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domingo, 1 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 1 - Tato Fischer / Meu Primeiro Trabalho Fora de uma Banda Autoral - Por Luiz Domingues





Começo uma nova etapa da minha autobiografia, publicando as histórias de trabalhos avulsos que realizei na música. Atuando como “side man” ou participando de projetos de bandas que não deram certo, realizei diversos trabalhos paralelos às bandas onde atuei de forma oficial e mais contundente.



Como já está claro no início da narrativa, no capítulo "Boca do Céu", meu início de fato na música, com instrumento, mesmo não sabendo tocar nada, foi em 1976, na formação dessa primeira banda, que teve vários nomes e definindo-se como "Boca do Céu", em março de 1977. Fui seguindo firme com essa banda, aprendendo a tocar a duras penas e só lá pela metade de 1979, quando a banda estava diluindo-se, aceitei fazer o meu primeiro trabalho paralelo. 

Para explicar, preciso recuar um pouco no tempo. Logo que mudei-me para o Tatuapé, bairro da zona leste de São Paulo, no início de 1977, acabei ficando amigo de uma série de amigos de meus primos que já moravam lá, há bastante tempo. Eram freaks em sua maioria e muitos deles músicos, e por serem mais velhos, tocavam num nível técnico melhor que o meu ou o da minha banda na ocasião. Fiz amizade com vários e logo tornaram-se companhia em shows de Rock e realizando intercâmbio de discos e livros. Entre eles, tornei-me muito amigo de um rapaz chamado Alcides Trindade, vulgo Cidão, que era baterista e tinha uma bela coleção de vinis. Ele tocava num nível mais alto, pois eu engatinhava ainda na música nessa ocasião. Sua banda desmanchou-se ainda em 1977 (cujo baixista era Eduardo Viscome, um amigo que tenho até os dias atuais), mas logo no início de 1978, conheceu uma garota que era atriz e ele acabou entrando num grupo teatral, participando como músico e com pequenas intervenções como ator, visto que não tinha essa técnica paralela, formalmente falando. Lá por maio de 1978, fui assistir a montagem de "Mais Quero um Asno que me Carregue, do que Cavalo que me Derrube". Na verdade, o nome certo dessa peça é "Auto de Inês Pereira" e foi escrito pelo dramaturgo português Gil Vicente, no século XVI. O grupo teatral chamava-se "Vereda", e era liderado pelo diretor / ator / pianista, Tato Fischer.
Assisti tal montagem desse espetáculo no teatro João Caetano e fiquei impressionado com a desenvoltura do Cidão Trindade, tocando e atuando. Visto hoje em dia com a experiência que tenho, não era nada demais, mas naquela época, enquanto não tinha noção real das proporções no mundo artístico em geral, achei extraordinário. Como o Cidão (aliás, orientado pelo Tato, ele trocou o apelido aumentativo e prosaico pelo nome artístico "Cido Trindade", doravante), enturmou-se bem com o grupo teatral Vereda, e prosseguiu em cartaz com aquele espetáculo que descrevi no parágrafo anterior.

Mas o Tato tinha em mente montar um show para avançar na sua carreira musical. Como ele era cantor; pianista, e compositor, começou a ensaiar seu show com o mesmo time de músicos que faziam a parte musical da peça, Cido incluso na bateria e incorporou um tecladista, para que ele pudesse ficar livre no palco, apenas cantando e interpretando as canções. Por volta de outubro de 1979, o Cido procurou-me e queria saber se eu aceitaria entrar nesse grupo de apoio, pois haviam feito alguns shows e não estavam contentes com o baixista que estava na banda. Mas fez uma ressalva : eu teria que fazer um teste. Não ofendi-me, pois sabia que ele tinha desconfiança sobre o meu nível técnico e antes de indicar-me, queria estar seguro para não sofrer nenhum constrangimento, caso eu não correspondesse.
Marcou comigo portanto um teste na casa dele, num dia de semana a tarde. Chegando lá, tocamos por meia-hora aproximadamente. Puxou vários ritmos, com andamentos diferentes, viradas e dinâmicas, examinando minhas possibilidades musicais. Fui tocando, sem demonstrar insegurança e dando o melhor de meu desempenho, no que eu podia fornecer naquela altura. Ao final, mostrando-se até surpreso, elogiou-me, dizendo que eu havia evoluído muito e que por ele, estava na banda, faltando comunicar ao Tato. 
Fiquei muito eufórico, pois o Cido conhecera-me como um aspirante a músico, terrivelmente ruim em 1977. Em 1978, sob título de ajuda fraternal, ele tocou num show do "Bourréebach" (o "Boca do Céu" com novo nome), e foi um desastre (não por culpa da banda em si, conforme já contei em capítulo daquela banda em específico). Mas a má impressão foi inevitável. Aprovado pelo Tato, comecei a ensaiar, indo à casa dele tirar as músicas de forma intensiva, só com ele ao piano e ensaios com Sérgio Henriques (tecladista), e Cido Trindade, em paralelo.
A cidade de Cubatão, ao pé da Serra do Mar, muito perto de Santos

