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sábado, 9 de dezembro de 2017

Trabalhos Avulsos / Atualizações - Capítulo 39 - Edy Star + Os Kurandeiros Celebram 50 Anos de Tropícália - Por Luiz Domingues

 
Conforme contei anteriormente, quando fiz parte da banda de apoio do cantor Edy Star, por ocasião de seu show na "Festa Odara", versão de 14 de novembro de 2014, fora um prazer tocar e muitas observações positivas foram objeto de minha avaliação, nesse trabalho.

Em 2015, recebi o telefonema da cantora Renata "Tata" Martinelli e desta feita, ela é que estava organizando os preparativos para uma série de shows que Edy Star realizaria num circuito de teatros da prefeitura de São Paulo, numa espécie de mini turnê, mas eu estava em plena fase de convalescença de minhas duas primeiras cirurgias e não pude aceitar o convite, perdendo a oportunidade. E no meio do caminho ainda teve a "Virada Cultural", onde também perdi a chance de realizar um show perante grande multidão, com direito a um cachet robusto, inclusive...

Mas ao final de 2016, o Kim Kehl mais uma vez abordou-me e ao Carlinhos Machado, e convidou-nos a fazer parte da banda de apoio de Edy Star e desta feita seria em moldes diferentes da apresentação da qual participei em 2014. Primeiro, que não seria anunciada a nossa participação como "Easy Rider Band", mas apresentar-nos-íamos com a nossa identidade habitual, ou seja, "Os Kurandeiros". Segundo aspecto, a festa desta vez seria temática e o mote escolhido fora a efeméride dos 50 anos do movimento tropicalista na MPB, 1967 / 2017. Dessa forma, o repertório sugerido pelo Edy, versava muito em canções de Caetano e Gil, como base do espetáculo, mas havendo as canções tradicionais que compõe o repertório base do Edy em suas apresentações regulares, ou seja, bastante Rocks pré-Jovem Guarda e algumas canções mais modernas, além é claro de muito material clássico do Raul Seixas, pela ligação artística e histórica que ambos tiveram nos anos setenta etc e tal.

O palco montado para o soundcheck no Cine Joia. À esquerda, Luiz Domingues fazendo seus últimos ajustes no baixo e amplificador. 13 de janeiro de 2017. Foto : Carlinhos Machado

E um terceiro ponto, talvez temerário em tese, que revelava-se na extrema simplicidade da formação, resumindo-se ao Power Trio dos Kurandeiros e a inclusão de apenas um músico a mais para reforçar o time, na figura do percussionista, Michel Machado. Tocar em formato "Power Trio" é algo que fiz muito na vida, em boa parte da carreira da Chave do Sol e voltei a praticar nessa fase com Os Kurandeiros, desde 2011, e claro que não preocupava-me em nada, no entanto, para acompanhar um outro artista e com o repertório proposto, a presença de um segundo guitarrista apoiando nas harmonias e melhor ainda, se fosse um tecladista, seria ótimo pelas circunstâncias, mas isso não foi possível e assim, tivemos que tirar muitas músicas num curto espaço de tempo e com essa formação bem básica. Pior que isso, algumas canções escolhidas para a apresentação, ostentavam características experimentais acentuadas, caso de canções como : "Alegria, Alegria" e "Tropicália" contendo todos aqueles detalhes com orquestrações e elementos psicodélicos "nonsense", portanto, tocá-las assim, em formato Power Trio e só com o acréscimo de um percussionista, seria temerário numa primeira avaliação.

O set de guitarra de Kim Kehl, pronto para a ação, no Cine Joia. Foto : Kim Kehl 

OK, tiramos tudo e fomos para o primeiro ensaio, embora dias antes disso, o Edy Star fora convidado pelo Kim Kehl e fez uma breve aparição num show dos Kurandeiros, onde cantou algumas canções que tocaríamos na Festa Odara. Nessa participação, nós estávamos prontos para tocar tais músicas baseadas nos arranjos e tonalidades dos seus respectivos álbuns, onde estão registradas, mas o Edy surpreendeu-nos com pedidos de mudanças súbitas no andamento e tonalidades. OK, coisa típica de cantor, quem está acostumado a tocar em banda base de cantores sabe o quanto isso é normal, apesar de ser obviamente um transtorno e tanto para qualquer instrumentista, estabelecer modificações com o avião em pleno voo...

Já no ensaio, mostrando-se contrariado com tonalidades e andamentos, fez várias outras modificações e ali, tratava-se da véspera do show, portanto, lá fui eu fazer transporte de harmonia e na dúvida, fiquei com duas versões de cada música na cabeça, exatamente prevendo que na hora do show, não seria nada surpreendente que ele desistisse da modificação e pedisse para tocarmos no tom original do disco. Mais habituado a lidar com tal tipo de situação, o Kim aproveitou e contou-me que quando acompanhou uma dessas duplas sertanejas mainstream, era comum os sujeitos pedirem modificações harmônicas aos músicos, com o show em andamento, provocando desconforto generalizado na banda inteira, naturalmente. Ok, saímos todos ilesos do ensaio, e agora era contar com o velho espírito Kurandeiro de improviso em eventuais momentos de pane, e modéstia a parte, nossa banda de tanto tocar na base do improviso, é bastante calejada nesse sentido.

Nesse click da fotógrafa, Carol Mendonça, a partir do mezanino do Cine Joia (nós e Edy bem lá no fundo), dá para ter-se a dimensão do ambiente triangular da sala, com o palco perfazendo o seu ângulo. 13 de janeiro de 2017

