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domingo, 19 de julho de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 17 - Última Chance : Um Novo Álbum - Por Luiz Domingues


Não sabia de onde tirávamos forças para prosseguir com aquele cenário pintado à nossa frente. Sem um empresário decente; sem gravadora; sem dinheiro, e o pior de tudo, rachados internamente pela perda irreparável de nosso baterista querido, essa sim, a maior das perdas que poderíamos ter tido. Mas, vendo hoje em dia, acho que tenho a resposta para tal indagação que expus no primeiro parágrafo deste capítulo, ou seja : puro instinto de sobrevivência, era o que movia-nos. Mas também havia o sentimento que um término de atividades seria a coroação de uma frustração enorme por termos "morrido na praia", após tanto nadarmos, e pior que isso, naquela sensação de perdermos tudo o que tínhamos conquistado (e era muita coisa), com nossa heroica jornada em alto mar.

Antes de seguir em frente na cronologia, preciso só registrar que uma última tentativa de abordagem em gravadora fora feita, mas nessa altura, ninguém mais tinha esperanças, após habituarmo-nos com o modus operandi em voga em todas as companhias.
Resumindo, uma fã nossa do Rio, disse que conhecia um contato dentro da EMI-Odeon. Claro que sua gentil oferta em intermediar um encontro foi atendida e assim, desta feita, Eliane Daic, ainda exercendo função de produtora da nossa banda, encontrou-se com essa fã no Rio, e levou o material para tal contato, mas... nem resposta de reunião de audição com o diretor de repertório tivemos, o que era de esperar-se.

Voltando à cronologia, a nossa realidade era de profunda aspereza nessa época, mas louvo muito a predisposição do Beto em tomar muitas frentes de trabalho simultaneamente, com muita energia, e praticamente suprindo esse tipo de característica de profunda força de trabalho obstinada, que era marca registrada do Dinola. Nesses termos, como já mencionei antes, ele alinhavou o contato com o Estúdio Guidon, conversando com seu gentil proprietário, um rapaz chamado Guto; resgatou o artista que fizera um raf de capa e foi atrás para fechar um acordo para ele tocar em frente para concluir o lay-out; contatou Ivan Busic para tocar bateria em nosso disco, e não parou por aí, pois foi rápido no gatilho e começou a alinhavar possíveis patrocinadores para auxiliar-nos nessa despesa maluca com a qual não tínhamos a mínima condição de arcarmos sozinhos.

Nessa seara, logo anunciou um patrocínio conquistado, mas que na "Hora H", revelou-se insípido e mais que isso, praticamente um alvo fácil para piadas prontas...

Tratava-se de um salão de cabeleireiro masculino ("Lazinho's"), que não oferecia-nos dinheiro para ajudar nas despesas, mas dar-nos-ia o uso de seus serviços... bem, éramos cabeludos e artistas, portanto precisávamos de um serviço profissional bacana nesse quesito, mas convenhamos, eu não importava-me em acertar as pontas da minha cabeleira de Rocker setentista, em salões bem mais modestos e pagando por isso. Porém, na penúria em que encontrávamo-nos naquele instante, qualquer ajuda ventilada era válida, e se não empolgava, era melhor ter o patrocínio, do que não tê-lo.

Fora isso, Beto não perdeu tempo, e começou a cotar preços de fábricas de prensagem de vinis, e gráficas para imprimir as capas.
De minha parte, o acordo com a Rock Brigade fora feito, mas minha participação havia sido pequena, pois a intervenção mais incisiva viera por parte do saudoso Eduardo Russomano. Também prontifiquei-me a manter o fã-clube em atividade, e ele era vital para as nossas ações de marketing. Outra colaboração singela foi ter conversado com o amigo Carlos Muniz Ventura, e garantirmos assim uma sessão de fotos com custos minimizados, praticamente só pagando o material, visando as fotos oficiais do álbum, e também promocionais que precisaríamos para a divulgação. Uma última ação de minha parte, foi combinar com o Walcyr Chalas, uma tarde de autógrafos para o lançamento do disco, nas dependências de sua loja e mais para frente, darei detalhes sobre tal ação, que reputo ter sido um dos últimos suspiros de vida da banda, com enorme sucesso. Infelizmente, Rubens parecia alheio a todo esse esforço e profundamente chateado pela somatória de coisas ruins que ocorreram-nos nos últimos tempos, estava distante de nós, e não empolgava-se  com a produção do disco. Relevamos, compreendendo que seu astral estava baixo, e continuamos esforçando-nos, apesar dessa discórdia que ainda minava a banda, internamente.

Os primeiros ensaios com Ivan Busic foram tranquilos. Um músico de alto nível técnico, grande criatividade e uma excelente pessoa, claro que com sua simpatia e espírito brincalhão, o convívio foi fácil ao extremo, e indo além, ajudou a minimizar o astral baixo com o qual estávamos lidando na ocasião. Lembro-me de ir à residência dos irmãos Busic, onde de lá íamos eu e Ivan em seu carro, para o ensaio na casa do Beto, numa rotina que perdurou por alguns dias. Não foram muitos ensaios, porque o repertório do disco era pequeno, com apenas oito canções, e um músico do gabarito do Ivan, tirou-as com extrema facilidade e mesmo sendo respeitoso ao não mudar radicalmente os arranjos originais criados pelo Zé Luiz, claro que colocou um pouco de sua criatividade em algumas sutilezas.

O Beto insistiu em colocar três músicas novas que não estavam originalmente no set list dos últimos shows, em detrimento de muitas que faziam sucesso ao vivo. A ausência de uma música como "O que Será de Todas as Crianças (?)", que era super querida nos shows, desde 1986, acabou ocorrendo para dar espaço a tais músicas novas que foram propostas. A explicação para tais escolhas, fora o fato de que havíamos fechado com a ideia de que seria bom termos músicas em inglês, também, tornando o disco híbrido. Tal decisão foi tomada por termos ouvido a opinião de muitas pessoas que convenceram-nos de que o momento era propício para tentarmos uma expansão internacional e nesses termos, era condição sine qua non que houvesse material em inglês.

E acrescento que as três novas canções eram boas, e poderiam de fato ser incorporadas no disco, mantendo um padrão de qualidade e aposta no potencial pop, também. Tratou-se de "A Woman Like You"; "Sweet Caroline" e "Change my Evil Ways".
As duas primeiras que citei, eram composições muito frescas, fechadas naquelas últimas semanas em meio à crise da banda, e o Zé Luiz ainda tocou-as em seus últimos ensaios conosco, contudo, mal deu tempo dele estabelecer seu arranjo pessoal. Portanto, quem acabou dando linhas gerais e definitivas ao desenho rítmico delas, culminou sendo o Ivan, mesmo. Sobre "Change my Evil Ways", tratava-se de uma música engavetada do Beto, fruto de sua passagem pela banda de Hard-Rock interiorana, "Zenith". Ele teve a ideia de resgata-la e de fato era uma boa canção com certos ecos "zeppelinianos", e dessa maneira, ter algo com possibilidades setentistas no repertório chegava a ser um alento. Mas a inclusão dessas músicas novas, referindo-me a "A Woman Like You" e "Sweet Caroline", trouxe também divergências. O Rubens que nos últimos meses estava bastante contrariado com muitas coisas, simplesmente não quis saber dessas canções, mas adotou posição de neutralidade desinteressada, ou seja, não opôs-se às suas inclusões no álbum em detrimento de outras músicas que deveriam ter entrado naturalmente, caso de "Saudade" que tocávamos desde 1986 nos shows, a exaustão.

Tal posição de sua parte denotava seu esgotamento emocional com a banda e isso entristecia-me muito, é claro. Claro que chateei-me bastante nessa época com tal posição dele, mas hoje, eu entendo que suas forças haviam esgotado-se. Nesses termos, ele deixou claro que não tocaria nessas duas canções novas, e que a responsabilidade de suprir base e solos de guitarra, ficaria a cargo exclusivamente do Beto. Tudo bem, o Beto não era nenhum virtuose, mas poderia e de fato o fez, gravar sozinho, fazendo harmonia e solos para ambas. Nesse sentido, o Beto era mais ou menos como Sammy Hagar no "Montrose", e mesmo no "Van Halen", tocando esporadicamente e cumprindo bem a função. As outras canções escolhidas eram aí sim, conhecidas do público que  acompanhava-nos, por estarem sendo tocadas nos shows, com regularidade.

Era o caso de : "Profecia"; "Sun City"; "Lírio de um Pantanal", e "A Chave é o Show". Sobre "Keep me Warm Tonight", esta também era velha conhecida do nosso público, mas repaginada, ganhara letra em inglês doravante, pois anteriormente era conhecida como "Que Falta me faz, Baby". A respeito de "A Chave é o Show", cabe destacar que a letra de tal canção, falava sobre a própria banda e a emoção que sua música e performance ao vivo, causava aos seus fãs. Achava e ainda acho uma bela ideia do Beto, e na época, tal canção causava uma comoção a parte nos shows. Mas também tinha o seu lado duvidoso, pois estava sujeita a ficar "datada", tal como "Sun City". E não deu outra... ao olharmos os comentários de jovens hoje em dia (2016), na postagem de uma versão ao vivo dessa canção no You Tube, muitos ironizam e debocham da letra, pelo fato da banda não ter alcançado o mainstream e dessa forma, nas suas cabeças moldadas por paradigmas imediatistas, a letra soa ridícula, pelo fato da banda não ter o sucesso que justificasse tal autoelogio. Voltando ao repertório, era um boa compilação a retratar de forma sucinta a mudança de direcionamento no trabalho após o EP de 1985. Mas com a ressalva de que outras canções que tínhamos à disposição, poderiam tranquilamente ter feito parte do álbum, e em alguns casos, como já citei, acho que deveriam ter feito mesmo, pois eram queridas do público, ao vivo. Poucos ensaios portanto, e estávamos prontos para entrar no estúdio.

Mas antes, um novo compromisso de TV apresentou-se para nós, e não tínhamos condições de recusá-lo, apesar do clima pesado que a banda vivia internamente. Falamos então com o Ivan Busic, e ele aceitou a ideia de tocar ao vivo no tal programa, e assim confirmamos presença. Tratava-se de um programa novo da TV Cultura, que era apresentado pelo Kid Vinil, chamado "Boca Livre". Era filmado nas dependências do Teatro Franco Zampari, um teatro de propriedade da própria Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, e onde há décadas são produzidos programas dessa emissora. Fomos tranquilos, pois sabíamos que o Ivan, apesar de poucos ensaios, tinha uma competência absurda, e não havia motivo para preocupações, naturalmente.

