O baterista do Boca do Céu/Bourréebach, Fran Sérpico, em foto bem mais atual, dos anos 2000
Foi questão de honra para nós, que essa
nova apresentação fosse uma espécie de "tour de force", a demonstrar à todos, e
principalmente à nós mesmos, que nesses doze meses, havíamos evoluído, em todos
os sentidos. Portanto, com esse objetivo em vista, tivemos uma nova energia, através de uma
nova motivação.
Nesse ínterim, uma nova viagem recreativa
para a cidade litorânea de Itanhaém foi marcada, onde ensaiaríamos
(acusticamente, claro), e teríamos tempo para conversar bastante sobre esse
show.

Batizamos essa nova viagem como:
"Itanhaém II", e desta feita, a banda inteira esteve presente, além de Sidnei
Miranda, o primo freak, e mais velho do Wilton Rentero, cheio de histórias boas para
contar sobre os anos 1960, e um convidado de última hora, um argentino chamado,
Ribarique, que dizia-nos ser um "Bluesman".
Dessa viagem, lembro-me de ouvir
incansáveis vezes o LP "News of the World", do Queen, que
havia acabado de sair no Brasil, e o Osvaldo Vicino tratou de gravá-lo, e levar
a fita K7 para a praia.
Lembro-me também de uma caminhada
monstruosa que fizemos, quando de praia em praia, fomos parar quase na cidade
vizinha. Garotos malucos que éramos!
De volta para São Paulo, reafirmamos os
esforços para o grande show que planejávamos e que nós batizamos como: "Fran's Birthday II". O repertório nessa nova fase da banda, esteve
composto pelas seguintes músicas:
1)
O Mundo de Hoje (Laert/Osvaldo/Luiz)
2)
Diva (Laert)
3)
Serena (Osvaldo/Laert)
4)
Blues Sem Nome (Wilton)
5)
1967 (Laert/Luiz)
6)
O Que Resta é a Canção (Osvaldo)
7)
Momento (Laert/Fran)
8)
Ah, Se Você Soubesse...(Laert)
9)
Consenso Geral (Laert)
10)
Revirada (Wilton/Laert)
11)
Mina de Escola (Osvaldo/Laert/Luiz)
12)
Centro de Loucos (Laert/Osvaldo)
Combinamos em tocar, também, uma versão de música: "A Day in the
Life", dos Beatles, obviamente sob um arranjo rústico, sem nem um por cento
da sofisticação dos seus criadores. E assim transcorreu o nosso mês de janeiro de 1978...

De volta do litoral,
onde passamos tais dias marcados por ensaios informais e conversas, concentramo-nos nos ensaios oficiais. Queríamos logicamente causar uma impressão melhor, também no
quesito do equipamento, e dessa forma, saímos à cata de aparelhagem emprestada.
O Laert ousou, e do próprio bolso, alugou
um órgão. A ideia seria alugar um órgão Hammond (com caixa Leslie e tudo), mas diante do
exorbitante valor cobrado, contentou-se com um bem mais modesto, "Gambit", mesmo, a tratar-se de um instrumento limitado,
para uso doméstico e amador, geralmente visto em igrejas evangélicas.
Preocupante
foi o sumiço do Wilton, que não compareceu aos ensaios, e deixou-nos bastante
apreensivos. Quando chegou o grande dia, ficamos bem chateados, pois ele realmente
não compareceu. Foi uma perda irreparável, mas convenhamos, éramos todos muito
jovens, e o grau de comprometimento variava conforme a vontade e expectativa de
cada um, naturalmente.
O show aconteceu no dia 11 de fevereiro de 1978, no
mesmo local do realizado espetáculo realizado no ano anterior, e foi marcado por contrastes. O
primeiro ponto, foi a questão da ascensão nossa como conjunto e
individualmente, como músicos. Todos haviam evoluído em um ano, talvez um pouco menos em relação ao colega, Fran Sérpico,
que relutava para fazer aulas, e pouco avançara como baterista, porém, certamente que ele já pensava em tomar outro rumo em sua vida.
O segundo ponto
foi a óbvia melhoria na qualidade das músicas novas, que naturalmente
acompanharam a evolução técnica da maioria. E o terceiro e muito negativo aspecto, foi
a ausência do Wilton, nessa apresentação, pois com ele na banda, o som encorpava e sem a sua presença,
apesar da nítida evolução do Osvaldo, e a minha, igualmente (e mesmo com o Laert a tocar teclados),
esvaziava-se.

