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sábado, 27 de junho de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 14 - Um Voto de Confiança - Por Luiz Domingues



1987 chegou, e a julgar pelos últimos acontecimentos relatados anteriormente, fora por um triz que esse Reveillon não houvera sido o melhor da nossa trajetória até então. Pois o leitor há de recordar-se que vivemos os últimos 8 a 9 meses, de meados de março a dezembro de 1986, em clima de euforia progressiva pela sensação de avalanche de oportunidades que apresentaram-se diante de nós, sinalizando claramente que a grande porta de acesso ao mundo mainstream estava escancarando-se.




Nossa queda de energia interna tinha mais a ver com a decepção pela falta de força do Studio V, do que outra coisa, pois o ano virou e a avalanche na mídia continuava, caso dessa matéria acima, com direito a encarte especial, e resenha da demo de outubro, que saiu em janeiro de 1987, na Revista Metal 

No entanto, muito dessa euforia gerada, para não dizer quase toda, havia arrefecido-se, quando na metade de novembro, havíamos sido rejeitados pela Warner. Contávamos com isso, e não é necessário elencar as razões para tal confiança que tínhamos, dada a minuciosa explicação e conteúdo de análise que publiquei nos capítulos anteriores.


Nota na Revista Mix nº 5 (dezembro de 1986), falando de nossa contratação pelo Studio V

Cabe no entanto, reforçar que tal reação de nossa parte tinha uma dose maciça de ingenuidade e certamente falta de noção a época, de como realmente funcionava a engrenagem mainstream.
1) Nosso som não era, nem de longe compatível com a realidade do mundo mainstream. Nem simplificando ao máximo, ainda assim, tínhamos uma diferença brutal de espectro artístico, com quem estava no andar de cima.
2) Nosso visual era de Rockers à moda antiga e no ambiente oitentista avesso a essa configuração, por vários fatores, e entre eles o comprometimento com o conceito do niilismo agressivo inventado pelos punks em 1977 (e reafirmado com vigor por seus filhotes, Post-Punkers), não aceitariam-nos nunca, naquela configuração.
Havíamos questionado isso no início de 1983, e tínhamos chegado à conclusão de que não valia a pena fazer tal loucura e sacrifício nessa época, imagine então agora, que tínhamos discos; portfólio, e fãs ? Ou seja, estávamos estigmatizados e de forma irreversível.

Nosso fanzine fazia barulho...motivava até notas em revistas de porte, como a "Som Três"


Muita gente que aproveitou bem a onda do Br-Rock 80's, estava ali coadunado com tais preceitos, mas não era nenhum entusiasta de tal estética. Haviam muitos até que tinham passado marcante no Rock brasileiro dos anos 1970, foram cabeludos; usaram figurinos setentistas sensacionais, e mudaram, dançando conforme a música.
Casos de Ritchie; Lobão; Arnaldo Brandão; Vinicius Cantuária; Lee Marcucci; Antonio Pedro de Medeiros (Fortuna); Lulu Santos; Wander Taffo; Gel Fernandes e muitos outros. Mas nenhum deles fechou com ideais niilistas, eu duvido. Na cabeça de todos, certamente deve ter havido a ideia de adequar-se para não perder a onda, e quem não percebeu isso, ficou no limbo do underground, casos do Made in Brazil e da Patrulha do Espaço, praticamente as únicas bandas setentistas que viraram a década de setenta para a de oitenta, mantendo os valores tradicionalistas do Rock, e pagando o preço caríssimo de ficar a margem de tudo. A própria Rita Lee, reinventou-se pop e moderninha do ano de 1979 em diante, e para muita gente, quiçá a maioria, é a fase da carreira dela que mais gostam...

Foto no gabinete de Miguel Vaccaro Netto, no dia da assinatura do contrato, ainda em 1986. Da esquerda para a direita : Luiz Domingues; Rubens Gióia; Sonia Carlos Magno; Miguel Vaccaro Netto; Beto Cruz e José Luiz Dinola

Enfim, só surfou no sucesso mainstream nos anos oitenta, quem rezou por essa cartilha e nesses termos, a nossa banda estava fora desde o início, e não seria agora, com uma carreira andando (e muito bem para os parâmetros do underground), que faríamos a loucura suprema de dar uma guinada radical na estratégia e mudar tudo de novo e desta vez, radicalizando completamente o som e o visual. Seria motivo de chacota geral, tanto no mundo avesso, e principalmente no nosso, onde os fãs jamais perdoar-nos-iam.
Mas isto é uma mera conjectura, pois nem cogitamos uma loucura dessas...
3) Sob o ponto de vista gerencial, faltava-nos apoio de bastidores.
Figuras sensacionais como Charles Gavin e Clemente, tentaram, mas na época, ainda não tinham nem 10% da influência que tem hoje em dia, e eu sei que sua ajuda na época foi sincera e muito digna, mas não puderam puxar-nos para cima.

Outro aspecto nesse item, era que a linha de estratégia das gravadoras estava fechada tão hermeticamente nesse conceito pró-Pós-Punk, que nada demovia-os de tal pensamento. Somente alguma força extraordinária, poderia fazer tal encaixe à fórceps. Algo parecido com o que ocorrera com bandas como "Barão Vermelho" e "Herva Doce", que nada tinham a ver com a estética Pós-Punk, fizeram sucesso mainstream, e sem grandes concessões em seu som recheado de influência antigas proibitivas para os anos 1980, no caso do Herva Doce, ainda mais gritantes.

Nesse caso, um produtor com livre entrada nesse meio, que dominasse tantos contatos na mídia e na indústria fonográfica simultaneamente, seria a tal mão pesada a quebrar bloqueios estéticos, e bancar-nos dentro da estrutura dessa máquina do show business, alheios a qualquer obstáculo. Tal manager com tal traquejo, seria o Miguel e ingenuamente acreditamos nessa possibilidade. Portanto, a perda de muito de nossa confiança passou por essa decepção com a não tão grande influência que Miguel tinha, aliado ao fato de que na prática, o Studio V arrancava-nos o couro com uma taxa absurda sobre os cachets, mas nada havia feito de bom, em meses de compromisso conosco (para não ser injusto, produziram um único show, no TBC, e já relatado, e atraíram algumas entrevistas de mídia impressa e rádio, mas nada maior do que nós conseguíamos por nossos próprio esforços). Somados esses dois fatores, falta de resultados de agenda + rejeição em gravadora, é claro que aquela sensação de vitória inevitável, esfarelou-se por entre nossos dedos. Mesmo assim, ainda tínhamos gás para prosseguir...
Portanto, 1987 entrou, e nós ainda passamos um tempo esperando que o escritório desse-nos mostras de revitalização, sinalizando novas investidas em gravadoras, e sobretudo movimentação de agenda. Ainda havia esperança de que revertessem o quadro de desapontamento que criaram para conosco.




Além da reunião convocada por Miguel logo no início de janeiro de 1987, para repercutir o show que fizéramos no TBC (já relatado em capítulo anterior), uma atividade informal aconteceu também nos primeiros dias desse mês. Conforme já mencionei antes, havíamos visitado o comediante Agildo Ribeiro em seu camarim, por ocasião dele estar em cartaz com seu monólogo, ainda no final de 1986. Como fora uma visita apenas, ele convidou-nos a assistir o espetáculo em outra ocasião, inteiro, desta feita. Então, em 9 de janeiro de 1987, eu e Zé Luiz fomos prestigiar o comediante, assistindo seu espetáculo de humor, no Teatro Paiol, no centro de São Paulo. Beto e Rubens não puderam ir, e além de nós dois representando a banda, uma micro comitiva de familiares do Zé Luiz também acompanhou-nos. Sua irmã, Beth Dinola, (a artista plástica, e responsável pela capa do nosso primeiro compacto, de 1984); sua mãe, Sraª Maria Catucci Dinola; e Eliane Daic, a Lili, sua namorada e produtora da Chave.

Foi hilário. Em cerca de duas horas, levou o público à histeria de tantas risadas que provocou, contando casos; imitando pessoas famosas; e debochando do governo...
Enfim, foi uma performance sensacional e no meu caso não era exatamente uma novidade, pois a despeito de nunca tê-lo visto ao vivo no teatro até então, sabia de seu potencial como comediante e ator, desde os anos sessenta, vendo-o na TV. Sonia estava eufórica no camarim com o sucesso do Agildo naquele instante, e ali naquele momento, tive a certeza de que a música não era o seu forte, e isso explicava muita coisa. Como produtora teatral, ele funcionava muito bem, convenhamos...

Voltando aos nossos negócios, uma sinalização de show vendido a um contratante numa pequena cidade do interior de São Paulo, surgiu para o mês de janeiro de 1987. Enfim, era algo que o Studio V mostrava-nos de palpável. Mas antes disso, outro contato surgido por nossos próprios meios foi fechado, para um show no litoral do estado. Era um contato surgido na Baratos Afins, e os amigos do "Platina" tocariam conosco. Seria um prazer é claro, pois além de termos muita amizade com seus componentes, desde 1984, achávamos que o trabalho deles tinha muita qualidade técnica, e semelhanças com o nosso. Por exemplo, ambas faziam um Hard-Rock com influências setentistas claras, e caprichavam nos arranjos.
Mesmo assim, no caso deles, estavam mergulhados no Hard oitentista, de apelo californiano, inclusive no visual, mas na minha ótica, o Platina era milhas melhor que qualquer banda americana de Hard Rock oitentista. Não havia comparação com o nível instrumental dos irmãos Busic, e do excelente Daril Parisi, com similares yankees, talvez com a honrosa exceção de Eddie Van Halen, ele pessoa / músico, e não a banda, bem entendido.
Dessa maneira, fomos para Itanhaém, no litoral sul do estado de São Paulo, para apresentarmo-nos num clube local. Claro, em pleno verão numa cidade praiana, fazia um calor de rachar, mas a viagem foi extremamente prazerosa, com descontração. Alheio à nossa desconfiança manifestada nos últimos dias de dezembro, Toninho viajou conosco sozinho, sem a presença de Sonia, e dizia-nos que muitos shows aconteceriam doravante fora de São Paulo, e que ele seria o road manager nessas viagens, cuidando de toda a nossa logística.  Ok, que assim seja, amém... pensamos na época, mas nessa altura, já não empolgávamo-nos mais com os delírios "quixotescos" do rapaz e ali mesmo, nesse clube de Itanhaém, era mais um show cujo contato fora nosso, caindo de "mão beijada" nas mãos deles. Enfim, apesar disso, o clima estava agradável e o voto de confiança no Studio V, ainda mantido.

