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domingo, 1 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 5 - Leandro, e meu Primeiro LP - Por Luiz Domingues




Em maio de 1980, o guitarrista Lizoel Costa convidou-me para mais um trabalho paralelo. Diante da zorra que foi a mini temporada com o Zuraio, desta vez o objetivo era acompanharmos um cantor de MPB, que queria apresentar-se ao vivo pela noite e planejava gravar um LP solo, no final do ano.

O saudoso guitarrista Lizoel Costa, aglutinador desta história


Claro que aceitei e imediatamente foram marcados ensaios na casa do Lizoel, no Jardim Bonfliglioli, próximo ao bairro do Butantã, zona oeste de São Paulo. O cantor chamava-se Leandro e era um ex-bancário que sonhava ser artista. Num ato de loucura ou arrojo, como queiram, pediu as contas no banco onde trabalhava e com essa boa reserva que recebeu, estava disposto a bancar um LP independente e lançar-se no mercado. Abro um parênteses para explicar ao leitor que gravar um LP independente em1980 era uma completa loucura. As gravadoras dominavam de tal forma o mercado, que no imaginário popular, só era considerado "artista", quem tivesse contrato com uma gravadora. Todos os demais eram considerados "amadores. Logo que começou a onda dos artistas rebelados empenhando-se em lançar seus discos independentes, uma série de boatos correram, dando contas"de que as gravadoras tomariam providências jurídicas para barrar os lançamentos independentes (como assim ? que atitude fascista e desprezivelmente mesquinha !!).



Guca Domenico & Carlos Melo (Castelo) : dois compositores da pesada



Voltando a falar do Leandro, o repertório inicial ensaiado era uma mescla de covers da MPB e canções que provavelmente seriam lançadas no seu futuro LP. Ele era municiado por uma série de jovens compositores, incluso Guca Domenico e Carlos Melo (Castelo), compositores do pré-Língua naquela fase e do Língua de Trapo oficial posteriormente, além de Sérgio Gama, futuro guitarrista do Língua, também. Ensaiamos durante um mês, aproximadamente e enfim o Leandro arrumou um show-teste num bar chamado "Uma Janela para o Céu", que ficava no bairro da Bela Vista, o popular Bexiga. O objetivo era tocar um repertório curto, em quarenta e cinco minutos, para a avaliação do dono da casa, mesclando covers de MPB, com algumas canções inéditas.

E assim fomos tocar. Dessa forma, tocamos no dia 10 de junho de 1980, para um público reduzido de apenas quinze pessoas. A banda que acompanhou o Leandro nessa noite era formada por : Lizoel Costa na guitarra; eu no baixo; Fernando Marconi na percussão e o próprio Leandro ao violão.


