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quinta-feira, 9 de julho de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 16 - Turbulência Total - Por Luiz Domingues

Um novo compromisso surgiria apenas em maio de 1987. Um circo montado em plena avenida Ana Costa, na cidade de Santos, estava promovendo shows de Rock com constância e assim, o convite da parte de tais produtores, surgiu logo para nós. Dividiríamos a noite com o Excalibur. Chegamos na cidade praiana com tranquilidade e rapidamente locomovemo-nos ao Circo Marinho.

O soundcheck foi um pouco tenso, pois o técnico local foi grosso conosco, alegando que estávamos postergando demais o trabalho, com exigências em demasiado. Mas na minha lembrança, estávamos apenas reivindicando uma monitoração melhor, portanto, não havia nada demais de nossa parte, e ele é que estressou-se a toa. O show foi apenas razoável, pois nossa preocupação no soundcheck procedia, e a busca por uma equalização mais caprichada tinha mesmo sua razão de ser, pois na hora do show, sofremos com monitores rachados, prejudicando a nossa performance.

Era o dia 17 de maio de 1987, e havia cerca de 180 pessoas na plateia, mas achamos pouco, porque seguramente o espaço comportava no mínimo o triplo dessa capacidade. O clima entre nós quatro estava pesado devido ao últimos meses, com tantos revés, mas não era de ruptura total naquele instante.

Ao que tudo indicava, a luta prosseguia e apesar das intempéries que vivíamos, não havia motivo para preocupar-se, pensando no pior. Mas não era bem assim que as coisas estavam encaminhando-se e logo, começaríamos a enveredar para um caminho sem volta. Com ensaios dispersos, e sem grandes perspectivas de momento, tivemos apenas convites para entrevistas, e algumas notas ainda estavam saindo na imprensa escrita. Programa de TV, só voltaríamos a fazer em setembro.

Então, entre junho e julho, só restava-nos ensaiar. Em outras épocas, isso seria a mais absoluta rotina, com a banda encontrando-se diariamente para ensaios rigorosos, das 15 as 22 h., mas agora, com o clima pesado, isso já não era uma certeza. Portanto, com o Rubens cada vez mais contrariado; Zé Luiz com problemas pessoais, e eu começando a preocupar-me com tais sinais de desunião, passamos por momentos difíceis. Beto, por outro lado, não havia desistido da ideia de inventar um fato novo para dar novo alento à banda e nesses termos, sugeriu mais um guitarrista para conversarmos.

Já havíamos feito isso com Daril Parisi, e o Rubens não gostou nem um pouco de tal ideia. De fato, se a ideia era mexer na sonoridade da banda, o próprio Beto era guitarrista também, e principalmente após a entrada do ano de 1987, cada vez mais usava tal recurso nos shows. E desde o segundo semestre de 1986, havia tornado-se o mais prolífico compositor da banda, justamente por ser guitarrista, também, e trazer muitas ideias de riffs para trabalharmos. Visto por esse ângulo, um quinto membro, na figura de um novo guitarrista, realmente parecia uma má estratégia, pois o Rubens era o nosso guitarrista, e Beto poderia cumprir ao vivo um apoio com bases e eventuais solos. Dessa forma, talvez a presença de um tecladista fosse mais produtiva, musicalmente falando. Mas eu entendo bem a real intenção do Beto. Ele queria mesmo, era dar uma sacudida na banda, mexendo com os brios e criando um fato novo que pudesse espantar o baixo astral dos últimos meses, com tantos dissabores que tivéramos. Então, não era de fato uma necessidade musical, porque o quarteto resolvia-se com desenvoltura e modéstia a parte, desde a fase de trio, nós tínhamos no fator técnico, nosso principal atributo. Tal guitarrista que o Beto chamou, foi Acácio Vaz, que eu não conhecia, mas já era um representante de uma típica vertente de final de década de oitenta dentro do Hard Rock / Heavy-Metal, que era o do extremo virtuosismo, uma semente do que viria a ser em breve a corrente do "Heavy-Metal melódico", ou seja, uma mistura de Heavy-Metal com canto lírico / ópera, e com guitarristas ultra virtuoses, fazendo as vezes de violinistas "spalla".
Rubens não estava comparecendo aos ensaios com regularidade e numa tarde dessas, eu; Beto, e Zé Luiz tocamos com Acácio, com o Beto testando-o para quem sabe, ser o quinto membro da banda, mas o Rubens sabendo depois disso, ficou muito contrariado, pois interpretou como um motim de nossa parte, testando um possível substituto para ele. Mas isso não correspondia à verdade, de forma alguma !! Eu e Zé Luiz jamais faríamos isso, de forma alguma, e nem era a intenção do Beto. Tanto que Acácio na verdade, queria aproximar-se de nós com outra intenção pessoal. Ele tinha um trabalho de composição pronto para gravar, em dupla com um vocalista chamado Cyrilo. Era um som totalmente calcado nesse virtuosismo de viés "malmsteeniano".