O clube em questão chamava-se "Iate Clube". Com boas instalações, mas sem luxo, tinha um salão de festas amplo, onde seria realizado o show. Um equipamento digno estava providenciado para o espetáculo, e o soundcheck foi bem tranquilo.
No camarim, estávamos entre amigos. Dividir um show com o Platina era um prazer para nós, por tudo o que já descrevi e também pelo fato dos rapazes serem muito gente boa. Muito brincalhões, e juntando-se ao Beto, que também era um piadista nato, tornaram o camarim, uma câmara de risadas.


Lembro-me que o Daril Parisi já estava pronto para subir ao palco e ele mesmo não aguentou e soltou uma piada hilária sobre o figurino que usavam. Bastante carregado no visual de bandas americanas de Hard-Rock oitentistas, vestiam calças estilo collant, de estampas exóticas e muitos panos coloridos e rasgados a esmo como ornamento nas pernas e braços. Falando diretamente comigo que estava na porta, falou algo como :-"estas roupas de trapezistas dão trabalho para serem vestidas"... arrancando gargalhadas generalizadas. O show deles foi excelente, no seu padrão habitual de qualidade.


A seguir, fomos nós, e realizamos um show muitíssimo mais enxuto do que fizéramos alguns dias antes, no TBC em São Paulo. Dando ênfase a músicas mais conhecidas, e inserindo bem poucas novas, privilegiamos um show mais energético do que experimental...
Só que houve um problema... a divulgação do evento fora fraca na cidade, e inexistente nas cidades vizinhas. Portanto, o público foi diminuto e circunscrito apenas a pessoas que circulavam pelo clube numa noite de verão. Num salão onde cabiam pelo menos mil pessoas, cerca de 150 testemunharam nossa passagem pela cidade.
Foi um show frio da parte do público, mas nada hostil. Pelo contrário, batiam palmas educadas ao término de cada música, mas claro que não sendo um público alvo das duas bandas, não deve ter  comovido-lhes de forma alguma. Foi portanto um típico show que nada acrescentou artisticamente para nós, e cuja parte interessante que justificou-o, fora apenas e tão somente pelo cachet. Uma pena mesmo, pois o palco era bacana; o pessoal do clube foi muito gentil conosco; tinha um equipamento razoável; a companhia do Platina era agradabilíssima pela amizade e pela qualidade do seu trabalho (e nesse caso, tocar com uma ótima banda num show compartilhado, só agrega); a cidade era / é uma graça pelo seu bucolismo de pequena localidade praiana; e o verão estava a pleno vapor, com muitos turistas etc etc. Foi assim o primeiro show de 1987. Com 150 pessoas presentes, aproximadamente, no Iate Clube da cidade de Itanhaém, litoral sul do estado de São Paulo.




Antes de avançar na cronologia, vou dissecar uma entrevista que concedi à revista Mix, que era especializada em instrumentos, equipamentos e técnica. Tal matéria era bem recente, tendo sido publicada no mês anterior, de dezembro de 1986. Saiu no nº 5, com entrevista sendo conduzida por Tony Monteiro. Essa revista era mais um desdobramento de teor musical da mesma editora que publicava as revistas "Roll" e "Metal", onde já havíamos sido enfocados inúmeras vezes, com notas; matérias; entrevistas; e resenhas de shows e discos, além de citações en passant.

O primeiro fato interessante da entrevista, deu-se logo na apresentação, quando Tony Monteiro optou por fazer uma explicação informal que explicava o meu apelido... acho que pela primeira vez, alguém da mídia levantou tal questão e ali, ficou claro que "Tigueis" era uma corruptela de "português", ou seja, uma alusão à minha descendência lusitana.

Mas na prática, pouco ajudou-me a escapar das inúmeras confusões que tal alcunha causava-me, até que em 1999, dei um basta nisso e firmei propósito em ser chamado pelo meu nome. Mas isso é assunto paralelo dos capítulos sobre a Patrulha do Espaço, em diante. Repercuto agora as perguntas e principalmente as respostas que dei a época.

1) MIX - Há quanto tempo você toca ?
Luiz - Há dez anos.
 

2) MIX - E sempre no baixo ?
Luiz - Sempre, apesar da bateria ser realmente o instrumento que eu gostaria de aprender a tocar. Só que o baixo acabou pintando na minha vida, e eu acabei desenvolvendo.

3) MIX - Como foi seu aprendizado ?
Luiz - Eu comecei estudando em conservatório aos 16 anos, naquele esquema bem rígido, sempre com o objetivo de seguir uma carreira profissional. Mas eu não terminei o curso e posso dizer que minha grande escola foram os discos que eu sempre escutei.

4) MIX - Você lê música ?
Luiz - Eu cheguei a um ponto de ter uma base musical bastante razoável, mas como não dei continuidade, posso dizer que desaprendi a ler. Eu ainda tenho planos de voltar a estudar, só que mais para o futuro, uma vez que hoje estou envolvido em composição, ensaios, enfim, estou batalhando a minha carreira.

5) MIX - Que instrumento você usa ?
Luiz - Um Fender Modelo Jazz Bass.

6) MIX - É o instrumento ideal para o seu estilo ?
Luiz - É um dos. Pro futuro, pretendo ter outros para em casa ocasião poder trabalhar com um timbre diferente. É uma ambição que no momento não é possível por em prática.

7) MIX - Qual seu sistema de amplificação ?
Luiz - Atualmente estou trabalhando com uma coisa improvisada, uma potência feita em casa com caixas também caseiras. A curto prazo, pretendo comprar um amplificador de nível, que seria um Marshall.

8) MIX - Quais as suas cordas preferidas ?
Luiz - Rotosound é que mais agrada, apesar de achar a GHS interessante, também.

9) MIX - E as nacionais, não prestam ?
Luiz - Não, de jeito nenhum ! Aquilo é arame de pendurar roupa !

10) Mix - Por que você não usa palheta ?
Luiz - Normalmente quando o menino começa a estudar, ele usa palheta, por ser um negócio mais fácil de pegar. No meu caso, foi a mesma coisa. Mas, com o passar do tempo, eu me toquei que usando os dedos, no sistema pizzicato, se obtém um som muito melhor. Tocando dessa forma, eu consigo mais potência de som, trabalho dinâmico e brilho. São manhas que você descobre com o tempo, ninguém aprende na escola.

11) MIX - Você usa dois ou três dedos da mão direita ?
Luiz - Eu trabalho da maneira clássica, com dois dedos. Existe também aquela técnica que utiliza o polegar, muito comum no Funk, e que eu incorporo também. Acho plenamente válido.

12) MIX -  Então você compõe no baixo ?
Luiz - Sim, muitos dos Riffs da Chave, foram compostos em cima de frases, que eu peguei no baixo.

13) MIX - O que você acha de baixos "envenenados", com alavancas ou pedais ?
Luiz - Quanto à alavanca, estou louco para ter uma ! É fantástico, ela é utilíssima.Com relação aos pedais, eu particularmente não uso.Mas não é porque eu seja purista ou ortodoxo, acontece que usando esses pedaiszinhos, nas condições que você encontra aqui no Brasil, o baixo perde muito em ganho. No momento em que eu tiver condições financeiras para pesquisar em cima de coisas profissionais como racks de efeito,aí sim, poderei usar.

14) MIX - Por que você usa o instrumento bem acima da linha de cintura, ao contrário da maioria dos baixistas ?
Luiz - Pois é, isso esteticamente até choca um pouco porque foge da tradição dos baixistas de Heavy e de Hard. Agora, tem também o lado técnico. Usando o instrumento mais em cima, você tem um alcance maior nas notas graves e uma presença total nas agudas. É uma garantia de maior precisão.

15) MIX - Qual a sua preparação antes de um show ?
Luiz - Primeiro eu faço um aquecimento físico. É uma espécie de ginástica que não só eu, como os outros músicos da Chave fazem. Depois, já com o visual de cena, eu começo o trabalho com o instrumento, fazendo escalas, a princípio, bem devagar e aumentando a velocidade aos poucos para aquecer os dedos.

16) MIX - O que você acha da qualidade dos técnicos de som em shows de Rock ?
Luiz - Isso praticamente não existe. Existem técnicos que são contratados para fazer shows de Rock e que fazem com a maior má vontade,nos tratam como moleques, não nos dão atenção nenhuma, e, se bobear, ainda tentam te derrubar. Eu conheço apenas uns três ou quatro com condições de enfrentar um show de Rock.

17) MIX - Muita gente do meio musical - instrumentistas - , fãs, críticos- consideram você o melhor baixista de Rock do Brasil, e eu sou um dos que concorda com eles. O que você acha dessa colocação ? Concorda com ela?
Luiz - A princípio, eu agradeço, fico sensibilizado por ouvir um negócio desses. Só que eu vou discordar, eu não me sinto um músico desse nível, existem baixistas excepcionais no Brasil.

Antonio Carlos Monteiro


Bem, reproduzido o texto original, vou repercutir agora a minha opinião hoje em dia, sobre tudo o que eu falei, sem poupar-me de autocrítica, em alguns aspectos. E claro, só adulterei meu nome na reprodução... aonde posso cortar o apelido, o faço...