O último show com o baixista antigo, seria realizado em 28 de outubro de 1979, na cidade de Cubatão, litoral do estado de São Paulo. Nesse show, realizado numa concha acústica ao ar livre na cidade de Cubatão, litoral de São Paulo, eu acabei tocando também. Numa Era pré "vans", o transporte típico desse tipo de produção, era a valorosa Kombi. E assim descemos a serra no início da tarde, chegando rapidamente à cidade de Cubatão. 
Naquela época e ainda por um bom tempo no futuro, Cubatão ostentava o vergonhoso título de cidade mais poluída do Brasil, por conta da presença das refinarias da Petrobrás, Cosipa e outras indústrias poluidoras. De fato, o ar era pesado e a fuligem formava uma névoa acinzentada, praticamente. Fizemos um breve lanche num bar e dirigimo-nos então à Concha Acústica onde seria realizado o show.

Na verdade, eu já sabia todas as músicas, mas era a despedida do baixista Jonas Marins e como o show era dividido em duas partes, com um intervalo de dez minutos aproximadamente, havia um descanso. O convite surgiu naturalmente para tocar em Cubatão. O Tato queria que eu entrosasse-me com a banda e naturalmente queria testar-me antes da temporada em teatros iniciar-se.
Sim, o baixista Jonas Marins sabia que eu tocaria no intervalo e que aquele era o seu último show. A saída dele era amigável e a minha participação nesse show de Cubatão foi encarada por ele, com muita naturalidade. A expectativa de minha parte era ótima. Eu vinha de uma rotina de shows amadorísticos, seja com o Boca do Céu, seja com o embrião do que tornar-se-ia o Língua de Trapo. Estava acostumado a tocar em condições precárias, a não ser em festivais sazonais e de estrutura melhor. Agora, a perspectiva era de tocar em temporadas em teatro, com P.A; iluminação; soundcheck exclusivo, divulgação... parecia um sonho...
Emerson; Lake & Palmer na primeira foto e Genesis, na segunda, dois baluartes do Rock Progressivo britânico e setentista 