A contracapa do LP do Clavion, banda de Acácio e Cyrilo, e com meu aluno, Jameson Trezena, assumindo o baixo por minha indicação 

Acácio queria recrutar uma cozinha para gravar, e tal oportunidade de conhecer-nos, tinha em tese, essa intenção. De fato, ele convidou-nos a gravar o disco, na qualidade de convidados, mas o Zé Luiz não aceitou de pronto. Eu relutei, pois não queria piorar ainda mais o clima interno na Chave do Sol, que já estava por demais pesado, mas só gravar o álbum dessa banda, como convidado, não seria uma coisa tão nociva assim. Em setembro, após várias tentativas do Acácio e de seu vocalista, Cyrilo, acabei fazendo um ensaio na casa dos irmãos Busic, com o Ivan participando também como convidado desse disco a ser gravado.
Mas não logou êxito, pois percebi que por mais que dissessem que eu estava ali como convidado, a intenção real de ambos, era que eu entrasse nessa banda, percebendo o momento de turbulência da Chave, e pelo contrário, tudo o que eu queria, era salvar A Chave do Sol, portanto, desisti de ajudá-los a gravar o disco, e indiquei um aluno meu, que gravou o disco, e efetivou-se na banda, que chamava-se "Clavion", e o meu aluno, era Jameson Trezena, um dos primeiros que tive, quando comecei a ministrar aulas de baixo, a partir de julho de 1987. Acácio Vaz era (é) um guitarrista bastante técnico, condizente portanto, com a vertente que desejava professar em sua banda, além de ser uma pessoa muito legal, sem dúvida.
Mas realmente não tinha nada a ver a cogitação do Beto em recrutá-lo como segundo guitarrista da banda, e pior que isso, tal insistência dele em buscar um novo membro, revelou-se uma estratégia ainda pior, se a intenção era a de "salvar" a nossa banda.

Isso porque o Rubens, que estava afastando-se de nós, gradualmente, interpretou da pior maneira possível tal ensaio com Acácio, e o clima só foi azedando daí em diante. Para piorar as coisas, o Zé Luiz estava profundamente atormentado por um dilema pessoal, e por esses dias, revelou-nos que estava decidido a dar uma guinada radical em sua vida e tal escolha da parte dele, seria algo terrível para a Chave do Sol. Dias muito mais difíceis viriam, a partir do final de julho de 1987. E fatidicamente, o show que realizáramos em maio, na cidade de Santos, revelou-se o último da história da Chave do Sol, com sua formação clássica. A banda tentaria sobreviver doravante, mas aos trancos e barrancos, e sofrendo muitas derrotas, sobretudo, no seu âmago.

Foi quando Zé Luiz comunicou-nos a sua decisão pessoal de deixar a banda...
Não ficamos exatamente chocados, pois ele já vinha dando sinais há tempos de sua insatisfação com os rumos da banda. Creio que de todos, ele fora o que mais sentira a frustração pela inoperância do Studio V em levar-nos para um patamar acima, e se isso era crucial para todos, para ele tinha um significado ainda maior, porque estava vivendo uma fase de cobrança pessoal e familiar.