1) Verdade absoluta. Em 1986, eu tinha completado dez anos de música.
2) Também correto. Não escondo de ninguém e nesta autobiografia já disse várias vezes, se pudesse voltar ao passado, investiria na bateria, e não no baixo.
3) Verdade em termos. Comecei na verdade, "na raça", tendo toques muito preliminares do guitarrista da minha primeira banda, Osvaldo Vicino (isso é contado em detalhes, nos capítulos do Boca do Céu). Mas na realidade, tive pequenas passagens infrutíferas por escolas de música. Em 1977, estudei alguns meses no Grupo Ama, uma escola bem popular entre Rockers, em São Paulo na década de setenta; em 1978, tive uma passagem ainda mais curta num conservatório chamado Villa-Lobos, fato repetido em 1979, no Bela Bartok. Em 1980, cursei dois semestres na Fundação das Artes de São Caetano do Sul, e parou aí a minha pequena experiência no aprendizado formal de música.
4) Uma verdade, mas edulcorada... de fato, desenvolvi um pouco, mas muito pouco mesmo de solfejo, porém logo desisti e assumi-me como analfabeto de pautas musicais.
5) Verdade. E está comigo até hoje.
6) Verdade, também. O fato de só ter um instrumento na época, era apenas motivado pela mais reles das dificuldades : falta de recursos...
7) Verdade, tinha um amplificador caseiro, mas a caixa era uma velha Palmer dos anos setenta. Nem sei porque não mencionei isso e preferi dizer que a caixa era caseira, também. Meu Duovox só incorporou-se nesse "time", em 1990, além da carreira da Chave do Sol, portanto.
8) Verdade. Continuo gostando de Rotosound, dica do mestre Chris Squire, que aprendi ainda nos anos setenta. GHS chega bem perto desse nível de qualidade, também. Atualmente, também incluo nesse seleto rol de prediletas, a Elixir.
9) Quando ouvi essa pergunta, não tive dúvida em dar uma resposta contundente, como forma de protesto. Lembro-me do Tony Monteiro gargalhando quando escutava-me, e a entrevista impressa repercutiu bastante, pois muitos músicos abordaram-me posteriormente para concordar e rir da minha piada, mas que tinha a força da verdade. Hoje em dia, acho que tem cordas nacionais até razoáveis no mercado, mas naquela época, a produção brasileira era vergonhosa. Portanto, a alfinetada foi merecida.
10) Essa mesma pergunta havia-me sido feita dois anos antes, quando o mesmo jornalista, Tony Monteiro, entrevistou-me para a Revista Roll. Bem, fui sincero a época, mas hoje considero tais colocações completamente equivocadas. A ideia de que a técnica do Pizzicato é "superior", é uma falácia, para início de conversa. Pior ainda foi afirmar que dessa forma eu obtinha mais potência sonora... pasmem, pelo contrário, o contato da corda como dedo, enquanto ataque de mão direita, inibe o som, abafando-o. Com palheta, ao contrário, a emissão é muito maior. E não resisto... de fato, são manhas que aprende-se com o tempo... por isso voltei a ser "palheteiro" desde 1992, e não quero nunca mais usar os dedos...
11) Verdade. Usava dois dedos, tocando na técnica tradicional de pizzicato como qualquer baixista que adota tal técnica. A questão dos três dedos que o Tony levantou, era porque naquela década, o grande ícone do Heavy-Metal, o baixista do Iron Maiden, usava três dedos para potencializar seus estilo baseado em "cavalgadas". Havia a lenda urbana que eu espelhava-me em tal músico, mas isso não corresponde à verdade, simplesmente porque nunca fui fã de Heavy-Metal, tampouco dessa banda, e muito menos desse músico. Daí a motivação da pergunta, tenho certeza.
12) Verdade. Muitas músicas da Chave nasceram de riffs que criei no baixo.
13) Essa foi uma das respostas mais estapafúrdias que dei em todas as entrevistas que já concedi na vida !!
Para que serve uma alavanca num baixo ?? Vai usar o efeito o show inteiro ? Em todas as músicas ? Quer ser o Hendrix das quatro cordas ?? Ha ha ha... não faria mais linhas de baixo, doravante, mas ficaria o show inteiro virado para a caixa do amplificador, esperando o feedback para explorar as possibilidades harmônicas da "utilíssima" alavanca ... que asneira...
Sobre a questão dos pedais, fui ainda pior... o que exatamente eu quis dizer com "condições do Brasil" ? Só pode ter sido uma menção ao fato de que pedais nacionais tinham baixa qualidade.
Sobre pensar em usar racks, quis ser "moderninho" e não desapontar leitores que frustrar-se-iam ao saber que não ligava para isso. Hoje em dia, não tenho mais essa preocupação de ser polido para com a expectativa de leitores. Jamais gostei, e não acho que algum dia vou gostar de efeitos no baixo.
14) Bem, por tocar usando a técnica pizzicato, acostumei-me a usar o baixo realmente mais alto, no corpo, acima da linha da cintura. Era um estilo mais jazzístico de apresentar-se e realmente destoava da maioria dos colegas. Talvez fosse mais confortável, é verdade, mas estilisticamente era bem feio, admito. Quando voltei para a palheta em 1992, época em que comecei a tocar com o Pitbulls on Crack, também revi esse conceito, e mexi na correia, ajustando-a para uma postura mais Rocker. E desde então não apresento-me de outra forma.
15) Reconheço que dei uma valorizada nessa resposta, seguindo o mesmo raciocínio de outras perguntas onde no subconsciente, sabia que o leitor padrão de uma revista técnica, precisava ter mais elementos desse padrão para satisfazer sua curiosidade mais detalhista sob meandros musicais. Então, super valorizei a ideia da preparação, que em algum momento da carreira da Chave, de fato ocorreu, mas foi por pouco tempo, em alguns shows de 1985, na época do EP e do Fran. Falo sobre um aquecimento básico, parecido com o de atletas, mas aquecimento no instrumento, ocorria, todavia jamais com o foco espartano que dei a entender na resposta. E depois disso, já do Pitbulls on Crack em diante, relaxei de vez e não faço absolutamente nada. Pego no instrumento na hora de subir ao palco e pronto, sem frescuras.
16) Outra alfinetada que aproveitei para dar e tinha sua razão de ser. Falei a verdade e muitos colegas que leram, concordaram comigo. Hoje em dia, evolui-se muito nesse sentido e existem escolas de áudio boas formando profissionais e o nível melhorou muito. Naquela época, ter um técnico bom exclusivo, era raro e tivemos o Canrobert muitas vezes garantindo a qualidade dos nossos shows, mas requisitado que era, não podia ser nosso exclusivamente, infelizmente.
17) Puxa, essa pergunta deixou-me muito encabulado na época, e ainda deixa-me. Normalmente tenho como característica não absorver muito os elogios, mesmo quando sei que são sinceros e aí, tenho que controlar-me para entender e aceitar isso, sem reservas para a pessoa que formulou-o não achar que estou sendo falso modesto em recusar etc e tal. Sobre a questão em si, não concordava em ser considerado o melhor, de forma alguma, e continuo não concordando com essa afirmativa, tanto para aquela cena congelada nas páginas dessa revista de 1986, quanto em qualquer outro contexto. Contudo, reitero exatamente o que disse a época, isto é, sou muito grato ao Tony por sua colocação, onde até assumiu ser sua opinião pessoal, também. Sei da sinceridade dele, e de pessoas que ele ouvia dizerem o mesmo, e só posso ser grato por tamanha honraria !


Sonia e Toninho tinham amizade com o colunista de TV e "celebridades" do jornal "Popular da Tarde", Arley Pereira. Ele de fato era um jornalista famoso nesse mundo, e essa nota acima denotava que queriam mostrar serviço para nós, mas na prática, era só isso... uma nota.

Após o show na cidade litorânea de Itanhaém, tínhamos enfim um show vendido a um contratante, por intermédio do Studio V.
Não comemoramos o fato, no entanto, porque estávamos fartos da inoperância deles, e apesar de estarmos ainda dando-lhes um voto de confiança, um show apenas não sinalizava exatamente uma mudança de comportamento da parte deles. E para agravar a impressão, o show vendido seria realizado numa minúscula cidade no interior de São Paulo, que particularmente eu conhecia, e por conta disso, sabia que era inacreditável fazer um show de Rock ali naquele município. Por quê ?

Bem, tratava-se de "Águas de São Pedro", um dos menores municípios do estado de São Paulo, e naquela época, não devia ter muito além de 2000 habitantes, segundo dados oficiais do IBGE.
Era (é) uma cidade cuja economia era gerada pelas suas termas, exclusivamente. Na qualidade de uma estância climática, vivia da economia gerada pelos turistas / pacientes, que procuravam-na para tratamentos reumáticos a base de banhos de imersão, com diversos tipos de águas sulfurosas e ricas em minerais com propriedades terapêuticas.

Resumindo : Águas de São Pedro pelo seu tamanho minúsculo, só atraia visitantes idosos em sua maioria, e a população autóctone, também tinha idosos em maioria, pois jovens ao atingirem a idade escolar do ensino médio, já buscavam oportunidades em cidades vizinhas de maior porte, caso por exemplo de Piracicaba, distante poucos kilometros e esta sim, com porte de cidade grande, universidades e infraestrutura. Então, era inacreditável que um contratante tivesse procurado-os para contratar-nos. Fazer um show de Rock numa cidade daquele porte, onde só havia idosos, praticamente, era uma loucura, numa primeira análise. Mas se o contato ocorreu, e o rapaz aceitou pagar o nosso cachet, vamos lá, então, pensamos...
No dia do show, na hora do almoço, o rapaz em questão apareceu no escritório do Studio V e levou-nos em sua clássica "Kombi", que transportou nossos instrumentos e backline básico. Num outro carro, seguiram os demais, acompanhando-nos. O rapaz era muito simples e dirigiu o tempo todo brincando, rindo, contando piadas e mostrando-se muito animado com a realização do show. Eu tinha muitas dúvidas sobre tal, mas longe de minha vontade ser chato ao ponto de jogar um balde de água gelada no rapaz, portanto, não retruquei de forma alguma suas colocações exageradamente otimistas sobre o eventual sucesso de público que teríamos. Bem, era torcer para a minha má impressão estar errada e o otimismo dele prevalecer.

