Pesquisar este blog

domingo, 1 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 19 - Projeto Rock'n Roll, o Perseverante Luiz Fernando - Por Luiz Domingues

Conforme já disse anteriormente, no meio de 1990, recebi várias propostas de trabalho, e algumas, simultaneamente. Eu estava envolvido com a banda Hard-Rock do guitarrista, Flávio Gutok ("Lynx"), e a "Pinha's Band", quando surgiu mais um convite interessante. Não foi exatamente para integrar uma banda, mas sim gravar o disco de um guitarrista que não era profissional, mas tocava bem, e oferecia uma infraestrutura interessante para fomentar seu projeto. O nome dele era Luiz Fernando, sendo conhecido por ter uma das melhores lojas de discos, na órbita da Galeria do Rock, em São Paulo.


Como quase todo dono de loja especializada, pelo menos naquela época, Luiz Fernando ostentava um conhecimento enciclopédico sobre a história do Rock. Apesar de ser bem sucedido com sua loja, acalentava um sonho pessoal em gravar um disco, mesmo assumidamente diletante, sem jamais cogitar mergulhar no mundo artístico a sério.



Ele estava associado ao baterista, Paulo Thomaz, ex-Centúrias, e naquela época a tocar na banda, "Firebox". Os ensaios ocorriam no estúdio do Paulo, localizado em sua residência, no bairro de Moema, zona sul de São Paulo. O plano seria ensaiar cerca de quinze músicas, e quando estivessem prontas, colocar-nos em um estúdio, e após o lançamento físico do LP ou mesmo já em formato de CD, fazer um eventual show, com possibilidade para outros, porém, a contratar-nos como músicos de apoio, ou a usar o termo em inglês que é usado no meio, "side man". O nome de tal investida de sua parte, foi : "Projeto Rock'n' Roll". O trabalho consistia em diversos Rocks quadrados, com estrutura básica cinquentista; alguns blues e baladas; além de algumas canções mais pesadas, sob cunho Hard-Rock, setentistas. Eram boas as composições e ele tocava bem, a harmonizar e fazer bons solos. Lembro-me que ele possuía algumas guitarras, e a que destacava-se, era uma Gibson Les Paul, de cor branca, que eu nunca tinha visto ninguém usar pessoalmente, e só lembrava-me por ver através de fotos e vídeos, nas mãos do Mick Ronson, guitarrista do David Bowie, no auge da sua fase glitter.






O grande Mick Ronson e a sua clássica Gibson Les Paul, branca

Aliás, o próprio Luiz Fernando foi logo a dizer-me quando viu-me com os olhos arregalados ao mirar aquela guitarra linda : -"igual a do Ronson... comprei em Nova York"...


Em princípio, o plano seria gravar em formação de Power-Trio, mas ao longo dos ensaios, o Luiz tratou de mencionar a possibilidade em agregar outros convidados etc e tal. Nessa fase, eu havia ingressado em uma agenda frenética, ao pular de um ensaio a outro e devo reconhecer que o Luiz foi muito gentil, muitas vezes ao ceder-me caronas, visto que eu só compraria o meu primeiro carro particular em 1991, e a utilizar condução, era uma dureza cumprir horários com as três bandas.








Bem, foi uma fase bastante desgastante, mas eu estava consciente disso, porque aceitei esse acúmulo, justamente por não estar comprometido oficialmente com ninguém. Eticamente a analisar, todos sabiam da existência uns dos outros, e que eu estava a colocar-me à disposição dos três trabalhos. Fora essa questão, havia as aulas, minha principal fonte de renda à época.



Portanto, foi uma etapa onde consegui manter-me esbelto, pois a correria foi grande, a carregar instrumento para lá e para cá... 


Quanto aos locais : 


1) Os ensaios da banda de Flávio Gutok e Juary (Lynx), costumavam ser na Vila Pompeia, próximo à Praça Tupã, no estúdio de um guitarrista uruguaio chamado, Jorge ( "Rór-re", na pronúncia dele...). 


2) Os da Pinha's Band, aconteciam no estúdio, Coda, na Av. Brigadeiro Luiz Antonio, no bairro Jardim Paulista, próximo ao Parque do Ibirapuera. O estúdio era de propriedade do baterista, Paolo Girardello. 


3) E os ensaios do Projeto Rock'n'Roll, do guitarrista / lojista Luiz Fernando, ocorriam no estúdio particular do baterista, Paulo Thomaz, em sua enorme residência no bairro de Moema, zona sul de São Paulo, e que hoje em dia foi bastante melhorado.


De fato, foi uma fase sob intensa correria, mas eu consegui ensaiar com os três, e tocar minha rotina de aulas.