Bem recebidos pelo Kid Vinil, que apesar de ser um entusiasta do Punk / Pós-Punk, assumido, nem de longe tinha o comportamento detestável da maioria esmagadora de seus pares no jornalismo da época, portanto, o fato de não gostar da nossa estética com nítidos signos de estéticas retrô e portanto antagônicas ao que essa gente professava, tratou-nos muitíssimo bem ao vivo, diante das câmeras e também nos bastidores. 

Eu e Beto já o conhecíamos na verdade. Certa vez fomos os dois à casa do guitarrista André Christovam, e ele, Kid Vinil estava lá, pois tocavam juntos. Aliás, fomos convidados e fomos assistir um show deles no auditório do Masp, como "Kid Vinil & Os Heróis do Brasil" num outro dia. Nessa tarde de um domingo de 1986, passamos momentos agradáveis ouvindo discos, e tenho na lembrança ouvir o Kid Vinil tecendo elogios sobre o LP "Physical Graffiti" do Led Zeppelin, causando-me a boa impressão de que ele era um jornalista diferenciado nesse sentido, pois se assumidamente gostava da turma de 1977, não assumia o detestável comprometimento de adotar o niilismo em forma de ódio ao passado, como modus operandi em suas funções como comunicador. Talvez se todos os seus pares agissem assim, o estrago punk não teria sido tão grande. Voltando ao palco do teatro Franco Zampari, tocamos ao vivo, embora fosse um programa gravado para ser exibido depois, ou seja, nos moldes da antiga "A Fábrica do Som". Havia um bom público presente, e mesmo não sendo exatamente um público rocker, portanto acostumado a tais sonoridades, foi respeitoso. Nossa performance foi tecnicamente boa, mas dava para ver nos semblantes dos três sobreviventes da banda, que o clima estava pesado para nós e entre nós. Apenas Ivan Busic que não tinha nada a ver com tais desavenças, estava imune e tranquilo nesse sentido. Tocamos "Sun City" e "Que Falta me Faz, Baby", que ainda não havia sido repaginada para o idioma inglês. Mas somente a segunda tem cópia postada no You Tube.

O link para assistir tal performance da banda nesse referido programa de TV, numa postagem de melhor qualidade, lançada por Will Dissidente, em 2015 :


https://www.youtube.com/watch?v=QcVOUJKxNJE

O solo vocal que era típico da música e evocava ídolos do Beto como Robert Plant; David Coverdale e Glenn Hughes, sobretudo, causou uma estranheza normal para um público popular e não familiarizado com signos do Rock e do Blues, nesse caso em específico, mas não chegou a ser constrangedor como se é de esperar numa circunstância adversa dessas. Foi o nosso último programa de TV em 1987, e também o derradeiro como A Chave do Sol, encerrando o nosso ciclo de aparições na TV. Mas claro que não dimensionamos isso a época.



Nesse ínterim, o Beto conseguiu conquistar mais dois patrocínios para o disco, mas apesar dessa ação bem sucedida em nosso favor, assim como houvera ocorrido com a adesão do salão de cabeleireiro "Lazinho's", desta feita anunciou o apoio de uma loja de artigos de couro da Rua Augusta, chamada "Francis Couros", e um patrocínio de uma Luthieria que queria entrar no mercado, chamada "Vintage". No caso da loja de artigos de couro, era fato que na época usávamos bastante roupas de couro no nosso figurino, mas a perspectiva de ganharmos uma peça cada um, não era exatamente o que mais precisávamos naquele instante. Portanto, era o segundo patrocínio apenas relativo contabilizado, visto que termos direito a cortes de cabelo e uma peça de roupa de couro cada um, não ajudava-nos muito a enfrentar a despesa assustadora que estávamos assumindo ao bancar sem recursos, um novo LP.
E no caso dessa loja em específico, ainda houve a agravante de que só uma peça foi disponibilizada, no caso a jaqueta de couro que o Beto usou na foto da contracapa do LP, e as outras peças prometidas para os demais, jamais foram entregues. Bem, pelo menos o Beto saiu bem na foto, usando tal jaqueta. No caso da Luthieria Vintage, cabe explicação. A ação do Beto foi ótima, sem dúvida, aliás nos três patrocínios que trouxe-nos e louvo isso com muito entusiasmo e gratidão, que fique muito claro.

Contudo, assim como no caso dos dois outros patrocinadores que comentei anteriormente, tal Luthieria também não acenou com apoio financeiro direto, mas vantagens subliminares aos membros da banda, no caso, com a montagem de duas guitarras e um baixo.
Se no caso das roupas de couro e do salão de cortes de cabelo, pelo menos na promessa, os quatro membros seriam beneficiados, neste caso, o baterista não levaria vantagem alguma com tal apoio. Ficou menos constrangedor para nós, pelo fato do Ivan Busic não ser componente oficial da nossa banda, mas um convidado, contudo, caso o Zé Luiz estivesse normalmente ocupando seu lugar na banda, teria sido chato.

No meu caso em específico, era uma oportunidade de ouro em finalmente ter um segundo baixo e sair da incômoda posição de encarar uma carreira com o número alto de dificuldades que a logística do ofício submete um instrumentista normalmente, com um "filho único", portanto, estando sujeito a ficar desprevenido em qualquer eventualidade. Contudo, era a minha situação pessoal nessa época, e apesar de saber que era arriscado ao extremo ter apenas um instrumento para encarar os compromissos todos que tínhamos, eu não reunia meios para melhorar tal situação, mesmo nos momentos de pico da banda, onde uma compensação financeira avistou-se, fruto de nossas melhores conquistas.

Então, claro que pelo ponto de vista estritamente pessoal, foi uma grande conquista pessoal naquele instante, portanto, nem tenho como lamentar o fato de que esse patrocínio não tivesse sido na forma de dinheiro vivo, dada a nossa necessidade premente de saldar despesas. Mas também não posso deixar de registrar que o patrocínio ficou falho no cômputo final, pois só eu acabei pegando esse baixo, e as duas guitarras prometidas jamais foram entregues. É preciso registrar também que o acordo cobria apenas a despesa da madeira de corpo & braço; montagem do instrumento & pintura, com a obrigação da compra dos componentes, por nossa conta. Além do mais, no meu caso, a canseira que tive para ter esse instrumento na minha mão finalizado enfim, foi imensa... esse acordo foi fechado em 1987, mas só no final de 1989 eu pude contar com ele, e mediante inúmeras visitas na longínqua oficina onde estava sendo montado. Em muitos momentos, pensei que não pegaria-o, pois num dado instante, o luthier patrocinador chegou a anunciar dificuldade em cumprir sua promessa, mas mediante minha pressão, acabou recorrendo a outro luthier que acabou finalizando-o e aí, uma situação bizarra desenhou-se, pois se o propósito inicial era fazer propaganda de uma luthieria, no caso a "Vintage", o baixo acabou recebendo o selo da "Tajima", onde foi finalizado.


Usei-o pouco ao vivo, e em estúdio, pois quando foi-me entregue finalmente, A Chave do Sol simplesmente já não existia mais e o que ocorria naquele momento era uma banda diferente, nascida de sua dissidência, portanto, o patrocínio não justificava-se por vários motivos, sendo o pior de todos, o fato bizarro do instrumento ser-me entregue com uma marca completamente diferente, que em nada contribuía como exposição ao seu patrocinador original.
Falando do instrumento em si, quando foi-me entregue, aliviou-me pessoalmente como já disse, visto que há muito tempo eu sofria por só ter um único instrumento para encarar a carreira e suas necessidades técnicas prementes. Mas por ironia do destino, poucas semanas depois de tê-lo enfim em minhas mãos, minha situação financeira era outra, bem melhor, e uma oportunidade em adquirir um terceiro baixo, desta feita importado, e de marca renomada, surgiu, e assim, minha situação em termos de disponibilidade de ferramentas, ficou muito mais confortável, doravante. Então, por esses fatores expostos, tal baixo "Vintage", mas que no "headstock" do instrumento saiu marcado como "Tajima", não foi muito usado ao vivo e em gravações. Porém, tal baixo marcou de forma absurda a minha sala de aulas, pois foi com ele que mais contei para ministrar aulas, durante o período de 1989 até 1999, quando executei minha última aula. Recentemente (2015), submeti-o a uma reforma geral, inclusive com troca de componentes, e agora está tinindo, assemelhando-se visualmente e soando como um autêntico Fender Precision, seu projeto inicial. Voltando a falar na cronologia : tínhamos três patrocínios mambembes em que nada contribuíram diretamente no custeio do LP que iríamos gravar, mas que eram melhores que nada, e nesse aspecto, agradeço-os, apesar dos pesares, e louvo a iniciativa e esforço do Beto que correu atrás deles, e fechou-os.

Fugindo completamente do padrão da Chave do Sol, as circunstâncias geradas por todos os fatos que já expus anteriormente, levou-nos a realizarmos um baixíssimo número de ensaios. Nossa sorte, era a de que no caso da maioria das músicas, nós já havíamos tocado-as muito ao vivo, e naturalmente estavam sem indícios de ferrugem decorrente dessa nova fase em que encontrávamo-nos, com a ausência completa de empenho, contrastando com o esmero do qual orgulhávamo-nos durante todos os anos anteriores de nossa existência. Outro fator de sorte, era que se havíamos perdido nosso grande baterista, José Luiz Dinola, o convidado para suprir tal gravação, era ninguém menos que Ivan Busic, ou seja, um baterista de grande técnica, e que apesar de poucos ensaios, inspirava-nos total confiança de que no estúdio desempenharia com enorme categoria a sua função, e de fato, foi o que ocorreu.

Outra ação muito positiva da parte do Beto, foi a de contatar o produtor Edy Bianchi, que havia produzido o LP do "Inox" anteriormente. Edy Bianchi era (é) um grande Rocker, com formação pessoal inteiramente calcada no som vintage das décadas de sessenta e setenta. Não era nossa intenção deliberada trazer tais influências para a sonoridade do disco. Não era nossa preocupação na época, soar vintage, e pelo contrário, a intenção era ser atual para os padrões da época, buscando o pop possível dentro das características de uma banda de Hard-Rock oitentista.

Mas no meu caso, onde tais influências eram queridas ao extremo, trabalhar com um produtor como Bianchi, que entendia a mesma linguagem, seria no mínimo, um tremendo prazer. E de fato, o foi.
Ressalto, não buscamos tais signos 1960 / 1970 nesse trabalho. Se eles existem, e eu acho que sim, existem, são por fatores absolutamente sutis e não deliberados para o propósito do álbum nessa época. Todavia, se Bianchi tivesse participado das gravações dos discos da Patrulha do Espaço, quando fiz parte da formação, muitos anos depois, e aí sim, com a intenção de soar retrô sendo explícita, teria sido perfeito ! Bem, fora dessas considerações estéticas, Edy Bianchi aceitou o convite do Beto, e ciente de nossa penúria, foi além e predispôs-se a trabalhar sem cobrar cachet, por puro prazer e esforço colaborativo com o projeto da banda. Creio ter sido esse, um patrocínio que deu certo para a banda, sem reservas, e um golaço do Beto para o nosso time, sem dúvida.

