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terça-feira, 23 de junho de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 13 - Segundo Semestre de 1986 : O Auge da Euforia

Entramos enfim no segundo semestre de 1986, com o pé no acelerador, em pleno embalo ganho pelos acontecimentos positivos, e somados principalmente nos últimos três meses.

O próximo compromisso ocorreu num espaço novo na cidade, que aparecera para cobrir a lacuna deixada pela extinção do Teatro Lira Paulistana na cidade de São Paulo. Tratava-se de um teatro muito bem localizado, muito próximo à uma estação de metrô (Estação Paraíso), portanto com toda a possibilidade de tornar-se um grande ponto de shows na cidade, e de fato, foi o que aconteceu. Chamava-se "Teatro Mambembe", localizado na Rua do Paraíso, bem na divisa entre os bairros da Aclimação e Paraíso, na capital paulista.

Logo que abriu suas portas para o Rock, projetos foram  multiplicando-se, e ali os shows ocorriam geralmente às segundas e terças, nas brechas das peças de teatro, que ali encenavam-se. E nesse contexto, é claro que A Chave do Sol também foi convidada a apresentar-se, e a data de 28 de julho de 1986, foi-nos oferecida.

Estávamos a mil por hora, e o leitor atento recorda-se que são muitas parágrafos falando desse período entre março e julho de 1986, como um dos mais intensos para a história da banda, quando muitas coisas positivas aconteceram, e simultaneamente.

Neste caso, tratava-se de um projeto do produtor de shows, Antonio Celso Barbieri, denominado "São Power", e que teria a companhia do "Excalibur", cujos membros eram nossos amigos, e já haviam dividido o palco conosco em ocasiões anteriores. Nesse show, tentamos uma experiência ousada, ao fecharmos um set list inteiramente montado com músicas novas !

Era uma maluquice, mas a surpresa maior veio com a reação do público, absorvendo completamente a ideia de uma maneira efusiva. Tempo bom onde um teatro lotava para um show de Rock autoral, e nossa banda sentia-se segura para fazer um espetáculo inteiramente montado com músicas inéditas, sem medo de desagradar o público sedento pelas músicas consagradas, e portanto familiares aos seus ouvidos.

Nesse show, o Beto tocou guitarra em várias músicas, também. Bem, o que dizer de um show realizado num dia útil longe do final de semana, e que mesmo assim teve a proeza de arregimentar 550 pagantes em sua bilheteria ? E isso porque a capacidade oficial do teatro era de 350 pessoas aproximadamente, mas pasmem, havia gente pelos corredores, e nós mesmos voltaríamos à este mesmo teatro e quebraríamos o recorde novamente, num futuro não muito distante, e que contarei logo mais.


 
Em fotos desse show, vemos o produtor Antonio Celso Barbieri (primeiro à direita), e a banda (o roadie Edgard Puccinelli Filho entre nós), no camarim, comemorando a bilheteria "gorda", mediante um saco de batatas, literalmente, cheio de notas de "cruzados".

Foi um excelente show, e coroou a ótima fase em que a banda encontrava-se.


Estávamos afiados, com um novo som que agradava ao público, e o telefone não parava de tocar com oportunidades.

E é sobre isso que falarei a seguir, com mais três oportunidades que apareceram nesse período : uma de cunho empresarial; outra relativa à uma grande oportunidade de aparecer num programa de TV mega popular na época, e a terceira, uma reportagem de página inteira numa nova revista que estava entrando no mercado com contundência.

Teatro Mambembe - 28 de julho de 1986 - Fotos de Maurício Abões

Falando sobre o primeiro item que citei anteriormente, foi uma sondagem que recebemos de um escritório, querendo saber se tínhamos empresário; manager; agente, ou alguém que cuidasse de nossa vida empresarial. Ora, desde 1982 que perseguíamos uma oportunidade desse porte, com diversas tentativas com empresários de vários tipos. 

Nesses termos, havíamos colecionado uma gama de acontecimentos e com personagens nesse sentido : de "pé de chinelo" a escritório de médio porte; passando por pilantras explícitos; aspirantes a empresários; gente inocente, mas bem intencionada; incautos sem noção, e profissionais bons que queríamos, mas a recíproca não foi verdadeira (Jerome Vonk que nunca interessou-se; e Antonio Celso Barbieri, que não desejava trabalhar com exclusividade com nenhum artista), enfim, a lista de tentativas que tivemos em achar alguém que pudesse impulsionar a nossa carreira, era grande nessa metade de 1986, e tudo devidamente contado nessa narrativa, ao longo dos capítulos anteriores. Desta vez, porém, esse telefonema parecia ser um alento, pois a primeira impressão que tivemos, foi de que tinham um determinado porte, pois diziam ter estrutura, com um estúdio de gravação próprio; assessoria de imprensa, e contatos na indústria fonográfica.

Claro, tirante ser uma possível bravata no afã de exercer autovalorização, só o fato de alegarem ter um estúdio próprio de gravação, já chamou-nos a atenção, pois nos anos 1980, a regra do mercado era a de estúdios serem extremamente caros. Numa época muito diferente da atual (2016), onde artistas gravam discos em quartinhos de apartamento, usando softwares, naquela época, para se gravar, só entrando em estúdio profissional e os preços eram salgados. Portanto, a simples menção de que tinham esse recurso, soou extraordinária para nós, pois ter estúdio particular representava um luxo para a época, e claro que consideramos sim, a hipótese de ouvir a proposta de tal escritório, pessoalmente.

A alegação deles para abordarem-nos, foi de que tinham um cast de artistas de gêneros e nichos de mercado distintos em seu elenco, e que agora haviam decidido adentrar no mundo do Rock, também, e para tanto, procuravam por uma banda de Rock emergente, onde explorariam seus contatos para catapultá-la ao sucesso mainstream. Dessa maneira disseram ter realizado "uma ampla pesquisa de mercado", e que haviam chegado à conclusão de que "A Chave do Sol" era a banda emergente com melhor potencial para contratarem.
Não obstante o fato de ser algo falado à esmo, e sem explicar que tipo de pesquisa foi essa, o fato é que a nossa percepção pessoal era de que estávamos de fato popularizando-nos, mediante a constatação de que estávamos nos jornais; revistas; fazendo programas de TV; rádio; e muitos shows, conforme já narrei antes, portanto, por que não acreditar que alguém havia enxergado isso ?

Por outro lado, todo esse discurso era fascinante, mas apesar de sermos jovens, não éramos mais adolescentes, e a própria banda tinha uma kilometragem suficiente para não engolir uma argumentação tão adocicada assim. Por que não iam atrás de alguma banda num patamar mediano, acima de nós ? Estariam as melhores opções perdidas para outros empresários ? Possivelmente sim, é claro, mas neste caso, em se considerando que procuravam emergentes no estilo "caçador de talentos", não seria muito mais objetivo caçar tais talentos em casas noturnas como o "Madame Satã", por exemplo ??

Em se tratando de mundo empresarial, que investidor procuraria oportunidades na segunda ou terceira divisão do negócio ? Se queriam ganhar dinheiro de verdade, a opção mais confiável seria buscar artistas que rezassem a cartilha da estética Pós-Punk, e jamais cabeludos anacrônicos, fazendo Hard-Rock, ainda que a roupagem fosse oitentista para nós, naquele momento. Isso já era uma "pulguinha" que tínhamos, alojada atrás da nossa orelha, mas realmente não custava ouvir a proposta, e na base da velha máxima de que não tínhamos nada a perder realizando uma reunião de abordagem inicial, colocamo-nos à disposição para uma reunião preliminar. Só essa primeira reunião já geraria uma história e tanto, e antecipando-me, digo que esse tal escritório gerou um turbilhão de histórias, posteriormente...




A segunda ocorrência paralela, também veio de um telefonema espontâneo. Era da produção de um programa de TV, da Rede Record, chamado "Frente Jovem". Tratava-se de um programa que tentava despertar a atenção de um nicho jovem de telespectadores que acompanhavam Rock oitentista e Pop, mas era híbrido, não preocupado em ser seletivo, e daí, ter um ranço brega muito forte, apelando para o popularesco. Independente disso, é claro que recebemos o telefonema com alegria, pois o programa tinha uma audiência significativa, e se não era o "Mixto Quente" da Rede Globo, aí sim uma atração televisiva que almejávamos, valeria a pena participar. 

O "Mixto Quente" era da Globo, e sonho de consumo para aspirantes ao mainstream como nós, porque tinha uma estrutura de show ao vivo. Filmado num palco montado numa praia do Rio, que proporcionava ao artista apresentar-se da melhor maneira possível, ou seja, tocando ao vivo, com estrutura de áudio digna. Lógico, a mixagem para a TV sempre deixava a desejar, mas pelo menos a performance verdadeira da banda estaria garantida. 

Mas claro, o "Mixto Quente" era uma carta marcada de gravadoras; empresários, e a Globo, portanto, era praticamente inatingível para nós, apesar da fase de ascensão em que encontrávamo-nos naquele instante de 1986. Mas falando diretamente do "Frente Jovem", precisamos considerar que a Rede Record ainda pertencia à família Machado de Carvalho, e apesar de estar decadente há anos, mantinha um charme recôndito, talvez pouco perceptível a olho nu, devido aos seus escombros decadentes, mas estava lá...


O tal "Frente Jovem" era um programa de vídeo clips como muitos que existiam na mesma época, espalhados pelas emissoras abertas. 
Não havia ainda o serviço de TV a cabo no Brasil naquela época, e a internet era restrita às corporações, praticamente, com pouquíssimos usuários comuns, além de que não existiam redes sociais, portanto (e nessa época, ninguém nem sonhava com isso). 

Nesse cenário, tais programas de clips cumpriam sua função como difusores de música, artistas etc. O convite que foi-nos formulado, era para participarmos de uma edição especial do programa, que teria uma atração principal internacional, que era uma bomba de ruindade musical, mas inacreditavelmente havia alcançado uma fama no Brasil retumbante, praticamente viral. Queriam algumas bandas nacionais emergentes para fazer parte do programa como "abertura", e a banda mega popularesca seria a grande atração, como artista principal, naturalmente. Claro que aceitamos, pois era mais uma prova cabal de que estávamos despertando a atenção do mundo midiático mainstream. 

