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quarta-feira, 8 de junho de 2016

1963 - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - 1963: Ao Eleger Predileções & Primeiros Ídolos - Por Luiz Domingues

Em 1963, concomitante com o desenvolvimento da fala e o poder de compreensão cada vez maior de minha parte, a absorção da avalanche de informações que recebia, se intensificava, na mesma proporção em que eu me qualificava para recebê-las.
Eu, Luiz Domingues, em 1963, na porta de minha residência, a posar em frente ao carro de meu padrinho, um Chevrolet dos anos quarenta, intacto e a tinir (alô especialistas em carros vintage: trata-se de um modelo Skoda, ano 1948, por acaso? Realmente eu não me recordo desse detalhe).
 
Nessa altura, eu já tinha as minhas predileções, simpatias & antipatias, embora naturalmente, claro que o senso crítico que eu possuía, era zero % ou algo não muito além disso pela incapacidade infantil normal em formulá-las com argumentos minimamente maduros. Foi uma fase em que o máximo que eu pude exprimir intelectualmente, foi gostar ou não, sem maiores explicações e nenhuma obrigação em ter razões bem fundamentadas para tal...
No campo das histórias em quadrinhos, por exemplo, foi quando tive a primeira demonstração de apreço por tal forma de arte e simpatia confessa por um personagem. Como o meu pai assinava o jornal, "Folha de São Paulo", com a criação de um suplemento infantil chamado: "Folhinha" em 1963, as tiras com personagens do desenhista, Maurício de Souza começaram a serem publicadas ali. 
 
Sendo analfabeto na ocasião, naturalmente que eu pedia para a minha mãe ler o texto contido nos balões e me tornei fã dos personagens, mas com especial predileção por um filhote de Tiranossauro Rex, chamado: Horácio. A identificação foi imediata visto que o personagem era tímido e vegetariano, como eu (ora vejam só... um filhote de T.Rex, que não comia carne... que bizarro), além da sua cor verde, pela qual eu simpatizava. 

Dali em diante, fui a descobrir outros personagens de outras turmas, incluso o universo Disney, do qual nunca gostei na verdade, com uma ou outra exceção a respeito de algum personagem isoladamente, por achar feminino demais ou melhor, na mentalidade que eu tinha naquela fase, aos três anos de idade, era "coisa de menina"... 
A foto acima não é das melhores, a encontrei na internet. Mas é exatamente essa a coleção de livros dos contos dos Irmãos Grimm, que meus pais compraram para me presentear e que minha mãe lia em voz alta para a minha compreensão, nas tardes de 1963, 1964...

E ao misturar conceitos, também, comecei a absorver os personagens clássicos das histórias infantis, ícones da literatura de Hans Christian Andersen ou dos Irmãos Grimm, por exemplo. Na minha ingenuidade, considerava todos iguais, sem distinção. Demoraria um pouco para conhecer o universo dos Super Heróis da Marvel e da DC Comics, mas foi mera questão de tempo.

No futebol, comecei a entender esse mundo, se bem que ainda timidamente. O que primeiro me chamou a atenção foi o interesse generalizado das pessoas, mas que contrastava com o ambiente familiar onde na figura masculina mais próxima e influente possível, eu não encontrava eco. Meu pai era uma avis rara nesse aspecto, pois ele detestava futebol, ao considerar ser uma perda de tempo, uma enganação, porque achava que todos os resultados eram arranjados para arrancar dinheiro das pessoas e por ser um fator alienante em potencial, visto que ele era politizado por natureza, e assim considerava o esporte bretão, uma arma na mão dos poderosos para a manipulação do povo incauto. Não é uma teoria absurda, devo admitir.
Ainda não apaixonado pelo verdão, mas já a colecionar taças...
 
Bem, não sou um adepto entusiasmado da teoria da conspiração a achar que está tudo dominado e somos todos trouxas manipulados pelas corporações, "mas que las hay, las hay"...

Sendo assim, o incentivo para que eu me interessasse, se dependesse dele, seria zero %, mas ele sabia que corria o risco de não me controlar, na medida em que eu crescesse e ao me socializar, sofreria influências vindas de múltiplas situações. E nem precisou entrar em idade escolar para que isso de fato ocorresse, pois isso logo aconteceria assim que comecei a ter mais contato com tios e primos, e sob uma segunda instância, finalmente ao ter maior convivência com meu avô materno, que era um entusiasta do ludopédio, desde o tempo do Clube Atlético Paulistano, e fã de Friedenreich, ou seja, acompanhava o futebol desde os primórdios. 

Eis o álbum de figurinhas do Torneio Rio-São Paulo de 1963, que meu primo mais velho trouxe um dia em minha casa para eu ver, e que foi o primeiro impulso concreto para eu começar a me interessar pelo futebol.

Mas o fator desencadeador mesmo foi através de um outro ícone infantil e absolutamente lúdico: um álbum de figurinhas! Através de meu primo mais velho que já era um santista fanático por conta do Pelé e o grande time que o Santos tinha na ocasião, fiquei encantado quando ele me mostrou o seu álbum oficial do Torneio Rio-São Paulo de 1963, com figurinhas dos jogadores, os uniformes e escudos de todos os clubes participantes etc.  

Não que eu passasse a acompanhar e entender ali naquele instante, porque realmente se dependesse do meu pai, não teria chance de vir a gostar, mas digamos que foi o primeiro sinal que tive para simpatizar com o assunto.  

Na primeira ilustração, o cartaz oficial dos Jogos Panamericanos de 1963, em São Paulo. Abaixo, foto da cerimônia de abertura do Pan 1963, no estádio do Pacaembu.
 
