Pesquisar este blog

domingo, 15 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 37 - Agradecimentos Finais do Capítulo e Espaço Aberto a Novas Histórias... - Por Luiz Domingues

Encerro parcialmente, portanto, esta parte da minha autobiografia, compreendendo o período de abril de 1976 a abril de 2016, e deixando claro que é na verdade, um capítulo sempre pronto a ser reaberto, a qualquer instante.

Agradeço à todos os músicos; produtores; técnicos; empresários, e jornalistas especializados, que estiveram envolvidos em todas as histórias, que aqui relatei. A minha carreira toda foi focada na busca pelo trabalho autoral, e na maior parte do tempo, minha atenção foi dedicada à bandas autorais, e de carreira.


Todavia, neste longo capítulo, acabei relembrando de muitos casos, muitas passagens e histórias, que acumulei no campo dos trabalhos avulsos.


Muito obrigado à todos que ajudaram-me nesse quesito, desde o longínquo ano de 1979, quando recebi o primeiro convite de minha carreira, para um trabalho dessa natureza.


Muito obrigado por ler, amigo leitor !! 

Este capítulo fica em aberto, contudo, para dar vazão aos novos trabalhos avulsos que já surgiram, aliás, e que serão relatados a partir de outubro de 2017, quando começarei a publicar adendos ao texto autobiográfico do livro, com as devidas atualizações da carreira no pós abril de 2016.

sábado, 14 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 36 - Edy Star, Acompanhando o Marc Bolan Brasileiro... - Por Luiz Domingues


Por volta de outubro de 2014, o guitarrista Kim Kehl  formulou-me um convite. Com o impedimento de meu amigo, Marcião Gonçalves, que estaria cumprindo data com o artista folk, Renato Teixeira, surgiu a oportunidade de eu substituí-lo na banda de apoio do grande Edy Star, para um show a ser realizado em novembro.

A banda de apoio de Edy Star, chama-se "Easy Rider's Band" e tem como baixista titular, o Marcião Gonçalves, desde muito tempo. 

Com a presença do Kim Kehl pilotando a guitarra, e o meu colega de Pedra, Ivan Scartezini na bateria, o convívio e entrosamento seriam automáticos, naturalmente. Como se não bastasse, haveria a presença das ótimas vocalistas Ivani Venâncio e Renata "Tata" Martinelli, ambas minhas amigas, e no caso da Tata, com um convívio bacana no início de minhas atividades com os Kurandeiros em 2011. Em suma, seria um prazer duplo, por acompanhar um artista histórico da MPB / Rock setentista, e atuar ao lado de tantos amigos com os quais estava habituado a tocar, em bandas e circunstâncias diferentes.
O Baixista / Guitarrista Marcião Gonçalves, titular da Easy's Rider Band, de Edy Star

Claro que aceitei, e ainda mais para cobrir a lacuna de um velho e bom amigo, o talentoso baixista / guitarrista, Marcião Gonçalves, e é sempre um prazer poder ajudá-lo (sei que a recíproca é verdadeira), e posso contar com ele em qualquer eventualidade que eu não possa estar presente.

Definido o Set List, tirei muitas músicas do repertório solo do Edy; muitas do Raul Seixas, seu parceiro mais famoso, e clássicos da Jovem Guarda e do mundo Brega. Haveria também a participação de um jovem artista da cena indie, chamado Juliano Gauche, e nós tocaríamos uma canção de seu repertório, também.

Seria um show de Rock, com sabor de diversão, e um óbvio apelo Glitter, pois além do Edy Star ser um artista comprometido com tal estética de androgenia setentista implícita, a apresentação seria o headliner de uma festa Gay, denominada "Festa Odara", a ser realizada num charmoso Centro Cultural localizado em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Em outras épocas, eu talvez constranger-me-ia com tal característica da festa, mas em pleno 2014, acho que não havia mais nenhum tipo de margem de preocupação para tal, e como sou heterossexual, não tenho como incomodar-me em tocar numa festa GLS, pois basta acionar o respeito à condição dos que professam tais preferências e em suma, eu não tenho nada contra, sem julgamentos ou incômodo com o que as outras pessoas fazem de suas respectivas vidas.