Já com 26 anos de idade completos, estava profundamente preocupado com sua estabilidade sócio / financeira, e frustrando-se com o fracasso de nossa associação com aqueles empresários, deixou de ter esperanças numa nova chance que a banda poderia ter. Até os shows de Caraguatatuba, e consequente esperança de uma nova investida em gravadoras majors, ele foi "empurrando com a barriga", mas depois da negativa da BMG e perdoem-me pelo sarcasmo, mas da parte "do Barriga"), suas esperanças esvaíram-se de vez.

Pressionado a tomar um rumo acadêmico tradicional na vida, tinha a proposta de seu pai, o Dr. João Batista Dinola, em doar-lhe o consultório dentário inteiramente montado e modernizado, caso dedicasse-se à faculdade de odontologia. Não era nem de longe a sua vocação, é claro. Fora o músico incrível que ele é, José Luiz Dinola sempre teve um talento incrível para múltiplas tarefas, consertando e criando coisas, seja em eletrônica, seja em trabalhos que envolviam marcenaria; carpintaria etc etc. Portanto, sua capacidade inventiva e incrível habilidade manual, eram qualidades natas dele, mas odontologia, de maneira alguma era algo que ele levasse jeito.

Contudo, estava fechado nessa questão, e ao comunicar-nos sua saída, na verdade já havia matriculado-se num curso pré-vestibular e imbuído da determinação de estudar com afinco, e não mais fazer parte da nossa banda. Mais que isso, Zé Luiz estava radicalizando naquele instante e seu discurso inicial, era o de abandonar a música.
Ainda bem, para ele e para o Rock brasileiro, tal radicalização total jamais aconteceu, mas em termos de Chave do Sol, sim, foi o fim de sua participação na nossa banda. Depois de um comunicado desses, claro que o baque foi enorme. 

Não estávamos perdendo apenas um baterista de nível técnico incomparável, mas um companheiro de irrepreensíveis qualidades humanas e acima de tudo, um remador fortíssimo dentro de nosso humilde bote, em meio ao mar revolto. Irredutível, não acatou nossos apelos para tentar demovê-lo de sua decisão, e assim, a banda estava irremediavelmente caminhando para o seu final, embora eu; Rubens e Beto ainda empreendêssemos esforços para salvá-la e nessa luta, um novo disco surgiria em questão de pouco tempo.

Depois dessa bomba atômica anunciada por Zé Luiz, o sentimento de perda e inerente tristeza por tal determinação dele, poderia ter tido o efeito devastador do desânimo total e consequente final da banda, simplesmente. Todavia, nosso sentimento na época era de lutar para tentar sobreviver, apesar das intempéries, mesmo diante de uma perda desse tamanho, que tinha o mesmo efeito de uma amputação, com o perdão da metáfora forte.

Independente de nosso drama pessoal, tínhamos construído uma credibilidade pública com o trabalho, e mais que isso, arregimentamos um séquito de fãs, portanto, era imperioso que os sobreviventes não desanimassem, sob a pena de jogar fora todas essas conquistas duramente alcançadas ao longo de cinco anos de trabalho. E nem vou citar fatores emocionais que também faziam parte dessa equação. Com a falta do Dinola, não pensamos em procurar um novo baterista, de imediato, embora soubéssemos que isso fazer-se-ia necessário com urgência.

Pode parecer paradoxal, e eu acho que é mesmo, mas fatores alheios à nossa vontade, fizeram com que tomássemos essa decisão de não sairmos à busca de um substituto, com desespero. Isso porque, após o show em Santos, realizado em maio de 1987, não tínhamos mais nenhuma perspectiva de apresentação, num estranho hiato, mas que veio a calhar, pela nossa situação periclitante naquele instante, com a baixa do Dinola em nossas fileiras. Mas por outro lado, ainda surgiam oportunidades na mídia, que nem desconfiava que vivíamos crise interna, e de fato, não devia mesmo.