Não durou muito tempo essa jornada tríplice de ensaios, no entanto, pois eu deixaria o projeto do guitarrista, Flavio Gutok (Lynx), e assim, a ficar só com a Pinha's Band, e o Projeto Rock'n'Roll, do guitarrista, Luiz Fernando. E a falar sobre o Projeto Rock'n Roll, eu admirava muito a força de vontade dele, Luiz Fernando. Sua história de vida merece um livro, e é um exemplo de obstinação, luta e trabalho incessante. Ao vencer uma infância e adolescência vivida com muitas dificuldades, conseguiu estruturar-se, estudou, abriu sua loja de discos e prosperou muito.



Seu amor ao Rock era (é) notável, e cada degrau galgado representou um sonho conquistado. Cada etapa, sempre a ver com o Rock, diretamente. Retrocedo um pouco no tempo, para contar que já conhecia-o um tempo antes de surgir o convite para o projeto.
Sua loja inicialmente era localizada em uma outra galeria próxima à Galeria do Rock, sendo vizinha do "Cavern Club", um fã clube dos Beatles, na Rua Nova Barão, centro velho de São Paulo.



Houve época que essa rua só para pedestres, a "Nova Barão", próxima à Praça da República, em São Paulo, era forrada por lojas de discos especializados em Rock (e não confunda com a "Galeria do Rock", que aliás é muito maior e fica bem perto, também), e ali conheci a loja do Luiz Fernando, ao final dos anos oitenta

Na loja dele, comprei muitos CD's, e encomendei diversas gravações de shows de Rock, em Fita VHS, visto que ele tinha um acervo gigantesco com shows; documentários; filmes, e promos de uma infinidade de bandas e artistas do Rock internacional. Uma vez, inclusive, ao chegar à loja, fui apresentado por ele aos guitarristas do Barão Vermelho na época, Roberto Frejat e Fernando Magalhães, que estavam ali a buscar uma encomenda. 


Já eram clientes antigos e estavam ali a apanhar discos piratas dos Rolling Stones. Quando eu vi a quantidade, fiquei boquiaberto. Tratou-se de uma pilha enorme ! O Luiz até brincou ao dizer : -"você acha que eles gostam dos Stones" ? Todos caímos na risada...
Apesar do Luiz Fernando ser um gentleman, e ajudar-me incondicionalmente com caronas (muitas vezes por buscar-me no outro ensaio, que não tinha nada a ver com o trabalho dele, e levar-me até a minha residência, ao término dos nossos ensaios), um fator, que fora de ordem estritamente ligado ao trabalho, incomodava-me, e passou a ser um fator decisivo para eu sair do projeto, algum tempo depois : os arranjos das músicas mudavam radicalmente, e se há uma coisa que eu detesto, é volubilidade. Como o trabalho era dele, e não fruto de um esforço em grupo, eu tinha uma óbvia tolerância mais elástica à essa característica, que julgo abominável.
Contudo, quando esse processo passou a ser uma constante, o trabalho certamente ficou muito prejudicado, pois trabalhávamos com um arranjo e quando a música começava a ficar firme, e portanto próxima da condição de ser gravada em estúdio, ele propunha no ensaio subsequente, mudanças radicais, praticamente a jogar todo o trabalho fora, com a intenção de começar-se tudo da estaca zero. Imagine isso multiplicado por 15, talvez 20 músicas, não lembro-me ao certo, e daí dá para imaginar o processo de irritabilidade que tal medida gerava para os músicos que estavam ali envolvidos.
E não havia como estressar-se com ele, pois em primeiro lugar, ele era o dono do trabalho, e portanto tinha o direito de dar a palavra final sobre os arranjos das suas composições, e em segundo lugar, ele era tão educado e gentil, que não havia como irritar-se com ele. Mas claro, esse processo tratou de arruinar a minha participação no trabalho, e depois que eu saí, e soube que o disco só ficou pronto em 1994, ou seja, quatro anos depois, pude entender o por quê dessa demora.
Mas antes que eu comunicasse a minha saída oficial do trabalho, ainda ocorreu um episódio que gerou uma história, que hoje em dia acho engraçada, mas na época, aborreceu-me pela infame e gratuita ação da soberba alheia. Não foi culpa do Luiz Fernando, de forma alguma, mas eis que fui vítima de uma espécie de "bullying" musical, dentro de um estúdio de gravação...






Quando chegou o final do ano de 1990, o Luiz Fernando quis gravar uma demo tape para ver como estavam as músicas, já em ritmo de pré-produção. Nesse caso, seria uma demo ao vivo, sem maiores requintes, com a banda a gravar ao vivo, e sem grandes elucubrações sobre a timbragem de cada instrumento. O estúdio escolhido foi o "Quorum", pertencente aos irmãos Molina (Jacques e Jeff), em sociedade com o baixista, Ney Haddad, futuros  membros do "Neanderthal", banda com a qual eu conviveria bastante, porque estaríamos juntos na coletânea, "A Vez do Brasil", que o Pitbulls on Crack também participaria (do final de 1993, em diante). Essa história inclusive, está devidamente contada no capítulo daquela banda, Pitbulls on Crack). 


