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terça-feira, 30 de junho de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 15 - Tomando as Rédeas Novamente - Por Luiz Domingues

Livres da ação inócua do Studio V, tínhamos perdido muito embalo gerencial, e nosso emocional então, fora o mais prejudicado nesse período. Havíamos depositado muitas esperanças no trabalho deles, achando-os credenciados a dar-nos o empurrãozinho que faltava-nos para chegarmos ao nosso objetivo, que era a ascensão à primeira divisão da música profissional.

Agora, março de 1987, tínhamos que levantarmo-nos, sacudir a poeira e dar a volta por cima, conforme rezava a sabedoria de Paulo Vanzolini. E mesmo sem a grande animação que norteava-nos no ano anterior, ainda tínhamos forças, e o telefone ainda tocava espontaneamente para nós.

Logo de início, tínhamos a chance de dar um pontapé para essa nova retomada. Numa nova investida no Teatro Mambembe, fizemos um bom show, aliás bem animado, apesar de ter um público aquém do que estávamos acostumados a reunir nesse mesmo espaço.
 
Num patrocínio de última hora, inédito e bem vindo, uma tradicional loja de instrumentos no centro de São Paulo, possibilitou-nos bancarmos um tijolo no Jornal da Tarde   

Aconteceu no dia 19 de março de 1987, com cerca de 180 pessoas na plateia, portanto a metade da lotação oficial do teatro, mas havia uma razão mais ou menos plausível para não termos lotado o teatro : em pouco mais de um mês antes, tínhamos feito uma mini temporada no Centro Cultural São Paulo, portanto, era um motivo razoável. Mas novas frentes apareceram, com boas oportunidades apresentando-se rapidamente, e seria uma chance boa de retomarmos o nosso embalo. Seriam cinco shows que faríamos em abril, dois em teatro, na cidade de São Paulo; um no Rio de Janeiro, e dois na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte do estado de São Paulo.

Primeiro, tínhamos então duas datas no Teatro Arthur Azevedo, um teatro muito bonito e bem estruturado no bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo, e onde já havíamos feito dois shows em 1985. Naquela ocasião, foram datas ofertadas pelo empresário Mário Ronco, no embalo da formação da "Cooperativa Paulista de Rock". A Cooperativa implodiu rapidamente, mas os shows aconteceram e foram bacanas (ler em capítulos anteriores). Agora, voltaríamos ao teatro do simpático bairro da Mooca, com mais duas datas. Era mais um agito muito legal que teríamos em compartilhamento com outras bandas, revivendo de certa forma, muitos shows em conjunto que fizemos, principalmente entre 1984 e 1985.

Seriam quatro dias, com a participação de bandas amigas como o "Salário Mínimo"; "Golpe de Estado", e "Centúrias" com a primeira ideia sendo que as quatro bandas revezassem-se na formação de duplas para compartilhar shows a ser realizados de quinta a domingo.

Mas esse entrelaçamento teve problemas para ser construído, pois cada banda apresentou dificuldades advindas de suas agendas próprias, e sendo assim, visando não atrapalhar a logística de cada uma, chegou-se a um arranjo final que privilegiou-nos, mas apesar disso, não era a nossa intenção fazer isso maquiavelicamente para obter vantagem. Contudo, os compromissos de cada banda, levaram a esse arranjo.

Não podíamos tocar no domingo, pois tínhamos show no Rio de Janeiro, nesse dia. E outras bandas não podiam tocar na sexta e sábado, pois tocariam em outros locais, também. Portanto, acabamos ficando com as datas consideradas melhores, e sem companhia para compartilhar a noite. Foram shows bons, no padrão que tínhamos normalmente, com público respondendo bem, e em bom número, mesmo considerando-se que tínhamos feito cinco shows no Centro Cultural São Paulo, bem recentemente, dois meses antes, e ainda mais próximo, um no Teatro Mambembe.

É uma lástima... mas não tenho uma só foto desses shows. E shows feitos em teatros, não podem deixar de ser registrados, jamais. Ainda mais num palco tradicional como os dos teatros municipais espalhados pelos bairros de São Paulo, com estrutura super bacana, contendo palco amplo, luz de qualidade etc etc. Portanto, uma pena não haver registros fotográficos de dois shows realizados num teatro bonito, com a possibilidade das fotos ficarem com jeito "Book Tour" de bandas internacionais. No dia 10 de abril de 1987, contamos com 80 pessoas na plateia; e no dia seguinte, 11 de abril de 1987, foram 170 pessoas. Fomos descansar após o show da noite de sábado, pois nossa logística foi a de viajar para o Rio bem cedo no domingo, com a intenção de chegar na hora do almoço, e poder relaxar antes do soundcheck no local do show.


Saímos de São Paulo não muito cedo, como planejamos, porque o cansaço de termos feito dois shows em teatro, seguidamente, abateu-nos, certamente. Mesmo assim, não chegou a ser uma perda de tempo desastrosa, mas apenas a questão de eliminar a chegada ao Rio de Janeiro com mais calma, e assim, deixando a perspectiva de um almoço tranquilo, com direito a "siesta", bem remota...
Chegamos bem ao Rio, almoçamos bem rapidamente nas cercanias do Canecão, e entramos no espaço onde funcionava o "Caverna II".
Uma semana antes do show, soubemos que o idealizador do espaço, um rapaz chamado Raul, havia falecido de forma chocante, pois tinha apenas 28 anos de idade e fora vitimado por um ataque cardíaco fulminante. Portanto, sabíamos que haveria uma comoção por conta disso entre músicos; jornalistas; e frequentadores do espaço, e claro que chateamo-nos também. Todo o arranjo desse show correu nesse sentido, e o pessoal das bandas "Azul Limão" e "Dorsal Atlântica", que também participariam, empenharam-se para tudo sair a contento, com a homenagem ao rapaz concretizando-se da maneira que ele mais gostava de fazer, ou seja, produzir shows de Rock. O clima de comoção era total, naturalmente, mas havia também uma vontade muito grande da parte de todos, incluso nós, que nem muita amizade e convivência tínhamos com o Raul, de fazer desse evento uma celebração em sua homenagem. E de fato, foi mesmo.
Jornal Contracorrente, de abril de 1987, publicou resenha de um de nossos shows no Centro Cultural São Paulo, em fevereiro

A casa lotou, com cerca de 800 pessoas presentes, as bandas fizeram boas apresentações, e claro que houve discursos em memória do rapaz, muito precocemente falecido. Não tivemos problemas com o calor desta vez, como houvera acontecido no ano anterior, levando Zé Luiz a um desmaio em pleno palco. O relacionamento com as bandas cariocas era ótimo, e fomos muito bem tratados, por ambas. O público carioca também respondeu de forma excepcional, exatamente como houvera sido em 1986, quando de nosso primeiro show ali mesmo naquele espaço.
Uma citação à nossa banda, como dentro do rol de clientes de Hélcio Aguirra, guitarrista do "Golpe de Estado", que também era um dos melhores técnicos em amplificadores de São Paulo. Revista "Mix", em sua edição de número 10

No cômputo geral, foi um excelente fim de semana para nós, e fez-nos lembrar de nosso embalo pré-Studio V, levando-nos a acreditar que estávamos retomando o fôlego. A outra irmã do Zé Luiz que morava no Rio, Eliane Dinola, esteve presente, e era sempre uma entusiasta da banda e seus progressos. Nessa noite, após o término do show, vendo-nos bem cansados pela maratona de shows e viagem no meio dessa logística, ofereceu-nos seu apartamento em Ipanema, para descansarmos e seguirmos viagem no dia seguinte, em melhores condições. Aceitamos a gentil oferta, e na contrapartida, a convidamos para jantar conosco. Fomos ao Sagres, da Gávea, restaurante que eu frequentava desde minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, em 1983 / 1984. Ali no animado jantar, a Eliane Dinola disse-nos que não conformava-se com a história de nossa rejeição pela Warner, diante de tantos indícios de que entraríamos, graças as evidências que cercavam nossa ascensão na carreira, e também pela associação com o Studio V, e seu suposto poder de influência nesse meandro da indústria fonográfica. Então, ela propôs que nós a deixássemos intervir, apresentando-se como nossa nova produtora. Ela queria fazer uma nova investida por sua conta e mesmo sem ser do ramo, convenceu-nos em dar-lhe essa chance, por alguns motivos básicos, entre eles : 
1) Tinha boa articulação; 
2) Forte poder de persuasão, por ter experiência em vendas;
3) Carisma pessoal;
4) Era uma mulher muito bonita.

