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domingo, 1 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 3 - Cínthia, a Noite Brega que Tornou-se Show de Rock - Por Luiz Domingues


O meu próximo trabalho avulso foi hilário ! 

O baterista Luis “Bola”, que estava a entrar na minha banda cover ("Terra no Asfalto", leia tudo nos capítulos dessa banda), fazia vários trabalhos paralelos no "mundo brega" para sustentar-se, pois o trabalho com a banda autoral que mantinha com o guitarrista Fernando “Mu” e o baixista Roatã Duprat (filho do maestro Rogério Duprat), não rendia o suficiente, a despeito da sua excelência musical, e naquele momento, com o “Mu” a ir tocar na peça teatral, Calabar (de autoria de Chico Buarque), praticamente entrara em extinção. Então, em uma oportunidade surgida em abril de 1980, convidou-me e ao Geraldo “Gereba” (outro guitarrista do Terra no Asfalto), para acompanharmos uma cantora brega chamada, Cínthia, no seu show a ser realizado em um salão suburbano na cidade de Carapicuíba, na grande São Paulo. 


Com a decadência do Terra no Asfalto, após a saída de Mu e Cido Trindade, e o pré-Língua de Trapo ainda em fase amadorística (leia os capítulos sobre o Língua de Trapo com os relatos dessa fase), não pensei duas vezes em aceitar o convite, mesmo por quê, o cachet oferecido foi bom (mil cruzeiros na época, o que eu sinceramente não saberia mensurar na condição monetária de hoje em dia). Então, o combinado foi encontrarmo-nos na sua residência ao meio-dia, tirarmos as músicas e por volta das seis da tarde, uma Kombi alugada pelo seu empresário levar-nos-ia ao local do show.

A Cínthia era uma cantora surgida algum tempo depois do final da Jovem Guarda, mas avançara na carreira, a gravar e aparecer bem na mídia popular, em programas de TV, tais como : Bolinha; Silvio Santos, Raul Gil etc. Seu grande sucesso radiofônico ainda dos anos setenta houvera sido a canção : “De Mulher para Mulher”. Ela era casada com o Dino, da dupla Deno e Dino, esse sim, mais famoso e egresso da Jovem Guarda.


Chegamos ao apartamento do casal, no horário combinado. Eu; Luis “Bola” e Geraldo “Gereba”. O Gereba usou um violão do Dino e nós anotamos as harmonias das músicas. Eram oito ou dez canções. Cerca de cinco do repertório dela e as demais, "covers". Lembro-me de "Casinha Branca" e uma das Frenéticas ("Perigosa"). O Dino e a Cínthia foram muito simpáticos como anfitriões. Tiramos as músicas nas coxas, pois no mundo brega as coisas pareciam ser assim mesmo, visto que o casal mostrava normalidade diante de um procedimento que para nós denotava algo desleixado...
Parecia uma bizarrice tirar músicas daquela forma precária, não ensaiar e tocar ao vivo na mesma noite. Mas foi o que aconteceu, infelizmente. Durante nossa estada na casa do casal, o Gereba mal disfarçava que encantara-se pelos dotes físicos da cantora, apesar dela ser casada e o marido estar ali na sala de estar, a observar tudo ! 
Ocorre que o Gereba era um “Casanova” incorrigível e se havia uma coisa que desnorteava-o, era ver uma bela mulher. Sendo inconveniente, ele várias vezes falou entre os dentes, ao virar-se para eu e Bola, suas impressões sobre o corpo da moça, a causar-nos o embaraço de quase o casal perceber. Então, superado esse constrangimento, fomos para a casa do Bola, descansar e esperar a Kombi da produção.
Na segunda foto, o magistral baterista, Bill Bruford, em 1974, a tocar com o King Crimson

