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domingo, 14 de março de 2021

A Chave do Sol - Capítulo 20 - Bootlegs Desengavetados - Por Luiz Domingues

Então, eis que avançamos na parte de atrativos para fazer desse show reunião de 2020, algo mais esfuziante ainda aos fãs do trabalho, visto que um velho sonho finalmente ganhou a sua materialidade, para fugir do campo da mera divagação. Sobre o que eu falo? 

Bem, é preciso retroagir na história para esclarecer ao leitor, que eu, Luiz, fui o guardião do material da nossa banda, desde que ela encerrou as suas atividades e antes desse acontecimento fatal ocorrido em 1987, na prática, eu mesmo houvera sido desde sempre, o responsável pela montagem do portfólio da banda a conter o armazenamento de fotos, arquivamento da papelada em geral, além de guardar o material com fitas K7, o recurso do qual dispúnhamos naquela época para resguardar o material capturado em ensaios, demo-tapes, entrevistas de rádio e shows ao vivo. 

O único item que eu não controlava pelos meus parcos recursos pessoais, fora a captura de vídeos de nossas apresentações em programas de TV e eventuais filmagens de shows ao vivo, mas apesar da minha precariedade financeira à época, o Rubens gravou muito material e através de fãs abnegados, uma quantidade de vídeos agregou-se com o passar do tempo, em resgates muito bem-vindos e emocionantes pelo caráter de relíquia, no sentido arqueológico mesmo para a nossa banda. 

Bem, maravilha, o material ficou guardado e catalogado a manter-se todos os dados sobre os números gerados pela banda, devidamente anotados etc. e tal. 

Entretanto, um componente sempre atormentou-me com o passar do tempo: a deterioração do material, principalmente no tocante aos vídeos, fotos e fitas K7. Os anos foram a passar e eis que chegou a Era digital e eu desde sempre quis salvar tudo o quanto antes, mas as condições financeiras dificultavam sempre essa tomada de resolução.

Foi apenas em 2006 que eu pude enfim comprar um gravador de DVD com conversor automático de vídeo, padrão VHS e em meio a uma maratona caseira, salvei tudo o que eu possuía em termos de filmagens e aliás, não apenas sobre A Chave do Sol, mas também de outras bandas das quais eu fui componente. 

Mas esse foi um passo tímido ainda, pois daí a colocar esse material efetivamente à disposição dos fãs do trabalho, ainda demandou bem mais tempo. Foi somente a partir de 2012, que eu efetivamente tive apoio, em princípio da parte do Site/Blog Orra Meu, mas com ações que se limitaram ao campo de alguns lançamentos de vídeos pela Internet. 

Entre 2014 e 2016, uma nova parceria apareceu, desta feita com a abnegada amiga e ativista cultural, Jani Santana Morales, e assim pudemos avançar mais, com o resgate de mais alguns vídeos raros, que encantaram os fãs e deu-me muito alegria, certamente por finalmente sair das gavetas e ganhar a acessibilidade virtual.

Todavia, a grande concretização sonhada há anos, só tomou forma ao final de 2019, quando eu pude reunir recursos para resgatar fotos, algumas ainda não reveladas (pasmem!) e finalmente, digitalizar todas as fitas K7 e entre elas, a esmagadora maioria a conter material d'A Chave do Sol. 

Nesse sentido, quem me auxiliou muito foi o meu amigo e colega n'Os Kurandeiros, o guitarrista, Kim Kehl, que instalou o programa especial de captura e tratamento do áudio em seu computador e mediante uma dose de paciência imensa que teve, entregou-me o "pendrive" para que eu pudesse iniciar, já nos primeiros dias de 2020, a decupagem desse gigantesco material e daí a dar o estopim para que nós pudéssemos partir então para a parte mais ambiciosa desse resgate, ou seja, a possibilidade de se lançar discos, com característica de "Bootleg", naturalmente, mas a concretizar o sonho desse material eternizar-se e sobretudo, encorpar a discografia da nossa banda. 

A parceria com o Kim foi mais ampla, pois ele não apenas digitalizou o material, mas incumbiu-se e empenhou-se muito em também preparar o áudio, editar e mixar (dentro das possibilidades de captura, feitas de maneira precária da maioria das fitas, é claro) e ao ir além, ao criar e dar cabo do lay-out final das respectivas capas de cada disco que seria lançado no mercado e mais um dado importante, foi dele o contato com o pessoal, da Crossover Records que interessou-se em lançar o material e assim, tudo encaixou-se como por um ato de magia Rocker. 

Em meu primeiro esforço de organização, eu decidi então começar pelos áudios mais remotos e o primeiro desafio foi organizar dois fragmentos de shows, um de 1982 e o outro de 1983, que são justamente os mais remotos disponíveis que dispúnhamos. 

Mais antigo do que isso, há uma fita que registra fragmentos de ensaios, com músicas truncadas em fase de elaboração, pequenas ideias surgidas a esmo em termos de riffs, pedaços de trechos a se elaborar a harmonia & melodia, convenções, linhas de baixo e bateria e ideias para solos de guitarra. Está nos planos decupar esse material para ser lançado no futuro, como uma relíquia ao sabor do que The Beatles elaborou com a série de CD's lançados nos anos 1990, "Anthology", com um teor assim. 

Mas para início de lançamento dessa linha de Bootlegs históricos, eu precisava de algo mais substancial e assim, decidi fechar com shows ao vivo e demo-tapes melhor gravadas e o primeiro em que eu e Kim trabalhamos, a seguir essa linha cronológica, foi esse material ao vivo, a conter dois shows realizados em 31 de dezembro de 1982 e 1º de janeiro de 1983, com a formação como quarteto, a apresentar a esfuziante presença de Verônica Luhr, a vocalista que foi componente da nossa banda entre outubro de 1982 e março de 1983, ao ter gerado poucos, mas intensos seis meses de trabalho, portanto.

Lamentavelmente, foi o único material que dispúnhamos com a voz dela na linha de frente da nossa banda. Em 2011, eu havia procurado um estúdio especializado em digitalização de fitas K7 e essa foi a primeira fita que eu havia recuperado, mas tal trabalho fora concluído de forma parcial, a denotar má vontade desses profissionais, que entregaram-me uma maçaroca que fizeram, a conter apenas alguns trechos de poucas canções ao alegar com isso que a fita estaria completamente comprometida pela ação do mofo e dessa forma, o que haviam conseguido salvar foram aqueles fragmentos. E foi justamente esse material registrado como um "Pout-Pourri", que foi lançado pelo site/Blog Orra Meu em 2012, com o formato de um promo/vídeoclip no YouTube. 

Na época, eu fiquei feliz que esse clip tivesse ido ao ar, como a única peça a representar a passagem da Verônica pela nossa banda e então, conformei-me com a sua característica prejudicada pela extrema parcimônia e mutilação inevitável, bem no espírito do mais absoluto conformismo em torno do conceito de que tivesse sido o melhor possível. 

No entanto, eu não cometi a loucura de jogar fora a fita K7 original, mesmo com a alegação de deterioração da parte daquele estúdio que mal a recuperara e assim, sete anos mais velha e supostamente sob um estado ainda mais deplorável, eu arrisquei levá-la no bojo das outras tantas fitas para o que o Kim pudesse fazer a digitalização geral e que boa nova, eu tive quando ele me disse que havia salvo o seu conteúdo por inteiro e que já estava a promover um trabalho de limpeza para promover a eliminação dos ruídos típicos de uma fita K7 e fazer o possível para equilibrar o "LR" (o lado direito e esquerdo do estéreo), aleatório da captura original, colocar ambiência com um pouco de reverber, compressão e aumentar a dose de grave e agudo para dar o maior brilho possível a garantir uma inteligibilidade mínima, visto que a captura é bem prejudicada e nesses termos, nenhum "milagre" poderia ser efeito. 

Ora, só por ter salvo o material na íntegra, já foi o suficiente para eu comemorar muito e se houve a possibilidade de melhorar um pouco, que maravilha, pensei eu.

Pensei sob uma primeira instância em somente colocar nessa compilação, as músicas com o melhor padrão de áudio e esse foi o incisivo conselho da parte do Kim Kehl, inclusive, que avisou-me bem sobre a precariedade generalizada e que entre as canções, havia uma subdivisão a demarcar ainda mais discrepância sonora. 

Porém, eu argumentei que de fato, se fosse para ser analisado sob um critério puramente técnico, nenhuma faixa passaria pelo crivo mais apurado, visto que a gravação original fora feita de uma forma precária. Só para o leitor entender bem sobre o que eu falo, é preciso rememorar a maneira pela qual essas duas apresentações que compõem este disco, foram gravadas.

Primeiramente, é preciso destacar que a gravação foi proporcionada por um tape-deck caseiro. Claro, tratou-se de um bom aparelho para o propósito do uso doméstico, no padrão que convencionou-se como: "Hi-Fi", a tratar-se de um gravador da marca Gradiente, que fora uma peça de equipamento muito boa disponível no mercado nos anos setenta e oitenta, mas obviamente inadequada para promover a gravação de um show ao vivo de qualquer monta e mais ainda de uma banda de Rock. 