Um esboço de música instrumental surgiu nesse improviso que fizemos no intervalo do show de Cubatão. Depois, no decorrer da turnê pelos Teatros, ela desenvolveu-se e foi arranjada definitivamente. O Sérgio Henriques tocava muito bem. Era muito bom pilotando piano acústico; Fender Rhodes, e órgão Farfisa nos shows do Tato. Sentia-me tocando no “Emerson; Lake & Palmer” com ele e Cido Trindade... (claro, pela minha animação e não pelo som que fazíamos). O Sérgio tinha uma formação em Prog-Rock, bem sólida. Falarei mais sobre ele neste capítulo e também bastante no do “Terra no Asfalto” (banda cover em que tocamos logo após a nossa saída da banda de apoio do Tato, e que tem capítulos exclusivos a seguir, naturalmente). Mas com a minha entrada, resolvemos criar uma música instrumental para que a banda pudesse ter um momento só nosso no show, enquanto o Tato trocava de roupa no camarim, visto que a entrada do segundo ato, era "triunfal", mas faço questão de contar isso posteriormente na narrativa. E nessa música que criamos, a inspiração era o Prog Rock. Ela recebeu o apelido carinhoso de "Genesis" porque lembrava vagamente o estilo dessa banda britânica e apreciávamos muito tocá-la.
Dessa forma, ao final do primeiro ato, o Tato chamou-me ao palco e nós tocamos esse tema, de total improviso, que foi muito aplaudido, apesar de não ser um público rocker, exatamente, aliás muito pelo contrário, tratava-se de uma massa bem popular. Por falar nisso, haviam cerca de seiscentas pessoas assistindo. Quebrado esse impacto inicial, sentia-me apto para tocar com segurança nos shows e os colegas igualmente estavam seguros comigo no baixo.
Eufórico, porque estava agendada uma série de shows em mini temporadas por teatros de bairro, pertencentes à prefeitura de São Paulo.
Nossa primeira mini temporada seria iniciada no dia 6 de novembro de 1979, no Teatro Martins Pena, no centro do bairro da Penha, zona leste de São Paulo. E finalmente chegou o dia da estreia. Tocaríamos cinco dias no Teatro Martins Pena. Esse teatro é o menor dos teatros municipais que a prefeitura de São Paulo possui, espalhados por vários bairros da cidade, mas muito aconchegante.
Fica localizado no centro do bairro, que mais parece uma cidade do interior com ruas estreitas e com o comércio mais contundente, deixando outros recantos do bairro para as áreas mais residenciais.
O Tato tinha prestígio no meio teatral, por isso, usando os seus contatos, tinha arrumado patrocínio para uma pequena divulgação. Nesse caso, tivemos cartazetes; filipetas (hoje em dia fala-se "flyers"...), e cartazes de rua, os chamados "Lambe-lambe". Foi a primeira vez que eu estive numa produção com uma divulgação assim. Na realidade, isso não representa nada demais, mas para eu que era um principiante na ocasião, ficava achando-me um vencedor por ver cartazes de rua, quando andava a pé ou de ônibus e saber que naquele show anunciado, eu fazia parte como baixista. Nada mau para quem três anos antes, sonhava ser artista, mas sem saber tocar uma nota musical sequer.
Filipeta anunciando a temporada de Tato Fischer & Banda no Teatro Martins Penna, entre 6 e 11 de novembro de 1979. Nota-se o "aportuguesamento" do termo inglês, "Show", reescrito como "Chou", que gerou estranheza até na imprensa 

O primeiro show realizou-se no dia 6 de novembro de 1979, uma quarta-feira. Teve treze pagantes e o Tato ficou visivelmente irritado. No meio teatral, estava acostumado a lotar teatros, mas na música, era desconhecido praticamente, embora esse fosse o seu maior sonho pessoal. O repertório era mesclado por canções dele, algumas de seu irmão, Iso Fischer e alguns números de compositores famosos da MPB e até do Rock (lembro-me de "While My Guitar Gently Weeps", dos Beatles). Ele cantava bem, sem dúvida, tanto que é professor de técnica vocal até hoje e dominava o palco por ter experiência como ator e diretor, mas exagerava nas performances. Mais para frente, contarei sobre esses exageros, visual incluso, e reações do público, perante isso. No press-release, o Tato fez questão de grafar a palavra "show", de forma aportuguesada, mudando-a para "Chou", conforme também apareceu nas filipetas e nos cartazes lambe-lambe. Portanto gerando uma estranheza, para o bem e para o mal nas interpretações geradas a partir dessa atitude.
Nota na Folha de São Paulo, falando dos shows de Tato Fischer no Teatro Martins Penna em novembro de 1979 e realçando o neologismo "Chou", que chamara a atenção.