O show foi encurtado, pois ao tocarmos ao ar
livre, fomos sabotados por uma chuva súbita de verão. Dessa maneira, tornou-se providencial a intempérie da natureza, pois estávamos chateados a tocar sem o Wilton, desapontou-nos naquele instante.
Devido ao tempo chuvoso, a festa em si também ficou
aquém do ano interior, pois apenas vinte e cinco convidados compareceram. Lamento
muito não haver filmagem, tampouco fotos.
O Laert lastimou demais ter que devolver o órgão,
pagar o aluguel e o transporte, e ter tocado pouquíssimas músicas, devido à
chuva.
E sobre a falta do nosso colega, poucos dias após o show:
"Fran's Birthday II", o amigo, Wilton Rentero procurou-nos, e comunicou a sua
decisão de sair da banda. A sua justificativa foi baseada na sua decisão pessoal, no sentido de que o seu caminho seria o do
violão clássico, e que havia tomado tal resolução em estudar com afinco, dali em
diante.

Ficamos muito chateados, pois ele era o
melhor músico da banda, e sua presença encorpava o nosso som. Mas fazer o que?
Não pudemos contra-argumentar, pois não
tivemos nenhum poder de barganha. Naquele momento, não houve perspectivas melhores do que
participarmos de festivais colegiais, e shows de pequeno porte. E a nossa melhora técnica, apesar de nítida, era ao mesmo tempo lenta ao projetar-se o que almejávamos.
Então, de volta a sermos um quarteto, resolvemos aproveitar a deixa e dar
um ultimato ao baterista, Fran Sérpico: ou ele entraria em uma escola de música e
começaria e estudar, ou teria que sair da banda, pois estávamos preocupados em vê-lo sem evolução mais palpável, e assim a manter-se atrás dos demais, e certamente a prejudicar, por conseguinte,
a evolução da banda.
Ele sentiu-se pressionado, certamente, e alguns dias depois,
fez a sua escolha, ao deixar a banda e justificar a sua decisão pelo fato de
estar sem tempo para estudar o instrumento, devido aos estudos formais, e que
realmente estava determinado a entrar em uma faculdade e estudar com afinco. Bem,
situação desagradável para a banda chata, mas foi melhor para ambos, Fran e banda, certamente, pois a
despeito dele ser muito bom companheiro, chegáramos em um ponto crucial onde houve a
necessidade de tomar-se resoluções de vida, com cada um ali envolvido, e assim, não foi mais possível conduzir-se mais a banda como uma atividade secundária, doravante.
Reduzidos
a um trio, combinamos continuar firmes no propósito, eu, Luiz, Osvaldo Vicino e Laert
Júlio, futuro “Sarrumor”. Nesse ínterim, o Osvaldo aproveitou para reafirmar que não
gostaria de ter um segundo guitarrista na banda e que desejava doravante ser o "lead guitar" da nossa banda,
como nos primórdios. Então, com o Laert determinado a assumir-se
como tecladista, achávamos que estaríamos supridos harmonicamente, portanto, a
nossa decisão naquele momento, de fevereiro de 1978, foi no sentido de encontrarmos um novo
baterista, e tocar a carreira para a frente.

Começamos a procurar então, e ao mesmo
tempo, mantínhamos ensaios improvisados entre nós três remanescentes, e atentos às
oportunidades para inscrever a banda em festivais. E assim se procedeu nos meses de
março, abril, e maio de 1978. Uma luz no final do túnel, só apareceu em junho.
Por outro lado, se o panorama da banda foi forjado sob incertezas, uma questão muito
significativa nesse início de 1978, foi que eu notei ter deixado para
trás o espectro incômodo de ser um músico iniciante, incrivelmente limitado. Eu havia enfim rompido essa barreira
terrível de um reles principiante e senti-me muito mais seguro como baixista.
Nessa altura, eu já havia tirado diversas músicas de discos que apreciava. Portanto, já executava com boa destreza as linhas de baixo criadas por ótimos baixistas ao tocar por cima de discos do “Led
Zeppelin”, “Deep Purple, “Focus”, “The Allman Brothers Band”, e diversas outras bandas,
o que realmente configurou que eu houvera melhorado muito.
E posso afirmar o mesmo
do Osvaldo Vicino. Ele que no início foi o melhor e mais experiente músico da
banda, também mostrava bastante evolução, mas por outro lado, sutilmente começou a demonstrar também,
sinais de afastamento (um triste paradoxo ante a sua evolução como músico, eu diria), conforme relatarei melhor, logo mais.