O local do show seria outro também, desta vez em relação ao show que participei em 2014. Ainda mais interessante a meu ver, o Cine Joia, uma ex-sala de cinema, ainda mantinha a sua arquitetura cinquentista, muito glamorosa. Cinéfilo que sou desde a tenra infância, não contive meu ímpeto assim que cheguei ao estabelecimento e fiz uma turnê pelas suas dependências. Cinema histórico na cidade de São Paulo, para quem não conhece sua trajetória, digo resumidamente que tal sala fora construída com o intuito de exibir filmes japoneses e sem legenda, exatamente para atender a colônia nipônica radicada na cidade e registre-se, São Paulo é a maior cidade "japonesa fora do Japão" no mundo, dada a imigração que foi massiva por aqui e que naturalmente gerou milhões de descendentes. Por anos a fio, o Cine Joia cumpriu sua função com muita dignidade, sendo um polo cultural para a colônia, apoiando principalmente os imigrantes mais idosos, que tinham imensa dificuldade para aprender o nosso idioma e assim, ir ao Cine Joia e assistir um bom filme japonês ouvindo a sua língua, evitava que entrassem na depressão inevitável pela não adaptação ao Brasil. E claro, o Cine Joia fica encravado no centro do bairro da Liberdade, onde a tradição dos orientais construiu-se na cidade e por décadas foi considerado o bairro japonês da cidade. Ainda tem um comércio fortíssimo dos japoneses ali, mas nos dias atuais, os chineses e coreanos também estão ali no comércio e nos serviços, em profusão. Bem, apesar disso tudo, por ser uma ex sala de cinema e não ter sido muito drasticamente modificada para vir a ser uma casa de shows na atualidade, o palco em formato de uma concha, parece mal aproveitado, com uma profundidade que não serve para nada e a parte útil de fato, prejudicada pela dimensão exígua. Bem, a vantagem é que tocaríamos em quarteto, com um mapa bem simples. Bateria e percussão na linha de trás e guitarra e baixo na segunda linha, deixando a frente para o Edy, a estrela da noite, naturalmente.

No acesso ao camarim, a banda reunida com Edy Star, momentos antes do show. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Kim Kehl; Edy Star; Michel Machado e Carlinhos Machado. Cine Joia, 13 de janeiro de 2017. Foto : Carol Mendonça

Gostei do caminho dos camarins, com certo sentido labiríntico e a existência de muitos cartazes antigos de filmes japoneses que certamente ali foram exibidos. Isso foi incrível mesmo, gostei muito de ver essa memorabilia, ainda que não exatamente bem cuidada, uma pena. Nos momentos antes do show, Edy divertiu-nos no camarim, contando histórias sobre suas andanças por Portugal no início dos anos setenta, atuando como ator em montagens teatrais.

Os Kurandeiros (Carlinhos Machado; Kim Kehl & Luiz Domingues), no camarim do Cine Joia, em 13 de janeiro de 2017, desta feita a serviço de Edy Star. Foto : Lara Pap

Sobre a organização, tudo foi muito bem azeitado, essa rapaziada organiza essa festa há anos, portanto tudo correu muito bem, não tenho nada a reclamar e pelo contrário, só tenho elogios. Incluso na contratação de um equipamento de som e luz de qualidade, um alívio para todos.

Outra foto do soundcheck, no período da tarde. Da esquerda para a direita : Kim Kehl, com Carlinhos Machado ao fundo na bateria; Edy Star, Michel Machado na percussão, atrás e Luiz Domingues. Foto : Lara Pap. 

Edy Star é um artista performático e tendo a formação como ator, não contenta-se em cantar e fazer mise-en-scené tradicional, mas sempre busca algo a mais. Olhando o palco com uma considerável altura em relação ao patamar básico do público (há também um mezanino muito bonito), inventou de iniciar o show vindo cantando do público e subir ao palco por uma escada de acesso frontal. Até aí, tudo bem, bacana a ideia pelo aspecto impactante, todavia a escada era íngreme, sem apoio e pior, sob plena escuridão no público e iluminação ofuscante na contraluz, portanto, o risco dele desequilibrar-se e cair era enorme e coloca-se aí nessa receita a sua idade cronológica, com quase oitenta anos de idade naquela ocasião, portanto isso gerou preocupação generalizada. 



Luiz Domingues na primeira foto; Kim Kehl na segunda e Michel Machado & Luiz Domingues na terceira. Edy Star + Os Kurandeiros na "Festa Odara", no Cine Joia de São Paulo. 13 de janeiro de 2017. Clicks de Carol Mendonça 
 
Mas ele insistiu e de fato, na hora do show a banda entrou tocando a música : "Os Mais Doces Bárbaros", que aliás é uma canção que eu adoro do repertório desse trabalho de Gil; Gal; Bethânia e Caetano, atuando como uma banda. Inevitável a lembrança por quantas vezes eu fui ao Cine Belas Artes assistir o documentário dessa turnê dos "Doces Bárbaros", e adorava ver a abertura do show com essa mesma canção e com o Arnaldo Brandão destruindo tudo no seu baixo Fender... claro que toquei com muito prazer pensando nessa minha reminiscência setentista e óbvio que tocaria a canção na mesma intenção do Arnaldo, com aquele swing todo de R'n'B / Soul Music. E o Edy fez o que prometeu... veio cantando da plateia, com um canhão de luz ao estilo "super trouper", acompanhando-o e todo "glam", subiu apoiado por seguranças e não perdeu o pique...

Edy Star, todo "Glam" ao microfone, com Luiz Domingues no primeiro plano e atrás, encobertos, o percussionista, Michel Machado e o baterista, Carlinhos Machado. 13 de janeiro de 2017, no Cine Joia de São Paulo. Click de Carol Mendonça

Fora disso, o repertório recheado por músicas da tropicália e MPB, acertou na mosca, eu diria, pois o público saiu cantando e dançando o tempo todo. O percussionista Michel Machado é excelente músico e tratou de fornecer o "champignon" ao show, como dizia o saudoso, Wilson Simonal. 