Então, a estreia foi no dia 6 de novembro de 1979, com exatos treze pagantes na plateia. No dia seguinte, 7 de novembro de 1979, uma quarta, dezesseis pagantes. Lembro-me que no segundo dia, o Tato indignado com o público da noite anterior, foi filipetar na biblioteca anexa ao Teatro, e ali eu aprendi uma lição importante. Isso porque ele pediu-me ajuda para entregar filipetas e quando estávamos no seu saguão, a bibliotecária chefe perguntou-nos como havia sido a noite anterior e eu respondi ingenuamente que havia sido "fraca". O Tato ficou bravo comigo e deu-me uma dura advertência depois, dizendo que eu jamais deveria falar a verdade numa questão assim. -"para o artista, sempre foi maravilhoso... aprenda isso".
                 Os irmãos Fischer : Iso (esquerda) e tato (direita)

No terceiro dia, quinta, 8 de novembro de 1979, vinte e três pessoas pagaram ingresso. Aí na sexta-feira, dia 9 de novembro de 1979, ficamos animados por ver formar-se uma fila na bilheteria. Foram oitenta e nove pagantes e muito maior entusiasmo, com aplausos e assovios. No sábado, dia 10 de novembro de 1979, quando pensamos que iria chegar ao clímax, apenas cinquenta e cinco pagantes. E no domingo, dia 11 de novembro de 1979, dezessete pessoas pagaram ingressos. O show tinha uma musicalidade legal. As canções eram boas e o Tato tinha uma ótima voz e com técnica, visto ser professor de canto, entre outras atividades. Mas seus trejeitos cênicos eram exagerados em alguns momentos. Não foi uma ou duas, mas várias vezes, flagrei pessoas rindo em determinadas partes onde ocorriam tais excessos. Por exemplo, de última hora, às vésperas da estreia, resolveu acrescentar uma música do Gilberto Gil, chamada "Super-Homem, a Canção". Nesse número dava uma exagerada por motivos óbvios. Outro ponto era logo na terceira música, onde simulava um strip-tease. Nós três da banda, achávamos exagerado, mas o show era dele, o que poderíamos fazer ?

E continuando a falar dos shows no Teatro Martins Pena, o ápice do excesso do Tato dava-se na entrada do segundo ato. Enquanto ficávamos no palco tocando nosso tema instrumental de inspiração Prog, ele ia ao camarim produzir-se, promovendo a mudança do visual para a primeira música do segundo ato do show. E então, quando acabávamos o nosso tema, o Cido Trindade dava início a uma chamada na caixa da bateria, produzindo uma batida de frevo. Essa era a deixa para começarmos a tocar e num ritmo carnavalesco, eis que o Tato rompia por uma armação de papelão que simulava uma porta, rasgando literalmente o papelão e entrando cantando, vestido de Carmen Miranda...
                       A "pequena notável", Carmen Miranda 

O Sérgio Henriques e a Celina, sua esposa, chegaram a falar delicadamente para ele modificar essa entrada, pois tirava a seriedade do show, visto que as pessoas achavam graça nem tanto da fantasia e dos trejeitos, mas da entrada por uma armação de ripas de madeira. Uma coisa é você rasgar um cenário entrando triunfalmente na Broadway, mas outra era aquela portinha cênica pequena e mal produzida. Mas teimoso e diretor de seu próprio show, não deu ouvidos aos dois e continuou aquilo todo dia, provocando risadas do público. Infelizmente, pois detalhes assim depunham contra o seu espetáculo que era musicalmente bom. Se ao menos tivesse uma produção mais abonada, onde pudesse ter efeitos cênicos bem produzidos, seria diferente, mas nessa circunstância, sem recursos, teria sido melhor apenas cantar, interpretar e fazer mise-en-scené, visto que era / é ótimo cantor e intérprete.

No show do sábado, ele recebeu a visita de amigos do teatro. Finalmente alguém conhecido foi prestigiá-lo. Em off ele contou-nos que estava chateado com muitos amigos do meio teatral que haviam prometido prestigiar o espetáculo, mas simplesmente não apareceram. Hoje eu entendo-o perfeitamente nesse aspecto, pois é realmente duro constatar que na hora crucial, os amigos somem, contrastando com o fato de que tendem a aborrecer-te em épocas onde você está sem perspectivas, cobrando shows, mas quando os convidamos enfim para um espetáculo que vamos realizar, eles simplesmente não aparecem. E hoje em dia, com as redes sociais, é muito comum ver pessoas lamentando o fato de terem perdido o show do “último sábado”, sendo que estavam amplamente avisadas e fazem parte daquele grupo que há meses cobrava-lhes uma apresentação...
A atriz Rosi Campos, hoje famosa por suas boas atuações na TV, notadamente novelas da Rede Globo de Televisão 

