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quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Crônicas da Autobiografia - O Multi Tecladista que não Conhecia Música - Por Luiz Domingues

Aconteceu em 1979, entre o final do Boca do Céu/Bourréebach, e o início do Língua de Trapo
 
Mais ou menos entre julho e setembro de 1979, o Boca do Céu, a minha primeira banda e que havia mudado de nome para Bourréebach no início de 1978, já havia encerrado atividades há meses.

Nesse ínterim, ao final de junho e no início de agosto, eu já havia apresentado-me duas vezes com o "Grupo de Poesia e Música da Faculdade Cásper Líbero", que foi, nada mais, nada menos que o embrião do Língua de Trapo. Mas como não havia ainda a firmeza de propósitos para que tal grupo formado por estudantes de jornalismo tornasse-se uma banda e apesar de um de seus articuladores ter sido o meu amigo Laert Julio, vulgo Laert “Sarrumor”, também ex-membro do Boca do Céu, eu coloquei-me aberto a conhecer outros músicos e quem sabe ingressar doravante em uma outra banda montada ou em vias de ser formada. 

Pouco tempo mais tarde, por volta de outubro de 1979, o meu amigo  baterista, Cido Trindade convidar-me-ia a ingressar na banda de apoio do cantor/compositor e pianista, Tato Fischer. O que foi na prática, o primeiro trabalho que realizei fora de uma banda autoral, como um clássico “side man”, ou como fala-se em português, “músico de apoio” para acompanhar um artista solo como ele.
Fachada da Escola Estadual de Segundo Grau, Osvaldo Catalano, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo, onde eu completei o ensino secundário, em 1979

Mas antes disso eu tive uma experiência no mínimo estranha e que não contei no texto da minha autobiografia oficial, porque julguei fora de propósito ali, mas como crônica avulsa, vale a menção.

Ocorreu que um conhecido meu da escola (em 1979, eu cursava o 3º ano do curso colegial da Escola Estadual de Segundo Grau, Osvaldo Catalano), que era sabedor da minha luta para tornar-me músico/artista, falou-me que sabia de um rapaz que procurava músicos para a formação de uma banda de Rock. Segundo ele, tal rapaz era tecladista, tinha um excelente nível técnico e teórico, era bem equipado e estava com bastante entusiasmo para trabalhar.

Diante do quadro em que eu me encontrava naquele instante, com a minha primeira banda autoral com atividades encerradas e o embrião do que viria a ser o Língua de Trapo ainda bem longe de esboçar ser algo promissor, aceitei o convite e coloquei-me à disposição para conhecer a proposta sonora do rapaz. 

Nessa altura, eu havia vencido a barreira inicial do aprendizado musical e longe de ser um músico de qualidade, ao menos sentia-me minimamente seguro para aceitar o desafio de tocar com músicos de melhor nível que o meu, sem passar vergonha. Mesmo que ele fosse muito mais desenvolto e experiente, a minha autoconfiança para tocar, garantiu-me tal prerrogativa.
Anotei o endereço da residência do rapaz, e em um determinado sábado, pelo horário vespertino, lá fui eu com meu intrépido baixo Giannini “RK”, uma imitação grosseira do baixo Rickenbacker, e meu "filho único" então, até as imediações da Avenida Lins de Vasconcelos, onde na sua altura mediana, embrenhei-me por ruas bem arborizadas e com belos sobrados de classe média alta, que formam um bairro chamado: Vila Monumento, encravado entre bairros tradicionais da zona sul de São Paulo, como a Vila Mariana, Aclimação e Cambuci.

Fui recebido pelo rapaz, que não mantinha uma aparência Rocker, ao se parecer com um sujeito com outros objetivos e interesses na vida e creiam-me, apesar desses conceitos estarem a ser destruídos violentamente naquele final da década de setenta, tais signos ainda eram bastante significativos para quem envolvia-se com o Rock e claro, a minha escola era totalmente calcada nas estéticas sessenta-setentistas e dessa forma, não foi questão de preconceito, mas de uma sutil demonstração de comprometimento ou não com a causa.

Tudo bem, mesmo assim, sem preconceitos e a levar em conta que nem todo Rocker podia vestir-se condizentemente com os padrões de tal estética e usar cabelos longos por questões familiares ou sociais de diversas motivações alheias à sua vontade, todavia, também passou-me pela cabeça que talvez o rapaz fosse mais um daqueles que demonstravam desencanto com tal estética. E se houve época onde isso ocorreu em massa, foi ali entre 1978 e 1981, quando muitos conhecidos e amigos meus correram ao salão de barbearia e rasparam as suas respectivas longas cabeleiras, para cortarem o vínculo com o movimento Hippie. 
Bem, vamos ao ponto desta crônica. Eis que eu cheguei ao endereço, e toquei a campainha da residência em questão.