Bem, ela tinha todos os atributos citados, mas não ser do ramo podia ser problemático nesse tipo de abordagem, contudo ponderamos : a Sonia tinha experiência em produção teatral, mas no campo da música, não sabia nada, mal sabendo distinguir um embuste como Michael Olivier, o cantor brega que contratara, em comparação com um artista sério. Portanto, falta de conhecimento técnico do assunto, não seria o maior empecilho, mas por outro lado uma mulher charmosa e bonita, com "lábia" de vendedora, poderia surtir efeito... portanto, por quê não mais uma tentativa ?
Publicada em fevereiro de 1987, essa reportagem repercutia os melhores shows de 1986. Citou três shows nossos marcantes na ótica deles, e cometeu uma gafe, ao publicar uma foto da banda ao vivo, mas de 1984, com a figura de Chico Dias, como vocalista, portanto, algo bem defasado nessa altura de 1987... 

Outro ponto, quem garantia-nos que na ocasião da recusa da Warner, fora o Liminha em pessoa que vira o material e vetara-o ? Pode ter sido um "aspone", cuja função era filtrar abordagens de aspirantes, e não tomar assim o tempo do produtor mais requisitado da companhia...
Então, loucura ou não, aceitamos a proposta e deixamos um material completo com ela, e demos-lhe instruções bem básicas para seguir. Ela não precisava entender de arte; música; Rock'n Roll, tampouco os desdobramentos de tudo isso. Precisava apenas envolver a pessoa com seu poder de persuasão e convencê-la que o "produto Chave do Sol" era bom, rentável e já tinha um nome respeitável no mercado, aliás, sem apoio algum de uma gravadora major. Na cronologia, volto a abordar esse assunto, falando do seu desenvolvimento, que de fato, ocorreu, provando que ela tinha razão num aspecto : tinha seu poder de conseguir ao menos que ouvissem-na, ultrapassando a barreira da recepção no escritório...

Quando saímos do restaurante e entramos no carro do Zé Luiz, o lendário Dodge Dart, uma viatura da polícia abordou-nos ainda nas imediações da Rua Marquês de São Vicente, perto do Shopping da Gávea.

Era uma abordagem de rotina em princípio, mas o policial militar começou a engrossar quando notou que não havia motivo para enquadrar-nos em absolutamente nada. Então, ele achou uma "irregularidade", baseada no código de trânsito brasileiro...
Olhando de forma cínica para o Zé Luiz, perguntou-lhe quantas pessoas deveriam ocupar os assentos daquele automóvel, segundo constava no documento. Estávamos em seis, isto é, os quatro membros da banda; nossa produtora Eliane Daic, e a irmã do Zé Luiz, Eliane Dinola. Mas no documento, estava escrito que o carro comportava cinco passageiros, e o sujeito apegou-se nessa argumentação. Só que o velho Dodge Dart tinha dois bancos inteiriços, ou seja, cabia três pessoas em cada banco. Bem, a discussão sobre o óbvio baseado na física em termos de espaço, versus capacidade declarada no documento, esquentou, até que a irmã do Zé Luiz deu um basta na situação, e conclamou o valoroso policial a deixar-nos em paz, encerrando tal insistência em querer  enquadrar-nos por algo tão discutível, mas claro, usando uma argumentação mais sólida, eu diria, que demoveu-o da ideia de conduzir-nos à delegacia por conta disso. No dia seguinte, partimos para São Paulo em tranquilidade, e animados com outra perspectiva que surgira para cumprirmos no mês de abril, mas essa história tem desdobramentos e que havia iniciado-se alguns dias antes, inclusive, de fazermos esses três shows que descrevi neste capítulo.


Estávamos escalados para fazer dois shows na cidade de Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo. Seria aniversário daquele município e a prefeitura local queria promover uma grande festa, com um palco montado numa de suas praias, e com isso havia a promessa de que arrebataria uma grande multidão.
Bem, isso por si só, já era sensacional e ajudava a dar-nos a sensação de que estávamos recuperando rapidamente o fôlego, após o rompimento com o Studio V, e a enorme frustração gerada pela falsa expectativa criada por parte dessa produtora, de que seria "fácil" o nosso encaminhamento ao mundo mainstream por intermédio deles. Porém, não tratava-se apenas de uma boa oportunidade para fazer um show para uma multidão, porque envolveu uma série de desdobramentos de bastidores, que a nosso ver, eram ainda mais interessantes. Tudo começou ainda no final de março, quando os amigos da banda "Proteus", que era uma banda que despontava no cenário do Hard-Rock paulistano oitentista, alertou-nos que a gravadora "BMG-Ariola" estava abrindo portas para o Rock pesado e eles (e muitas bandas), estavam levando material para avaliação nessa gravadora, onde não havia "frescuras" e filtros, portanto, era uma porta abrindo-se. Claro, a BMG-Ariola tinha sido muito grande na história da indústria fonográfica brasileira, mas naquela época, estava aquém de algumas concorrentes suas do mercado e dava até para entender que não tendo naquele instante, o mesmo status de outrora, estivesse com uma proposta mais humilde e aberta a receber artistas off-mainstream para avaliações mais democráticas e sem contaminações de tráfico de influências, como outras majors que estavam por cima no ranking, naquele instante.
O saudoso Alex, baixista do "Proteus", um bom amigo que deixou-nos precocemente.
Joe Moghrabi e Ciro Bottini, outros membros do Proteus, também. Joe embrenhou-se no mundo do virtuosismo do Jazz-Fusion, após o término das atividades dessa banda, e é muito respeitado nesse meio, e também no mundo didático da guitarra nos dias atuais. Quanto a Ciro Bottini, é um apresentador de sucesso, há décadas, no canal "Shoptime", braço comercial dos canais Globosat.

Sabedores disso, e com material na mão pronto para ser entregue, corremos para o escritório da BMG-Ariola, e o contato inicial sugerido pelos amigos do Proteus, não era com o diretor de repertório, mas um divulgador de obras da empresa, conhecido por um apelido sui generis : "Bip Bip" (Marco Correa, era o seu nome real). 
Esse rapaz, era experiente no meio, conforme apuramos, trabalhando na empresa há anos como divulgador, e para quem não conhece a hierarquia na indústria fonográfica, o cargo de "divulgador" era muito importante na estrutura dessa indústria. Eram os responsáveis para espalhar os discos produzidos pelas empresas em todas as emissoras de rádio; TV e imprensa escrita, promovendo os artistas e sua obra. Antes mesmo de criar-se departamentos de assessoria de imprensa internos, as empresas delegavam aos seus divulgadores tal função e por décadas, eram os divulgadores que agendavam aparições dos artistas nos programas de TV; entrevistas nas emissoras de rádio, e na imprensa escrita.
E a "cereja do bolo" para tais profissionais, era garantir a total distribuição dos discos nas emissoras de rádio de todo o Brasil, garantindo a massificação da obra, e houve época, que isso era TUDO na vida de um artista...
Nos anos oitenta e no caso, já caminhando para o final da década, essa logística já conspurcava-se, pela cada vez maior presença da instituição vergonhosa do "Jabá", portanto, o poder de influência pessoal dos divulgadores, estava diminuindo, fazendo com que seu papel estivesse sendo reduzindo drasticamente, remetendo-os à uma condição de simples office-boys, para levar o material às rádios, pois a execução ou não das "músicas de trabalho" de seus artistas, estava condicionada a outro tipo de acordo de bastidores, digamos assim, de forma amena...
Bem, feita essa breve explicação, "Bip Bip" era um divulgador experiente, apesar de ser ainda jovem, aparentando ter "trinta e poucos anos" na ocasião. 
Esse exótico apelido, remetendo ao intrépido personagem dos desenhos animados (a ema "Road Runner", oficialmente em inglês, mas também conhecida como "Papa-Léguas", ou "Beep Beep" pelo ruído que emitia, e aportuguesado para "Bip Bip"). Ele tinha esse apelido, pelo motivo de ser um sujeito elétrico tal como a ave do desenho animado, além de muito magro fisicamente, também uma característica da personagem. Bip Bip era um rapaz receptivo, falante e muito elétrico conforme constatamos quando o conhecemos pessoalmente. Bastante objetivo e sem nenhuma afetação por trabalhar e conhecer os meandros de uma companhia fonográfica de porte, era simples; humilde; acessível, portanto, e convenhamos, algo raro, entre funcionários dessa indústria que tinham "Síndrome de Bozó", geralmente, pelo uso do crachá ostensivo pendurado no pescoço, e atitude arrogante, decorrente.
Nessa conversa preliminar que tivemos com ele (eu e Rubens fomos nessa primeira abordagem), falou-nos que antes de mostrarmos o nosso material para o diretor de repertório da empresa, tinha uma proposta a fazer-nos. A Rede Bandeirantes de TV iria transmitir ao vivo, um grande show a ser realizado numa praia de Caraguatatuba, organizado pela prefeitura local, em comemoração ao aniversário daquela cidade praiana. Não haveria cachet, mas a exposição midiática advinda, seria um tremenda oportunidade de investimento na carreira, e mais que isso, a gravadora veria com "bons olhos" quem dispusesse-se a participar. Claro, não haveria despesas e toda a infraestrutura estava garantida, com hotel confortável; restaurante; transporte, e a garantia de que o equipamento de som e luz seria de grande porte, com uma empresa top no mercado, contratada para garantir tal qualidade técnica.
Bem, não vivíamos mais a euforia total de 1986, e estávamos reconstruindo-nos naquele instante, portanto interpretamos isso tudo como uma grande oportunidade. Além do mais, independente do esforço extra e quase prosaico que a irmã do Zé Luiz faria para tentar mais uma abordagem na Warner, se a BMG-Ariola estava abrindo portas, nossa obsessão pela Warner ou outras gravadoras que gozavam de maior prestígio na ocasião, deveria ser repensada, numa nova mudança de rota. Dessa maneira, aceitamos participar do evento Estreitamos portanto o contato com o popular "Bip Bip", que tornou-se um amigo, afeiçoando-se à nossa banda. Tivemos várias reuniões e lembro-me dele presentear-nos muitas vezes com LP's de divulgação do estoque excedente da empresa. Geralmente eram pastiches pop oitentistas, mas procurando, ele achava algo mais palatável aos nossos ouvidos rockers...
Por exemplo, tenho um LP solo do Bryan Ferry (Bête Noire), até hoje na minha estante de velhos vinis (e sendo franco, apesar de eu ser muito fã do "Roxy Music", banda britânica setentista onde ele fora componente e de sua carreira solo, esse disco em específico, apresenta um pop oitentista bem insosso). Ele ouviu a nossa demo e gostou do material. Achava que tinha potencial pop, sim, mas não dependia dele a aceitação. Após o show de Caraguatatuba, Bip Bip honrou sua palavra e agendou uma entrevista direta com o diretor de repertório, portanto o homem que dava o aval para contratações de novos artistas. Mas antes, preciso falar dos shows de Caraguatatuba, que acrescentou diversas histórias paralelas ao anedotário da banda...