Para aproveitar essa reformulação na banda,
estávamos a preparar novas músicas e sabíamos que se aparecesse uma
oportunidade para tocarmos ao vivo, nós poderíamos contar com o baterista, Cido Trindade,
este, meu amigo de bairro e que tornara-se amigos dos demais companheiros da minha banda, igualmente.
Ele havia colocado-se à disposição, pois tinha notado que
evoluíramos e estávamos em um estágio mais compatível com o dele, que era mais
experiente àquela altura. E resolvemos também dar uma cartada diferente para o futuro
da banda. Por sugestão do Laert, passamos a procurar por vocalistas femininas.
A ideia seria o Laert assumir mais os teclados, cantar menos músicas, deixar
uma mulher como principal vocalista e consequentemente, a assumir-se como uma “frontwoman”.
Essa foi uma obsessão do Laert que era (é)
apaixonado pela Janis Joplin. Então, colocamos anúncios em revistas da época
("Rock, a História e a Glória", "Pop" e
"Música"), e começamos a receber cartas oriundas de candidatas. O Laert também preparou um cartaz com os seus
traços em forma de cartoon, bem característicos, e os espalhou em alguns pontos
interessantes, como alguns cafés “transados” (gíria da época), certos e estratégicos murais
da USP etc.

Foi então que surgiu uma oportunidade para um show em melhores condições, que foi marcado para
junho de 1978. Mesmo indefinidos em relação a uma garota para entrar na banda como cantora, aceitamos o desafio e convocamos o baterista, Cido Trindade para tocar conosco. Esse show
foi providenciado pelo Laert, que encaixou a banda para tocar durante um bingo, a
ser realizado no pátio do colégio onde ele estudava à época, o Colégio
Claretiano, instituição tradicional dirigida por padres católicos, localizado no bairro de Santa
Cecília, próximo ao centro de São Paulo.
Claro que animamo-nos, e passamos a
ensaiar diante dessa perspectiva. O baterista, Cido Trindade, aceitou o nosso
convite, e passou a ensaiar conosco regularmente. Nessa nova fase, voltamos a
ensaiar na minha residência, mas desta vez ao tomar o devido cuidado para não fazer do ensaio,
um ponto de reuniões freaks, como acontecera em 1977.
O Laert havia fechado com
a ideia em tocar teclados o tempo todo nesse show, mas sem um instrumento disponível, limitava-se a
participar a cantar nos ensaios e estudava piano isoladamente, ao preparar-se
individualmente. Foi o melhor que tivemos.
Ele estudava piano na casa de meus tios,
próximo à minha casa (aliás, um gentil oferecimento de meus tios e incentivado
pelos meus primos: Marco Antonio, José Rubens, Mara e Alcione Turci, que haviam
simpatizado com ele, e ao ir além do fato de apoiarem-me simplesmente, como primo),
e também em uma loja da Yamaha em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, onde ele usava
um órgão, no afã de adaptar-se. Claro que não foi o ideal. O sonho foi contar com um órgão Hammond,
com caixa Leslie, próprio, mais um Fender Rhodes (piano elétrico). Mas a
realidade foi outra, infelizmente.
O Cido Trindade detinha um nível técnico
muito superior ao do Fran Sérpico, que nunca ultrapassou a barreira de
iniciante. Com o Cido na banda, o som cresceu, é claro e ele, Cido também reconhecera
que havíamos melhorado.
Dessa forma, preparamo-nos até a data
marcada: 17 de junho de 1978, um sábado gelado, de fim de outono. Fomos para o
show bem ensaiados e confiantes. O Laert novamente desembolsou um bom dinheiro,
ao alugar um órgão Yamaha desta vez, e o acordo com o colégio Claretiano, previra
que eles providenciassem um P.A. e três amplificadores, para suprir a guitarra, órgão e o baixo.
Chegamos ao colégio no horário marcado, porém,
o amadorismo foi total da parte da sua organização, pois o equipamento previsto, para nos dar suporte, simplesmente não estava
lá, quando chegamos ao pátio da escola. As horas passavam e só víamos funcionários do colégio a arrumar as
mesas para o bingo, realizar ações de faxina e preparar o globo das
bolinhas.
O equipamento houvera sido alugado de uma
banda de bailes, e chegou ao local apenas às nove da noite. Os responsáveis pelo equipamento, chegaram
sem nenhuma pressa, a descarregar o caminhão, e montar como se fossem oito
horas da manhã, sob uma demonstração de descaso abominável. Claro, um funcionário do colégio veio
ao nosso encontro a advertir-nos que estava "cancelado" o soundcheck, e que deveríamos
tocar sem preparar o som, assim que recebêssemos a ordem, ou seja, um descaso sem cabimento, como se nós fôssemos os culpados pelo atraso do equipamento.
Nesta altura, os
participantes do bingo já lotavam o pátio da instituição e o som dos alto-falantes do colégio,
tocava uma trilha que foi de Roberto Carlos a Sidney Magal, a todo o vapor.