O convite surgira de forma absolutamente espontânea (o tal telefone que tocava...), e esse era um ponto significativo a ser considerado. Outra constatação era a de que poderiam, e deveriam ter chamado uma série de bandas que já habitavam o mainstream, e que portanto, estavam coadunadas com a estética em voga. Falando objetivamente, não teria sido mais óbvio convidarem o Metrô; Rádio Táxi; Capital Inicial, e outras tantas bandas dessa estética e status ? Portanto, ao convidarem-nos, ficava explícita a certeza de que "A Chave do Sol" era enxergada pela mídia mainstream como banda emergente, apesar de estar num barquinho humilde, em meio ao mar revolto do Pós-Punk, e seus tentáculos. 

Aliás, tal percepção era martelada sistematicamente pelo jornalista Antonio Carlos Monteiro, que sempre que resenhava um show ou um disco que lançávamos, deixava explicitamente anotado que não conformava-se com o fato de que a nossa banda ainda não havia assinado com uma gravadora major. Bem, feitas essas considerações, resta-me revelar o nome da banda mega popularesca, mas na crista da onda no Brasil, mesmo vindo de um mundo completamente alheio à guerra de estéticas no Rock. Era uma banda do mundo brega, nada a ver com o Rock, mas invariavelmente confundida como uma banda de Rock por parte dos incautos de plantão : Menudo !! 

Sim, apresentar-nos-íamos num programa de TV gravado ao vivo no Palácio das Convenções do Anhembi, tendo o indefectível Menudo como atração principal, perante um público esperado de 3000 garotas ensandecidas para ver seus ídolos chicanos, e dubladores de araque...
Aperte os cintos na sua poltrona, leitor, que daqui a alguns parágrafos, vem aí histórias curiosas sobre isso...




Outra novidade que surgiu na mesma época, era a de outra reportagem numa nova revista de peso que estava para ser lançada no mercado. Fomos abordados pelo jornalista Leopoldo Rey, que era colunista da Revista Som Três (coluna "Dr. Rock", e locutor de um programa na emissora 97 FM), e este convidou-nos a conceder-lhe uma entrevista exclusiva para uma nova revista que estaria articulando seu lançamento no mercado, e aliás, de outro grupo editorial, a Abril Cultural.

Tratava-se da versão "pesada" da revista Bizz, que entraria em breve no mercado, sob o nome de "Bizz Heavy". A ideia era a de concorrer com a "Metal", publicação do mesmo grupo editorial responsável pela revista "Roll", do Rio de Janeiro, e este por sua vez, um permissionário da editora "Pelo", da Argentina. A Revista "Bizz" tinha linha editorial parecida com a "Roll", mas por conta de alguns desvios de conduta que nem cabe aqui analisar com profundidade, tornou-se quase um comitê de ações em prol do Pós-Punk.

            O jornalista Leopoldo Rey, em foto bem mais atual

Contudo, naturalmente a contragosto, sentiram que precisavam marcar presença no nicho do Rock pesado, e abocanhar a fatia que a revista concorrente, "Metal" estava roubando-lhes. Dessa forma, claro que aceitamos conceder a entrevista (fato já relatado anteriormente), mas a pauta já estava fechada para a edição de estreia, e assim, o Leopoldo informou-nos que entraríamos na segunda edição. Tudo bem, é claro, sem problemas e nós tínhamos uma relação boa de amizade e confiança com o Leopoldo, por conta de sua atuação na Revista "Som Três", onde sempre deu-nos força, vide as várias vezes que falou de nós em sua coluna, "Dr. Rock", e sobretudo pelo peso que teve na decisão da editora em lançar um poster, onde estivemos fazendo parte. Com isso, ficamos de marcar enfim a entrevista, mas um fato em paralelo surgiu (e que na verdade, já estou contando paulatinamente, mas em breve irei aprofundar-me nele), e assim tal entrevista demorou um pouco para ser agendada, e quando foi realizada, foi numa circunstância diferente onde colocamo-nos, e desencadeou desdobramentos.



Como comecei a contar alguns parágrafos atrás, havíamos sido abordados por um grupo de empresários interessados em contratar uma banda de Rock para fazer parte de seu cast. Na primeira conversação, haviam alegado ter chegado até nós motivados por uma "pesquisa" de mercado, de onde haviam convencido-se de que éramos "a banda mais promissora a ser trabalhada", e portanto, queriam a nossa contratação.

Que pesquisa ? Quais critérios foram usados ? Que outras bandas entraram num comparativo conosco ? O que realmente dimensionavam que poderíamos alcançar numa eventual ascensão ao mercado mainstream ?

E indo além, nossa dúvida óbvia, era sobre o próprio poder de fogo deles... quem eram, quais eram os seus contatos ? Boa parte da confiança prévia no projeto ocorreu quando foi-nos informado o nome de um dos donos do escritório, e que aliás, dava título à empresa : Miguel Vaccaro Netto.

Radialista famoso nas décadas de sessenta e setenta, tinha um histórico de contribuição à radiodifusão da música pop em geral, incluso o Rock, através de seu programa que promovia não só execução das canções, mas também entrevistas com artistas emergentes, e algumas brincadeiras com artistas e ouvintes, como por exemplo o jogo de palavras que ele popularizou, chamado "Não Diga, Não", onde mediante um cronômetro, o participante tinha que conversar com ele, Miguel, numa conversação de improviso proposta pelo radialista, e onde a regra era não dizer sob hipótese alguma as palavras "Não", "Não é" ou "Né". Ganhava um brinde quem conseguisse cumprir tal tarefa num espaço de 90 segundos, ou o participante que conseguisse a melhor marca de cronômetro, pois dificilmente um participante conseguia chegar ao final da prova sem ser traído pelo maneirismo de incluir negativas em tudo o que falamos...

De fato, Miguel Vaccaro Netto levou muita gente boa ao seu programa, por anos a fio, e muitos desconhecidos que posteriormente ficaram mega famosos, caso do Mutantes, por exemplo. Já na década de setenta, Miguel foi para a TV, onde comandou programas musicais e tornou-se executivo da gravadora RGE, um braço da Som Livre (da Rede Globo), e lá criou um selo chamado "Young", onde lançou muitos artistas mais próximos do mundo pop radiofônico, incluso aquela leva de artistas brasileiros que usavam pseudônimos americanizados, e que cantavam pop music em inglês, caso de Fábio Junior, por exemplo, que era conhecido como "Marc Davis". Além disso tudo, criou uma empresa para vender discos barateados, numa espécie de sistema de clube, nos moldes do "Clube do Livro", com sistema de vendas semelhante à de empresas de cosméticos, ou seja, num esquema de trabalho de porta em porta com vendas sob encomenda por catálogo, como procedia a Avon, por exemplo. Quando foi-nos falado que o nome "Studio V" era por conta de uma dos programas que ele teve com sucesso no mundo radiofônico, ficamos bem animados, pois ele era sem dúvida um comunicador e empresário de sucesso, portanto, tinha bastante credibilidade.

Sendo assim, o "V" era de Vaccaro, e não o número "5" (cinco) em algarismo romano, como muitas pessoas interpretavam. Mas até descobrirmos que o Miguel era o "Big Boss", demorou um pouco, por conta dos contatos iniciais terem sido feitos sob um véu de mistério, e por outras pessoas, no caso, por intermédio de um casal que apresentou-se como empresários, mas só depois descobrirmos serem sócios do Miguel. E na verdade, só bem depois descobrimos serem associados em outros termos, pois toda a estrutura física do estúdio / escritório, na verdade, era mesmo do Miguel. Antes de avançar no relato, deixo o link de uma sintética biografia que achei sobre o Miguel, no site do Milton Neves :

http://siteold.terceirotempo.com.br/quefimlevou/qfl/sobre/miguel-vaccaro-netto-3363.html






Feitos os contatos preliminares, claro que aceitamos avançar na negociação, e uma reunião foi marcada para um dia de agosto de 1986. O "momentum" pelo qual passávamos era excepcional, e tudo o que precisávamos naquele instante, era de fato, um empresário; manager; agente; escritório ou coisa que o valha, para aproveitá-lo com a adequada estrutura que pudesse representar uma alavanca ao mainstream. 



Era a nossa obsessão desde que fomos pela primeira vez apresentarmo-nos no programa "A Fábrica do Som" em 1983, e demos o nosso primeiro passo contundente para sair da condição de completo desconhecido no mundo do show business, mas que após várias tentativas insípidas em lidar com pessoas, ou despreparadas ou com intenções escusas, não havíamos logrado êxito até então.
Portanto, fora o "Raio X", um escritório com o qual tivéramos uma ineficaz associação em 1985, essa parecia ser a nossa melhor oportunidade. Excetuando-se Celso Barbieri que era um produtor muito eficiente, mas colocava-se no mercado como free lancer e não disposto a empresariar um artista de forma exclusiva, todas as outras experiências que tivéramos até então, haviam sido traumáticas ou na melhor das hipóteses, insípidas. A pompa e circunstância com a qual estavam anunciando seus dotes, não impressionava-nos, porque já não éramos tão novos e ingênuos, contudo, parecia ser uma perspectiva muito bacana e animou-nos a ideia de que por trás de tudo havia um profissional experiente do mercado fonográfico e radiofônico como o Miguel Vaccaro Netto.


Da parte do casal que abordara-nos, as informações preliminares, antes da reunião eram :
1) Fizeram uma "pesquisa" para contratar uma banda de Rock promissora para trabalhar;
2) Tinham outros artistas contratados, mas de outros segmentos da música;
3) Tinham um estúdio próprio de 16 canais para ensaiarmos e gravarmos demos.
Portanto, só por falarem-nos da estrutura do estúdio próprio, claro que ficamos entusiasmados, e a menção de que o "Studio V" era uma alusão ao "V" de Vaccaro Netto, e ao seu antigo programa radiofônico, só reforçou a credibilidade, estimulando-nos a aceitar uma reunião.