O segundo ponto foi sobre o nosso equipamento usado para essas duas apresentações e que resultou na captura, respectivamente em cada lado da fita K7. 

Usamos o nosso pequeno PA (nesses shows em específico, ainda bem tímido, pois apenas ao final de janeiro de 1983, nós reunimos recursos para aumentá-lo), e com três microfones disponibilizados para as vozes, Verônica Luhr, Rubens Gióia e a convidada especial, Rosana Gióia, e apenas um para ser usado como um "overall" da bateria, ou seja, sem microfonar tal instrumento de uma forma minimamente adequada e nem ao menos o amplificador da guitarra, então, foi realmente uma captura muito ruim. 

O fato do baixo sobressair-se em algumas faixas, deu-se pelo fato desse instrumento ter sido ligado na linha, ou seja, diretamente na mesa de mixagem, daí, obviamente ter obscurecido a guitarra e a bateria em quase todas as faixas e em algumas em específico ainda mais acintosamente.

E a terceira questão diz respeito à própria "mídia" de armazenamento usada. A fita K7, por si só, sempre foi uma plataforma de captura de áudio bastante limitada, naturalmente. E com uma agravante, aliás, três: o fato de ter sido usada uma fita comum e não uma peça de cromo, que seria uma alternativa com um melhor padrão de qualidade no tocante ao material químico de sua composição. 

No caso dessa fita que foi utilizada, ela era de segunda mão, portanto as nossas apresentações foram gravadas em cima de gravações de discos que o Rubens fazia normalmente para ouvir no som do seu carro, portanto, além do desgaste natural pelo uso, tal tipo de dispositivo sofria pelo armazenamento costumeiramente feito através do porta-luvas do automóvel, ou seja, sujeita ao calor extremo, se o carro ficasse exposto ao sol e com as janelas fechadas, por exemplo. 

E finalmente por ter sido usada em 1982-1983, pela última vez e ter sido também armazenada por longos trinta e sete anos, com pequenas intervenções anteriores, quando por exemplo em 2011, através de uma tentativa que foi feita para digitalizar tal fita, porém, sem a obtenção do êxito completo nessa empreitada.

Então ao pensar detidamente nessas questões técnicas e também a relevar a qualidade da performance da banda em certas faixas, com a presença de erros cometidos por um ou outro membro, além do inglês deficiente em termos de pronúncia que a Verônica apresentava para interpretar clássicos do Rock internacional nessa ocasião e mesmo pela completa falta de músicas autorais, eu pensei em todos esses aspectos negativos e no entanto, a balança pendeu para a utilização de todas as músicas no disco bootleg, pois eu considerei que esta seria uma peça arqueológica, portanto, todos os seus pecados técnicos e artísticos deveriam automaticamente serem relevados, pois a sua raridade haveria por suplantar tais questões.

Dessa forma, eu levei em consideração que todos os fatores arrolados acima foram pertinentes, certamente, entretanto, cabíveis para serem levados como critério para a elaboração de um álbum oficial, mas para o padrão "Bootleg", automaticamente nos levou a relevar deficiências de todos os níveis, ou seja, o que se valoriza é a questão do documento histórico em si, como a traduzir-se como um achado arqueológico, portanto raro, de uma época remota. Em suma, o que importa é o que representa como relíquia histórica.

Dessa forma, foi o que eu assumi como uma firme tomada de posição ao comunicar ao Kim Kehl, que: sim, queria lançar todas as músicas, inclusive uma que se apresenta cortada, a conter a sua performance interrompida.

Então, escolhida a ordem das músicas, o Kim Kehl providenciou a sua edição, com o áudio já todo trabalhado e como última etapa da preparação, houve o esforço para compor a arte de capa e contracapa. 

Deixei-o livre para criar, naturalmente, mas apenas sugeri a inclusão do velho logotipo de 1984, aquele contido na capa do Compacto de 1984, a exibir figura de uma pomba branca a voar sob o sol, e que a tipologia das letras, seguissem a linha curvada existente no mesmo citado compacto e lançado no mesmo ano, exatamente como uma forma de resgatar a tradição de nossa banda. 

O Kim utilizou fotos dessa formação com Verônica, extraídas de uma sessão feita durante um dos shows que fizemos na casa de espetáculos, Victoria Pub, entre fevereiro e abril de 1983. Como eu dispunha de poucas fotos, ele optou por recortar e montar como se fosse uma foto coletiva sob visão panorâmica e com a presença de uma iluminação artificial a sugerir estarmos a tocarmos ao vivo em um grande palco.

Eis então aí a capa do CD "A Chave do Sol Ao Vivo 1982/1983", simples em sua concepção, mas a se mostrar muito bonita em seu resultado final, sem dúvida alguma, ao compor uma bela apresentação visual. A palavra "pirata" foi acrescida como uma tarja para deixar claro ao consumidor se tratar de um produto com um conteúdo de qualidade sonora bem mais modesto do que um álbum bem gravado. E de certa forma, acrescenta um charme extra a demarcar o caráter raro do material.

Na contracapa, o padrão de fundo a sugerir um palco sob a incidência da iluminação de um teatro, permaneceu. Nos primeiros esboços, o Kim chegou a testar fotos e até peças de portfólio como ilustrações, mas ao constatar que atrapalharia a leitura das informações básicas da ficha técnica, a opção pela simplicidade do fundo liso, prevaleceu. 

Sobre a ficha técnica, eu havia elaborado uma lista bem mais detalhada com muitas informações, mas isso obrigaria a se usar uma tipologia de letras sob um tamanho diminuto e que dificultaria em demasia a sua leitura, até para quem enxerga bem e não faz uso de óculos, portanto, o Kim pediu-me a parcimônia máxima. Eu adoro ficha técnica de disco, recheada por informações, mas no caso, isso demandaria a elaboração de um encarte especial e infelizmente tal inserção ficou fora do orçamento e assim, a opção foi discriminar o repertório exibido, a formação da banda nesses espetáculos e algumas breves menções extraordinárias.

Sobre o "label" do disco, fez-se a simplicidade mais uma vez a conter o nome e logotipo da nossa banda, a inserção da palavra "pirata" e o logotipo da produtora, Crossover Records e com o mesmo fundo padrão azulado a sugerir a iluminação de um show ao vivo.

Como eu já disse anteriormente, lastimo, mas não há neste álbum, uma única música autoral, embora na época, já tivéssemos algumas já compostas, casos de "18 Horas", "Luz" e "Utopia", por exemplo e estávamos a preparar outras, como: "Crisis (Maya)", 'A Dança das Sombras", 'Intenções" e "Átila". 

Bem, foi por um mero acaso que esta gravação só tenha preservado a performance de temas internacionais (e duas nacionais), que tocávamos em nossas apresentações como forma de encorpar o set list e à medida que o tempo avançou fomos a diminuir tal espaço gradativamente, até termos um show inteiramente autoral, a partir do segundo semestre de 1983. Mas este registro ficou assim em termos de repertório:

1) Brown Sugar (The Rolling Stones)

2) Honk Tonk Women (The Rolling Stones)

3) Muito Romântico (Caetano Veloso)

4) My My Hey Hey (Neil Young)

5) O Contrário de Nada é Nada (Mutantes)

6) Brown Sugar (The Rolling Stones) (segunda versão)

7) Johnny B. Goode (Chuck Berry)

8) Jumping Jack Flash (The Rolling Stones)

9) Now I'm Here (Queen)

10) My My Hey Hey (Neil Young) 

11) Honk Tonk Women (The Rolling Stones)

12) O Contrário de Nada é Nada (Mutantes) (segunda versão e faixa cortada ao final)

13) Johnny B. Goode (Chuck Berry)

As faixas 1 a 7, são da exibição em um evento fechado em São Paulo, que cumprimos durante a noite de 31 de dezembro de 1982, noite de Reveillon, portanto. As faixas 8 a 13, correspondem a um show realizado em uma casa noturna chamada: "Café Palheta's" também de São Paulo.

As fotos de 1983 que serviram para compor a capa, foram clicks de Seizi Ogawa. Toda a produção de áudio e capa ficou a cargo de Kim Kehl e o lançamento através da produtora, Crossover Records. O primeiro lote, mediante cem cópias, foi entregue em agosto de 2020.

Sobre o material e a performance da banda, cabem mais algumas considerações. Para início de conversa, há de se destacar que a captura dos dois shows que alimentaram a fita K7, por uma questão de limitação extrema de espaço, tornou óbvio, por conseguinte, que cada apresentação ficasse circunscrita a um lado da fita, com cerca de trinta minutos, apenas. Portanto, foi um registro absolutamente aleatório, daí a existência de músicas repetidas e neste caso, consta até uma segunda versão de uma mesma música, contida em uma mesma apresentação. 

Em suma, essas são algumas músicas internacionais (algumas nacionais, incluso), que costumávamos tocar ao vivo, do início das atividades da banda em 1982, até meados de 1983, quando o repertório autoral ficou robusto o suficiente para preencher o espaço de um show completo e momento esse em que dispensamos o uso de covers/releituras para fazer volume em nossas apresentações.