E o lado artístico interessante, seria o de estar acompanhando um artista que notabilizou-se em sua carreira pela opção pela estética glam, portanto, o negócio seria aproveitar tocar com o Marc Bolan brasileiro, e sentir-me tocando no T.Rex. Enfim, desprovido de preconceitos e temores tolos, fui para o ensaio com o repertório quase decorado, mas na sala de ensaio ganhei a confiança final, pois muitas músicas foram cortadas pelo Edy, que para a minha sorte, escolheu o set list baseado nas músicas em que eu estava mais seguro. O Kim pensou em chamar outro guitarrista, ou um tecladista para encorpar o som, mas com o tempo curto, acabou mudando de ideia e perguntou-me se eu não importava-me em tocar só com ele fazendo harmonia. Claro que não, estou acostumado a tocar em Power Trio, e se não houver um segundo harmonizador na banda, a vida segue, eu preencho a linha de baixo com maior agressividade, e dá tudo certo...   
O grande Marcos "Pepito" Soledade, um percussionista técnico e muito criativo

Então, ele sugeriu convidarmos um percussionista, e o nome de  Marcos Soledade "Pepito" surgiu. Nós já o tínhamos visto em ação, acompanhando o guitarrista Marcião Pignatari, por ocasião do show dos Kurandeiros no Ceu Jaguaré, recentemente (Festival "Hoje tem Blues"). De fato, a minha impressão sobre sua performance era a melhor possível, pois fiquei com o conceito de que ele é um percussionista muito técnico, criativo e versátil. Feito o convite, contamos com ele no ensaio, com extremo profissionalismo, o que só fez-nos aumentar o bom conceito a seu respeito : pontual ao máximo; com as músicas decoradas, e preenchidas com um swing incrível.
 
No ensaio, o clima foi amistoso e não poderia ser de outra forma. Toco com o Kim desde 2011, e com o Ivan, desde 2006...
No dia do show, cheguei bem cedo, temendo ter problemas para achar uma vaga de estacionamento, e naquela região do entorno do Centro Cultural Rio Verde, achar uma vaga, é quase um milagre...
Quando entrei, fiquei muito impressionado com as instalações. Apresentando uma instalação ampla, tinha várias opções além do salão de shows. Com restaurante; lanchonete interna; várias salas onde ministram aulas; e estúdios que servem como sala de ensaios para bandas, impressionou-me. Fora a decoração muito caprichada, com ambientação rústica, mas muito criativa. Já no salão, parecia um teatro dos anos vinte, ricamente ornado na Art-Déco, com vitrais incríveis; mezanino; escadarias, e que tais. E quando chego perto do palco, uma surpresa agradável : todo o aparato de instrumentos do Pepito já estava montado e microfonado devidamente, ou seja, ele chegara ainda mais cedo do que eu...
Fui bem recebido pelo técnico de som que disse ser baixista, e que capricharia na equalização do meu baixo. Maravilha, com esse entusiasmo, de fato, passamos o som do baixo por alguns minutos, e fiquei com a impressão de que haveria uma pressão sonora de P.A. num padrão de show de Rock bem equalizado. No palco, a monitoração estava com peso e timbre, ou seja, o rapaz deu o seu melhor para tirarmos um som de baixo, bem legal. Esqueci seu nome, mas agradeço pelo trabalho e simpatia, muito legal e rara, devo dizer...