Então, num cenário que era tétrico para a banda pelo seu profundo momento de baixo astral interno, com direito a uma perda que reputo irreparável, caso da saída de Zé Luiz Dinola, a arregimentação de recursos para materializar o que viria a ser o LP "The Key", foi notável, e sem dúvida, revelou-se o último alento para salvar a banda. Nessa circunstância, o grande artífice dessa tentativa de manter a chama acesa, foi o Beto, não tenho dúvida, que sempre teve espírito empreendedor por natureza, e vendo o circo pegando fogo, tratou de correr para arrumar um extintor; balde d'água; chamar os bombeiros... enfim, não mediu esforços para extirpar o fogo e salvar-nos. Com estúdio marcado; baterista substituto pronto; selo garantido; capa sendo preparada; produtor de estúdio a postos, e três patrocínios acertados, fomos para o estúdio Guidon, nos primeiros dias de outubro de 1987, para a nossa cartada final : era ganhar a rodada desse jogo de poker, ou perder tudo...

Chegando ao estúdio Guidon, numa primeira inspeção prévia de pré-produção, verificamos que a bateria que havia disponível no estúdio, não estava em condições ideais para a gravação de um álbum. Nem mesmo trocando todas as peles, isso seria minimizado, pois algumas "canoas" (pequenas peças que tem função de presilhas para fixar a pele no instrumento, e feitas de latão, geralmente, mas muitas vezes por outros materiais como plástico, ferro etc), não estavam em boas condições. Dessa forma, com canoas em mau estado de conservação, a possibilidade de ruídos estranhos somarem-se ao som do instrumento na sua captura básica de gravação, era grande. Por outro lado, o Ivan não tinha uma bateria importada de alto padrão nessa época e aí, resolvemos fazer um empréstimo, muito inusitado !!

Sem pudor algum, fomos à casa do Dinola, e de forma direta, sem rodeios, pedimos-lhe seu instrumento emprestado para a gravação do disco. Situação absolutamente bizarra, estávamos pedindo o instrumento de nosso ex-baterista para que um convidado usasse-o em seu lugar no disco, em que ele obviamente deveria estar participando conosco. Que situação mais estranha da qual jamais poderíamos supor passar um dia, mas estava acontecendo...
Bem, nessa altura, o Dinola não disse-nos oficialmente, mas na prática, seus esforços para tentar fazer vestibular para odontologia, já estavam descartados, porém ainda chateado, não esboçava sinais de que pudesse voltar para a banda, infelizmente.

Todavia solidário como sempre, aceitou na hora a inglória tarefa de emprestar sua bateria para outro músico gravar o disco de sua própria banda. Então, mais que isso, prontificou-se a levá-la ao estúdio, numa demonstração de sangue frio, enorme, eu diria. Quando o dia do início desse trabalho chegou, lá estava ele montando a sua Tama, e aquele óbvio sentimento de que o certo seria sentar-se no banquinho e gravar todas as faixas, instaurou-se no estúdio. Bem, quando os primeiros trabalhos para levantar o som da equalização básica da bateria começaram, ele já estava tão naturalmente inserido naquele espírito de gravação, que ajudou decisivamente o Ivan, dando-lhe todo o apoio para timbrar o instrumento da melhor forma possível.

Então, quando achamos uma equalização primordial e o produtor Bianchi anunciou que começaríamos a gravar, propriamente dito, o Ivan, sentindo o clima subliminar de constrangimento entre nós quatro, membros da velha Chave do Sol, foi direto ao ponto e disse ao Zé, que ele é que deveria gravar o disco inteiro...
Claro que sim, mas naquela altura, com o hiato de quase dois meses de sua saída, dentro de um estúdio com os ponteiros do relógio voando e a cada giro desses, arrancando-nos o couro, nem dava para perder tempo ali com uma catarse interna da banda, tentando demover o Zé Luiz de sua decisão maluca feita meses antes... uma imensa pena, enfim !! Diante desse impasse, na base da pressão emocional que instaurou-se com tal proposta vinda do próprio Ivan, Dinola acabou aceitando gravar algumas faixas e isso minimizou e muito a nossa frustração imensa de que nosso baterista não tivesse uma participação, mesmo que pequena, em mais um álbum da banda. E mesmo com a falta de ensaios naqueles meses em que havia deixado a banda, claro que conhecia aquelas canções, como ninguém...
Então sob comoção, e confesso, ficamos todos muito emocionados com essa ação inesperada, o Dinola gravou duas faixas do disco :  "Keep me Warm Tonight" e "Lírio de um Pantanal", com Ivan Busic gravando as demais. E também fez algumas intervenções de percussão na faixa "Change my Evil Ways". Isso estava longe do ideal, pois o correto seria ele ter gravado tudo, e saído normalmente nas fotos da capa e encarte do LP, mas a vida pregou-nos essa peça...

Portanto, a gravação da bateria foi tranquila, tecnicamente falando, pois do ponto de vista emocional, fora bastante intensa para todos, devido aos fatores que relatei anteriormente. Apesar da pressa extrema com a qual estávamos lidando por conta de não termos meios de bancar adequadamente uma gravação mais folgada em termos de tempo, optamos pela metodologia tradicional do "um-por-vez", apostando na rapidez da captura individual, em detrimento de uma gravação de bases ao vivo. Portanto, encerrada a participação dos bateristas Ivan Busic e José Luiz Dinola, o próximo na ordem tradicional, fui eu. Também muito seguro daquelas canções e sem percalços, gravei rápido e até dei-me um luxo extra, ao ver que dentro do que havíamos planejado em termos de tempo para a minha parte ser gravada, havia sobrado mais de duas horas do previsto. Na faixa "Profecia", onde um micro solo de baixo fazia-se necessário, porque fazia parte do arranjo da música ao vivo, sendo executado desde 1986, acabei gravando-o num canal extra, somando-se ao baixo regular da música. Essa foi a primeira vez que usei tal recurso em estúdio e somente mais uma vez, em 2003, gravando uma faixa no álbum solo do guitarrista Xando Zupo, fiz algo semelhante, mas desta feita por sugestão dele, e não minha ideia.

As bases de guitarras foram muito tranquilas também. O Rubens não teve dificuldades em gravar faixas que conhecia muito bem por toca-las ao vivo há bastante tempo, e o Beto teve participação fazendo guitarra base em três faixas : "A Woman Like You"; "Sweet Caroline" e "Lírio de um Pantanal". Em outras sessões posteriores, os solos também foram tranquilos, sem percalços técnicos. Rubens naturalmente era o nosso "lead guitar", mas infelizmente, por conta do clima ruim em que a banda mergulhou desde a virada do primeiro para o segundo semestre de 1987, estava mal humorado quase todo o tempo, e colocando-se inacessível para diálogos. Parecia estar ali apenas cumprindo uma função profissional, mas não havia o envolvimento emocional. Aquilo era horrível em todos os sentidos, mas entristecia-me ainda mais, pois nós dois éramos as células primordiais da banda, e como se não bastasse não termos mais o Zé Luiz entre nós, agora amargávamos esse distanciamento. Bem, eu não cogitava que essa contrariedade dele resultaria num mal maior em poucas semanas, e na época, achava que o mal estar passaria e tudo normalizar-se-ia após o lançamento do disco e volta da maratona de shows e contatos na mídia etc. Terminadas as gravações de bases e solos, chegara a vez dos vocais, backing vocals e convidados do disco. Sobre os convidados, foram apenas dois, além do Ivan, obviamente : Fernando Costa e Andria Busic.

Foto promocional do "Inox", com Fernando Costa ("The Crow"), sendo o segundo da esquerda para a direita

Fernando Costa era guitarrista do "Inox", mas sua formação mesmo era como tecladista, e de fato, sua afinidade com o Rock Progressivo setentista era total. Um exímio tecladista e geralmente envolvido com bandas de orientação progressiva, Fernando surpreendera a todos quando surgiu como guitarrista de uma banda de Heavy-Metal nos anos oitenta e de fato, "pilotando" bem uma guitarra numa banda dessas características e sozinho, sem uma segunda guitarra a apoia-lo, portanto, assumindo-se como "lead guitar" da banda. Na verdade, ele é um multi-instrumentista, e nos dias atuais (2016), tem apresentado-se como baixista em vários trabalhos, versátil e dono de um excepcional dom musical, sem dúvida. Nessa participação como convidado, Fernando, ou "The Crow" como gostava de ser apelidado, gravou algumas intervenções de teclados, nada rebuscado, apenas dando um leve colorido aos arranjos de "Sun City", "Lírio de um Pantanal", "Change my Evil Ways", e "Keep me Warm Tonight".

Andria Busic em foto bem mais atual, extraída do Site oficial do "Dr. Sin", sua banda por muitos anos.

Já no caso de Andria Busic, sua participação foi fazendo alguns backing vocals, emprestando-nos sua bela voz aguda. Ele cantou nos refrães de "A Woman Like You"; "Sweet Caroline"; e "Sun City". Sobre a rotina no estúdio Guidon, lembro-me que trabalhamos com dois técnicos, que eram gente boa e interagiram bem conosco e com o Edy Bianchi : Edelson e Pepeu. A mixagem do disco também foi tranquila, com o Bianchi auxiliando-nos bastante. Claro, tudo foi feito a toque de caixa, porque o dinheiro era curtíssimo, impossibilitando totalmente um maior esmero, isto é, a dura vida do artista independente e pobre...
Por volta do final de novembro, encerrou-se essa etapa de estúdio, e agora tínhamos que correr com o processo posterior de corte e contarmos posteriormente com a rapidez da fábrica, para prensar o quanto antes, pois queríamos e na verdade, precisávamos ter o disco em mãos o quanto antes. Encerrando sobre o estúdio, lamento muito que não haja uma única foto desse momento histórico da banda. Além da verba curta que tínhamos para tudo, mesmo uma despesa barata como providenciar filmes para um amigo registrar em máquina Polaroid que fosse, estava inviabilizado. Só lamento, portanto, não ter tal material aqui e agora, em 2016, quando publico estas linhas...

A sessão de fotos oficiais da capa; encarte e material promocional de imprensa, foi conduzida pelo nosso velho amigo, Carlos Muniz Ventura. Ele começara como fotógrafo amador, capturando shows; bastidores; gravações de discos, e até promocionais bem informais, anos antes, mas agora estava trabalhando num estúdio profissional, e havia crescido nesse setor. A sessão ocorreu próxima do feriado de proclamação da República, em novembro de 1987, no estúdio Pugliesi, localizado no bairro do Bexiga, centro de São Paulo.