E ainda a falar sobre esportes, houveram os Jogos Panamericanos, em 1963 e São Paulo foi eleita a cidade sede. Lembro dos comentários e da cobertura da imprensa, embora fosse bem modesta se comparada à forma com a qual se cobrem grandes eventos dessa natureza, como Olimpíadas, Copa do Mundo e os próprios Jogos Panamericanos nos dias atuais, com super cobertura em canais de TV a cabo especializados e a internet a todo vapor. 

Pai norte-americano e filha brasileira. Jazz e samba tudo misturado. Família Pitman, Eliana e Booker

No campo musical, eu continuei a ouvir no rádio e ver na TV, muitos artistas e nessa altura, também já a reconhecer figuras internacionais, inclusive, casos de Ray Charles, Frank Sinatra, Dean Martin, Bing Crosby, Elvis Presley e muitos outros. 

Gostava da Leny Eversong, que cantava em inglês e francês, também e me confundia ao ponto de eu não saber se ela era brasileira. Mesmo caso da cantora, Eliana Pitman, que parecia uma diva do jazz norte-americano (se reforçava tal impressão pelo fato dela ser de fato, filha de um músico norte-americano de jazz, Booker Pitman). 

Nessa altura, as músicas dos Beatles já estavam a serem executadas sob um verdadeiro massacre nas emissoras de rádio e por conta dessa avalanche, começavam a aparecer na TV, artistas brasileiros similares, a buscar adequação com o novo modismo vindo da Inglaterra. Lembro de bandas como o Jet Blacks e The Clevers, se bem que esses artistas seguiam muito mais a cartilha do som instrumental de bandas como The Shadows e The Ventures.  
Dentro de casa, o primeiro disco de Rock genuíno que eu ouvi e fazia parte do acervo dos meus pais, foi a trilha sonora do filme, "Rock Around the Clock" ("Ao Balanço das Horas", no título em português), portanto foi com um pioneiro do Rock, Bill Halley, que tive o primeiro contato mais direto com tal escola musical, tendo esse LP em casa à disposição para ouvir quando quisesse.

Na TV brasileira do início dos anos sessenta, a música abundava e com muita qualidade, vide três exemplos acima nas fotos

Meus pais gostavam de assistir programas musicais na TV e eu também. Ali, a MPB oriunda de várias vertentes se apresentava, mas haviam também artistas de outras searas musicais. Muita música instrumental, com orientação jazzistica, via combos em trio com a formação clássica a contar com piano, bateria & baixo acústico, predominantemente (a onda dos combos, estilo Zimbo Trio, Tamba Trio etc), porém muitas vezes acrescidos com instrumentistas adicionais, a tocarem sopros, sax em sua predominância e trompete em segundo instância.

Meu pai tinha também várias caixas com coleções musicais temáticas, que foi um tipo de produto muito comum que a indústria fonográfica ofereceu ao consumidor, nessa época. Eram caixas a conter música étnica, por exemplo, com cada volume a representar a música folclórica de um determinado país, ou trilhas sonoras de diversos filmes. Haviam também caixas com versões orquestradas para sucessos multifacetados do momento, ou de épocas passadas.


Um bom exemplo desse tipo de caixa com vários LP's, denominada "Festival de Música Popular", foi lançada com a chancela da revista de variedades: "Seleções de Reader's Digest. Tal revista, que foi um clássico almanaque de leitura rápida ("leituras digestivas", para ler após as refeições, essa era a mensagem subliminar), variada e destinada ao cidadão comum norte-americano, fazia sucesso também aqui no Brasil, em versão em português, desde os anos quarenta, acredito. 

Não era vendida em bancas, mas apenas por assinatura. E sendo assim, essa caixa patrocinada pela referida revista, chegou a milhares de lares brasileiros, incluso o nosso, e meu pai adorava tal coleção. Meu avô materno também a possuía.


Com dez Lp's, era eclética na sua atribuição musical, com cada LP a apresentar um repertório completamente diferente, um do outro, mas todos os discos foram gravados por uma orquestra cujo nome, além de outras informações não constavam na ficha técnica da caixa (uma grande pena não constar informações nesse sentido!). 

Havia um LP somente com canções folclóricas brasileiras, com várias músicas de estados diferentes, outro de música erudita e assim por diante. 

Um desses LP's, por exemplo, continha marchas militares, incluso internacionais. Rapidamente eu associei várias marchas militares que ali ouvia, aos filmes de guerra, norte-americanos que via na TV, e onde tais marchas eram executadas mesmo em pequenos trechos, com tais fatores a reforçar o meu entusiasmo por filmes dessa natureza e a enfocar a Segunda Guerra Mundial, principalmente. 

Sob uma outra atribuição que pessoalmente conferi à essa coleção com discos a apresentar marchas militares, eis que tal LP se tornou também um sinal subliminar para a minha percepção. Se no domingo pela manhã eu fosse acordado pelo volume absurdo com o qual meu pai ouvia essas marchas, apesar da maneira violenta e desagradável para se despertar, era sinal que o meu "velho" (que na verdade era bem jovem na época, com apenas 29 anos de idade), estava com bom humor.

Por falar em filmes, a partir de 1963, comecei a apreciá-los intensamente, de fato. Não digo que os entendia perfeitamente, a se depender de cada caso e sua complexidade inerente, mas já identificava atores, cujos nomes decorei foneticamente, nos casos dos internacionais e com pronúncias exóticas na minha compreensão. 

E comecei a apreciar também, profundamente, o aspecto do tempo que via nos filmes. Achava extraordinário ver filmes produzidos nas décadas de vinte, trinta e quarenta e notar a particularidade de cada época. 