Durante o soundcheck, da esquerda para a direita : Kim Kehl; Ivan Scartezini; Marcos Soledade "Pepito",e eu, Luiz Domingues. Foto : Lara Pap

Com a chegada dos outros componentes, fomos buscando a equalização individual de cada um, e com a banda completa, passamos várias músicas, quando ficamos satisfeitos com a monitoração alcançada.
                      Kim Kehl & Juliano Gauche no Camarim 

Como o camarim era extremamente confortável, e a conversa agradável, isso tratou de deixar a longa espera pela hora do show, bem mais amena. Claro, quando a casa abriu para a entrada do público, um DJ animou a pista com discotecagem. Aconteceu muita Disco Music, MPB e até Rock'n Roll  para embalar o público.
Kim Kehl & Renata "Tata Martinelli" em ação no show. Click de Felipe Prado

Quando chegou a hora, entramos no palco e a adrenalina estava a mil, com o público muito aquecido e melhor ainda, muito a fim de aproveitar o show do Edy. Nesse caso, inclusive, apesar de ser um público extremamente jovem, era nítido que adoravam a figura do Edy. E não deu outra...
Começamos com uma versão de "Satisfaction", dos Rolling Stones, e se havia alguma dúvida que a pegada seria de Rock, aos primeiros sinais do Riff, puxados pelo Kim, a casa veio abaixo, com clima de show de Rock, velha guarda.
Marcos Soledade "Pepito" ao fundo; Eu, Luiz Domingues, na frente. Foto : Lara Pap

Senti-me tocando no Rainbow Theater em 1972, com aquela ebulição toda, público abarrotado e pulando do começo ao fim da canção.
Edy Star, parecendo-se muito com Gary Glitter, nesse click de Felipe Prado

Edy entrou em cena de forma triunfal. Um artista muito experiente, e que sabe se colocar no palco com maestria. 
Luiz Domingues no destaque com o percussionista marcos Soledade "Pepito" ao fundo. Foto : Lara Pap

Tocando; aproveitando; mas observando tudo, percebi claramente que o Edy é um dos últimos remanescentes do "desbunde setentista da MPB". Aquela performance rara hoje em dia, e não estou referindo-me a trejeitos homossexuais, mas um élan, que hoje em dia, só ele e Ney Matogrosso ainda possuem. Lembrei-me também do Lenny Dale, que não era um Rocker, mas tinha esse sentido do "desbunde", como dançarino, e certamente que Edy é da mesma linhagem artística.

Um pouco de delírio provocado naquela noite. Click de Felipe Prado

Os Rocks do Raul Seixas causaram delírio generalizado, e em "Metamorfose Ambulante", cheguei a arrepiar-me, pois causou uma comoção.
Na linha de frente das vozes, da esquerda para a direita : Tata; Ivani e Edy. Foto de Felipe Prado


Muitas canções ingênuas da Jovem Guarda, e até da Pré-Jovem Guarda (várias da Celly Campelo, por exemplo), foram cantadas aos berros pela multidão, e em se considerando que não eram nem nascidos na época do lançamento delas, fizeram-me pensar que nem tudo está perdido, e muitos jovens tem uma percepção diferente em relação ao péssimo momento cultural que enfrentávamos em 2014, com a subcultura de massa esmagando-nos impiedosamente. Será que isso poderia ser atribuído ao fato da maioria ali presente ser homossexual ? Nem quero entrar nesse mérito...
Juliano Gauche encarnou Sérgio Sampaio, e botou o bloco na rua...foto de Felipe Prado


A intervenção do Juliano Gauche surpreendeu-me. Tanto sua canção, o Rock "Amor do Capeta", quanto a música do Sérgio Sampaio que interpretou, foram muito legais.
Da esquerda para a direita : Ivani Venâncio; Pepito ao fundo; eu, Luiz Domingues, e Tata Martinelli. Foto de Felipe Prado

As meninas cantaram muito. Tata e Ivani conhecem-se há muitos anos, e estão acostumadas a cantarem juntas. De orquestras de baile a bandas de Rock como o Made in Brazil. Em alguns momentos, o swing da banda surpreendeu-me. Estou acostumado com o Kim e o Ivan, em bandas diferentes, mas foi legal tocar com ambos pela primeira vez, juntos. E o Pepito destruiu tudo, com sua percussão muitíssimo bem executada. Como diria o Wilson Simonal, Pepito foi o sujeito que acrescentou o "Champignon"...