Uma dessas, que surgiu, foi a de uma entrevista numa revista masculina de circulação nacional. Ainda vivendo uma fase de exposição midiática bacana, fomos convidados a concedermos entrevista à revista "Homem". Fomos à redação da referida publicação e em nada diferiam de nenhuma redação de revista de música e cultura, com exceção de várias capas de suas edições penduradas pelas suas paredes, e nesse caso, inevitavelmente assemelhando-se a oficinas mecânicas e / ou bares de quinta categoria, tamanha a profusão de mulheres nuas...
Bem, seguindo os passos de suas concorrentes, a revista "Homem" também disfarçava a sua intenção, mantendo departamento cultural, com entrevistas e notas sobre artes; espetáculos e lançamentos em geral, e sem julgamento moral de minha parte, de forma alguma, se queriam falar de nossa banda, e seu trabalho musical, não via (e continuo não vendo), mal algum em estar ali enfocado. Foi uma entrevista boa, não posso queixar-me, e mesmo não sendo uma publicação especializada e ter esse estigma de não ter seriedade, por mais atender as expectativas de adolescentes e solitários onanistas em geral, foi válido...

Digno de nota, Edgard, o "ET", foi conosco nessa entrevista e não fez-se de rogado, pedindo ao jornalista que sabatinou-nos, que publicasse em anexo, um poema de sua autoria... e não é que o rapaz e seu editor acataram seu pedido ? Hilário...

Então, o Beto antecipou-se, e não esperando a crise corroer-nos em lamúrias, saiu à rua e achou um coelho na cartola. Falando com o dono do estúdio Guidon, onde várias bandas independentes haviam gravado (e nesse rol, destaca-se o primeiro disco da Patrulha do Espaço, sem a presença de Arnaldo Baptista, em 1980), conseguiu combinar um pacote de horas num preço bastante razoável, e com possibilidade de parcelamento. Ok, parecia ser uma ótima oportunidade, mas como entrar no estúdio sem o Zé Luiz, e também sem dinheiro ? E depois, mesmo se entrássemos no estúdio e gravássemos um novo álbum, como pagaríamos despesas como a gráfica; a prensagem dos discos; despesas burocráticas; sessão de fotos, e outras ? E a distribuição e divulgação ? Como colocar os discos nas lojas e como divulgá-lo de forma conveniente ?


 
Sem o apoio de uma gravadora, mesmo de pequeno porte, caso da Baratos Afins que apoiou-nos parcialmente no primeiro disco e integralmente no segundo, seria extremamente difícil pensarmos em desatar tantos nós burocráticos e inerentes para termos essa total independência no gerenciamento e o pior, sem verba alguma e vivendo crise interna com perda de um braço direito, que era o Zé Luiz, nossa situação era dramática nesse sentido.

Claro que procuramos o Calanca, mas ele não mostrou-se interessado. E tinha seus motivos, pois ficara chateado quando nem havia lançado direito o EP de 1985, e nós anunciamos uma mudança radical na banda, com a perda do vocalista Fran Alves, e indo além, mudança no repertório da banda, praticamente suprimindo as músicas de um disco recém lançado. Sei que justifiquei isso amplamente em capítulos anteriores, mas na visão dele, havia motivo para chatear-se, eu admito. Sem esse apoio, buscamos outro caminho, e por indicação de nosso ex-funcionário do fã clube e roadie da banda, Eduardo Russomano, além da dica e intervenção de um renomado lojista e concorrente do próprio Calanca, chamado Walcir Chalas (dono da loja Woodstock, muito famosa principalmente entre adeptos do Heavy-Metal e seus derivados), uma luz surgiu. Segundo Russomano e Walcyr, nós deveríamos pedir apoio ao pessoal da revista "Rock Brigade", que estava com um selo oficialmente aberto, e poderia interessar-se em lançar o nosso novo álbum.