Marcamos essa reunião para um dia de agosto de 1986, que não recordo-me exatamente qual foi, mas um fato ocorrido nesse dia, gerou-me uma situação dramática, em específico. Estávamos muito animados com a perspectiva de conhecer os tais empresários e suas propostas, mas sobretudo para vermos a infraestrutura alardeada em contatos telefônicos prévios.

Naquela época, pré-internet popularizada como a vivemos hoje em dia, gravar uma demo já era difícil, imagine um disco oficial, pois para fazer-se algo no padrão de áudio profissional, só em estúdios caros, muitas vezes com preços proibitivos. Portanto, para a nossa percepção de época, o fato desse escritório alegar ter um estúdio próprio de gravação, denotava que tinham poder de fogo, fora a credibilidade do Miguel Vaccaro Netto, como deixei claro anteriormente.

Marcada data e horário, programamo-nos para chegarmos pontualmente às 17:00 h. no escritório / estúdio, que ficava localizado na Avenida Eusébio Matoso, bem próximo do Shopping Eldorado, em Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo.
Beto e Zé Luiz combinaram de chegar lá diretamente e eu, por não possuir carro na ocasião (e nem sabia dirigir nessa época), combinei com o Rubens de irmos juntos.

Não tenho vergonha de dizer que apesar de todo o "momentum" promissor que a banda atravessava, minha condição financeira pessoal à época, era de simplicidade quase "franciscana". Os tempos de vacas gordas que eu tivera em 1984, quando estava tocando simultaneamente com o Língua de Trapo, haviam passado, e minhas reservas estavam esvaindo-se. Tivemos bons cachets com A Chave do Sol, mas não num volume de artista mainstream que  permitisse-nos ter uma segurança financeira avantajada, semelhante a de duplas sertanejas de hoje em dia etc etc. Dessa forma, usava normalmente o transporte público, com tranquilidade, mas muitas vezes passei por situações desagradáveis por conta disso, infelizmente.

Voltando ao foco, o que aconteceu naquela madrugada que antecedeu o compromisso, foi que os motoristas e cobradores de ônibus de São Paulo, deflagraram uma greve. E como não existia acesso à internet, só soube da notícia na hora do almoço, quando liguei a TV para almoçar, assistindo o noticiário. Sem telefone, não tinha meios de ligar imediatamente para tentar um plano de emergência com o Rubens e assim, decidi antecipar a minha saída de casa, visto que o Metrô estava funcionando normalmente. Minha ideia era ligar para ele através de um telefone público já a caminho, e solicitar-lhe que buscasse-me na estação Santa Cruz, onde eu descia, e seguia o trajeto para a casa dele normalmente, através de um trólebus (que fazia a linha "Estação Santa Cruz - Lapa").

Trólebus, para quem não conhece a cidade de São Paulo, são ônibus elétricos, uma tradição paulistana desde 1949, mas que poucas outras cidades brasileiras possuem. Apesar de sobrecarregado pela greve dos ônibus, o trajeto do metrô foi tranquilo. Cheguei no tempo normal a que estava acostumado levar do Tatuapé até a Vila Mariana, onde fica a estação Santa Cruz, naquela média habitual entre 30 e 35 minutos aproximadamente.

Já no percurso a pé que fiz de minha casa até a estação Tatuapé (e eram apenas quatro quarteirões da minha residência à época), liguei para a casa do Rubens, mas não pude falar com ele, deixando recado com uma das empregadas da casa, a Maria. Não logrando êxito, decidi não perder tempo e embarquei no Metrô, com a ideia de tentar um novo contato na estação Santa Cruz, assim que desembarcasse naquela estação da zona sul. Assim que cheguei à estação, procurei outro telefone público e refiz o contato... novamente a Maria atendeu-me e não havia mudado nada no panorama, e eu comecei a ficar nervoso, pois ainda que tivesse antecipado a minha partida, o tempo urgia e se não houvesse uma carona do Metrô até Pinheiros, o atraso poderia ser enorme e o que martelava na minha cabeça enquanto apreensão era o óbvio : o medo de causar uma péssima impressão de amadorismo, logo na primeira reunião !! Sem outra alternativa, pois não tinha dinheiro para bancar um táxi, pus-me a caminhar, e de tempo em tempo fui tentando novos contatos telefônicos para tentar a carona salvadora.

O percurso entre a estação Santa Cruz e a residência da família Gióia na ocasião, localizada no Itaim-Bibi, bairro nobre da zona sul de São Paulo, não era um absurdo, impossível de ser realizado. Quem conhece-me pessoalmente, sabe que sou um andarilho em potencial, portanto, caminhar é um prazer na minha vida. O grande problema era o tempo. Não incomodar-me-ia de forma alguma em caminhar, se não houvesse a urgência em chegar na casa do Rubens. Além desse temor por causar uma má impressão aos empresários logo no primeiro contato pessoal. Fui andando e ligando. Mas seguidamente fui sendo informado pela Maria, que nada mudara. O percurso a pé, que dá para fazer em uma hora de caminhada aproximadamente, num ritmo de passeio tranquilo, teve que ser acelerado e claro que além de cansar mais, colocar-me-ia na situação inevitável de chegar esbaforido e suado, portanto, também inadequado para participar de uma reunião.

Com a aceleração da caminhada, abreviei o tempo de percurso para 40 minutos aproximadamente e quando cheguei a residência dos Gióia, tive a notícia triste que nada mudara e aí, meus temores sobre a reunião, somado ao esforço que fiz para estar ali há tempo,  chocaram-se com essa notícia, e sendo assim, fiquei desolado.
Sem alternativa, resolvi prosseguir na caminhada, onde num percurso de distância igual, praticamente, teria a perspectiva de chegar ao escritório em 40 ou 45 minutos, portanto. Já estava pondo-me a andar quando o Rubens apareceu enfim, e seguimos de carro, chegando com um ligeiro atraso, mas não vergonhoso, pois quando entramos no recinto, vimos que Beto e Zé Luiz estavam ainda sentados na recepção, aguardando a ordem para adentrar o gabinete de reunião. Ufa...



Mais tranquilo internamente, por estar ali, e minimizando portanto uma angústia pessoal que comecei a nutrir desde a hora do almoço (quando soube da greve dos ônibus, assombrando-me sobre um possível e vexatório atraso logo na primeira reunião com os empresários que poderiam mudar a minha vida / nossa vida), tentei recompor-me ao máximo, mudando o meu semblante para poder entrar na sala com uma boa aparência e autoconfiança. Fomos chamados enfim, e quem falou conosco foi uma mulher que aparentava estar na faixa dos cinquenta anos de idade, chamada Sonia, acompanhada de seu marido, um rapaz bem mais novo do que ela, chamado, Antonio. Ambos apresentaram-se como sócios, e diziam-se produtores teatrais com larga experiência no ramo, tanto com muitas peças montadas no curriculum, quanto agenciamento individual de atores, gerenciando carreiras.

Comunicativos a bem articulados, fizeram o discurso padrão que se espera numa primeira abordagem, enaltecendo as qualidades do "Studio V", e sobretudo, alimentando a ideia de que estavam aptos para gerenciar a nossa carreira com tranquilidade rumo ao universo mainstream, graças aos contatos que tinham no mundo fonográfico; empresarial do show business, e na mídia mainstream. De novo falaram sobre uma misteriosa pesquisa realizada, mas sem especificar nenhuma metodologia convincente sobre como realizaram-na, se é que a fizeram, e mais que isso, como chegaram ao nosso nome.

Encerrado o discurso de apresentação, fomos conduzidos a uma "tour" para conhecer as dependências da organização e de fato, mais que o discurso de vendedor que fora proferido no gabinete de reuniões, foi ali que realmente impressionamo-nos, pois parecia que estavam realmente estruturados para trabalhar, a julgar pelo que observamos. Claro, o grande trunfo era o estúdio, e de fato, era novinho em folha, com estrutura de acústica; técnica e equipamentos disponíveis, muito melhor que qualquer estúdio de médio porte que conhecíamos, e realmente aparentando só perder mesmo para grandes estúdios sedimentados no mercado.

A perspectiva de gravar a vontade, fazendo demos com material novo com qualidade de áudio o suficiente para levar às gravadoras, mas sobretudo com a calma para gravar, um fator que soava como um luxo inatingível para nós que éramos uma banda independente, e sem grandes recursos monetários para investir como sonhávamos, era extraordinário. Portanto, não direi que foi o único fator que impressionou-nos nesse primeiro contato, mas certamente que foi o principal, pelo menos na primeira avaliação. Mas não existia somente o estúdio de gravação, onde aliás conhecemos o seu técnico, funcionário exclusivo e disponível ali "full time", um rapaz chamado Clovis, com o qual faríamos amizade bem facilmente, num futuro bem próximo.

Existiam outras dependências que impressionaram-nos. Por exemplo, uma imensa discoteca, onde estava alojado o acervo de LP's e compactos de vinil da coleção pessoal de Miguel Vaccaro Netto. Numa saleta equipada com equipamento Hi-Fi de muita qualidade, haviam milhares de discos, que também em outras ocasiões futuras, já como contratados da empresa, pudemos usufruir. Segundo Sonia, o Miguel queria que seus artistas buscassem inspiração naquele gabinete de audição, e de fato, o acervo ali impressionava. Outro gabinete amplo e muito bem decorado a que fomos conduzidos, segundo Sonia e Antonio, ou Toninho, como ele mesmo apresentou-se e queria ser chamado, seria para que os artistas do escritório recebessem jornalistas para conceder entrevistas. Nessa altura, meio de 1986, já havíamos concedidos inúmeras entrevistas para órgãos de imprensa impressos, além de aparições na TV e entrevistas de rádio, portanto, estávamos bastante familiarizados a lidar com a mídia, mesmo sendo uma banda off-mainstream. Mas a ideia de passar a receber jornalistas num gabinete "bacana" e exclusivo para tal finalidade, pareceu-nos muito requintado, fazendo-nos imaginar que estávamos para entrar numa estrutura semelhante à da Apple, dos Beatles, onde a ideia era agrupar todo o aparato gerencial da banda num escritório multifacetado. E claro que isso impressionava.