Uma panorâmica do palco. Da esquerda para a direita : Kim Kehl; Edy Star e Luiz Domingues na linha de frente. Atrás, Carlinhos Machado e Michel Machado. Festa Odara no Cine Joia de São Paulo. 13 de janeiro de 2017. Click de Carol Mendonça

Um dado engraçado do show, num determinado momento, olho para baixo e vejo algumas pessoas chamando a minha atenção mediante gesticulação. Quando fitei-as, vi que uma menina mostrou-me uma tela de um "tablet" com os seguintes dizeres grafados : "Fora Temer"... (presidente do Brasil na ocasião), e ela e sua turminha faziam sinais para eu ir ao microfone e insuflar a massa com tal "mantra". Ora, eu não poderia tomar tal iniciativa de forma alguma, visto ser ali um acompanhante. O dono do show era o Edy e eu jamais poderia afrontá-lo tomando uma atitude impertinente dessas. Segundo ponto, mesmo não sendo nada simpático ao governo desse senhor citado e seu partido, eu não faria isso nem que fosse um show regular dos Kurandeiros, minha banda, e onde tenho liberdade para tomar uma atitude dessas se fosse o caso, pois mesmo assim, isso só seria cabível se a banda toda estivesse de acordo com a tomada de posição política e além de amplamente debatido no nosso ambiente interno, houvesse 100 % de concordância com tal tomada de posição em público, expondo a banda dessa forma. Sinalizei para a garota que não podia fazer isso, mas não fui hostilizado por ela e seus amigos. Pelo contrário, sinalizou-me com o dedão, fazendo o clássico sinal de "positivo", denotando entender a minha posição ali em cima do palco. Mas não adiantou nada eu não ter feito isso, pois na primeira pausa possível entre uma canção e outra, alguém do público deu a palavra de ordem e a massa aderiu com contundência. Mas nós ignoramos a manifestação e encobrimos o coro com tal teor político, ao começar imediatamente o próximo número e ninguém ali sentiu-se ofendido. Passaram a cantar e dançar, com o "comício" político a encerrar-se...

Bela perspectiva com o público de frente e todo mundo sendo agraciado com o púrpura profundo... Festa Odara, no Cine Joia de São Paulo. 13 de janeiro de 2017. Click de Carol Mendonça

Finalizamos o show com o público bastante satisfeito, aplaudindo bastante o Edy e por conseguinte a banda. Acho que demos o recado e cumprimos a missão com bastante sucesso. No camarim, do pós show, o cansaço era grande. A madrugada quente de verão estava avançada e pela vidraça, víamos a Avenida 23 de Maio, semi deserta, uma cena rara em se tratando dessa via de São Paulo. Na saída, recebemos muitos cumprimentos. Essa sinalização de que haviam gostado, foi muito legal e surpreendeu de certa forma quando alguns mais antenados, fizeram considerações mais embasadas da nossa performance e demonstrando ter cultura Rocker, pelas colocações feitas. Bacana, por essa não esperávamos e claro que foi a cereja do bolo.

Edy Star sob as bênçãos de Caetano Veloso nas imagens projetadas. Carlinhos Machado ao fundo, na bateria e Luiz Domingues no primeiro plano. Festa Odara no Cine Joia de São Paulo. 13 de janeiro de 2017. Click de Carol Mendonça


Missão cumprida, foi meu segundo show com Edy Star e mais uma vez foi prazeroso por muitos aspectos já citados ao longo da capítulo. Aconteceu em 13 de janeiro de 2017, no Cine Joia, localizado no bairro da Liberdade, centro de São Paulo, com cerca de 500 pessoas presentes. E assim foi esse meu trabalho avulso (embora híbrido, posso afirmar, visto que a estrela era o Edy, mas Os Kurandeiros levaram crédito, igualmente), por enquanto. 

A próxima ocorrência no campo dos trabalhos avulsos, foi para lá de prazerosa por envolver personagens de diversas passagens de minha vida profissional, ao mesmo tempo... falo disso no seu capítulo correspondente, a seguir.


Um resumo da "Festa Odara" em 13 de janeiro de 2017, no Cine Joia do bairro da Liberdade, em São Paulo. Edy Star com Os Kurandeiros

Eis o Link para assistir no You Tube : https://www.youtube.com/watch?v=UR__OGJ8rBo

domingo, 3 de dezembro de 2017

Trabalhos Avulsos / Atualizações - Capítulo 38 - Rolling Stones Live Cover em Noite Interiorana - Por Luiz Domingues

Rolling Stones Live Cover na casa de espetáculos, "Milwaukee", de Ribeirão Preto / SP, em 18 de junho de 2016. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Alexandre Mandaliou; Angelo Salinas; Luis Antonio Melantonio e Kim Kehl

Meu último trabalho avulso, realizado fora de bandas oficiais e autorais onde sou componente, fora em 2014, quando tive o prazer e a honra de atuar em um show do cantor Edy Star, e fato devidamente registrado em capítulo neste Blog 3 (Trabalhos Avulsos Capítulo 36, publicado em março de 2015). Desde então, estava atuando em quatro bandas autorais ao mesmo tempo e duas delas encerraram atividades, aliviando-me a carga de trabalho. Casos do Pedra, onde eu cheguei a sair antes do anúncio oficial de seu término, em maio de 2015, e a Magnólia Blues Band que anunciou seu encerramento em abril de 2016.

Atuando portanto com Os Kurandeiros de Kim Kehl e com o Nu Descendo a Escada de Ciro Pessoa, recebi no início de junho de 2016 o convite para suprir uma data de uma banda cover onde o Kim também atua esporadicamente, que tem característica temática, como banda tributo dos Rolling Stones. Ao leitor mais atento da minha autobiografia, mesmo em se tratando de trabalhos avulsos realizados fora das bandas autorais por onde passei, foram poucas as ocasiões onde atuei em bandas cover, com exceção da minha passagem pelo Terra no Asfalto, que foi assumidamente uma banda cover, mas não temática, tendo repertório bem mesclado e com a agravante de ter ocorrido no longínquo período de 1979 / 1982. Fora disso, foram poucas as ocasiões em que fiz apresentações avulsas com bandas cover, e todas devidamente retratadas nos capítulos sobre os trabalhos avulsos.
Constituíram-se poucas apresentações com a banda "Electric Funeral" (tributo ao Black Sabbath), uma sazonal apresentação de uma banda formada por componentes da Chave do Sol e do Golpe de Estado executando músicas das bandas britânicas "UFO" e "Michael Schenker Group"; um tributo à Janis Joplin; e outro ao baterista do "The Who", Keith Moon. Ou seja, em 40 anos de carreira, não representa nada em relação à minha dedicação aos trabalhos de bandas autorais em que fui membro. Desta feita, o convite seria para substituir o baixista ausente de uma banda tributo aos Rolling Stones, chamada "Rolling Stones Live Cover".

Aceita a missão, recebi pelo inbox do Facebook, o set list padrão e comemorei o fato de que o grande grosso do material era formado por clássicos do repertório dos Stones e poucas músicas mais "modernas" que eu até conhecia, mas não tinha grande familiaridade, visto que como os leitores atentos da minha autobiografia sabem, o meu negócio, em linhas gerais é anos 1960 / 1970.

