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domingo, 8 de março de 2015

Trabalhos Avulsos - Capítulo 30 - Gravação do CD da Cantora Regiane, Cumprindo uma Obrigação, mas Admirando o Sonho da Garota - Por Luiz Domingues


Conto uma história agora, de um trabalho avulso que realizei, desta feita, do meio para o final de 2003. Eu estava na Patrulha do Espaço, e sob um esforço coletivo para gravarmos o segundo CD daquela formação, eu e o Rodrigo Hid prestamos um serviço ao estúdio onde gravamos, como forma de pagamento pelas horas em que a Patrulha utilizou por lá, para gravar o CD ".ComPacto". Assim, fomos incumbidos pelo dono do estúdio, para atuarmos na gravação de um CD de uma jovem cantora, que lutava por sua carreira, chamada : Regiane. Não consigo recordar-me de seu sobrenome, infelizmente.

Era uma garota de muito potencial vocal, pois estudava canto lírico, e tinha tido a experiência em cantar em uma banda de Heavy-Metal "melódico", no interior de São Paulo, onde morava (Vinhedo ou Valinhos, não recordo-me qual cidade exatamente). Mas inexperiente ao extremo, foi tentar a sorte naquele estúdio, com a promessa de que por um preço único, sairia dali com CD pronto, e indicações para divulgação na mídia; contato com empresários para alavancar uma carreira, etc. Ledo engano, pois saía, sim, com um CD pronto, prensado e com capa, um release impresso, e um portfólio com fotos promocionais, mas sem contato algum.

Era um esquema semelhante ao de agências de modelos, suspeitas, onde na verdade, só querem vender ensaios fotográficos para portfólios, e a garota que lute sozinha com esse material. E com a qualidade deficiente de um estúdio antiquado, com sérios problemas de manutenção, não dava para esperar grande coisa mesmo, na parte do áudio. Então, o Rodrigo foi convocado a gravar violão e guitarra, sob a supervisão de um tecladista veterano e conhecido por ter tocado em uma famosa banda de bailes, e também conhecida por ter trabalho autoral, mas cujo nome não revelarei, para não causar constrangimentos. Ele era o tecladista, produtor e arranjador dessa empreitada. A seguir, fui chamado para gravar o baixo. Por um arranjo político imprevisto, ao invés de contratar um baterista profissional, o responsável pelo instrumento, foi o filho de um investidor do estúdio...

Resultado: o garoto era péssimo, e mesmo com o experiente tecladista / produtor na condução dos trabalhos, ele gravou uma bateria horrenda, com gravíssimos erros de andamento. Dessa forma, foi impossível gravar o baixo, tampouco os demais instrumentos, pelo motivo óbvio da gravação estar arruinada. Fui orientado a não discutir isso, e para livrar-me de meu compromisso, gravar assim mesmo.

O tecladista estava com mãos atadas também, pois a inclusão do garoto fora uma imposição do estúdio, e dessa forma, eu gravei o baixo, sob o esforço insuportável em ter que errar, propositalmente, para acompanhar aquele horror rítmico. Alguns dias depois, recebo o telefonema do técnico, "Kôlla" Galdez, que era (é) meu amigo, e gravara a Patrulha, ali mesmo. Segundo o Kôlla, o tecladista havia vetado a minha participação, ao alegar que eu colocara "molho" demais nas músicas, quando o correto teria sido fazer linhas mais simples.
Bem mentalidade de produtor de música brega, mas realmente, nesse tipo de produção, fazia sentido. Então houve uma briga feia entre ele, e o dono do estúdio, a culminar com seu abandono da produção. Sendo assim, o proprietário do estúdio convocou o Rodrigo para assumir como produtor, e tocar teclados; violão e guitarra. Eu fiquei no baixo, mas o dono insistiu para o garoto, filho de seu sócio, gravar a bateria.



A começar tudo de novo, o Rodrigo sugeriu mudanças radicais no repertório. Saíram os obscuros Pop Brega do repertório anterior, e agora gravaríamos Beatles; Roy Orbison; Creedence Clearwater Revival, enfim, muito mais agradável. Mesmo com o Rodrigo a tentar manobrar ao máximo, o garoto gravou uma bateria bem equivocada, embora tenha melhorado, ou amenizado a situação, em relação à primeira gravação. Coloquei o baixo com mais conforto, e com o Rodrigo a toca guitarra, teclados e violão, o som ficou em alto nível, para agradar a Regiane, que sentiu-se mais segura e respaldada. Claro, cheguei a perguntar ao dono do estúdio, se pagariam os direitos autorais daquele repertório, mas ele apenas falou-me que estavam acostumados a lançar discos sem pagar nada a ninguém, a usar qualquer música que quisessem.


Durma-se com um barulho desses...


A gravação ficou boa (para aqueles padrões, é lógico), mas o tempo passou, e eu não recebi nenhuma cópia. Até gostaria de ter uma cópia, como material de portfólio, e confesso que se não fossem covers muito óbvios, seria um bom disco, mesmo porque, a Regiane cantava muito bem.

O Rodrigo atuou muito bem, a escolher o repertório, arranjar, tocar três instrumentos, e até alguns backing vocals, além de dirigir passo a passo, a gravação da voz da Regiane. Somente em uma determinada ocasião, ele não pôde comparecer, e eu fiz produção, ao dirigir a gravação da sua voz. Confesso que fiquei bem impressionado com o potencial dela. Era o tipo de cantora que passaria fácil nesses programas de calouros da TV, e talvez construísse uma carreira forte no mundo brega etc. E tanto eu, quanto o Rodrigo, afeiçoamo-nos a ela, e seu pai, que acompanhava-a nas gravações.

Eram pessoas simples do interior, a lutar com muitas dificuldades. 
O pai dela era pedreiro, e não media esforços para bancar o sonho da filha, e isso comovia-nos muito. Ela também era uma batalhadora, não só pela luta em prol de seu sonho, mas por ser uma humilde professorinha em sua cidade, e com seus parcos recursos, e uma vida muito simples, ter a coragem para lutar nesse campo minado que é a carreira artística. A despeito do que aconteceu com ela, eu e Rodrigo cumprimos nossa parte do acordo, aliás, com muito mais carga de trabalho para ele, Rodrigo.
No próximo capítulo dos Trabalhos Avulsos, vou contar uma história que também envolveu a Patrulha do Espaço, minha banda na ocasião, indiretamente.

 Continua...

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