Quando os responsáveis pelo equipamento
locado sinalizaram que estava tudo ligado, recebemos a ordem para começar, e aí
o óbvio consumou-se: adveio uma maçaroca sonora horrível, com um verdadeiro show de microfonias
e embolação sonora total, mediante frequências graves, tenebrosas e que o técnico pouco se esforçou para corrigir.
Mediante tais condições, claro que esteve tudo
horrível, e que a monitoração se provou ridícula. Lamentamos muito o ocorrido,
pois estávamos preparados para fazer uma boa apresentação, no entanto, saímos do palco
com uma sensação de frustração total. O Cido havia levado dois amigos de última
hora para tocar percussão conosco. Foi na verdade uma ação completamente
desnecessária, e que em nada acrescentaria ao som da banda, mas... estávamos
ainda nos anos setenta, e loucuras despropositadas assim eram consideradas normais, e de certa
forma, detinham um certo élan, justamente a evocar uma sensação de descompromisso com a formalidade instituída, isso eu entendo.
Antes do bingo começar, tocou-se o Hino Nacional,
mas convenhamos, foi algo previsível, pois estávamos em pleno regime fechado, e ali se tratara de um colégio
católico, naturalmente conservador. Os amigos freaks do Cido que participaram aleatoriamente foram: Marcão e
"Cabelo". Eles tocaram caxixis, cowbell e uma pandeirola. Realmente esses rapazes não
acrescentaram nada com a sua percussão inútil, jogada a esmo.

O saudoso psiquiatra/pensador, José Angelo Gaiarsa
Esse "Cabelo", foi um freak que
morava no bairro vizinho ao meu e de Cido, o Belém, na zona leste de São Paulo, e
nessa mesma época envolvera-se com uma trupe de Teatro, quando tal turma foi convidada a participar de forma fixa, de um
exótico programa da TV Bandeirantes, protagonizado pelo psiquiatra, José
Angelo Gaiarsa.
Segundo eu soube, essa turma “turbinava a sua percepção” mediante o uso de certos aditivos nos bastidores,
pouco antes de entrar no estúdio, e aí a pretensa sessão psicanalítica conduzida pelo Doutor
Gaiarsa, tornava-se uma verdadeira farsa, baseada em um festival de besteiras
ditas por aqueles hippies cabeludos e com os respectivos olhos vermelhos.
Quanto ao tal Marcão, eu conhecia-o menos, só
de vista, mesmo. E claro, houve uma atenuante nesse episódio inteiro. Se por um
lado fomos prejudicados pelo pessoal do equipamento ter chegado horas além do
combinado, e por conta desse fato, nós termos sido totalmente derrubados por um som não mixado adequadamente,
a realidade foi que o público presente mostrou-se também muito desinteressado, pois o
foco ali fora o bingo.
Além do mais, não foi um público jovem ali presente, mas muito pelo
contrário, o público foi formado por pessoas de meia-idade, e muitos idosos, o que
caracterizou uma plateia que poderia ser até hostil. Mas como tais pessoas estavam
realmente muito focadas no bingo, a verdade é que nem notaram que tocávamos, e dessa forma,
aquele som horrível, decorrente de uma mixagem inexistente, não os incomodou, por
incrível que pareça.
Isso sem contar o mapa do palco, que foi
completamente ridículo. Por uma falha no tablado improvisado como palco, o Cido
Trindade teve que deslocar a sua bateria para a frente, longe da linha de
amplificadores. Se a monitoração já fora horrível, sem podermos ouvir o baixo, guitarra
e teclados, com o som direto dos respectivos amplificadores, no caso do Cido foi piora ainda, pois com os amplificadores longe de sua
audição, ele tocou de forma muito insegura, no limite para manter o ritmo no
andamento correto. Para quem é baterista, há de saber que tocar dessa forma é um
horror.
Apresentamos nessa noite: "Blues Encanto", "Serena" e
"Assim Como". O plano seria tocar muito mais músicas, contudo, naquelas condições
horríveis, decidimos cortar o show logo no início, a continuar a tocar sob tais condições
insalubres. Ficamos chateados logicamente, mas a vida prosseguiu...