Os shows estavam marcados para os dias 19 e 20 de abril de 1987, mas a viagem foi marcada para o dia 17, dois dias antes. Queriam que estivéssemos lá com tal antecedência, alegando que a logística da TV previa ajustes, com soundcheck antecipado etc e tal. Viajamos juntos num ônibus da prefeitura de Caraguatatuba, em clima de muita descontração, lembrando a euforia de uma excursão escolar. Fomos direto ao hotel que hospedar-nos-ia e constatamos não ser nenhum hotel de luxo, na verdade, era bem simples, sem qualificação de estrelas da Embratur. Tudo bem, estávamos ali a trabalho e não arrancar-nos-ia pedaços ficarmos quatro dias hospedados sem mordomias inerentes de um hotel mais categorizado. Fomos instruídos pela produção a descansarmos e aproveitarmos o tempo livre da maneira que quiséssemos, e claro que a maioria foi para a praia, cerca de quatro quarteirões dali do hotel, e eu fui um dos únicos que preferi colocar minha leitura em dia, aproveitando para ler um livro que levara na bagagem. Nunca gostei de praia, portanto, não apetecia-me tal perspectiva. Meus companheiros da Chave do Sol e diversos colegas de outras bandas falaram-me que foram ver o palco, naturalmente. Na quinta-feira, já estava inteiramente pronto, e a equipe do equipamento de som e luz, montava o enorme P.A., a todo vapor. Estavam animados, portanto, contando-me que os shows deveriam ser com grande estrutura. Que bacana, o sacrifício de fazer dois shows sem cachet, alimentando a tal ideia de um "investimento de carreira", parecia estar justificando-se, enfim.


Naquela noite, aconteceu uma coisa engraçada naquele hotel e digna de ser contada... o “Proteus” havia contratado um rapaz chamado Calil, que era conhecido no meio Rocker de São Paulo por ser um especialista em efeitos pirotécnicos para shows. Era contratado por muitas bandas que eu conhecia, mas o “Proteus” tinha-o como quase um funcionário fixo, pois era estratégia da banda ter efeitos visuais, sempre. Tal banda era muito influenciada por bandas que usavam e abusavam de tais expedientes cênicos, notadamente o “Kiss”. Para muita gente, inclusive, o “Proteus” era apelidado informalmente como o "Kiss brasileiro", por conta de seus shows cheios de pirotecnia. Muito bem, feita essa explicação, digo que o Calil estava ali com um container lotado com materiais, para trabalhar nos efeitos e resolveu fazer testes de suas criações para os shows do “Proteus”. Só que não dimensionou o óbvio, ou seja, o local e o horário, sobretudo, que escolheu para tais experimentos, que eram absolutamente inadequados !!
Por volta de meia noite e meia, ouvimos uma sequência de explosões que parecia que o prédio estava ruindo. Funcionários do hotel rapidamente mobilizaram-se e descobriram que tais explosões ocorreram na laje superior do edifício, e chegando lá, flagraram Calil com seu material...

E por falar em artefatos, olhando de perto, dava medo e faria um oficial do Corpo de Bombeiros desesperar-se... tudo parecia precário, feito com latas de tinta; pequenas latas de achocolatados; tábuas de madeira com fiação suspeita, botijões de gás de cozinha etc. Apesar disso, atesto que nos shows, os efeitos eram incríveis visualmente falando, dessa forma, em nada ficavam devendo a bandas internacionais que usavam tal expediente cênico. Lembro-me de ter visto um show do “Proteus” no Teatro Mambembe, com chuva de prata; chamas altas; cascatas de fogo etc etc...
Apaziguados os ânimos no hotel, fomos descansar para o dia seguinte.
No almoço do dia seguinte, os organizadores do show, gente da prefeitura de Caraguatatuba, fizeram questão de que todas as bandas estivessem juntas, numa confraternização. Não era um evento fechado no entanto, e assim, o restaurante estava lotado de clientes alheios à esse acontecimento, muitas famílias, com crianças e idosos nas mesas, naturalmente. Quando chegamos, claro que um bando de cabeludos chamou a atenção inteiramente no salão. Normal, todos estávamos acostumados com esse choque social ainda existente na sociedade brasileira, apesar de anos e anos de homens de cabelos longos sendo absorvidos pelos meios de comunicação, Pós Movimento Hippie, bandas de Rock etc etc. Eram membros de bandas como o “Inox”; “Golpe de Estado”; “Proteus”, e nós da Chave do Sol. Não havia nenhuma banda de outra estética, o que aliás era engraçado, pois teoricamente seria um festival popular, e a escalação de bandas da cena pesada e todas off-mainstream, incluso o “Inox”, que teoricamente era do “cast” de uma gravadora “major”, mas na prática habitava o underground como todas as demais, causava estranheza, portanto. Apesar da fama de Rockers serem extravagantes, ali ninguém estava comportando-se de forma a chamar a atenção por algum motivo fora do padrão e dessa maneira, o objetivo era só almoçar, sem nenhum transtorno ao estabelecimento ou aos seus clientes, de forma alguma. Mas nem todo mundo estava imbuído desse espírito "zen" e algo engraçado aconteceu. Sentei-me na imensa mesa, entre Hélcio Aguirra e Rolando Castello Junior. Lembro-me do Hélcio falando-me que o Junior estava "quieto demais", e a qualquer momento poderia "aprontar" alguma maluquice. Ele era da velha escola Rock'n Roll, pronto a cometer alguma extravagância, no melhor estilo Keith Moon... e não deu outra... poucos minutos depois, ele, Junior, olhou-me e disse : -"ô, português... duvida que eu suba nessa mesa e dê uma volta nela ? Respondi-lhe de pronto : -"é claro que não duvido".
Pensei que com isso, sentisse-se desestimulado a fazê-lo, pois sua pergunta tinha a intenção clara de jogar a isca para que eu lançasse um desafio para ele, mas não o fiz. Porém, não foi o bastante, e mesmo assim, ele levantou-se; subiu na mesa, e soltando alguns palavrões, foi de uma ponta até a outra, chamando a atenção do restaurante todo. Vários clientes revoltaram-se e chamaram o gerente do restaurante para exigir uma advertência, quiçá a expulsão dos cabeludos indesejáveis. O gerente veio pedir-nos mais moderação, mas logo foi convencido de que aquilo fora uma brincadeira isolada e que no cômputo geral, estávamos portando-nos de forma educada, portanto, seria melhor não tomar providências mais drásticas. A partir do terceiro dia na cidade, convidaram-nos a não mais chegarmos em grupo, e não usarmos uma mesa só, como uma maneira de dispersar a possibilidade de promovermos novos tumultos... de certa forma, foi engraçado sentirmo-nos como colegiais sendo monitorados no refeitório da escola...
Não houve soundcheck... alegando atrasos na montagem do equipamento, fomos informados que os shows seriam feitos sem nenhum preparo, e claro que num equipamento daquele tamanho e palco imenso, isso era muito temerário. Além da estranheza de fazerem um show popular na praia, gratuitamente, é claro, a inexistência de artistas desse apelo, gerava muita estranheza entre nós. O Brasil não havia mudado da noite para o dia, para acreditarmos que um Festival de Rock ocorresse numa praia com aquela estrutura toda e cobertura de TV, ainda por cima com quatro bandas off-mainstrean. Então, ficamos sabendo de última hora, que uma atração popular estaria presente também. Tratava-se de Donizete, um cantor sertanejo que tinha popularidade em programas de TV e rádios AM que atingiam tal público e mesmo ainda numa época onde as tais duplas sertanejas não haviam dominado de forma predatória, o mercado e a mídia. Bem, nesse caso, causava ainda mais estranheza que um artista popular estivesse em meio a quatro bandas de Rock pesado. Em suma, seria um festival muito legal por toda a estrutura, mas não entendíamos qual era a real intenção de seus organizadores, mesmo porque, havia a questão da transmissão na TV. Pensando friamente, como marqueteiro, não teria sido melhor escalar bandas que fossem mais palatáveis ao gosto popular ? O "Rock" poderia ser de outra estirpe, praticado por bandas emergentes e independentes como nós, mas que não fossem contratadas de gravadoras majors, porém na onda do BR Rock 80, ou seja, aceitariam igualmente tocar de graça, em troca do tal "investimento de carreira"...
Bandas como as nossas, e num festival que não fora planejado para ser especificamente destinado ao nicho de público habitual que acompanhava-nos, parecia-nos muito estranho, ou talvez um sinal de que os boatos que ecoavam pelos cantos desde 1984, estava para acontecer, com o Hard-Rock tendo sua vez, enfim. Todavia, gatos escaldados que éramos naquela altura, era difícil acreditar nisso...