-“muito prazer, o meu nome é Luiz, sou baixista e quero tocar numa banda de Rock. E você?”

Receptivo, porém não de forma efusiva, o rapaz pôs-se a falar de seus propósitos e ao mesmo tempo, ao mostrar-me os seus teclados e equipamento. 

Pelos instrumentos ali presentes, de fato eu fiquei muito impressionado. Tratou-se de um arsenal de teclados, daqueles tipicamente setentistas e presentes no meu imaginário Rocker, desde sempre, vistos e revistos em fotos, capas de discos e "promos" de shows das grandes bandas daquela década. O rapaz ligou tudo e só por ouvir aqueles timbres de Mini-Moog, Clavinete, Piano Fender Rhodes e órgão Hammond, já animei-me. 

Tocar em uma banda cujo tecladista detinha esse aparato à disposição foi um sonho acalentado desde sempre, certamente.
O rapaz não possuía apenas isso, mas vários amplificadores e um mini PA, a denotar ter um poder aquisitivo bem alto, visto que naquela época, com a importação fechada pela ditadura militar há anos, para ter tudo aquilo em sua posse, com instrumentos e equipamentos de marcas de renome internacional, era preciso muito dinheiro, mesmo.

Bem, eu pluguei o meu baixo em um bom amplificador, que eu sonhava ter, mas era inacessível para o meu poder monetário de então, e começamos a tocar, com a minha intenção em propor improvisos a esmo, baseados em exemplos em torno de nomes do Rock nacional e internacional que seriam óbvios naquela situação. Mas aí o imponderável ocorreu...
Genial tecladista do The Nice e Emerson/Lake & Palmer, o grande e hoje saudoso, Keith Emerson
 
O rapaz continha um bom nível musical, pela técnica que exibia, mas tudo o que eu citava, ele dizia não conhecer. Com aqueles teclados incríveis, como assim não conhecer bandas de Rock Progressivo que usavam ostensivamente aqueles instrumentos em profusão? Achei muito esquisito em princípio. Não sabia quem era Keith Emerson ? 
Na primeira foto, o incrível Jon Lord, hoje saudoso, então em ação com o Deep Purple, nos anos setenta, atacando (literalmente) o órgão Hammond; Segunda foto: um tecladista da pesada e grande guitarrista também, Ken Hensley, atuando nos anos de ouro do Uriah Heep, igualmente "pilotando" o órgão Hammond e um sintetizador, Mini Moog; E na terceira foto, o baixista superb, mas que também era o tecladista do Led Zeppelin, John Paul Jones, nessa foto ao vivo da banda nos anos setenta, tocando um órgão Farfisa

Paciência, fomos de Hard Rock, então. O que? Não conhece nenhuma música do Deep Purple? Nem do Uriah Heep? Não conhece Led Zeppelin? Como assim?
Na ordem das três fotos acima : Elton John; Peter Frampton e Rod Stewart, três artistas egressos do Rock britânico, mas que fizeram massivo sucesso pop mainstream, em âmbito mundial na década de setenta

Tudo bem, enveredamos para o mundo mais Pop. Que tal Elton John? Peter Frampton, Rod Stewart...
Na primeira foto, os Rolling Stones em ação no ano de 1973, e na segunda, a gravação do LP "Let It Be", dos Beatles, em 1969.

Vamos tocar uma dos Rolling Stones, então? Não sabe? Como assim? Beatles, então... não seria possível que não soubesse ao menos tocar "Let It Be" nesse piano! A Jam pôs-se a ficar angustiante...
Genial banda, supra sumo da sofisticação do Jazz-Rock setentista, a "Mahavishnu Orchestra"

-“Já sei, você prefere Jazz-Rock. Veja, não tenho nível para isso mas quer tentar Mahavishnu Orchestra? Nunca ouviu falar?”
Grandes ícones da Black Music 1960-1970, na ordem das fotos: Marvin Gaye, Otis Redding, Aretha Franklin, Wilson Pickett, James Brown e Jackson Five 

Está bem... pensemos na Black Music, então! Vamos de Marvin Gaye, Otis Redding, Aretha Franklin, Wilson Pickett, James Brown… não? Jackson Five… mas não é possível que não conheça!
Naquela altura ainda bem atual, o disco: "Sábado e Domingo", do "Som Nosso de Cada Dia" mexia com a imaginação dos Rockers tupiniquins, por fazer uma improvável mistura de estilos, entre o Rock Progressivo e o Funk-Rock (e entenda "Funk" como algo completamente desassociado da conotação que a palavra adquiriu anos depois, infelizmente). Vamos tocar um Funk-Rock de uma banda nacional? Conhece o Som Nosso de Cada Dia? E o rapaz nessa hora perguntou-me o que era “Funk”, em uma época em que a palavra “Funk” denotava uma nobre variação musical oriunda da Soul Music etc. e tal.