Um ensaio foi realizado na quarta feira anterior a essa apresentação, e tranquilizei-me em dois aspectos : 

1) Sabia a maioria esmagadora das canções e; 
2) Além da presença do amigo Kim Kehl nessa banda, eu já conhecia parcialmente o segundo guitarrista, Alexandre Mandaliou, e no ensaio, verifiquei que o baterista Luis Antonio Melantonio e o vocalista Angelo Salinas, eram gente boa, portanto, o convívio seria legal.

Encerrado o ensaio, que foi produtivo e realizado num estúdio no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo, cujo dono é o empresário dessa banda, chamado Marco Grecco (que também é baixista e já tocou nessa banda várias vezes e igualmente dedica-se a ser vocalista numa banda tributo ao "U2"), nossa missão era viajar para Ribeirão Preto no sábado posterior, onde seria a apresentação.
Naquela semana, eu vi na mídia, que a cidade de Ribeirão Preto receberia um evento de porte, um festival com produção peso pesado, reunindo nomes do Rock mainstream, tais como "Paralamas do Sucesso", "Titãs"; Nando Reis; "Planet Hemp" e outros. Achei até que seria nesse festival a apresentação desse Tributo aos Stones, talvez num palco menor, como entretenimento off do festival etc e tal.

Mas não era... a apresentação estava marcada para um bar temático da Harley Davidson, montado dentro de uma concessionária dessa marca de motocicletas, mas não necessariamente sendo ambientação de motoclube, mas sim uma casa noturna aberta ao público em geral e segundo contaram-me, atraindo a jovem burguesia da cidade. Viagem sob o calor interiorano, apesar do fim de outono, mas muito agradável, no carro do baterista Luis Antonio Melantonio, sob sua condução muito segura, foi prazerosa pela conversação que ali desenvolveu-se entre os cinco ocupantes do automóvel e nesse quesito, senti-me bastante a vontade pelo clima amistoso gerado.

Paramos para um pit stop perto de Ribeirão Preto, num posto de gasolina um pouco além da pequena cidade de Cravinhos, última antes de nosso destino e no posto, havia muitas vans vindas de diversas outras cidades interioranas paulistas, com destino à Ribeirão Preto, com jovens indo ao tal festival de Rock nacional mainstream que citei ("João Rock").

Alheios à essa movimentação, fomos ao nosso destino, na referida casa noturna e realizamos o soundcheck com tranquilidade. A casa era bem montada e o palco bem razoável, com um P.A. compatível para o ambiente, um camarim decente e o técnico solícito atender-nos. Missão inicial cumprida, fomos ao hotel para o "relax" pré-apresentação e uma confusão que seria muito engraçada numa comédia pastelão, mas que ali foi desagradável, aguardava-nos...
Simplesmente a nossa reserva não existia, pois estávamos no hotel errado... após vários telefonemas para São Paulo a fim de colocar o empresário a par da situação, a confirmação do hotel em que a reserva estava assegurada veio afinal, e este ficava longe dali, mas também mais perto do local do show. Nesse segundo hotel, onde realmente hospedamo-nos, muitas equipes técnicas dos artistas que apresentar-se-iam no tal festival que citei, estavam ali hospedados e muitas carretas de equipamentos e ônibus desses artistas estavam ali estacionados.

Após o reconfortante banho e descanso da viagem, lá fomos nós para a casa noturna em questão, chamada "Milwaukee". O Kim, que é um especialista em cultura norte-americana, foi falando que era capital do estado de Wisconsin, e discorreu sobre suas características regionais e culturais. Não tenho essa cultura toda que ele tem sobre a América, nem de longe aliás, mas disso eu sabia também e cheguei a comentar no carro de que lembrava-me do filme "Wayne's World" dos anos noventa, onde os personagens protagonistas vão parar no camarim do Alice Cooper que faria show nessa cidade e ele, interpretando a si mesmo (himself), profere discurso em tom de aula de geografia, ao explicar que "Milwaukee" é uma palavra de origem indígena e que foi incorporada culturalmente pelos americanos etc etc. O Kim acrescentou que é como acontece no Brasil em relação à muitas coisas, como "Anhangabaú", "Ibirapuera", "Anhembi", "Catumbi"; "Cambuci"; "Caxingui", só para citar alguns ícones paulistanos etc. É vero...

A casa estava com uma boa lotação a meu ver, com todas as mesas preenchidas, mas segundo funcionários, estava aquém do seu movimento "normal", e atribuíam isso ao "frio" (na alta madrugada, fez 16 graus, e eu conheço bem Ribeirão Preto, portanto, para o padrão local é uma temperatura considerada muito baixa), e certamente ao tal festival, sobre o qual nós chegamos a ver chamadas com Link ao vivo no "Jornal Nacional" da Rede Globo, em rede nacional, ou seja, era um evento de grande porte e pelas imagens, devia ter ali cerca de 50 mil pessoas.

Enfim, para nós a casa estava com bom público e ali tocamos mais de 20 músicas do repertório dos Rolling Stones, por 2 horas e 40 minutos ininterruptos.

Set List que executamos no "Milwaukee" de Ribeirão Preto / SP, em 18 de junho de 2016. As músicas assinaladas com caneta e com títulos abreviados, são : "Start me Up" e "Let's Spend the Night Togheter".
 
Sobre o Kim e o quanto ele conhece a carreira dos Rolling Stones na ponta da língua, sem trocadilhos, nem preciso explicar. Mas gostei da performance de todos. O vocalista Angelo Salinas demonstrou fôlego, com movimentação intensa de palco, além da boa voz e comunicação com o público; toquei ao lado do guitarrista Alexandre Mandaliou, que apresentou um bom repertório de solos e bases com sua guitarra Fender Telecaster, mas o que mais surpreendeu-me positivamente, foi o baterista Luis Antonio Melantonio, que demonstrando "pegada" forte e bastante técnica na bateria, tinha / tem um trunfo a mais, demonstrando ótima voz. Seu potencial vocal é bem grande e graças às suas intervenções muito bem colocadas, fazendo com facilidade a segunda voz, modulando, deu colorido às canções. Com um falsete forte e afinado, também, surpreendeu fazendo vozes femininas de apoio de canções dos Stones, notadamente "Gimme Shelter", sendo-me portanto, uma grata surpresa, apesar do Kim já ter alertado-me que o Luis cantava muito bem.