Renata "Tata" Martinelli em destaque com Kim Kehl no canto esquerdo do palco. Foto : Felipe Prado

O público delirou o show inteiro, mas em se tratando de um público GLS, creio que só liguei-me que a maioria era homossexual, quando tocamos o hino Gay : "I Wil Survive", da Gloria Gaynor, onde a Tata deu show de vocalização. De fato, tocamos na onda Disco, mas com pegada de Rockers que somos, a música cresceu em peso, e tratou de provocar a ebulição final naquele caldeirão em que transformou-se o Centro Cultural Rio Verde.
                      Fotos de Felipe Prado

Missão cumprida, encerramos o show, e com o sentimento bom de termos ido além das expectativas, mas gerando euforia rara, de show de Rock de outrora...

Claro, a vaga de baixista do Easy Rider's Band, é do amigo Marcião Gonçalves, mas se precisar, eu vou de novo, e com a certeza de que é diversão pura. Esse show ocorreu no Centro Cultural Rio Verde, localizado em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, no dia 14 de novembro de de 2014, com cerca de 300 pessoas na plateia.
Festa Odara com Edy Star & Easy Rider's Band. Luiz Domingues em destaque na foto acima. 14 de novembro de 2014, Centro Cultural Rio Verde, bairro de Pinheiros - São Paulo / SP. Foto:  Felipe Prado 

Bem, esse foi o último trabalho avulso que realizei no período entre abril de 1976 / abril de 2016, objeto de foco do meu texto autobiográfico. Já gerei novas histórias nesse campo, mas que não constam do texto do livro e serão publicadas neste Blog, além do meu Blog 2, também, quando iniciar esse processo dos textos suplementares contendo os adendos com atualizações, a partir de outubro de 2017. Seguindo a ordem do meu livro autobiográfico, daqui em diante, siga lendo sobre a minha trajetória com o "Terra no Asfalto", banda fundada em dezembro de 1979, e que gerou muitas histórias.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 35 - Big Chico, uma Noite de Blues de Chicago no Jaguaré... - Por Luiz Domingues


Kim Kehl & Os Kurandeiros haviam feito seu show no Festival "Hoje tem Blues", mas havia uma missão a mais nessa noite a ser cumprida, no palco do Ceu Jaguaré, na zona oeste de São Paulo.
Estávamos convocados a acompanhar o cantor / gaitista e guitarrista, Big Chico, um dos maiores expoentes da cena do Blues brasileiro naquela atualidade dos anos 10, do século XXI.
Acostumados a acompanhar artistas desse espectro, graças ao desdobramento em Magnólia Blues Band, na qual estávamos atuando desde janeiro de 2014, não houve nenhum empecilho para a banda e subindo o palco, bastava dizer-nos o tom e o andamento de cada canção a ser tocada, e a banda saia tocando e acompanhando a performance de Big Chico, sem problemas.

Nessa noite, estávamos reforçados pelo tecladista Nelson Ferraresso, membro original dos Kurandeiros, mas nos últimos tempos, presença apenas sazonal devido aos seus impedimentos pessoais. Mas com ele na banda, claro que o som encorpava e muito. Um mestre na escolha de timbres setentistas bacanas, preenchia o som com o som do órgão Hammond em suas diversas matizes, indo do Draw bar adocicado de Jimmy Smith, à distorção de Jon Lord, escolhendo com precisão os momentos certos para timbres díspares entre si. O mesmo raciocínio dá-se na escolha de timbres de pianos acústicos, elétricos e sintetizadores em geral, fazendo dele, um músico completo que qualquer banda sonha ter em seu time.
Marcião Pignatari sendo entrevistado pelo comunicador Jesse Navarro

Um reforço de última hora, o guitarrista Marcião Pignatari também subiu ao palco. Muito versado na arte do Blues e do Rock'n Roll, claro que sua guitarra estilosa ajudou a encorpar mais o som, ainda mais em se considerando que atacou de Fender Stratocaster, dando um contraste colorido à Gibson SG que o Kim usou nesse dia.