Estamos nessas fotos, bem condizentes com a estética do Hard-Rock oitentista no figurino, e a sessão foi tranquila, apesar do clima pesado que pairava sobre a banda. Mas há uma particularidade nessa sessão, e que suscitou uma série de especulações, e até piadas entre fãs e gente do métier. 

Uma montagem que encontrei na internet, com Beto Cruz e David Coverdale lado a lado, e provavelmente montada por alguém que gostava de fazer tal comparação entre os dois
 
Um dia antes de irmos ao estúdio de fotografia citado, o Beto  surpreendeu-nos, pois houvera tingido seu cabelo de loiro. Ficou chamativo, devo dizer, mas reforçou a maledicência popular que tachava-o de copiar acintosamente o vocalista britânico, David Coverdale. Fora esse estigma, piadas de mau gosto eram ouvidas pelas beiradas, dando-lhe apelidos : "Boneca Emília, do Sítio do Pica Pau Amarelo; o cantor brega / popularesco, "Ovelha"...
Nos meandros técnicos da produção do áudio, tínhamos a pressa absoluta em efetuar logo o corte, para enviar o acetato matriz à fábrica, e assombrava-nos a perspectiva de que nosso disco nem pudesse ser feito ainda em 1987, por conta de um detalhe que permeava a rotina das gravadoras no final de ano, em sua praxe que já durava décadas : as fábricas não davam conta em suprir pequenas produções independentes nessa época do ano, pois as gravadoras majors faziam encomendas mastodônticas de discos de seus artistas populares, para suprir as lojas bem antes do natal. A loucura total com que as fábricas entravam já a partir de outubro, para prensar milhões, literalmente, de cópias de álbuns de artistas como Roberto Carlos, era incalculável e de fato, os discos eram nessa época do ano, um dos principais produtos procurados como presente de Natal, por milhões de pessoas.

Sobre o encarte, a estratégia em usar o idioma inglês seguia a opinião de pessoas que acreditavam que o nosso melhor caminho era o do aeroporto... o pessoal da Rock Brigade, que tinha muitas conexões internacionais, ainda que dentro do mundo do Heavy-Metal, estava nesse bojo de conselheiros nesse sentido. Tanto que o diagramador oficial da revista, Paulo Caciji, foi quem diagramou o encarte que enviei-lhe em português, mas que recebeu tradução.
Crítica construtiva, achava e ainda acho que a tipologia das letras é pequena em demasia. Sei que foi uma necessidade geométrica para poder ser absorvida sem cortes e de fato, tem muita informação ali, mas é uma dificuldade para ler...
Sobre a capa, como já mencionei, fora uma oportunidade gerada pelo marqueteiro da produtora Studio V, chamado Arnaldo Trindade, ainda quando estávamos envolvidos com eles.

Recuperando o contato direto com o desenhista que fizera o raf  dessa ideia bruta, Beto encomendou o lay-out. Esse rapaz chamava-se Marcos Monteiro, e seu atelier na Rua Augusta,  chamava-se "MM Diagonal". Quando vimos o raf, ainda no casarão do Studio V, havíamos achado a ideia criativa, e que consistia de uma casca de ovo quebrada e seu interior, clara e gema, espalhadas, com uma enigmática chave prateada e estilizada com formato antigo, junto, insinuando que estaria dentro do tal ovo. Indo além, um facho de luz translúcido em diagonal, era emitido da chave, supostamente direcionado ao ponto infinito. Também observava-se a gema do ovo fazendo as vezes de um Sol, e a clara, dando a entender tratar-se de uma galáxia formada em seu entorno, com tudo sob um fundo preto, sugerindo o espaço sideral. Ora, não  ocorreu-nos na ocasião, que isso pudesse ser interpretado por outras pessoas como um desenho de mau gosto. Era estranho aos padrões das estéticas oitentistas em geral, disso não tínhamos dúvida, mas por isso mesmo, era original, fugindo da obviedade em voga. Pensando em padronizações oitentistas típicas, se fosse um disco de banda punk, teria que mostrar-se agressivo e ultrajante; se fosse Pós-Punk, tinha que ter elementos existencialistas, ser depressivo, blasé, niilista e bastante arrogante; sendo Heavy-Metal, tinha que conter morbidez; escatologia e conotação anti-cristã, e finalmente, seguindo o Hard-Rock oitentista, muitas mulheres sensuais seminuas; insinuações de bebedeiras & orgias perpetradas pelos componentes da banda, estigmatizados como ébrios cafajestes e machistas contumazes...
Então, essa capa apresentada como raf inicial não tinha nenhuma conexão com nenhum signo que citei acima, e típico de estéticas oitentistas.

De minha parte, achei-o com signos esotéricos interessantes sobre a formação do universo; a chave como elemento místico a dar respostas, tal como o estranho objeto monolítico que ilustra várias fotos do LP "Presence", do Led Zeppelin; o ovo como alegoria da mônada cósmica, enfim, muito simbólico e mais parecendo uma capa de banda de Rock progressivo setentista, portanto, de meu inteiro agrado por conter tais elementos...
Então, quando o Beto resgatou esse artista e sua ideia, eu apreciei o fato de que esse disco teria uma capa plena de simbologias místicas, evocando cosmogênese. Sobre o lançamento oficial, estávamos longe de situações anteriores onde a banda vivendo dias de expansão na carreira e extremamente unida entre seus membros, planejava shows de lançamento com incrementos cênicos ; uso & abuso de textos sofisticados do poeta Julio Revoredo etc.
Mas havia uma perspectiva de show para dezembro que serviria para tal finalidade, apesar de ser uma data compartilhada com outra banda, e sobretudo, pelo fato da banda estar vivendo dias difíceis com perdas irreparáveis e clima interno muito pesado.


O show que teríamos seria no Teatro Mambembe, no início de dezembro de 1987. Não tínhamos certeza se teríamos o disco em mãos na ocasião, e era vital para efetuarmos vendas ali no calor da apresentação. Vender discos com urgência era uma necessidade muito enfática naquele momento em que tínhamos constituído enormes dívidas, e a perspectiva sobre ter que esperar a movimentação de vendas em lojas não era a melhor perspectiva diante da liquidez que precisávamos. Iríamos compartilhar o show com uma banda amiga do Rio, o "Azul Limão". Essa banda, principalmente na figura de seu guitarrista, Marco, sempre ajudou-nos em nossas andanças pelo Rio de Janeiro, e agora seria o momento de retribuirmos a gentileza prestada. Infelizmente, no entanto, a nossa banda vivia momento de forte turbulência interna e o máximo que pudemos fazer por esse show, foi no empenho de divulgação. Nesse caso, mesmo sem a fundamental presença do José Luiz Dinola, eu pude preparar e despachar o mailing do Fã-clube via correio. Era a única ferramenta que dispúnhamos para tal divulgação, pois não tínhamos verba alguma para investir em outras ações. Então, na prática, apesar dessa falta de recursos, tínhamos o trunfo de possuirmos um ótimo público, fruto de nosso trabalho acumulado em cinco anos de lutas. E ele compareceu em massa ao Teatro. De fato, no segundo semestre de 1987, quando entramos numa fase sob forte turbulência, não havíamos apresentado-nos mais ao vivo em São Paulo (e nem em outra cidade), inclusive gerando boatos os mais diversos. Já havia vazado a informação de que o Dinola deixara a banda; especulações sobre o término das atividades, corriam para todos os lados. Mas por outro lado, a aparição que fizéramos com o Ivan Busic na TV, em setembro, deu alento para os fãs. Boatos sobre a entrada oficial do Busic na nossa banda, também corriam no métier. Sendo assim, em meio a tantas especulações, e pelo fato de estarmos anunciando enfim um show, e o lançamento de um novo álbum, o público respondeu muito bem na bilheteria do Teatro Mambembe. Reforçando a divulgação desse show, fizemos alguns programas de rádio. Estive sozinho no programa "Comando Metal", que era apresentado pelo Walcyr Chalas na 89 FM, no dia 6 de dezembro de 1987, falando sobre o lançamento do disco e do show.

Era o dia 8 de dezembro de 1987, e A Chave do Sol fez efetivamente o seu último show, e desfigurada em sua formação, pois não tínhamos mais a presença de José Luiz Dinola comandando as baquetas da banda. Com Ivan Busic mais uma vez atuando gentilmente como convidado, tivemos na verdade mais um convidado de última hora, na figura do tecladista super técnico e eclético, Fabio Ribeiro.

                     Fabio Ribeiro em foto bem mais atual

Eu pouco conhecia-o antes desse dia, pois sabia apenas que era um jovem músico despontando no cenário, atuando como convidado de bandas de Hard / Heavy-Metal, e que tinha um trabalho com banda própria e autoral, com forte influência de Prog Rock setentista, o que chegava a ser inacreditável para a década de oitenta, com toda aquela ambientação hostil para tal gênero. Quem falava-me bem sobre o Fabio Ribeiro, era o nosso roadie, Eduardo Russomano, que conhecia-o pessoalmente, mas eu só conheci-o de fato, nesse dia no Mambembe, onde atuou de forma discreta, mas bastante competente, tocando as partes dos teclados que o amigo Fernando Costa gravara no disco. No show, foi discreto, apenas fazendo tais atuações de apoio, mas deu para ver que era um tecladista a moda antiga, piloto de muitos instrumentos, com bom gosto para criar e ser um solista brilhante. Na minha concepção, se A Chave do Sol prosseguisse e tendo uma reformulação na formação, com o acréscimo de um quinto membro, teria que ser um bom tecladista a moda antiga, na figura de um músico de formação setentista forte e somando assim como harmonizador e solista ao estilo dos grandes mestres setentistas, como Rick Wakeman; Keith Emerson; Jon Lord; Tony Banks; Ken Hensley; Vincent Crane, e tantos outros que primaram pela extrema qualidade na pilotagem de multi teclados nos shows de Rock. Por via torta, e alheia a essa minha vontade pessoal, isso aconteceria em questão de dias depois desse show do Teatro Mambembe, mas não é hora de falar sobre isso e aliás, não será falado nesse capítulo da Chave do Sol, e sim numa nova divisão na autobiografia que criei, considerando ser um novo trabalho, apesar de ser uma dissidência da Chave do Sol.

           Foto promocional do "Azul Limão", nos anos oitenta

Bem, o show do "Azul Limão" aconteceu antes do nosso, e uma coisa chata ocorreu, não por nossa culpa, absolutamente, mas que envergonhou-nos perante nossos amigos. Eles ainda estavam na metade de seu show, quando bairristas na plateia começaram a hostilizá-los por conta de serem cariocas, e isso reforçava-se a cada vez que seu vocalista falava com o público entre as músicas, e seu forte sotaque carioca mostrava-se proeminente.