Foto meramente ilustrativa, mas que retrata semelhança com a sala em questão que descrevo, com ambientação de sala de estar, confortável e reservada 

Havia um estacionamento exclusivo; serviço de cozinha; recepção; os gabinetes de Sonia & Toninho; além de um gabinete master, ocupado pelo presidente da empresa, que não conhecemos nesse primeiro dia, mas em breve, o conheceríamos, com uma certa pompa, eu diria. Aliás, a visita ao gabinete master foi envolta numa certa aura de suspense, num mise-en-scenè que Sonia e Toninho fizeram, talvez amparados no fato de que estavam acostumados a lidar com o meio teatral, e tal glamour talvez fosse parte da estratégia para impressionar-nos, ou seja, é claro que era essa a intenção...
Outros pontos levantados nesse primeiro dia de reunião : eles tinham outros artistas contratados e queriam uma banda de Rock para entrar nesse nicho do mercado, também. Por exemplo, havia uma banda de reggae, e uma cantora de MPB. Haviam planos para uma banda de bailes, e muito provavelmente um cantor ou cantora de pop music mais pendendo para o mundo brega. Enfim, esse foi o contato inicial com o "Studio V", e claro que ao sairmos dali, animamo-nos a aprofundar a negociação, pois tudo levava a crer que tinham estrutura e boas credenciais para suprir exatamente o que mais necessitávamos naquele momento ótimo em que nos encontrávamos, isto é, o poder de aproveitar ao máximo as oportunidades que estavam catapultando-nos naturalmente, e com uma força a mais, levar-nos enfim para o mainstream. Então, pensando nesses fatores, é claro que achamos que o "Studio V" representaria tal plataforma de impulso definitiva para tal ação que almejávamos. Mas não foi tão imediata assim a nossa associação ao escritório. Outras conversas e estudos de ambas as partes ocorreram antes de assinarmos o contrato.



Simultaneamente a essa negociação, o telefone não parava de tocar e o nosso "momentum", fruto de quatro anos de trabalho árduo, era ótimo. Portanto, assinar com o escritório poderia ser o fator catalisador de nossa ascensão definitivo ao patamar mainstream, pois acreditávamos que o escritório não só saberia aproveitar as oportunidades que gerávamos espontaneamente, mas seu poder de fogo somar-se-ia a isso, para acelerar o processo. Isso animava-nos muito para aceitar a associação com o "Studio V". Mas por outro lado, as coisas acontecendo diretamente em nossa vida, sem a ação de um empresário, não poderiam parar, é claro. E sendo assim, a agenda tinha prevista para nós, muitos shows, e contatos na mídia, sem nenhuma interferência da parte deles, e claro que cumprimos tudo, independente do acerto com tal escritório

O que não poderíamos imaginar, é que esse seria o começo do fim da nossa banda, num caso extraordinário de reversão completa da energia gerada, como se os polos tivessem sido brutalmente invertidos, numa "inversão de spins". Quem conhece física, sabe do que estou dizendo. Enfim, tenho muito a relatar sobre esse imbróglio, mas claro que na época, jamais poderíamos conceber tal desfecho terrível, e diametralmente oposto aos sinais que tínhamos.
Ou seja, nessa fase, éramos pura euforia pelo "momentum" excelente que vivíamos, sobretudo pela perspectiva de entrarmos numa fase ainda melhor.

A sensação que tínhamos era nítida de estarmos muito próximos de um voo alto. E o fato do "Studio V" ter procurado-nos e não o contrário, dava-nos a impressão inequívoca de que as portas abrir-se-iam, enfim. Esse combustível de euforia que foi gerada, foi ironicamente o que minou-nos internamente, meses depois. Ainda tenho muito o que relatar para chegar lá, no entanto. Por enquanto, devo registrar apenas que a euforia norteou os últimos meses de 1986, e isso gerou um bom número de histórias que contarei, certamente. E antes de avançar, anoto que fomos ao "Balancê", programa da Rádio Excelsior / Globo AM, onde éramos habitues de 1984. Desta feita, no dia 26 de agosto de 1986, o objetivo foi divulgar o próximo show que faríamos, dali a três dias, no Centro Cultural São Paulo, um local nobre de shows em São Paulo, e que curiosamente nunca havia dado-nos oportunidade anteriormente. Bem, sempre há uma primeira vez para tudo...


Um exemplo sobre os ventos positivos que sopravam graças aos nossos esforços pessoais, foi o próximo compromisso que tínhamos ainda para agosto de 1986. Sem grande esforço de nossa parte, contando apenas com a divulgação do mailing, praticamente, lotamos o Centro Cultural São Paulo, com mil pagantes (isso mesmo, não estou exagerando !!), na plateia, e quem conhece o Centro Cultural, sabe bem que já faz anos que a média de público tornou-se fraquíssima, e qualquer artista que lá apresenta-se, incluso alguns consagrados, comemora se consegue levar 200 pessoas num show, hoje em dia (2016).

Era a primeira vez que A Chave do Sol apresentava-se no auditório Adoniran Barbosa, mas eu particularmente já havia apresentado-me ali com o Língua de Trapo em 1984, aliás foram os meus últimos três shows nessa banda, encerrando definitivamente a minha participação nela, em minha segunda passagem. Ainda pelo Língua, havia feito outro show no CCSP, mas em outro auditório, no ano de 1983. Desta feita, fizemos um show memorável, de grande interação com uma plateia muito quente, e quem já apresentou-se no CCSP, sabe que o público envolve o artista em 360º, porque o palco é quadrado, e lembra a disposição de um ringue de pugilismo. 

Portanto, tem gente assistindo-te por todos os lados e também por cima, pois existe um andar superior, como mezanino, e muita gente assiste vendo o artista por cima, como um espaço "foyer" de teatros antigos.

Nesse show, pelo fato do palco grande, o Beto tocou guitarra em algumas músicas (como já o fizera no show do Teatro Mambembe, em julho), e essa disposição ocorreria doravante com certa regularidade. Ele tocava bem, e sempre que atuava, encorpava o som da banda. 

Mas, a ideia não era que isso tornasse-se uma constante. Ele queria ter a mobilidade de um frontman, e tocar guitarra era para ser apenas em algumas canções, mais para dar um diferencial, e não forjar a ideia de que seríamos uma banda de duas guitarras.

O casal de empresários que contratava-nos, Sonia e Toninho Ferraz esteve presente, e no camarim, a euforia deles por ver uma performance vitoriosa de nossa parte, mas sobretudo por uma casa cheia, e um público muito receptivo, era indisfarçável. O assédio no camarim e as vendas na "lojinha" de merchandising, faziam com que eles também não escondessem a sua euforia pela banda, e nessa prerrogativa, projetassem nossa subida ao mainstream da música, somando esse nosso "momentum" natural, com os esforços que fariam, graças aos contatos que diziam ter. Como não poderíamos contaminarmo-nos com esse astral de positividade total ?

Dessa forma, a partir daí, a euforia norteou toda a nossa concentração. Sentíamos que estávamos a poucos passos de um salto maior na carreira, e aí, mesmo com a experiência acumulada, e já não éramos tão jovens e inexperientes assim, era difícil não embarcar nessa confiança generalizada.

O show do CCSP ocorreu no dia 29 de agosto de 1986, com mil pessoas na plateia, berrando e vibrando com nossa banda voando no palco, literalmente. No dia seguinte, participaríamos de um show coletivo com muitas bandas, e algumas famosas na cena oitentista, inclusive da turma do Pós-Punk, e que revelar-se-ia um show de grande multidão. O festival tinha um nome exótico, e dava a entender ter alguma ligação com uma ONG ambientalista. Contarei com detalhes, pois rendeu muitas histórias paralelas. E só antecipando, o casal de empresários foi acompanhar-nos também nesse festival, e ficaram de olhos arregalados, vendo a banda inserida num evento daquele tamanho.


O tal festival que iríamos participar chamava-se "Baila Bala na Baleia", e foi realizado numa espécie de chácara / sítio, fora do perímetro urbano de Cotia, cidade que fica na região metropolitana de São Paulo, e faz divisa com alguns bairros do extremo oeste da capital paulista. O contato chegou diretamente para nós, através da Baratos Afins, onde conforme já relatei, muitos contatos de shows ocorriam diariamente para os artistas do cast do Luiz Calanca, e muitas vezes para outros de fora, também.

Seria um festival híbrido, que pretendia ter uma aura diversificada como o Rock in Rio o fora em 1985, obviamente com uma estrutura mais simples, mas nem tanto assim, pela multidão que pretendiam atrair, e quantidade de bandas escaladas para o evento. Além disso, ofereciam estrutura acima da média de outros festivais que surgiam nos anos oitenta, e claro que animamo-nos a participar, fora o cachet que era bom, não espetacular, mas num padrão bacana, e dessa forma, claro que aceitamos. Alguns dias antes do evento, eu e Rubens fomos convidados a participar de uma reunião com a organização do mesmo, e ali recebemos crachás e orientações gerais sobre a organização, e particularidades técnicas do palco, e equipamento de som e luz. Estávamos "meio" apalavrados com o Studio V, mas ainda livres para cumprir compromissos pré-agendados sem a presença deles como empresários, embora no Centro Cultural São Paulo, no dia anterior, e nesse "Baila Bala na Baleia" do dia posterior, o casal Sonia e Toninho tenha comparecido, e mesmo sem colocar a mão na massa, já portavam-se como nossos empresários, e procuravam entender nossas necessidades de palco, e camarim etc. Combinamos de encontrarmo-nos com eles no local, pois nessa ocasião eles moravam bem perto da divisa de São Paulo com Cotia, mas a nossa saída da casa do Rubens foi em comboio com os amigos do Golpe de Estado, que participariam do Festival, também. Uma lembrança que tenho na memória, é a do vocalista Catalau chegando em sua "Brasília", e alucinado, ouvindo uma fita K7 do Alice Cooper no seu carro, quando parecia estar alheio a tudo, completamente absorto no som.