No meio da apresentação, os gaitistas Edu Dias, e Michael Navarro entraram no palco e fizeram suas intervenções, agregando, naturalmente. Tocando perto de minha presença, no lado esquerdo do palco, pude interagir com ambos em improvisações muito legais que fizemos juntos, gaitas e baixo. Em alguns momentos, apesar de tudo ter saído no improviso, parecia que naipes estavam ensaiados, pois conseguimos estabelecer uma sincronia de frases, muito legais.

O show do Big Chico foi muito legal, mesmo porque ele é um artista versátil e carismático, e o público apreciou muito suas interpretações de clássicos dos blues; cantando; tocando gaita; agitando a plateia como um entertainer; e tocando sua guitarra, também. Missão cumprida, com público aplaudindo de pé e pedido de bis, aconteceu no dia 18 de outubro de 2014, no teatro do Ceu Jaguaré, bairro Jaguaré, na zona oeste de São Paulo.
A lamentar-se, somente a baixa presença de público...show gratuito com um micro festival e cinco atrações bacanas da cena blues; teatro todo arrumadinho com som e luz bacanas... qual a desculpa para o teatro não ter lotado num sábado a tarde, longe do horário das novelas, futebol ou das baladas de rua ?

Acima, assista Big Chico + Os Kurandeiros + Convidados, ointerpretando "Everyday I Have the Blues"

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=XxXWkG89Ty4

Reclamamos que o poder público pouco faz pela educação & cultura... aí criam uma escola nos padrões de uma High School americana, com estrutura maravilhosa de teatro; biblioteca; piscinas e quadras esportivas; tudo grátis para a criançada carente de um bairro simples; produzem atrações culturais gratuitas, e não vai ninguém ??

Acima, assista Big Chico + Os Kurandeiros + Convidados, interpretando "Hootchie Cootchie Man"

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=qNCtp6T3Wbw

Confesso que fiquei chateado e convencido de que a contrapartida do desinteresse é enorme nesse processo de baixo estímulo à Educação & Cultura, mas enfim...


Ainda em 2014, um novo trabalho avulso surgir-me-ia, e dentro do espectro dos Kurandeiros de Kim Kehl, novamente...  

Continua...

Trabalhos Avulsos - Capítulo 34 - Koveiros em Missões Secretas e Nada Glamorosas... - Por Luiz Domingues


Os Kurandeiros de Kim Kehl mostravam-se ecléticos já há algum tempo, quando de suas fileiras, saiu a base da banda de apoio de Ciro Pessoa, "Nu Descendo a Escada". Isso havia reforçado-se, quando em abril de 2014, o baterista dos Kurandeiros, Carlinhos Machado, também passou a fazer parte dos "Nudes", a convite de Ciro Pessoa. Mas antes até, em janeiro, os Kurandeiros também haviam assumido um segundo desdobramento, ao juntarem-se com o tecladista Alexandre Rioli, e daí formar-se o Magnólia Blues Band, um combo de Blues pronto a acompanhar grandes personalidades da cena do Blues brasileiro, num evento fixo denominado "Quarta Blues", na casa de espetáculos, Magnólia Villa Bar, de São Paulo. Mas como loucura é bobagem, como diziam os Mutantes, um terceiro e muito inusitado desdobramento poderia ocorrer a qualquer momento, e no meio do ano de 2014, tais oportunidades apareceram.
Através do tecladista / gaitista e vocalista, Claudio "Cazão" Veiga, duas datas para cobrir duas festas, surgiram, e nesse caso, o objetivo era reunir um combo sem nenhum comprometimento artístico, que se prontificasse a tocar um repertório baseado no material dos Rolling Stones, e do Creedence Clearwater Revival, predominantemente, sem escrúpulos, simples assim...