Filmes cinquentistas também eram exibidos, mas eram considerados "recentes", naturalmente.  Bem, posso afirmar categoricamente que de 1963 em diante, o cinema me arrebatou para sempre. Eu adorava os filmes de guerra, policiais/noir, históricos, os ditos "capa-e-espada" que designavam filmes ambientados na Idade Média e/ou Renascença até a Idade Moderna mais ou menos, épicos com ambientação na antiguidade, comédias, e claro, bem pequeno e sendo representante do gênero masculino, me tornei fã incondicional de filmes de ficção científica ou Sci-Fi, como são chamados ("coisa de menino"...).

Mesmo sem saber (e demoraria um pouco para ter essa consciência), me tornei fã de diretores como: Frank Capra, Billy Wilder, Rouben Mamoulian, William Wyler, Michael Curtiz, Ernst Lubitsch, John Ford, Jack Arnold... e a lista só aumentou com o passar dos anos. 

Foi em 1963, também, que o meu pai me levou pela primeira vez a uma sala de cinema. Havia a restrição por eu não ter ainda a idade mínima para ingressar em uma sala de cinema, cinco anos completos, mas o porteiro não falou nada e nós entramos. Boquiaberto vi uma incrível imagem colorida naquela tela enorme, em uma sessão matinal dominical, que era bem comum nos cinemas daquela época, destinada às crianças. Foi uma seleção com desenhos antigos, muito provavelmente da produtora, Fleischer e tal experiência repetir-se-ia em muitos outros domingos entre 1963 e 1965, através de sessões marcadas para as dez da manhã.

Outro aspecto cultural muito particular e marcante na minha percepção, se deu nesse ano. Meus pais já haviam comprado coleções de livros infantis antes e entre elas, havia uma que gostava muito, com os contos clássicos dos Irmãos Grimm, que minha mãe costumava ler para a minha audição, em dias úteis após o almoço, estrategicamente para provocar o meu sono e poder deixá-la cuidar das tarefas domésticas em paz. 

No entanto, uma nova coleção de livros me foi presenteada pelos meus pais, ao remeter ao "Dia das Crianças" do ano de 1963 e mais adequada para ser apreciada quando eu fosse mais velho, sendo portanto uma espécie de investimento que fizeram para a minha formação. 

Não poderia ter sido algo mais certeiro, pois mesmo ainda analfabeto, pequeno e muito infantil, eu adorei aquela coleção de uma forma absurda, como se fosse algo que eu esperasse ter e na verdade, é claro que nem sonhava com sua existência.  

Chamava-se: "Trópico" e era uma série de tomos destinados ao público infantojuvenil, a abordar assuntos de interesse cultural em grande amplitude, através de pequenas dissertações ricamente ilustradas em traços realistas e muito bonitos. 

Foi um lançamento da Editora Martins Fontes e falava sobre assuntos relacionados à história em geral, artes, ciência a abordar descobertas & invenções, biografias de personalidades benfeitoras da humanidade em vários campos, curiosidades sobre a origem de diversas objetos, fenômenos da natureza etc. 


A organização dessa enciclopédia livre não guarda uma cronologia rígida, ou seja, após um artigo sobre  a civilização dos Fenícios, por exemplo, a próxima página poderia enfocar a vida e obra da Madame Curie, ou o resumo de uma obra literária, como "Os Miseráveis", de Vitor Hugo. Mais uma página virada e o assunto seria a invenção da máquina fotográfica ou a prensa de Gutemberg... enfim, só pelas figuras, a evocar tais temas, eu já fiquei louco pelos livros e quando aprendi a ler enfim, os devorei.  
"Trópico" se tornou tão importante na minha vida, que assim que eu me alfabetizei, comecei a escrever um "livro", a imitar acintosamente a predisposição dessa redação que me influenciara, para poder falar sobre assuntos culturais de diferentes motivações, sem guardar a cronologia rígida. 
A minha obsessão pela coleção "Trópico" se traduziu nessa tentativa infantil para imitá-lo, quando alguns anos depois, em 1968, comecei a escrever o que teria sido o meu "primeiro livro": "O Mundo em Qualquer Época". 
 
Claro que foi um esboço absolutamente infantil, com toda a ingenuidade e falta de profundidade inerente, para ficar restrito a uma lembrança pessoal guardada com carinho, apenas. Chamei-o como: "O Mundo em Qualquer Época", escrito em 1968, e claro, é apenas uma coleção com algumas dissertações que criei sobre assuntos variados, ao estilo do que eu adorava no "Trópico", anotadas em um caderno escolar e manuscrito a lápis, com caligrafia sofrível e a conter erros crassos de ortografia e gramática, inevitáveis à minha condição infantil de recém-alfabetizado na época.

Seriados e desenhos também se tornaram paixões arrebatadoras. Sobre desenho animado, foi de se esperar, mas o meu apreço pelos seriados para adultos já nessa idade, denotou que seria algo a me acompanhar pelo resto da vida. 

O emblemático e longevo seriado norte-americano, "Bonanza"

Eu adorava inúmeras séries que eram exibidas pela TV. "Bonanza" e "Bat Masterson" foram muito queridas, entre tantas outras. Gostava muito da saga da família Cartwright, personagens simpáticos e que pareciam se portar de forma justa e esse valor em específico, a justiça, eu já admirava muito, mesmo nessa idade. 

Tratava-se do cotidiano de um pai e três filhos, cada um desses filhos, de uma mãe diferente e todos donos de uma fazenda gigantesca ("Ponderosa"), latifundiários, portanto. 