Uma rara foto desse show de Caraguatatuba em abril de 1987. Zé Luiz tocou num praticável muito alto, acima das cabeças dos amplificadores, num padrão de festival internacional, portanto. Click do nosso saudoso roadie, Eduardo Russomano, com uma máquina Polaroid

No dia do show, dava para sentir que a expectativa na cidade era alta, e apesar de não haver muitos artistas populares escalados para apresentar-se, tudo levava a crer que haveria uma multidão na praia. Ao final da tarde, um micro ônibus da prefeitura foi disponibilizado para levar as bandas, e quase todo mundo quis ir logo e acompanhar a maratona toda, a ficar no hotel esperando a vez de tocar. Quando descemos, uma enxurrada de adolescentes cercou o ônibus, com canetas e papel a mão, caçando autógrafos de todos que desciam. Mas ninguém iludiu-se com tal assédio, pois falavam aos gritos uns para os outros : -"quem é esse aí" (?), assim que recebiam o autógrafo, denotando não conhecerem ninguém, nem mesmo o Donizeti, supostamente um artista popular. 
Lembro-me bem do saudoso Hélcio Aguirra comentar comigo : -"veja o que enfrentaremos daqui a pouco... nem sabem quem somos"... 

O cantor sertanejo Donizeti estava conosco nessa comitiva, e parecia tímido em princípio, mas logo foi ambientando-se entre os Rockers. Ele era gente boa, e nós apreciamos a sua humildade ao conversamos com ele. Dizia-nos que estava bastante temeroso em enfrentar um público possivelmente Rocker que detestaria-o, mas nós o tranquilizamos, dizendo-lhe que não havia indício algum que aquele público fosse dessa característica, e que também tínhamos dúvidas sobre a mesma questão, mas de maneira inversa, ou seja, que fosse uma massa popular avessa ao Rock e hostilizasse-nos.
Tudo era obscuro para todos naquele momento pré-show, gerando especulações as mais estapafúrdias. No backstage, tudo era simples, com um camarim improvisado como tenda de circo, mas com saletas individuais, para cada banda, portanto, bem organizado. A multidão já era enorme ao cair da tarde, e a temperatura amena, talvez um pouco fria para os padrões dos habitantes da cidade, acostumados com o típico calor daquela cidade praiana. Donizeti foi chamado ao palco e subiu, corajosamente eu diria, pois tinha a noção que estava sendo "open act" de quatro bandas de Rock pesado e ao contrário, faria uma apresentação intimista e acústica, na base da voz e violão.

Infelizmente, foi bastante hostilizado pelo público, e alguns mais abusados, insistiram em arremessar bolas de areia comprimidas em sua direção. Ficamos chateados com tal atitude, claro, pois era um artista tentando dar o seu melhor ali em cima, e independente de gostar ou não, a hostilidade era descabida e vergonhosa.
Sérgio Ricardo quebrando o violão em 1967, por protesto às vaias que recebia no Festival de MPB da TV Record. Ou, poderíamos dizer que era "moderno pacas", e quebrava violões como contemporâneo de Pete Townsend...

Ele seguiu em frente, fez seu set sem cortes e ao sair, mesmo chateado com a recepção deselegante com a qual fora tratado, mostrava-se resignado. Nós o cumprimentamos pela coragem, e principalmente por não esmorecer ou tampouco perder a cabeça e responder com revolta ao microfone etc. Nem todo artista tem esse sangue frio numa situação dessas, vide Sérgio Ricardo no Festival de MPB, da TV Record em 1967...
Hora das bandas de Rock e o Proteus foi chamado ao palco. Seu show era energético, com os três membros da linha de frente exercendo uma mise-en-scené no mesmo patamar de bandas internacionais de Hard-Rock oitentistas, mas com o "Kiss", como inspiração máxima. Com o apoio das explosões do Calil, Ciro Bottini & Cia. divertiram o público que respondeu com gritos e aplausos.

Ficamos todos mais relaxados, pois ficou claro que o público queria diversão e mesmo não sendo Rocker em essência, estava gostando da farra e não haveria de ser diferente com as demais bandas, também. Com P.A. de grande porte e luz, tinha a infraestrutura de um show internacional feito em estádio, portanto, a pressão sonora estava muito forte. O Golpe de Estado estava escalado para tocar a seguir, mas o vocalista Catalau não estava presente. Os outros três membros haviam viajado conosco na comitiva, mas Catalau não dera sinal de vida até então, embora estivesse ciente dos compromissos. Numa época onde não existiam telefones celulares, eles podiam apenas torcer pela chegada do seu vocalista. Diante dessa situação, fomos tocar e demos-lhe assim mais tempo para que sua situação interna desagradável fosse solucionada. Quando subimos ao palco, após uma apresentação entusiasmada de um comunicador de rádio local (Rádio Oceânica FM), que foi o mestre de cerimônias do show, a multidão era imensa. Era o maior público que a nossa banda estava recebendo, sem dúvida alguma.
Uma pena essa foto rara desse show estar tão escura, por conta de ser proveniente de uma máquina Polaroid, bem simples. Sua autoria foi de Eduardo Russomano, nosso roadie na ocasião, escondido atrás dos amplificadores.

Com um palco gigante, pudemos correr pelo palco com desenvoltura de bandas internacionais, e a cada corrida, sentia o canhão "Super Trouper" da iluminação seguindo-me, e envolvendo-me numa bolha de luz branca, com a sensação que era ótima, pois dava-me a certeza de que o show estava sendo bem cuidado, apesar de não ter havido soundcheck, tampouco, mapa de luz que orientasse o iluminador e seus assistentes. O público respondia muitíssimo bem aos impulsos de nossas músicas, como se conhecessem-nas, o que era até engraçado pela simples constatação de que não éramos artistas populares do mundo mainstream. Ora, como explicar isso ? Pois é... passaram-se 29 anos (2016), e até hoje não tenho uma explicação plausível sobre tal fenômeno estranho. O técnico do P.A. era um rapaz que já havia operado o nosso som e num P.A. de forte pressão sonora, anteriormente. Apelidado "Castor", tinha operado-nos num show na Danceteria Radar Tantã, em 1984, fato contado com detalhes em capítulo bem anterior. Não podia fazer nenhum milagre pela ausência de soundcheck e pelo simples fato de não conhecer a banda (quando falamos-lhe sobre o show do Radar Tantã, ele só lembrou-se que tinha trabalhado lá...).