Antonio D. Pirani e Eduardo de Souza Bonadia, diretores da "Rock Brigade" na ocasião

Fomos conversar e apesar de seu diretor (Antonio D. Pirani), ser um rapaz extremamente educado e ponderado, não tínhamos muita afinidade com aquela revista e seu staff. Não por haver alguma animosidade, mas simplesmente por não sermos daquele mundo.
Tanto que sentimos uma certa mágoa da parte deles, por nunca termos procurado-os, em toda a existência da banda, e por conta dessa aproximação tardia, nos últimos estertores de 1987, só aí a revista publicar algo a nosso respeito, depois desse contato.

Analisando friamente, de nossa parte, havia uma tendência nossa em não procurar ninguém, e tudo o que tínhamos conquistado na mídia, havia sido pela via natural dos órgãos de imprensa procurando-nos como artistas emergentes e não o contrário. Confesso que visitei muitas redações de jornais e revistas, e até presenteando jornalistas com souvenirs, mas depois de termos sido publicados em suas páginas.

Mas também entendendo o ponto de vista deles, a dinâmica que esperavam, na via inversa, tinha a ver com suas origens como um fanzine. Portanto, dentro dessa prerrogativa, mesmo quando cresceram e tornaram-se uma equipe profissional a gerir uma publicação oficial vendida em bancas, mantiveram essa maneira de agir, ou seja, esperando serem abordados por artistas, não importando se já estavam no circuito e com notoriedade. Desfeito esse mal estar, iniciamos uma relação de amizade, e de fato afeiçoei-me pessoalmente ao Toninho Pirani, que reputo ser um gentleman, que admiro e tenho bom relacionamento até hoje, e também ao Eduardo Bonadia, que é gente boa ao extremo, mas nunca sentimo-nos inteiramente integrados ao "universo Rock Brigade", e por um motivo muito simples : tratava-se de uma egrégora fechada no Heavy-Metal, apesar da revista declarar-se aberta ao Rock clássico também.


Na prática, o Rock tinha ínfima parcela nessa publicação, e o gênero Heavy-Metal dominava 90 % ou mais de suas páginas, e as bolas da vez naquele momento para eles eram : Viper e Sepultura.
Além da extrema simpatia do Toninho Pirani, e também de Eduardo de Souza Bonadia, outro dirigente da revista, e que apesar de ser um entusiasta do Heavy-Metal, gostava e respeitava muito a nossa banda, tínhamos mais um apoio de peso dentro daquela redação, que era o nosso roadie, e ex-funcionário do fã-clube, Eduardo Russomano. Com Russomano trabalhando ali, e ele era muito querido por todos, claro que um apoio à Chave do Sol foi mais fácil de ser alinhavado. Interesse em bancar nossa gravação eles não tinham, porque seu foco naquele momento era o Viper, aliás uma banda de amigos nossos de longa data. Com o Sepultura, não havia vínculo profissional algum, mas como a banda dos irmãos Cavalera estava estourando naquele justo instante, a Rock Brigade "grudou" literalmente neles, e praticamente em todas as suas edições doravante, se não estavam na capa anunciados como matéria principal, ao menos alguma nota ou resenha de show não faltava.

Então, num dia de setembro, o Toninho fechou com a Chave do Sol um acordo de cooperação, e mediante uma cota de álbuns a serem cedidas ao selo, fornecer-nos-iam o seu selo para cuidar da parte burocrática, porém nada mais. Não era uma grande oferta, mas era melhor que nada, portanto, fechamos. Tudo correria por nossa conta, e a única atribuição da Rock Brigade, seria a parte burocrática do disco. Sobre a capa, Beto tinha guardado uma prova que fora-nos sugerida por um artista gráfico, numa intervenção do Studio V, ainda no final de 1986. Fora uma sugestão do marqueteiro Arnaldo Trindade, que indicara um amigo seu, que fez tal raf, já com arranjo de lay-out. Mas como dera tudo errado posteriormente no Studio V, tal arte ficara engavetada. Contudo, o Beto lembrou-se disso e havia guardado o cartão do rapaz que tinha um atelier na Rua Augusta. Sem perder tempo, ligou e constatou que o rapaz ainda tinha guardado o raf, e aceitava preparar a arte-final por um preço que não era exatamente barato, mas que também não era nenhuma exorbitância. Portanto, tínhamos um estúdio em vista; um selo pronto a assumir a papelada burocrática, e uma possível arte final de capa em mãos. Vamos gravar um novo disco, então ?