Chegamos a cidade e instalamo-nos num dos hotéis da única avenida da cidade e que tem apenas isso, praticamente, hotéis em toda a sua extensão, e para todos os tipos de bolsos, de pequenas pousadas baratinhas, até hotel de luxo. Além dos hotéis que tem como atração máxima as instalações para os banhos de imersão, as fontes públicas para beber diversos tipos de águas com propriedades minerais específicas, compõe as atrações principais da cidade. Fora disso, só contando com fãs que viriam de Piracicaba ou outras cidades maiores na região, pois ali, só haviam idosos e crianças, em maioria esmagadora.

Bem, o rapaz era um funcionário do hotel onde hospedamo-nos e mesmo sabendo que certamente conseguira seu apoio, minimizando as despesas dessa produção, tudo ainda era nebuloso. Fomos ao soundcheck e o local era um salão um pouco afastado desse centro da cidade, mas entenda-se algo muito perto, dada a dimensão minúscula do município. Para ter-se uma ideia, acho que a rua onde moro atualmente (2016), com cerca de 500 metros de extensão, dada a quantidade de condomínios existentes, creio ter certamente o triplo de moradores. Era um salão de festas bem modesto, e a única justificativa para o show não ser realizado no salão de festas de um hotel daquela avenida citada, certamente seria pelo fato deles observarem o caráter de verdadeiras casas de repouso, hospedando pessoas idosas, e onde o barulho, mesmo que houvesse uma proteção acústica, incomodaria de forma absurda.

Segundo o rapaz, haveriam muitos fãs vindos de Piracicaba, principalmente. Assim esperávamos...
Mostrando serviço, Sonia e Toninho sinalizaram com uma entrevista numa emissora de rádio de Piracicaba, onde tinham amizade com um comunicador popular chamado Paulinho Leoni.


Realizamos tal entrevista por telefone do hotel onde estávamos e foi bastante caótica por conta do retorno ruim, que tornou-a quase um "samba do crioulo doido", dada a confusão gerada por perguntas e respostas desconectadas. Mesmo assim, o comunicador que era bastante simpático, esforçou-se para não deixar constrangimentos no ar e levou no bom humor, alguns deslizes cometidos por ambas as partes por conta dessa audição prejudicada.
Assim foi nossa confusa entrevista na Difusora FM de Piracicaba...

Voltamos ao hotel, e após o jantar, fomos em definitivo para o local do show. Realmente, o público era bem pequeno quando chegamos, e era difícil acreditar que aumentaria na hora específica em que começaríamos a tocar. O nome do salão era prosaico..."Pork's", e o público presente no balanço final da noite, contabilizou-se em 60 pessoas presentes. Fizemos o show com a mesma desenvoltura de sempre, evidentemente. E o público respondeu muito bem, mesmo porque, eram poucos, mas animados e entre eles, muitos fãs da nossa banda, vindos de Piracicaba principalmente, mas também de São Pedro, cidade vizinha e outras localidades próximas.

Não havia, praticamente, habitantes de Águas de São Pedro, e várias pessoas disseram-me que ninguém na região acreditou quando surgiu o boato de que tocaríamos ali, pois tal município era considerado na região, uma cidade de e para idosos apenas, buscando o alívio de suas dores reumáticas nos famosos banhos de imersão dos hotéis e nada mais. Bingo ! Disso, até eu já sabia desde criança...
O rapaz que contratara-nos, estava desolado. Devia ter amargado um prejuízo gigantesco por essa aventura maluca, mas como morador da cidade, como não dimensionou a completa inaptidão dessa cidade para promover shows de Rock ?



Fãs de Piracicaba que abordaram-nos, lamentaram profundamente o fato de não ter sido realizado em sua cidade, pois o transporte público entre as cidades, apesar de serem muito próximas uma da outra (cerca de dez kilometros), era deficiente e por isso, inibira uma maior profusão. De fato, Piracicaba é uma cidade de grande estrutura e lá toquei três vezes, com Língua de Trapo (no bonito Teatro Municipal); uma com o Pedra; e outra com o Nudes de Ciro Pessoa, ambas na unidade do Sesc, sendo sempre agradável.
Fiquei com pena do rapaz, pois parecia ser um aventureiro incauto e sem recursos para aguentar adversidades dessa monta, portanto seu sonho de ser um empresário cultural, acabava ali na primeira tentativa.

E senti vergonha também, pois Toninho, após o show, atazanou o rapaz, insistindo para ele marcar um show extra (??!!). Sua argumentação era a de que já estávamos na cidade e por ser uma sexta-feira, o boato desse show animaria os fãs de Piracicaba a comparecer em massa, no dia seguinte... para piorar, em off, dizia-nos que estava quase convencendo o rapaz e que arrancaria mais dinheiro dele. Em sua ótica, devia achar que nós aprovávamos tal tipo de ação predatória, agindo com agressividade em prol de nossos interesses, mas realmente isso constrangia-nos. Na madrugada, conversando no hall social do hotel, lembro-me de eu; Beto, e Edgard, nosso roadie, refletindo sobre a produção equivocada e ficarmos com pena do rapaz, por ter mergulhado nessa loucura, sem ninguém mais experiente que orientasse-o.


Na manhã seguinte, ele cumpriu regiamente sua palavra, pagando o cachet acordado e levando-nos de volta a São Paulo, mas ao contrário da viagem de ida, dirigiu o trajeto inteiro em profundo silêncio, denotando que estava absorvendo o revés. Foi a priori, o único show vendido pelo Studio V, em todo o período em que trabalharam conosco. E o show realizado em dezembro no TBC de São Paulo, foi a única produção própria. Portanto, no cômputo geral de meses de trabalho, somente duas iniciativas, o que era ridículo como desempenho, e ainda mais em se considerando a imensa bravata com a qual impressionaram-nos no início, falando sobre um poderio que ostentavam e que na prática, não passava de um "traque", contrastando com as ogivas nucleares que diziam possuir. Voltando para São Paulo, queríamos respostas mais rápidas e contundentes da parte deles, não só sobre a criação de uma agenda concreta e sustentável, mas pela ausência de sinalização do Miguel, que após a recusa da Warner, não demonstrou mais o ímpeto em estabelecer novas tentativas em outras gravadoras.

E assim foi o show em Águas de São Pedro, num salão modesto chamado "Pork's", perante 60 pessoas, e apesar dos pesares, foi animado. E deixo claro, tal cidade não é adequada para shows de Rock, mas certamente é um passeio que recomendo pela sua beleza bucólica, paz profunda, e rara num mundo moderno cada dia mais estressado.

De volta a São Paulo, soubemos que Miguel não encontrava-se no escritório e que demoraria a voltar, estando em viagem naquele momento. Isso aborrecia-nos, pois a estranha situação de silêncio após a recusa oficial da Warner, era incompreensível para nós. O discurso até abordarmos tal companhia multinacional, era de extremo otimismo e mais do que isso, a certeza absoluta de que entraríamos sem pestanejar no cast da referida gravadora, mas indo além, outras companhias do mesmo porte também eram portas que estavam abertas, e totalmente disponíveis para nós. Portanto, a postergação de uma conversa franca, onde uma nova meta, um "plano B" fosse-nos aventado, causava-nos estranheza absoluta, e além do mais, o discurso sobre ser fácil entrar numa gravadora, e dando-nos ao luxo de escolher, revelara-se uma falácia.

Concomitantemente, a atuação dos produtores Sonia & Toninho deixava muito a desejar e pequenas demonstrações de progressos, mediante alguma pequena conquista de espaço midiático, não seduzia-nos, na medida em que com nossas próprias forças, já havíamos conquistado coisas muito maiores. Nesse imbróglio, pequenos sinais captados sinalizavam que o casal já não tinha um relacionamento muito bom com Miguel, e isso explicava a ausência dele, nas últimas semanas. O cantor português que contrataram em 1986, havia revelado-se exatamente o que suspeitávamos que seria : um embuste. Só meses depois, eu vislumbrei um indício do que havia realmente acontecido nos bastidores secretos do Studio V, lendo a esmo uma nota num jornal, dando conta de que Sonia estava sendo processada, motivada por uma confusão gerada pelo cocktail do português, e do qual já relatei anteriormente. Resumindo : a total falta de visão ao contratar um obscuríssimo cantor, sem eira, nem beira, estourara o orçamento do escritório e isso explicava a estranha forma como na inversa proporção de suas promessas faraônicas, estavam enrolando-nos.

Se nossa insatisfação já era grande no mês de dezembro do ano anterior, imagine agora, quando o baluarte maior do Studio V, parecia estar tirando o corpo fora e convenhamos, era o homem que detinha toda a estrutura física, e o único realmente confiável em termos de possuir entrada no mundo do Show Business. Perdíamos tempo precioso ficando atrelados a esse confuso escritório, que além de não estar impulsionando-nos em quase nada, vivia crise interna e a perspectiva de uma reversão no quadro, era inexistente, eu diria.

Sonia só cuidava acintosamente da carreira do comediante contratado, e estava fortemente empenhada em garantir-lhe um contrato numa nova rede de TV, e de fato, isso acabou acontecendo logo a seguir, com ele indo fazer programa de humor próprio, na TV Bandeirantes, que decidira lançar uma grade baseada no humor popular, contratando dinossauros do gênero, como Ronald Golias; o próprio Agildo, já citado, e Carlos Alberto de Nóbrega entre outros.

Alheio ao baixo astral interno que vivíamos com tal grupo empresarial inoperante, nosso público não sabia de nada disso. A mídia especializada que dava-nos muita abertura, e tratava-nos com enorme respeito e admiração, também não suspeitava dessa situação, e pelo contrário, muitas notas davam a notícia de que assináramos com um grupo forte de empresários, e que a perspectiva era muito alvissareira para nós. As oportunidades espontâneas ainda aconteciam e se por um lado ficávamos animados com isso, por outro, só lamentávamos que teríamos que dar 40% da nossa renda para essas pessoas, a troco de nada, praticamente...
Antes de avançar falando sobre shows no Centro Cultural São Paulo em fevereiro de 1987, abro parêntese para falar de mais uma edição do nosso fanzine, lançado em janeiro do mesmo ano.