O Luis Bola tinha uma bateria “Tama” com dois bumbos; quatro tons; dois surdos e uma infinidade de pratos de excelente qualidade. Seu Kit era para tocar Rock progressivo...
Mas qual foi a minha surpresa quando desmontou-a e eu vi que planejava levá-la inteira ! Perguntei-lhe se aquilo não seria um enorme exagero para acompanhar uma cantora com repertório popularesco, em um salão de subúrbio, mas sua resposta calou-me : “se o som não seria o que sonhávamos tocar e ganhar a vida, que pelo menos ele divertisse-o”. E acrescentou que faria "viradas de Bill Bruford" nas canções prosaicas da Cínthia...
Chegamos ao salão e percebemos que ficava muito próximo do quartel do exército, em Quitaúna, um bairro daquela cidade e onde todo recruta temia ser designado, pois a fama daquele QG do exército era o de ser um dos mais ásperos de toda a corporação. E ao entrarmos, já verificamos que o grosso do público era formado por soldados do exército em dia de folga e completamente dispostos a arrumar bagunça. Bandas cover locais tocavam antes do show principal. Eram medonhas até para o padrão baixo nível do mundo brega. Nesta altura, eu já questionava se os mil cruzeiros prometidos estariam a valer mesmo a pena...
E o Gereba, alheio a esses percalços, começou a beber, ao perceber que o dono do salão tratava-o como a uma grande estrela, afinal, éramos a banda da Cínthia...
Na hora do show, eis que subimos ao palco e uma saraivada de provocações dos “recos” bêbados, começou. Eu e o Bola com visual de Rockers, aquela Tama imensa...
Mas tudo dissipou-se quando a Cínthia entrou em cena, com uma roupa provocante e trejeitos sensuais semelhantes ao da sua contemporânea, Gretchen, enlouqueceu os recos que urravam com aquela lascividade ali exercida por ela. Tocamos uma, duas, tocamos a das Frenéticas, quando subitamente, o Gereba começou a errar as harmonias das canções. Quando percebemos, ele já estava completamente bêbado e na sua loucura, passou a flertar abertamente com a cantora, que pôs-se a ficar nervosa...
Ela anunciava a próxima música e o Gereba, transtornado, perguntava-me : -“como é mesmo essa aí ? Ah, pode crer”...
O show azedou, com vários erros crassos cometidos por ele e a cantora só fulminava-o com seus olhares de ódio, por sentir-se envergonhada por conta dos seus erros medonhos de harmonia, irremediavelmente a arruinar o seu show. Ele por sua vez, bêbado e lânguido com ela, interpretava seus olhares como correspondência aos seus anseios cafajestes... ha ha ha ! Hilário, mas trágico na hora, é claro ! Lembro-me dela a tentar disfarçar o mal estar, ao falar com o público, mas o Gereba por sua vez estava muito embriagado e só queria saber do seu corpo...
Então ela virava-se para o Gereba após anunciar a próxima música e dizia : -"maestro, vamos"... e ele respondia-lhe com gracejos...
O clima ficou insuportável e a faltar ainda uma ou duas músicas para o encerramento, ela decidiu antecipar o final do espetáculo, ao despedir-se do público e sair furiosa do palco, a xingar o Gereba. No meio daquela zoeira, com mais de quinhentos recos a urrar, ainda assim conseguíamos ouvir seus gritos no camarim, a exigir que o seu empresário não pagasse-nos, etc e tal. Não tiro a razão dela, pois o Gereba agiu mal ao embriagar-se e ser inconveniente, mas na verdade, estava tudo errado, desde o começo, pois esse esquema maluco em tirar músicas ao meio dia, para tocar a meia noite, por mais simples que fossem, era lamentável.
  Ten Years After, a visceral banda britânica de Blues Rock