O meu personagem predileto foi o "Hoss Cartwright", interpretado por Dan Blocker. Grandalhão e bruto, forte ao extremo e bom de briga, mas ao mesmo tempo dócil, infantil e muito ingênuo. Anos depois eu soube que não fora somente eu que gostava desse personagem, mas quase todas as crianças norte-americanas e de todos os países do mundo onde Bonanza fez sucesso.  

Sobre Bat Masterson, eu adorava o jeito inabalável de um gentleman que o personagem protagonista ostentava, em meio ao ambiente inóspito em que interagia, em pleno "velho oeste" norte-americano, misturado aos broncos que o habitavam.  
E muito mais que isso, eu gostava bastante de seriados tais como: Dr. Kildare, Perry Mason, Ben Casey, Patrulha Rodoviária, Rota 66, I Love Lucy, Os Três Patetas e muitos outros, incluso adaptações de antigos curta-metragens das décadas de dez e vinte, criados nessas décadas remotas, para serem exibidos na TV como sitcom, tais como obras de Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd, Laurel & Hardy e obras mais então recentes (produção dos anos quarenta), como Abbott & Costello.
Sobre "Twilight Zone", eu passei a adorar tal seriado, apesar de confessar que o assistia a sentir medo... e "Combat", um seriado sensacional que só reforçou o meu apreço pelos filmes de guerra.
 
Em termos de desenhos animados, também já tinha os meus prediletos e foram muitos. Tartaruga Touché, Pepe Legal, Lippy & Hardy, Zé Colméia, Jambo & Ruivão e um dos mais queridos em 1963: Wally Gator, um jacaré (na verdade um Alligator, daí o trocadilho com o nome do personagem), bom vivant que usava o zoológico de Los Angeles, onde morava, como se fosse seu spa particular... absolutamente hilário!
Programas infantis como Sessão Zás-Trás e Pullman Junior, também me agradavam, mas eu gostava mesmo era dos desenhos que exibiam, mais dos que as brincadeiras e gincanas que faziam ao vivo, no estúdio.

Sobre acontecimentos do ano, eu me lembro bem da morte do presidente, norte-americano, John Kennedy. A repercussão que teve na imprensa de então, foi enorme e gerou comoção total. 

Lembro das fotos nos jornais e revistas, a cobertura da TV e dos comentários dos adultos. Impressionou-me a ideia de que os tiros na sua cabeça lhe arrancaram os miolos do cérebro, como os adultos falavam ao meu redor e eu achei aquilo uma ato incrivelmente impressionante e terrível, e convenhamos, claro o que o foi mesmo... 

A antiga sede da Câmara Municipal de São Paulo, no Palacete Prates, da Rua Líbero Badaró, entre o Largo São Bento e o Viaduto do Chá, no centro velho de São Paulo e local onde o meu pai trabalhava desde 1955. Fui muitas vezes com ele ao seu local de trabalho e assisti sessões plenárias dos vereadores e muitos deles que tiveram projeção nacional na política, a posteriori. A sede do parlamento municipal paulistano funcionou nesse velho palacete até meados de 1969, quando foi transferida para um prédio moderno e construído para esse fim, no Viaduto Jacareí (Palácio Anchieta), ali perto mesmo e onde funciona desde então, até os dias atuais.
 
Eu já começava a me interessar-me pela política também e aí pela influência direta do meu pai que adorava a discussão e pelo fato dele ser funcionário da Câmara Municipal de São Paulo, conhecia muitos vereadores e seus assessores. Em breve, seria uma quase rotina na minha pequena compreensão de então, acompanhá-lo ao parlamento municipal e assistir sessões plenárias sentado na galeria dos munícipes ouvintes, para ver e ouvir os discursos de políticos. 

Muitos desses que eu vi a discursar, se tornaram deputados estaduais e federais e até senadores e governadores no futuro. Entrei em gabinetes e cumprimentei muitos deles, como Ulisses Guimarães e Franco Montoro, entre tantos outros. 

Sobre o meu cotidiano prosaico, eu já mantinha os meus hábitos e predileções. Gostava de uma série de guloseimas típicas da época, e de 1963 em diante, se tornou um hábito sair com meu pai após o jantar e irmos a uma bombonière que ficava ao lado do cinema acoplado ao colégio Agostiniano São José, que se localizava na primeira rua paralela em que morávamos, quando ele comprava um singelo tablete de chocolate branco, da marca Galak. Voltava então para a casa a saboreá-lo, sob a intensa garoa paulistana, que nunca falhava e a noite prosseguia em família, sob cobertores, em frente ao aparelho de TV, a assistir tudo o que descrevi acima e muito mais atrações. 
Fachada do Colégio Agostiniano São José, na Rua Marquês de Abrantes, no bairro do Belenzinho, zona leste de São Paulo, em foto mais atual.
Foto mais moderna do antigo cinema pertencente ao Colégio Agostiniano São José e que na época em que morei no bairro, era conhecido informalmente como o "cinema dos padres". Já faz tempo, se tornou um auditório para atividades curriculares e culturais para os alunos, apenas. 
 
Não é sempre que posso, mas vez por outra eu gosto de ir ao bairro do Belenzinho e ali ao lado do antigo cinema, que hoje é usado como auditório do Colégio Agostiniano São José, não existe mais a bombonière do jeito que ela era no início dos anos sessenta, mas funciona uma pequena lanchonete. Vou ali, peço um Galak e sento-me na mesa, para passar entre dez a quinze minutos a me recordar desse tempo bom que vivi ali naquele bairro, naquela década e o sabor do chocolate me ajuda a reativar as lembranças doces...