Mas a julgar pela reação do público, a mixagem que imprimiu, devia estar excelente, pois realmente estava sendo muito surpreendente para nós tantos gritos e aplausos, mãos levantadas em nossa direção etc, como se fôssemos o "Aerosmith" tocando num estádio de beisebol, nos Estados Unidos e diante de seus fãs.
No palco, a mixagem da monitoração estava razoável. Tinha pressão, mas os timbres deixavam a desejar. Mas era o tal negócio : rockers outsiders e off-mainstream que éramos, estávamos muito acostumados a tocar nas piores condições possíveis, portanto, uma monitoração mediana como aquela, era um primor para os nossos padrões usuais. Enfim, havia uma compensação em ser "Pobre Star"... quando raramente tínhamos estrutura de gente grande para trabalhar, até estranhávamos... e por outro lado, dificilmente equipamentos péssimos derrubavam-nos, coisa que artistas internacionais tarimbados não estavam acostumados (caso do Uriah Heep no Via Funchal em 2006, que assisti da coxia, e vi como estavam irritados com a péssima monitoração que o técnico brasileiro de monitor forneceu-lhes. Isso está contado com detalhes no capítulo do "Pedra"). Fizemos o nosso set list base da época, tocamos dois "bis" a pedido do público e a sensação de termos feito o show foi muito acima das nossas expectativas, tão ressabiados que estávamos com a incógnita que aquilo tudo sinalizava para nós.

Quando deixamos o palco, vimos que o pessoal do Golpe de Estado ainda estava tenso. Catalau não dera sinal de vida e estavam resolvidos a tocar em formação de trio, com Hélcio e Nelson imbuindo-se do espírito do improviso em cantar as canções.
Eis então que apareceu a figura do Catalau, usando roupas de couro e pesadas correntes com tachinhas, mais parecendo um vocalista de banda de Heavy-Metal. Para intensificar a sua chegada triunfal ao camarim, estava segurando dois cães da raça, Doberman, por coleiras igualmente ornadas com tachinhas, que sabe-se lá de onde vieram...
Bem, a partir do Golpe de Estado, já não prestei mais atenção diretamente nos shows, pois concedi entrevistas para a emissora de rádio e o jornal local, fora vários fanzineiros que apareceram, também.

Uma dessas entrevistas consegui arrumar para compor o portfólio e que foi publicada posteriormente. Foi uma noite intensa, com um sabor de dever cumprido e mais que isso, sucesso. O divulgador Bip Bip estava presente; gostou muito do nosso show e estava entusiasmado em apresentar-nos ao diretor de repertório da BMG. Muito legal ter essa força a mais, mas depois da frustração com a Warner, ficamos bem mais reticentes e os acontecimentos que seguiram-se, culminando com o rompimento com a produtora Studio V, tornou-nos muito mais cautelosos. Cabe registrar que a propagada transmissão ao vivo da TV Bandeirantes não aconteceu. Uma explicação simplória sobre algum empecilho técnico de ultima hora foi-nos informada, mas na prática, não termos tido essa exibição televisiva jogava por terra abaixo o esforço em ficarmos quatro dias à disposição dessa produção, e principalmente sem cachet. OK, o show foi bem divulgado e as condições técnicas de alto padrão, mas o tal "investimento de carreira", não justificava-se sem a presença da TV, portanto, apesar do público caloroso, ficar sem cachet foi doloroso. Como compensação, ao menos tinha a cobertura ao vivo de uma emissora de rádio local, com repórter no camarim o tempo todo entrevistando artistas ali presentes e repercutindo o andamento do espetáculo. Era a presença da Rádio Oceânica de Caraguatatuba, que repetiu a dose no dia seguinte.

No dia seguinte, teríamos uma repetição dos shows, portanto. Era o mesmo equipamento, a mesma estrutura, mas o público mostrou-se diminuto. Das mais de 30 mil pessoas presentes no primeiro dia, agora, cerca de cinco mil compareceram ao segundo dia de apresentações. Tocamos com a mesma vontade, mas a vibração estava muito abaixo, com um público apático, que mal bateu palmas educadas. Voltamos para São Paulo satisfeitos com o resultado do primeiro show muito quente, e resignados com a apatia do segundo. Chateados com a ausência da TV nesse esforço que fizemos, mas animados com a perspectiva do Bip Bip agendar-nos entrevista com o executivo da BMG. E assim foi... no dia 19 de abril de 1987, tocamos para 30 mil pessoas (estimativa da Polícia Militar, mas eu acho que tinha mais gente, porque eles sempre subestimam nas suas contagens de multidão), e no dia seguinte, 20 de abril de 1987, foram cerca de cinco mil (mas desta vez, não deve ter ultrapassado mesmo a avaliação da PM).

Voltando a São Paulo, após os shows em Caraguatatuba, nos próximos dias, não tínhamos compromissos oficiais. Só restava-nos então centrarmos nossa atenção para a reunião que possivelmente seria agendada com o executivo da BMG, e havia uma remota esperança de que a irmã do Zé Luiz conseguisse uma audiência com Liminha, na Warner. De nossa parte, além dessa atenção, o que fizemos foi lançar mais uma edição do fanzine. Independente de estarmos com gás bem mais baixo em termos de animação, lançar o fanzine trimestralmente era uma obrigação adquirida, pois os fãs que recebiam-no, eram assinantes.
Fachada do Edifício Dinola, na Rua dos Pinheiros em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Na parte da frente, hoje funciona a loja de artigos de cerâmica e porcelana dos irmãos Beth e Zé Luiz Dinola. Na porta ao lado, no andar térreo, funcionava o consultório odontológico do Dr. Dinola, pai de ambos, e o escritório anexo, onde tanto trabalhamos em prol da Chave do Sol.

Então, eu e Zé Luiz voltamos ao velho escritório anexo ao consultório odontológico de seu pai, o grande Dr. João Batista Dinola, outra figura sensacional que muito ajudou-nos, assim como o Dr. Rafael Gióia Junior, pai do Rubens. A residência da família Gióia foi nosso QG e estúdio de ensaios por anos, e o mesmo devíamos em agradecimento ao pai do Dinola, que cedera-nos o seu escritório, desde 1983, mais ou menos, para ações de produção do fã clube; Núcleo ZT, e demais ações de divulgação que fazíamos.
Eduardo Russomano, depois que rompemos com o núcleo ZT, continuou como funcionário contratado da banda para serviços gerais na produção e no fã clube, mas nesta altura, com shows escasseando, não tínhamos mais como mantê-lo como funcionário remunerado, infelizmente. Ele ainda ajudou-nos nesse fanzine nº 8, e continuaria auxiliando-nos como amigo doravante, mas sem vínculo obrigatório, fazendo expediente diário. Um retrocesso certamente para nós.

Outra coisa, o Zé Luiz estava mais calado, taciturno nesses dias e logo descobriríamos a razão de ser de seu mau humor. Ele tinha sentido muito o impacto da frustração de termos iludido-nos tanto com o Studio V, e a promessa alardeada de que entraríamos no cast de uma gravadora major. Todos nós sentimos, mas para ele, havia elementos particulares muito angustiantes que atormentavam-no nessa questão, e que só a partir dessa fase, começamos a entender.
Já sabíamos que ele estava ministrando aulas particulares como empreendimento para ganhar dinheiro extra, sem esperar nada da banda. Mas o que não sabíamos com maiores detalhes, era que estava sofrendo pressões familiares já há algum tempo para buscar maior solidez financeira na sua vida. Dessa forma, seu comportamento em relação aos assuntos da banda doravante, só foi piorando e o pior estava por acontecer em relação a esse sentimento que estava nutrindo. Sobre o fanzine lançado em abril de 1987, seguiu o mesmo padrão editorial e de lay-out dos demais, e nada podíamos fazer para melhorá-lo naquele momento de escassez financeira e tensão crescente no interno da banda, pelos acontecimentos arrolados nos últimos capítulos. Eis uma descrição de seus tópicos :
1) Shows que rolaram - Uma descrição dos shows do início do ano em Itanhaém, e Águas de São Pedro. Mas a ênfase foi mesmo dada aos cinco shows da mini temporada no Centro Cultural São Paulo, em fevereiro e o Teatro Mambembe em março. Aliás, um dado interessante que esqueci de mencionar no capítulo correspondente, mas o fanzine tratou de refrescar a minha memória : de fato, ao tocarmos "18 Horas", música clássica do repertório da banda e que não executávamos há meses por conta da preferência em exibir o novo material, com teor Hard-Rock, esta causou comoção nos fãs, e o Beto também a tocou, fazendo um duelo de solos com o Rubens ao seu final, esticando-a muito, numa prática ultra setentista de alongar canções muito além de sua metragem tradicional de estúdio, para valorizar a introdução de longos improvisos, com solos.
2) Uma brincadeira, como sempre eu gostava de fazer, disse que os óculos "iluminados" com leds verdes que o Zé Luiz usara no Centro Cultural São Paulo, vieram do planeta "Glapaux", trazidos de presente pela figura de Edgard, o "ET", que era oriundo desse distante mundo...