Apesar das dificuldades, e agora sem a ilusão de que o Studio V proporcionar-nos-ia recursos para fazê-lo crescer, conseguimos colocá-lo à disposição dos sócios do fã-clube. Por ser trimestral, é claro que ficava defasado sempre e refletia na verdade um outro momento da banda, em suas novidades relatadas. Essa dicotomia em relação ao que anunciávamos e o que sentíamos, é hoje a meu ver, até uma experiência rica para servir de análise a posteriori.
E vendo por um lado prático, a crise que sentíamos em relação a frustração gerada pela inoperância do Studio V, não podia transparecer aos fãs, de forma alguma. Nesse sentido, nossa missão era deixar o astral lá em cima, não contaminando os fãs com preocupações que não concerniam-lhes e acima de tudo, independente de qualquer coisa, ainda acreditávamos muito no nosso potencial e com ou sem Studio V, prosseguiríamos na nossa escalada, é lógico. Sobre o fanzine, eis os seus itens :

1) Rádio - Mais uma leva de programas que haviam executado-nos, e de fato, fora a ação de rádios como a Fluminense FM do Rio, que executava-nos constantemente na programação, muitos programas sinalizavam com execuções sazonais, em diversas emissoras espalhadas por todo o Brasil. Desta feita, programas como Rock Festival, da Rádio Globo de São Paulo, e Rádio Corsário, da Imprensa FM, onde fizemos entrevista, foram destacadas, além de citação da Fluminense, que tínhamos o prazer de exaltar, sempre e nesse caso, tenho gratidão eterna com essa emissora e seu mentor, Luiz Antonio Mello.
2) Um box exaltando a assinatura de nosso contrato com o Studio V, estava na capa, é claro. Com foto de Maurício Abões, um rapaz que estava fotografando-nos desde o show do Palmeiras em maio de 1986, tal ato foi registrado. E no texto, uma apresentação rápida do Studio V, seu staff e nas entrelinhas, está claro que se fosse publicado três meses antes, eu teria escrito outras coisas, inebriado pelas bravatas deles. O texto curto, e de certa forma seco, foi uma implícita forma de dizer que já não acreditávamos mais, e ao mesmo tempo, não deixar transparecer isso aos fãs...
3) Revista - Mais uma geral sobre as muitas publicações em que saíramos, e não posso deixar de destacar uma coisa horrível que escrevi e, só passível de ser desculpada, em se considerando o fato de que tecnicamente, não era eu que escrevia, amparado pelo uso do nome de Eliane Daic, deixando-me oculto como "Ghost Writer".
Bem, pensando no marketing e não na ética, tive que citar o fato de que na entrevista que concedera à revista MIX, nº 5, o jornalista Tony Monteiro havia declarado que eu era o melhor baixista do Rock Brasileiro. Tal afirmação, com esse peso, precisava ser capitalizada em nosso favor, certamente. Portanto, fica essa ressalva, para o leitor desta autobiografia não interpretar-me mal.

4) TV - Repercussão sobre a nossa aventura de ter aberto o indefectível "Menudo", na TV Record, com direito a considerações atribuídas a eu mesmo, e citação dos programas jornalísticos que cobriram o nosso show no TBC.
5) Repertório - Falamos de mais músicas novas que não paravam de surgir no repertório da banda. Algumas, curiosamente, pouco ou mesmo nada figuraram no set list de shows e jamais entraram na lista de cogitáveis para serem gravadas oficialmente. Casos de : "Cigano", "Flores Pessoas", "Ninho do Amor"; Perfume de Almíscar" (essa era bem Hard 1970, estilo Deep Purple).
Citamos também duas que estavam na demo gravada em outubro último : "Trago Você em Meu Coração", e "Desilusões".
E a primeira citação de uma música que faria sucesso nos shows, e entraria no LP The Key, que gravaríamos no final daquele ano : "A Chave é o Show". Não posso deixar de comentar que os comentários engraçadinhos que teci sobre o teor das letras são hilários, mas uma coisa era verdade : o Beto estava exagerando na criação de letras de amor, relação homem / mulher etc. Até em Hard-Rock sem chance de pedir letra pop, ele estava colocando o seu romantismo...

6) Chave Equipe - Anunciamos que estávamos com um novo roadie nos shows, chamado Marquinhos, mas que na verdade, não durou muito na equipe.
7) Shows que rolaram - Os shows no Teatro Mambembe em setembro e o do Festival Setembro Rock de Teresina-PI, foram destacados. Na foto ilustrativa, o histórico momento no camarim do Teatro Mambembe, quando o produtor Celso Barbieri nos mostrava um saco de batatas cheio de notas, numa bilheteria muito "gorda" que tivemos.
8) Fofoca - Aqui eu divertia-me em escrever como o Zeca Jagger (Ezequiel Neves), faria-o...
Registrei que Rubens havia enfrentado um jogador de bilhar profissional numa noitada dessas. Era um tal de Roberto Carlos, que supostamente era respeitado nesse mundo, e no caso submundo, pois a partida fora disputada num boteco daqueles...
Uma visita rápida do Agildo Ribeiro em nosso ensaio foi registrada, também. Outro fato verdadeiro, mas que eu coloquei um "veneno" extra : Edgard, nosso roadie / vendedor de merchandising, encontrou-se com Roberta Close, a transformista mais famosa do Brasil naqueles anos de metade / fim de anos oitenta, numa rua de Pinheiros, bairro da zona oeste de São Paulo. De fato foi verdade, e eles conversaram, mas eu dei a entender que conheciam-se, quando na verdade foi totalmente fortuito, com o Edgard forçando a abordagem e ela respondeu brincando, mas sem dar muita abertura. Pior mesmo, foi o comentário malicioso que deixei : "Te cuida, Edgard, você está dando bandeira, Santa"...
Claro que arrependi-me, mas ele ao ler, levou na brincadeira e não ofendeu-se com a uma insinuação de homossexualismo. Portanto, deixamos assim, quando o fanzine rodou na Xerox. Uma Jam entre muitos amigos de bandas, com o Beto, no Black Jack Bar, ficou registrada. Curioso e lamentável que o nome do Paulo Zinner, baterista do Golpe de Estado, tenha saído grafado completamente errado e nós não percebemos isso !!  Quem era Paulo Sisino ??
Presença de Charles Gavin, baterista dos Titãs no nosso ensaio novamente, também ficou registrada. E para finalizar, foi verdade, camelôs na Avenida Atlântica, no Rio, confundiram-nos com rockeiros internacionais. Cabeludos; pele branca sem bronzeamento, e inteiramente vestidos ali na avenida beira-mar de Copacabana, só podiam ser gringos doidões...

9) Equipamento - Algumas considerações sobre instrumentos & equipamentos, e de concreto, o fato do Zé Luiz ter trocado seu Kit básico de pratos, agora usando "Paiste" em lugar dos velhos "Zildjian" que usava anteriormente.
10) Um fato real, mas que eu aumentei bastante para capitalizar o fato em nosso favor : alguns fãs apareceram na porta do TBC, alguns dias depois de ocorrido o nosso show, tendo confundido a data do show. Nessa nota, disse que mais de 100 fãs, mas é claro que não deve ter passado de dez, e a Sonia disse-nos que isso reforçou o sentimento dos dirigentes do TBC de que havia valido a pena a experiência de um show de Rock nas suas dependências e que mediante tal constatação, estariam dispostos a tornar isso uma constante. Não sei se Sonia mentiu só para animarmo-nos, mas provavelmente sim, pois que eu saiba, o TBC nunca mais promoveu shows de Rock em suas salas.
11) Fã Clubes - Uma nota interessante, eu enalteci o trabalho de um fanzine que lembrava muito o tipo de escrita da imprensa alternativa setentista, chamado "Contracorrente", de Brusque / SC.
Tony Monteiro era colaborador desse fanzine que tinha uma impressão legal de jornal, feito em gráfica e de fato, comentando com o Tony que eu admirei tal publicação por ser uma gota de revival sessenta / setentista em meio ao lodo oitentista, ele confirmou o que eu havia deduzido. Tratava-se de um jornal conduzido por um casal de hippies que haviam buscado uma vida alternativa numa pequena cidade de Santa Catarina, e ainda vibravam nesse astral, incólumes ao baixo astral oitentista generalizado. Que legal !
12) Fãs - Mais um fã que queria conhecer outros fãs e que fundara um fã clube da banda Performance's, de Santo André, e que nós conhecíamos. Seus membros eram legais e seu vocalista, Robson Goulart, era nosso amigo, com a banda tendo dividido palcos conosco em algumas ocasiões, nos anos anteriores.
Encerrando, uma frase lapidar : "A Chave do Sol é a Chave da Vida !!
Bem, tentávamos manter o astral em cima, apesar de nossas apreensões internas naquele instante, final de janeiro de 1987.

Mas um alento surgira no horizonte : o telefone ainda tocava... um produtor ligou para a residência do Rubens e ofereceu-nos cinco dias de mini temporada no Centro Cultural São Paulo. Estava em cima da hora, pois fora um encaixe para cobrir a lacuna de um artista desistente (não recordo-me inteiramente, mas acho que foi Sá & Guarabyra), e seria um "pegar ou largar, responda já"...
Claro que aceitamos...

Com a perspectiva de uma mini temporada, no Centro Cultural São Paulo, animamo-nos bastante e também preocupamo-nos, pois o tempo hábil para fazer uma divulgação convincente, era mínimo.
Já estávamos pensando seriamente em romper com o Studio V, pela inoperância do escritório e mais uma vez, tocaríamos num palco nobre da cidade e sob convite espontâneo, sem a interferência deles, portanto, reforçava-se a ideia de que qualquer que fosse o resultado da bilheteria, ter que doar 40% do montante para eles, era caro demais sob qualquer argumentação plausível. A julgar pelo clima de fim de feira que o escritório apresentava internamente, acreditávamos que a rescisão do contrato seria amigável, sem chance de cobrarem-nos multas, e convenhamos, só faltava essa...