Gostava muito também do chocolate em forma de cigarros, da Pan, um clássico da época. Apesar da dificuldade que havia para se desembrulhar a embalagem, e que invariavelmente fazia o pouco conteúdo de chocolate existente, derreter na mão da criança, o sabor valia a pena. 

E ninguém na época achava perniciosa a ideia da embalagem do chocolate simular um cigarro, com a criançada a fazer pose como adulto, a segurar o cigarrinho na mão, apesar de que na minha compreensão de hoje em dia, seja um óbvio e absurdo incentivo ao tabagismo, ao glorificá-lo para crianças...

Tudo o que descrevi sob o âmbito cultural, me influenciar fortemente e logo a seguir, a música começaria a ganhar mais espaço, sem com que os outros aspectos fossem necessariamente diminuídos. Pelo contrário, a amplitude da minha visão caminhava em franca expansão. Estava na primeira infância ainda e um mundo de percepções novas se mostravam ali na frente, prontas para serem descobertas.  

E o Rock estava a esquentar... mesmo com a resistência sistemática da parte das pessoas conservadoras, com valores mais antigos e arraigados como modus operandi e que não engoliam a estridência das guitarras e o cabelo "longo" dos novos artistas a lhes cobrirem as orelhas, pareceu ser algo inexorável e os sinais só demonstravam apontar mesmo para se reverter em um processo irreversível.  
Aos poucos, aquela carga musical tão vibrante respingar-me-ia, apesar da minha pouquíssima idade na ocasião. Mas eu também estava a crescer, portanto... encontrar-nos-íamos mais cedo ou mais tarde...

Ao se encerrar o ano de 1963, a Beatlemania já era uma febre no Reino Unido. Em poucos meses, a invasão britânica chegaria à América e não foram somente esses quatro cabeludos de Liverpool, mas como um exército, muitos outros desembarcariam na mesma Blitzkrieg irreversível!

Escondam as suas filhas: os Rolling Stones estão em ação, também!
Continua...

domingo, 5 de junho de 2016

1962 - Minha Ligação Inicial com o Rock na Infância e Começo da Adolescência - Ao Começar a Absorver os Signos Culturais - Por Luiz Domingues

1962, foi o ano em que comecei de fato a entender, interagir e absorver o mundo e toda a inacreditável gama de informações nas quais ele se mostrava e se colocava ante a minha percepção infantil. A viver a tenra infância, é claro, e assim a absorver de uma forma bem lenta, sem nada fora da normalidade, eu não fui nenhum gênio infantil, nenhum precoce fora de série e tampouco um menino "indigo" ou "cristal", mas apenas uma criança comum.  
Eu, Luiz Domingues, em 1962, aos dois anos de idade, quando comecei a receber o legado cultural do mundo...
 
Mesmo assim, a carga que comecei a receber foi significativa e pelo fato de eu ter uma boa memória para acontecimentos de longo alcance, posso afirmar que tenho sim, lembranças desse ano.
Claro, nessa idade, tudo o que absorvi foi circunscrito ao âmbito familiar e o que absorvi de forma externa, foi via Rádio, TV, discos, e jornais & revistas. Com o rádio, TV e vitrola de casa a todo vapor...
E também com as revistas e os exemplares do jornal, "Folha de São Paulo" que o meu pai assinava, mas evidentemente que o meu interesse inicial e capacidade de entendimento se restringia somente à apreciação das ilustrações e convenhamos, nessa idade, sem maior condição para estabelecer associação de ideias, mas apenas a apreciar as suas formas superficiais, logicamente. Havia também os exemplares do jornal dominical, Shopping News, um simpático jornal de bairro, distribuído gratuitamente nos lares de diversos bairros da minha cidade de São Paulo.

Ao falar de música, o rádio colocado estrategicamente na cozinha, tocava o dia inteiro. A minha mãe preparava o almoço a escutá-lo e costumava cantarolar junto com os artistas que soavam, algumas canções que gostava. A minha lembrança consegue recuar ao ponto de reconhecer músicas que tocavam em maior profusão, brasileiras ou internacionais.  
Lembro-me de artistas da velha guarda da MPB, tais como: Vicente Celestino, Silvio Caldas e Dalva de Oliveira, mas também houve a minha atenção para Ângela Maria, Cauby Peixoto, Nelson Gonçalves e sambistas como Cyro Aguiar, Miltinho, Elza Soares, Moreyra da Silva, o grupo "Demônios da Garoa" e muitos outros.  
Artistas dito "jovens", tais como: Carlos Gonzaga, Tony & Cely Campelo, Sérgio Murilo, Demétrius e outros, também entravam nesse esquadro...

Rapidamente eu comecei a associar as músicas à figura dos artistas pela TV. Dei sorte, porque a grade das emissoras tinha muita programação musical nessa época, e daí se tornou automático associar as músicas aos artistas, além de absorver os comentários dos adultos ao meu redor, a reforçar tais signos.

O que era regular na tela da TV em 1962: muita música! Na primeira foto: Jair Rodrigues, Bibi Ferreira e Elis Regina. Na segunda, Elizeth Cardoso e Cyro Aguiar.

Uma das primeiras observações que eu fiz por dedução ingênua, dada a tenra idade e da qual se tornou um paradigma por algum tempo, foi que o artista em geral, era um ser "especial", um tipo de pessoa notável, acima da normalidade das pessoas comuns. Na minha então imaginação infantil, ouvir as vozes dos cantores no rádio e vê-los a cantar na TV, acompanhados de músicos, geralmente em formação orquestral, denotava uma grandiosidade notável.  