Mediante consulta, o Kim lançou essa proposta para que eu e Carlinhos Machado a avaliássemos. Fazia anos que eu não participava de algo tão fora do propósito artístico que permeou minha carreira inteira, portanto, remetia-me aos tempos primordiais do "Terra no Asfalto", a única banda cover em que atuei na minha vida, mas lá nos longínquos anos de 1979 a 1982, ou seja, época em que iniciava minha trajetória, e era válido meter-se a participar desse tipo de banda com tal propósito não autoral. Ponderando por outro lado, seriam datas a serem cumpridas em festas obscuras, que nada poderiam ferir minha imagem ou autoestima (e claro que estendo o raciocínio também pensando no Kim e no Carlinhos).

Outros pontos : seriam realizados em datas onde não tínhamos compromissos com os outros trabalhos, e o cachet oferecido, era bom, portanto, se tratado como algo avulso, e que nada tinha a ver com as atividades dos Kurandeiros; Nudes, Pedra ou MBB, "que mal havia" ?

Dessa forma, computado como um combo secreto, recebeu o nome de "Koveiros", uma invenção maluca do Kim Kehl, denotando o caráter nada nobre, mas necessário... fora o fato de que a letra K, ao invés do C, dava uma maliciosa conotação com o KK & K...

Já o tecladista Claudio "Cazão" Veiga, era um músico bem comprometido com esse circuito off do off, e acostumado a lidar com contratantes desse patamar, portanto, com bastante opções.
Claro, é preciso ter muito estômago para encarar tal circuito. Em se considerando que não é o nosso métier, não é fácil encarar, mas para quem está acostumado, e não tem preocupação em forjar carreira autoral séria, não molesta em nada a dignidade de ninguém.
No caso dessa atuação dos Koveiros em 2014, foram duas oportunidades que o Claudio aventou, em junho desse ano e portanto, coincidindo com o andamento da Copa do Mundo.

No primeiro caso, foi uma aventura maluca ocorrida numa festa particular, numa residência localizada em Embu das Artes, município da Grande São Paulo.  Cidade relativamente distante da capital, ainda que unida na grande mancha metropolitana da capital e suas 39 cidades "grudadas" em volta, lá fomos nós. E o nosso endereço não era exatamente na cidade, mas num bairro de periferia de tal município, e localizada num condomínio fechado e fora do perímetro urbano.

Portanto, foi difícil achar o local, já denotando que seria um dia longo...
Quando chegamos, vimos tratar-se de uma residência muito ampla e confortável, onde o proprietário parecia estar seriamente comprometido com a ideia de dar o máximo de sua hospitalidade para seus convidados, e logo que viu-nos estacionando e descendo com instrumentos à mão, não sabia o que fazer para recepcionar-nos da melhor maneira possível.

Era uma reunião marcada para assistir a abertura da Copa do Mundo e consequentemente, o jogo Brasil x Croácia, inaugural do torneio. O rapaz havia contratado um surpreendente equipamento de P.A., e um trio nordestino para tocar forró antes de nós. Quando chegamos, o trio estava tocando, e entretendo as pessoas que dançavam e divertiam-se. Havia uma mesa fartíssima, que fomos convidados a servirmo-nos, com comida e bebida a vontade, portanto, o lado bom da hospitalidade fraternal, também sinalizava o lado mau que estava a caminho, com a bebedeira inevitável e conflitos inerentes, principalmente se o Brasil perdesse o jogo. Fomos orientados a assistir a partida, e nossa atuação seria no pós-jogo, reta final da festa.