E da fato, quando partimos, ele foi a viagem toda dirigindo e alucinando. Foram várias as vezes em que parados em semáforos pelo caminho, o vimos delirando ao volante, contorcendo-se e berrando : "Alice Cooper, Alice Cooper"...
Então, chegamos ao local do evento e verificamos que era realmente grande, e iria lotar, pela fila que já existia na entrada. Não haveria soundcheck, devido a enorme quantidade de bandas a apresentar-se, e claro que isso era sempre uma temeridade para qualquer artista.

Haviam várias atrações análogas para entreter o público, que dava a aparência de uma grande quermesse ao evento. Por exemplo, "brinquedos para sentir medo" (adrenalina rende dinheiro...), tipo o de parques de diversão, muitas barracas com quinquilharias; comidas e bebidas; além de uma série de chalés bem montadinhos e próximos a um bonito lago, com o objetivo de serem alugados para casais brincarem de Lua de Mel, e também barracas bem mais modestas, mas com o mesmo objetivo. O palco tinha uma estrutura apenas razoável no entanto. A impressão que tivéramos ao olhar a estrutura de palco; luz e som, foi de que os organizadores haviam pensado em mil detalhes para fazer do evento um sucesso, mas haviam economizado no principal item da festa, pois era um equipamento apenas mediano de som e luz, e o palco era feinho, num tipo de montagem de madeira com ares diminutos; simplórios, e ultrapassados.

Seria uma longa espera, devido ao enorme número de bandas a apresentar-se naquela noite, e assim, fomos conduzidos a um charmoso chalé que serviria de camarim exclusivo para nós. Com os instrumentos e bagagens pessoais guardados, ficamos livres para circular e ver as atrações, assistir alguns shows etc. Mas não era aconselhável andar sozinho, em meio a multidão, pois várias turmas de punks; headbangers, e carecas circulavam, e havia a clássica animosidade entre tais tribos, que geralmente iam às vias de fato em encontros dessa natureza. Fora Góticos; Darks, e New Wavers, que também estavam sujeitos à intolerância, uns dos outros. De fato, lembro-me de estar percorrendo uma alameda do ambiente, quando encontramo-nos com um grupo de punks que provocaram-nos acintosamente para criar uma confusão, mas nós não caímos na armadilha, e deixamos para lá os impropérios proferidos, e a pecha de "Iron Maiden" que imputaram-nos, pela questão de nossas cabeleiras longas, embora não fôssemos uma banda de Heavy-Metal, e qualquer tentativa de explicação seria morder uma isca tolamente, enfim...
Mas o Beto era mais "esquentado", e sem a minha habitual resiliência monástica, chamou-os de "Sigue Sigue Sputinik", uma banda de visual punk espalhafatoso, mas que fazia um som pop comercial de baixíssimo nível, e que certamente os punks deviam odiar, por conspurcar-lhes a imagem.

Rebotalho entre tantos rebotalhos oitentistas, o indefectível "Sigue Sigue Sputink"
 
Sonia e Toninho estavam maravilhados com o tamanho do festival, e achavam tudo lindo, sem demonstrar muita noção prática do show business. De fato, eram do meio teatral e ele, Toninho, dizia-se artista plástico (mais tarde vou aprofundar esse assunto sobre essa particularidade que ele alardeava ser), e davam-nos a impressão de que não tinham discernimento sobre os meandros técnicos para um show musical, tanto que acharam tudo "OK", incluso o palco que deixava a desejar, e o equipamento inadequado para a magnitude do evento, mas isso não desabonava a confiança que estávamos adquirindo com eles, e toda a estrutura do "Studio V", que estava  sendo-nos oferecida. De fato, não era importante que eles, e nem mesmo o Miguel, fossem experts em produção de shows de Rock. O que queríamos e esperávamos da parte deles, eram os contatos; venda de shows; assessoria de imprensa, e suporte para chegar à uma gravadora major. Na parte logística, nós indicaríamos equipamento e pessoas com as quais gostaríamos de trabalhar em shows e assim, o controle técnico ficaria a nosso cargo, dando-nos tranquilidade.

Única foto que possuo desse show em prol das simpáticas baleias...e está recortada porque foi usada como ilustração do fanzine do fã clube...

As horas foram passando e quando finalmente chamaram-nos para subir ao palco, a madrugada já findava-se e como era de esperar-se, o público havia diminuído bastante. Fazia muito frio, e acredito que após uma maratona tão grande, nem mesmo artistas mainstream conseguiriam ter um público maior naquele instante. Mas também não era nada desprezível o contingente que aglomerou-se frente ao palco para assistir-nos. Nessa noite de 30 de agosto de 1986, além de nós e do Golpe de Estado, também apresentaram-se : "Os Inocentes"; "365"; "Nau"; "Muzak"; "Cólera"; "Prysma"; "Ness"; "SOS" e "Vultos". Segundo a organização, cinco mil pessoas estiveram presentes, e no meu "olho clínico", acredito que essa conta foi acertada.

A justificativa para o exótico nome do evento, "Baila Bala na Baleia" era que a motivação seria chamar a atenção do público para a causa ambientalista contra a matança das baleias e supostamente parte da renda seria destinada a tal organização ecológica. Nessa época, a denominação "Organização Não Governamental / ONG" não era popular. Talvez já existisse e corrijam-me se eu estiver errado, mas ninguém sabia o que era realmente. Apesar de uma causa muito justa e digna de apoio, soava exótico naquela época aderir tão rapidamente como tornou-se normal anos depois, e hoje em dia, temos centenas de ONGs trabalhando por aí. Se o dinheiro prometido pelos organizadores realmente teve esse destino, eu não faço nem ideia. Apenas torço para que sim. Salvem as baleias...
Tínhamos outros compromissos agendados, mas antes disso, era hora de mais uma importante reunião, desta feita conhecendo o Big Boss do "Studio V", e essa história tem particularidades a serem descritas...



A conversa com o "Studio V" evoluiu, e já estava acertado que fecharíamos o contrato. Chegara a hora portanto de conhecer o sócio majoritário da empresa, e que dava-lhe nome. Nessa altura, já tínhamos feito outras reuniões com o casal Sonia & Toninho, e já estávamos mais ambientados com eles e o escritório, apesar de ainda não fecharmos o contrato formalmente, e não termos feito a reunião com o Miguel. Claro que essa reunião com o Big Boss da empresa foi cercada de pompa e circunstância, e corroborando esse ar solene da ocasião, tudo isso combinava perfeitamente com a personalidade aristocrática dele.

Extremamente simpático e generoso, era também formal e primava seu modus operandi por regras rígidas de educação, padrão europeu, até exagerando em certos maneirismos, e no linguajar
quase não coloquial. Nesses termos, a reunião com ele foi bastante formal, mas simpática, não opressiva. Ele não parecia ser autoritário, pelo contrário, deu-nos a impressão de ser carinhoso com seus artistas protegidos, e atencioso em seus esforços a fim de fazer o possível para gerenciar a carreira de cada um, com o carinho de um pai que luta para encaminhar o filho na vida.

Contudo, seu jeito natural de ser parecia o de um Lord inglês vitoriano. Particularmente, eu admirava essa educação diferenciada e o formalismo, pois tenho personalidade semelhante. 

O Rubens também tinha esse apreço por esse tipo de comportamento social. Ele mesmo gostava de agir assim em muitas
circunstâncias, e chamava a atenção por usar um linguajar e maneiras que já eram bem antiquadas nos anos oitenta, como por exemplo, usar palavras como "cavalheiro", "senhorita" etc, mas exatamente por ser não usual, eu achava que isso era um diferencial interessante para quebrar o paradigma errôneo do Rocker, que só expressa-se usando gírias da moda, e / ou palavrões em seu linguajar cotidiano.

Outro aspecto, se eu e Rubens apreciávamos tal estilo do Miguel, o Beto e o Zé Luiz tinham suas reservas. Mais despojados do que eu e Rubens, apreciavam mais a informalidade em linhas gerais, e dessa forma, o estilo do Miguel, causava-lhes um certo incômodo. Nessa reunião onde finalmente fomos apresentados a ele, quase nada foi falado sobre questões gerenciais de nossa carreira. Toda essa parte de estratégias de produção eram para ser conversadas com a Sonia e Toninho. Miguel parecia interessado em mapear as nossas respectivas personalidades, e observar de forma arguta, a nossa aparência e nossos modos, enquanto bagagem sociocultural e educação familiar de cada um.

Muito pausadamente e demonstrando usar técnicas de avaliação baseadas em preceitos de cunho psicológico, com metodologia, portanto, dava-nos a palavra, exigindo uma devolutiva na forma de um pequeno monólogo de cada um, para conhecer-nos. Foi assim mesmo, na base do "quem é você nas suas próprias palavras", que um a um teve que falar de si próprio, mostrando sua bagagem pessoal; expectativas, sonhos etc.

Ele dava a palavra para cada um, e ajeitava-se na sua poltrona imensa, de maneira a colocar-se inteiramente no campo de visão de seu respectivo interlocutor, e assim, parecia estar fazendo um raio x de cada um. Claro que apesar de amistoso, esse tom excessivamente formal deixou-nos um pouco nervosos. Nenhum de nós quatro éramos "broncos" de baixo nível cultural, mas uma experiência assim tão avassaladoramente incisiva, criou um incômodo, é lógico.

Estávamos perfilados em cadeiras que pareciam dos cavaleiros da távola redonda, em frente à ele, mas Sonia e Toninho estavam na sala, atrás de nós, sentados num sofá. Em profundo silêncio, não fizeram nenhuma intervenção, mas assistiram a entrevista no sofá do fundo do gabinete. Como saldo positivo dessa reunião, a nossa impressão que apesar dessa altivez toda, ele havia gostado de nós, e em conversa bem mais coloquial, Sonia e Toninho disseram-nos que o Big Boss havia gostado de nós como pessoas, e que apesar de achar que lapidações fossem necessárias, éramos talhados para uma carreira mainstream sólida. Papelada encaminhada para o advogado da empresa, só faltava agora um acerto, e por incrível que pareça, era o calcanhar de Aquiles da negociação : a parte financeira.