Contudo, em conversa preliminar com o casal, eles deram a entender que estavam surpreendidos com nossa insatisfação e sinalizaram que após a mini temporada no Centro Cultural São Paulo, conversaríamos e eles demover-nos-iam dessa resolução, pois tinham planos & perspectivas para nós etc etc. Conversa adiada pela circunstância, mergulhamos então na tarefa de promover uma divulgação rápida, o melhor que poderíamos fazer, pois queríamos aproveitar ao máximo o fato de termos uma mini temporada nesse palco, que era bem badalado nessa ocasião.
Sonia e Toninho resolveram mostrar serviço e falaram-nos sobre a necessidade de capricharmos mais na divulgação e assim, gastarmos dinheiro. Mas "pero no mucho", sua ajuda seria...
A banda tinha uma pequena reserva de caixa, graças aos cachets ganhos em dois shows que fizéramos fora de São Paulo em janeiro, portanto, numa eventualidade negativa, poderíamos honrar compromissos.

Então arriscando, resolvemos colocar lambe-lambe nas ruas; bancar tijolos em jornais de grande circulação, além de colocar o mailing do fã clube para o correio, que era desde 1984, a nossa mais eficaz fonte de divulgação. Também foi ventilada a necessidade de uma sessão de fotos atualizada. Estávamos usando fotos promocionais tiradas em outubro de 1985, com produção pobre, feitas num estúdio fotográfico de bairro, não acostumado a fazer trabalhos profissionais para artistas, visando publicação na imprensa.

Então, Sonia sugeriu uma amiga sua que costumava fazer portfólio de atores / atrizes, e claro, tal despesa seria descontada da bilheteria da mini temporada. Já que havíamos aceitado arriscar, fomos lá, então...
Foram fotos produzidas num estúdio caseiro da fotógrafa Tereza Pinheiro, no início de fevereiro de 1987. Algumas externas, na rua onde morava, no Jardim Lusitano, bairro que circunda o Parque do Ibirapuera.

Normalmente eu detesto fazer fotos externas, mas essas eu gostei, pois ela soube manter-nos descontraídos e até acho que ficamos com jeito de galãs... bem, ela estava acostumada a fotografar atores de novelas... estava explicado. Tenho já publicado algumas fotos dessa sessão, desde que comecei a descrever fatos do início de 1987. A coloridas, estão escuras, pois só tenho o negativo dos cromos, e as "PB", tenho poucas no acervo, pois a maioria foi usada para alimentar jornais e revistas. E a assessoria de imprensa do Centro Cultural funcionou como nunca dessa vez. Atesto que tivemos muitas notas por conta desse apoio que recebemos, e claro, tudo soma em mutirões de divulgação. Na semana da mini temporada, fizemos também programas de rádio e TV, certamente mais reforços muito bem vindos ao esforço geral.


Fausto Silva e Osmar Santos, os pioneiros apresentadores do Balancê

Na rádio, visitamos novamente os estúdios da Rádio Excelsior de São Paulo, para fazer o Balancê, programa onde havíamos ido inúmeras vezes apresentarmo-nos anteriormente e já estávamos muito habituados a fazê-lo. O formato do programa havia mudado, e não era mais realizado no palco de um teatro de bolso (Teatro Pimpão), com a presença de auditório, e a exótica apresentação do artista dublando no rádio para entreter quem assistia ao vivo no teatrinho. E agora, Fausto Silva já não fazia mais parte, sendo substituído por Oscar Ulisses (irmão de Osmar Santos), um locutor esportivo em começo de carreira na ocasião, muito competente e simpático, mas com um estilo mais comedido e sem a histriônica condução de Fausto Silva.

                                    Oscar Ulisses  

                        A dupla de humoristas, Tatá e Escova
 

Então, mesmo sendo ainda muito descontraído e com humor, pois a dupla de humoristas Tatá e Escova, ainda eram da trupe e faziam suas intervenções debochadas o tempo todo, o programa adotara uma postura mais tradicional, com todo mundo sentado numa mesa oval e falando em microfones. As "sonoras" de futebol ainda intercalavam-se às atrações artísticas e o programa mantinha seu caráter híbrido entre uma revista cultural e programa esportivo, leia-se futebol. Nesse dia em que fomos divulgar a mini temporada no Centro Cultural, havia a presença de artistas bacanas e nós interagimos com eles, numa confraternização bacana. 

O cantor americano de Soul Music, Billy Paul estava presente e sua entrevista com tradutor ao lado, despertou uma imitação debochada dos humoristas, depois que ele partiu, pois havia chamado a atenção o fato de que ele parecia estar embriagado, falando com uma voz bastante estranha, o que sinalizava tal evidência. Portanto, foi um prato cheio para os imitadores. Não resisto à piada, também : Mr. Jones estaria "Drunk" ?
Dona Ivone Lara, a sambista famosa, estava lá igualmente, e foi muito simpática conosco. Logo que viu-nos no corredor da emissora, foi logo falando ; -"bom dia Rockeiros, adoro Rock"...

Beto não fez-se de rogado e respondeu de pronto saudando-a, e um clima muito legal foi instaurado.

Surpreendemo-nos quando esbarramos com Abelardo Barbosa, o popular "Chacrinha", que não participaria do programa, mas circulava pelos corredores da emissora. Foi engraçado vê-lo sério e vestido de forma casual, sem as tradicionais fantasias estrambóticas que usava na TV. Não deu abertura para nenhuma abordagem, e nós ficamos na nossa, certamente. Nossa entrevista foi boa, tocaram "Sun City" na execução musical, e o recado da temporada foi dado.

Quando acabou, eu quis ser coloquial com o Oscar Ulisses fora do ar, e falei alguma coisa sobre um jogador que o Palmeiras estava contratando, mas a reação do locutor foi muito surpreendente. 

Talvez julgando ser impossível que um Rocker cabeludo acompanhasse futebol, ficou olhando-me com uma expressão facial de estupefação por uma fração de segundos, e a seguir desconversou, despedindo-se e agradecendo a presença... vá entender... isso ocorreu no dia 10 de fevereiro de 1987, um dia antes de iniciarmos a mini temporada. E na TV, tivemos uma nova apresentação no programa "Panorama", da TV Cultura de São Paulo. Ocorreu no dia 10, também, uma terça feira.

No estúdio daquela emissora, fizemos uma apresentação ao vivo, e concedemos entrevista. O fato deles terem produzido o clip de "Sun City", motivou exibição de um trecho do mesmo, e uma mini entrevista falando sobre a questão do Apartheid na África do Sul. Claro que também falamos sobre a banda e a temporada no Centro Cultural, naturalmente. As músicas que tocamos ao vivo, foram "Trago Você em Meu Coração" e "Saudade", com boa performance, apesar da reverberação monstruosa no estúdio. Nem preciso dizer o quanto lamento não ter esse material de vídeo disponível hoje em dia, perdido que foi...

No mesmo programa, a então muito jovem atriz, Mariana de Moraes, concederia entrevista, falando de sua atuação no cinema. Ela acabara de lançar o filme : "Fulaninha", que estava causando polêmica ao retratar o flerte entre uma adolescente e um homem maduro de meia-idade, contracenando com atores tarimbados como Cláudio Marzo, entre outros. Neta do poeta Vinícius de Moraes, chamava a atenção pela beleza, e por ser a ninfeta da vez na mídia, rivalizando com Luciana Vendramini, certamente. Mais tarde, tornou-se também cantora.

Lembro-me dela assistindo nossa performance sentada num banquinho alto, com seus pés suspensos no ar e balançando-os ao ritmo das nossas músicas. Nessa época, o Panorama era apresentado por Luciano Ramos e Tereza Cristina. Lembrava-me do Luciano Ramos plenamente, por ele ser jornalista tarimbado e crítico de cinema que tinha larga experiência. Gostava muito de uma sessão de cinema que ele apresentava na mesma TV Cultura, nos anos setenta, onde um mesmo filme era exibido todo dia de segunda a sexta às 23 horas, e na sexta, antes da última exibição, um debate conduzido por ele, com convidados, dissecava a obra. E claro, só clássicos em sua predominância. Então, após ter a chance de ver o mesmo filme quatro vezes, depois do debate dava mais vontade de ver pela quinta vez, com as informações de especialistas repercutindo na cabeça e o filme praticamente decorado. Era visão de cinéfilo, totalmente anticomercial, portanto só cabível na TV Cultura mesmo, e numa época onde a preocupação com o Ibope não era tão avassaladora.

O jornalista / crítico de cinema, Luciano Ramos, em foto dos anos setenta

No caso da jornalista Tereza Cristina, eu também a conhecia, pois entrevistara o Língua de Trapo, quando de minha segunda passagem pela banda, inúmeras vezes. Bem, com esse reforço de rádio e TV, estávamos mais confiantes de que conseguiríamos movimentar um bom público no Centro Cultural São Paulo, para cinco apresentações, de quarta a domingo.

Chegamos ao primeiro dia da temporada, bastante confiantes de que seria boa, pois o local era nobre, com sua localização privilegiada na cidade de São Paulo, acoplada a uma estação de Metrô, e muito perto de ruas e avenidas que dão acesso a várias vias que levam aos quatro cantos da cidade, caso da Avenida 23 de maio, por exemplo.

Era sempre um prazer tocar ali, pela qualidade das suas instalações, equipamento de bom nível, e a badalação que tinha a época, como um dos mais fortes palcos da cidade, com apresentações de artistas consagrados de diversas vertentes da música.

O jornalista que redigiu essa mini matéria, só copiou o release que enviamos, mas criou um primeiro parágrafo seu, não resistindo à tentação de alfinetar-nos, destilando seu veneno oitentista... tirem suas conclusões... 