Encerrado, o gerente da casa esboçou reclamar por nós não termos tocado mais, mas convenhamos, eram mais de três horas da manhã e já havíamos tocado por quase três horas, e além do mais, o público estava evadindo-se em clima de fim de balada. Fomos para o hotel descansar e na manhã de domingo entramos na Via Anhanguera, realizando ótima viagem de regresso a São Paulo.

Bem, cover não é minha praia, nunca foi e nunca será, mas diante da perspectiva de tocar cerca de trinta músicas dos Rolling Stones, divertindo-me portanto, e ainda ganhar um cachet por isso, creio que além de não ter arrancado-me um pedaço, foi positivo, fora a convivência e a boa conversa com essa rapaziada. Noite de 18 de junho de 2016, no "Milwaukee" de Ribeirão Preto / SP, com cerca de 200 pessoas na plateia.

Missão cumprida....You Can't Always Get What you Want...

Selfie no camarim da casa de espetáculos, "Milwaukee", de Ribeirão Preto / SP em 18 de junho de 2016. "Rolling Stones Live Cover", da esquerda para a direita : Kim Kehl (guitarra e voz); Angelo Salinas (voz); Luis Antonio Melantonio (bateria e voz), Luiz Domingues (baixo) e Alexandre Mandaliou (guitarra) 
 
Depois desta história que acabei de contar, o próximo trabalho avulso que fiz foi uma nova investida com o dito "Marc Bolan brasileiro". Mais um show com Edy Star, no comecinho de 2017 e que rendeu histórias muito interessantes.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Crônicas da Autobio : Sobre Gibson Firebird; Johnny Winter e o Eterno Loki - Por Luiz Domingues

Luiz Domingues & José Luiz Dinola em ação com A Chave do Sol no início de 1983, no Victória Pub de São Paulo. Foto : Seiji Ogawa

Aconteceu no tempo da Chave do Sol, entre fevereiro e abril de 1983


Sem dúvida alguma, a temporada que A Chave do Sol fez na badalada casa de espetáculos, “Victoria Pub”, entre fevereiro e abril de 1983, marcou o primeiro ponto de ascensão na trajetória da banda, sendo o pico dessa primeira fase de onde saímos da inércia absoluta, em setembro de 1982, quando do nosso primeiro show. E no texto da minha autobiografia, relato com detalhes como tudo ocorreu para a banda nesse instante, contando alguns casos pitorescos ali ocorridos, mas muitas histórias ficaram de fora do livro, primeiro por uma questão de espaço, visando não alongar mais do que já ficou o texto final e segundo, também para poder contar agora tais ocorrências, separadamente. E ali no Victória Pub, dada a badalação que acontecia a cada noite, por múltiplos fatores, era comum a presença de pessoas proeminentes do mundo artístico em geral, de atores famosos do mundo do Teatro; Cinema & TV a personalidades do mundo esportivo; dos playboys da dita “High Society” a  jornalistas; empresários & empreendedores culturais dos mais diversos ramos e pasmem, até políticos, que enxergavam ali a oportunidade de expandir seus conchavos com empresários e a jovem burguesia paulistana.
Era essa a formação do Tutti Frutti que atuava como atração fixa do Victória Pub em 1983, e com a qual interagimos muitas vezes


Numa dessas tantas noitadas em que ali vivemos, nossa missão nessa noite fora abrir o show do "Tutti Frutti" (revezámos toda noite, abrindo o Tutti-Frutti ou o "Fickle Pickle"), e mesmo não sendo a atração principal, para efeito de espetáculo, tocávamos em igualdade de condições, com o mesmo equipamento e sem diferenciação na potência sonora e uso da iluminação, uma prática comum no mundo do show business, portanto, independente do óbvio maior status e curriculum do velho Tutti-Frutti, quando tocávamos, a pista estava sempre cheia de gente dançando e o som e luz eram de primeira qualidade.

Nessa noite em específico, a que refiro-me, tivemos uma surpresa especial, quando vimos uma pessoa famosa, mas muito mais próxima da nossa relação afetiva Rocker, do que os atores de novelas e jogadores de futebol, que ali costumavam aparecer. Ainda convalescendo do grave acidente que tivera em 1981, eis que surge à nossa frente, a figura de Arnaldo Baptista, instalado numa cadeira de rodas e amparado por pessoas de seu staff. Sua aparência denotava claramente que ainda estava recuperando-se e inspirava cuidados, mas como foi prazeroso para nós, tocar e ver sua alegria em estar diante de uma banda de Rock tocando ao vivo ali, e a cada música que encerrávamos, sua demonstração de carinho aplaudindo e sorrindo para nós, foi um bálsamo para todos os envolvidos nessa comoção que a sua presença gerou, mesmo porque nem todo mundo (é claro), mas os Rockers ali presentes ligaram-se nessa situação e vibraram em ver o Arnaldo em processo de franca recuperação.

Ainda naquela noite, fui testemunha de um momento bonito nos bastidores, quando o grande Luiz Carlini fez questão de mostrar a sua recém adquirida nova guitarra, uma bela Gibson, modelo “Firebird” e exibindo-a para o Arnaldo, nunca esqueço-me dele afirmando com ênfase : - olha Arnaldo, minha nova guitarra, igualzinha à do Johnny Winter”... e ainda mais esfuziante, Arnaldo abriu um sorriso largo, como falava o Guilherme Arantes e com a guitarra em seu colo, fazia ali a sua reinserção afetiva ao mundo do Rock, um fato que todos ao seu redor torciam muito para ocorrer, desde a notícia de seu acidente, dois anos antes. Maravilhoso momento ocorrido ali numa daquelas câmaras labirínticas do Victória Pub, dando-nos a certeza de que o grande Loki do Rock brasuca estava a voltar.