Isso por si só, já era chato e deselegante ao extremo, mas tudo piorou quando alguém insuflou a massa para fazer um coro pedindo pela presença da Chave do Sol. A cada música que terminavam, isso foi avolumando-se e criou uma atmosfera hostil, como se a banda fosse ruim, e não era, de forma alguma, e pelo contrário, tratava-se de uma boa banda e nós, da coxia, ficamos muito chateados com esse comportamento do público que hostilizou-os gratuitamente. Além de sermos amigos, por duas vezes o Azul Limão havia ajudado-nos bastante em shows que fizemos no Rio, em 1986 e 1987. Sendo assim, era a nossa primeira oportunidade de bem recebê-los em São Paulo, e infelizmente não pudemos evitar que essa manifestação perpetrada por algum sujeito idiota que insuflou a massa, acontecesse.

Claro que não tivemos culpa alguma num episódio que fugia ao nosso controle, mas de forma indireta, chateamo-nos, pois no camarim, o Marco estava muito contrariado com a recepção da plateia. Bem, isentos de culpa direta pelo triste episódio, mas tentando fazer alguma coisa para atenuar, o Beto e eu falamos alguma coisa no microfone, não atacando a reação da plateia diretamente, mas enaltecendo o Azul Limão como banda ativa do Rock brasileiro daquela cena oitentista, e deixando claro que eram nossos amigos pessoais. Se a carapuça serviu para os idiotas que hostilizaram-nos gratuitamente, ótimo. Nosso show foi muito energético, apesar do clima péssimo que pairava nos nossos bastidores. Aos olhos e ouvidos do público, A Chave do Sol estava em plena forma, apesar da ausência do Dinola. Ivan Busic, apesar de nunca ter deixado nenhuma dúvida de que jamais entraria para a banda oficialmente, tornou-se para o imaginário dos nossos fãs, o substituto natural e portanto o mais adequado para suprir a ausência do Dinola. E a presença do Fabio Ribeiro, totalmente inesperada para o público, foi também saudada com simpatia, e de fato, era um apoio de categoria para abrilhantar o nosso trabalho. Porém, nada disso foi o suficiente para driblar a nossa crise interna.

Na percepção dos fãs, fora um alento, mas na prática, esse foi o último show da carreira da Chave do Sol, pelo menos em sua história oficial e sob os parâmetros de seu próprio classicismo construído sob sangue; suor e lágrimas...
Era o dia 8 de dezembro de 1987, com 520 pessoas presentes nas dependências do Teatro Mambembe. Tínhamos perspectivas de shows e aparições na TV, para janeiro de 1988, e precisávamos agarrar desesperadamente tais oportunidades num esforço hercúleo em manter a banda viva e vender discos, como única forma viável para movimentar dinheiro, portanto, vital naquele momento periclitante que vivíamos, em meio a uma crise emocional interna, com direito a perda de membro histórico da formação, e uma dívida cavalar para saldar num curto / médio prazo. Alguns dias depois desse show que fora vitorioso, apesar das dificuldades que enfrentávamos, teríamos outro evento de divulgação do disco em si, e que merece ser detalhado por conta de seus muitos desdobramentos. E revelar-se-ia como o último ato da Chave do Sol, viva e com êxito absoluto alcançado !


Quando ainda estávamos gravando o LP "The Key", eu já tinha tido a ideia de promover uma tarde de autógrafos para incrementar a divulgação e vendagem do disco. Não era nenhuma ideia original, é claro. Isso era prática corriqueira na Europa e Estados Unidos, mas aqui no Brasil, pouca gente usava tal expediente como esforço de divulgação. Então, como a Baratos Afins não iria produzir o nosso novo álbum, e o espaço físico daquela loja era o cenário ideal para tal tipo de evento promocional, surgiu a ideia da loja de Walcyr Chalas, chamada "Woodstock", ser o local para tal.

Tal sugestão viera da parte do Antonio D. Pirani, o diretor presidente da Revista "Rock Brigade", que emprestara seu selo para lançarmos o álbum, e era muito amigo de Walcyr, portanto, intermediaria esse contato da banda com o lojista. Nossa proposta não despertou grande interesse da parte dele. Pelo contrário, ele mostrou-se bastante cético sobre o sucesso eventual de uma ação de marketing dessa natureza. Chegou a brincar, dizendo que nós estávamos arriscados a "pagar um mico", com um eventual fracasso de público, e que de certa forma, reverteria em anti-propaganda para o disco.

          Fachada da loja Woodstock, no final dos anos oitenta 

Bem, a despeito de sua falta de entusiasmo pela promoção, aceitou realizá-la nas dependências de seu estabelecimento. Nosso desafio então seria divulgar o evento, pois mais do que evitar o constrangimento de um baixo comparecimento e gerar assim um anticlímax para o próprio LP e para a imagem da banda, nós precisávamos muito dessa exposição midiática e que isso revertesse em vendas.

Disparar o mailing do fã-clube seria a providência mais natural, mas um dado a ser considerado nessa equação, era o de que o mailing não era dirigido apenas à cidade de São Paulo, portanto, o comparecimento físico das pessoas, estava condicionado e limitado aos fãs paulistanos e no máximo aos moradores de cidades vizinhas da região da Grande São Paulo. Dessa forma, algo a mais precisava ser feito para incrementar a divulgação do evento e aí, recorremos ao apoio de um jornalista experiente e que era declaradamente um fã e incentivador de nosso trabalho, isto é, o grande Antonio Carlos "Tony" Monteiro.

Claro que ele aceitou ajudar-nos e mesmo deixando claro que por questões éticas não poderia assinar abertamente a assessoria de imprensa que faria específica para o evento, deu-nos uma grande mão nesse sentido, e de fato, conseguimos um "barulho" extra que ajudou-nos a transformar o evento, num sucesso.

Fizemos um programa de rádio, também para reforçar essa divulgação. Então, no dia 10 de dezembro, eu e Rubens fomos ao "Reynação", programa do jornalista Leopoldo Rey, na 97 FM de Santo André.

Bem, com matérias de jornais falando sobre a tarde de autógrafos, acrescido do mailing disparado aos fãs registrados, nós conseguimos um público significativo. Mas logo no início da ação, não foi essa a primeira impressão. Quando chegamos à porta da loja, o cenário inicial era desanimador, no entanto...
Antes de avançar na narrativa do dia, devo esclarecer que a loja "Woodstock" não ficava instalada na Galeria do Rock, tampouco em galerias no entorno, onde também haviam lojas de discos de Rock e produtos análogos. Ela de fato começou numa dessas galerias próximas à grande Galeria do Rock, mas já há algum tempo, saíra um pouco dessa rota e foi parar no outro lado do Viaduto do Chá, na Rua Fernando Falcão, na boca de uma das entradas da Estação Anhangabaú, do Metrô.


Fotos da aglomeração "headbanger", e típica dos sábados na porta da loja nos anos oitenta, e que invadia o mini boulevard que dá acesso a uma das saídas da estação Anhangabaú, do metrô

Com essa mudança de endereço, e aproveitando-se da rampa de acesso à estação do Metrô, com uma arquitetura que lembrava a de uma praça, tal micro boulevard favorecia a aglomeração de pessoas em frente à loja, que então, muito beneficiou-se desse arranjo urbanístico e assim, tornou-se tradição que a loja promovesse um ponto de encontro aos sábados, reunindo ali na sua porta e na rampa do metrô, um contingente que chegou em momentos de pico de presença, na marca dos centenas de jovens reunidos que ali permaneciam por horas, e mesmo que em sua maioria não fizessem grandes compras na loja, invariavelmente o faziam vez por outra, e a sua simples presença como turba, chamava a atenção para outro tipo de público que consumia discos e por isso, colaborava subliminarmente com a loja. Portanto, que haveria uma aglomeração enorme, não tínhamos dúvidas, mas aquela turma que ali ficava por horas, era radical, e nada tinha a ver com nossa banda. Eram os tais "headbangers", adeptos da estética do Heavy-Metal, e com subdivisões de tribos específicas e focadas em seus muitos derivados, no bojo. Assim sendo, quando chegamos para o início de nosso evento, o Walcyr resolveu que o ideal seria que  posicionássemo-nos na parte externa da loja, para chamar mais a atenção e assim, uma mesa foi colocada para nós. Estávamos eu, Rubens e Beto (Ivan Busic participou, também, mas chegou mais tarde), a postos, com uma caneta esferográfica cada um em mãos, e durante cerca de uma hora e meia, pelo menos, ninguém apareceu para comprar um disco e solicitar-nos dedicatórias no álbum.

Walcyr Chalas, em foto bem mais atual na sua loja, que permanece no mesmo endereço, até os dias atuais (2016)

Walcyr não tripudiou, mas ficou falando que avisara-nos e que o constrangimento seria grande etc. Para piorar as coisas, os metaleiros que começaram a aglomerar-se nas cercanias da loja, ironizavam-nos, soltando gracejos, rindo e debochando de nós, primeiro por não sermos adeptos de seu mundo metálico habitual, e segundo, porque nossa posição ali era de profundo constrangimento por estarmos sentados ali e quietos, sem nenhuma abordagem sequer, com semblantes de decepção estampados, e canetas novas e virgens na mão. Mas tudo mudou após o meio-dia, quando o fluxo de pessoas interessadas no nosso lançamento começou a aparecer. A verdade, é que as dez horas da manhã de um sábado, somente aquele contingente de usuários de camisetas pretas batiam ponto ali na porta da loja, mas o movimento de clientes propriamente dito, só começava a esquentar da hora do almoço em diante.

Então, quando o relógio mostrou 14:30 h mais ou menos, a fila de pessoas para solicitar-nos dedicatórias em discos, era enorme. O próprio Walcyr já tinha mudado o discurso e não escondia de ninguém que a ação revelara-se um sucesso, e que doravante, a sua loja faria outras tardes de autógrafos e de fato, foi o que ocorreu mesmo, com muitas bandas fazendo esse tipo de ação de divulgação ali na porta da Woodstock, nos anos seguintes. No final da tarde, quando demos por encerrado o evento, o Walcyr comunicou-nos que estava estupefato, pois vendera 350 cópias do LP "The Key", ou seja, muito além do que imaginou e ele era um experiente lojista tendo em mente portanto, a temperatura do seu negócio, naturalmente.

Outro fator que comemorou, era o de ter atraído pelo menos 90% desse contingente que adquiriu cópias de nossos discos, como pessoas de fora de sua clientela padrão. De fato, a loja tinha opções de Rock bacanas, mas o seu carro chefe era o Heavy-Metal oitentista em voga, portanto, ao proporcionarmos-lhe a chance de atrair pessoas que não necessariamente conheciam a sua loja, isso era um acréscimo para o seu estabelecimento e indo além, muitas pessoas acabaram no impulso consumista, comprando outros discos, além do nosso, aproveitando a ocasião, bem naquele efeito de tentação de promoção de gôndola de supermercado...
No dia seguinte repercutimos esse sucesso estrondoso da tarde de autógrafos, no programa "Comando Metal", da 89 FM, e conduzido pelo próprio Walcyr.