Fora isso, achava o gestual dos artistas ao se apresentarem na TV, acrescido de sua formalidade do seu vestuário (com homens geralmente a trajarem smokings e as moças com vestidos aptos para festas), algo fora do comum, como se fosse sempre algo a denotar um caráter excepcional. 

Claro que eu achava isso imponente, sob uma primeira leitura bem prosaica, infantil e distante da compreensão mais categorizada da realidade, mas não muito distante da verdade, ao se considerar como se portava o métier artístico da época, ainda impregnado por valores tradicionais, ao remeter fortemente aos signos das décadas anteriores e com a ideia glamorizada de artistas a se apresentarem com pompa e circunstância em night clubs, shows em cassinos etc. 

Foi portanto, uma concepção antiga e de certa forma americanizada da cena artística, muito embora a maioria desses artistas que eu via nos programas musicais da TV, fossem bem brasileiros, ao apresentar um cancioneiro enraizado na cultura nacional, notadamente o samba sob várias vertentes e outros com tendências latinizadas, no sentido hispânico do termo.  

Ainda a falar sobre música, a vitrola caseira também passou a exercer uma influência forte na minha formação cultural. Meus pais gostavam de ouvir música e com volume bem alto, além do fato de que haviam discos do acervo familiar, muito interessantes.  

Ecléticos, ambos gostavam de muitos gêneros diversos e assim, os discos que compravam eram variados, ao ir da música brasileira à latino-americana/hispânica, muita música instrumental orquestrada, antiga e moderna (de Glenn Miller, que meu pai adorava a Billy Vaughan, mais moderno para a época), a música Pop do momento, como Cely Campelo, música erudita que a minha mãe gostava por ser formada como professora de piano, coletâneas de sucessos norte-americanos & europeus e muitas, muitas mesmo, trilhas de filmes, que o meu adorava e eu herdei esse gosto que ele mantinha.  

Esse disco rodou bastante na pick-up de casa. Trilha sonora do filme: "Show Boat" ("O Barco das Ilusões"), e com a incrível música, "Old Man River" em destaque, provavelmente o primeiro blues que eu apreciei, conscientemente... 
 
Tais discos com trilhas de filmes, em breve ajudariam a fomentar em minha percepção, a paixão pelo cinema, quando os associei aos filmes em si e comecei a ter contato e entender de fato, mais para frente, os filmes e seriados que eram exibidos na TV.   

Portanto, um veículo apoiava o outro e entre rádio, TV, discos e impressos em geral (livros, revistas e jornais), rapidamente me encantei com as várias formas de arte e signos culturais em geral.  

Sobre os acontecimentos gerais do ano, ao iniciar enfim os rudimentos da fala e começar a entender o significado das coisas, eu comecei a interagir e despertar a curiosidade sobre tudo, como qualquer criança normal de dois anos de idade. 

No meu caso em específico, comecei também a me interessar por notícias, mesmo ao conter a parca compreensão dos fatos. Achava fascinante prestar atenção no meu pai quando ele lia o jornal e comentava em voz alta o que lia. Em minha percepção ingênua, achava que tudo o que ele discutia por ter lido no jornal, devia ser interessante e assim, mesmo sem compreensão e sendo analfabeto, passei a nutrir grande simpatia pelo jornal impresso, mesmo que na prática, demoraria anos para poder degustá-lo por conta própria.  

O mesmo se deu com o jornalismo do rádio e da TV. Achava imponente o tom empregado pelos locutores, e de fato, nessa época os noticiários eram muito mais formais dos que os dos dias atuais. Ficar a ouvir/assistir aqueles homens a narrar com voz impostada, me passava a impressão de algo solene, como se sempre narrassem fatos importantes. 

E assim, me pus a gostar daquilo, mesmo sem entender o conteúdo, mas já a alimentar uma simpatia pelo jornalismo. Claro, o impacto da TV, mais diretamente em meu caso, se deu com os desenhos animados e programas infantis em geral. Desenhos estrangeiros em sua maioria esmagadora, mas que eu nem percebia isso na época por conta da dublagem, obviamente.  

Em 1962, e por muitos anos, a programação de desenhos exibia desenhos modernos, notadamente da produtora norte-americana, Hanna-Barbera, mas também de outras companhias como a Warner (através da sua série: Looney Tunes), a de Walter Lantz e produções antigas que remetiam aos primórdios das animações, desenhos produzidos especialmente para o cinema e que eram exibidos antes dos filmes, nos anos trinta, quarenta e cinquenta. Pouco tempo depois surgiria a Depatie-Freleng Enterprise e a Mirisch, que na verdade eram um só companhia, embora parecessem distintas.

Eis acima um desenho de 1937, produzido pelos estúdios Fleischer, feito para exibição nos cinemas, mais um entre vários que passavam fartamente na TV, durante as décadas de cinquenta e sessenta, sendo divertido, muito bem feito e a tocar música de qualidade. Geralmente, desenhos dessa natureza, apresentavam obras eruditas (o que exemplifiquei acima, contém trechos da Rapsódia Húngara Nº 2 de Franz Liszt, por exemplo), Jazz sob diversas vertentes e o cancioneiro Folk norte-americano em versões de gravações dos anos vinte e trinta, principalmente. Foi uma tremenda influência rica para a criançada da época, eu incluso. Recomendo o canal do YouTube, de onde extraí esse link acima, que tem vários outros exemplos com animações dessa natureza e época.