E assim foi, por noventa ou cento e vinte minutos mais ou menos e diante das negativas do rapaz e ele, sob um contraponto surpreendente e bastante desagradável, a propor tocarmos música Pop enlatada de FM, proveniente de artistas irrelevantes que não durariam até o próximo verão. 

Esteve explicado então porque esse rapaz não conhecia outras esferas mais nobres da música. Dessa forma, educadamente um disse ao outro que a primeira Jam fora produtiva e que marcaríamos outras até conhecermos outros músicos e formarmos uma banda. Bem, esse foi o tipo de contato que jamais torci para frutificar e acredito que a recíproca foi a mesma da parte dele.
E aquela "tecladeira" toda, hein? No mínimo o sujeito casou-se pouco tempo depois e tudo ficou ali na casa dos seus pais, até um dia em que sua mãe, já idosa e cansada de guardar aquelas “tranqueiras”, ligou para um bazar desses que aceita doações de móveis e objetos velhos e... sorte do músico que enlouqueceu ao comprar um Mini Moog a "preço de banana", achado em um depósito empoeirado assim. 

E acredite, isso acontece muito e eu conheço gente muito próxima com quem já toquei por anos a fio em bandas autorais, inclusive, e que já comprou teclado estrangeiro desse porte vintage, em excelente estado de conservação, por um preço ridículo e certamente sem que os responsáveis por tais lojas de objetos usados, façam a menor ideia de seu real valor...

domingo, 12 de novembro de 2017

Crônicas da Autobiografia - O Vexame Cívico que não Computei na Minha Lista de Shows... - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo dos primórdios do Língua de Trapo, e dias antes do meu primeiro trabalho avulso, em 1979... 

Desde que iniciei a tocar, em abril de 1976, pelo fato de estar a começar da absoluta estaca zero, eu soube que precisava acelerar o processo do meu aprendizado de maneira urgente. Se pudesse contratar famosas bruxas como "Samantha Stevens" ou "Jeannie", para ajudarem-me com os seus poderes mágicos, seria o ideal para que eu pudesse transformar-me em uma fração de segundos em uma espécie de "John Paul Jones da pauliceia", mas na realidade eu tive que amargar a morosidade de meu aprendizado para aprender a tocar modestamente, não teve jeito. 

Após duas tentativas de estudar em escolas de música em 1977 e 1978, respectivamente, mas que revelaram-se frustrantes por motivos que eu contarei em outras crônicas (e sim, ambas renderam histórias pitorescas), tive uma terceira oportunidade no ano de 1979. 

Essa escola e esse professor também foram curiosos em muitos aspectos, mas nesta crônica quero ater-me a um só acontecimento ocorrido e que foi tão constrangedor que eu resolvi omitir de minha lista de shows, e neste caso, teria sido a primeira apresentação na minha carreira a ser computada nos "trabalhos avulsos", ao anteceder em cerca de quarenta dias aproximadamente, o meu primeiro trabalho que computei de forma oficial nessa área, que foi como side man do cantor/compositor e pianista, Tato Fischer. E como foi? 
Bem, eu estava a estudar em um conservatório musical denominado: “Béla Bartók”. Localizado na Penha, bairro da zona leste de São Paulo e apesar de ter esse nome pomposo, por designar um compositor romeno erudito, “cool” entre os apreciadores da dita música “clássica”, a tal escola era simples na sua constituição e aberta a cursos de instrumentos em geral e com enfoque popular. Não foi o ideal que eu precisava e buscava, mas se revelou do que coube no meu combalido bolso nessa ocasião e entre estudar em uma escola simples e não estudar, cravei na opção “A”. 

O professor de baixo era um sujeito gentil, brincalhão e que logo mostrou-se amigo, mas de contrabaixo ele não sabia nada. Era na verdade um professor de violão e que na falta de um baixista de ofício, ministrava aulas para aspirantes nesse instrumento, imbuído daquela máxima de quem toca violão e guitarra, por conseguinte, toca baixo, também. 