Fora isso, o prazer de estar em cartaz com cinco dias consecutivos, era total. Na minha concepção, era o ideal como músico e artista, estar em cartaz num teatro e em temporada. Se dependesse de minha vontade, faria só isso, eternamente... sete shows por semana : quarta a domingo as 21 horas + "Sessão Maldita" no sábado, a meia-noite + Matinê no domingo, as 17 Horas.






O soundcheck ocorreu tranquilo, sem atropelos. Trabalhamos com os técnicos da casa e não tivemos problemas. No caso da iluminação, para não deixar passar batido, acho que o iluminador foi um pouco preguiçoso, mas isso é quase uma constante em se tratando de iluminadores que não conhecem o trabalho e portanto, estão sem mapa de luz definido. O ideal é sempre levar o iluminador próprio que sabe valorizar ao máximo o trabalho de uma banda, estabelecendo climas que casam-se com os momentos emocionantes do show, traduzindo portanto em cores, as notas musicais que tocamos. Foram cinco dias muito legais que tivemos ali no Centro Cultural São Paulo.





Pudemos dar-nos ao luxo de promover pequenas mudanças no set list de cada apresentação, e dessa forma, quem pagou para ver um show apenas, teve um espetáculo único, diferente dos outros. E quem viu mais de um, foi presenteado com músicas diferentes, naturalmente.







Uma lembrança engraçada, foi quando Sonia e Toninho disseram-nos que o Agildo Ribeiro estava presente na plateia, no show da sexta-feira. Sabendo disso, fiz uma saudação ao ator / comediante, mas na empolgação, acabei exagerando e meu discurso foi bem além da conta...




Exaltei suas qualidades como comediante e o exagero deu-se quando mencionei que a Rede Globo o injustiçara, e sendo assim, hoje arrependo-me de ter exagerado, entrando nesse mérito, que certamente não convinha naquele contexto.








No camarim, Sonia agradeceu-me pela longa citação ao Agildo, mas contou-me que na hora em que falei ao microfone, ele já havia retirado-se do ambiente...





Certamente não aguentara assistir um show de Rock e saiu para preservar seus ouvidos, talvez indo procurar seu amigo, Topo Gigio, para dizer-lhe boa noite...
Portanto, tremenda gafe duplamente para o meu momento prolixo e inconveniente ao microfone.




Fora isso, não recordo-me de nenhum acontecimento marcante para ser relatado em específico.




Minha lembrança dos shows, é que foram muito bons, com o público respondendo animadamente a nossa performance e também às solicitações de interatividade propostas pelo Beto, principalmente.

Por falar em Beto, ele tocou guitarra nos shows, claro, uma tendência que solidificava-se doravante.



A destacar-se, o visual do Rubens nesses cinco shows, pois numa ação de sua namorada na ocasião, chamada Claudia, deu-lhe uma incrementada no seu visual, como "personal styler", e adequou-o ao visual do Hard-Rock oitentista e americano, sobretudo. Particularmente, achava exagerado e de gosto duvidoso, mas admito que a tentativa foi válida, e aos olhos dos fãs, agradou, pois a imensa maioria que acompanhava-nos na ocasião, eram adeptos dessa estética em voga, no mundo do Rock pesado oitentista.



Devo destacar que nessa época, 1987, o Centro Cultural São Paulo tinha elevado o palco, mediante uma estrutura de ferro dando-lhe sustentáculo. Logo foi descartada, no entanto, com o palco voltando ao piso normal. As fotos acima, demonstram como ficou tal elevação. De fato, isso deixava-nos um pouco mais próximos de quem assistia no mezanino, mas prejudicava bastante a visão de quem pagava para assistir no pavimento de baixo, onde entre outras coisas, a acústica é melhor para assistir-se um show.






O público foi bom, mas creio que aquém do que esperávamos, pois nosso padrão a época era o de casas lotadas. Dois fatores devem ter colaborado para tal resultado mais tímido :
1) A divulgação feita as pressas, e;
2) A diluição em muitos dias, fazendo com que o público perdesse o foco, dando-se ao luxo de escolher suas próprias conveniências, pensando individualmente, é claro. Eis os resultados dessa temporada :
Dia 11 de fevereiro de 1987 - Quarta-Feira - 150 pessoas
Dia 12 de fevereiro de 1987 - Quinta-Feira - 135 pessoas
Dia 13 de fevereiro de 1987 - Sexta-Feira - 280 pessoas
Dia 14 de fevereiro de 1987 - Sábado - 420 pessoas
Dia 15 de fevereiro de 1987 - Domingo - 500 pessoas
Portanto, quase 1500 pessoas na soma dos cinco shows, era significativo, sem dúvida.


Acima, um dos pontos de explosão, prontos para serem usados como pirotecnia do show. Como dá para notar na foto, Zé Luiz sofisticara-o...

E tais números refletir-se-iam na bilheteria, de forma contundente, fazendo-nos lamentar o contrato que tínhamos com o Studio V, por tudo o que já comentei amplamente em capítulos anteriores, e que agora só resta-me relembrar : 40 % desse montante, iria para a mão deles... definitivamente, não queríamos mais essa sangria na nossa vida, e tal situação precisava ser solucionada e rapidamente.




Lembro-me que a bilheteria fora tão expressiva, que pagamos todas as despesas (e nesse show arriscáramos bastante com ações de divulgação caras); demos os 40% do escritório; pagamos os roadies e o que sobrou de cachet para nós foi um montante bastante significativo. Nunca esqueço-me, por conta da hiperinflação no Brasil naquele período, entre 1986 e 1991, tudo o que eu ganhava, trocava em dólares, única forma de preservar a liquidez monetária razoavelmente. Na segunda-feira após o encerramento dessa temporada, fui à casa de câmbio que frequentava na época, e o meu cachet tornou-se algo um pouco além dos U$ 400, ou seja, se não tivéssemos mais a âncora desses empresários a segurar-nos, teríamos ganho quase o dobro, com o mesmo desempenho, e nada dependendo da força de trabalho deles.


Todas as fotos desses shows, são de Maurício Abões, com exceção das duas acima, de Rhadas Camponato. No caso das em preto e branco, deixo a ressalva que foram "scanneadas" de um contato, daí a falta de qualidade acentuada

Portanto, romper era preciso, mas não foi tão fácil livrarmo-nos deles, demandando um pouco mais de paciência e tempo. E assim foi a nossa mini temporada no Centro Cultural São Paulo, em fevereiro de 1987.



Passada a temporada no Centro Cultural São Paulo, passamos por uma fase de muitas mudanças no âmbito interno, e por fatores externos, também. Desde algum tempo, já não estávamos usando o estúdio da produtora, e aqui cabe uma explicação. Não só por estarmos num momento de queixas contra a atuação de nossos empresários, mas havia uma ruptura interna entre eles, também.
Por intermédio da Sonia, soubemos que ela e Toninho haviam rompido com Miguel, e portanto, a estrutura toda do escritório, já não era-nos oferecida, mas na prática, não estávamos mais ensaiando lá, há bastante tempo. Os últimos ensaios haviam ocorrido no início de janeiro, mas nossa insatisfação generalizada para com eles, deixara-nos sem "clima" para frequentar o casarão diariamente e assim, fomos afastando-nos. E agora, sabedores que o Studio V rachara-se, ficamos oficialmente sem um local de ensaio.

Nosso antigo QG e sala de ensaios, em foto de 1983, com Zé Luiz em evidência, e o Rubens encoberto

Rubens ainda tentou readquirir o nosso velho quarto de ensaios, mas sua família já havia-o reformado, e ele agora tinha outro uso para a residência dos Gióia. Além do mais, após quatro anos intensos que tiveram com uma banda de Rock trabalhando diariamente das 15:00 as 22:00 h., e as vezes aos domingos e feriados, também, não era nem justo que voltássemos a incomodá-los. A solução para darmos continuidade ao trabalho, foi caseira também. Beto ofereceu sua residência para ser o nosso novo QG. Ele morava sozinho num sobrado amplo, com vários cômodos, e poderia designar um deles como nossa nova sala de ensaio.

Em termos de condições técnicas, perderíamos a mordomia de um estúdio profissional, como tivemos por poucos meses no escritório do Studio V, mas não seria um drama, pois nossa carreira inteira fora forjada num quarto caseiro, na residência do Rubens, portanto, a falta de recursos de vedação acústica, só seria um problema para a vizinhança. Dias quentes de verão seriam combatidos com ventiladores, como sempre, e o horário de ensaios, nunca desrespeitaria a Lei do silêncio, dando trégua aos vizinhos, as dez da noite em ponto. Sobre equipamento, tínhamos o nosso humilde "P.A." que nos últimos meses descansara na residência Gióia, e reativá-lo seria até romântico, de certa maneira. O único problema sobre a casa do Beto, era o da distância. Morador do bairro Jardim Bonfiglioli, na zona sudoeste de São Paulo, era bem longe para o meu caso, principalmente que morava no Tatuapé, zona leste; e moderadamente para o Rubens, na Vila Nova Conceição; e Zé Luiz, teoricamente o mais próximo, como morador de Pinheiros, na zona oeste. Bem, tínhamos que adaptarmo-nos à nova realidade.

Sobre a nossa associação com o Studio V, queríamos romper, certamente. E agora que o escritório estava fora dos planos, nem precisávamos pedir para sair, mas havia um contrato registrado em cartório e queríamos sair disso, sem pendências jurídicas posteriores. Uma reunião foi marcada na casa de Sonia, e o discurso do casal e também de Arnaldo Trindade, o marqueteiro, é que queriam prosseguir, mesmo sem o Miguel, e daí em algumas notas de imprensa sobre a temporada no Centro Cultural, ter saído o nome do Studio V, e entrado "Carlos Magno e Ferraz Associados" numa referência ao novo escritório que haviam fundado, e que  representar-nos-ia.