Após essa frustrante exibição, seguimos na
captura de novos membros para a banda. As melhores vocalistas que apareceram, foram
mesmo duas candidatas que escolhemos, a se tratar de Eva, e a Pollyana Alves. A Eva detinha mais emissão vocal, aparentemente e
o seu visual pessoal se mostrou mais adequado aos nossos anseios, pela indumentária hippie, mas a despeito da voz da Pollyana Alves
ser mais comedida, esta última mantinha uma ótima afinação.
Pollyana Alves, em foto bem mais atual, dos anos 2000
O seu visual pessoal era bem-comportado, mais
a parecer-se com a Karen Carpenter, do que Grace Slick, para estabelecer uma comparação básica. Ficamos sob uma dúvida muito grande
sobre qual das duas escolher, mesmo por que, ambas tinham as suas qualidades bem definidas e dispares entre si.
Para
piorar a nossa indefinição, nas reuniões que tivemos com as duas, elas tornaram-se amigas
entre si, e assim, a cada dia ficou mais difícil tomar uma decisão. Foi quando o Laert
deu a sugestão de efetivarmos ambas na banda. Foi uma ideia radical em
princípio, mas ao pensar bem, não seria uma má solução, com duas vozes
femininas, e mais o Laert, quase teríamos a possibilidade de praticar um som a la "The Mamas and The
Papas", em tese.
Para a vaga de bateria, ainda não tínhamos uma
perspectiva em vista, mas sabíamos que poderíamos contar com o Cido Trindade,
em alguma eventual nova oportunidade que surgisse.

Então, passadas as férias escolares,
marcamos um ensaio oficial da nova formação, para o início de agosto. A residência
da vocalista Pollyana Alves nos foi oferecida por ela mesma, com total apoio
dos seus pais, que ajudavam-na demais, e como não tínhamos ainda um baterista fixo, não
houve a necessidade de ensaiarmos na minha residência, imediatamente e até segunda
ordem.
E o argumento definitivo que convenceu-nos sobre sua casa, foi: ela tinha
um bom piano e um amplificador de guitarra, disponíveis. Dessa forma, eu e o Osvaldo
Vicino tocaríamos plugados no mesmo Bag U65 da Giannini, e o Laert tocaria
o piano. A Eva tinha uma pandeirola meia-lua e assim, bingo! O barulho esteve garantido. Foi em um domingo, dia 13 de agosto de 1978,
que realizamos o nosso primeiro ensaio. Nesse momento, o Bourréebach esteve formado por
Laert, Osvaldo, Luiz, Eva e Pollyana, a faltar apenas um baterista, para fecharmos o
sexteto.
A habitação de Pollyana, era na verdade um apartamento, localizado no Bairro do Limão, na zona
norte de São Paulo. Usávamos dois ônibus para chegarmos lá. Ou seja, fico a admirar o fato de que nós tínhamos força de vontade! Gastávamos
mais de duas horas, só para chegar lá, e mais duas para voltar, com instrumentos
em mãos.
De fato, esse esforço natural, além de mostrar a
nossa força de vontade juvenil, ganhou uma motivação extra. Ocorreu que uma nova edição do festival, FICO, aproximara-se,
e dessa forma, a toque de caixa, gravamos e inscrevemos quatro músicas para pleitear classificação inicial:
"Assim Como", "Desacomodação", "Blues Encanto" e
"Consciência Geral", todas compostas pelo Laert.
E nesse ínterim, o mesmo, Laert conheceu um
baterista, através de um amigo seu, colega do curso colegial, que estava a finalizar,
inclusive. O rapaz chamava-se: José Claudio, e mantinha um nível técnico semelhante
ao do Cido Trindade.
O baterista, José Claudio, algum tempo depois, nos anos oitenta, a atuar com o Violeta de Outono
Dessa forma, começamos a ensaiar com o novo baterista e a dinâmica com
a proximidade do FICO, mudou: aos sábados, ensaiávamos na casa da Pollyana
Alves, e aos domingos, voltávamos à minha residência, para ensaiarmos com ele, Zé Claudio. Contudo,
como se tratava de uma situação bem efêmera, mal acertávamos a banda, e um novo problema
começou a ganhar uma proeminência. Desta vez foi o guitarrista, Osvaldo Vicino, que começou a
faltar nos ensaios, de forma repetida. Na realidade, ele já vinha a dar mostras
de desgaste há algum tempo, mas nesse momento, às vésperas de uma nova edição do FICO,
tornou-se preocupante a sua falta de assiduidade, e pior, o visível ar
entediado que começara a tornar-se uma constante em seu semblante.