3) Revista - Mais descrições de publicações onde havíamos sido retratados recentemente e uma nota sobre uma edição da revista Som Três onde pela primeira vez, foi citada a criação de uma fã clube independente da Chave do Sol, com sede no Rio de Janeiro. Era verdade, tal ação vinha da parte de um rapaz muito jovem, que seguia-nos e entrou em contato para pedir autorização para tal empreendimento. Seu nome era Ricardo Aszmann, um adolescente morador do bairro de Laranjeiras, zona sul do Rio. Logo conheci-o pessoalmente e ficamos amigos. Rick Aszmann não só tocou esse fã clube com grande entusiasmo, como muito ajudaria a banda em ações de divulgação no Rio, sempre cavando oportunidades bacanas para nós. Somos amigos até os dias atuais e certamente para sempre, falando-nos constantemente pelas Redes Sociais da Internet. Rick estudou guitarra e violão, fez faculdade de música, foi sideman de artistas, formou bandas e é um professor muito requisitado no Rio. Já gravou discos solo, e atualmente (2016), trabalha pela noite carioca. Muito apoiou-me desde quando tive a ideia de começar a escrever minha autobiografia em 2011, na plataforma da comunidade Luiz Domingues, da saudosa e insuperável Rede Social Orkut, e acompanha o texto no meu Blog 3.  
4) Muito constrangedor lendo hoje em dia, mas ao mesmo tempo engraçado, uma nota ridícula deu conta de que nos shows do Centro Cultural, Beto quando cantava a música "Ninho do Amor", aproximava-se de minha pessoa apontava-me quando cantava trechos em que falava-se sobre a preferência por ninfetas... era só uma brincadeira para mexer com o público nos shows e eu quis explorar isso como algo engraçado.
5) TV - Além dos programas de TV que fizéramos de janeiro de 1987 até ali, citei o programa "Super Special" da TV Bandeirantes, que realmente deu apoio testemunhal para promover a nossa temporada no Centro Cultural São Paulo.
6) Rádio - Destaque para mais uma entrevista no histórico "Balancê", da rádio Globo / Excelsior. Falei também de programas da 97 FM que estavam auxiliando-nos com execuções de músicas, casos de "Reinação" (comandado por Leopoldo Rey), e Riff Raff, do Richard Nacif. A música "Desilusões" realmente estava para entrar na programação da emissora, e de fato, isso veio a ocorrer.
Havia também a notícia de que o "Sinergia" de Valdir Montanari , anteriormente transmitido pela USP FM, estaria de mudança para a Alpha FM e assim, tínhamos a certeza de que teríamos mais um espaço, certamente.

7) Mais um toque técnico, dei a entender que o Rubens tencionava adquirir um novo equipamento ou quiçá uma nova guitarra para breve. Havia a intenção sim de comprar um novo amplificador, mas não concretizou-se.
8) Promoção - Resolvemos criar uma promoção diferente para movimentar o fã clube. Ganharia uma foto autografada da banda, quem enviasse a melhor redação com o tema : "Por que eu curto A Chave do Sol"
9) Fã Clube - E a fase era tão boa nesse campo, pelo menos, que fora o Rick Aszmann no Rio, outro fã clube independente da Chave do Sol havia sido fundado no interior de São Paulo. Vinha de Oswaldo Cruz, a iniciativa de um garoto que já mantinha um fã clube chamado "Defensores do Heavy Metal". Claro que aceitamos e demos o nosso aval para ele iniciar suas atividades. Infelizmente, ao contrário do Rick Aszmann no Rio, que realmente esforçou-se e ajudou demais a banda, até acompanhando a sua dissidência no pós rompimento no final de 1987, esse não logrou êxito.
10) Fofoca - Uma brincadeira com minha própria pessoa, a nota afirmava que estavam chegando cartas de fãs afirmando que eu parecia-me físicamente com alguns astros do Rock internacional. Isso foi verdade e as citações de figuras como Steve Harris; Steve Vai; Bruce Dickinson, e Ian Astbury, do The Cult. na minha opinião, todos não tinham nada a ver comigo e o mais próximo pela fisionomia facial era Ian Astbury. Convenhamos, Steve Vai é sósia de Paulo Zinner, o baterista do Golpe de Estado...
Rubens ainda namorava a Gibson SG 1966, de dois braços que pertencia ao Marcos Cruz, irmão do Beto. Eu também namorava o Rickenbacker 1967 que ele estava vendendo, mas ambos ficamos só na vontade, pois sem dinheiro para tal, ambos os instrumentos foram arrematados pelo músico / colecionador, Marcus Rampazzo.
Outra história verdadeira e emocionante para nós : de fato o Zé Luiz andava de bicicleta no bairro de Interlagos, portanto bem longe de sua casa, quando estourou o pneu e teve que pedir carona para voltar. O caminhoneiro que auxiliou-o, era mesmo fã da Chave do Sol, isto é, inacreditável como não tínhamos a real dimensão de nossa popularidade, ao acharmos que éramos só conhecidos no nicho do Rock underground. Como o Edgard tinha aprovado a brincadeira que eu havia feito na edição anterior do fanzine, insinuando que ele era gay, quando "soltara a franga" ao encontrar Roberta Close pelas ruas de Pinheiros, bairro da zona oeste de São Paulo, eu insisti na brincadeira e agora inventei que ele ficara furioso com a insinuação. Para atiçar mais a brincadeira, escrevi ao final : "Não precisa ficar nervoso Edgard, não foi essa a nossa intenção, mas que você gostou do encontro, gostou, não negue sua louca"... ele riu muito dessa continuação da piada e realmente não ofendeu-se, ainda bem.
11) Fãs - Além da tradicional publicação de endereços de fãs interessados em conhecer outros fãs, também citei um concurso que acontecia na Revista Som Três, que criara uma enquete para saber que artistas seriam sugeridos para compor o cast de atrações de um possível Rock in Rio 2. Conclamamos os fãs a escreverem e darem-nos apoio.

Zé Luiz trabalhou nesse lay-out do fanzine nitidamente para não deixar-me desamparado nessa missão, pois sabia de minha inabilidade para trabalhos manuais. Eu escrevia todo o texto, mas sempre fui zero à esquerda para artes gráficas, desenho etc etc...
O clima já não estava bom e fatos que estavam para acontecer em breve, tratou de piorá-lo. Tínhamos um show para fazer em maio, apenas, e as tais reuniões com novas tentativas de abordagem a gravadoras. O que eu não podia imaginar, era que esse show de maio, estava fadado a ser o último da Chave do Sol com sua formação clássica...



Bem, apesar de estarmos com o "gás diminuindo", havia a atenção para os dois encontros que poderiam dar-nos novo alento, com executivos de gravadoras. O primeiro, seria a tentativa de Eliane Dinola em abordar o produtor da Warner, Liminha. E a segunda ação, mais plausível, a reunião prometida na BMG, através do divulgador "Bip Bip", que tornara-se nosso amigo. Sobre a irmã de Zé Luiz, já elenquei anteriormente suas qualidades pessoais que credenciavam-na a tentar uma abordagem. No bojo, acrescento o óbvio, ou seja, a extrema boa vontade dela que tinha sua vida; uma casa e uma filha pequena para cuidar; suas atividades profissionais etc.

Ela tinha mesmo uma capacidade de expressão extraordinária, e apresentando-se como produtora musical, passou facilmente pela triagem inicial na organização, marcando uma reunião com Liminha em pessoa. Não que a subestimássemos, de forma alguma, mas ficamos realmente estupefatos quando noticiou-nos que a reunião estava agendada, com a exceção evidente de Zé Luiz, que conhecia bem a obstinação e capacidade de sua irmã mais velha. Enquanto isso, aguardávamos um sinal semelhante vindo do divulgador "Bip Bip", que também veio logo. Uma reunião estava agendada portanto, com o produtor conhecido pela alcunha de "Barriga". Era o homem que batia o martelo, pró ou contra, na decisão final de contratar ou não, como diretor de repertório da gravadora.

Então, resolvemos quebrar o protocolo básico, e ao invés de escalarmos a namorada do Zé Luiz, e nossa produtora executiva, Eliane Daic, para falar com o tal "Barriga", resolvemos irmos nós mesmos. Sei que era errado e quebrava a regra básica de que o artista em pessoa não deve participar desse tipo de negociação, mas tratava-se de uma instrução direta do "Bip Bip", que alertou-nos que o "Barriga" não tinha frescuras com protocolos, e gostava de falar direto com o artista, sem conversa ensaiada de empresários / produtores, e sua costumeira "lábia de vendedor".

A julgar pelas alcunhas de ambos, e o patamar de inferioridade momentânea que a gravadora ostentava naquele instante oitentista, amargando posição abaixo da concorrência, fazia sentido que a praxe fosse abolida e as abordagens ocorressem na base da total informalidade. No Rio, a irmã do Dinola conseguiu de fato a reunião. No gabinete do Liminha, falou, usando sua habilidade verbal como vendedora nata, e foi muito bem tratada pelo produtor. Contudo, não conseguiu lograr êxito, pois o discurso dele foi o padrão, alegando que a nossa banda não estava coadunada com o que eles acreditavam naquele instante.