Mas nós não queríamos mais trabalhar com eles, e dessa forma, essa continuidade que deu-se de fevereiro até meados de março, na verdade foi um período de transição onde aguardamos a rescisão do contrato formal que tínhamos com o Studio V.  Nessa reunião na residência do casal, queriam convencer-nos a continuar, e o discurso de mais humildade agora, não demover-nos-ia, pois havíamos perdido a confiança. Chegaram a propor que o "Núcleo ZT" tomasse as rédeas da banda, e eles acatariam nossas metas. Ora, era engraçado, pois logo no começo da nossa associação com eles, numa daquelas reuniões preliminares realizadas com o intuito de conhecer nossa organização interna, nós falamos ingenuamente sobre a iniciativa malograda do Núcleo ZT, numa produção equivocada realizada em Bragança Paulista, e o Toninho quase teve um ataque de tanto que riu e debochou disso. Agora a solução era a volta do Núcleo ZT e ele sendo nosso subordinado ? 

Bem, podíamos ser completamente despreparados para lidar com produção, mas nunca contrataríamos Michael Olivier para o nosso "cast", e certamente que não arrancaríamos 40% do cachet de ninguém, e sem uma contrapartida na mesma proporção...
No passado, chegamos a fazer experiências com aspirantes a empresários sem nenhuma estrutura, e o resultado havia sido desastroso. Portanto, tudo o que ambicionávamos naquele instante, era voltar à condição em que estávamos antes de envolvermo-nos com o Studio V, e acima de tudo, recuperarmos o embalo sensacional que havíamos conquistado com nossas próprias forças.

O telefone ainda estava tocando espontaneamente, mas já não naquela profusão de meses antes, portanto, urgia que retomássemos nossa independência e readquiríssemos o fôlego que perdêramos, através da ilusão depositada no Studio V. O marqueteiro Arnaldo Trindade tinha uma fala mansa, recheada de bom senso, e argumentou que apesar dos pesares, seria um retrocesso não termos uma representação profissional doravante. Tecnicamente falando, ele tinha razão, é lógico. Mas na prática, era preferível a estarmos associados a Sonia e Toninho que não tinham meios de  levar-nos a lugar algum pelo seu rol de influências, fora o fato de que não eram confiáveis sob vários aspectos.

A qualquer momento, começariam a trabalhar com outro artista, deixando nossos interesses de lado e usando o pífio argumento de que graças à sua expansão, teriam meios de trabalhar melhor conosco. Uma desculpa pronta e inócua, é claro. Além do mais, podiam ter noção no meio teatral, mas na música, eram desastrosos, e a qualquer momento apareceriam com um novo Michael Olivier, perdendo tempo e dinheiro.


Arnaldo era um sujeito legal. Nessa reunião levou discos e fitas VHS's para assistirmos, tirando a carga de uma reunião tensa. Gostava de som vintage, tínhamos essa conexão bacana. Lembro-me dele colocando o LP "Survival", do "Grand Funk", na vitrola, e nós conversarmos sobre a "vibe" boa perdida no Rock. Assistimos também uma fita VHS de um show do David Bowie nessa tarde, e o teor da conversa foi a mesmo. Ele entendia-nos muito melhor, sem dúvida alguma, mas era um publicitário, portanto sem traquejo e nem mesmo vontade de aventurar-se como empresário. Sua contribuição seria somente no âmbito das ideias de marketing, mas a derrocada do Studio V, não deu-lhe tempo para mostrar nenhum serviço relevante. O que faria com Sonia e Toninho, doravante, seria uma incógnita pela linha de atuação do casal, mas convenhamos, não era nossa preocupação mais. Pressionamos por uma rescisão do contrato e sem ônus, naturalmente, pois não queríamos problemas doravante. E assim deu-se deu, encerrando nossa associação o com o Studio V.

Nunca conversamos formalmente com o Miguel para esclarecermos as coisas. Após o show no TBC, em dezembro, uma única reunião fora feita, e convocada por ele, para analisar o show. Depois disso, novas reuniões que eram super necessárias para estabelecermos novas metas, principalmente no que tangia à busca de outras gravadoras, nunca realizaram-se. Fora um final muito esquisito, portanto, contrastando com todas as promessas feitas, e sobretudo pela ideia alardeada por eles, de que entrar numa gravadora era "fácil" com sua condução e prestígio. Se havia aborrecido-se com a recusa da Warner, e detectado falhas no nosso repertório; material; visual; posturas, ou fosse lá o motivo, era passível de conversas claras para correções, e ação, da parte dele, para batermos rapidamente em outras portas. Mas de forma inexplicável, isso não teve continuidade.

No tocante a shows, era a mesma situação. Em seis meses de trabalho, só haviam produzido um espetáculo, e vendido outro para um contratante, portanto, muitíssimo pouco. O grande mérito dessa associação tinha sido a oportunidade de gravar uma nova demo tape, mas a despeito disso ter sido uma ação concreta positiva, na prática, o trabalho não ficara melhor do que a demo que graváramos em abril com nossos parcos recursos. Se foi por conta disso que a Warner recusara-nos, talvez fosse o caso de voltarmos ao estúdio e fazermos outra demo tape, desta feita com a mão de ferro do produtor, e material não faltava-nos, pois tínhamos muitas músicas novas para escolher a vontade, observando o padrão pop a ser perseguido.

Mas o silêncio de Miguel nesse sentido denotou sua desistência de nós, e levando-se em conta de que estávamos também insatisfeitos com a condução de nossos interesses, não chocou-nos tanto quanto deveria. Fiquei anos sem ter notícia alguma de Miguel. Somente no final dos anos noventa, já na era da TV a cabo a todo vapor, descobri-o com um programa numa modestíssima TV comunitária, que era exibido as sextas, 23:00 horas, e mostrava um Miguel envelhecido, num Talk Show de produção muito simples, entrevistando artistas, geralmente obscuros e egressos da Jovem Guarda, ou da música pop brega em geral.

Apesar de geriátrico e melancólico de certa forma, eu gostava de assistir, pois reconhecia os modos aristocráticos que ainda mantinha, e de fato, nunca nutri bronca pessoal dele por conta dessa associação infrutífera que tivemos. Em março de 2001, eu estava na Patrulha do Espaço. O Junior foi convidado a participar de um debate nesse Talk Show do Miguel, e eu levei-o ao estúdio onde era gravado. Lá, ele participaria junto aos jornalistas Régis Tadeu e Toninho Spessoto, além de Sérgio Dias, ex-Mutantes, e o guitarrista de uma banda alternativa, chamada "La Carne".
Fiquei estupefato, mas Miguel cumprimentou-me, porém simplesmente não reconheceu-me ! Fiquei em silêncio, pois julguei inconveniente levantar tal reminiscência.

Eu e Junior na Patrulha do Espaço, ao vivo em janeiro de 2001

Alguns dias depois, outro convite de sua produção, e agora, eu em pessoa, e Rodrigo Hid, iríamos ser entrevistados por ele em seu programa. Desta vez, não seria possível que não reconhecesse-me, pensei, e comentei com o Rodrigo, certamente. Mas aconteceu novamente...
Tal história está relatada com detalhes no capítulo da Patrulha do Espaço, mais conveniente para retratar fatos ocorridos em 2001, naturalmente. Encerrando, depois disso, assisti-o mais algum tempo nesse programa que levava seu nome, e há pelo menos uns dez anos, não achei-o mais na TV, e perdi noção de seu paradeiro.

Sonia e Toninho ainda tentaram continuar representando-nos, mas após o rompimento do contrato, formalmente, separamo-nos. Só fui vê-la novamente, em julho de 1987, aproximadamente, quando ela  entregou-me enfim algumas fotos promocionais que ainda estavam em sua posse, e que já publiquei em capítulos anteriores. Esse encontro foi marcado numa boite no Rio, em Copacabana, onde ela estava trabalhando. Foi um encontro educado, mas frio e bem rápido. Nunca mais tive notícias dela, posteriormente, e só fazendo pesquisa de internet, caçando possíveis fotos para ilustrar a autobiografia, vi que tem perfil no Facebook, atualmente (2016). Está bem idosa, e se eu achava que estava na faixa dos cinquenta naquela época, deve ser ou estar próxima de ser octogenária, agora.
O artista "quixotesco" Toninho Ferraz, sumiu do mapa. Não achei absolutamente nada sobre ele na Internet. Sobre Arnaldo Trindade, nunca mais tive notícias. Espero que tenha sido e ainda seja feliz. Sujeito do bem.

     Clovis, em foto bem mais atual, e que usa no seu LinkedIn

Clovis, o técnico de som, também nunca mais vi depois que rompemos com o Studio V. Pela pesquisa de Internet, descobri que está bem, sendo dono de um equipamento de P.A., sonorizando shows e eventos em geral por aí. Rapaz legal, fiquei contente em saber que firmou-se como operador de áudio e está bem de vida.
Maria Amélia e seus filhos; a faxineira e o segurança, nunca mais tive notícias. Nem lembro-me dos nomes dos últimos dois que citei, mas recordo-me que o segurança do estacionamento era uma figura, e não escondia de ninguém que achava a namorada do Rubens, bonita. Apelidou-a de "Nikita", por conta de achá-la parecida com a garota no clip da música de Elton John, com esse mesmo nome, e que fazia sucesso em 1986. Tinha razão, a Claudia tinha traços fisionômicos semelhantes com a atriz que interpretava "Nikita", uma linda garota russa. Rubens era esquentado e não gostava dessa liberdade, mas o rapaz nunca extrapolou, portanto, ele suportou essa admiração respeitosa...

Alguns anos depois, o casarão da Avenida Eusébio Matoso foi demolido. Ali, junto aos escombros, nosso sonho de chegar a um lugar ao sol, também ficou nas ruínas...
Machucados pelo desgaste e sem nem a metade da animação que tínhamos antes dessa aventura em jogar nossos sonhos nas mãos erradas, tínhamos só uma saída agora : retomarmos o passo no ponto de onde estávamos. E assim o buscamos, mas perigosamente com o tanque de combustível abaixo da metade, eu diria, pois as perdas pelos fatores emocionais, foram grandes. E assim prosseguimos...

No Centro Cultural São Paulo, em fevereiro de 1987, Dinola e mais uma de suas criações : os óculos iluminados por leds verdes...

Continua...

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