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domingo, 1 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 4 - Zuraio, o Imitador de Cantoras - Por Luiz Domingues


Bem, se acharam a história da Cínthia engraçada, apertem os cintos na cadeira, porque a que contarei a seguir é muito melhor...                                 


O grande Lizoel Costa, hoje saudoso e que certamente faz-nos falta 



Logo que conheci o guitarrista Lizoel Costa na Faculdade Cásper Líbero, nos últimos meses de 1979, ele falou-me que fazia diversos trabalhos musicais para sobreviver e perguntou-me se eu aceitaria fazer também, se ele precisasse de um baixista. Vivendo uma difícil fase familiar, com meu pai pressionando-me a largar a música e tomar um rumo tradicional na vida, eu disse-lhe que sim, estava disposto a aceitar tais trabalhos. Ele alertou-me sobre a possibilidade desses trabalhos serem exóticos e / ou até desagradáveis. Poderia ser acompanhar cantores bregas; tocar em espetáculos circenses; bailes; enfim, qualquer coisa. Nesse momento, eu estava com o Terra no Asfalto começando a rachar (essa conversa com o Lizoel aconteceu mais ou menos em março de 1980), e o pré-Língua recebendo oportunidades (mas ainda longe de firmar-se e gerar sustentabilidade), dessa maneira, aceitei de pronto a oferta, e fiquei esperando um chamado dele para qualquer coisa que aparecesse. Foi então que ele convidou-me para fazer parte de uma banda, um trio de fato, que tocaria acompanhando um cantor (na verdade, um imitador / humorista), durante uma série de shows a serem realizados durante um desfile de moda. Claro que aceitei, ainda mais sabendo que seriam shows matutinos e num ambiente "clean", com gente bonita, educação etc, visto que ele havia assustado-me com aquela história de "shows exóticos" !!
Mas se por um lado, essa série de shows renderia um cachet fixo (e bom), e de fato seriam realizados num ambiente de bom nível, o exotismo ficaria por conta do cantor que acompanharíamos...
O nome do sujeito era "Zuraio" e ele era um...travesti...
O show do figura chamava-se "Desabafo" e consistia de uma série de imitações de cantoras da MPB. Ele usava um biombo no próprio palco e enquanto tocávamos, trocava de roupas e perucas, transformando-se em Elis Regina; Maria Bethânia; Gal Costa, Alcione etc...
Foram seis shows, realizados entre 20 e 30 de maio de 1980. Era assim que funcionava: o desfile começava, havia um intervalo. Depois fazíamos o show e o desfile prosseguia a seguir.
Foi realizado no espaço / atelier de uma confecção chamada "Chavon Modas", localizada na Av. Gabriel Monteiro da Silva, no bairro elegante dos Jardins, zona sul de São Paulo. Evidentemente que o público presente era de socialites e aspirantes a.
O Zuraio usava a passarela como seu palco, por onde movimentava-se e a banda ficava alojada num fosso, bem no meio da passarela, onde durante os desfiles, os fotógrafos trabalhavam. Adorei isso, pois ficar escondido ali era a melhor coisa que poderia acontecer para os músicos, por motivos óbvios. Mas mesmo assim, o Zuraio inventou de nós sermos apresentados individualmente, vindo andando pela passarela...
E na base da palhaçada, ele vinha falando uma série de piadas “escrachadas” que poucos achavam graça, pois ele era popularesco demais para o ambiente fino do atelier. Lembro-me que ele apresentava o Lizoel como "Hermeto Paschoal"; o baterista, sinceramente esqueci-me e eu, por estar com cabelos pela cintura naquela época, ele chamava de "Alceu Valença"...
O bom dessa palhaçada era que acabava logo e corríamos para o fosso...
Não houve ensaios. O Lizoel forneceu-me anotações de harmonias das músicas e fomos assim, nas coxas, na raça e sinceramente, não faria diferença, pois o que importava ali eram as imitações do Zuraio. E assim, ele imitava Elis Regina; Gal Costa; Maria Bethânia; Alcione; Clementina de Jesus; Zizi Possi etc. As músicas não eram tocadas inteiras, mas sim no formato de um pout-pourri (pequenos trechos de várias músicas emendadas), de cada cantora. Enquanto ele trocava de roupas e perucas, fazíamos um som improvisado, puxado pelo Lizoel, que já acompanhava o Zuraio desde 1978 ou 1979, não sei ao certo. O baterista era um sujeito crente, que tocava numa banda evangélica. Chamava-se Jeribal, e não sei o que passava na sua cabeça por estar ali, mas certamente precisava muito do dinheiro...
O Zuraio não parava de falar entre as músicas, emendando piadas sujas...mas usando a voz das cantoras e emendando às vezes, vozes masculinas, por exemplo a do Chacrinha anunciando a "próxima atração". Devo admitir, ele não deixava a sua apresentação no vácuo nem enquanto vestia-se, pois não parava, como se estivesse numa incorporação mediúnica e isso, é claro, denotava uma verve para o “timing” teatral do humor, devo reconhecer.
Mesmo sendo uma apresentação grotesca para o tipo de evento em que estávamos e mais puxada para o humor do “povão”, ele realmente imitava bem as cantoras, mudando bastante a sua voz e trazendo registros vocais semelhantes aos delas, o que tornava a sua performance engraçada.
Nicolle Puzzi e John Herbert, duas personalidades que assistiram essa performance na qual participei na banda de apoio