As sete primeiras músicas correspondem à apresentação feita em um evento fechado, durante o Reveillon de 1982. Começa então com uma versão muito energética de "Brown Sugar" dos Rolling Stones, com a Verônica Luhr já a dar mostras de seu enorme potencial vocal, inclusive por improvisar bastante ao criar vocalises, quase durante a performance inteira da canção. A voz do Rubens aparece bem e a da sua irmã, Rosana Gióia contribui com um bom backing vocal. A guitarra, nesta faixa aparece um pouco mais do que o baixo e a bateria.

A segunda faixa, "Honk Tonk Women", também clássico dos Rolling Stones, se mostra com bastante balanço. Nesta performance, a voz do Rubens nos backing vocals ficou mais proeminente do que a da sua irmã, Rosana e a Verônica Luhr brilha muito com uma performance de arrepiar a lembrar o estilo de Tina Turner. O baixo está bem prejudicado por uma equalização submetida ao acaso, praticamente, mas dá para notar que eu busquei o estilo Soul/R'n'B a fugir da simplicidade espartana gravada por Bill Wyman (se bem que os fãs dessa mega banda britânica sabem muito bem que muitos baixos foram gravados mesmo pelo guitarrista, Keith Richards), com os Rolling Stones.

Eis a terceira canção e a se tratar de uma surpresa, certamente, aos fãs d'A Chave do Sol, por se tratar de um Blues com uma quase pegada Gospel (no sentido musical pelo estilo e não pela conotação religiosa) e por ser supostamente uma composição fora do nosso alcance natural pelo Rock, pois é uma peça do cancioneiro da MPB, em tese e no caso, chamada: "Muito Romântico", uma bela canção composta por Caetano Veloso e lançada em seu LP "Muito" de 1978. 

Na versão original do disco do Caetano Veloso, o arranjo é feito bem na linha Gospel/Spirituals, mediante um apoio de um coral, mas a nossa versão pendeu para o Blues clássico. Curioso, por uma questão de má equalização da banda, a gravação desta performance ficou quase que restrita à presença da voz e do baixo. A guitarra, a bateria e a voz backing de Rosana Gíóia ficaram mais para trás, então, o baixo e a voz da Verônica Luhr, predominam, o que de certa forma tornou-a intimista para quem ouve esta gravação em específico, mas claro, não era assim que soava exatamente, nas ocasiões em que a tocamos.

Advém a quarta faixa, com a interpretação visceral de Verônica para o clássico de Neil Young/Crazy Horse: "My My Hey Hey". De fato, o nosso arranjo privilegiava o efeito do "crescente" na dinâmica e a Verônica aproveitava bem a deixa para dar ênfase ao seu improviso.

A versão de "O Contrário de Nada é Nada" dos Mutantes, ficou com muita energia e a Verônica mais uma vez nos brindou com uma bela performance. A voz da Rosana Gióia e do Rubens, contribuem bastante, igualmente. Mais uma vez, o baixo predomina junto às vozes, com a bateria e a guitarra bastante prejudicados na audição de uma mixagem mal resolvida na captura da gravação, portanto, na digitalização e pós-produção, nenhum milagre poderia ser feito para regularizar isso a posteriori, em 2020. 

Emblemático por ser um registro histórico, ao final da canção, a Verônica fala ao microfone: -"A Chave do Sol", um costume que ela praticava com bastante insistência ao término das músicas, eu me lembro bem dessa sua característica, em todos os shows, inclusive, em que ela participou como a nossa vocalista.

Uma segunda versão de "Brown Sugar" dos Rolling Stones marca presença como a sexta faixa e a animação é igual à da primeira tomada que abre o disco. A diferença, foi que nesta nova versão, pelo fato do baixo predominar junto às vozes, dá para ouvir a sua linha com maior clareza e verificar dessa forma, que a minha proposta foi buscar o balanço da Soul Music, mais uma vez e "mea culpa" que eu faço, devo admitir que principalmente na parte do riff em sua parte "A", eu exagerei muito, com frases feitas com muitas notas e mediante rapidez, porém, atenua a minha culpa o fato de que na época eu pensava que por tocarmos como trio, no tocante à instrumentalização da nossa banda, eu precisava preencher espaço ao máximo, para garantir a devida sustentação para que o Rubens pudesse atuar sem sobrecarga. 

O Zé Luiz Dinola também exagerava na linha de bateria, exatamente por pensarmos igual e isso explica também os eventuais excessos cometidos por ambos, além da influência evidente do Jazz-Rock, a se configurar como uma marca registrada do nosso trabalho autoral ter sido forjado pela performance mais virulenta, digamos assim.

A sétima faixa, mostra uma leitura para: "Johnny B. Goode", clássico cinquentista do Rock'n' Roll, de autoria de Chuck Berry e com a Verônica Luhr a brilhar muito, mais uma vez. 

O baixo está na frente mais uma vez e curioso, mesmo que eu tenha tido um aparato super precário para tocar, ao usar a linha da mesa de mixagem e sem um bom amplificador para me auxiliar, mesmo assim, o timbre do meu baixo ficou surpreendente pelo brilho e mais um dado: apesar de eu haver usado a técnica do "pizzicato" à época, que sempre tende a abafar a emissão da nota, a torná-la mais grave, em essência. 

O solo do Rubens é ouvido como uma "sombra", muito ao fundo, mas mesmo assim dá para se deduzir que foi bastante energético. Verônica mais uma vez solta a voz e lembra a grande, Etta James, em seus melhores dias, certamente, mesmo com um equipamento super aquém para mostrar o seu verdadeiro potencial. Ela, Verônica, demonstrava possuir já nessa época, um talento bruto impressionante, mesmo.

Vem então as músicas que compuseram o segundo show capturado, realizado no Café Palheta's de São Paulo, em 1º de janeiro de 1983, ou seja, no dia seguinte e a usar o mesmo equipamento do show anterior, retratado nas primeiras sete faixas deste disco. 

Em "Jumping Jack Flash", a oitava faixa e a se constituir de mais um clássico dos Rolling Stones, se trata de uma versão mais acelerada de nossa parte, mais a ver com a versão do Johnny Winter do que a dos próprios Rolling Stones e nesses termos, a Verônica se solta de uma forma impressionante. 

Nessa ocasião, ela mesmo sem nenhuma instrução sobre técnica vocal, tampouco sobre teoria musical, não se furtava a improvisar de uma forma intuitiva e absurda, ao fazer uma escalada vocal em termos de sobreposição, como se tivesse sido um arranjo bem concatenado, mas na verdade, foi fruto de sua intuição e demonstrou assim que o seu potencial nato era imenso. 

A guitarra do Rubens aparece um pouco mais e é muito bom o seu solo, cheio de elementos vindos do Blues. E alguns momentos mais amenos, dá para se ouvir um pouco a performance do Zé Luiz, ainda que limitada a uma maçaroca, sem a possibilidade de distinção entre as peças de seu kit de bateria e não haveria de ser diferente mediante um único microfone em posição "overall" para captar tudo, de uma forma indistinta e a "brigar" com os demais instrumentos e vozes.

A seguir, vem mais uma canção que gostávamos de tocar, pois exigia demais de todos pela energia esfuziante de sua natureza: "Now I'm Here" do Queen e claro, a Verônica escandaliza a soltar a voz. A chamada dela, a capella para dar a deixa para a volta do instrumental a finalizar a canção, impressiona ao mostrar a sua voz rasgada, selvagem, absolutamente adorável pela espontaneidade e força na emissão. Que cantora nós tivemos! E aqui, Rubens e Zé Luiz são melhor ouvidos. A evolução de um fraseado feito nos tambores, mostra o quanto Zé Luiz já era muito técnico e a nossa banda mal estava a iniciar os seus trabalhos nessa ocasião.

A décima faixa mostra mais uma versão de: "My My Hey Hey" do Neil Young/Crazy Horse e desta feita, mediante um outro show, como eu já expliquei. A performance é praticamente igual da parte da nossa banda, mas o som desta versão tem um padrão de volume mais baixo que as demais, mesmo assim, eu optei por incluí-la, por ser uma peça histórica, naturalmente e disco com característica de "bootleg" tem margem para que o critério técnico seja completamente relevado, eu considero dessa forma.

O mesmo ocorreu com a décima primeira faixa: "Honk Tonk Women" dos Rolling Stones, quando o áudio master ficou prejudicado. Mesmo assim, é uma versão interessante por ter deixado a linha do baixo bem proeminente e assim, a minha opção pelo balanço a la Black Music se mostra com clareza. 

Eu exagerei, confesso, e hoje em dia eu não arriscaria certas frases mais imprudentes, a desafiar a lei da divisão rítmica, digamos assim, mas há de se ressaltar o ímpeto juvenil que eu tinha naquela ocasião e também a boa surpresa de se ouvir essa versão, gravada de forma precária e mesmo assim, se observar um timbre muito bom, a mostrar o mérito genuíno de um baixo Fender Jazz Bass, puro e simples. 