Pura verdade, e nós já sabíamos disso, há anos... portanto, cabe observar que nossa insistência em abordar a Warner, seguidas vezes, e usando vários meios para tal, era em si, uma péssima estratégia. Numa metáfora grosseira, parecia a tática de caçadores de autógrafos tentando burlar a segurança de hotéis, onde artistas famosos estão hospedados...
Por isso, hoje tenho a convicção de que ao sermos rejeitados pela primeira vez e sabedores na época, que independente da qualidade / possibilidade comercial da banda, uma segunda tentativa de abordagem caracterizou um erro estratégico, estigmatizando-nos. O que dizer então da terceira, quarta, quinta...

Acho que ficamos marcados na gravadora como os cabeludos anacrônicos e chatos... numa demonstração de teimosia insuportável. Eliane foi mega gentil conosco e tenho certeza de que não tentou ajudar-nos apenas pelo seu laço sanguíneo com o Zé Luiz, mas porque gostava da banda. Todavia, apesar dessa imensa boa vontade, também não conseguiu um resultado melhor que o de Sonia, representando o Studio V. Nenhuma abordagem daria certo pelo evidente disparidade de mentalidade da parte deles e nosso trabalho que soava-lhes antagônico aos seus princípios.

E nessa altura, o fato de termos tentado várias abordagens, só piorava as coisas, acredito, pensando hoje em dia. Outro fator : mais uma coisa impossível de ser detectada ali no momento, contudo, hoje é cristalina, é o fato de que o BR Rock 80's estava encerrado. A grande onda que caracterizou-lhe com aura de um movimento ou cena, chame como quiser, havia arrefecido-se no seu próprio processo de diluição natural. Falando dos artistas expoentes que surgiram nessa "onda", somente quem conseguiu solidificar-se individualmente ainda teve e continuou tendo espaço na mídia e portanto, contando com um gerenciamento profissional sustentável, doravante. De 1986 para frente, isso já estava delimitado claramente, mas lógico que ninguém tinha essa visão na época.

Portanto, a chance para artistas que jamais estiveram compactuados com a estética oitentista, era infinitamente pior ainda, em relação aos que surfaram na crista da onda, e agora viam a onda acabando. Duas situações que embaralhavam essa visão na época e  davam-nos esperanças, na verdade não eram sinais de absolutamente nada para animar-se. Eram falsos sinais que não soubemos interpretar na ocasião.

O primeiro caso foi o do "Ultraje a Rigor" que surpreendeu a todos, com uma repaginada radical no seu visual, dando a entender que assumiria uma identidade Hard-Rock, deixando de lado a mentalidade supostamente coadunada com o Pós-Punk adotada em seus primórdios, e momento de pico na mídia. Muita gente que estava na trincheira oposta, do Rock pesado, comemorou tal mudança de posicionamento da banda de Roger & Cia., acreditando ser uma sinalização de que o mundo mainstream estaria abrindo-se para uma outra estética, libertando-se dos tentáculos dos seguidores de Malcolm McLaren. Mas era um ledo engano, pois a banda mudara apenas o seu visual, adotando figurino de bandas americanas de Hard-Rock em voga; cabeleiras imensas e armadas com muito laquê, bem no gosto, ou mau gosto sendo realista, daquela egrégora pesada dos anos oitenta. O trabalho deles continuou igual, com sonoridade Rock'n Roll bem básica, e ênfase total nas letras com teor de deboche.

Outro exemplo de sinalização errada, era o próprio "Sepultura". De fato, a banda entrou numa ascensão meteórica e de cunho internacional impressionante, e o eco de seu sucesso proporcionou-lhes algumas portas abertas no Brasil, que nem mesmo eles esperavam que abrissem-se. Acredito que pelo fato de ser uma banda de Metal extremo, não tinha de forma alguma, nenhuma possibilidade de atingir um público não coadunado com tal estética, pela total falta de apelo pop em sua música radical, por mínimo que fosse. Portanto, ao deparar-se com pessoas completamente de fora do nicho do Heavy-Metal, indo aos seus shows, como atores globais e alguns playboys desavisados, a única explicação razoável para tal fenômeno de aceitação insólita, residia na histórica "macaquice" do brasileiro em valorizar uma manifestação artística que antes desprezava ou ignorava, somente pelo fato de que os "gringos" estavam ovacionando-a. Não posso cravar essa tese hipotética como incontestável, mas creio que é bastante sólida para explicar portanto o fenômeno estranho em ver pessoas completamente alheias ao mundo do Heavy-Metal, quiçá o Metal extremo, ainda mais radical e anti-pop em sua essência, frequentando shows do Sepultura e sendo fotografadas em camarotes caros de casas de shows badaladas do Rio e São Paulo, com copinho de Whisky importado na mão, e fazendo careta com língua de fora e "malocchio" com a outra mão...
Dessa forma, o fenômeno Sepultura não caracterizava nenhuma tendência de mercado no âmbito das gravadoras que aqui operavam a indústria da música local. Estavam na verdade, surfando no seu êxito pessoal e no qual tinham todos os méritos, sem dúvida, mas isso não queria dizer que o Rock pesado teria espaço como um todo, abrindo chances para outras bandas.

Feita essa análise, resta-me falar sobre a reunião com o tal "Barriga". Ao cair da tarde de um dia útil, no final de abril de 1987, eu e Beto fomos ao gabinete do produtor citado, com nosso material em mãos e imbuídos de esperança de um resultado satisfatório. Isso porque o clima de descontração que aquela gravadora tinha, aliado ao fato de que não parecia estar preocupada em fechar questão com a estética A, B, ou C, eram alentos para nós, sempre inferiorizados por sermos "outsiders" naquela década.
O apoio do divulgador, "Bip Bip", que era figura respeitada na gravadora, e vira-nos em ação nos shows de Caraguatatuba, também haveria de somar-se nessa equação. Enfim, chegamos ao gabinete e apesar de recebidos com educação por ele, sua apatia denotava total falta de interesse na conversa. Entregamos-lhe o material de portfólio e a fita K7 com a demo tape, e ele mal falava conosco até então.

Foi quando, deu uma folheada no material e o fechou bruscamente, como se aquilo estivesse incomodando-o, fazendo-o perder tempo com algo que absolutamente não interessava-lhe. Então, com uma certa truculência, ligou o tape deck que tinha próximo de si, e disse-nos que estava empolgado com uma banda gaúcha que estava produzindo, e seria o novo "estouro na mídia". Começamos a ouvir então o som do "TNT", que não era uma banda ruim, reconheço, e tinha até suas qualidades, e sem comungar com o Pós-Punk como era sempre de esperar-se naquela época.

Mas também, não era nada extraordinário, tratando-se de uma banda comum, sem nenhum atrativo excepcional e inquestionável que fizesse dela, algo "especial". Durante aqueles minutos em que ficamos em silêncio ouvindo o som do TNT, ficara claro o desprezo absoluto da parte do tal produtor em sequer mencionar a intenção de ouvir um segundo de nossa música. Ouvimos duas ou três músicas do TNT e ao desligar o tape deck, iniciou um monólogo sobre o quanto acreditava que fariam sucesso retumbantemente. Foi então quando descobri que isso era uma praxe nesse mundo das corporações musicais. Liminha fizera-o na Kombi do Zé Luiz (história contada em detalhes, vários capítulos atrás), quando desconversou sobre o som de nossa demo que tocava, e emendou um discurso sobre a "maravilha" que era o "Camisa de Vênus". Agora o tal Barriga fizera ainda pior, pois numa reunião formal para analisar-se o material de uma banda, no caso a nossa, a estratégia desdenhosa e vergonhosa, fora fazer-nos ouvir o trabalho de outra banda. Nos anos noventa, eu passaria por algo igual com o Pitbulls on Crack, quando numa tentativa de mostrar um novo trabalho ao produtor Miranda, este respondeu apertando o play da máquina de gravação do estúdio Be Bop, e assim obrigando-nos a ouvir o "Mundo Livre S/A", certamente uma maneira sutil de dizer-nos que nosso som era inadequado, e aquilo que mostrava-nos, era a grande "Coca Cola gelada do deserto".

Muitos anos depois, um amigo que militou a vida toda no mundo corporativo e não ligado às artes, portanto ainda mais monolítico, disse-me que a tática padrão para lidar com assuntos indesejáveis era o do desestímulo sutil. Nunca abordando o assunto de forma cartesiana com a pessoa, mas permanecendo alheio e dando sinais sutis contrários, elogiando opostos, criando assim a inibição. E caso a pessoa insista ou perca a cabeça, partindo para a agressão verbal, a postura era de ficar em silêncio e suportar a verborragia, até a pessoa cansar de falar, para no primeiro momento de pausa possível, dar por encerrada a conversa, e educadamente pedir para a pessoa retirar-se. Ha ha ha... não tratava-se portanto de um complô contra nós, nem mesmo era o caso visando alimentar teoria da conspiração, pois tal tática de desdém com ares blasé, era uma praxe corporativa, tão somente. Falou, sr. "Barriga"... pois que fosse feliz acumulando sua banha abdominal, até explodir como a "Dona Redonda" do "Saramandaia", talvez usando TNT para estimular sua ida aos ares...
Uma última tentativa de abordagem a gravadoras ocorreu de nossa parte, em meados de junho, mas isso, conto mais tarde.