Bem, não tínhamos mais o nosso baterista...mais uma vez o Beto agiu rápido, e veio com a notícia : -"vamos escolher um repertório base para gravar e começar a ensaiar imediatamente" !
Ivan Busic (ex-Platina), aceitara gravar o disco como convidado...


Por outro lado, antes um pouco dele deixar a banda, Zé Luiz e eu trabalhamos mais uma vez numa nova edição do fanzine do Fã Clube. Lançado em julho de 1987, este número "nove" dava vários indícios subliminares de que as coisas não andavam bem para a banda, e certamente, que mesmo disfarçando e tentando enaltecer pequenas vitórias obtidas nesse período, foi difícil escrever e lançar esse número. Seria o último que lançaríamos, obrigando-me a fazer uma ginástica para ressarcir alguns fãs que ainda teriam direito a receber mais números pela data de aniversário de suas respectivas mensalidades, nos meses futuros, mas depois que o Dinola anunciou sua saída da banda em agosto, eu sabia que não poderia contar com Rubens e Beto para a tarefa da diagramação e lay-out, e como minha inabilidade era total para tais tarefas, preferi encerrar a publicação do fanzine e manter apenas outros serviços básicos, como distribuição de filipetas, doravante. Antes de falar sobre tal edição final do fanzine, no entanto, devo registrar um acontecimento chato ocorrido no recebimento de cartas de fãs.
Não ocorreu exatamente nessa fase, mas antes que esqueça-me, registro que certa vez, recebemos uma carta de uma mãe de uma fã.


Muito emocionada, pediu-nos que parássemos de enviar comunicados à sua filha, pois ela falecera. Ficamos chocados, claro, e embora nem a conhecêssemos pessoalmente, enviamos uma carta de condolências e eliminamos seu nome do mailing. Fora um acidente terrível, com a garota que era nova, na faixa de 15 ou 16 anos de idade, aproximadamente, tendo caído da janela de seu quarto, numa altura bastante alta de um edifício. E de fato, lembro-me da ocorrência em noticiário de jornalismo de TV na época, mas não associei o nome dela ao fã-clube, mas lembrei-me quando li a carta triste de sua mãe. R.I.P. Bem, vamos ao fanzine número nove :