Contudo, o dono da casa surpreendeu-nos um instante antes do jogo começar, quando convocou-nos a perfilarmo-nos diante do imenso telão onde o jogo seria exibido para seus convidados e fez um discurso inflamado sobre estar orgulhoso de ter contratado uma banda de alto gabarito para abrilhantar sua festa, e que éramos "artistas de verdade" etc etc. É o tal negócio : o rapaz não era do meio; não fazia a menor ideia de quem éramos, ou o curriculum pessoal de cada músico ali presente; mas seu respeito era absoluto.  
Carlinhos Machado & Luiz Domingues no dia do evento, na imensa área livre de uma residência particular

Mesmo sendo um leigo total nesse mundo, contratou um equipamento muito digno (e surpreendente, até), pagou-nos régia e antecipadamente com dinheiro vivo; tratou-nos com o máximo de simpatia, abrindo sua casa e ofertando-nos sua mesa farta, à vontade. Em contrapartida, essa manifestação dele remetia-me ao contraponto, ou seja, quantos pilantras do meio musical que não agem assim com artistas, e nesse caso, a resposta é óbvia : falta-lhes a hombridade...
Homem simples, de raciocínio prosaico, mas com um caráter a toda prova, fez-me refletir em torno de suas atitudes, o quanto  surpreendemo-nos na vida, pois se aquilo era uma atuação secreta para nós, portanto sem relevância artística, para ele era um acontecimento, e de sua parte, todo o esforço para fazer dar certo, era notável, sem contar a lisura em dar-nos todo o suporte e cumprir sua palavra, ipsis litteris.

Ora, o contraste com o glamour da música de outros patamares mais elevados, e sua quantidade de pilantras e sanguessugas inerentes, tornou-se uma comparação inevitável.

Na primeira foto, o vergonhoso "pênalti" marcado a favor do Brasil. Na foto abaixo, os Koveiros tocando na festa, com Kim Kehl à esquerda; Carlinhos Machado à bateria; Claudio "Cazão" Veiga com seu costumeiro teclado portátil e Luiz Domingues encoberto, atrás. Evento realizado em festa particular numa residência situada em Embu das Artes / SP, no dia 14 de junho de 2014. Foto : Lara Pap 

Bem, o Brasil venceu o jogo, com uma boa ajuda do árbitro; nós tocamos e divertimo-nos como se estivéssemos brincando num ensaio; e as pessoas ficaram muito bêbadas; muito mesmo, com direito a alguns vexames para causar-nos vergonha alheia, mas c'est la vie... a raça humana é etílica em predominância, infelizmente.
Saímos da residência do rapaz, por volta das dez da noite e após um pouco de confusão para achar o caminho para o centro de Embu das Artes, finalmente achamos o caminho e retornamos à Pauliceia.

Alguns dias depois, uma outra data para os Koveiros, avistou-se.

Desta feita, tratava-se de uma festa organizada por um moto clube, num bairro periférico de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Mais condizente com nosso temperamento, por ser mais Rocker e não tão insólito como uma festa em casa de família, pareceu-nos mais confortável.

Coincidiu com uma nova partida do Brasil na Copa do Mundo, desta feita, nas oitavas de final do torneio, contra a seleção do Chile. Portanto, deslocar-se em dia de jogo não era a coisa mais adequada a fazer-se e dependendo do resultado, até perigosa, enfim. Quando partimos, o jogo estava na prorrogação e quando aproximamo-nos da cidade de São Bernardo do Campo, pelas reações das pessoas nas ruas e pela explosão pirotécnica, deduzimos que o Brasil havia ganho na disputa em pênaltis.

À medida que afastamo-nos do centro de São Bernardo, e entramos na sua periferia, vimos cenas estarrecedoras de euforia desmesurada. Adolescentes faziam manobras arriscadíssimas em motos, demonstrando embriagues absoluta, ou ação química por uso de drogas com alto teor de anfetaminas, ou ambas...
Pior que isso, rapazes portando armas de fogo, dando tiros a esmo para o céu, com o intuito de extravasar sua "alegria" pela vitória da seleção brasileira...

