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sexta-feira, 13 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 34 - Koveiros em Missões Secretas e Nada Glamorosas... - Por Luiz Domingues


Os Kurandeiros de Kim Kehl mostravam-se ecléticos já há algum tempo, quando de suas fileiras, saiu a base da banda de apoio de Ciro Pessoa, "Nu Descendo a Escada". Isso havia reforçado-se, quando em abril de 2014, o baterista dos Kurandeiros, Carlinhos Machado, também passou a fazer parte dos "Nudes", a convite de Ciro Pessoa. Mas antes até, em janeiro, os Kurandeiros também haviam assumido um segundo desdobramento, ao juntarem-se com o tecladista Alexandre Rioli, e daí formar-se o Magnólia Blues Band, um combo de Blues pronto a acompanhar grandes personalidades da cena do Blues brasileiro, num evento fixo denominado "Quarta Blues", na casa de espetáculos, Magnólia Villa Bar, de São Paulo. Mas como loucura é bobagem, como diziam os Mutantes, um terceiro e muito inusitado desdobramento poderia ocorrer a qualquer momento, e no meio do ano de 2014, tais oportunidades apareceram.
Através do tecladista / gaitista e vocalista, Claudio "Cazão" Veiga, duas datas para cobrir duas festas, surgiram, e nesse caso, o objetivo era reunir um combo sem nenhum comprometimento artístico, que se prontificasse a tocar um repertório baseado no material dos Rolling Stones, e do Creedence Clearwater Revival, predominantemente, sem escrúpulos, simples assim...

Mediante consulta, o Kim lançou essa proposta para que eu e Carlinhos Machado a avaliássemos. Fazia anos que eu não participava de algo tão fora do propósito artístico que permeou minha carreira inteira, portanto, remetia-me aos tempos primordiais do "Terra no Asfalto", a única banda cover em que atuei na minha vida, mas lá nos longínquos anos de 1979 a 1982, ou seja, época em que iniciava minha trajetória, e era válido meter-se a participar desse tipo de banda com tal propósito não autoral. Ponderando por outro lado, seriam datas a serem cumpridas em festas obscuras, que nada poderiam ferir minha imagem ou autoestima (e claro que estendo o raciocínio também pensando no Kim e no Carlinhos).

Outros pontos : seriam realizados em datas onde não tínhamos compromissos com os outros trabalhos, e o cachet oferecido, era bom, portanto, se tratado como algo avulso, e que nada tinha a ver com as atividades dos Kurandeiros; Nudes, Pedra ou MBB, "que mal havia" ?

Dessa forma, computado como um combo secreto, recebeu o nome de "Koveiros", uma invenção maluca do Kim Kehl, denotando o caráter nada nobre, mas necessário... fora o fato de que a letra K, ao invés do C, dava uma maliciosa conotação com o KK & K...

Já o tecladista Claudio "Cazão" Veiga, era um músico bem comprometido com esse circuito off do off, e acostumado a lidar com contratantes desse patamar, portanto, com bastante opções.
Claro, é preciso ter muito estômago para encarar tal circuito. Em se considerando que não é o nosso métier, não é fácil encarar, mas para quem está acostumado, e não tem preocupação em forjar carreira autoral séria, não molesta em nada a dignidade de ninguém.
No caso dessa atuação dos Koveiros em 2014, foram duas oportunidades que o Claudio aventou, em junho desse ano e portanto, coincidindo com o andamento da Copa do Mundo.

No primeiro caso, foi uma aventura maluca ocorrida numa festa particular, numa residência localizada em Embu das Artes, município da Grande São Paulo.  Cidade relativamente distante da capital, ainda que unida na grande mancha metropolitana da capital e suas 39 cidades "grudadas" em volta, lá fomos nós. E o nosso endereço não era exatamente na cidade, mas num bairro de periferia de tal município, e localizada num condomínio fechado e fora do perímetro urbano.

Portanto, foi difícil achar o local, já denotando que seria um dia longo...
Quando chegamos, vimos tratar-se de uma residência muito ampla e confortável, onde o proprietário parecia estar seriamente comprometido com a ideia de dar o máximo de sua hospitalidade para seus convidados, e logo que viu-nos estacionando e descendo com instrumentos à mão, não sabia o que fazer para recepcionar-nos da melhor maneira possível.