Com mais duas negativas de gravadoras ardendo na pele ainda, o ânimo da banda diminuía drasticamente. Já não havia a obstinação por ensaiarmos com constância, outrora uma marca registrada de nossa banda, e fora a parte prática, dessa falta de empenho, que refletir-se-ia em algum momento com a ferrugem a ser acumulada inevitavelmente, a grande erva daninha que estávamos vendo crescer a nossa volta, era de ordem psicológica. Minando-nos nesse sentido, vários fatores externos faziam sucumbir também animosidades pessoais; desavenças, irritabilidade etc. Num momento de crise, a tendência em tempos de escassez de recursos e falta de perspectivas de melhora, era a de haver desgaste psicológico. Isso acontece em qualquer tipo de empreendimento onde existam sócios, e uma banda de Rock é também uma pequena empresa, gerida por um grupo de sócios.

Assim, o clima começou a azedar internamente na banda, desde que frustráramo-nos com a inoperância do Studio V, mas tiramos uma força das entranhas para prosseguir e ainda bem, algumas oportunidades ainda surgiam no momento imediatamente após o rompimento com os empresários, relativizando as insatisfações pessoais de cada um e possíveis desentendimentos surgidos desse clima ruim, no âmbito interno da banda. Mas após a tentativa de abordagem na BMG, com tamanha demonstração de desdém do sujeito que recebeu-nos, creio que nossas forças esvaíram-se de vez.

Conforme já mencionei, o Zé Luiz vinha recebendo pressões familiares para tomar um rumo tradicional na vida profissional e que não mais iludisse-o com uma carreira artística mas que desse-lhe também o sustento sócio-financeiro. Rubens já não estava tão entusiasmado com os rumos da banda e passara a questionar a mudança radical (na verdade, a terceira mudança), que levara-nos para um caminho dentro do campo do Hard-Rock oitentista onde praticamente suprimiu-se o material antigo, notadamente a verve do Jazz-Rock que marcara-nos nos primeiros anos da banda.

Ele tinha razão, claro, mas em termos. De fato, abandonar completamente o material antigo da banda não havia sido uma estratégia salutar. O ponto válido nessa tática, era apenas o da busca de uma colocação no mundo das gravadoras majors, mas era um risco grande, pois ao não conseguirmos tal intento, estávamos apenas frustrando o nosso público que gostava de nossa carreira como um todo, portanto, também do material antigo, composto sem preocupação em agradar produtores de gravadoras ou agentes da mídia mainstream.

Beto achava que deveríamos continuar na estratégia e o fato de estarmos recebendo negativas das gravadoras abordadas até então, não significava que a insistência não daria certo mais para a frente.
Eu, de minha parte, só queria que a banda prosseguisse unida, lutando e continuando a sua trajetória. De fato, concordava parcialmente com as colocações de Beto e Rubens, mas tentando fazer um mix entre as duas propostas. Achava válido tentar continuar lutando para arrumar um lugar ao sol, portanto com cartas na manga, adequadas para tal, mas também queria que a história da banda fosse respeitada e músicas clássicas do repertório, voltassem ao set list dos shows, com exceção das "pauleiras" do EP de 1985, pois nesse aspecto, achava-as realmente despropositadas.

Diante desse desânimo generalizado, Beto que era sempre pragmático, propôs mudanças até na formação da banda. Isso causou um mal estar, e tal ideia haveria de ser um fator de discórdia que tornar-se-ia cancerígeno, com o perdão da metáfora forte, e que revelar-se-ia em alguns meses, um fator decisivo para o final da banda. Tiro todo o peso desse ato, das costas do Beto, pois sei que sua intenção era outra, completamente, deixo claro. Sua vontade de fazer algo para movimentar a banda e dar-lhe sobrevida, foi a sua real intenção, mas o Rubens não levou para esse lado e o clima doravante, só foi piorando no âmbito interno da banda.
Beto propôs que conversássemos com Daril Parisi, nosso amigo e um grande guitarrista e tecladista, que estava sem banda naquele momento, com o súbito término das atividades do "Platina". Na sua ótica, uma mudança de formação com Daril entrando na nossa banda e tornando-a um quinteto, faria muito barulho e seria portanto um alento para tomarmos novo fôlego. Teoricamente, não era uma má ideia, mas por outro lado, não havia nenhuma garantia de que uma mudança assim levar-nos-ia a alguma melhora significativa.

O grande guitarrista / tecladista e professor Daril Parisi, em foto bem mais atual

Particularmente, eu não apreciava muito a ideia. Não conseguia vislumbrar que isso fosse uma estratégia com possibilidade de dar-nos novo impulso, mas compreendo o ponto de vista do Beto em tentar criar um fato novo. Infelizmente o Rubens não pensou sob esse aspecto e levando para o lado pessoal, sentiu-se preterido. Também entendo-o, pois afinal de contas ele era a célula mater da banda. Imaginara a criação da banda com esse nome ainda na tenra infância, ouvindo os discos do Jimi Hendrix de seu irmão mais velho, o Rafael. Ainda adolescente, chegou a formar banda com esse nome, embora não seja contabilizada na história oficial de nossa banda, mas é um fato. Portanto, claro que eu entendo e muito, que tenha aborrecido-se com tal ideia do Beto.

Então, chegamos num ponto onde ficamos desunidos, sob um fogo cruzado de indisposições, mal entendidos e cada um fazendo uma leitura diferente da situação. Rubens chateado com o repertório dos shows sem menção ao material antigo e com a ideia de incorporar mais um guitarrista na banda; Beto tentando criar fatos novos para dar alento à banda; Zé Luiz vivendo uma crise pessoal ao questionar a sua permanência na banda e até na música, e eu, só querendo que a banda sobrevivesse, tentando restabelecer a união interna e o foco. Uma jam foi feita de jeito bastante informal com o Daril Parisi que era (é), um gentleman e mostrou-se muito honrado com o convite para uma conversa, e a lembrança de seu nome. Ele admirava a nossa banda, na mesma medida em que apreciávamos o Platina. Entrar na Chave do Sol foi uma ideia que enalteceu-lhe muito, mas ele que era sensível e muito inteligente, sentindo que tal ideia do Beto, não era unânime e vendo o astral da banda bem baixo, não forçou nenhuma barra, embora de sua parte, estivesse animado para encarar, desde que fosse um desejo muito claro da banda e infelizmente, não era. Nada contra o Daril, pelo contrário, sempre considerei-o um grande músico, compositor e um excepcional ser humano.

Se o clima já estava ruim no interno da banda, infelizmente as coisas pioraram. Mais uma vez tiro a carga de culpa das costas do Beto, pois sua intenção foi a melhor possível. E daqui para frente, os próximos capítulos serão tristes, com poucos momentos a relembrar histórias engraçadas, mas a focar em muitas reflexões sobre o quanto o desgaste fez-nos mal, estremecendo até amizades, infelizmente. Bem, da parte do Zé Luiz também teve efeito ruim tal ideia do Beto. Ele não era contra uma mudança de formação com a entrada de um quinto membro, em princípio, mas seu estado de ânimo por conta de problemas existenciais; familiares; pessoais e até sócio-financeiros (talvez sobretudo esse último item), atormentava-o internamente e tal tentativa da parte do Beto para salvar a banda, soou-lhe como infrutífera. Faltava um triz para ele revelar-nos então o que afligia-lhe pessoalmente, e o desfecho para a banda não poderia ser pior, mas ainda não vou comentar sobre isso. Rubens ficou muito arredio com essa ideia do Beto, e foi afastando-se de nós, num processo irreversível eu diria, pois no segundo semestre, ele mal comparecia aos ensaios, chateado que estava com os rumos da banda. Bem, em meio a essa crise interna, os fãs nem desconfiavam que passávamos por isso, e oportunidades para realizarmos shows e aparições midiáticas continuavam a aparecer, se bem que diminuindo gradativamente, pois como já deixei claro em vários capítulos, quando um artista começa a despontar, é necessário que tal "momentum" seja agarrado com as duas mãos e se possível, com os pés também...
Como não tínhamos um empresário esperto o suficiente para aproveitar isso, adequadamente, com métodos e contatos, estávamos perdendo a nossa vez. Na verdade, já havíamos perdido, hoje eu enxergo tais acontecimentos com clareza...

Continua...

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