O pessoal de teatro que visitou o show do Tato no sábado, não era famoso na época. Da turma do seu grupo, Vereda, lembro-me de ver posteriormente só a namorada do Cido Trindade ascender na carreira, Silvana, que fez algumas novelas na TV Bandeirantes na década de oitenta e Rosi Campos, que demorou, mas solidificou carreira no teatro; cinema, e na TV Globo, onde já fez várias novelas com papéis de destaque. Aliás, lembro-me que a Rosi dividia apartamento com o Tato e como marcávamos ensaios às dez da manhã, sempre a acordávamos, infelizmente.
Uma vez, até brigou com o Tato, por que chegara em casa quase amanhecendo e acordar com música alta foi bastante incômodo, naturalmente. Lembro-me dela saindo do quarto com a face toda amassada, despenteada e furiosa. Quando vejo-a nas novelas da TV, sempre lembro-me dessa cena e fico contente por ver que ela alcançou seu objetivo de vida.

A segunda semana de datas da mini temporada do show "Começando Tudo Outra Vez" iniciou-se no Teatro Paulo Eiró. Esse teatro fica em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo e é bem maior que o Martins Pena. Sentíamo-nos muito seguros, pois já vínhamos de seis shows seguidos no Teatro Martins Pena e esperançosos de termos um público ainda melhor nesse outro teatro.
 