Era uma reunião marcada para assistir a abertura da Copa do Mundo e consequentemente, o jogo Brasil x Croácia, inaugural do torneio. O rapaz havia contratado um surpreendente equipamento de P.A., e um trio nordestino para tocar forró antes de nós. Quando chegamos, o trio estava tocando, e entretendo as pessoas que dançavam e divertiam-se. Havia uma mesa fartíssima, que fomos convidados a servirmo-nos, com comida e bebida a vontade, portanto, o lado bom da hospitalidade fraternal, também sinalizava o lado mau que estava a caminho, com a bebedeira inevitável e conflitos inerentes, principalmente se o Brasil perdesse o jogo. Fomos orientados a assistir a partida, e nossa atuação seria no pós-jogo, reta final da festa.

Contudo, o dono da casa surpreendeu-nos um instante antes do jogo começar, quando convocou-nos a perfilarmo-nos diante do imenso telão onde o jogo seria exibido para seus convidados e fez um discurso inflamado sobre estar orgulhoso de ter contratado uma banda de alto gabarito para abrilhantar sua festa, e que éramos "artistas de verdade" etc etc. É o tal negócio : o rapaz não era do meio; não fazia a menor ideia de quem éramos, ou o curriculum pessoal de cada músico ali presente; mas seu respeito era absoluto.  
Carlinhos Machado & Luiz Domingues no dia do evento, na imensa área livre de uma residência particular

Mesmo sendo um leigo total nesse mundo, contratou um equipamento muito digno (e surpreendente, até), pagou-nos régia e antecipadamente com dinheiro vivo; tratou-nos com o máximo de simpatia, abrindo sua casa e ofertando-nos sua mesa farta, à vontade. Em contrapartida, essa manifestação dele remetia-me ao contraponto, ou seja, quantos pilantras do meio musical que não agem assim com artistas, e nesse caso, a resposta é óbvia : falta-lhes a hombridade...
Homem simples, de raciocínio prosaico, mas com um caráter a toda prova, fez-me refletir em torno de suas atitudes, o quanto  surpreendemo-nos na vida, pois se aquilo era uma atuação secreta para nós, portanto sem relevância artística, para ele era um acontecimento, e de sua parte, todo o esforço para fazer dar certo, era notável, sem contar a lisura em dar-nos todo o suporte e cumprir sua palavra, ipsis litteris.

Ora, o contraste com o glamour da música de outros patamares mais elevados, e sua quantidade de pilantras e sanguessugas inerentes, tornou-se uma comparação inevitável.

Na primeira foto, o vergonhoso "pênalti" marcado a favor do Brasil. Na foto abaixo, os Koveiros tocando na festa, com Kim Kehl à esquerda; Carlinhos Machado à bateria; Claudio "Cazão" Veiga com seu costumeiro teclado portátil e Luiz Domingues encoberto, atrás. Evento realizado em festa particular numa residência situada em Embu das Artes / SP, no dia 14 de junho de 2014. Foto : Lara Pap 

Bem, o Brasil venceu o jogo, com uma boa ajuda do árbitro; nós tocamos e divertimo-nos como se estivéssemos brincando num ensaio; e as pessoas ficaram muito bêbadas; muito mesmo, com direito a alguns vexames para causar-nos vergonha alheia, mas c'est la vie... a raça humana é etílica em predominância, infelizmente.
Saímos da residência do rapaz, por volta das dez da noite e após um pouco de confusão para achar o caminho para o centro de Embu das Artes, finalmente achamos o caminho e retornamos à Pauliceia.

Alguns dias depois, uma outra data para os Koveiros, avistou-se.

Desta feita, tratava-se de uma festa organizada por um moto clube, num bairro periférico de São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Mais condizente com nosso temperamento, por ser mais Rocker e não tão insólito como uma festa em casa de família, pareceu-nos mais confortável.

Coincidiu com uma nova partida do Brasil na Copa do Mundo, desta feita, nas oitavas de final do torneio, contra a seleção do Chile. Portanto, deslocar-se em dia de jogo não era a coisa mais adequada a fazer-se e dependendo do resultado, até perigosa, enfim. Quando partimos, o jogo estava na prorrogação e quando aproximamo-nos da cidade de São Bernardo do Campo, pelas reações das pessoas nas ruas e pela explosão pirotécnica, deduzimos que o Brasil havia ganho na disputa em pênaltis.

À medida que afastamo-nos do centro de São Bernardo, e entramos na sua periferia, vimos cenas estarrecedoras de euforia desmesurada. Adolescentes faziam manobras arriscadíssimas em motos, demonstrando embriagues absoluta, ou ação química por uso de drogas com alto teor de anfetaminas, ou ambas...
Pior que isso, rapazes portando armas de fogo, dando tiros a esmo para o céu, com o intuito de extravasar sua "alegria" pela vitória da seleção brasileira...