O excelente percussionista e baterista, Fernando Marconi

Foi uma apresentação numa terça-feira, o que justificava tão pouco público, mas independente disso, o Leandro estava desanimado. Talvez tivesse fantasias na cabeça, achando que faria sucesso imediato, mas evidentemente que não seria assim, ainda mais com o som dele que não apresentava nenhum grande trunfo que conferisse-lhe algo chamativo. A despeito de ter boas canções no repertório, não havia nada revolucionário no seu trabalho e ele era um rapaz de aparência comum, sem nenhum diferencial, pelo contrário, vestia-se de forma discreta e tradicional, sem nada que chamasse a atenção. E esse show-teste foi o primeiro e único que realizamos. Alegando preferir concentrar-se na produção do disco, não marcou mais nenhuma data e dali em diante, ficaríamos concentrados só nos ensaios para entrar em estúdio. Em princípio, o time de músicos seria aquele da apresentação e alguns convidados.
Com o passar do tempo, ele foi mudando de ideia e começou a convidar outros músicos. De fato, havia algumas canções que seriam melhor executadas com arranjos diferenciados e inclusão de outros instrumentos. Sambas e baiões soariam melhor com formações típicas desses estilos musicais, por exemplo. Teclados só enriqueceriam o disco etc. Então, ele foi diminuindo o nosso espaço, chamando também outros baixistas; guitarristas, e percussionistas. O espaço do trio original fora reduzido. De várias músicas que eu tocaria, algumas semanas depois, fui avisado de que só gravaria quatro. Depois três, a seguir duas...
Quando ele marcou a data da gravação, só restara-me uma música, "A Vingança do Hipocondríaco", uma samba-de-breque do Carlos Melo, que era também do repertório do Língua de Trapo, ou pré-Língua naquela fase. Fiquei chateado, claro, pois estava ensaiado e perdi semanas nesse esforço...
Então, no início de setembro de 1980, o Leandro agendou sessões de gravação num estúdio no centro de São Paulo, chamado "Gravodisc". Tratava-se de um estúdio razoavelmente bem equipado, mas com um aspecto meio carcomido, decadente. Era um estúdio cuja clientela base era o de artistas brega de gravadoras como Copacabana; Chantecler; e similares. E os técnicos, acostumados a lidar com essa sonoridade e todos os seus maneirismos típicos de música de baixa qualidade e sem apuro técnico. Dessa forma, sem um produtor profissional para dirigir a gravação e completamente inexperiente, o Leandro já pecou por marcar gravações num estúdio desse porte. A toque de caixa, o disco não teve pré-produção alguma. O objetivo era gravar várias faixas no mesmo dia, com músicos diferentes, numa equalização precária, “flat” e com a gravação sendo realizada ao vivo e pasmem, sem grandes preocupações com os inevitáveis vazamentos. Separado por biombos de madeira almofadados, essa era a insípida medida para coibir ruídos indesejáveis e inevitáveis.
Na base da loucura total, o Leandro mostrava-se nervoso, vendo seu dinheiro sendo devorado pelo relógio do estúdio, e assim pressionava cada time de músicos de cada faixa a gravar no máximo em três “takes”. Gravando ao vivo, cada pequeno erro que cada músico comete, faz com que tudo seja regravado do início.
Hoje em dia eu gravo em take único, sem olhar para o instrumento e raramente erro, mesmo em linhas difíceis. Nos discos da Patrulha do Espaço e do Pedra, em que participei, principalmente, eu conto nos dedos de uma mão as emendas que fiz, mas naquela época, 1980, além de eu ser um músico tecnicamente ainda em formação, eu era muito inexperiente. Fora gravações caseiras e demos pobres, era a primeira vez que eu estava gravando num estúdio profissional. Aquilo por si só já era intimidador, mas havia a agravante de ter que gravar rápido e sem entender nada da dinâmica de gravação, monitor etc etc. Isso sem contar o fato do estúdio estar cheio de músicos mais experientes, o que deixava-me inseguro. Mesmo sendo uma gravação bem mal dirigida (hoje eu tenho essa consciência), eu estava tímido ali.
E um outro fator atrapalhou-me e ajudou-me ao mesmo tempo, se é que seja possível uma coisa dessas, tão paradoxal. Ocorreu que ao chegar ao estúdio, estavam gravando uma canção do Sergio Gama. Ele que é guitarrista, estava gravando o baixo, e Nahame Casseb, popular "Naminha", na bateria. Havia um pianista e um guitarrista tocando junto, mas não lembro-me quem eram.             
Serginho Gama & Naminha (Nahame Casseb), artistas que conhecia superficialmente em 1980, mas que seriam meus companheiros de Língua de Trapo em 1983 / 1984

