcionou-se
completamente fora desse contexto.
O sujeito
falava sobre as suas proezas no campo das artes marciais e em tom de
bravata, passou a elencar as mais diversas situações em que usara a sua
força, em tom de autoelogio e ameaça velada.
Foi quando ele passou a
insistir em fazer demonstrações, mesmo que ninguém ali na roda de
conversa houvesse esboçado sequer, duvidar de suas afirmativas. Ficara
claro que o rapaz queria exibir-se e ao mesmo tempo, deixar no ar uma
advertência sobre o quanto seria imprudente da parte de qualquer um,
desafiá-lo, no alto de sua força brutal.
Mesmo com
todos os presentes a reafirmar que acreditavam em seus feitos ali
relatados, ele insistiu muito em fazer demonstrações, pois obviamente, o
seu ego pedia por esse clímax, quando naturalmente ele ansiara por sentir
nos seus interlocutores, a sensação do medo e assim, regozijar-se de
uma possível sensação de temor que geraria de forma subliminar, embora
supostamente a sua fala fosse amistosa, mas em seu âmago, ficara claro
que essa seria a sua segunda intenção.
E assim,
na base da insistência a beirar o constrangimento desagradável, o rapaz
impetuoso forçou a situação até conseguir o seu intento. A proposta que
ele lançou, antes fosse para quebrar tijolos ou outros objetos sólidos
dessa monta, no entanto, isso não satisfaria o seu ego inflado pela
síndrome do super herói de HQ que ele devia ter consigo.
Foi então que
cada um ali presente, foi convidado a sentir o impacto de um golpe
desferido pelo altivo rapaz, mesmo que ele garantisse que não colocaria
nem 1% de sua força, a garantir que não geraria lesão alguma para
ninguém.
Ora, que
desagradável, foi essa insistência por si só, que já fora longe demais.
Éramos todos adultos ali, bastaria dizer que não aceitaríamos a
demonstração, encerrar o assunto e partir, mas o clima gerado, ficou
pernicioso e assim, para nos livrarmos da situação, aceitamos
participar, como tolos que se submetem a um truque de ilusionismo em um
teatro de pequeno porte.
Bem, de
minha parte, devo dizer que o rapaz aplicou-me um golpe em meu peito,
com apenas um dedo. No entanto, o impacto dessa força controlada que ele
realmente detinha, foi tremendo, ao parecer um soco desferido por um
homem normal, com o punho cerrado.
De fato, o impacto do soco ficou a latejar por alguns
segundos, mas logo passou o incômodo e que eu saiba, jamais houve
nenhuma consequência mais grave em termos de lesão. No entanto, a
pergunta que ficou no ar, foi: por que nos submetemos a essa
demonstração barata para inflar o ego desse rapaz? Subjugação? Preguiça?
Temor por parecer mal-educado e evadirmo-nos da loja, simplesmente?
Creio que
na verdade, o que foi determinante no saguão da loja, foi o sentimento
não declarado, mas presente, por ser algo enraizado por todos, como um
paradigma que todos trazemos desde a tenra infância, que é algo típico
da cultura latina, regido pela ideia machista de que é uma desonra fugir
de alguma situação que envolva dor física, para dar margem aos demais, suporem que você seja um covarde.
Então, todos ali foram dominados por
tal sentimento subliminar, como se fôssemos novamente alunos da 5ª
série, durante a hora do recreio no pátio da escola, ao deixar-se
submeter a absorver um golpe, só para satisfazer o ego de um sujeito que
nem conhecíamos e que apenas por cinco minutos de conversa, já deixara
patente ser um deslumbrado pela sua força e pior ainda, uma espécie de
sádico a nutrir prazer por provocar o medo subliminar em outrem.
Conclusão:
a melhor solução teria sido a debandada para a estação de metrô mais
próxima da Baratos Afins (Anhangabaú ou República), a denotar falta de
educação social ou mesmo a dar margem que se pensasse ser um ato de
covardia infantil, a submeter-se a essa exibição gratuita, desagradável,
desnecessária e o pior de tudo, subserviente à vontade alheia, apenas
para justificar um paradigma tolo sobre alguém "considerar" que você
fosse um covarde. Pois que pensasse isso...