E não deu outra, no show do Tutti Frutti, Carlini tocou “Bonie Morony”, evocando o som e a aura do genial albino texano, Johnny Winter, jogando fagulhas de fogo ao público, através dos solos a bordo de uma Gibson Firebird... para a alegria dos Rockers ali presentes, incluso nós da Chave do Sol e Arnaldo Baptista.

sábado, 25 de novembro de 2017

Crônicas da Autobio : O Rock Morreu em 1975 ? Não, foi em 1969... - Por Luiz Domingues


                   Pitbulls on Crack em ação, em foto de 1994...

Aconteceu no tempo do Pitbulls on Crack, por volta do segundo semestre de 1994... 

Desde meados dos anos oitenta, eu havia cunhado uma frase de efeito, que repetia em rodas de conversa com amigos, sob título de brincadeira, mas desvelando na verdade uma opinião forte e polêmica para a maioria, a descrever a minha profunda contrariedade com os rumos que o Rock, enquanto instituição em geral, havia adotado ao final dos anos setenta, e que tal desvio de curso ditou normas nas décadas de oitenta e noventa inteiras, praticamente. Respondendo aos meus interlocutores que inquiriam minha opinião sobre o panorama do Rock na ocasião, minha explanação sobre o desalento que sentia, sempre tinha o reforço dessa frase de efeito que criei : -“o Rock morreu em 1975”. Não havia nenhuma demarcação inspirada por algum fato histórico concreto em tal afirmação, mas tão somente era baseada num cálculo aleatório de minha parte, raciocinando que em 1975, os sopros contrários ao Rock ainda eram confusos e insignificantes, portanto, vivia-se em tese uma continuidade da normalidade do Rock setentista, sob suas múltiplas vertentes, com artistas produzindo normalmente suas obras inéditas, tocando a carreira e sem demonstrar, naquele instante, nenhum temor por uma reviravolta que os ameaçasse, até sobre sua própria sobrevivência, pois o que veio logo a seguir foi virulento nesse ponto e com tal intenção destrutiva e declarada.



E assim, atravessei tais décadas citadas e entre amigos, minha afirmação mais provocava risadas, enxergando exagero e comicidade de minha parte, mas a despeito da pilhéria, no fundo, havia um fundo de verdade e que fazia sentido para explicar como transcorreram as décadas de oitenta e noventa no mundo do Rock. Mas um dia, eu que era ironizado por alguns ao ser acusado de portar-me como um saudosista radical, fui surpreendido por alguém que tinha uma visão ainda mais dura do que a minha.




Luiz Domingues em ação no ano de 1994, tocando com o Pitbulls on Crack. Foto : Marcelo Rossi 

Eu tocava no Pitbulls on Crack nessa ocasião, uma banda que estava tendo uma oportunidade de exposição bem interessante naquele instante, metade de 1994, tanto que negociava naquele momento, um contrato de gravação com uma gravadora de pequeno porte internacional, mas que acabara de abrir um escritório de representação em São Paulo, visando investir em artistas brasileiros, visto que um dos seus contratados era a banda de Heavy Metal, "Sepultura", que nessa altura já estava consagrada mundialmente nesse nicho e isso motivara os holandeses, donos da gravadora, a investir mais em artistas do mesmo país dos rapazes dessa banda e assim, uma nova porta abria-se. Independente disso, também motivado pela expansão que nossa banda demonstrava, e por ser amigo de pessoas do staff dessa gravadora com a qual negociávamos, eis que surgiu o interesse de um empresário que também vivia seu momento de crescimento em sua carreira, um inglês radicado no Brasil, chamado, Ray Ward. Ele era empresário de uma banda Punk, que fazia grande sucesso na ocasião, conhecida como “Os Raimundos” e naturalmente sentindo que estava em ascensão, planejou expandir seu escritório, contratando mais artistas emergentes e nessas circunstâncias, quis conversar conosco. Em tal reunião, passada a conversação mais formal sobre nossa banda e seus planos para o trabalho empresarial com ela, uma conversa informal e amistosa ocorreu, tratando logicamente sobre música e o Rock em específico, tendo a obviedade do fato dele ser inglês e mais velho que eu e Chris Skepis éramos na ocasião e sendo assim, evidentemente que haveria de ter suas reminiscências sobre o Rock britânico sessenta / setentista. Claro que foi agradável e gerou momentos muito eufóricos até, e num dado instante, senti-me a vontade para acrescentar a minha polêmica opinião e ao ouvir-me, Ray respondeu de pronto : -“discordo... o Rock morreu em 1969, no Festival de Woodstock. Ali foi seu último suspiro de criatividade e relevância”.




Lógico que parei para pensar nesse ponto de vista ainda mais radical do que o meu e, mesmo discordando pois na minha percepção o início dos anos setenta ainda teve uma produção viva, criativa, além de comprometida fortemente com a contracultura e particularmente tem meu apreço, o que ele afirmou tinha também seu fundo de verdade. Pois se levarmos em conta detalhadamente que “Woodstock” teve um papel simbólico, como marco de uma Era, dá para imaginar que dali em diante o sopro da novidade e a força da sua mensagem inerente começou a diluir e assim, tudo que adveio, foi mera continuidade motivada pela força empregada e que fora despendida anteriormente, tal qual um carro que continua andando rápido, mesmo com o motorista tirando o pé de seu acelerador e sendo assim, como consequência lógica, demora um pouco para a velocidade diminuir e chegar ao ponto da completa inércia.



"Ending Theme Tune", o improviso final de Jimi Hendrix no documentário sobre o Festival de Woodstock, em agosto de 1969, embalando as imagens do fim do sonho Hippie de um mundo fraterno, baseado na premissa do conceito de "Paz & Amor", quiçá final dessa utopia...



Nesse aspecto, o que o Ray afirmou faz sentido, sim, e o Rock morreu em 1969, portanto, ver o documentário, com Jimi Hendrix tocando "Ending Theme Tune", intercalado com a imagem melancólica do fim do Festival de Woodstock, com o grande público já evadindo-se e uma montanha de sujeira acumulada, pode mesmo ser computada como uma espécie de premonição metafórica, um prenúncio do porvir... e que infelizmente confirmou-se a seguir.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Crônicas da Autobio - Show Acrobático; Ensurdecedor e Inspirador (mas não pela música em si) - Por Luiz Domingues

Aconteceu no tempo da Chave do Sol, em janeiro de 1983...