Bem, acredito que esse tenha sido o último suspiro de vida e alegria proporcionado pela Chave do Sol. Lastimavelmente, alguns dias depois, numa reunião realizada na residência do Rubens, onde tudo começou em 1982, uma bomba atômica seria deflagrada e nos estertores de 1987, a banda chegaria ao seu final muito melancólico. Tal teor da conversa desnorteou-me completamente, devo dizer, e como consequência, uma banda teve que ser criada as pressas, como dissidência e tais atos melodramáticos serão relatados a seguir. Não só neste capítulo da Chave do Sol, mas em toda a autobiografia, considero que o que descreverei a seguir, trata-se de uma das mais tristes páginas da minha história pessoal na música, infelizmente.


Nossa situação era dramática, por tudo o que já expus nos capítulos imediatamente anteriores, pois tínhamos uma urgência absurda em recolocar a banda nos trilhos. Primeiro, para salvá-la da turbulência incômoda em que encontrava-se nesse ano de 1987, como um todo, mas com agravantes a partir do segundo semestre. Em segundo lugar, porque o clima interno entre os membros sobreviventes, estava péssimo.

E em terceiro, porque a dívida que contraíramos para produzir o novo disco, era muito alta, e a única forma de sana-la, era vendendo discos, muitos... e para tal, a banda precisava voltar rápido aos trilhos, fazendo muita mídia e shows, sobretudo.

Era certo que não poderíamos contar com Ivan Busic nesse esforço pós lançamento do disco. Ele deixara claro isso desde o início, quando aceitou gravar o nosso disco, pois estava envolvido com a criação de uma nova banda chamada "Slogan", com seu irmão, Andria, e outros componentes. Então, para começar a organizar esse cenário caótico, era necessário que os três membros remanescentes, estivessem 100 % imbuídos da vontade de deixar para trás desavenças pessoais e voltar a ter união, internamente falando. Mas Rubens e Beto não entendiam-se mais, e as ações que o Beto tentou fazer para dar uma sacudida na banda, que parecia estar a deriva, foram pessimamente interpretadas pelo Rubens. E isso transformou-se em mágoa; rancor; e ressentimento, com o qual não conseguiu mais desvencilhar-se doravante, por muito tempo.

Vendo o impasse hoje em dia, tenho certeza de que mais do que aborrecer-se com as iniciativas do Beto, Rubens estava magoado comigo, interpretando o meu apoio ao Beto, como uma demonstração de traição de minha parte, como se eu desejasse que ele fosse eliminado da banda, para a entrada de um outro guitarrista.

Não, absolutamente, não era isso o que eu desejava. Aliás, eu nem interpretava os fatos sob esse viés, jamais. Eu nunca achei que o Beto estivesse armando um motim para derrubar o Rubens de sua própria banda, e sabia que tais tentativas de talvez cogitar um quinto membro, tinham uma outra intenção. E mesmo que houvesse essa intenção por parte do Beto, eu jamais apoiaria isso, pois era um absurdo pensar nessa hipótese. Mas por outro lado, o Rubens sentindo-se magoado, foi distanciando-se de nós, o que magoou-me também, pois estávamos vivendo dias terríveis com as incertezas que rodeavam a nossa banda, e nesse momento agudo, perdemos o nosso companheiro querido, José Luiz Dinola, que era um remador exemplar. O mar estava super revolto como jamais esteve e nesse cenário, com um remador valoroso a menos, o mínimo que eu esperava é que os três remanescentes dessem um "gás" a mais, e remassem com ainda mais força, para suprir a ausência do Dinola.
Porém, e eu entendo que ele, Rubens, estivesse aborrecido, mas sua atitude foi diametralmente oposta, afastando-se.

Portanto, o frágil bote da Chave do Sol lutava contra o mar revolto, em meio a uma terrível tormenta, e só contava agora com dois remadores desesperados em não deixá-lo naufragar. Tínhamos muita divulgação para fazer e shows marcados para janeiro de 1988, e tudo o que precisávamos era aproveitar tais chances para diminuir o efeito da tormenta, colocando a banda em evidência novamente e vendendo muitos discos, porque as dívidas eram enormes. Mas, o pior aconteceu...
Numa reunião realizada na casa do Rubens, pouco antes do natal de 1987, tais insatisfações de lado a lado foram colocadas, mas infelizmente o clima acalorou-se e diante desse impasse de mal entendidos, e movido pela raiva momentânea em sentir-se preterido em sua própria banda, Rubens declarou não querer mais prosseguir conosco, mas ao mesmo tempo proibiu-nos de continuar levando a banda adiante, usando o seu nome. De fato, a concepção do nome da banda, era dele, e o registro oficial do INPI estava em seu nome. Pelo lado emocional, claro que ele era o criador do nome, mas pelo lado oficial, o registro em seu nome decorrera do simples fato de que não havendo pessoa jurídica constituída, somente uma pessoa física poderia assumir a propriedade da patente, e quando decidimos por ele, Rubens, assumir isso, foi de comum acordo entre eu e Zé Luiz, cofundadores da banda, numa noite de 1982, no escritório de um despachante de marcas e patentes que contratáramos e ajudamos a pagar. Portanto, moralmente, éramos também "donos" da marca. Tal situação desnorteou-nos completamente... particularmente fiquei arrasado, pois toda essa indisposição estava não só acabando com a banda, mas minando minha amizade fraternal com o Rubens e de fato, depois dessa noite lastimável, ficamos anos sem falar-nos, magoados um com o outro.
Eu demorei anos para entender o que realmente acontecera e sobretudo, porque havíamos chegado nesse ponto de desentendermo-nos dessa forma.

Se fosse para romper, o ideal, teria sido encerrarmos as atividades da banda de comum acordo, de forma amigável e cada um partir para outros projetos, sem brigas, mágoas e ressentimentos. Todavia, eu e Beto não podíamos nem pensar em encerrar por um motivo muito simples : se a banda acabasse ali, as vendas despencariam e o novo LP que mal saíra do forno, encalharia de uma forma absurda, inviabilizando completamente o pagamento das dívidas contraídas, e que eram muito pesadas. Nesse contexto, tudo o que eu queria, era que o Rubens prosseguisse conosco e interiormente, eu tinha esperanças de demover o Dinola de sua decisão, pois nessa altura, já sabia que ele desistira do plano de estudar odontologia. O que eu queria mesmo, era reagrupar a banda, sacudir a poeira e dar a volta por cima, retomando a trajetória de sucesso que construíramos, desde 1982.

Portanto, não tivemos outra alternativa a não ser criar uma banda dissidente e que mesmo sendo outra banda essência, alimentasse-se do legado da Chave do Sol, para não confundir a cabeça dos fãs, e dessa forma, continuar trabalhando ao máximo para estar de novo em evidência na mídia e vender discos, desesperadamente, para levantar fundos e pagar as dívidas. Então, foi assim que o natal e o reveillon de 1987, apresentaram-se para A Chave do Sol : com um sabor amargo de derrota na boca; amizades fraternais abaladas por ressentimentos mútuos por conta de mal entendidos, e o pior de tudo, um racha irreversível. Ainda falarei de algumas ações de mídia que pertenciam ao espectro da Chave do Sol, e concluirei com capítulos de agradecimentos e análise geral da história da banda, mas a rigor, foi assim que a nossa querida banda desintegrou-se, infelizmente. Para muita gente, a banda formada em janeiro de 1988 sob um novo nome, "A Chave", foi a continuação pura e simples da velha Chave do Sol, mas eu não considero assim.
Minha visão da história é outra, e nesses termos, considero tal banda como um outro trabalho, embora nos seus momentos iniciais, ela justificasse-se para cumprir compromissos inadiáveis, que eram na verdade da agenda da Chave do Sol e que por sua vez, com seu final abrupto, tornaram-se impossíveis de serem cumpridos. Dessa forma, a nova banda criada, ocupou tal lacuna, emergencialmente.
Dessa maneira, abro um novo capítulo para contar a história dessa outra banda, separadamente, tratando-a como a um outro trabalho onde fiz parte. Estou escrevendo este trecho em julho de 2015, portanto, com quase 28 anos de distanciamento histórico.
Nove dias atrás (10 de julho de 2015), fui ao show de lançamento da nova banda do Rubens ( Gióia; Sucata & MusicMan), para prestigia-lo, e aos seus novos companheiros.

Como fiquei contente em vê-lo buscando um recomeço, e o clima de amizade entre nós restabelecido amplamente. Vi sua mãe; a irmã mais velha; seu filho e muitos sobrinhos seus que eu nem conhecia, e senti-me imensamente feliz por estar junto a eles, como se estivéssemos naquela noite de 25 de setembro de 1982, vivenciando o primeiro show da Chave do Sol, no Café Teatro Deixa Falar...
Eu lastimo muito que o desânimo que acometeu-nos em 1987, tenha minado-nos completamente, aflorando uma série de mal entendidos que tornou a convivência, e sobretudo a continuidade do trabalho, impossível.

Esse começo do fim iniciou-se no limiar de 1987, ou até um pouco antes, no final de 1986, quando desapontamo-nos com a inoperância do escritório denominado, Studio V. Concomitante à constatação de que não fariam nada conosco, conforme o prometido em termos de expansão, não só amargamos tal frustração, mas também perdemos tempo precioso em não capitalizar o "momentum" excepcional que vivíamos em 1986. Quando demo-nos conta, já havíamos perdido boa parte do embalo e pior que isso, o nosso emocional já era outro, bem debilitado. Claro que com tal fator emocional abalado, afloraram-se insatisfações pessoais, e isso também contribuiu para minar a banda internamente. Com o embalo sendo perdido, vislumbramos saídas, mas como já relatei, ainda amargamos algumas negativas, e com requintes de crueldade por parte de gravadoras. Isso foi a gota d'água para Zé Luiz, que vivia pressão pessoal por conta de suas indefinições sobre o seu futuro pessoal.

Sua saída da banda, alegando estar abandonando a música, foi um duro golpe. Beto por sua vez sempre foi pragmático. Sua reação não era a de choramingar as perdas pelos cantos, mas sair à rua e tentar achar coelhos em cartolas. Mas tais ações de sua parte minaram o emocional do Rubens, que ficou muitíssimo contrariado, e achando-se preterido dentro de sua própria banda. A ideia de lançar um disco, seria a salvação, mas ao mesmo tempo, foi uma loucura completa, pelo fator da falta de apoio externo, mas também pelo clima pesado no interno da banda. Se os três remanescentes estivessem unidos e imbuídos da vontade de salvar a banda a todo custo, talvez fosse amortizada essa carga, mas com o Rubens ressentido e afastado de nós, a banda estava inteiramente sem forças.