Rosana Gióia fez uma linha de backing vocals boa, com afinação e isso deu margem para que a Verônica Luhr improvisasse e subisse em certos trechos, com um brilhantismo incrível. A sobreposição vocal que ela faz em vários trechos da sua interpretação, chega a ser impressionante.

A décima segunda faixa é mais uma versão da música do Mutantes: "O Contrário de Nada é Nada". Desta feita dá para ouvir melhor a guitarra do Rubens e também o seu backing vocals. Infelizmente, esta música estava cortada na fita K7 e assim, a solução foi estabelecer um efeito de "fade out" para encerrá-la durante a entrada do segundo refrão, para maquiar o seu final abrupto logo a seguir.

Eis que chegamos à última faixa, uma versão bastante energética para "Johnny B. Goode" do Chuck Berry. O baixo está bastante prejudicado nesta versão, que contém mais bateria para compensar e a guitarra, se apresenta medianamente. 

Logo no início, há uma microfonia bastante desagradável que ocorreu no momento da captura, mas que não foi possível eliminar na pós-produção de 2020. Houve sim um bom trabalho de limpeza feito, mas como uma camada geral, impossível de ser feita separadamente, pois se tratou de uma captura pobre com o "LR" (lados direito e esquerdo do estéreo), a se mostrar estática, ou seja, se limpou tudo em bloco e não separado por canal, portanto, se fosse para eliminar a tal microfonia, haveria um prejuízo generalizado. 

Bem, dura menos de três segundos e como é um Bootleg em questão, fica tal incômodo ao ouvinte pelo espírito da sua espontaneidade de captura ao vivo, com as inerentes precariedades de equipamento que tivemos para essas apresentações de 1982 e 1983 e pelo certo "charme" estabelecido, por incrível que pareça, dentro desse espírito.

No embalo dos lançamentos programados em torno do chamado: "projeto Bootlegs", eis que ficou pronto o segundo álbum dessa linhagem. Desta feita, e a seguir uma ordem cronológica pré-estabelecida, eis que surgiu o álbum: "Teatro Piratininga/SP 1983", a tratar-se de um show que realizamos nesse citado espaço, em 30 de abril de 1983. 

Sobre o show em si, toda a sua história (que foi rica em detalhes, não apenas pelo espetáculo em si, mas a conter um longo preâmbulo a descrever diversas particularidades a respeito da sua produção), está devidamente descrita no capítulo correspondente sobre A Chave do Sol em meus Blogs 2 e 3 e que compõe o texto da minha autobiografia que em livro impresso, é chamado como: "Quatro Décadas de Rock"

Sobre o disco, particularmente, ele foi fruto da digitalização de uma fita K7 que conseguiu capturar grande parte do show, evidentemente ao perder a sua íntegra, devido à sua prosaica falta de espaço físico. Apesar das suas óbvias limitações tecnológicas, a notícia boa foi que a captura se mostrou surpreendente, dentro da sua realidade inerente, logicamente, e tal qualidade se explica pelo fato da fita ter sido usada através de um bom tape-deck, acoplado diretamente à linha da mesa de mixagem do show e o técnico que nos assistiu na ocasião (Pérsio), ao operar o nosso som ao vivo, teve a perspicácia de ligar na mandada do PA e não do monitor, ou seja, o som se mostra mais encorpado e com os instrumentos e vozes bem melhor mixados e mais uma vez eu faço a ressalva, dentro das limitações de uma gravação feita através de uma simples fita K7. 

Uma única ressalva nesse sentido, se faz em relação ao som da guitarra que poderia ter sido melhor por um detalhe prosaico que o técnico e (e nem nós), percebemos ali naquele instante: o microfone instalado na boca do amplificador do Rubens Gióia, foi mal posicionado. Por ter sido usado um microfone Shure SM 57, este deveria ter sido colocado direcionado frontalmente ao alto-falante e e como foi pendurado e por tal modelo de microfone ser unidirecional por natureza, foi óbvio que não captou da maneira mais adequada a emissão do som de guitarra.

Uma boa nova em termos de repertório, foi que já a partir deste show, este que foi o primeiro sem a presença da nossa ex-vocalista, a esfuziante, Verônica Luhr, nós já tivemos à nossa disposição mais músicas autorais para apresentarmos, embora a balança ainda pendesse para as releituras com material alheio, para preenchermos o espaço de um show. 

O lado ruim, foi que ainda estávamos a nos readaptar com a ideia da perda da nossa espetacular cantora, Verônica Luhr, e assim, distribuímos as músicas entre os três componentes para se cumprir a tarefa vocal. Nesse quesito, as melhores interpretações que são ouvidas nesse disco, na verdade são apenas as mais razoáveis, pois nenhum de nós três, membros remanescentes, chegou nem perto do potencial que ela possuía, mas o Rubens sempre foi o mais afinado e que melhor interpretava entre nós. E o Zé Luiz demonstrava ter potencial para desenvolver a sua performance. 

E no meu caso, Luiz, bem, ao longo do disco até fiz alguns backing vocals razoáveis, mas a minha performance como cantor solo, foi sofrível. Tanto que eu segui apenas mais alguns meses a cumprir tal participação na divisão de vozes, mas desisti da ideia. Muitos anos depois, eu melhorei bastante a minha performance, mas nunca mais tentei cantar solo, embora eu considere hoje em dia que até poderia, pela melhora que tive, mas mesmo assim, sempre irei preferir ficar restrito aos backing vocals e deixar a função solo para quem realmente sabe cantar e interpretar de fato.

Sobre o repertório do disco, eis a seguir, as minhas considerações sobre a performance e as características do áudio alcançado para chegarmos a este disco. Primeiro e muito importante ponto: eu mesmo pedi para se mudar a ordem original contida na fita K7, que gravara o show, quase na íntegra, pois a minha intenção ao montar o repertório do disco, foi priorizar o repertório autoral no início e deixar assim as releituras de covers para o final e não seguir o roteiro do show como ele foi montado em 1983, de maneira intercalada.

Sobre a nossa composição, "Átila", só para constar, foi uma coincidência o fato dela ter sido realmente a primeira música do show e veio a calhar que tenhamos mantido a fala proferida pelo nosso baterista, José Luiz Dinola, ao atuar como um apresentador da própria banda (ele diz: -"senhoras e senhores, A Chave do Sol"), mas tudo bem, não tínhamos condição para contar com uma produção mais requintada que nos garantisse o glamour que gostaríamos, no entanto, eu acho que foi interessante. 

A respeito da performance dessa música em específico, o andamento um pouco mais acelerado e típico de apresentação ao vivo, sob efeito natural da adrenalina, se faz presente. Na ordem natural do show, não seria "Luz", a próxima canção, mas para compor melhor o disco, e conforme eu já esclareci anteriormente, eu preferi privilegiar todo o material autoral, concentrado no início do álbum. 

Bem, "Luz" saiu com aquela energia típica das nossas apresentações ao vivo entre 1982 & 1983. O baixo ficou um pouco aquém nesta captura, mas em compensação, a minha voz no backing vocals aparece mais do que a do Zé Luiz.

Rubens faz uma breve introdução para explicar ao público que éramos, A Chave do Sol e que tocaríamos música autoral e algumas releituras sessenta-setentistas naquela noite e que a seguir, tocaríamos: "Utopia". 

E nesta canção anunciada, a performance é boa no geral. Zé Luiz a canta com segurança, embora ele não soubesse modular na época e assim, é um tipo de interpretação linear, afinada, mas sem desenhar, a explorar as possibilidades para se poder burilar melhor a sua melodia. Chama a atenção o forte sotaque paulistano que ele apresenta nesta gravação, fator natural para ele e também para eu e Rubens, é claro, mas deve soar gritante para quem não for de São Paulo. Entretanto, o lado bom foi que ele se soltou, vide ao final, quando até improvisou um vocalise solo para costurar o backing vocals que eu e Rubens mantivemos em uníssono sob o sentido do "looping".

Vem a seguir: "Intenções", cujo vocal solo é meu e a despeito de eu ter sido o mais fraco componente nesse quesito dentro da nossa banda, a minha performance é razoável. Falta emissão em uma ou outra palavra, mas eu não patinei na afinação e dentro do meu estreito limite à época, a interpretação foi razoável. Zé Luiz apoia no contraponto proposto para o refrão e na parte instrumental, a performance é bastante vibrante da banda. 

A música soa bem e chama a atenção pela quantidade grande de pontes, convenções, bruscas mudanças de ritmo com desdobradas, ou seja, por conta de tais atributos, eu sempre lamentarei muito que essa peça não tenha sido gravada em discos oficiais, visto que em minha opinião, foi uma das melhores composições e também pela concepção de arranjo que tivemos no início das atividades da nossa banda. 

O nosso clássico tema instrumental, "18 Horas", entra de forma abrupta neste disco, infelizmente, por conta de ter sido mutilado, pois na captura da fita K7, ela fechara o lado A e o técnico, ao demorar para perceber isso ao vivo e tratar de virar a fita no tape deck para prosseguir a gravar a partir do lado B, naturalmente perdeu tempo e assim, além do começo que entrou já com o tema avançado, ele cortou praticamente todo o solo do Rubens, uma grande pena. Portanto, uma ginástica foi feita da parte do Kim Kehl que preparou esse áudio para o disco em 2020 e assim, a emenda quase que conseguiu disfarçar o corte brusco ao final, a fim de providenciar um fechamento razoável para uma faixa que nós tínhamos toda mutilada nesta gravação original da fita K7. 

