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domingo, 1 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 14 - Electric Funeral, Brincando de Fazer Missa Negra - Por Luiz Domingues

Em setembro de 1989, desliguei-me definitivamente da minha banda, A Chave, que na verdade fora uma banda dissidente da velha, A Chave do Sol, propriamente dita, (posteriormente essa mesma banda trocou de nome para : "The Key", e tudo isso é amplamente explicado no seu capítulo próprio, naturalmente). 

Assim que encerrei minha participação nas gravações do primeiro disco dessa banda (que geralmente é confundido como o quarto álbum da Chave do Sol, mas não o é), oficializei a minha saída, visto que o vocalista, Beto Cruz, já sabia de minha decisão há tempos, desde o início das gravações, mas isso é esmiuçado no capítulo que conta a história daquela banda. Quero só enfatizar que desse meado de 1989, até o início de 1992, vivi o meu maior período sem ser membro de uma banda oficial. E dessa forma, emendei diversos trabalhos paralelos, ou tentativas de. O primeiro deles, foi quando aceitei o convite do guitarrista do Golpe de Estado, Hélcio Aguirra, para tocar com ele e mais dois músicos, em uma banda tributo ao "Black Sabbath", chamada "Electric Funeral", nome de uma música do repertório dessa banda clássica do Rock britânico setentista. Isso ocorreu em junho de 1990.
O saudoso, Hélcio Aguirra, um grande guitarrista e gente boa demais

Apesar de não ser um grande fã da banda, eu gostava (gosto) dela, e como adendo, não ser meu objetivo de vida tocar em bandas cover, aceitei o convite, pois ganharia um dinheiro, e certamente seria divertido. Além do Hélcio Aguirra, os demais componentes eram : Vitão Bonesso, na bateria; e Chris Skepis, vocal.
O Vitão era um ex-membro do "Beatles Forever", uma das mais famosas bandas tributo aos Beatles, de São Paulo, e esta, com a presença do extraordinário guitarrista, e um dos maiores colecionadores de memorabilia Beatle no país, Marcus Rampazzo (infelizmente, falecido em 2016). 

Baterista; agitador cultural; jornalista; radialista e blogueiro : Vitão Bonesso 

Vitão Bonesso ainda estava por iniciar-se no radialismo, e não era tão famoso quanto o é hoje em dia nesse meio do jornalismo especializado, e aliás, ele mostra-se mais centrado na atualidade, no mundo do Heavy-Metal. Já o Chris Skepis, era um vocalista / guitarrista que morara em Londres durante muitos anos, e lá, foi membro oficial de uma banda britânica punk, da cena de 1977, chamada : "Cock Sparrer". 
Chris Skepis, meu futuro colega de Pitbulls on Crack, na década de noventa
 
Apesar disso, ele era na verdade um Rocker com sólida formação 1960 / 1970, e profundo conhecedor da matéria. E uma particularidade : eu o conheci pessoalmente somente nesse dia em que ensaiei com o Electric Funeral pela primeira vez, mas já ouvia histórias dele, desde o início dos anos 1980, pois ele era (é), irmão do vocalista, Denis Skepis, que fora componente do grupo "Contrabando", banda na qual o baterista, José Luiz Dinola (A Chave do Sol), tocou entre 1978 / 1981.
E assim foi que cheguei ao estúdio 864 (conhecido como "oito, meia, quatro"), na Av. Pompeia, n° 864 (daí o nome), na Vila Pompeia, zona oeste de São Paulo. O estúdio era de propriedade do Chris Skepis, desde meados de 1989, tendo adquirido-o do ex-baixista "d'Os Incríveis", o Nenê Benvenutti. Era um estúdio amplo, com duas salas bem espaçosas, e um bom P.A. para alimentar o som de vozes. O repertório inicial programado por eles, dava ênfase à primeira fase do Black Sabbath, com Ozzy Osbourne no vocal. Eu particularmente prefiro essa fase, a despeito de achar o Ozzy, um cantor horrível.
Sei que a minha opinião é polêmica e soa contraditória, mas prefiro o Black Sabbath com Ozzy, à fase Ronnie James Dio, que inegavelmente foi um vocalista muito superior, tecnicamente.
Minha tese é que o som do Black Sabbath nessa fase posterior, com Ronnie James Dio nos vocais, tornou-se efetivamente "Heavy-Metal", com aquele ranço oitentista que eu detesto, em detrimento ao som da banda na década de setenta, muito pesado certamente, mas com elementos Hard-Rock, muito mais palatáveis ao meu gosto. Então, fiquei bem mais aliviado por saber que privilegiariam o repertório da fase Ozzy, com algumas do Dio, e duas da fase Gillan, que eu mal conhecia. As da fase Ozzy, toquei sem problemas, logo no primeiro ensaio, na base da memória afetiva, e por muitas dessas canções ter sido objeto de minhas aulas. Várias músicas do Black Sabbath tinham riffs ótimos para eu ensinar aos meus alunos de baixo.
O ótimo baixista do Black Sabbath, Geezer Butler, em foto dos anos setenta