Nos bastidores, víamos as modelos, garotas realmente muito bonitas. E várias pessoas famosas circulando e aproveitando o cocktail. Fomos instruídos a ficarmos expostos o menos possível, para não causar constrangimentos aos convidados. Mesmo porque os homens usavam Black Tie e as mulheres, jovens ou não, estavam trajadas elegantemente num ambiente bastante esnobe, e dessa forma, destoávamos, causando mal estar social ali. Lembro-me de ver ali circulando os atores, John Herbert; Mário Benvenutti, e Nicolle Puzzi; a jornalista Marília Gabriela e o empresário da noite e dono da boite "Gallery", José Victor Oliva.
No convívio extra-espetáculo, o Zuraio era engraçado. Na verdade, ele era um humorista em potencial e anos depois eu vi-o fazendo parte do elenco de programas humorísticos da TV, como "A Praça é Nossa" e correlatos desse gênero de humor popularesco. Uma vez ficou contando-nos que nos anos setenta, fazia shows de transformismo no Rio de Janeiro (ele era mineiro, mas morou muito tempo no Rio), e que ele e outros travestis saíam da boite e iam para o Maracanã direto, sem tirar maquiagem e perucas para assistir os jogos do Flamengo...
Ainda falando sobre as histórias engraçadas de bastidores dessa micro / temporada nesse desfile de moda, outro dia, o Lizoel, que adorava provocá-lo, fez-lhe uma pergunta : -"Zuraio, e se alguém chama-lhe de bicha na rua, você reage" ?
O Zuraio ficou exaltado e respondeu : -"eu brigo, porque não sou bicha, eu sou veado"...
Mas a pior aconteceu uma vez, quando ele chegou com semblante de choro e o Lizoel perguntou-lhe o que significava aquilo, ao que o Zuraio respondeu-lhe : -"estou muito triste hoje, pois descobri que não posso ter um filho..."
O Lizoel, apesar de conhecer as suas palhaçadas, desta vez caiu na armadilha do gay fanfarrão, pois o Zuraio completou : -"eu não tenho útero"...
Foram seis apresentações, nos dias 20; 26; 27; 28; 29, e 30 de maio de 1980. A primeira apresentação que era a estreia do desfile, foi muito concorrida, com cerca de quatrocentas pessoas presentes; equipes de TV, muitos fotógrafos etc. Mas nos dias posteriores o movimento caiu bastante, com públicos oscilando entre cinquenta a oitenta pessoas por dia. No último dia, eu e Lizoel tivemos que fazer um esforço muito grande, pois no mesmo dia iríamos tocar com o pré Língua numa eliminatória de um Festival de MPB na cidade de Bauru, interior de São Paulo. Saímos voando do show do Zuraio para a rodoviária e pegamos o ônibus para Bauru, encarando cinco horas de viagem. Essa história da apresentação nesse festival, já está devidamente contada no capítulo sobre o Língua de Trapo.
E foi assim essa aventura maluca em acompanhar o ator / humorista / cantor e transformista, Zuraio.

Algumas considerações finais são cabíveis no encerramento deste capítulo :
1) Claro que era constrangedor em diversos aspectos. Nada contra o trabalho do Zuraio. Até acho que ele era criativo e versátil como humorista. Mas aquele humor ultrajante dele, era para lá de deslocado naquele ambiente esnobe do atelier de moda.
2) Outro fator de constrangimento era a questão musical nas coxas, sem ensaios etc.
3) O fato daquele ambiente ser bastante antagônico aos três músicos, naturalmente. O baterista Jeribal era evangélico e muito simples; Lizoel com aspecto de beatnick; e eu, hippie de Woodstock...
4) O cachet era um valor bom para os padrões da época. Algo entre cento e vinte ou cento e cinquenta cruzeiros, por show.
5) A convivência com o Zuraio era respeitosa, apesar de suas brincadeiras de baixo nível cultural. Ele era um sujeito muito simples, sem estrelismo algum e a sua homossexualidade não incomodava-nos. E como era comediante, sempre  rendia-nos risadas com suas palhaçadas despachadas.
6) Nunca mais toquei com ele e o Lizoel também ficou só mais um pouco acompanhando-o em boites, que eu saiba. Nessa época o Lizoel também estava fixo no pré Língua e tinha outros trabalhos musicais. Num deles, acabou também chamando-me, como contarei logo mais, neste capítulo dos trabalhos avulsos.
7) Tocar no fosso foi bem esquisito, mas também providencial, pois deixava-nos mais preservados de climas constrangedores com as madames torcendo o nariz para as imitações debochadas e as piadas sujas e deslocadas do Zuraio.
Meu próximo trabalho foi com um cantor de MPB chamado Leandro, que queria lançar-se no mercado com um LP e do qual participei gravando uma faixa. E rendeu histórias...


Continua...

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