Pensei em não incluir o tema, justamente por essa deficiência, no entanto, creio que como material arqueológico, tudo é válido e assim, eu pedi ao Kim o esforço para fazer o melhor possível para termos ao menos uma amostra dessa peça tão importante do nosso repertório.

Vem a seguir, "Crisis (Maya)", com uma boa performance da banda, embora eu considere (e sempre achei isso) que a aceleração do andamento na parte B da música, sempre prejudicou a sua execução ao vivo.

Surpreende a próxima faixa, a primeira da parte de releituras e que eu deixei para o final do disco, pelo fato da música em si não ter sido um mega sucesso reconhecível de forma inexorável da parte do público. Por sugestão do Rubens Gióia, executamos a canção: "Let me In", proveniente de um disco solo do guitarrista, cantor e compositor, Rick Derringer. 

Peça com sabor ultra-setentista, tem um sentido Pop/Rock'n' Roll muito interessante. A nossa releitura foi acelerada, no entanto, em relação à versão de estúdio do disco de Rick Derringer (LP "Derringer", de 1976), contudo, nós seguimos mais a versão ao vivo do disco posterior dele (LP "Derringer Live", de 1977). 

O Rubens estava gripado no dia do show e assim, em alguns trechos onde a música exigiu a subida da tonalidade, a sua voz quase não saiu, com a emissão de um sussurro de sua parte, mas a despeito da questão do seu impedimento para cantar com maior desenvoltura nesse dia, ele não comprometeu de forma alguma. No todo, acho uma interpretação boa e certamente que surpreendeu o público presente no auditório naquele dia e mais ainda aos fãs d'A Chave do Sol que agora a ouvem nos dias atuais, através desse disco com caráter bootleg.

"Blue Suede Shoes" do Carl Perkins, seguiu o padrão de nossa interpretação para essa releitura, praticada nesse período entre 1982 e 1983, quando mais a tocamos em nossos shows. Chama-me a atenção que a minha voz no backing vocals esteja mais alta que a do Zé Luiz e claro que isso foi por conta do técnico de PA que assim preparou a mixagem do show ao vivo. 

"Black Night" do Deep Purple tem a sua versão bastante poderosa neste disco. É curioso um detalhe: antes de iniciarmos a performance em si, quando o Rubens a introduziu mediante um questionamento que fez para o público ao microfone: -"será que alguém se lembra de Deep Purple?" Bem, se houve alguém ali sentado no auditório em abril de 1983, que não se lembrava dessa banda britânica, acho que nós tratamos por refrescar-lhe a memória. 

Outro ponto interessante, a frase final de encerramento, feita dentro do andamento, mas claramente caracterizada por ser um clichê típico para ser utilizado em sentido de "rallentando", forçou uma sutil diferenciação na concepção do nosso arranjo, creio eu. 

Mesmo gripado, Rubens a canta bem, dentro de uma linha mais comedida e ele não teria a pretensão de buscar a emissão do vocalista, Ian Gillan com o Deep Purple, mas ao mesmo tempo a sua voz era (é) afinada e mais uma vez ao ouvi-lo, eu fico com a certeza de que a nossa busca frenética por um vocalista, por anos a fio, jamais foi vital pois o Rubens supriria o comando da voz, com alternância com o Zé Luiz Dinola e apoio de backing de nós três, eu incluso.

Vem a seguir a versão para: "Tie Your Mother Down", peça energética do Queen (contida no álbum: "A Day at the Races" de 1976), em que nós programamos para haver um solo de baixo no meio da performance. Interessante como eu busquei uma construção de solo muito inspirada nos solos do Chris Squire em meio aos shows do "Yes" nos anos setenta, inclusive a introduzir o recurso da dinâmica mediante o uso do volume feito no botão do instrumento para criar efeito e trechos ritmados para angariar a participação do público, mediante bicordes percutidos como se fosse uma guitarra e não um baixo. Bem, eu sempre estive anos-luz de distância desse saudoso mestre, mas ele é uma influência confessa de minha parte e com muito orgulho!

E a seguir, mediante uma deixa bem ensaiada, voltamos para a música com sentido apoteótico e a encerrarmos com pompa e circunstância. Ao final, o Zé Luiz enaltece-me ao microfone ao dizer: -"o bruxo da loucura paulistana, agitando no baixo... Tigueis" (ao usar o apelido que eu ostentava à época). Tal menção ao "bruxo" foi fruto de uma brincadeira interna entre nós, por eu ter usado um chapéu de bruxo em diversas apresentações da nossa banda, ocorridas em 1982.

A foto acima mostra uma cena do filme: The Phantom of the Paradise", de Brian De Palma, com o personagem: "Winslow" 

A minha voz na condução dos backing vocals é estranha, pois eu busquei imprimir um "drive" natural que evidentemente eu não tinha, e assim, o que se ouve é uma voz metálica, com registro médio anasalado, bem esquisita, mesmo. Me inspirei no Johnny Winter para buscar tal resultado, mas na prática, saiu a voz do personagem, Winslow, do filme de Brian De Palma: "The Phantom of the Paradise" ("O Fantasma do Paraíso").

"My My Hey Hey" do Neil Young/Crazy Horse foi um outro tema recorrente em nosso repertório de releituras e que sob a interpretação da Verônica Luhr, a nossa ex-vocalista, soava muito bem. Rubens passou a cantá-la nessa fase do Power-Trio, novamente instaurado e a defendeu com dignidade e posso dizer, mais se aproximou do original do Neil Young do que na interpretação da Verônica Luhr que por sua vez, insinuava a presença de Tina Turner.

Uma boa interpretação de "Purple Haze" vem a seguir, ainda que um tanto quanto acelerada em minha opinião. Rubens se dava muito bem ao interpretar o som de Jimi Hendrix, tanto na atuação à guitarra, obviamente parte vital desse processo, quanto na atuação vocal, inclusive ao balbuciar frases em meio à canção (algumas obscenidades são faladas bem ao estilo do que o Jimi costumava proferir em seus shows) e solos, tal como Hendrix o fazia. 

Tal interpretação de nossa parte, foi programada para conter um solo do Rubens para o show, sem a banda, para destacá-lo. E neste caso, é muito bom esse solo, inclusive com direito à citação de: "Hear my Train Coming", uma peça Blues do repertório do próprio, Jimi Hendrix, portanto, uma feliz menção.

Bem, a nossa releitura para "Jumping Jack Flash" dos Rolling Stones tem uma execução boa, vibrante, certamente, mas a minha performance vocal deixa muito a desejar, devo fazer a minha autocrítica sem pudor. Eu não desafino acintosamente, mas a absoluta falta de maleabilidade para modular, aliada à minha parca emissão e ao inglês macarrônico e indecifrável, realmente torna a experiência para o ouvinte, como algo radical, digamos assim. Em alguns trechos, eu cometi o desatino de perder o senso da melodia e praticamente passei a recitar alguns versos, ao invés de entoá-los. 

No entanto, entre omitir a peça e colocá-la no disco, eu novamente pensei que um disco bootleg tem a característica diferente de um álbum regular oficial e assim, somado ao fato cabal da raridade arqueológica que guarda em si, creio que não poderia ficar de fora. A nossa versão era mais inspirada na gravação do Johnny Winter do que a original dos Rolling Stones, devo acrescentar como um dado.

Vem a seguir a nossa interpretação para "Cocaine", canção Country/Folk-Rock composta por J.J. Cale, mas geralmente atribuída a sua criação para o guitarrista, Eric Clapton, graças à sua versão que ficou mais famosa. 

Zé Luiz a canta com certa desenvoltura, mas chama muito a atenção o seu sotaque ultra paulistano (o termo: "Hang out" quando pronunciado nas ruas do bairro da Mooca, certamente é um bom exemplo), e o inglês macarrônico, ao pronunciar de forma bizarra algumas palavras, como por exemplo: "Forget" e há mais uma ocorrência nesta versão em específico: ele se esqueceu de um pedaço da letra e assim houve um hiato na sua performance. 

Mas tirante esses detalhes, é uma versão boa, bem tocada. Ao final, a minha fala ao microfone foi uma intervenção combinada, feita em todos os shows. Nós julgamos na época ter sido um ornamento interessante para o espetáculo, mas que na prática, se revelara apenas como uma piada interna e bem sem graça, devo acrescentar. Eis então a minha voz a afirmar: -"é o brilho da cidade', para estabelecer uma espécie de ode, lastimável, eu digo hoje em dia, a um tipo de malandragem de rua, descabida pela insinuação infeliz. 

A seguir, vem uma super vibrante performance do tema instrumental, "Blue Wind" do guitarrista, Jeff Beck, com direito a uma menção ao tema: "Train Kept a Rollin' (de autoria de Tiny Bradshaw em 1951), e também pela introdução com bastante improviso, criado com felicidade pelo Rubens Gióia. Tanto que logo no começo e não ao final como seria mais esperado, o Zé Luiz exalta a performance do Rubens ao microfone para o público: -"esse garoto incrível na guitarra, Rubão!" Ainda com a introdução em andamento, eu mesmo grito ao microfone: "Blue Wind". 