1) Rádio - Falamos sobre a transmissão ao vivo que a emissora Oceânica FM de Caraguatatuba, fizera de nossos shows naquela cidade praiana, em abril de 1987. Fora isso, quatro programas de rádio deram testemunhais sobre a nossa decisão pública de ministrarmos aulas, eu; Zé Luiz e Beto. De fato tivemos tal apoio da parte da "Rádio Matraca" (USP FM), do meu eterno amigo Laert Sarrumor; "Reynação" (97 FM), do jornalista Leopoldo Rey; "Riff Raff" (97 FM), do Richard Nacif, e Sinergia (Alpha FM), do jornalista Valdir Montanari. Eis aí um sinal de que quatro programas falando sobre aulas ministradas por nós, e não de shows ou lançamentos de nossa banda, não era nada animador...
2) Demo-Tape - Anunciávamos a venda das duas demo-tape que graváramos em 1986,em formato K7, ao público em geral. Uma clara iniciativa que demonstrava não acreditarmos mais nelas como cartão de visitas em gravadoras majors.
3) Revista - Além da citação de várias matérias que haviam saído no período imediatamente anterior à julho de 1987, algumas publicações diferentes destacavam-se. Por exemplo, o fato de termos entrado num compêndio como o "ABZ do Rock Brasileiro", muito orgulhou-nos, e mesmo sendo uma menção muito modesta, enalteceu-nos o fato de que estávamos na história do Rock no Brasil, o que não era pouca coisa. Outra nota interessante, foi a da menção de nosso nome numa matéria publicada numa revista inglesa de renome, no mundo do Heavy-Metal, chamada "Metal Hammer". Numa matéria denominada "Brazillian Attack", um panorama da cena do Heavy-Metal brasileiro foi traçada, e nosso nome foi citado, em meio a um monte de bandas contemporâneas. Bem, claro que gostamos, apesar de ser o mundo metálico, que nunca foi o nosso, mas convenhamos, era uma migalha muito insignificante. E por fim, falando de publicações prometidas para o futuro, de fato, o Zé Luiz havia sido abordado para ser entrevistado individualmente na Revista Mix, onde eu e Rubens já havíamos sido entrevistados anteriormente, mas tal publicação não concretizou-se. Ainda esperávamos pela "Bizz Heavy" (aquela história já contada vários capítulos atrás); e nessa altura, já conhecendo os meandros da Rock Brigade, finalmente seríamos ali enfocados. Uma revista chamada "Karaokê" também havia abordado-nos para entrevista, mas tal contato não prosperou, simplesmente.
4) Uma nota triste e lamentável a meu ver, vendo pela ótica atual, dava conta de que nenhuma gravadora havia aceitado nossas abordagens e daí, o fã-clube conclamava os fãs a escrever cartas para as gravadoras, bombardeando-as. Pelo aspecto da função de um fã clube, acho válido que tal tipo de ação seja feita, como mobilização, mas muito errado a meu ver, publicar no fanzine. Talvez na forma de um "memorandum", portanto minimizando a possibilidade dessa conclamação tornar-se pública, tivesse sido mais conveniente.

5) TV - Uma boa nova enfim...nossa teimosia em tentar usar o vídeo clip da música "Sun City", produzido pela TV Cultura em 1986, finalmente logrou êxito. Contrariando a máxima de que não seria aceito em nenhuma outra emissora de TV, justamente por ter sido produzido por uma "coirmã", a TV Gazeta passou a exibi-lo com razoável constância no seu programa, "Realce". Mais que isso, também era exibido nos programas "Night Clip", que varava as madrugadas de sexta para sábado e sábado para domingo, e no "Realce Especial", um edição de fim de semana do Realce, ambos da TV Gazeta.
6) Shows que Rolaram - Bem, uma geral nos últimos shows realizados e a menção a um show em Ponta Grossa, no Paraná, onde de fato, não fomos por conta de chuvas torrenciais na época de sua realização, mas que jamais motivou sua marcação para outra data, tampouco.
7) Fã-Aula - Um reforço a mais para a ideia de que eu; Zé Luiz e Beto estávamos ministrando aulas. Mais um sinal de nosso foco perdendo-se.

8) Promoção - De fato, não era mentira, nós recebemos dezessete redações da parte de fãs, com o tema versando sobre o porque gostavam de nosso trabalho. Um trecho da redação do ganhador, um rapaz chamado Antonio Carlos : "O mundo está caminhando para o fim, pois inconscientes lutam pelo poder atômico através da construção de novas armas, enquanto milhares de pessoas morrem de fome. É difícil acreditar que os governantes responsáveis por isso consigam dormir tranquilos. O que será de todas as crianças que ainda estão por nascer" ?
Bem, interessante sem dúvida, que o fã tenha abordado tal tema para dar vazão a menção de nossa música, no uso da frase final.
Ainda temíamos o colapso atômico advindo da Guerra Fria, nos anos oitenta. Não mudou muita coisa, hoje em dia... substituímos a guerra fria pelo terrorismo, e na falta da temida União Soviética, outros "inimigos da vez" foram surgindo...
9) Fãs - uma das mais tristes e emblemáticas notas sobre a situação de dificuldade financeira do fã-clube, explicava as razões pelo encerramento do fanzine até segunda ordem. Opções para ressarcimento da parte dos associados, seguiram-se.
10) Uma nota dura, muito dura mesmo, sobre o Studio V, mostrava a nossa frustração sobre sua total inoperância para conosco. Tal menção era um desabafo, na verdade, culpando-os pelo nosso infortúnio e de fato, numa questão de meses, passáramos da euforia total ao baixo astral que minou completamente nossas forças, ao ponto da banda estar desmantelando-se naquele ponto.