Eu conhecia o Sergio e o Naminha de vista, pois eram conhecidos do Lizoel. Alguns meses depois, eu estaria deixando o Língua de Trapo e o Sergio entrando para nunca mais sair, sendo hoje em dia (2016), o segundo membro mais antigo, só atrás do Laert. O Naminha entraria nessa banda em meados de 1983 e eu encontrar-me-ia com eles em outubro de 1983, quando voltei ao Língua de Trapo, conforme já contei nos capítulos sobre aquela banda.
E o Sergio quis ser gentil (e foi...), ao oferecer o baixo Fender com o qual estava gravando a sua composição. O baixo era emprestado de um amigo, pois como já disse, nem baixista ele era. Então, foi maravilhoso tocar pela primeira vez num instrumento "top", na vida. Mal podia acreditar no braço macio, muito diferente dos braços mal ajambrados dos instrumentos nacionais. O timbre era inacreditável, mesmo estando plugado em linha, sem amplificador. Ligar na “linha”, para quem não sabe, é ligar o instrumento diretamente na mesa de equalização, dispensando o uso de amplificador e caixa. Dessa forma, sem um bom amplificador e caixa(s), o som do instrumento pode piorar, se não existirem muitos recursos de equalização na mesa ou auxílio de periféricos, via patch. Mas, para um garoto inexperiente que eu era em 1980, nada disso importava, pois estava entusiasmado com um baixo Fender Jazz Bass na mão e detalhes técnicos não concerniam-me e dizendo a verdade, nem tinha conhecimento sobre tais questões. A parte ruim disso, é que na hora de gravar, estranhei o instrumento, e aliando-se a tudo o que já relatei, comprometendo o meu rendimento. Era um Fender cor de madeira, com braço “maple” e marcações retangulares pretas.
Saí na foto com ele, na contra-capa do disco. A foto saiu invertida na contracapa do LP, mas retrata-me naquela gravação, "suando frio" com a pressão do estúdio, mas maravilhado por estar tocando com um Fender Jazz Bass pela primeira vez na vida...
Lembro-me do Lizoel estar gravando violão e o Fernando Marconi, "surdão" de samba. Havia outros músicos complementando, mas não conhecia-os. Eram “coroas” que o Leandro deve ter recrutado em rodas de samba ou de chorinho, pela noite. Quando a luz vermelha acendeu, eu vi que cada pequena nota não tocada corretamente ou com um mínimo desvio no traste, causava um desastre. Errei logo no início e o clima estava tenso com os outros músicos olhando-me esquisito, com aquelas expressões faciais de desaprovação.
O meu headphone estava com ruído e a equalização péssima. Qualquer músico que esteja lendo este relato, sabe que na hora de gravar, é preciso perder um tempo acertando a equalização dos headphones com o máximo afinco, para tornar a gravação confortável, e com cada músico ouvindo o restante da banda da maneira que achar mais conveniente para poder desempenhar o seu papel com desenvoltura. Mas numa gravação como foi aquela, às pressas, num estúdio decadente e com técnicos preguiçosos, seria pedir demais. E assim foi, sem ouvir direito os outros músicos e com o meu baixo num volume diminuto, que gravei, consciente de que errei algumas frases.
Alguns dias depois, o Leandro veio dizer-me que muitos músicos "tremeram" no estúdio, e que eu fora um deles...
Não fiquei ofendido, mas chateado, pois dei o meu melhor e fui traído pela inexperiência em confronto com uma produção tosca, sem condições nem para músicos experientes. Se não confiava em meu desempenho e de outros músicos, deveria ter-nos descartado. Hoje em dia, analisando com distanciamento histórico, vejo claramente que ele de fato não confiava, pois foi diminuindo o meu espaço na produção. O fato de ter deixado-me gravar só uma faixa, deve ter sido por uma questão de pena ou até gratidão por eu ter esforçado-me nos ensaios etc. E também por eu ser amigo do Lizoel e ser do Língua de Trapo, onde ele tinha suas conexões via Guca Domenico e Carlos Melo (Castelo), que municiavam-no com composições.
O disco ficou pronto no final de 1980. Ganhei uma cópia com uma dedicatória. Foi minha primeira gravação oficial em um LP. A capa do disco foi muito criticada por todos. 
Era uma foto do Leandro num parque público (Horto Florestal, na zona norte de São Paulo), sentado a beira de um lago, encostado numa árvore. Trajado com um visual bem “careta”, parecia capa de artista brega. O repertório era interessante, mas não parecia haver uma mola mestra definindo uma direção. Havia canções; sambas; sambão; samba de breque e ritmos nordestinos. Talvez na concepção dele, a intenção fosse demonstrar ecletismo, mas sem orientação artística alguma, mais parecia uma coletânea de vários artistas, cada faixa com um estilo, e com um time de músicos diferentes.
Infelizmente, o Leandro não conseguiu nada com esse disco, conforme fiquei sabendo pelo Lizoel Costa. O disco não vendeu nada, não tocou em rádio alguma e ele mal conseguiu fazer uma sequência mínima de shows. Uma pena, pois era gente boa e tinha o sonho. E pessoas que tem o sonho e buscam-no, sempre tem a minha admiração e respeito. Ele tinha uma irmã que era cantora também. Ela chegou a gravar um compacto ainda no início dos anos 1980, e seu negócio era o Blues. Era fã de Janis Joplin e dos artistas clássicos desse estilo. Chama-se Tereza Cida.
Nunca mais vi ou tive notícias do Leandro. Espero que esteja bem. Procurei na internet mas não achei quase nada sobre o Leandro ou seu LP. Apenas no Blog do Língua de Trapo, existem citações de várias pessoas ao Leandro e seu LP "Canto Livre"...
Coloco abaixo o link de uma citação feita pelo jornalista Ayrton Mugnaini Jr. em seu blog. É uma citação curta, pois realmente o trabalho dele não vingou, infelizmente.