As músicas das fases Dio e Gillan, tive que ouvir e tirar, para passar depois, no próximo, e derradeiro ensaio. Como já disse anteriormente, o Black Sabbath estava / está longe de ser uma das minhas bandas prediletas.
Gosto imensamente de uma série de outras bandas, antes de pensar no Black Sabbath, mas estava a apreciar tocar aquelas músicas. 


Sobre o convívio com a banda foi muito descontraído. Eu só conhecia bem o Hélcio Aguirra, aliás, desde 1984. Mas o Chris Skepis, e o Vitão Bonesso eram dois humoristas em potencial, no bom sentido do termo, a brincar o tempo todo, e emendar piadas; trocadilhos e ironias, sem parar. Clima descontraído e boa banda... pena que fosse banda cover !
Feitos esses dois ensaios, fomos tocar no Black Jack Bar, em duas datas : 13 e 14 de julho de 1990, com respectivos 250 e 200 pagantes. Ao considerar-se que o espaço físico do Bar Black Jack, era muito pequeno, esse foi um excelente público. 
  Geezer Butler em ação com o Black Sabbath, nos anos setenta

Os shows foram bastante energéticos, a arrancar urros dos apreciadores do Black Sabbath, ali presentes. Lembro-me de ver bem na minha frente, a observar atentamente a minha digitação, a baixista, Mila, da banda feminina, Volkana. 
O Vitão mandou fazer duas enormes cruzes prateadas, e colocou-as atrás da banda como cenário, e todos tocaram a usar figurino preto. O Hélcio sempre carregava no visual, e usava coletes com franjinhas, semelhantes aos usados pelo Tony Iommi etc.
E o Chris que tinha (tem), um inglês britânico, perfeito e sem sotaque, cantava e desempenhava a perfeição as canções do Black Sabbath.
Tocar cover é algo desagradável para o meu gosto, desde sempre, mas não vou dizer que não diverti-me, pois mesmo o Black Sabbath por não ser minha banda de cabeceira, é claro que a maioria daquelas canções tinha significado afetivo, ao remeter-me à minha adolescência, nos anos setenta etc e tal. Tocamos sob um volume muito alto, e convenhamos, aquele repertório do Black Sabbath não combina com dinâmicas comedidas. Saí "morto" do palco nas duas noites, pois a energia foi intensa, e o calor com o bar abarrotado, muito grande, mesmo ao tratar-se do pleno inverno de julho. 
E tocar aqueles fraseados do Geezer Butler, não foi tarefa fácil.
Ele é um excelente baixista, e suas linhas, embora não muito citadas pelos críticos e historiadores do Rock, são requintadas, com influências jazzísticas muito bem delineadas. Claro, reservei-me o direito de improvisar, pois tocar a reproduzir o trabalho de outrem, nota por nota do disco, não é do meu agrado.
Toquei as partes essenciais para não descaracterizar as músicas e frustrar ouvintes fanáticos, mas coloquei minha criação em doses generosas, sem a qual frustrar-me-ia completamente, ao sentir-me um mero reprodutor da obra alheia. Os dois shows renderam um razoável cachet, mas não havia novas datas em curto prazo. O próximo show, só em abril de 1991 !
Dispersos após esses dois shows, só houve uma nova oportunidade em abril de 1991, quando uma data foi fechada na casa de shows, "Dama Xoc". Para tanto, fizemos alguns ensaios prévios e o repertório mais uma vez foi praticamente igual, embora o baterista Vitão Bonesso,  tenha insistido com veemência para tocarmos músicas dos trabalhos mais modernos do Black Sabbath. Por sorte, prevaleceu o repertório clássico, fase Ozzy.
Foto da fachada da casa de shows, "Dama Xoc", entre o final dos anos oitenta e início dos noventa