A sala da técnica do estúdio Quorum, localizado no bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo em algum momento dos anos noventa
 
Essa sessão de gravação ocorreu bem ao final de 1990, e o que aconteceu foi o seguinte : o Luiz queria gravar o máximo de músicas, e como a constante mudança de arranjos não permitia que o trabalho avançasse mais velozmente, recorreu à presença do baixista que fazia parte do trabalho, antes de minha entrada no projeto, para gravar músicas que eu nem conhecia. Sendo assim, no meu caso, não houve problema algum em dividir a gravação com outro músico, e pelo contrário, aliviaria o trabalho, ao torná-lo mais eficaz. 



O problema, foi que esse músico chegou ao estúdio com uma postura agressiva, muito deselegante e deliberadamente a hostilizar-me, de uma forma absolutamente gratuita ! Vou omitir o nome dele, para evitar exposição e constrangimento, e nomeá-lo apenas pela inicial de seu apelido, a letra "G". O tal "G" não era um músico profissional. Não lembro-me ao certo a sua profissão, mas sei que não vivia de música.



Logo de imediato, notei que desdenhou de minha pessoa, por ironizar-me quando fomos apresentados. Ao olhar-me com ar de superioridade, falou algo do tipo : -"então você é o "famoso Tigueis" (claro ao referir-se ao apelido pelo qual chamavam-me à época). Depois, passou a alfinetar-me, a dizer que seu baixo era "moderno" e muito superior ao meu velho, Fender Jazz Bass. 


Percebi que não era brincadeira, pois não parava de debochar do meu instrumento, que julgava "ultrapassado". 



Achei aquilo tão ridículo, que não tive forças para contra-argumentar. Ele com aquele instrumento de brinquedo; captação ativa, e aquele timbre de plástico, a falar mal de meu Fender Jazz Bass, ano 1974, foi no mínimo, bizarro. Se entendesse minimamente de música, saberia o significado técnico do que representa um instrumento vintage, e com tal atitude, só denunciara a sua ignorância.


Se acreditava em suas afirmações estapafúrdias, era realmente um idiota. Se forçava aquela situação para desestabilizar-me, era também um idiota, enfim. Depois, continuou a noite inteira a alfinetar-me, ao enaltecer a sua performance nas músicas em que gravou, e na contrapartida, apontar erros nas canções em que eu toquei.

Fora a soberba com a qual colocava-se, ao dizer que só não tocava profissionalmente, porque era tão bem sucedido na sua profissão, que tocava diletantemente, a despeito de "caras" que só faziam isso na vida, e eram muito piores do que ele, como músico. Enfim, depois o Paulão Thomaz disse-me que ele sempre foi arrogante, e chato nos ensaios, e um outro amigo meu que conhecia-o, igualmente, quando eu contei-lhe essa história, disse-me que eu deveria tê-lo mandado "àquele lugar", pois era mesmo um tremendo babaca. Conclusão : foi mesmo um bullying gratuito, fora de propósito...


Passada essa gravação, que ocorreu nos últimos dias de 1990 (28 de dezembro), eu comuniquei a minha desistência em participar mais do projeto, para o Luiz Fernando. De fato, não estava a enxergar evolução no trabalho, portanto, estava cansado de esforçar-me para ir aos ensaios, e o trabalho dar um passo adiante, e três para trás, a cada mudança de arranjo proposta. Tudo foi feito com bastante educação, claro, e continuei sendo cliente da loja dele, onde encomendei muitos CD's e fitas VHS com shows, depois disso. Muitos anos depois, ele enviou-me uma cópia do disco pronto. Fiquei contente por saber que finalmente havia-o lançado, e admirei-o pela persistência, e vitória pessoal, claro. Depois disso, muitos anos depois ele filmou um show da Patrulha do Espaço, em 2003, no Centro Cultural São Paulo, e creio ter sido a última vez em que conversamos.



Meu próximo trabalho avulso, foi uma experiência gratificante, embora eu não tivesse conhecimento técnico de estúdio o suficiente para propor-me a ser "produtor" de um outro artista, todavia, creio que pude ajudar um pouco na gravação de uma fita demo, produzida por uma banda de um ex-aluno meu, cujo trabalho era muito bonito e pasmem, centrado no Rock Progressivo setentista, em pleno momento hostil para tal estética, entre os anos 1980 e 1990.

Continua... 

Nenhum comentário:

Postar um comentário