Claro que os princípios dos três instrumentos são os mesmos, mas ao mesmo tempo em que existem similaridades, existem particularidades distintas entre os três, portanto, são raros os músicos que dominam as três linguagens com desenvoltura em cada uma. 
Nas suas aulas ele oferecia-me para trabalhar, um baixo Giannini, imitação do modelo Gibson 335 (e que eu até gostava pelo "design", ao pensar na persona de Jack Casady, um baixista que admiro e que usava bastante o Gibson 335 na sua banda, o grande, Jefferson Airplane), mas esse simulacro nacional não tinha som de nada, como quase todo baixo nacional tosco daquela época, ao ficar só na imitação grosseira do design de um instrumento importado consagrado, caso do Gibson. 

Além disso, a sua metodologia de ensino era modorrenta, ao pedir-me para marcar no baixo a tônica e a quinta acima ou quarta abaixo dos acordes que ele tocava ao violão, ao executar músicas do Roberto Carlos que cantava em plenos pulmões, a denotar que as adorava, certamente.

- “A-ma-da Amante-e-e-e”...

E nessa altura, 1979, eu já havia evoluído muito por conta própria, ao tocar linhas de baixo sofisticadas da parte de baixistas internacionais do Rock que eu apreciava, em cima de seus discos. Portanto, tocar músicas do Roberto Carlos a estabelecer marcações simplórias, além de não agradar-me em nada, é óbvio que não engrandeceriam o meu aprendizado musical. Mesmo assim, fui a insistir no curso e a pedir sempre que ele oferecesse um conteúdo melhor e mais compatível com meu gosto musical, solicitação essa  que nunca correspondeu, até que eu cansasse-me e deixasse a escola definitivamente.
Todavia, não consegui evitar que ele convocasse-me a participar de uma apresentação que eu tive certeza que seria constrangedora e da qual não consegui escapar, pois ele argumentou que eu era o único aluno de contrabaixo em condições de tocar nesse evento e o diretor da escola apelava para a minha colaboração, até a sinalizar eventuais descontos nas mensalidades, se eu comprometesse-me a participar.

A escola formaria uma banda para participar de um evento cívico, em uma sala de cinema daquele mesmo bairro, no dia da Pátria, 7 de setembro, dia da Independência do Brasil. 

Sem maneira para recusar, aceitei fazer parte e lá fui eu convocado a participar de um ensaio na escola e aí, o que eu previra ser vergonhoso, comprovou-se na prática ser ainda pior do que eu esperava. 

Tratara-se de uma série de adolescentes a tocarem violão "batido", bem naquela dinâmica pobre de iniciantes ao instrumento, um baterista que mal conseguia manter a pulsação da música nas três peças básicas do instrumento, um mini naipe de metais bem desafinados que chegavam a castigar o ouvido e o pior de tudo, como toque de classe às avessas, um coral formado por alunos de canto, ainda mais desafinado e que dava vergonha alheia. Mas poderia piorar...
Quando eu tomei conhecimento do repertório sugerido, deu desespero, com uma versão medonha dos hinos nacional e da independência e um medley de músicas popularescas em seu bojo. Pior ainda, quando informaram-me que usaríamos uma toga como uniforme da escola e cada setor da banda com uma cor alusiva à bandeira do Brasil. 
 
No dia da apresentação, com o teatro lotado, a única amenidade que eu tive foi o fato de haverem acatado o meu pedido para usar a toga verde, por motivos óbvios para quem conhece-me ou leu minha autobiografia com atenção e convenhamos, pelo menos isso! 
 
A performance foi uma tortura. A banda era horrorosa, o som daquela simulacro de baixo Gibson 335, na verdade um Giannini, péssimo, e as togas verde/amarela/azul e branca, só não foram piores que a constrangedora desafinação geral e luta pelo andamento perdido, com aquele garoto da bateria a ter uma atuação catastrófica. 
 
E a se somar a constatação óbvia: se a maioria ali era ruim demais, imagine isso somado ao nervosismo do efeito “Stage Fright” (medo do palco), da parte da maioria naquele palco.
Enfim, não lembro-me do nome de ninguém ali, mas torço para que caso alguém tenha profissionalizado-se, que de fato tenha melhorado o seu nível musical, pois naquele dia de setembro de 1979, eu não era nenhum grande músico, longe disso, mas sofri com a inaptidão total dos demais, fora o clima de ufanismo barato do evento, com direito a discursos da parte de “lideranças do bairro”, aqueles aspirantes a políticos que fazem dessas atividades, mini palanques para angariar simpatias no seu reduto. 
 