http://ayrtonmugnainijr.blogspot.com/2008_04_01_archive.html

Como considerações finais, cito :

1) Claro, sou muito grato ao Leandro por ter convidado-me participar e considero essa oportunidade, como a minha primeira experiência em estúdio profissional, da qual tirei lições.
2) O primeiro contato com um baixo Fender, foi algo inesperado e incrível.
3) Verdade... aprendi que num estúdio, estar preparado, nota por nota é muito importante. Ou ficar tão seguro ao ponto de sentir-se livre para improvisar, meu caso hoje em dia. Chego ao estúdio com um arranjo definido, nota por nota, mas muitas vezes improviso aqui e ali e se gosto do resultado, deixo no disco.
4) O fone de ouvido é fundamental... já gravei com fones péssimos, por precariedade de certos estúdios, mas o ideal é ter uma equalização "ao dente", ou melhor, “à orelha”...
5) Sim, tenho uma cópia desse LP na minha coleção e com dedicatória do Leandro.
6) A minha foto na contracapa do álbum, foi tirada na sessão de gravação e estou com o baixo Fender citado e ostentando um bigode. Foi a primeira e única vez que deixei bigode, que não durou nem um mês e calhou de ser nessa gravação registrada em fotos. E o responsável pela arte final da capa, prejudicou-me, pois a minha foto saiu invertida. Na foto, pareço o Paul McCartney da época do LP “Sgt° Peppers”, dos Beatles, com bigode e tocando como canhoto...
7) Para ser sincero, entre frustração, satisfação ou realização, tive um pouco das três coisas... satisfeito por ter gravado um ao menos uma faixa para um LP, num estúdio profissional; frustrado por ter sofrido e tido uma performance não muito boa e realizado, pensando que estava numa situação que pouco tempo antes, era só um sonho.
8) Não fiquei pensando muito na gravação com grande expectativa. Isso porque estava fazendo vários trabalhos paralelos naquela época e nem tinha tempo para ficar elucubrando...
9) Lastimavelmente, não há sinal de postagem de nenhuma música sequer dele no You Tube ou portais similares. Não tenho link algum para disponibilizar da faixa que gravei em seu LP (ao menos por enquanto, fica a ressalva).

E assim, graças a esse trabalho avulso, gravei pela primeira vez, de forma oficial, tendo registro em um LP. Foi uma faixa só, não era o som dos meus sonhos, e muito menos tratava-se de um trabalho numa banda minha, e autoral.
Todavia, tem uma representatividade importante para a minha carreira, é claro, mesmo em se considerando que a carreira do Leandro não decolou, e o LP ficou no limbo da obscuridade, infelizmente.
Meu próximo trabalho avulso foi na verdade uma tentativa de formação de banda autoral, mas só gerou trabalho inútil, lastimavelmente. No próximo capítulo dos Trabalhos Avulsos, você vai conhecer a breve história do "Jungô"

Continua...

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