Bem naquela virada de década de setenta para oitenta, a vida de um Rocker versado pela estética sessenta / setentista, meu caso, estava dificílima e na verdade, tal panorama já vinha degringolando desde 1977, pelo menos, e só intensificava-se tal estado de coisas à medida que a mídia, de mãos dadas com a dita “formação de opinião”, decretou que o sonho hippie acabara e quem não comungava com tal ideia, havia perdido o bonde da história. Eu nunca acreditei nisso, é óbvio, mas paguei um preço amargo pela minha resistência em não correr ao salão de barbearia para acabar com a minha longa cabeleira "woodstockeana" que permaneci a ostentar, e é óbvio que ao contrário dos “moderninhos de plantão”, ávidos pela estética blasé do Pós Punk, eu só enxergava deméritos na produção artística oitentista em geral, salvo raríssimas e honrosas exceções.




Mas mesmo havendo um campo do Rock que ignorava retumbantemente essa turma altiva e invariavelmente raquítica, musicalmente falando (o termo “raquítico” foi inspirado por um amigo meu que usa tal palavra nos dias atuais (2017), para designar tais artistas dessa estética, e este fala com propriedade, visto que militou nesse métier nessa época, mas reconhece nos dias atuais, a fragilidade musical de quem embarcou nessa vertente), tal tipo de opositores não era formado exatamente por tradicionalistas como eu, respirando por aparelhos numa espécie de UTI contracultural, mas uma turma que se por um lado era oposta ao Pós Punk, ainda assim não significava ser algo compatível e agradável que encaixasse-se plenamente aos tradicionalistas em prol de um “religare”, através de seu clamor nostálgico.



Refiro-me simplesmente a uma vertente que professava o dito “Heavy-Metal”, uma estética que nasceu em algum momento dos anos setenta, quando alguém jogou condimentos demais no molho do Hard-Rock e a comida passou do ponto, digamos assim... tendo ramificado-se tal como uma metástase, foi gerando subdivisões as mais diversas. Um desses ramos, foi parar na Califórnia / USA, e lá, mesmo havendo artistas radicais, como em qualquer parte do planeta, a tendência para tudo que surge ali, é que a cultura local amenize e incorpore elementos seus muito particulares. Portanto, mesmo que a proposta seja um som pesado e acelerado, sempre vai haver o calor abrasador do asfalto da Rodeo Drive, de Los Angeles em sua música, assim como uma latinidade caliente e festeira, mesmo que os artistas sejam genuinamente “wasp”, pensando em outras temáticas mais rudes. Bem, eis que nesse estado da costa leste, meca do cinema e curiosamente berço do estopim do movimento hippie na América sessentista, surge ali na metade dos anos setenta e passa a ficar famosa ao final dessa década, uma banda formada por dois irmãos de origem holandesa, que juntando-se a dois amigos, formam seu grupo nomeando-o com o sonoro sobrenome de sua família : Van Halen.




Eu só fui tomar conhecimento de sua existência por volta de 1980, mais ou menos e a primeira impressão que tive era que parecia um trabalho moderno para aquela ocasião, mas baseado no Power Blues-Rock acelerado do Ted Nugent, pelos riffs etc e tal. Nunca causou-me nenhuma comoção especial, mas tampouco a ojeriza, como eu nutria pelo Punk e seus derivados como o nascente Pós Punk. Mas ali, por volta de 1981, 1982, eu passei a ter uma certa simpatia pela banda, não ao ponto de tornar-se uma referência na minha vida, mas por enxergá-la como uma espécie de boia salva vidas, em se considerando que o mar revolto oitentista consumir-me-ia por completo e dessa forma, agarrei-me no Van Halen como uma esperança de sobrevivência em meio à escassez de outras formas de lidar com o ambiente hostil que desenhara-se. Mas é bom que eu esclareça, esse “admirar”, não significou que tornei-me seu fã inveterado, deixando de cultuar os artistas que realmente influenciavam-me, mas simplesmente era melhor saber que o Van Halen existia ali em 1982, e ao menos os sujeitos usavam instrumentos e configuração de um quarteto Hard-Rock tradicional, cabelos longos / figurino Rocker mezzo setentista e postura de palco Rocker, em confronto com os dândis oitentistas que inundavam os vídeo clips que passavam na TV, na ocasião.



Então, com a minha banda, A Chave do Sol a dar seus primeiros passos no segundo semestre de 1982, foi quando soubemos que o Van Halen viria ao Brasil no início de 1983. Tirante apresentações sazonais com artistas internacionais, desde os anos sessenta, o Brasil não era ainda uma rota internacional para shows, consolidada. A logística do show business era precária e nas raras apresentações com artistas internacionais, tudo fora feito com muito improviso, gerando falhas e reclamações generalizadas do público e principalmente da parte dos próprios artistas internacionais, desacostumados a lidar com um tipo de amadorismo gerencial e vergonhoso. Anos depois o Brasil foi crescendo nesse quesito e creio, após o advento do Festival Rock in Rio de 1985, a máquina engrenou e o país finalmente ganhou espaço na rota das turnês mundiais dos grandes e médios artistas e hoje em dia, é uma alternativa interessante até para os pequenos também, abrigando um circuito “off” bem organizado para trazê-los.




Mas ali em 1983, ainda havia muito amadorismo, como por exemplo na completa omissão por parte da produção do mesmo, em anunciar que haveria uma atração nacional como show de abertura. No caso, todos ficaram surpresos vendo o equipamento da Patrulha do Espaço montado no palco do Ginásio do Ibirapuera. E foi um show espetacular, eu posso atestar, com a banda vivendo o auge de sua formação como trio, com Rolando Castello Junior; Serginho Santana & Eduardo Chermont, fazendo uma apresentação incrível e com direito a solo de bateria do Junior, aplaudido com ênfase pelas 12 mil pessoas aproximadamente que ali encontravam-se, eu incluso, além de Rubens Gióia e José Luiz Dinola, meus colegas de banda, além de vários amigos que estavam conosco.