Num cruzamento onde paramos no semáforo, vimos algo terrível. Uma mulher usava um telefone público, quando dois adolescentes  aproximaram-se e pela movimentação, dava-nos a impressão de que estavam molestando-a, pois a vimos sair correndo e numa fração de segundo, o orelhão explodiu !!! Naturalmente, ela saíra correndo quando percebeu que os dois marginais haviam colocado uma bomba, com a real intenção de explodir o equipamento telefônico. A questão é : se ela não tivesse percebido a tempo, teria morrido ou ferido-se com muita gravidade, no mínimo...
Por todos os lados, carros com sistema de som ensurdecedor, tocando o tal do "Funk", com letras absurdas, de uma baixíssimo teor, evocando sexo explícito e / ou apologia ao crime. Claro que eu sabia que o Funk que toca à exaustão na mídia mainstream é "Beethoven", perto do off do off do underground deles mesmos (se é que existam divisões inferiores para o subsolo mais profundo da subcultura de massa), mas confesso, fiquei muito triste constatando que sim, abaixo da mais baixa camada abissal, ainda havia um subsolo mais degradante.

Esse choque de realidade deprime, é claro. Mas, de nada adianta ficar lamuriando, e a vida segue...
Chegamos enfim ao local da sede do Moto Clube em questão, e o lado bom era evidente. Moto Clube, por menor e mais simples que seja, tem uma característica padrão : segue um código de ética interna, que é exemplar. O nível de educação e respeito que tais associações professam como regimento interno, é notável.
Encravado num bairro muito simples de periferia, ali, entre seus domínios, pode-se deixar o vidro de seu carro aberto, pois não há a menor possibilidade de nada desaparecer de seu interior. O tratamento de extrema simpatia que foi-nos dado, seguiu tal fama dessas agremiações, sem dúvida alguma. O único senão, é que houve uma longa espera pela apresentação, pois o evento atrasou seu início devido a problemas técnicos com o equipamento.

Haveria várias bandas cover no cardápio, e o palco estava montado numa praça pública em forma de um largo natural e sem saída, cercado de montanhas verdejantes. Mesmo com a presença de habitações simples e típicas de periferia, dando aquele aspecto sombrio de carência, a proximidade com a vegetação, amenizava tal impressão e o ar tinha o frescor de uma região serrana, e de fato, aquela natureza faz parte da serra do mar, pois São Bernardo fica nesse limite do caminho para o litoral do estado. Foi desgastante esperar pelas apresentações e entre elas, uma longa de um "Ramones Cover", e que perdoem-me os leitores que apreciam tal banda norteamericana, mas ninguém merece duas horas de música pobre, desse nível, nem do artista original, quanto mais um xerox... 
Koveiros em ação no evento produzido pelo Moto Clube "Parceiros do Raul, em 28 de junho de 2014, na cidade de São Bernardo do Campo / SP. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Claudio "Cazão" Veiga; Carlinhos Machado (na bateria) e Kim Kehl. Foto : Lara Pap

Tocamos e nossas interpretações de Rolling Stones e Creedence Clearwater Revival, agradaram em cheio aos presentes no evento, em sua maioria, motociclistas que tendem a apreciar Classic Rock, sem firulas. Gente simples, mas hospitaleira, sincera e muito honesta...

Artisticamente nada acrescentou-nos tais apresentações, tanto que o combo dos Koveiros é uma iniciativa secreta, e com o único objetivo de ganhar dinheiro, todavia, fiz questão de mencionar as duas ocorrências, abrindo um capítulo específico, pois foram lições importantes que computei, a meu ver. Não aconteceram mais apresentações dos Koveiros doravante, mas a qualquer momento, podem ocorrer, e agora eu sei, sempre existirá a possibilidade de eu surpreender-me em algum aspecto...
A festa na residência particular, ocorreu em 12 de junho de 2014, com aproximadamente 80 pessoas presentes. Já a apresentação no "Moto Clube Parceiros do Raul", foi em 28 de junho de 2014, com 300 pessoas mais ou menos na audiência.
O próximo trabalho avulso foi inusitado, pois apesar de ter a formação dos Kurandeiros como protagonista, na verdade acompanhamos um artista do mundo do Blues e gerou uma boa história. Para aumentar a estranheza, ocorreu num festival onde no mesmo dia Os Kurandeiros apresentaram-se...

Continua...

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