Num cruzamento onde paramos no semáforo, vimos algo terrível. Uma mulher usava um telefone público, quando dois adolescentes  aproximaram-se e pela movimentação, dava-nos a impressão de que estavam molestando-a, pois a vimos sair correndo e numa fração de segundo, o orelhão explodiu !!! Naturalmente, ela saíra correndo quando percebeu que os dois marginais haviam colocado uma bomba, com a real intenção de explodir o equipamento telefônico. A questão é : se ela não tivesse percebido a tempo, teria morrido ou ferido-se com muita gravidade, no mínimo...
Por todos os lados, carros com sistema de som ensurdecedor, tocando o tal do "Funk", com letras absurdas, de uma baixíssimo teor, evocando sexo explícito e / ou apologia ao crime. Claro que eu sabia que o Funk que toca à exaustão na mídia mainstream é "Beethoven", perto do off do off do underground deles mesmos (se é que existam divisões inferiores para o subsolo mais profundo da subcultura de massa), mas confesso, fiquei muito triste constatando que sim, abaixo da mais baixa camada abissal, ainda havia um subsolo mais degradante.

Esse choque de realidade deprime, é claro. Mas, de nada adianta ficar lamuriando, e a vida segue...
Chegamos enfim ao local da sede do Moto Clube em questão, e o lado bom era evidente. Moto Clube, por menor e mais simples que seja, tem uma característica padrão : segue um código de ética interna, que é exemplar. O nível de educação e respeito que tais associações professam como regimento interno, é notável.
Encravado num bairro muito simples de periferia, ali, entre seus domínios, pode-se deixar o vidro de seu carro aberto, pois não há a menor possibilidade de nada desaparecer de seu interior. O tratamento de extrema simpatia que foi-nos dado, seguiu tal fama dessas agremiações, sem dúvida alguma. O único senão, é que houve uma longa espera pela apresentação, pois o evento atrasou seu início devido a problemas técnicos com o equipamento.

Haveria várias bandas cover no cardápio, e o palco estava montado numa praça pública em forma de um largo natural e sem saída, cercado de montanhas verdejantes. Mesmo com a presença de habitações simples e típicas de periferia, dando aquele aspecto sombrio de carência, a proximidade com a vegetação, amenizava tal impressão e o ar tinha o frescor de uma região serrana, e de fato, aquela natureza faz parte da serra do mar, pois São Bernardo fica nesse limite do caminho para o litoral do estado. Foi desgastante esperar pelas apresentações e entre elas, uma longa de um "Ramones Cover", e que perdoem-me os leitores que apreciam tal banda norteamericana, mas ninguém merece duas horas de música pobre, desse nível, nem do artista original, quanto mais um xerox... 
Koveiros em ação no evento produzido pelo Moto Clube "Parceiros do Raul, em 28 de junho de 2014, na cidade de São Bernardo do Campo / SP. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Claudio "Cazão" Veiga; Carlinhos Machado (na bateria) e Kim Kehl. Foto : Lara Pap

Tocamos e nossas interpretações de Rolling Stones e Creedence Clearwater Revival, agradaram em cheio aos presentes no evento, em sua maioria, motociclistas que tendem a apreciar Classic Rock, sem firulas. Gente simples, mas hospitaleira, sincera e muito honesta...

Artisticamente nada acrescentou-nos tais apresentações, tanto que o combo dos Koveiros é uma iniciativa secreta, e com o único objetivo de ganhar dinheiro, todavia, fiz questão de mencionar as duas ocorrências, abrindo um capítulo específico, pois foram lições importantes que computei, a meu ver. Não aconteceram mais apresentações dos Koveiros doravante, mas a qualquer momento, podem ocorrer, e agora eu sei, sempre existirá a possibilidade de eu surpreender-me em algum aspecto...
A festa na residência particular, ocorreu em 12 de junho de 2014, com aproximadamente 80 pessoas presentes. Já a apresentação no "Moto Clube Parceiros do Raul", foi em 28 de junho de 2014, com 300 pessoas mais ou menos na audiência.
O próximo trabalho avulso foi inusitado, pois apesar de ter a formação dos Kurandeiros como protagonista, na verdade acompanhamos um artista do mundo do Blues e gerou uma boa história. Para aumentar a estranheza, ocorreu num festival onde no mesmo dia Os Kurandeiros apresentaram-se...

Continua...