Essa argumentação dela sobre a facilidade com a qual o escritório teria em colocar-nos no top do mainstream da música, parecia explicitar que eram favas contadas, e que da parte deles, queriam "morder" muito alto, porque tinham a certeza de que levar-nos-iam para esse patamar máximo. Claro que relutamos, mas martelou forte na nossa cabeça que talvez não valesse a pena endurecer a negociação, por um motivo básico : será que não correríamos o risco de desperdiçar uma oportunidade de ver uma porta abrindo-se ? Quantas oportunidades surgem na vida de um artista ? Seja lá de que ramo ou de que nível artístico seja, vale a pena arriscar fechar uma porta, achando que a qualquer momento outras abrir-se-ão ?
Foi pensando assim, e considerando que o nosso "momentum" na carreira estava excelente (e estava mesmo !), e portanto se tivéssemos esse suporte forte, seria só um empurrão para subirmos, que não seria prudente dispensar o tal empurrão. Assim, resolvemos fechar o contrato sob uma cifra de valor que considero absurdo : 40% dos nossos cachets, doravante !!

Isso era o dobro da praxe de mercado na relação empresário / artista !! Mas valeria a pena ?? Era o que achávamos diante das circunstâncias geradas pelo medo de desperdiçarmos uma oportunidade de termos um gerenciamento realmente profissional, e que aproveitasse o "momentum", e mais que isso, apresentasse artilharia pesada para somar aos nossos esforços nesse "front"...
Com o acerto com o Studio V, só faltava assinar o contrato formalmente.

Um método de persuasão que usaram, e nós acabamos não declinando, mesmo percebendo que havia uma barganha sutil em jogo, foi o de começar a usufruir da infraestrutura do escritório.
E dessa forma, uma das primeiras providências que tomamos, foi a de marcar duas entrevistas que estavam sendo agendadas para revistas de grande porte, na tal sala de reuniões, especialmente concebida para receber jornalistas. Uma dessas entrevistas seria a que mencionei alguns parágrafos atrás, para a nova revista que estava entrando no mercado, a "Bizz Heavy", e a outra para a "Roll", e ambas renderam histórias também.


A nossa querida sala de ensaios, na residência da família Gióia, em foto de 1983.

Diante dessa perspectiva, ficamos muito seduzidos pelo uso do estúdio, embora tivéssemos assegurada a nossa histórica sala de ensaios, na residência da família Gióia. Não era nem pela questão do espaço em si, mas pelo salto de qualidade, porque apesar de ser nosso QG, e um verdadeiro lar (e que abrigou-nos, gerando inúmeras histórias e lembranças maravilhosas), desde os primeiros dias da banda, no já longínquo ano de 1982, era óbvio que num estúdio novo em folha, com equipamentos e possibilidade de gravação sem preocupação com o relógio, teríamos tal acréscimo na melhora do nosso áudio.

E também fomos seduzidos pela possibilidade de concedermos entrevistas numa sala muito confortável e específica para tal função, dando-nos a impressão que estávamos dando um salto vertiginoso na carreira. Diante desses fatos, tínhamos a impressão que nosso grande "momentum", chegava afinal. 

Estar usufruindo de uma estrutura dessas, mesmo sem ainda termos assinado com uma gravadora major, denotava que tal negociação era questão de tempo, não só pelo status adquirido, mas pelos contatos que diziam ter, e no caso do Miguel, era mais do que certeza de que realmente os tinha. Outro fator que amplificava tal sensação, era o próprio volume de oportunidades geradas pela própria banda. Se o telefone estava tocando espontaneamente em grande profusão, ofertando-nos oportunidades, como não poderíamos acreditar que com o trabalho de um triunvirato de empresários com tal infraestrutura, isso não amplificar-se-ia de uma forma absurda, levando-nos ao mainstream como um rojão ?

Nesses termos, avisamos à Sonia, que duas revistas musicais de grande porte, e circulação nacional, solicitaram entrevistas exclusivas. Claro que ela adorou, e prontamente autorizou-nos a marcar as entrevistas naquela sala ampla. Apesar da pompa e circunstância, iríamos lidar na verdade, com dois jornalistas que eram amigos pessoais nossos, portanto, mesmo representando as duas maiores revistas de música do Brasil à época, tal circunstância era informal ao extremo.

Mesmo assim, recebê-los dessa forma, mostraria a ambos que estávamos dando um salto e certamente que eles gostariam da nova, em off, como amigos e formalmente, nas respectivas entrevistas, isso ficaria nas entrelinhas. Pois então, as entrevistas foram marcadas.  Uma seria com o jornalista Antonio Carlos Monteiro, para a revista "Roll", e a outra para Leopoldo Rey, que representaria a "Bizz", mas em sua edição alternativa, "Bizz Heavy", recentemente lançada nas bancas. Recebemos ambos em dias diferentes, na propagada estrutura do casarão do Studio V.

Primeiro foi o Tony. Super amigo da banda desde 1984, o Tony era um admirador confesso da nossa banda, e sempre que podia, além de enaltecer-nos em resenhas de shows e discos, alfinetava as gravadoras, a quem acusava de serem "cegas; surdas, e mudas" ("Tommy, can you hear me" ??), por ignorarem-nos retumbantemente. Para ele, apesar da tendência da indústria fonográfica ser a da monolítica aposta no Pós-Punk, A Chave do Sol tinha qualidade e potencial pop para impor-se no mainstream, claro, fazendo algumas concessões inevitáveis.

Quando adentrou o casarão e viu a estrutura, principalmente o estúdio novinho em folha, ficou muito contente com a novidade, como um amigo da banda que sempre foi. Em off, ele cumprimentou-nos com entusiasmo, pois também vislumbrou que era o impulso que faltava-nos, e acrescentou que tinha a lembrança da atuação do Miguel como radialista, homem de TV, produtor de gravadora e empreendedor, ao criar o "Clube do Disco", uma empresa que teve uma relativa magnitude no mercado fonográfico, certamente. Com tais elementos, tinha tudo para dar certo, e na visão dele, era realmente o que faltava-nos para enfim, chegarmos "lá". E ainda havia o casal Sonia e Toninho, que ele não conhecia, mas nós adiantamos-lhe que eram experientes no meio teatral (bem entendido, baseado no que diziam-nos), e que por conta disso, tinham muitos contatos na mídia. Enfim, tratava-se aparentemente de um reforço considerável.

A entrevista foi ótima, como seria de esperar-se vinda de um jornalista do calibre do Tony Monteiro. Ela teria sido ótima, mesmo se tivesse sido realizada numa mesa de uma lanchonete, ou no velho quartinho que usávamos na residência Gióia, como nossa sala de ensaios. Mas revestida dessas circunstâncias novas para a banda, teve outro sabor para nós, e para o próprio Tony Monteiro, sem dúvida. Isso deixava a empresária Sonia ainda mais eufórica, pois estávamos "explodindo", e em conversas reservadas, o próprio Miguel havia afirmado para Sonia e Toninho, que o escritório havia achado uma "joia já lapidada e sem dono", e que dessa forma, precisariam fazer alguns poucos movimentos pontuais apenas, visto que já estávamos prestes a "acontecer"...
Como não poderíamos embarcar na euforia, entre nós quatro, membros da banda, nesses dias ? Sobre a outra entrevista falo a seguir, e cabe uma história...

Um pouco antes de selarmos acordo com o estúdio V, havíamos sido abordados pelo jornalista Leopoldo Rey, convidando-nos para uma entrevista numa revista nova que estava para entrar no mercado, como "spin off" de uma outra publicação já consagrada, a revista Bizz. A ideia em questão, seria lançar uma versão da Bizz, focada para o mundo do Rock pesado oitentista, por dois motivos básicos :
1) A Bizz era uma publicação acintosamente fechada com o Pós-Punk, e dentro dessa diretriz, não escondia de ninguém que rezava pela cartilha niilista de 1977. Muito, mas muito mesmo a contragosto, as raras menções a artistas das décadas de 1960 e 1970, objeto do ódio desses xiitas, eram feitas com o apoio de poucos jornalistas não comprometidos com essa mentalidade, e que muito suavam para convencer a cúpula de sua redação a ceder poucas linhas sazonais para tais intervenções. Um desses raros abnegados era Leopoldo Rey.
2) O mundo oitentista tinha três vertentes básicas :
A) Pós-Punk e seus muitos derivados;
B) Pop, geralmente comprometido com a estética Pós-Punk, também;  e
C) Hard Rock / Heavy Metal.
Portanto, mesmo desprezando a opção 3, por uma questão de mercado, estavam perdendo dinheiro em tentar ignorar tal vertente que não coadunava-se com seus princípios, e nesse quesito, sua concorrente mais direta, a Revista "Roll", abria um razoável espaço para tais manifestações, e ainda em 1984, lançara uma revista derivada e especializada no mundo pesado, chamada "Metal".

Considerando que a revista "Rock Brigade" (que privilegiava a cena do Hard / Heavy Metal oitentista), havia crescido muito, mas para o mundo editorial mainstream, ainda era considerada um fanzine; a "Som Três" era híbrida e parecia não importar-se em continuar procedendo assim, e revistas como "Rock Star"; Rock Passion" e "Rock Show" tinham alcance muito inferior no mercado, Leopoldo finalmente convenceu a redação da Bizz, que a revista "Metal" estava roubando-lhes uma fatia do mercado, e gostar ou não daquela estética, não vinha ao caso quando o assunto era dinheiro...

Dessa forma, trataram de lançar a "Bizz Heavy", evitando de propósito a palavra "Metal", para não dar armas à concorrente e ainda bem para os marqueteiros de plantão, que tal vertente tinha esse nome duplo...
Então, Leopoldo abordou-nos com a proposta da nova revista, e uma entrevista, e naquela "momentum" sensacional em que encontrávamo-nos, é claro que aceitamos de pronto, pois seria mais uma plataforma de exposição importante, e nessa somatória incrível, estávamos subindo de uma forma na qual parecia irreversível a chegada ao mainstream.

Mas algo ocorreu no meio do caminho, especificamente falando dessa entrevista. Não por culpa do Leopoldo, que era um profissional íntegro ao extremo, mas por algum problema de pauta, a nossa entrevista foi adiada para a segunda edição, e não na primeira como fora ventilado inicialmente. Tudo bem para nós, esperar um mês não causar-nos-ia nenhum prejuízo nesse sentido.
Nesse ínterim, nós recebemos a proposta de trabalharmos com o Studio V, e a perspectiva de conceder entrevista no escritório de nossos empresários, deu uma sensação ainda ainda melhor para nós.