A Patrulha do Espaço em sua fase de ouro como Power Trio no início dos anos oitenta. Essa formação, com Dudu Chermont; Rolando Castello Junior e Serginho Santana, respectivamente da esquerda para a direita, abriu os três shows do Van Halen em São Paulo, no mês de janeiro de 1983 



Bem, a despeito dessa apresentação memorável, a praxe do show business cumpriu-se e a valorosa banda brasuca tocou com cerca de 20% da potência de som e luz. Ou seja, depois que os Rolling Stones sentiram-se ofuscados pelo então desconhecido King Crimson, no Hyde Park de Londres em junho de 1969, nunca mais o artista principal quis deixar bandas de abertura tocarem com o mesmo som e iluminação e assim, mesmo que façam um show maravilhoso, quando a banda principal entra em cena, o impacto sonoro e visual é tão grande que automaticamente isso faz apagar-se da memória da plateia, a apresentação do artista emergente que abriu a noite. Portanto, quando o show do Van Halen iniciou-se, a carga sonora e a luz foram frenéticas, ou como diz outro amigo meu, e que entende muita da matéria, alucinante...




Diante de tal impacto, claro que o show foi impressionante, pelo aparato todo em si, mas por um fator, ou melhor, dois, que eram méritos do Van Halen e devo ser justo em reconhecer isso : o preparo físico da comissão de frente da banda, baixista; vocalista & guitarrista que fazendo um mise en scené muito agressivo, com direito a coreografias e acrobacias ousadas, imprimiam um tipo de atração de tirar o fôlego e segundo ponto, a fama do guitarrista Edward Van Halen como virtuose ao instrumento, era concreta e em meio ao seu frenesi cênico impressionante, sua performance musical foi igualmente marcante, segurando toda a banda nas costas, pois sem outro instrumento harmônico de apoio, Ed era ali a usina de riffs, bases “ganchudas” e solos virtuosísticos acintosos. Em se considerando que o baixista era bem limitado, praticamente tocando baixo contínuo sem frasear, e o baterista, apesar de manter andamentos acelerados sem oscilações e fazer boas viradas, não era nenhum “assombro” no seu instrumento, dessa forma, o guitarrista segurava tudo ali.  




Lembro-me que só para o uso do Eddie Van Halen, havia doze cabeçotes Marshall, com vinte e quatro caixas. Mas na realidade, ele deve ter usado de fato três no máximo, pois isso já gera uma potência absurda em cima do palco e bastando mixar essa carga no P.A., é mais do que o suficiente. O cenário era uma tela imensa cuja ilustração básica simulava mais amplificadores, dando a impressão da “montanha” ser ainda maior do que o era na realidade. E na parte superior, uma tela com uma estampa a retratar um leão dourado. Nos cantos, bandeiras vermelhas daquelas de sinalização náutica, pois reproduziam o visual da capa do mais recente disco, "Diver Down", que tinha essa temática baseada no mundo do mergulho submarino. A bateria do Alex Van Halen era descomunal. Quatro bumbos com extensão, formando portanto bumbos duplos, um absurdo total. Como já observei, a movimentação dos três músicos da frente era tão frenética, que chegava a embaralhar a vista. Os artistas pulavam, faziam acrobacias e sem parar de tocar. Achei o baixista Michael Anthony bastante limitado ao instrumento, mas gostei muito de seus backing vocals afinados e a demonstrar bastante potência vocal, além de sua movimentação esfuziante no palco mas sobretudo, apreciei sua simpatia.



A espetacular dupla de cantores / humoristas, formada pelo genial Louis Prima e a incrível, Keely Smith, a garota que não sorria...
 
O David Lee Roth era extremamente divertido. Ele parecia mais um entertainer do que um vocalista de Rock. Tanto é assim que anos depois deu início à sua carreira solo regravando um clássico de um artista dessas características (com a música “Just a Gigolo”), tratando-se no caso, do genial cantor / humorista, Louis Prima, que fora basicamente um entertainer à moda antiga, muito famoso na América, entre os anos 1930 e 1950, e certamente David Lee Roth devia adorá-lo, ouvindo suas velhas bolachas da coleção de discos de seus pais e por vê-lo cantar na TV, em programas cinquentistas em preto e branco. Sobre a atuação de Roth ao vivo, suas poses acrobáticas e trejeitos eram engraçados e acima de tudo, ficava a impressão de que ele divertia-se em assumir-se como um canastrão desses que fazem shows de teor brega em cassinos de Las Vegas. E o Eddie Van Halen era sem dúvida a solidez musical da banda, pois sua guitarra virtuose era incontestável (embora para o meu gosto, isso canse em tese e de fato, “orei” aos Deuses do Rock para que o seu solo interminável e sob um volume ensurdecedor, terminasse, com meus tímpanos em frangalhos), além da simpatia e movimentação de palco alucinante. Quanto ao Alex, achei-o um baterista seguro, mas “arroz com feijão” para o meu gosto. Particularmente, acho o Júnior da Patrulha do Espaço, muito superior, tecnicamente. E falo isso de cátedra, pois toquei com ele por quase seis anos e sei bem disso, sem exagero. No cômputo geral, esses três shows do Van Halen marcaram muito para nós, pois dava-nos esperanças de que nem tudo estava perdido no Rock. Havia artistas ainda acreditando nos parâmetros setentistas, mesmo sendo algo bem sutil no caso dessa banda em específico, mais ligada ao Hard-Rock oitentista, uma corrente mais amena do Heavy Metal, naturalmente.

Em suma, saí do Ginásio do Ibirapuera não exatamente amando a banda, mas aquela predisposição em imprimir uma movimentação frenética no palco, influenciou-nos ao ponto de poucos meses depois, em julho, quando apresentamo-nos no palco do Sesc Pompeia, em filmagem ao vivo para o programa “A Fábrica do Som”, ao menos de minha parte (e isso é nítido nos vídeos de nossa aparição inicial), a lição de casa foi feita, pois esforcei-me bastante para seguir o parâmetro que assistimos no Ginásio do Ibirapuera sob noites quentes de verão, em janeiro daquele mesmo ano, 1983... 


Acima, um dos shows do Van Halen em São Paulo, no mês de janeiro de 1983, com filmagem da Rede Bandeirantes de TV. Eu; Rubens Gióia e José Luiz Dinola estávamos nessa plateia, além de muitos amigos nossos que gravitavam na órbita da Chave do Sol.