Foi tão insípido que eu não computei como uma apresentação oficial minha e no caso, teria sido o meu primeiro trabalho avulso de fato. 
 
A única observação que foi positiva nesse dia foi o comentário do professor de saxofone da escola, que ao perceber a minha expressão facial de aborrecimento indisfarçável ante a situação, passou por perto e disse: -”que dureza”... quase como uma manifestação de solidariedade. E tal afirmação sintetizou o que representou aquilo...

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Crônicas da Autobiografia - Cantar Ária de Ópera, Soterrado - Por Luiz Domingues

                Aconteceu no tempo do Terra no Asfalto... em 1980         

Uma certa vez, o vocalista da minha banda cover entre 1979-1982, "Terra no Asfalto" (Paulo Eugênio Lima), convidou-me a conhecer um professor com quem estava a ter aulas de canto. Tratava-se de um senhor idoso, com forte sotaque estrangeiro, provavelmente oriundo de algum idioma do leste europeu.
Simpático, porém a se mostrar exigente como professor, ele usava métodos de ensino não usuais e o Paulo Eugênio, nosso vocalista, estava empolgado ao confiar no currículo do seu mestre, mas ao mesmo tempo, a apreciar muito as loucuras por ele propostas como didática. 
 
Nesses termos, fazer exercícios de cabeça para baixo, foi um deles. E lá se pôs o velhinho a falar do fluxo sanguíneo e a pressão na caixa toráxica para emitir-se sons nessas circunstâncias adversas. Parecia fazer sentido pela explicação superficial, mas teria algum fundamento científico, de fato? Eu nunca soube a resposta. 
 
Entretanto, o Paulo Eugênio estava empolgado, porque achava as loucuras fascinantes, bem naquele espírito Rocker de valorizar tudo que não é usual, para se quebrar paradigmas e ignorar fronteiras. Visto por esse aspecto, eu até entendi e também apreciei a loucura toda.
Para reforçar o conceito, "Beatlemaníaco" inveterado que era, Paulo Eugênio citava diversas loucuras perpetradas pelos Beatles nos estúdios Abbey Road de Londres, onde tal banda gravara todos os seus discos e em diversos livros biográficos da banda, constam relatos a dar conta que as ideias mais malucas foram tentadas ali para se obter sons diferentes. 
 
De fato, eu também conhecia algumas dessas histórias, como por exemplo, músicas que o John Lennon gravara pendurado de cabeça para baixo para extrair um timbre vocal exasperante segundo o seu desejo deliberado, para canções tensas. 
 
Portanto, encontrar um professor de canto lírico, com formação de música clássica tradicional, mas com a concepção completamente aberta para métodos nada usuais, foi um achado que ele comemorava e assim, empolgado, fez várias aulas com esse mestre e fez questão de levar-me para conhecê-lo.
Sob uma rápida conversa antes da aula começar, o veterano professor falou-nos que amava a música erudita, mas recusava-se a assistir concertos de qualquer natureza no Brasil. Motivo: ele detinha "ouvido absoluto" e não suportava a desafinação dos músicos brasileiros! Há dois pontos aqui para se observar em torno dessa afirmativa da parte dele: 
 
Primeiro: ouvido absoluto é quando a pessoa tem a percepção de ouvir as notas musicais a identificá-las pela sua vibração. Neste caso, é uma precisão tão grande ou maior do que a dos afinadores eletrônicos. O lado mau de quem tem essa capacidade, é que qualquer som da natureza pode representar uma tortura constante, pois dificilmente vai soar 100% afinado. O sujeito ouve um "toc toc" na porta e a depender da parte da madeira que a pessoa percutiu com a mão, pode ser qualquer nota (digamos que seja uma nota “sol”, como mero exemplo), mas não inteiramente afinada no padrão, todavia alguns “comas” acima ou abaixo da afinação perfeita. E entenda “comas” como subdivisões harmônicas microscópicas de uma nota musical.
Segundo ponto: seria para ofendermo-nos quando ele, sendo um imigrante estrangeiro aqui radicado, falou-nos abertamente que os nossos músicos eruditos, incluso os de alto padrão das grandes orquestras, não afinavam os seus instrumentos corretamente? Creio que não e de fato, nem abalamo-nos com tal afirmação. 
 