Tínhamos os fãs e o respeito da mídia pelo trabalho construído, e nesses termos, apostamos todas as fichas numa rodada kamikaze de poker, porém, tendo cartas fraquinhas em mãos... será que o nosso poder de blefar assustaria os adversários ?
Mas no frigir dos ovos, com o Rubens interpretando tudo da pior forma possível, o racha definitivo foi inevitável. Apesar desse desfecho triste, hoje em dia, eu considero a carreira da Chave do Sol, vitoriosa ao extremo. Conseguimos muitas coisas, e eu orgulho-me muito de fazer parte dessa história.

Nunca chegamos ao mainstream, mas o legado artístico que deixamos foi imenso. Influenciamos bandas que seguiram-se; muitos músicos, e deixamos saudade entre os fãs. O simples fato da banda ser muito citada até hoje (2016), em fóruns de discussão sobre o Rock brasileiro, e constantemente ser objeto de postagens e comentários acalorados e positivos em diversas redes sociais da Internet, prova o que estou afirmando, e não acho que estou exagerando, nem usando bravatas tolas e egóicas, ou tendo rompantes de soberba. Mas falo sobre fatos e orgulho-me desse legado deixado. Assim acabou oficialmente a Chave do Sol...

Os próximos parágrafos falam sobre a repercussão do LP "The Key", inclusive avançando sobre o ano de 1988, quando A Chave do Sol simplesmente não existia mais. Depois, farei a última análise a seguir e também comentarei sobre as tentativas de volta que a banda teve ao longo dos anos posteriores.

Antes de avançar sobre a análise final, devo dizer que nossa situação  era tão dramática, que nem deu tempo para entrar em depressão...

Alheio ao teórico fim da banda, decretado naquela reunião fatídica de 17 de dezembro de 1987, já no dia 21, eu estava no Rio de Janeiro efetuando vendas do LP The Key em diversas lojas pela cidade, e também por Niterói. Trabalhando como um "burro de carga", literalmente, carregando caixas de discos por diversos bairros, usando ônibus e metrô. Por conta do apoio do presidente do fã-clube da Chave do Sol no Rio, Ricardo Aszmann, concedi entrevista na Transamérica FM do Rio, em 21 de dezembro, com a cabeça fervendo, mas sem poder falar em hipótese alguma que a banda acabara... falei sobre o disco, e as perspectivas de shows que realmente estavam marcados para janeiro de 1988, como se estivesse tudo às mil maravilhas. E foi horrível, é claro, pela angústia que eu sentia internamente. E também incólume a esse imbróglio, matérias e resenhas estavam saindo e continuariam saindo na virada de 1988, falando sobre o novo disco, fora entrevistas que já havíamos concedido anteriormente, e que só foram publicadas a posteriori. Reproduzo neste final de capítulo tal repercussão do disco, mesmo avançando sobre o período de 1988, quando a banda simplesmente não existia mais.
Em se tratando da "Folha de São Paulo", onde um certo editor desse periódico disse certa vez que a melhor banda de Rock vinda da cidade de Liverpool / Inglaterra, era o "Echo and the Bunnymen", ter uma resenha discreta e sem depreciação, até que foi legal...
Essa nota nesse jornal popularesco ("Notícias Populares"), que era conhecido em São Paulo, como "espreme sangue", tamanha a sua apelação para o sensacionalismo do "mundo cão", foi forjada na base da pressão. Fruto raro de um contato que fora-nos proporcionado pelo inoperante Studio V, em 1986, não tive preconceito em ir à redação e abordar a jornalista Sonia Abrão. Numa época onde a triagem em redações de jornais mainstream ainda era frouxa, fui diretamente à sua mesa e abordei-a. Ela tratou-me com simpatia, mas claramente não lembrara-se de minha pessoa por conta de termos participado de seu programa de rádio em 1986, contudo publicou a nota, ainda que redigindo uma mera reprodução do press-release oficial do LP.
Rick Aszmann, nosso colaborador no Rio de Janeiro, colocou-nos em contato com um colunista da Revista "Amiga", que cobria tradicionalmente o mundo da TV, sobretudo novelas. Mas esse rapaz tinha uma coluna de Rock e Heavy-Metal e portanto, não perdi a oportunidade, e entreguei-lhe o material em sua residência no bairro da Lagoa, na zona sul do Rio. Uma resenha curta, mas bem positiva, saiu então.
Muito boa a matéria do jornalista do "Popular da Tarde" de São Paulo, Arnaldo Branco Filho. Só o enaltecimento que fez no primeiro parágrafo, foi notável e explicava muito de nossa trajetória ter tido tantos percalços para penetrar no mundo mainstream. Dá para notar que na maior parte do tempo, usou o nosso press-release como base, mas soube dar sua interpretação e adendos pontuais.
Bacana ter apoio em jornais de bairro, um tipo de imprensa de pequeno porte, mas muito eficaz a meu ver, pois mesmo tendo pequena tiragem, geralmente tem público leitor fiel. Neste caso da "Gazeta do Tatuapé", bairro da zona leste de São Paulo, onde eu morava na ocasião, o destaque foi bem simpático, apesar do texto ter sido a mera cópia do nosso press-release. Mas melhor isso, com um texto bem "explicadinho" sobre o disco, a jornalista incauto que escreve asneiras, ou "inimigos" comprometidos com estéticas antagônicas, e que vão falar mal, sem nem ouvir o trabalho.
Outro exemplo de jornal de bairro, o "Jornal da Paulista" circulava por bairros que são cortados pela avenida Paulista, como o Paraíso, Cerqueira César e Consolação. Uma nota curta e baseada no press-release, mas claro que ajudou.
Mais um exemplo de simplicidade franciscana, mas útil no cômputo geral, com a "Folha Metropolitana".
Do mesmo grupo editorial da  Folha Metropolitana, o "Metro News" era outro jornal distribuído gratuitamente em estações do Metrô, bem cedinho. E neste caso, apenas replicou a nota do seu coirmão.
Ah, se não tivéssemos Leopoldo Rey como amigo, jamais teríamos resenhas na Revista "Bizz", naturalmente comprometida com o enaltecimento e manutenção do status quo de estética vigente das correntes derivadas do Pós-Punk. Tirante a informação errônea de que os nossos discos anteriores eram "totalmente instrumentais", a resenha foi bem simpática e ser comparado ao Deep Purple, uma grande honra, embora eu desconfie que ele referia-se ao Deep Purple-pós1984, portanto kilometros distante de seus melhores dias...
Na revista "Metal", mais uma resenha ótima do Tony Monteiro, detalhista e sempre isento, pois mesmo sendo nosso amigo, nunca deixou de apontar aspectos negativos. Ainda bem, ele enxergou muito mais méritos do que deméritos no disco. Na mesma edição, em outra página, uma nota citando-nos, numa análise sobre o panorama de 1987. Engraçada a afirmação quase jocosa da legenda da foto, dando-nos a alcunha de "Hard-oxigenado", numa clara alusão ao cabelo tingido do Beto.
Resenha na mesma edição n° 43, da revista Metal, sobre o nosso show no teatro Mambembe, no início de dezembro de 1987. O Tony Monteiro citou o desconforto do Azul Limão, que eu contei em parágrafo anterior, e na sua opinião seu set fora longo demais, coisa que eu não achei na hora, mas nesse caso fez um certo sentido a animosidade do público, apesar da detestável demonstração de bairrismo que eu lembro-me que ocorreu, também.
Covardia total, mas foi Eduardo Russomano quem assinou essa resenha do The Key na revista "Rock Brigade"... mas a despeito de ser nosso amigo; roadie e ex-funcionário, o Edu escreveu bem, e acho que não transpareceu ao leitor comum, que talvez não fosse muito correto ele ter escrito, por questões éticas comprometidas pelo conflito de interesses evidente.
Uma opinião forte da jornalista Amanda Desireé, na revista "Roll", dando conta de que o preconceito contra bandas do mundo pesado era grande na mídia mainstream e ao mesmo tempo, tirando-nos desse espectro, deixando claro que o nosso negócio era bem mais ameno... 
Eu e Beto concedemos essa entrevista para o jornalista Tony Monteiro, que foi publicada na revista "Metal", n° 43. O tom de desilusão e medo pelo futuro sombrio era terrível, e refletia o que passávamos nessa época que precedeu o lançamento do disco, e quando a matéria foi publicada, nossos piores temores já haviam confirmado-se, infelizmente...
Uma entrevista conduzida pelo Eduardo Russomano para a revista "Rock Brigade". Bem, quando iniciou falando da Sonia e o Studio V, o Edu sabia de cátedra o quanto aquela associação fora-nos prejudicial...
Nota em um fanzine do México, chamado "Heavy-Metal Subterraneo", onde o Eduardo de Souza Bonadia, da Rock Brigade, era correspondente no Brasil.
Essa matéria não tem assinatura, mas acredito ter sido escrita pelo jornalista Sérgio Martorelli, para a revista "Roll". Ela é boa em linhas gerais, mas dá seus "pitacos" em alguns pontos negativos do novo trabalho que lançáramos, principalmente no quesito letras. Bem, nesse caso, receio que ele tinha razão em criticar, pois o excesso de romantismo que o Beto imprimiu nas suas criações, foi realmente um ponto negativo. Uma resenha que eu infelizmente perdi para o portfólio, mas é digna de nota, saiu no Jornal da Tarde de São Paulo. Nela, o crítico arrasou as nossas letras, e qualificou-as como "ginasianas", fazendo menção à sua infantilidade romântica. Infelizmente ele tinha razão...
Na revista "Metal" de janeiro de 1988, ficamos bem cotados na lista dos "melhores de 87"...
E lá estava novamente o Leopoldo Rey colocando-nos na revista "Bizz", num ranking de melhores discos de 1987... 
Resenha sobre o show do Teatro Mambembe em dezembro de 1987, e na mesma edição, nota sobre a formação da banda dissidente, na revista "Rock Brigade", em janeiro de 1988. 
Na revista "Metal" nº 46, estávamos em 7º lugar no ranking de vendas de discos, numa lista mesclada com lançamentos internacionais, e levando-se em conta tratar-se do mundo do Heavy-Metal
Uma resenha muito boa no jornal alternativo "Contracorrente", assinada pelo Tony Zimmermann, que era o pseudônimo de um jornalista famoso que eu conhecia bem, mas em respeito ao fato de que o uso de um pseudônimo denota desejo de manter-se oculto, oficialmente, claro que não revelarei quem era, de fato.
Resenha do LP The Key, na Revista "Burrn!", do Japão, que era uma das maiores revistas do mundo do Heavy-Metal e Hard-Rock nos anos oitenta.