Contudo, apesar do teatro mais estruturado, desta vez a semana foi um fiasco de público. Logo no primeiro dia, 14 de novembro de 1979, uma quarta-feira, tivemos fortes emoções. Primeiro na passagem de som, o Tato estava muito nervoso e por um motivo fútil qualquer, discutiu com o Cido Trindade. Essa discussão só não evoluiu para algo mais sério, porque o iluminador Gil Carlos Teixeira (aliás, um excelente profissional que costumava iluminar as peças teatrais do Tato), veio avisar-nos que uma equipe de reportagem de TV havia chegado. Eu e o Cido entreolhamo-nos e comemoramos. Apesar de todas as dificuldades, o Tato tinha seu prestígio teatral e despertava interesse midiático espontâneo. A reportagem filmou-nos tocando um pouco e entrevistou o Tato. Não vimos, pois foi ao ar no noticiário da TV Bandeirantes no mesmo dia, e não havia monitor de TV no teatro para assistirmos. Depois que a equipe de reportagem retirou-se, retomamos o soundcheck e aí a discussão entre Tato e Cido recomeçou e esquentou de vez. Tendo uma crise nervosa, o Tato trancou-se no camarim e chegou a arremessar alguns objetos nas paredes. Quando estava quase na hora do show começar, ele deu uma ordem ao bilheteiro : "devolva o dinheiro dos ingressos, pois o show de hoje está cancelado !"
No mesmo instante, fui avisado que um casal queria falar comigo. Eram meus padrinhos / tios que foram ver-me tocar... falei com eles, pedi desculpas dizendo que o cantor estava mal de saúde. E o bilheteiro disse-me que havia devolvido todos os ingressos... num total de dois ! Meus tios / padrinhos... passei vergonha pois queria muito firmar-me como músico perante à minha família e logo nesse dia, esse fiasco vergonhoso...
Sinceramente não lembro-me do real motivo da discussão entre o Tato e o Cido Trindade. Minha memória recua apenas ao ponto de dizer que era certamente um motivo fútil. O Tato devia ter suas expectativas, claro, e é duro contentar-se com as migalhas do underground quando chegou-se tão perto do estrelato no mainstream, em se considerando que ele foi um "quase" Secos e Molhados. Foi preferível não ter acontecido o show, pois corria o risco de passar uma péssima impressão aos meus padrinhos nesse momento, tocando num teatro enorme, com apenas dois pagantes : eles mesmos...
E com certeza deporia contra a minha tentativa desesperada de autoafirmar-me como artista perante a família. Os shows do Teatro Paulo Eiró foram muito piores em termos de público. O do dia 14 de novembro de 1979, foi cancelado como já contei, mas os demais foram nesse ritmo desanimador. Dia 15 de novembro de 1979 : nove pagantes; dia 16 : vinte e cinco pagantes; dia 17 : dezessete pagantes e no dia 18 : quinze pagantes.
O Tato ficou muito chateado e claro, nós também do trio, pois nosso pagamento dependia da movimentação da bilheteria, e com esse resultado pífio, mal dava para as despesas mínimas de transporte e camarim. Mas ele percebendo a nossa insatisfação, tentou preservar nosso ânimo, falando-nos dos três shows que faríamos no interior, onde haveria uma estrutura melhor, pois se dois deles seriam por bilheteria, um estava vendido com cachet fechado e garantiria as despesas da viagem pagas e um razoável cachet para cada um, tornando os demais, uma opção de bônus, se fossem bons de público. Depois disso, aproximar-se-ia a época de festas de dezembro; janeiro e fevereiro sempre fracos para agendar datas e talvez em março, alguma coisa aparecesse. Definitivamente, isso não interessava a nenhum de nós três. O Sérgio Henriques já devia estar em negociação com a banda de Elis Regina, devido aos contatos de seu sogro, mas não contou-nos nada na época. Só soubemos que ele foi mesmo tocar com a Elis Regina, quando ensaiávamos com o Terra no Asfalto (banda cover que eu; Cido, Sérgio e mais três elementos, formamos assim que deixamos de acompanhar o Tato Fischer), no final de dezembro de 1979, conforme relato no capítulo dessa banda.
Mas eu e o Cido precisávamos ganhar dinheiro. Eu acumulava o Língua de Trapo nessa fase, mas nem era Língua ainda, mas sim um proto-Língua que só fazia pequenas apresentações amadorísticas ou pequenas participações em festivais. Sim, já havia um clima de insatisfação da banda em relação ao resultado financeiro pífio alcançado nas duas semanas em teatros paulistanos. Mas estávamos acertados com o Tato verbalmente e não o deixaríamos sem apoio para os três shows do interior. Todavia, havia a perspectiva de termos um cachet bom garantido em pelo menos um dos três shows marcados no interior. E como já disse também, esse trio não tinha perspectivas fora do trabalho com o Tato. Só no dia da reunião final com ele, Tato, é que o Sergio Henriques comunicou-nos o convite para unirmo-nos ao trio formado por Paulo Eugênio Lima; Geraldo “Gereba”, e Wilson Canalonga Jr., onde formaríamos o embrião do Terra no Asfalto. Fato que relatarei adiante e também no início do capítulo sobre tal banda, que nasceu dessa junção.
E é bom lembrar que nessa época, eu estava comprometido paralelamente com o proto-Língua de Trapo e o Sergio já tinha contatos adiantados para ir unir-se à Cesar Camargo Mariano na banda de Elis Regina. No fundo ele sabia que aqueles meses eram de espera e portanto, seguia tocando resignadamente com o Tato e posteriormente com o Terra no Asfalto.
Partimos então para os três shows no interior. Seriam dois shows na cidade de Penápolis e um em Araçatuba. Penápolis era a cidade natal do Tato e sua família tinha prestígio local. Não sei ao certo, mas parece que seu pai houvera sido prefeito e várias vezes vereador. Portanto, o show vendido seria no Clube Atlético Penapolense (no ano de 2011, venceu a 3ª divisão do campeonato paulista e disputou a 2ª divisão estadual em 2012).
Chegamos na cidade um dia antes e assim pudemos descansar da longa viagem (cerca de quatrocentos e oitenta km de São Paulo).
O primeiro show no entanto, foi no Teatro Municipal da cidade, no dia 23 de novembro de 1979. O Teatro Municipal de Penápolis era um casarão antigo, adaptado como teatro. Com um palco bem apertado, a performance do Tato ficou prejudicada, pois toda a sua movimentação ficou restrita. Mesmo assim, o show foi bom e a lotação foi total, com trezentos e cinquenta pessoas presentes. O equipamento usado foi cedido por uma banda de bailes local. Achávamos que seria um fiasco aquela noite, pois minutos antes do show começar, caiu uma chuva torrencial. Mas mesmo com a tempestade, o povo veio em peso e a renda, enfim, redundou num cachet legal. Enquanto o espetáculo transcorria no palco, ouvíamos o som de raios & trovões violentos, temendo inclusive por queda de energia, que não ocorreu, ainda bem.
O escudo do glorioso "CAP", Clube Atlético Penapolense, onde fizemos um dos shows na cidade de Penápolis 