Então, a proposta da aula que eu assisti foi bastante exótica sob uma primeira instância. Eu pelo menos nunca havia visto predisposição antes. Pois no fundo do quintal da casa onde esse senhor vivia com a sua esposa, havia uma caixa de areia. Outros moradores devem tê-la usado como uma mini horta ou pomar, mas ele tirou a terra e fez uma espécie de cova, onde mantinha uma quantidade de areia razoável ao lado, para ser usada.
Então ele pediu ao Paulo Eugênio que se deitasse ali e o cobriu com areia a usar uma pá, e deixá-lo inteiramente coberto, só com a cabeça de fora e ali, por cerca de uma hora, deu voz de comando para que ele fizesse exercícios vocais. 
 
Deu para ver que o Paulo fez um esforço tremendo no diafragma completamente comprimido pela areia sobre seu corpo e a voz saia com dificuldade. O professor o incentivava a prosseguir, ao estabelecer correções o tempo todo. 
 
Quando acabou a aula, o Paulo esteve extenuado. Pareceu que havia participado da prova da maratona olímpica. Mas ele relatou-me que o esforço empreendido o ajudava a cantar enfim com o impulso respiratório do diafragma, como cantor profissional deve fazer e não a forçar a garganta. 
Aparentemente fez muito sentido a estranha metodologia do professor. No entanto, perguntado se eu desejava matricular-me no curso do velhinho maluco e passar pelo mesmo tipo de exercício, eu disse a ambos que iria pensar no caso. Bem, isso aconteceu na metade de 1980 e até hoje não decidi se devo aceitar ou não...

domingo, 5 de novembro de 2017

Crônicas da Autobiografia - Hippie Chic e Encapotado - Por Luiz Domingues

                      Aconteceu no tempo do Boca do Céu, em 1976... 
 
Sabe aquela clássica cena da Árvore de Natal estilizada como se vivêssemos tal data sob o frio rigoroso do inverno europeu?
Pois é, a síndrome do brasileiro tropical ao querer imitar signos naturais que não correspondem a nossa realidade geográfica, estigmatizou-se em diversos aspectos da nossa cultura. Se nos estados do sul ainda seja possível se experimentar um gostinho de inverno parecido minimamente com o rigor europeu, a verdade é que na maior parte do território de Pindorama, o calor abrasador é que embala o nosso natal, em pleno verão tropical. 
 
São Paulo era considerado um estado da região sul, mas a geopolítica mudou em um dado momento da história quando o nosso estado foi retirado dessa região e passou a ser considerado da região “sudeste”. Não cabe esmiuçar aqui os aspectos pró e contra de tal mudança forçada pelas autoridades federais, mas psicologicamente, digo que o sentimento paulista foi sempre o de sentir-se sulista, em muitos aspectos e aqui, o que importa neste relato é falar sobre a nossa condição climática e o efeito cultural que isso trouxe-nos, principalmente a se abordarem os paulistanos, pois como é sabido, as cidades interioranas do nosso estado, são tradicionalmente muito quentes.
E ao se pensar que por séculos, antes dos eventos causados pelo fenômeno do “El Niño” e do surgimento da imensa selva de pedra em que a cidade transformou-se, o clima típico da cidade de São Paulo era de frio na maior parte do ano, com garoa forte toda noite e com direito a névoas, sentíamo-nos mais próximos da realidade de Londres do que das paisagens tropicais típicas do litoral brasileiro.

Portanto, aliado às tradições culturais múltiplas que recebíamos dos europeus (e reforçado pelo fato da cidade ser um celeiro de imigrantes, com colônias espalhadas pelos bairros da cidade), quando o cinema passou a influenciar-nos ainda mais fortemente, isso acentuou-se. 
 
Passadas mais algumas décadas e o Rock também passou a impressionar-nos com contundência e assim, ao assistirmos os filmes e fotos, víamos que os Rockers muitas vezes usavam roupas pesadas de inverno, o normal para o padrão dos europeus e norte-americanos, a lhes preservar o calor do corpo e consequentemente da sua saúde, mas para o nosso imaginário, o aspecto da moda inerente que isso causara, saltava-nos aos olhos. 

Rockers a usarem roupas de couro na década de cinquenta, dava-lhes um aspecto de elegância inerente, é verdade. Depois vieram os "Mods" britânicos e a sua elegância em terninhos de tweed etc.
Quando a Era hippie chegou, a explosão total de cores mergulhou-nos em meio a um caleidoscópio de infindáveis possibilidades visuais, as mais atrativas, e quando o inverno apertava para os Rockers do meridiano norte, os casacões estilosos surgiam, para que eles usassem até capotes militares (alguns a exagerarem ao fazerem uso de fardas “vintage” de séculos passados), ou vestimentas de peles, para se aludir à moda da Idade Média, fora a influência brutal de culturas exóticas do oriente, notadamente da Índia. 
 