E o que penso das canções do disco “The Key”, para finalizar...
Bem, deixei para o final, após ter comentado tudo sobre as circunstâncias que envolveram-no, de uma forma ampla, não só enfocando a sua produção em si, mas igualmente sobre toda a ambientação dramática com a qual ele foi concebido. Dessa forma, o leitor chega nessa etapa já bem consciente de que falhas técnicas a parte, tal disco não teve o melhor clima para ser gravado e lançado, lastimavelmente.



“A Woman Like You”(Beto Cruz)




Eis o Link para ouvir tal canção no You Tube :




Essa canção começa com uma convenção, bem ao estilo da Chave do Sol. Acho que não foi por culpa do produtor Edy Bianchi que era bem setentista por excelência, mas o excesso de reverber, bem típico dos anos oitenta era um consenso geral, no afã de buscar-se a adequação ao mercado daquela época. A música é super Hard Pop oitentista em todos os seus quesitos : riff; harmonia e melodia e não teria porque não acompanhar a roupagem condizente em termos de áudio e timbres. E foi o que ocorreu. No entanto, apesar de ser deliberadamente uma aposta nesse aspecto comercial de época, tem seus méritos. Trata-se de uma canção, com melodia atrativa, bom refrão e o seu riff é bacana. Falando do arranjo em si, é incrível constatar que mesmo buscando o máximo da simplificação, nós simplesmente não conseguíamos soarmos com parcimônia, mesmo esforçando-nos para tal. Há um excesso de convenções e até contrasolos executados pelo baixo nessa canção, que são interessantes musicalmente, mas se a ideia era soar simples, são até contraditórios. O solo do Beto é bastante funcional. Ele não era nenhum virtuose, mas tocava bem e sua atuação nessa faixa é muito boa nesse quesito, visto que o Rubens não quis participar nessa canção, infelizmente. A letra peca pelo romantismo em excesso, mas creio já ter explicado isso ao longo da narrativa. Entretanto, a melodia é muito boa e o acréscimo da voz de Andria Busic nos backing vocals, enriqueceu-a sobremaneira. Duas curiosidades sobre essa faixa : Ivan Busic confessou-me que ela foi gravada com a falta da esteira na caixa. Ele ainda fazia testes quando surgiu a ordem para gravar e não deu tempo de colocar a esteira. E como a execução foi considerada perfeita, ficou assim mesmo. Lembrou-me do Bill Legend, baterista do "T.Rex" que confessou ter várias faixas onde gravou sem esteira na caixa de sua bateria, pelo mesmo motivo, naquela banda setentista britânica...

Outra questão engraçada : por volta do momento 4:06’, tem uma voz misteriosa falando alguma coisa parecida com : ”não”. Nós todos naquele estúdio, ouvimos exaustivamente esse trecho, buscando em cada canal solado, descobrir onde estava esse estranho vazamento e não o encontramos, simplesmente. Um verdadeiro fantasma, portanto, ficou na mixagem final e imortalizou-se no disco...



“Sweet Caroline” (Beto Cruz)

Eis o Link para escutar no You Tube :





Outra boa canção do Beto, tem um ótimo riff; melodia, e boa construção de mapa harmônico. Gosto da linha do baixo, embora hoje em dia eu faça muitas restrições ao fato de ter usado técnica pizzicato à época, prejudicando bastante o timbre do instrumento a meu ver. Reconheço que tem bastante ousadia nessa linha, no entanto, e que são frases instigantes e até com uma junção com o solo de guitarra, que é criativa, e perdão pela falta de modéstia, falando dessa forma. Tem uma tonelada de reverber na bateria, mas eram os anos oitenta... paciência !!

Beto atuou muito bem como guitarrista mais uma vez. Sua base e solo são bons. Andria Busic apoiou muito bem no backing vocals mais uma vez e eu acho o refrão muito bom, com apelo pop radiofônico. Se fôssemos uma banda da Califórnia, teríamos tocado maciçamente nas emissoras de rádio em Los Angeles, e ficado ricos e famosos, mas aqui era /é o Brasil...



“Change My Evil Ways” (Beto Cruz / José Carlos Vasconcelos)

Eis o Link para escutar no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=zmPMDXnJdXo



Canção muito boa, que o Beto compôs ainda quando estava em sua ex-banda, o "Zenith", sua inclusão no disco atropelou outras canções muito boas que inclusive já tocávamos com sucesso nos shows, mas mesmo assim, acho que foi válido incluí-la, pela sua qualidade. Acho a introdução dela um pouco exagerada com aquele "sinth" todo pastoso e o vocal sussurrado, mas a canção tem muitos méritos. Sua estrutura harmônica e melódica é rica. Gosto do solo do Rubens (ufa, uma música da Chave do Sol com Gióia pilotando a guitarra, que bom...), com boa incursão pelo wah-wah. Tal solo inclusive acontece num interlúdio bastante interessante, resgatando tradições antigas da própria banda em seus primórdios. Mantendo a tradição, uma linha de baixo e bateria sofisticada, com vários arranjos e convenções bem marcadas. Aqui o Beto foi romântico como buscava ser nesses tempos, mas acertou a mão melhor na criação da letra. Tem certos climas setentistas nessa canção que agradam-me bastante São determinadas cadências harmônicas que transitam entre os estilos do "Led Zeppelin" e o "Uriah Heep", por exemplo. Não que buscássemos isso deliberadamente como já expliquei na narrativa, mas quando aconteciam tais sutilezas espontâneas, era um alento e tanto para o meu ouvido.



“Keep me Warm Tonight” (Roberto Cruz / Rubens Gióia / Luiz Domingues / José Luiz Dinola)

Eis o link para escutar no You Tube :




Essa faixa chamava-se “Que Falta me Faz, Baby”, mas adaptada para o inglês, ganhou tal roupagem repaginada, porém sem perder a intenção do Beto em fazer uma letra bem na linha da sensualidade explícita, buscando inspiração no "Whitesnake", naturalmente. O riff baseado em Blues, ainda que usando signos oitentistas bem delineados, é sensacional a meu ver. O Zé Luiz Dinola gravou-a e por um pedacinho do disco ao menos, foi a formação clássica da Chave do Sol tocando coesa. Acho a melodia boa, mas a métrica com a letra não encaixou-se cem por cento em alguns trechos, infelizmente, obrigando o Beto a correr para não cantar fora da pulsação. Gosto muito dos solos e contrasolos do Rubens. No baixo, tem até “slap”, um recurso estilístico que hoje em dia eu não gosto e não usaria se fosse gravar tal faixa novamente. E o órgão Hammond que o Fernando Costa gravou é bem discreto, essa era a intenção, mas bem bonito. Hoje em dia eu teria pedido para ele descer a mão e fazê-lo soar na frente, excepcional tecladista que era / é. E o micro solo vocal que o Beto fez, soa-me nostálgico ouvindo-o hoje em dia, visto trazer-me a lembrança dele fazê-lo ao vivo tantas vezes naqueles anos de 1986 e 1987, e assim arrancar uivos de emoção das plateias que tivemos nos shows.



“Profecia” (Roberto Cruz / Luiz Domingues)

Eis o link para ouvi-la no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=DBTU71DG7Sg



Faixa mais pesada do disco, tem uma estrutura praticamente dentro do preceito Heavy-Metal, apesar de tanto esforçarmo-nos para desvincular a banda dessa pecha, conforme já expliquei na narrativa. Faixa do lado “B” do antigo vinil, demarcava a parte em português desse LP. Algumas pessoas, incluso críticos, chegaram a apelidar esse álbum como “disco pizza”, por ser mezzo inglês / mezzo português...

O andamento é muito rápido para o meu gosto, mas mesmo assim, gosto da linha do baixo. Ivan Busic impressiona pela sua condução mega técnica e frases bem robustas. Gosto dessa letra e sobretudo pela frase : “O sol só brilha para quem luta até o final”. Frase forte e que espelha bem o espírito guerreiro do Beto.



“Sun City” (Roberto Cruz / Rubens Gióia)

Eis o link para ouvir tal canção no You Tube.


https://www.youtube.com/watch?v=7QhTS9ADigk



Bem, na narrativa eu falei exaustivamente sobre essa canção, e o que ela representou para a Chave do Sol e indo além, para a cena do Rock pesado brasileiro oitentista. E também sobre a questão da sua temática enfocada na letra e decorrentes erros e acertos nela inerentes. Acrescento que o arranjo colocado pelo Fernando Costa aos teclados é bem simples, bem naquela ideia de ser um reforço apenas, mas muito bonito. Assim como em “Keep me Warm Tonight”, ele deveria ter tido mais espaço, mas foi o que pedimos-lhe à época e ele cumpriu o nosso desejo. Hoje em dia eu teria dado carta branca para ele criar a vontade e ficaria soberbo, tenho certeza. De resto, é espetacular o solo do Rubens. E do riff primordial nem se fala, um dos mais geniais que ele criou para a nossa banda.



“Lírio de um Pantanal” (Beto Cruz)

Eis o link para escutar no You Tube :


https://www.youtube.com/watch?v=NMz7SNbsUPQ



Uma balada muito especial composta pelo Beto, e que causava bastante emoção nos shows, acredito que nessa versão oficial ficou muito bonita. O trabalho com duas guitarras, apesar do clima interno da banda não ser nada bom nesse instante em que foi gravada, é um bálsamo para esse disco. É um arranjo tão bonito e concatenado entre Rubens e Beto, que quebra a agonia que sentíamos por ver nossa banda desmantelando-se nessa época. Gosto muito da serenidade que ela transmite, e da interpretação do Beto. Aprecio a letra, também, que saiu da temática do romantismo e apostou num tema mais profundo. Outra faixa onde contamos com nosso velho baterista, José Luiz Dinola, foi gravada com uma emoção extra, pelo imediatismo dessa situação gerada no estúdio. Solos belíssimos de ambos (e é bacana a diferença de timbres, bem nítida entre as guitarras), Rubens e Beto e uma participação discreta do tecladista Fernando Costa, mas providencial.



“A Chave é o Show” (Beto Cruz)
Eis o Link para ouvir essa música no You Tube :





Essa é uma outra canção que já comentei anteriormente. Aqui acrescento que acho o andamento um pouco rápido. Mais lento um pouquinho teria ficado melhor, na minha visão. Mas é um bom riff, e o refrão bastante pop, sem dúvida alguma. Ivan Busic arrebenta com suas evoluções à bateria, incluso sutis passagens por dois bumbos. Gosto da linha de baixo que criei, intercalando condução simples e fraseados rápidos e mais técnicos, quase como contrasolos, uma marca registrada da velha Chave do Sol, sem dúvida.



LP The Key - na íntegra


Eis o link para escutar o álbum inteiro no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=cpbt7W5Ab4o

Continua...

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