No dia seguinte, teríamos o show no CAP. Esse show, sim, tinha cachet fixo, cobria toda a viagem e portanto rendia um bom dinheiro. Portanto, a féria boa da noite anterior fora um bônus.
A sede social do clube era bem grande e num palco imenso, usamos todo o equipamento da banda de bailes que apoiou a produção do Tato. Lembro do Sérgio esbaldar-se num Fender Rhodes 88, além de um órgão Farfisa; Arp-Strings, e Mini-Moog. Foi uma noite de Rick Wakeman para ele...
O tecladista britânico, Rick Wakeman, em foto do encarte de seu primeiro disco solo, lançado em 1973. Típico tecladista da seara do Rock Progressivo setentista, cercado de teclados e certamente um super músico, com sólida formação erudita

O Show foi frio no entanto, muito diferente da plateia calorosa do show no Teatro. O Tato disse-nos que já esperava a frieza, pois era a burguesia de cidade e eles costumavam ser blasé com qualquer show de artistas de pequeno e médio porte. Nessa noite, após o show, o Tato teve um pequeno entrevero familiar e isso refletir-se-ia no dia seguinte, quando viajaríamos para o terceiro show, em Araçatuba, alguns km adiante de Penápolis. Nesse show do CAP, havia cerca de seiscentas pessoas presentes. A maioria com atitude blasé em relação ao espetáculo, mas pelo menos no aspecto financeiro, fez a mini tour interiorana ter valido a pena.
Ficamos hospedados na casa da família do Tato. Fomos muito bem recebidos, com a típica hospitalidade interiorana, com direito a tradicional fartura a mesa. A questão do entrevero eu prefiro não detalhar, para não expor ninguém. Posso dizer apenas que foi uma questão familiar e nós da banda, ficamos alheios ao clima instaurado. Infelizmente, isso teria desdobramentos no dia seguinte, quando faríamos o último show, na cidade de Araçatuba. No dia seguinte, tínhamos que seguir para Araçatuba, mas o Tato não havia dormido na casa de sua família, por ter tido um conflito no camarim do CAP, na noite anterior.
Acordamos, almoçamos e aguardamos um pouco. O pai da Tato acabou localizando-o e foi buscá-lo. Visivelmente tenso, entrou no carro do seu pai e nós seguimos em outro. Um caminhão baú da banda de bailes que ofertou-nos suporte com equipamento nas noites anteriores, também seguiu em comboio conosco. Era efêmero esse momento, mas pela primeira vez na vida, senti-me em turnê, viajando com uma estrutura legal. Mas como já disse, nem dava para sonhar, pois era fugaz naquele instante. Chegamos em Araçatuba e infelizmente, quando estacionamos na porta do teatro, vimos o Tato sair do carro da frente abruptamente, e sair andando depressa, dobrando a esquina e sumindo de nossa visão. Naturalmente deve ter ido durante a viagem, discutindo com seus familiares e irritara-se. Eu; Cido e Sérgio, além da Celina, esposa do Sérgio, resignamo-nos, pois conhecíamos o temperamento dele e não preocupamo-nos, pois sabíamos que ele cumpriria o compromisso, apesar da explosão nervosa momentânea. Enquanto os roadies da banda de bailes que davam-nos suporte montavam o P.A. e o palco, eu aproveitei para visitar parentes que tenho naquela cidade. No horário combinado para a realização do soundcheck, saí da casa de meus tios e fui caminhando tranquilamente até o teatro, que era perto. O Tato apareceu em cima da hora e estava tenso. O show aconteceu, mas essa tensão, aliado ao som que não estava bom naquela noite, fez com que o show fosse frio, com pouca interação com o público.
Uma foto bem mais atual do Teatro Intec de Araçatuba, onde fizemos o último show da temporada, em novembro de 1979