Portanto, nessa transição entre o fim dos anos sessenta e início dos setenta, acostumamo-nos a vermos filmes e fotos de bandas de Rock, com vestimentas pesadas de inverno, super estilosas, o que convencionou-se no mundo da moda a ser designado como um estilo “Hippie Chic”. 
 
Dessa forma, ali no início e na metade da década de setenta, foi o padrão que gostávamos e queríamos seguir, a driblarmos as adversidades climáticas que não favoreciam-nos, exatamente por estarem fora dos nossos padrões naturais.
Eu e muitos amigos queríamos usar casacões o tempo todo e mesmo em dias que não foram exatamente gelados, embora naquela época, ainda existisse a incidência da garoa diária em São Paulo e o outono e inverno fossem bem rigorosos, ao menos para os nossos padrões.

O primeiro vocalista da minha primeira banda, o “Boca do Céu”, foi um desses que usava diariamente um casaco pesado e bem bonito, mas nem sempre necessário e dessa maneira chamava a atenção por isso. Bernardo, conhecido como “Janjão” entre todos na escola que frequentávamos, fora mais um desses jovens Rockers que queria seguir tal padrão, mas que no Brasil, infelizmente para nós que gostamos do frio intenso, não era possível ser usado por muito tempo.
 
Eu também tinha uma dessas vestimentas pesadas, que aliás não era minha exatamente, mas do meu pai. Tratara-se de um “sobretudo” de lã, preto, muito estiloso, daqueles que víamos aos montes em filmes franceses cinquentistas. O meu pai o comprara-o na década de cinquenta e o usou muito. Quando tornei-me adolescente e coube nele, passei a pegá-lo emprestado para usar nas noites frias e sentir-me elegante na porta de shows de Rock que frequentava

Vendo que eu gostava dele, o meu pai doou-me a peça ainda nos anos setenta e tal casaco acompanhou-me até meados dos anos 2000, quando já não houve mais jeito que o alfaiate pudesse dar para reformá-lo.
 
Eu nunca conformei-me com modismos posteriores, acintosamente propostos para afrontar e destruir ícones sessenta-setentistas. Entre outras coisas, abomino as bermudas, as quais considero anti-Rock, mas fazer o que? Essa mania impregnou-se nas gerações posteriores.
Sou do tempo em que o Rock era luxo e não lixo, simples assim...

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Crônicas da Autobiografia - Reconhecido no Trólebus em 1982... - Por Luiz Domingues

             Aconteceu em 1982... no tempo d'A Chave do Sol
 
Quando uma banda inicia um trabalho, pode demorar para surtir algum efeito prático que sinalize que o público está a notá-lo.

Volátil ao extremo e ainda a se tratar de um país como o Brasil, onde o incentivo à arte & cultura é zero (quando não abaixo disso, com sabotagens & boicotes), pode demorar muito para que haja algum sinal, isso se aparecer, pois muito artista talentoso nem chega perto disso, infelizmente.
Foram os primeiros meses de atividades d'A Chave do Sol e nesse instante do segundo semestre de 1982, éramos uma banda completamente desconhecida do grande público, a dar os seus primeiros passos ainda, a tocar ao vivo em casas noturnas de pouca expressão na cena paulistana, quando o nosso maior feito até então fora termos sido retratados através de uma reportagem de um programa de TV, mas de forma completamente fortuita, pois o mote do jornalista Goulart de Andrade, em questão, que apresentava o programa: “Comando da Madrugada”, era o de cobrir a noite paulistana e por acaso ele nos filmou a tocarmos em uma casa noturna dessas onde estávamos a nos apresentar, bem no início de carreira, e claro, sem menção alguma à nossa banda. 
 
Portanto, aparecemos na Rede Globo à esmo, em uma madrugada de outubro de 1982, mas como ilustres desconhecidos.
Fora disso, outra conquista inicial da banda fora uma micro reportagem que fizemos para um jornal de porte de São Paulo, a “Folha da Tarde”, com direito a uma foto. Foi muito para uma banda com poucas semanas de vida, comemoramos muito, é lógico, mas em termos práticos, foram os primeiros passos de uma longa jornada a ser percorrida. 
 
Então, sem ilusões naquele momento e a focarmos na labuta pura e simplesmente, encarávamos o anonimato com normalidade, mas em pé de igualdade com a esperança de chegarmos a patamares mais altos na música, como combustível motivacional sine qua non, evidentemente.