No trato pessoal com Leopoldo, assim como houvera sido com Tony Monteiro, não mudaria nada para nós, pois isso não deslumbrar-nos-ia, e ele era bacana conosco desde 1984, em situações bem mais modestas, portanto não havia chance dele achar que estávamos diferentes. Contudo, a situação sinalizava mudanças, e assim como o Tony Monteiro, ambos farejavam que a banda estava naquele processo excepcional de estar "acontecendo", o que aliás, é um ponto delicado para qualquer artista.
Então, recebemos o Leopoldo e fizemos uma longa entrevista, acompanhada pela Sonia, que não escondia a sua euforia, pois era a segunda entrevista que concedíamos para outra revista importante no setor, e era absolutamente espontâneo, sem que o escritório tivesse movido uma palha para ajudar-nos. Todavia, Leopoldo falou-nos ao final que um problema de última hora na redação, fez com que a nossa entrevista fosse deslocada para a terceira edição, já que um fato novo culminou que mudassem a pauta e a segunda edição teria uma entrevista com uma banda de Heavy-Metal extremo, que estava começando a fazer barulho internacional, e essa novidade tinha que ser capitalizada antes que a "Metal" e a "Rock Brigade" percebessem o fenômeno e o "furo". Lembro-me até hoje do Leopoldo pedindo-nos desculpa por mais essa postergação, mas que a pressão na redação pela mudança fora grande...
Dizia-nos então que lamentava, mas um bando de moleques muito barulhentos, vindos de Minas Gerais, sairiam então no número dois da revista. Seu nome : "Sepultura"...

O Sepultura, mais ou menos nessa época da narrativa, e caminhando para o seu estrelato

Claro, sem problemas, pensamos. Estávamos num momento tão bom, que poderia até ser legal sair no número três, quiçá com o Studio V já levando-nos para algum lugar ainda mais alto e tal matéria saísse com um sabor a mais. Só que o número dois saiu com o Sepultura, e logo a seguir, a Bizz cancelou a sua versão pesada e assim, nossa entrevista foi para o ralo, nunca sendo publicada... A má vontade da cúpula da Bizz, prevaleceu por conta de comprometimento com a estética antagônica, atropelando até o corporativismo da empresa que sustentava-a, pois a concorrência continuou firme e forte por um bom tempo. A "Metal" ainda durou bastante nas bancas, e a Rock Brigade cresceu, tornando-se posteriormente o grande baluarte desse tipo de publicação especializada em Heavy-Metal, por muitos anos, inclusive abrindo caminho para o surgimento de outras publicações, que aliás existem até os dias atuais, provando que esse nicho tinha fôlego comercial sustentável, e comprovando a tese de que a extinção da revista "Bizz Heavy", fora por outras razões que não as comerciais. Bem, no nosso caso, perdemos uma publicação, mas a euforia pelo "momentum" só multiplicava-se...
Tínhamos mais propostas de shows e aparições na mídia e agora, esquentava o nosso relacionamento com o Studio V, e cabem muitas reflexões sobre esses dias de reuniões e euforia vividas dentro do casarão da Avenida Eusébio Matoso...




Mesmo antes de assinarmos o contrato e o registrarmos em cartório, já havíamos caído na sedução do escritório, e mudamos o nosso QG de ensaio para lá, definitivamente. Olhando esse ato hoje em dia, tenho certeza de que precipitamo-nos.

A despeito da família Gióia ter merecido reaver a paz, após longos quatro anos de invasão de privacidade, e muito barulho, ali era o nosso QG, e continuaria sendo se não tivéssemos encontrado o Studio V em nossa vida. Ainda que simbolicamente, o nosso QG fora a nossa "Bat-Caverna" desde o início, e lá construímos toda a nossa carreira, compusemos todo o nosso material, preparamo-nos para todos os compromissos da banda desde o primeiro dia em 1982, e aquele quarto e a casa, foram o alicerce que deram-nos força para essa construção.

Sair de lá, naquele momento, parecia ter sido o passo a mais que ambicionávamos desde o começo, e simbolicamente falando, parecia a hora de alçar voo, saindo do ninho, mas subjetivamente falando, ainda não era o momento adequado, daí a minha avaliação de que precipitamo-nos e ao contrário do que imaginamos à época, essa saída do velho QG, foi na verdade, o começo do nosso fim.
Não era hora de sair, pois o escritório não tinha feito nada, absolutamente nada por nós até aquela hora, e todas as promessas eram apenas isso, promessas...

Contudo, inebriados pela perspectiva de usarmos o estúdio próprio do escritório; prepararmo-nos com qualidade sonora superior, e fazendo pré-produção para a demo que eles queriam produzir, empolgamo-nos e passamos a ensaiar lá, estabelecendo a nossa rotina diária, nesse novo endereço. Ora, volto a dizer e repetirei isso doravante : como não empolgarmo-nos naquele instante, com a perspectiva de usarmos um estúdio bem equipado, e com um técnico à nossa disposição ? A ideia era gravarmos uma Demo-Tape com o requinte quase de uma gravação oficial para um disco. Se o estúdio não tinha equipamento para gravarmos um disco, eu diria que era só pelo fato de não ter 24 canais, pois tudo ali era de qualidade : mesa; gravador; microfones; paramétricos, e caixas de monitor.

Logo no início, a conversa preliminar era a de que haveria outros artistas contratados, e que dividiríamos o estúdio com eles, mas quando entramos, uma desculpa foi dada-nos para justificar a ausência das tais outras bandas e o estúdio era todo nosso, 24 horas / dia, e claro, isso reforçou a ideia de que estávamos dando o passo certo e que teríamos a atenção total do escritório no que mais interessava-nos, além mesmo do uso do estúdio a vontade : o empenho deles para colocar-nos numa gravadora major, além de exposição midiática mainstream, e consequente agenda lotada de shows...
Ao instalarmo-nos no escritório, tínhamos essa esperança, e isso só reforçava-se com a conversa super animadora da Sonia, falante como ela só, aliada ao nosso "momentum" excelente, com o telefone tocando e agora nós repassando tudo para eles.


Faltou-nos a percepção de que deveríamos ter um pouco mais de cautela, e ao invés de mergulharmos de cabeça nos braços do escritório, deveríamos avaliar o que eles fariam, mediante uma experiência prática, e não acreditarmos cegamente só no "bla-bla-bla", enquanto todas as coisas boas que estavam ocorrendo conosco, eram frutos do nosso trabalho, e eles só estavam surfando na nossa própria onda autogerada. Daqui em diante, conto várias histórias construídas dentro daquele casarão da Avenida Eusébio Matoso...



Reflexo de nosso "momentum" espetacular naquele instante, o Jornal informativo do nosso próprio Fã Clube, em sua edição de nº 5, datado de julho de 1986, mostrava-se recheado de boas novas. Muitas que já até comentei nesta narrativa. Logo no primeiro box do jornal, falando sobre TV, uma relação dos programas que havíamos feito mais recentemente e engraçadas insinuações sobre o caráter sensual que o vídeo clip da música "Saudade" teria... de fato, ele estava sendo filmado com tais nuances, mas conforme já contei, ele nunca foi finalizado.

No box seguinte, uma espécie de coluna social da banda, uma menção ao fato bacana que algumas bandas haviam lançado LP's recentemente e incluído agradecimentos à Chave do Sol em seus respectivos encartes. Caso dos discos do "Harppia"; "Inox"; "Centúrias"; "Coletânea SP Metal"; e no novo disco dos Inocentes, cuja história de cooperação mútua entre as bandas, já mencionei vários parágrafos atrás, e com detalhes.

Outra presepada que eu adorava, era a de falar sobre atividades extra musicais dos membros da banda, dando-lhes uma aura de importância mesclada ao "glamour". Isso era herança de minha admiração pelo Ezequiel Neves quando este jornalista fora colunista da Revista "Rock, a História e a Glória", nos anos setenta, e que muito influenciou-me como Rocker e também como escritor diletante que eu sempre fui, e a partir de 2011, de forma mais incisiva, e em caráter público, que assumi ser. Finalmente, havia a menção à visita do ator / músico "Ferrugem", ao nosso ensaio, e passagem essa que também já descrevi, além da visita dos membros do "Viper", também.

Uma brincadeira com o Edgard Puccinelli Filho, também está registrada neste box, sempre insistindo na ideia divertida de que ele era de fato um extraterrestre, brincadeira essa que ele aprovava e os fãs, nos shows, idem, abordando-o com bom humor nesse sentido. No box "Perfil de Chave", onde a cada edição falava-se de alguma característica de um membro em separado, neste número cinco era a minha vez enfim, de ser mencionado. Protelei, mas não dava para pular e explico : pelo fato de ser eu mesmo o redator e editor do jornal (ainda que agindo como "Ghost Writer", visto que para todos os efeitos, quem escrevia era Eliane Daic, a namorada do Zé Luiz), mesmo encoberto, sentia-me constrangido em escrever sobre eu mesmo, num tom de enaltecimento. Pensei então em traçar um paralelo com o fato de eu ter sido membro do Língua de Trapo e aproveitando o gancho de que o Língua passara a ser odiado pelos "metaleiros" por conta da música que satirizava-os e que ficou mega famosa no Festival da Rede Globo, de 1985, investi nessa prerrogativa e assim, meio que em tom de entrevista, falei sobre a questão, e dei palavra ao "Luiz", para explicar o fato.