Havia uma carga forte de música nos desenhos, também e por conseguinte, a influência de várias vertentes da música norte-americana se mostrava brutal, através dos desenhos. Apreciar standards de jazz, música erudita, cancioneiro Folk norte-americano; country & western e Blues, passou a ser um prazer, logicamente.  
Sobre a TV em si, além dos desenhos, e da música que já citei, a carga de seriados e filmes foi arrebatadora e já a partir de 1962, eu fui capturado para sempre, pelos dois gêneros.  

Ao assistir com os meus pais e muitas vezes na companhia de minha avó paterna, tios e primos, ter contato com o cinema e seriados, se tornou um hábito que perpetuei na minha vida.

Ao sair dos aspectos artísticos, a absorção de cultura sob outros parâmetros também foi massificante a partir de 1962. O contato com a rua passou a ser mais um objeto de minha observação mais arguta.

Eu gostava imensamente de passear com a família e nessa época, não por mal, mas por conta das regras de segurança frouxas, ninguém usava cinto de segurança nos automóveis. Pior que isso, eu viajava no colo da mamãe, geralmente e sem notar nenhuma preocupação adicional com a segurança dos meus pais ante tal predisposição muito arriscada. 

Na necessidade de uma freada mais brusca, o meu pai tirava a mão do volante e nos segurava, eu e mamãe, ao mesmo tempo no braço, literalmente, ou seja, nada mais prosaico.  

Eu gostava de olhar os letreiros dos cartazes de rua (outdoors) e placas das lojas, ver a iluminação no período noturno, ver pessoas estranhas nos carros ao redor, nos ônibus e gente a caminhar pelas ruas.


Como eu já disse em capítulo anterior, a cidade de São Paulo tinha garoa quase o ano inteiro, no período noturno. O frio era de rachar, mas eu gostava muito da sensação do ar gelado e por ver os meus pais e todo mundo, aliás, bem agasalhado. Achava todo mundo elegante nos dias frios e associava isso imediatamente aos seriados e filmes norte-americanos e europeus que eu assistia na TV. 

Tal percepção se tornou um signo forte para a minha formação, ao ponto de eu demorar para entender o caráter tropical do Brasil, mesmo por que, São Paulo era uma cidade fria e garoava toda noite, portanto, na minha primeira avaliação do mundo e sem nenhuma noção sobre geografia básica é claro, achava que éramos iguais aos povos do meridiano norte.

A formalidade moldou a minha primeira impressão do mundo. A educação a ser forjada pela máxima de se respeitar os mais velhos sem contestação e o apuro para verbalizar a linguagem da melhor maneira possível, a pronunciar perfeitamente as palavras, conjugar corretamente os tempos verbais e por ser estimulado a aprender vários sinônimos para cada palavra, a fim de enriquecer o vocabulário, se mostrou uma regra geral, pelo que eu entendia na época.

Sobre os aromas e sabores do mundo, rapidamente elegi os meus preferidos e os detestáveis, igualmente. Através dos lápis de cor e da observação das roupas que as pessoas ao meu redor usavam, foi que eu também pude escolher minhas cores prediletas e as que me desagradavam. 

Sobre os sabores, a minha predileção inicial recaiu sobre os alimentos adocicados, em detrimento dos salgados. Tal predileção persistiu por anos, até chegar em um ponto da vida adulta em que finalmente eu estabeleci um maior equilíbrio entre os dois polos, mas ainda prefiro a vertente doce.

Um fenômeno muito interessante me ocorreu desde os primeiros meses de vida, em 1960, e cuja explicação lógica não disponho até hoje, mas o fato é que sou um vegetariano de nascença. Ainda bebê rejeitava sumariamente as primeiras papinhas a conter qualquer tipo de alimentação carnívora e assim ao gerar estupefação familiar, fui levado a diversos pediatras, como se isso fosse algo bizarro e de fato, naquela época e pela minha idade mínima, o foi, certamente.  

Mediante exames e avaliações dos doutores, nada de anormal foi constatado no meu organismo e tal fato foi atribuído ao paladar natural, com rejeição sumária de tal tipo de alimento. Apesar de ter tido a sorte de ter nascido em uma família que nunca desrespeitou a minha rejeição natural e aceitou assim, a minha opção natural pelo vegetarianismo, fui alvo de um tipo de "bullying", não violento, mas bem desagradável, da parte de muitos parentes por toda a infância e adolescência, ao dar conta de que jamais se conformariam com essa situação e não me poupavam de brincadeiras idiotas à mesa, em inúmeras circunstâncias ocorridas em refeições familiares festivas ou mesmo fortuitas.  

O Papa João XXIII, Sumo Pontífice da Igreja Católica, em 1962

A questão religiosa teve o seu papel forte, também. Com a esmagadora parte da família paterna, que foi mais presente nos meus primeiros cinco anos de vida, a professar o clássico catolicismo, claro que observar orações, símbolos religiosos e a liturgia de missas, fez parte da vida. É lógico que achava entediante e não há como um menino de dois anos de idade, considerar o ritual contido em uma missa, estimulante, com todo o respeito. 

Impressionava-me a morosidade do ritual e o respeito subserviente, quase sob um tom de temor que os adultos demonstravam em relação ao padre e seus comandos, além das imagens a conter toda a morbidez que norteia o catolicismo como um modus operandi, ao fazer de um templo, quase um set de filme de terror. 

Foi em tese, o meu primeiro contato com a ideia de morte e sofrimento, medo e obediência servil. Claro, tais observações não correspondem ao que eu poderia analisar racionalmente à época, mas ilustram o que eu percebia, mas não entendia, logicamente, reforçados agora pela consciência do adulto que me tornei, posteriormente.  