No dia 25 de novembro de 1979, compareceram ao Teatro Intec (acho que era uma sigla, representando um sindicato de alguma categoria trabalhista), cerca de duzentas pessoas. Havia cadeiras vazias, pois não lotou o auditório. Dali, voltamos à Penápolis e pernoitamos na casa da família do Tato. Ele ficou na cidade para passar uns dias, mas a banda e Celina, voltaram na segunda-feira, após o almoço. Não era a minha banda autoral, não era o nosso equipamento... mas a sensação de viajar para tocar foi indescritível.
Não era a primeira viagem, tampouco. Eu já tinha ido com a banda para Cubatão, que foi uma viagem curta, sem equipamento e só para tocar um pouco. Mas claro que foi muito legal essa sensação de viajar para Araçatuba com essa estrutura, visto que para Penápolis, fomos de ônibus comercial e só com nossos instrumentos pessoais (na verdade, só o meu baixo e as peças de praxe da bateria do Cido Trindade, visto que o Sergio não tinha como levar seu piano elétrico, nem o órgão Farfisa).

A perspectiva após esse show era a de um hiato de shows, bem grande. O Tato só tinha alguma esperança para depois de março de  1980, e levando-se em conta que o bom cachet recebido no interior era uma exceção e não a regra, ficou inviável prosseguirmos. O Tato sabia de nossa insatisfação e vontade de deixar de acompanhá-lo e não tinha contra-argumentos, infelizmente para todo mundo. Dessa forma, marcamos uma reunião para o dia 10 de dezembro de 1979, uma segunda-feira. Por volta das dezenove horas fomos à casa dele e só formalizamos a nossa saída. Ele ficou um pouco tenso, mas não havia como segurar-nos mais, sem perspectivas de cachets, pois se os shows do interior renderam, os dos teatros na capital haviam sido deficitários. Saindo da casa do Tato, Sérgio Henriques conduziu-nos a um bar na mesma rua, onde estava o Paulo Eugênio Lima, vocalista de bandas cover com as quais já haviam trabalhado juntos, e este fez-nos a proposta de unirmo-nos a ele e dois guitarristas amigos dele, para tocarmos numa festa de final de ano numa empresa de engenharia.
O cachet oferecido era bom e o repertório que os engenheiros queriam era formado só por canções dos Beatles. Daqui em diante, esteja convidado a ler desde o início os capítulos sobre a banda "Terra no Asfalto", que nasceu nessa singela reunião, onde a narrativa prossegue, deste ponto.
                        Tato Fischer em foto bem mais atual

Voltando a falar do Tato, como não era o nosso trabalho, não houve um apego tão grande na hora da ruptura. Ele ficou inviável financeiramente e não tivemos como continuar apoiando-o.
Claro, pela pessoa bacana que o Tato era / é, e também pelo trabalho artístico dele que era muito bom, ficamos chateados, pois ele era correto conosco e deu-nos força, mas não tínhamos o que fazer mesmo por tais razões já mencionadas antes. Eu ainda tocaria com ele em 1980, mas sob circunstâncias diferentes, pois ele cruzaria o caminho do Terra no Asfalto, como músico convidado, tocando piano e cantando. Nos capítulos sobre essa banda, contarei tudo.
Aqui, está encerrado o capítulo sobre meu trabalho na banda de apoio ao Tato Fischer. Deixo aqui, o link do site do Tato Fischer, para quem quiser conhecer seu trabalho como cantor; compositor; pianista; ator; diretor de teatro; professor de canto, e ilusionista :

www.tatofischer.com.br/
 
Daqui em diante, siga lendo mais histórias de meus trabalhos avulsos na música. O próximo capítulo fala sobre a tensão familiar que tive nessa época, entre o fim de 1979 e início de 1980, obrigando-me a fazer mais trabalhos avulsos em paralelo aos esforços para atuar em trabalhos autorais 

Continua...   

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