11) Fofoca - A sessão do fanzine que mais divertia-me em escrever, sem dúvida alguma, mas desta feita, foi difícil encontrar ânimo para brincar... para início de conversa, comentei sobre um boato que estava espelhando-se por São Paulo, que a banda acabara. De fato, muitas pessoas abordaram-nos perguntando sobre isso, inclusive o Luiz Calanca, e só posso deduzir que os sinais que emitíamos nessa época, davam margem a tais especulações.
Beto andando de moto pelas ruas da cidade e em alta velocidade a bordo de uma XL 250... sim, ele estava com uma moto na ocasião, mas nada disso ocorria, pois ele era prudente. Só usei o mote para poder glamorizar a situação e citar o guitarrista do Allman Brothers Band, Duane Allman, que morreu em 1973, por acidente de moto. Zé Luiz continuava no ciclismo, era verdade. Eu havia comemorado meu aniversário na casa do Beto, com vários amigos presentes do Rock paulista e carioca. Meia verdade, pois a reunião aconteceria de qualquer maneira, e não por conta de meu natalício. Quem conhece-me, sabe bem que odeio comemorar aniversário, e não é por vaidade de querer esconder a idade, pois digo e repito : nasci em 1960, mas não divulgo o dia e mês, portanto, não ouse dar-me "parabéns"...
O fato do Rubens ter passado um mês em Ubatuba, também era uma nota subliminar do nosso afastamento enquanto banda. Nunca havíamos ficado um período tão grande sem ensaios, ou no mínimo uma reunião...
O caso do Edgard pleitear um espaço em teatro para seus monólogos / declamações era real enquanto aspiração. Mas não havia nada de concreto nesse sentido, tratando-se de um desejo, tão somente. O fato de Eliane Daic ter "saído" da direção do fã-clube, apenas sinalizava que o Dinola estava afastando-se e não faria sentido ela emprestar seu nome mais para ser creditada como editora do fanzine. Uma matéria a ser publicada na Revista Metal, dava conta da nossa frustração e rompimento com o Studio V.
12) Uma nota comentando a foto ao vivo em Caraguatatuba. Uma pena um show com essa estrutura toda ter ocorrido, num momento de baixa da nossa energia.
13) Chave Situação - Se esse fanzine foi pródigo em lamentos e insinuações tristes sobre o fim iminente da  banda, nesse último box do fanzine, tal tendência escancarou-se...
Um discurso em tom de desabafo, portanto inadequado para publicar-se a meu ver, mas no calor das emoções, acabei cometendo esse ato lastimável.

Se nenhuma gravadora queria-nos, nem mesmo pequenos selos e nesse caso, a Baratos Afins tinha seus motivos para estar magoada conosco, e se o ânimo interno da banda estava em frangalhos, jamais deveríamos expor isso ao público, principalmente o nosso público, que era fiel e lotava os nossos shows. Deveríamos ter tratado tal crise e revolta interna, de forma sigilosa, mas repito, no calor das emoções afloradas, isso tornou-se editorial...

Faço a minha mea culpa, é claro, pois eu era o responsável pela elaboração de todo o texto, ainda que os outros três tivessem direito de opinar. Ninguém queixou-se na época, e assim saiu publicado e chegou às residências dos fãs que pagavam para ter o fanzine.
Num universo de cerca de 2200 sócios, espalhados em mais de 130 cidades brasileiras e algumas até internacionais, cerca de 120 pagavam regularmente a anuidade que dava direito ao recebimento do fanzine pelo correio. Tempos difíceis, e cada vez mais perto do fim chegávamos, apesar dos incríveis fatos que nortearam os últimos meses de 1987, num esforço desesperado de salvar a banda e dessa batalha final, termos materializado um novo LP.  Algumas coisas para contar antes de chegarmos nesse clímax desesperador...


 Continua...

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