O Dama Xoc era uma casa de médio porte; bem estruturada; com som e luz de qualidade; palco grande; e foi no final dos anos oitenta, um espaço bem requisitado para apresentações de bandas nacionais sob diversos estilos. Eu mesmo toquei com A Chave (sem Sol), muitas vezes ali, conforme relato no seu capítulo adequado. Neste show do Electric Funeral, contudo, infelizmente o público foi reduzido. 110 pagantes em um lugar onde cabia cerca de 1000, realmente não era para ser comemorado. Mas o show foi bom, com uma qualidade sonora e visual bem digna, além de uma boa performance da banda.
Um episódio isolado e flagrado pela câmera do cinegrafista, Billy Albuquerque, foi engraçado : no meio de uma performance, o Chris Skepis bebeu um copo d'água, e jogou-o vazio na plateia, para acertar um rapaz, mas fora totalmente sem intenção, pois no vídeo, ele surpreende-se com o fato, e pede desculpas, com sua voz a vazar pelo microfone. Outro fato engraçado, foi que na música final, o Vitão Bonesso empolgou-se, e ao fazer uma virada nos tons, e por estar em pé, desequilibrou-se ao sentar-se novamente no banquinho, e assim estatelou-se no chão, e pior, esmagou, literalmente, o roadie, um japonês que era funcionário dos "Ratos de Porão", há muitos anos. A cena foi flagrada na segunda câmera, e cogitou-se enviar essa filmagem para as "Videocassetadas" do Faustão... 
Nessa apresentação, usei novamente o meu Rickenbacker, mas em algumas músicas usei o Precision feito por um Luthier, de propriedade de meu amigo / roadie / aluno, José Reis. Curiosamente, esse instrumento pertence-me hoje em dia. Tenho a cópia desse show, com takes das duas câmeras, e com boa qualidade. Quem sabe um dia, posto no You Tube. Se não fosse cover...
Após essa boa (porém com pouco público), apresentação no Dama Xoc, fizemos mais duas apresentações no Black Jack Bar, nos dias 26 e 27 de abril de 1991. No dia 26, 150 pessoas assistiram e no dia 27, 250 pessoas. Ou seja, apesar do palquinho minúsculo e condições de som e luz infinitamente inferiores à do Dama Xoc, esses shows foram muito mais animados.
Foto do encarte do CD "Lift Off", que o Pitbulls on Crack lançaria em 1996

Após esses dois shows, uma nova dispersão e alguns meses depois, eu começaria a ensaiar enfim em uma nova banda autoral, a convite do vocalista, Chris Skepis, para ser preciso, em janeiro de 1992.
Claro, essa história está contada em seu capítulo exclusivo (Pitbulls on Crack). A última ocorrência com o Electric Funeral, deu-se em 1992.
O Hélcio fechou uma data no Aeroanta, uma casa de médio porte, e bem estruturada também, através do produtor, Geraldo D'Arbilly, ex-baterista do "Peso", nos anos 1970, e do "Blue Rondo a La Turk", uma banda inglesa, na década de 1980.
Não lembro-me porque, mas o Vitão Bonesso, cofundador do Electric Funeral, não quis participar. O Chris também não queria, e eu sempre relutei para tocar covers e vivia uma outra situação naquele momento, pois estava animado com o Pitbulls on Crack, que dava seus primeiros passos. Mas eis que aceitamos fechar a data, e o baterista nesse show, foi o Paulo Thomaz, ex-Centúrias, e naquele momento a tocar no "Firebox", uma banda peso-pesado da cena do Heavy-Metal. 
Paulão Thomaz, em foto de seu tempo como componente do "Centúrias"
 
Realizamos dois ensaios no estúdio particular do Paulo Thomaz, e fizemos o show em um domingo, dia 19 de julho de 1992, com a abertura da banda autoral, "Anjos dos Becos", e um público presente com cerca de 200 pessoas. Não foi tão bom quanto o show do Dama Xoc, de 1991, mas também foi registrado em vídeo, com razoável imagem e áudio.
A última vez que cogitou-se algo do Electric Funeral comigo, foi em 2008, quando o Hélcio ligou-me, mas eu declinei do convite, pois estava bem no "Pedra", e não quis fazer parte do time. E assim foi a minha história no Electric Funeral, com 6 shows realizados entre 1990 e 1992.
O próximo capítulo dos Trabalhos Avulsos, conta mais uma história ocorrida em 1990, desta feita bem curta, a tratar-se de um convite formulado por um ótimo guitarrista que eu admiro, mas cuja concepção artística naquele momento, não condizia com meus anseios.

Continua...

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