De fato, entre todas as releituras que foram regulares em nossos shows nesse período, a nossa interpretação para "Blue Wind", ao lado das canções de Jimi Hendrix, foram as que mais marcaram. Várias pessoas comentam sobre se lembrarem de nos verem a tocar "Blue Wind", até nos dias atuais, pois realmente marcou positivamente para muitos. Após um final apoteótico, o Rubens se despede do público ao dizer: -"Boa noite, muito obrigado, até uma próxima oportunidade"...

Na edição do disco, ficou bem demarcada a ideia de que o último tema: "Wild Thing" (tema do grupo: "The Troggs", mas a nossa versão certamente inspirada na gravação do Jimi Hendrix), foi a nossa volta ao palco para a execução de um pedido de "bis", pela reação da plateia. Soamos bem sessentistas nessa execução, algo muito estimulante para o meu gosto e formação pessoal, porém anacrônico para a década de oitenta em que vivíamos quando dessa gravação.

Então, é isso, creio que a missão foi cumprida com esse lançamento, pois eu fiquei muito feliz pelo resgate estabelecido e a imortalidade garantida para uma audição da banda ao vivo em 1983, ou seja, que presente para a memória da nossa banda, para nós, que somos os seus componentes e sobretudo para os fãs do trabalho.

Show no Teatro Piratininga de São Paulo, em 30 de abril de 1983, com operação de áudio de Pérsio (PA e monitor). Fotos: Seizi Ogawa. Produção de áudio e lay-out de capa em 2020: Kim Kehl. Um lançamento da Crossover Records. Coordenação geral: Luiz Domingues

Sobre a concepção da capa, contracapa e label do disco, o Kim Kehl optou pelo uso de uma foto ao vivo do próprio show, bem escolhida, embora no recorte, a presença do Zé Luiz, atrás na bateria, ficou um pouco prejudicada, mas na contracapa isso ficou recompensado, com uma foto individual dele, onde se vê bem o seu rosto. De resto, a concepção pôs-se a seguir o padrão desses lançamentos "Bootlegs", a conter o logotipo da nossa banda de 1984 e o nosso nome em arco, com cor amarela. 

Enquanto a pandemia do Covid-19 persistia, ao menos mais uma novidade da nossa banda já estava a aquecer no forno.

Na sequência, veio o novo lançamento da série de Bootlegs d'A Chave do Sol, bem no início de outubro de 2020, e desta feita, trouxe à tona para os colecionadores e fãs, o disco: "Demo Tape 1983". De fato, a fonte que gerou tal CD, falo sobre a fita K7 que armazenara tal material, já houvera sido digitalizada anos atrás e cada faixa fora devidamente promovida através de promos especialmente produzidos para tal finalidade (graças aos esforços da produtora cultural, Jani Santana Morales), na utilização de fotos e peças de portfólio correspondentes à época. 

Todavia, quando houve o esforço maior para preservar todo o material das fitas K7, que ainda precisava ser salvo da deterioração, essa fita foi novamente digitalizada. Na comparação com o material salvo anteriormente, ficou nítida a superioridade da digitalização feita ao início de 2020, e assim, prevaleceu essa fonte para preparar o áudio do disco.

Então, eis que se apresenta para este disco, o material da nossa primeiro Demo-Tape, gravada em maio de 1983 e com uma produção absolutamente caseira. Foi feita, na verdade, como uma gravação de ensaio, mediante os parcos recursos em termos de equipamento dos quais nós dispúnhamos à época e na prática, a constar como os meios que tínhamos para ensaiar. Portanto, historicamente, eu diria que essa demo tem a sonoridade muito próxima da nossa realidade de ensaios.

Para especificar, tínhamos poucos microfones, portanto, basicamente nós usamos um microfone para o bumbo, um "overall" para capturar a bateria como um todo, dois microfones para as vozes e um direcionado no amplificador do Rubens, com o baixo ligado diretamente na linha (mesa). 

Tudo isso passou por uma velha mesa de mixagem da marca Giannini, com doze canais e proveniente dos anos setenta. Devo acrescentar que a mesa apresentava problemas técnicos, pois não estava inteiramente em ordem, com alguns canais avariados e certos paramétricos embutidos, em desuso. 

E a gravação foi feita por uma tape-deck da marca: Gradiente, um bom aparelho, não tenho dúvida, mas em tese com função Hi-Fi caseira. Ou seja, se tratou de uma forma de captura espartana, mas foi o que tivemos para registrar este trabalho. Hoje em dia, sabedor dessa falta de recursos com os quais contamos naquela ocasião, eu pondero que o resultado é surpreendente, na proporção inversa, em relação à maneira como foi gravado.

Na pós-produção de 2020, dirigida pelo meu amigo, Kim Kehl, que preparou o áudio desse disco, foi acrescido uma ambiência, visto que a gravação original estava seca, sem ressonância alguma, portanto, tal filtro sutil a garantir o efeito do reverber, trouxe a função da sala vazia, que faltara no resultado da gravação original, armazenada na fita K7. 

Sobre o repertório, eis que seguiu-se a lista, ipsis litteris, contida na fita K7. E como novidades, tivemos duas inclusões sensacionais, a se revelarem como um autêntico achado arqueológico. Foram duas músicas que sobraram da demo-tape de dezembro de 1984, que nós havíamos perdido irremediavelmente e que foram recuperadas ainda em 2019, e neste caso, a explicação mais detalhada sobre esse resgate espetacular para a história da nossa banda, está emitida quando eu comentei sobre o disco número cinco desse projeto maravilhoso dos Bootlegs de 2020, através do próximo capítulo.

"Luz", abre o álbum e eu digo que é nesta música que mais o efeito da ambiência colocada na mixagem pós-2020, é sentida, pois a versão original estava muito seca. Na parte musical de 1983, eu creio que o andamento mais lento é o ideal para essa canção e isso contrasta com a versão oficial do compacto que lançamos em 1984, que ficou bem mais acelerada. Mas a performance da banda é praticamente igual, pois nós a tocávamos dessa forma desde o final de 1982, portanto, nesse aspecto, é praticamente igual ao que se ouve no disco de 1984, inclusive o solo do Rubens, com poucas variantes em relação à versão do disco.

A versão de "18 Horas" proveniente desta demo-tape é muito boa, igualmente. Também muito próxima de como a gravamos no compacto de 1984, soa muito fidedigna e firme, justamente por ter sido a nossa primeira composição e assim, número presente desde o nosso primeiro show que fizemos em 25 de setembro de 1982. As poucas diferenças que o ouvinte notará, serão em algumas sutilezas contidas através dos três solos individuais por nós perpetrados e ao início, em relação aos efeitos feitos pelo Rubens à guitarra.

"Átila", soa muito bem, igualmente. É até surpreendente o peso das convenções iniciais da canção, somente feitas pelo baixo e bateria. Gosto também da parte mais eloquente com a guitarra a usar bastante efeito e preencher de uma forma muito bonita todo o espaço.

Quarta faixa, "Utopia" soa bem, nesta versão. Foi sem dúvida a nossa música com melhor teor Pop nesse início de carreira da banda, mas mesmo assim, apesar da letra ingênua por eu mesmo escrita, e da interpretação bem linear da parte do Zé Luiz, há certos detalhes destoantes, pois se a intenção seria soar popular, a presença de algumas convenções mais intrincadas para esse padrão, são ouvidas e o solo do Rubens é bem vigoroso no padrão do Hard-Rock. 

Eu sempre gostei dessa música, mas ela foi sendo descartada aos poucos do repertório até ser extirpada de vez, quando percebemos que apesar de diversos retoques, na sua essência ela se parecia muito com a música: "Summertime Blues" do Eddie Cochran e pelo viés da versão do The Who, portanto, por mais que a maquiássemos, a comparação seria sempre inevitável, mesmo que estivéssemos a viver a década de oitenta e neste caso, tal referência fosse considerada anacrônica e talvez só perceptível para Rockers tradicionalistas com cultura sessenta-setentista (e neste caso, também versados pela cultura cinquentista).

"Dança das Sombras" é a quinta faixa e soa muito bem. Chama a atenção logo de início, a estranheza proposital criada pelo Zé Luiz no desenho inusitada do seu pedal de bumbo, ao propor uma marcação não usual, mas esse detalhe dura por alguns compassos somente. 

Acho que logo quando a banda entra no balanço do tema inicial, uma parte A, digamos assim, há uma aceleração do andamento que não percebemos quando gravamos. Mas mesmo assim, soa com um balanço muito bom, inspirado no Jazz-Rock mais funkeado, sob viés setentista. E depois, quando quando o tema avança sobre uma jam-session mais vibrante, é mesmo um clima em torno do Blues-Rock com sabor Jazzy, bem ao estilo do Ten Years After. 