A minha mais remota lembrança viva sobre o esporte e o futebol em específico, vem desse ano. Lembro-me de ouvir gritos e o ensurdecedor efeito dos fogos de artifício ao redor de casa e meus pais a comentarem que as pessoas estavam eufóricas pelo fato do Brasil ter ganho um campeonato. Nada disso eu entendia, propriamente dito. Nem mesmo o conceito sobre o que era o "Brasil". Menos mal, eu conseguia entender que existia o bairro do Belenzinho, que fazia parte de uma cidade chamada, São Paulo e cujo nome era assim por causa de um santo católico. A dimensão do que era realmente o "Brasil", eu apenar só vim a conhecer depois. E sobre o futebol, só no ano seguinte, 1963, comecei a entender o que era tal jogo e o que representava ao suscitar tanto entusiasmo.

Nessa altura, eu já havia dominado as nuances da ordenação do tempo. Sabia a noção de dias da semana e meses do ano e já começava a associar efemérides aos meses e estações climáticas do ano. Portanto, já sabia que o meu aniversário era sempre comemorado sob o frio de inverno e isso me agradava, ao passar a ter um certo prazer recôndito pelo fato, por conta da simpatia que nutria pelo frio.  

Eu, Luiz Domingues, em 1962, com papai e mamãe em meio a um passeio a um local não identificado e ao posarmos para a foto em frente ao carro da família, um valente Volkswagen, um grande ícone sessentista no Brasil...
 
Entretanto, eu nunca gostei de festa de aniversário. Não demonstrei isso claramente durante alguns anos, mas cheguei em um ponto onde tal rejeição me fez extravasar isso abertamente, aos meus pais. Portanto, muito pequeno, eu não tive alternativa a não ser tolerar festas organizadas por eles, com toda a boa vontade do mundo, eu sei e agradeço, mas a verdade é que nunca gostei de comemorar aniversário. 

Em 1962, os meu pais organizaram uma festa pelo meu natalício, da qual me lembro, claramente. Nesse dia, eu usei calça azul, camisa branca e uma gravata borboleta, de cor vermelha. Havia uma paletó a combinar com a calça e como acessório, um suspensório. 

Foi mais uma festa para adultos, no entanto, pois eu não tinha relações de amizades com crianças da minha idade pela vizinhança, não frequentava escolinhas infantis e isso era raro para qualquer criança nessa época, aliás, e além disso, o grande contingente de meus primos, filhos dos irmãos da minha mãe, moravam em cidades interioranas distantes uns dos outros. Eu tinha quatro primos por parte de mãe que viviam em São Paulo que não puderam ir e assim, além de eu mesmo, só havia uma criança na festa, meu primo por parte de pai, que a ostentar nove anos de idade na ocasião, não foi uma companhia ideal para brincar, dada a diferença etária entre nós.

Meu presente mais interessante, ganho em 1962, foi bem parecido com esse carro real de polícia norte-americana, da foto acima. 

Ganhei muitos presentes, no entanto e um dos que mais gostei, foi um carro de polícia, ao estilo norte-americano. De fato tratou-se de um Impala (acho que era, não tenho certeza), com inscrições na sua lataria da polícia de Nova York (NYPD), "giroflex" no teto que acendia, portas que abriam e tudo movido a pilha. 

Fiquei louco pelo carro, por que imediatamente o associei aos seriados e filmes que eu via na TV. Infelizmente, em um ato de imprudência tipicamente infantil, o quebrei na mesma noite, quando no afã de fazê-lo andar mais rápido do que o normal lhe permitia pela ação das pilhas, através do meu impulso, eu o arremessei contra a parede, ao avariá-lo. 

Fiquei muito frustrado com tal desfecho e a justificativa de meu pai ao me dizer que o levaria para o conserto na segunda-feira, não amenizou a minha contrariedade. Enfim, fatos desagradáveis aconteciam na vida, a gerar insatisfações e assim, eu estava a começar a lidar com tal dissabor. 

Muita coisa importante aconteceu no ano de 1962 pelo mundo, mas ao contrário dos dois capítulos anteriores, quando eu mencionei muitos fatos de 1960 e 1961, a partir deste, foco no que mais me influenciou diretamente, visto que a partir desse ano, eu estava a criar consciência, progressivamente, neste instante e ao longo dos anos vindouros, naturalmente. 

Resumidamente: guerra fria a ficar quente e quase a ferver com a crise dos mísseis em Cuba, guerras por independência em países da África, guerra do Vietnã a se agravar, movimento pelos direitos civis na América, turbulência política no Brasil, morreu Marilyn Monroe.

Ano da criação do personagem do "Incrível Hulk", aqueles garotos de Liverpool que eu mencionei nos textos sobre 1960 e 1961, trocaram de baterista e começaram a sua trajetória rumo ao ultra sucesso mundial, James Bond saiu dos livros e também se tornou um ícone do cinema e os anos sessenta estavam por começar a se destacarem além do esperado, para se tornar na verdade, a mais revolucionária década do século XX, e eu estava ali vivo em meio a esse furacão, não com a idade ideal para absorver tudo isso em cheio, todavia, sou muito grato aos cosmos por ter estado vivo nessa década.

Escrevi em 2012, uma matéria a traçar um paralelo entre o lançamento do primeiro single dos Beatles e o primeiro filme de James Bond. Ambos em outubro de 1962, fenômenos britânicos e  com a capacidade explosiva de se tornarem icônicos mundialmente, e foi o que ocorreu. Coincidência? Acho que não...

Abaixo, o Link para ler a matéria citada no meu Blog 1:

http://luiz-domingues.blogspot.com.br/2012/10/love-me-do-mr-bond-por-luiz-domingues.html

Bem vindo aos anos sessenta... que os jogos comecem!
Continua...