Por volta de novembro de 1982, tivemos então essas pequenas conquistas contabilizadas no nosso insípido currículo e portfólio e uma surpreendente agenda ao se considerar sermos uma banda iniciante, visto que começamos a articular a banda em julho, mas a estreia oficial acontecera ao final de setembro. 
 
A minha rotina pessoal nesses tempos era feita no sentido de deslocar-me de minha residência, que ficava localizada no bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo, até a residência da família Gióia, no bairro do Itaim-Bibi, este na zona sul da cidade, onde um amplo quarto de despejos, localizado na edícula da casa, foi oferecido-nos como espaço, para montamos o nosso estúdio de ensaios.
Neste caso, o meu caminho para chegar até lá previa a viagem de metrô, da estação Tatuapé, até a estação Santa Cruz, na zona sul e de lá, no terminal acoplado a estação, eu usava o trólebus, linha “Santa Cruz-Pinheiros”. 
 
Para quem não é de São Paulo, “trólebus” são ônibus elétricos, uma tradição paulistana desde 1949. Eles convivem com os ônibus tradicionais a diesel, normalmente pelas ruas, mas detém as suas peculiaridades óbvias, como não poder mudar o itinerário, por conta de terem que seguir a linha elétrica que os alimenta, são muito mais confortáveis, parecem deslizar de tão macios e quase não tem o barulho típico de um motor em funcionamento.
 
O percurso que eu fazia da estação Santa Cruz até o ponto da Avenida Santo Amaro onde descia, quase em frente à rua da residência dos Gióia, era relativamente curto. Ao descer na época a rua Borges Lagôa (já faz um certo tempo o sentido das mãos mudaram ali, e a Borges Lagôa nos dias atuais tem sentido para o cruzamento com a Rua Domingos de Moraes, na Vila Mariana), e a circundar pelas ruas do Jardim Lusitânia, um micro bairro com mansões que circunda o Parque do Ibirapuera, ele embrenhava-se pelas ruas da Vila Nova Conceição, outro bairro que envolve o diâmetro do Parque, sendo igualmente de alto padrão, portanto, um passeio agradável e naquela época, com muito menos tráfego no seu entorno.
Pois foi nesse trólebus, em um dia de novembro, que eu tive o primeiro sinal de que a nossa banda estava a chamar a atenção. Foi um sinal tímido, é bem verdade, visto que nos anos vindouros o nosso grupo teria bastante exposição midiática e contabilizaria conquistas imensamente maiores, mas naquele breve instante, dada a dimensão em que os fatos transcorriam, marcou-me.
 
Aconteceu que uma garota viajava alguns bancos a frente e eu notei que ela olhava-me com uma expressão facial típica de quem pensa ter reconhecido alguém, mas não faz ideia como, por que e tampouco quem fosse a pessoa em questão. Em um dado instante, a garota tomou coragem e abordou-me, ao perguntar-me se eu seria músico, e se por acaso não tocara dias antes em uma casa noturna localizada no bairro do Bixiga, na zona centro-sul da cidade.
Sim, a nossa banda estava a cumprir uma temporada nessa casa, para tocar regularmente nas sextas e sábados e ela de fato havia nos visto em ação. 
 
Saquei de imediato uma filipeta (flyer), do bolso, a anunciar tal temporada e a convidei a retornar e levar amigos nas próximas apresentações que ainda tínhamos marcado para essa casa. Foi uma simples abordagem, mas que teve um fator de incentivo enorme, pois assim que eu cheguei ao ensaio, minutos depois, estive bastante empolgado com esse fato singelo e o dividi com os companheiros de jornada tal notícia, para comemoramos, visto ser naquele momento, algo muito importante para nós. 

Em suma, reconhecimento é tudo para um artista. O aplauso no calor do show, as abordagens pessoais, as cartas manuscritas (que naquela época foi uma forma muito usual de receber o carinho das pessoas e hoje em dia evidentemente, substituídas pelas ferramentas da Internet), enfim, cada pequeno gesto espontâneo, a sinalizar que estão a gostar do trabalho que fazemos, é um incentivo que não tem preço. 
 
Portanto, tirante as abordagens nos primeiros shows e o apoio abnegado de familiares, parentes & amigos, eu creio ter sido esse singelo gesto que adveio de uma pessoa estranha, e sob um ambiente nada glamorizado, revestido da absoluta normalidade do cotidiano (o transporte público), o primeiro sinal concreto que tive que essa banda faria sucesso. E fez... portanto: muito obrigado a todos os fãs desse trabalho!