De fato, era uma jam livre para as improvisações da parte dos três instrumentistas, no entanto, há uma quantidade de convenções estratégicas para delimitar o tema em fases, portanto, sempre houve o senso da organização a norteá-la e assim, a improvisação apresentava margens bem definidas para se desenvolver e segurança para irmos e voltarmos, o tempo todo. 

"Blue Suede Shows", o clássico cinquentista de Carl Perkins serviu como um item estratégico dessa demo-tape, pois ela não fora concebida para ser mostrada em gravadoras, mas para pleitear espaço de atuação em casas noturnas, daí a necessidade que tivemos de contar com algum material cover. Trata-se de uma boa versão, a soar exatamente como a executávamos ao vivo desde 1982, com a voz do Rubens bem aplicada e um vibrante solo de guitarra de sua parte.

A sétima faixa, "Purple Haze" também teve o objetivo de servir como uma mostra da banda para vender shows em casas noturnas. Esta versão soa bem próxima da gravação original do Jimi Hendrix Experience, portanto agrada-me muito. Rubens a interpreta bem e faz um bom solo.

A oitava faixa é uma grata surpresa aos fãs d'A Chave do Sol, exatamente por ser uma das duas faixas recuperadas da demo-tape posterior que gravamos, em dezembro de 1984. A canção: "Crisis (Maya)", vem cortada, pois perdemos o seu início, mas mesmo assim, tem o sabor do tesouro recuperado. Com uma qualidade um pouco melhor de áudio, pois fora gravada através de uma máquina de gravador de rolo e com melhores microfones, assim mostra a banda bem entrosada, a soar muito bem.

E para fechar, a se tratar de uma outra faixa bônus e oriunda da demo-tape perdida de 1984, eis aqui uma curiosa versão instrumental da música: "Segredos", que nós gravamos para avaliarmos como estava a soar, como sobra da fita de rolo e sem a intenção de incluí-la no material da demo-tape oficial. 

Interessante, há uma resolução harmônica diferente na sua parte B, que foi descartada logo a seguir, pois nós a gravamos sem essa variante, escutada através do EP lançado em 1985.

Sobre a criação da capa e contracapa, o Kim Kehl seguiu o mesmo plano dos álbuns anteriores. No entanto, como desta vez se tratava de uma disco a conter a gravação de uma demo-tape, evitou-se a presença de fotos da banda ao vivo, e daí, ele usou algumas fotos de uma sessão promocional, na verdade a primeira sessão com esse sentido, feita em março de 1983, sob a lente de Seizi Ogawa, assim que a Verônica Luhr deixara a nossa banda. 

Mas não são fotos com muito sentido promocional como se observa (estão todas disponíveis para o leitor, no meu Blog 3), pois todas elas tiveram um certo ar satírico a buscar uma diferenciação que certamente não conseguimos e no máximo, são apenas objeto de piadas internas, que só nós entendíamos, portanto. Todavia, mediante um esforço com efeitos, elas foram maquiadas e serviram ao propósito de se cobrir as ilustrações deste álbum em sua capa & contracapa.

Uma curiosidade interessante, a demo-tape de 1983 foi o material que levamos à produção do programa: "A Fábrica do Som", da TV Cultura, assim que a gravamos, em maio de 1983, e que motivou a nossa escalação para participar pela primeira vez dessa atração televisiva, em julho de 1983.

CD Demo-Tape 1983. Gravado em maio de 1983 (faixas 8 e 9, em dezembro de 1984). Autoprodução de áudio em 1983 e captura em 1984, de Carlos Muniz Ventura. Digitalização das faixas 8 e 9 em 2019: Pato. Apoio: Diogo Barreto e Ricardo Schevano (Estúdio Orra Meu). Áudio e criação e lay-out de capa em 2020: Kim Kehl. Apoio: Crossover Records.

Muito bem, quando este disco ficou pronto no início de outubro de 2020, o próximo lançamento do projeto, o de número quatro dos bootlegs de 2020, já estava finalizado e fora enviado para a fábrica, portanto, em breve, chegaria mais uma surpresa para os fãs do nosso trabalho.

Então chegou o quarto volume dos Bootlegs d'A Chave do Sol, a se tratar do álbum denominado: "Ao Vivo em Limeira/SP 1983". 

Este áudio é fruto da captura do nosso show realizado no Club Gran São João, localizado na cidade de Limeira-SP, em 9 de julho de 1983, quando nós abrimos o show da Patrulha do Espaço que foi a atração maior daquela noite.

Na mesma predisposição dos álbuns anteriores, a captura e armazenamento em uma fita K7, logicamente que não propiciou um super áudio para se ouvir, mas, digamos que mantém um padrão um pouco abaixo do segundo Bootleg (CD "Teatro Piratininga/SP 1983"), e bem melhor que o primeiro: "Ao Vivo 1982/1983".

Sobre a sua capa, infelizmente eu não tinha no arquivo, nem uma foto sequer desse show em si e apenas o recorte de jornal, da "Gazeta de Limeira" da época, que nos cita como banda de abertura do espetáculo e assim, eu sugeri ao Kim Kehl que criasse algo a conter essa nota e algumas fotos promocionais que tínhamos feito pouco antes desse show, em maio de 1983. 

No entanto, tais fotos foram feitas de forma amadora e erro nosso, muitas delas com alguma intenção satírica que não passam de piadas internas e jamais deveriam terem sido cogitadas sequer para o uso promocional.

Uma delas, foi até objeto de uma tentativa de aproveitamento, pois, o Kim recortou as silhuetas dos três componentes da banda e inseriu tal foto adaptada na contracapa, como um detalhe, mas ambos, eu e Kim não gostamos, pois a foto não passa a ideia que imaginamos em 1983, comigo (Luiz Domingues) e José Luiz Dinola a "interpretarmos" ladrões (os famosos "trombadinhas" como se falava nos anos setenta e oitenta) a tentar roubar a guitarra do Rubens. A interpretação para a foto foi patética e somente nós três e o fotógrafo, Seigi Ogawa, sabiam da intenção da piada, portanto, no mundo de 2020, não coube deixar a foto na contracapa desse disco.

Então, sem material adequado, eu tive uma ideia, ao me lembrar de capas de discos de bandas dos anos sessenta e setenta e assim sugeri ao Kim uma abordagem semelhante. Com três fotos da sessão que fizemos para a capa do nosso Compacto de estreia de 1984, não aproveitadas para aquele disco (clicks de Fábio Rubinato, feitos em janeiro de 1984), o Kim seguiu a minha ideia e montou os nossos respectivos rostos, dentro das figuras geométricas em formato de "estrela" ao estilo dos distintivos de "Sheriff" do velho oeste norte-americano. 

Sob um fundo a trabalhar com um tipo de mixagem entre o verde musgo & azul turquesa, com detalhe roxo e com as tais estrelas amarelas, com os nossos rostos a conter detalhes azuis. Eu gostei muito da solução, pois, ficou criativa e lembra muito a existência de diversas capas de discos de bandas de Rock de outrora, portanto, secretamente eu comemorei conter um disco assim para enriquecer a minha discografia.

Então, devidamente comentada a história da criação da capa e contracapa, entro agora na análise das faixas, mais a comentar sobre o áudio, a performance da banda nesse show e as circunstâncias com as quais lidamos na ocasião.

A primeira observação que eu devo fazer, refere-se à ordem do repertório proposta para o disco, que sofreu modificação em relação ao set list que executamos ao vivo e foi capturado na fita K7. Isso por que eu decidi privilegiar o nosso material autoral no começo do disco e deixar a seguir as releituras que interpretamos no show para preencher tempo. 

Nessa altura, julho de 1983, nós já tínhamos material suficiente para apresentarmos um repertório inteiramente autoral, no entanto, nesse show em específico, ao abrirmos a Patrulha do Espaço, banda grande e consagrada e perante uma enorme multidão, nós achamos mais prudente tocarmos covers internacionais mesclados às nossas músicas autorais, que dada a obviedade de que éramos completamente desconhecidos do grande público até então, seriam opções mais palatáveis para as pessoas ali presentes. 

Curioso, três dias depois, nós fomos tocar ao vivo no palco do teatro do Sesc Pompeia em São Paulo, para filmar a nossa primeira apresentação no programa de TV, "A Fábrica do Som", da TV Cultura e tudo mudou, ao nos dar o primeiro impulso de projeção midiática para nos tirar do anonimato.

Falo sobre as músicas deste disco bootleg, então. Bem, o disco se inicia com "Luz", sob uma execução vibrante. O áudio, no entanto, não é dos melhores, pois o rapaz que operou o PA, anexou o gravador na mandada do monitor, portanto, a mixagem que se ouve é bem desequilibrada, com o som do baixo muito aquém, guitarra um pouco melhor, vozes altas e a bateria com algumas peças em evidência e outras bem obscurecidas.

Sobre a performance, fora a vibração já observada, é engraçada uma parte onde o Rubens esqueceu a letra da canção e improvisou com algo onomatopaico, que eu tenho certeza que ninguém ali no calor da apresentação, ninguém notou, a não ser nós da banda, pois não éramos conhecidos na ocasião. O solo do Rubens é muito bom e as vozes dos backing vocals aparecem com clareza.