E o pior aconteceu... não classificamos
nenhuma música para o FICO, o que desalentou-nos muito, visto que encaramos
esse revés, como um retrocesso. Foi inadmissível que tivéssemos participado em
1977, com muito menos técnica individual de cada um, fora a inexperiência, em
contraste com um ano a mais, onde havíamos crescido nesses aspectos.
Por outro
lado, em 1978, pesou contra os nossos planos, a nossa própria desorganização, mediante a troca constante de
componentes, e ensaios feitos de uma forma improvisada, algumas vezes com teclado, outras
com bateria etc. E o pior de tudo: as gravações que mandamos ao Festival,
foram precárias por conta dessas dificuldades citadas.
Por incrível que pareça,
havíamos enviado à comissão do festival, um material melhor em 1977, e nesse aspecto, é claro que merecemos a
desclassificação sumária em 1978. Entretanto, surgiu um último cartucho para tentarmos no ano de 1978: haveria um festival
realizado pelo Teatro Paulo Eiró, bem mais modesto do que o famoso "Fico", mas que se mostra interessante. Concentramos então as nossas forças no objetivo de
participarmos do Festival do Teatro Paulo Eiró, a manter a mesma dinâmica de
ensaios.

Conforme eu já havia comentado anteriormente,
o nosso guitarrista, Osvaldo Vicino, emitira sinais de dispersão, já há algum tempo,
mas nesse segundo semestre, pareceu haver degringolado mesmo, através de sistemáticas
faltas em ensaios, e a demonstrar um ar desinteressado nas ocasiões em que participou, a contrastar com o comportamento animado, com
força de vontade, que exibiu desde o começo das atividades da nossa banda, em 1976.
A gota d'água deu-se no
dia em que estávamos eu e Laert a dirigirmo-nos para o ensaio, na residência da Pollyana Alves em um sábado, e
o vimos a andar em uma rua próxima à Av. Paulista, com os seus cabelos cortados, e a usar
um figurino ao estilo do personagem do ator, John Travolta, no filme: "Os Embalos de Sábado à Noite". Dias depois, ele confessou-nos que
dirigia-se à uma Discothèque naquelas imediações. Aguentamos essa situação de seu distanciamento, por mais um pouco de tempo,
mas a ruptura estava anunciada.




Ao abrir um parêntese, narro que nessa mesma época (setembro de 1978), eu fui com o
Laert assistir alguns shows do Festival de Jazz de São Paulo, que causou muito
alarde na ocasião. Tratou-se de uma edição do famoso Festival de Montreux, Suíça e muitas
atrações internacionais boas desse universo musical, apresentaram-se.
Eu e o Laert (encontramo-nos com Pollyana
Alves e a sua irmã, a super simpática, Eliana Rímoli Alves, também ali nos bastidores do
festival), fomos ver as apresentações de artistas do quilate de: “Chick Corea”, “John MacLaughlin”, “Patrick Moraz”, “Hermeto
Paschoal”, “Egberto Gismonti” etc. Pela TV, nos outros dias em que não fomos
prestigiar ao vivo, (fomos em dois dias), eu pude assistir as apresentações de “B.B.King”, “Etta James”, “Al Jarreau” e outros grandes artistas...

Ao ver o show pela TV, constatei que Etta
James "causou", por levantar a blusa, e cantar com os seios desnudos,
e assim provocar uma reação indignada do comentarista da TV Cultura de São Paulo, Zuza Homem
de Mello, que ignorou o show sensacional que ela estava a realizar, para centrar
a sua fala em suas impressões moralistas.