Mas aí aconteceu algo muito insólito, que salvou a nossa noite. Como se estivesse por adivinhar, eis que o Luis Bola divertiu-se, conforme prenunciara...
O dono do salão, desesperado por ver o clima tenso com a saída dela do palco, de forma repentina e o publico enlouquecido, pediu-nos para tocar qualquer coisa na esperança do ânimo acalmar-se. O Gereba, mesmo bêbado, foi esperto e tocou, "I'm Goin' Home" do “Ten Years After”, que ele executava à perfeição. Ele começou o solo, e eu e o Luis Bola fomos juntos, sem pestanejar. Temíamos que um Rock naquele lugar e com aquele público, pudesse até piorar as coisas, mas os soldadinhos enlouqueceram completamente ! E aí fomos a emendar Beatles; Led Zeppelin; Grand Funk, enfim, tudo o que eu e o Gereba tocávamos normalmente no Terra no Asfalto, incluso Novos Baianos, sua especialidade, e salvamos a noite. No final, o empresário veio pagar-nos, a demonstrar ter esquecido-se de todo o mal-estar e ao dizer-nos que ela fora temperamental (cabe a ressalva que nesse aspecto ela tinha razão em ter irritado-se conosco, faço a mea culpa), e chamar-nos-ia outras vezes etc e tal. E para ficar mais engraçado ainda : o dono do salão estava eufórico e veio dizer-nos que contratar-nos-ia para uma apresentação solo, pois fomos considerados a melhor banda que já tocara ali... bem, ao considerar-se o nível de músicos que ali tocavam, acho que ele tinha razão.
E para agradar-nos mais, ofereceu comida e mais bebidas. Aí o Gereba sucumbiu de vez e algo mais bizarro ainda, aconteceria !
Em sinal de "gratidão", o proprietário da casa noturna afirmou ter arrumado-nos lindas garotas para alegrar o nosso final de madrugada. Quando chegamos ao camarim, com todo o respeito que todo o Ser Humano merece, realmente o conceito do sujeito sobre beleza feminina, era muito diferente do nosso. Eu e o Bola agradecemos e a alegar ter que voltar imediatamente para São Paulo, fugimos para a Kombi ! Mas o Gereba, bêbado como estava, resolveu aceitar a "gentil oferta" e ficou com três moças com padrão de beleza aprovadas pelo dono do salão, digamos assim...

E dessa forma transcorreu meu segundo trabalho paralelo, realizado no dia 22 de abril de 1980, em um salão cujo nome não lembro-me e infelizmente não anotei, perante um público formado por aproximadamente quinhentas pessoas presentes. Nunca mais acompanhamos a Cínthia, depois dessa noite. Ela mataria o Gereba, a esganá-lo, se pudesse. Não sei o que foi pior, se o fato dele ter ficado bêbado, e assim errar demais as harmonias das músicas, dessa forma, constrangê-la no show perante o público, ou se pela paquera de baixo nível que impingiu...
E sem dúvida, uma coisa que abomino como músico : tocar com bêbados e/ ou junkies (pior ainda se nas duas condições ao mesmo tempo). Essa história do Gereba não foi a primeira, tampouco a última vez em que passei vergonha por conta de irresponsáveis. Em relação à pressão do público, é verdade... os milicos só queriam divertir-se. Quanto às promessas do dono do salão, nunca retornamos. Não teria o menor cabimento agendar show em uma espelunca obscura daquelas, com aquela ambientação brega de baixo nível. E recusar as "beldades" ali presentes foi uma questão de sobrevivência...
Tocamos por uns quarenta e cinco minutos, talvez um pouco mais, depois que o show da Cínthia, encerrou-se prematuramente. Voltamos imediatamente para São Paulo com os instrumentos e equipamentos, eu; Bola, e o motorista da Kombi. O Gereba ficou por sua conta... acreditávamos que quando acordara, com ressaca e ao lado daquelas mulheres ao seu redor... hum, nem queríamos pensar ! Como agravante ainda a estar em algum lugar de Carapicuíba. Deve ter tomado dois ou três ônibus para voltar para a sua casa. E a história ainda fica mais hilária se eu contar que o Gereba apareceu no dia seguinte e feliz da vida...
Ele adorou a noitada e não arrependeu-se nem um pouco...
Não houve nenhuma brincadeira, pois o Gereba era um rapaz muito simples. Ele certamente não entenderia o teor de nossas brincadeiras e poderia até ofender-se. E diante desse desfecho, convenci-me de que tem gosto para tudo neste mundo...
Para encerrar essa história, só resta acrescentar que a Cínthia tornou-se radialista há muitos anos. 

Encerrada essa etapa, no próximo capítulo de "Trabalhos Avulsos", vou contar uma história ainda mais hilária do que essa aventura brega, em um salão de periferia. Aconteceu sob um ambiente diametralmente oposto, em meio a um desfile de moda, com muitas modelos bonitas em um ambiente sofisticado, mas o artista que acompanhei...

Continua...

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