O Rubens anunciou que logo mais haveria o show principal com a Patrulha do Espaço e claro que a plateia respondeu com entusiasmo e tal predisposição de sua parte poderia ter sido um ponto perigosa para nós, ao dar a deixa para a hostilidade da parte do público vir à tona, mas isso não ocorreu, ainda bem e nos deixaram tocar. 

Veio então a nossa interpretação para: "Utopia", que soa com qualidade, com uma volúpia Rocker bem acentuada e as convenções saíram bem executadas. As vozes estão bem e ao ouvir hoje em dia, eu penso que essa música, detinha sim um potencial Pop.

"Intenções" é a terceira faixa e mostra a banda em ótima forma, com uma execução precisa para uma série de convenções, algumas intrincadas, inclusive. Na parte cantada a banda entra com muito balanço ao se parecer como bandas setentistas como o "Captain Beyond" e "Armaggedon", com peso e substância. Gosto muito dessa canção, já disse muitas vezes mas vou repetir: arrependo-me muito de não tê-la gravado nos discos oficiais da nossa banda, pois ela é forte, bem arranjada e mostra muito mais a nossa real identidade, do que muitas canções que gravamos a posteriori, não tenho dúvida.

Sobre a minha performance vocal, eu sinceramente pareço um ébrio rouco e ofegante pela debilidade pulmonar iminente. E a minha emissão, por possuir uma voz tão grave, é mínima, tanto que o Zé Luiz, quando entra na parte B a fazer um contraponto, praticamente anula a minha voz que continua a entoar a melodia "A" enquanto ele canta a "B" e assim, eu estraguei com a minha inaptidão à época, o sentido do contraponto que planejamos como arranjo.

Vem a seguir a nossa interpretação para "18 Horas" e antes de começarmos, o Rubens fala ao microfone que essa música apresenta os três membros da banda. O meu solo dentro da música é bem econômico, por que eu teria um solo maior a seguir em outra música. 

Chega a vez do solo do Zé Luiz e nas partes onde ele buscou a dinâmica mais branda, ouvem-se murmúrios vindos da plateia, já com os primeiros impacientes com a nossa então condição desconhecida e que ansiavam pelo show da Patrulha do Espaço, mas quando o ímpeto volta em sua interpretação, eles cessam a manifestação e certamente que a nossa volúpia sonora os calou. O solo do Rubens é muito bom, ele estava bem inspirado nessa noite. 

Aí vem a deixa para voltarmos ao tema central e eu errei completamente ao antecipar a convenção e assim a criar o constrangimento aos meus colegas. Mas o Rubens foi rápido e improvisou uma saída, e assim, ele fez mais um solo muito bom e nós três, desta feita, fizemos a saída da música corretamente. Em seu improviso, é possível notar perfeitamente quando ele faz uso do recurso de tocar a guitarra com os dentes, ao fazer a óbvia menção e dessa forma, homenagear o imortal, Jimi Hendrix. Ao final, o Rubens citou o Zé Luiz, para que a plateia o saudasse em relação ao seu solo de bateria. 

"Átila", a próxima canção, infelizmente foi cortada quase que inteiramente na fita K7, pelo motivo óbvio de ter encerrado o lado "A" e o técnico que operava o PA demorou para virar a fita e colocar o Lado "B" para gravar. Sobrou então apenas trinta e sete segundos para ouvirmos dessa performance, com a música quase no seu final. Foi aplicada na pós-produção de 2020, uma radical solução com o uso de um "reverber" seco para mascarar o final abrupto e sobretudo em relação ao ruído indesejável que estava impregnado na fita K7.

A seguir, ouve-se a nossa interpretação para: "Blue Suede Shows" do Carl Perkins, com uma ótima interpretação da banda. Rubens canta bem e ao final, ouve-se um coro a pedir: "pauleira, pauleira", ou seja, queriam que tocássemos temas mais pesados, situados entre o Hard-Rock e o Heavy-Metal, pois o termo "pauleira" foi uma gíria surgida na metade/fim dos anos setenta e que perdurou pelos anos oitenta, a designar o dito: "Rock pesado". 

Passaria despercebido, mas eu revelo: durante o solo, eu (Luiz Domingues) e o Zé Luiz, seguimos a cantar o backing vocals por distração nossa. Mas foi interessante como isso foi disfarçado, pois nós seguimos a cantar com o erro assumido, sem nos olharmos, por intuição e fomos em frente para que dessa forma parecesse ser o arranjo normal. 

É claro que foi inconveniente e atrapalhou o solo do Rubens, mas o fato de mantermos o erro foi uma solução boa para efeito de performance ao vivo, certamente, pois pior seria se um de nós houvesse relutado e parado no meio do caminho a acentuar a falha. 

"Tie Your Mother Down", canção do Queen, vem a seguir com direito a um solo de minha parte, Luiz. Foi um solo planejado e que eu fizera igualmente no show realizado no Teatro Piratininga ao final de abril do mesmo ano e que também foi lançado em 2020 como um álbum bootleg. 

Nesta altura, a garotada presente na plateia já estava insuflada pela turminha que clamava por "pauleira" e ficaram a entoar esse clamor nas partes baixas da minha dinâmica. Faltou-me experiência, pois eu deveria ter imaginado que nas partes mais sutis a buscar efeitos com o botão de volume do instrumento, eu daria brecha para a impaciência da plateia se manifestar. Tanto que nas partes mais pesadas e ritmadas do solo, eu provoquei interação, mesmo sendo um completo desconhecido para aqueles três mil e quinhentos garotos ali a nos verem e ouvirem. 

No disco eu suprimi, mas na fita K7 original, houve um momento em que pararam de gritar, "pauleira" para entoar a palavra, "debulha", ao naturalmente apoiarem o meu esforço ali em fazer um solo para entretê-los. No disco, a banda volta com tudo e o final apoteótico é bom, com o Zé Luiz a apresentar-me e claro, a fazer uso daquele apelido que eu usava na ocasião.

"Foxy Lady" do Jimi Hendrix vem a seguir e a performance da nossa banda é muito boa. Soamos como o "Experience" nos anos sessenta, com a volúpia do Acid-Rock psicodélico, que orgulho. É muito bom, também, o solo do Rubens.

"Cocaine" do JJ Cale tem uma versão mais curta, sem repetir os versos em demasia, que foi proposital para esse show. Zé Luiz canta bem e os backing vocals feitos por Rubens e eu, Luiz, funcionam bem, igualmente. Ao final, a plateia responde de pronto quando fizemos a última volta do módulo e estancamos o instrumental de propósito para que a plateia sobrasse sozinha. Nesta faixa, dá para ver que o técnico do PA aplicou uma frequência média-aguda exagerada na caixa da bateria, pois a ressonância do harmônico da nota, a cada ataque da baqueta do Zé Luiz, é quase nula.

"My My Hey Hey" tem uma boa performance, com energia. Curioso, o Rubens fala antes de começarmos, que seria um momento para acalmarem-se os ânimos, mas a nossa performance foi vigorosa.

A próxima canção mediante a ordem real do show foi a segunda, mas para este álbum, foi colocada como nona faixa. Trata-se da nossa versão para: "Jumping Jack Flash" dos Rolling Stones, com uma performance instrumental bastante energética. A minha voz solo é medonha, eu reconheço, isso além do fato que ao buscar uma linha de interpretação agressiva, eu tentei acionar o "drive" que eu nunca tive, portanto, pareço uma abelha fanha. 

E mais uma consideração: a pronúncia em inglês se mostra como algo indecifrável, visto que o que eu canto ali é tudo menos esse idioma. Na minha performance eu pelo menos evitei fazer loucuras, baseado na minha atuação durante o show do Teatro Piratininga feito anteriormente, portanto, no Club São João de Limeira, eu fui mais comedido.

Para fechar, a nossa versão de "Blue Wind"/"Train Kept a Rollin" foi bastante convincente, com uma boa atuação do Rubens, mais uma vez. Ao final, ele mesmo, Rubens diz: -"boa noite, muito obrigado, até uma próxima oportunidade". Lamentavelmente a nossa banda nunca mais voltou à cidade de Limeira, uma pena, mas três dias depois desse show, A Chave do Sol começaria a sair do anonimato, quando gravou a sua participação para o programa: "A Fábrica do Som" da TV Cultura, diretamente do palco do Sesc Pompeia de São Paulo e assim, atingiu um grande público pela primeira vez.

Para encerrar, a ficha técnica deste bootleg: A Chave do Sol ao Vivo em Limeira-SP 1983. 9 de julho de 1983. Clube Gran São João em Limeira-SP. Pós-produção de áudio em 2020: Kim Kehl. Criação e lay-out de capa: Kim Kehl. Fotos: Fábio Rubinato. Apoio: Crossover Records. Supervisão geral: Luiz Domingues.

No próximo capítulo, eu repercutirei os lançamentos posteriores dessa linha de bootlegs: os volumes 5 e 6. E no caso do volume 5 em específico, a se tratar da maior joia arqueológica dentro desse projeto e que muito orgulha-me como ex-membro e arquivista da memória da nossa banda!   

Continua... 

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