Aproveitei e alfinetei a "intelligentzia" ou falta de, como queiram que execrava o Língua indevidamente e demonstrei o meu orgulho de ter sido membro daquela banda etc etc. Claro, expus meus motivos por ter preferido ficar na Chave do Sol, por conta de minha fé no Rock etc e tal, e o que era verdade. No box sobre Rádio, falei sobre programas que fizemos como "Rock Corsário"; "Balancê" (ali éramos "clientes"de longa data...); "Disque-Rock", e falamos sobre a nossa experiência em termos sido executados e elogiados no "Rádio Amador" da Rita Lee, na 89 FM. Claro que exploramos o fato dela ter-nos comparado ao Bad Company...
Sobre revistas, falamos do Poster da "Som Três", um acontecimento importante para nós nas bancas de jornais. Além de citarmos matérias em revistas como "Roll"; "Metal", e "Rock Passion".
Um anúncio assegurava que uma cópia oficial do show realizado no Ginásio do Palmeiras em maio, seria vendida pela "Galeria Produções Artísticas", conforme os empresários em questão haviam dito-nos. O telefone do escritório foi anunciado para os membros do Fã Clube obter informações, mas isso nunca ocorreu.
Somente em 1992, recebi através do Paulo Thomaz, baterista do Centúrias em 1986, uma cópia não editada, e toda fragmentada de um copião de duas câmeras.
Outro anúncio curioso, mas emblemático, apesar do ótimo momento que vivíamos, o Zé Luiz anunciou aulas de bateria. Sintomático no sentido de que já recebia pressões familiares por resultados monetários mais lineares. Eu só entraria nesse mesmo destino, um ano depois, quando a banda estaria em crise profunda, e o meu cinto pessoal apertou...

Ainda falando sobre o jornal nº 5, no box sobre repertório, falamos sobre algumas novas canções já finalizadas e prontas para serem incorporadas ao set list de shows ou serem gravadas. O fato de naquele instante o material novo ser enorme em quantidade, foi alardeado, e eu até brinquei com a perspectiva de que caminhávamos para um álbum duplo. De fato, se tivéssemos possibilidade, teríamos mesmo lançado um disco duplo, tranquilamente, pois não só tínhamos um material vasto, e de qualidade, como estávamos a mil por hora e no decorrer do segundo semestre inteiro, não paramos de criar novas canções, principalmente por termos fechado contrato com o Studio V, e com a facilidade do estúdio próprio do escritório, animamo-nos ainda mais em criar e termos muitas opções, visto que dávamos como certo o fato de que assinaríamos com uma gravadora "major".

Nessa edição, falei sobre "Guerra Quente"; "Ficar sem Ninguém"; "Profecia", e deixei o recado de que naquele instante trabalhávamos com mais quatro músicas. Num box nostálgico, mas estratégico para agradar aos fãs, falamos sobre como estavam os vocalistas anteriores da banda. Disse que o Percy Weiss estava no Harppia naquela ocasião; Verônica Luhr havia "sumido", mas havia o boato de que casara-se com o guitarrista Jean, da Banda Performática do Aguilar; sobre Chico Dias eu só sabia que voltara para Rio Grande / RS, e o Fran Alves estaria articulando uma banda que teria o sugestivo e prático nome de "Fran", talvez seguindo os passos do vocalista Ronnie James Dio que criara o "Dio". Que eu saiba, isso não concretizou-se, ficando só na especulação. 

Prosaico, mas válido, o box seguinte era um espaço para fãs que queriam conhecer outros fãs... quase vinte anos antes das pessoas começarem a usar redes sociais na internet, a forma mais rudimentar era mandar uma carta para o fã-clube solicitando a publicação do seu endereço, e esperar que um dia o carteiro trouxesse a cartinha de alguém que leu seu anúncio, e dispôs-se a compartilhar seu interesse em comum pela banda, como forma de forjar uma amizade. Comunidades temáticas fariam isso no futuro, nas redes sociais e no saudoso "Orkut", por sinal, teve o seu maior trunfo, e a razão de seu sucesso por anos, mas nem sonhávamos com isso nos anos oitenta. No caso desta edição, um rapaz morador do bairro do Campo Belo, na zona sul de São Paulo, queria fazer amizade com outros sócios...
O Box seguinte, falava de apoio de outros Fã-Clubes . A "Sociedade Brasileira dos Apreciadores do Deep Purple", por exemplo, era um fã clube muito bem organizado, e autorizado para atuar no Brasil, pela fã Clube de mesmo nome, da Inglaterra. Cheguei a ficar amigo do seu presidente, um rapaz chamado João Cucci Neto, muito gente boa e que gostava da Chave do Sol, a quem enxergava como uma banda de forte influência Hard setentista, e isso era um bálsamo para os meus ouvidos, em meio a tanta gente que considerava-nos uma banda de Heavy-Metal...
Mas para contrariar a minha vontade, havia também : "Associação Metal Nacional Fã Clube" e "Os Defensores do Heavy-Metal", de Osvaldo Cruz, interior de SP. Este aliás, mandou-nos um questionário e concedemos-lhes entrevista a seguir.
Lógico que a despeito de minha contrariedade pessoal com o Heavy-Metal, toda ajuda era bem vinda e indo além, naquele instante, não havia espaço para conjecturas em contrário, e era hora de somar apoio e seguir em frente.

O box seguinte falava sobre os últimos shows realizados. Os shows do Palmeiras; Praça do Rock, e no Caverna II, do Rio de Janeiro, eram destaque, naturalmente. E por fim, fechando a edição, a agenda futura, dando ênfase ao show que faríamos no Centro Cultural São Paulo no final de agosto, e cuja passagem já descrevi anteriormente. Na próxima edição, que lançamos em outubro, já estávamos a todo vapor dentro do Studio V, mas ainda não tínhamos a foto oficial da assinatura do contrato, que acabou sendo publicada na edição n° 7, de janeiro de 1987. Na hora certa, comentarei...


Logo nas primeiras conversas com os produtores Sonia e Toninho, haviam falado-nos de outras bandas de outros estilos musicais que faziam parte do cast do escritório, mas isso não confirmou-se quando começamos a frequentar as dependências do casarão. Talvez  fossem apenas negociações em andamento que não concretizaram-se, mas eles jogavam da maneira a dizer-nos que já os tinham sob contrato, provavelmente como uma forma velada de  pressionar-nos a aceitar, ou porque talvez "pegasse mal" não terem ninguém no cast, ou mesmo um misto das duas coisas. Portanto, logo nos primeiros dias que começamos a ensaiar ali no estúdio, tomamos posse do ambiente todo. Usávamos o estúdio a vontade, com o técnico Clóvis a nossa disposição, e aproveitando isso, começamos a fazer pré-produção para gravarmos uma nova demo-tape, que precisava ser ainda melhor que a que graváramos em abril, por conta própria, e também dar vazão à onda de criatividade que estávamos tendo, com muitas músicas novas surgindo. Decidimos trabalhar forte nessas duas frentes e sendo assim, uma safra nova de canções reforçou o material que já tínhamos desde a entrada do Beto Cruz. E o mais prolífico nessa fase, era o Beto mesmo. Estava numa fase criativa, e trazia riffs quase todos os dias para trabalharmos, além de melodias e ideias para letras.

                     Clovis, em foto bem mais atual.                  

Entrosamo-nos muito bem com o técnico do estúdio V, o Clovis Roberto da Silva. Ele era extremamente simpático e gente boa, e em poucos dias já era "um de nós", participando das brincadeiras, rindo e afeiçoando-se ao nosso som, quase como um torcedor e isso era muito legal, pois seu empenho nas gravações para dar o seu melhor como técnico, era importante para nós, indo além do trabalho profissional simplesmente que ali exercia como contratado fixo do escritório.

Uma questão surgiu logo nas primeiras reuniões, assim que fechamos com eles : tínhamos uma estrutura pequena, mas funcional de equipe de shows e uso do fã clube. O Fã Clube era vital para nós, porque o mailing era nosso principal meio de divulgação direta com os fãs, principalmente para anunciar datas de shows e lançamentos de discos e produtos de merchandising. Durante muito tempo, eu e Zé Luiz o tocamos sozinhos, mas ele havia crescido muito e para acompanhar tal crescimento, queríamos contratar um funcionário que dedicasse-se à ele, em tempo integral, em dias úteis, como um escriturário mesmo. Já estávamos fazendo isso de maneira informal, mas sem poder oferecer um salário fixo e estrutura burocrática de carteira assinada e direitos trabalhistas assegurados, porque não tínhamos uma firma aberta, mas ambicionávamos que isso acontecesse, sonhando em ter o controle total do merchandising e Fã Clube, caso chegássemos ao mainstream, e claro que achávamos que chegar-nos-íamos.

     Eliane Daic, em foto de 1985, clicada por Rodolfo Tedeschi

Portanto, propusemos à Sonia, que contratasse tal staff que já existia informalmente. Queríamos que Eliane Daic, então namorada do Zé Luiz, e que já vinha trabalhando como produtora da banda desde meados de 1985, continuasse na função; Eduardo Russomano que era nosso roadie e estava auxiliando-nos no Fã-Clube e Edgard Puccinelli Filho, também roadie, e acumulando a função de vendedor de merchandising nos shows, aliás com bastante sucesso, pois sua figura exótica e extrovertida, causava "frisson" entre as pessoas, também fossem contratados. Queríamos, e isso era imprescindível, que tivéssemos um técnico de som fixo, é claro. Nosso técnico de confiança era o Canrobert, mas este trabalhava muito com várias bandas mainstream, e só ajudava-nos nas raras oportunidades off de sua agenda concorrida. Mas o Clovis que já era contratado do estúdio, poderia suprir isso, mesmo porque estávamos dando-nos bem, e fatalmente ele seria competente em operar-nos ao vivo, visto que estava conhecendo nosso som e nossas necessidades de mixagem ao vivo. Mais para a frente, com a banda crescendo, haveria espaço para um staff maior, com mais roadies, um iluminador próprio e outros profissionais que fizessem-se necessários, de acordo com o nosso crescimento e demanda por produções cada vez maiores.

Eliane Daic repondo a carga de pólvora durante um show da Chave em 1986, no decorrer do espetáculo

Ela adorou a Eliane Daic, "Lili" entre nós, e acenou com a aceitação de nossa proposta de que ela continuasse sendo nossa produtora. E rapidamente acertou salário e designou-a como sua subordinada direta, passando a dar expediente diariamente no escritório, já saindo à rua para cumprir tarefas passadas pela Sonia.

Adorou também o Edgard pelo exotismo de seu "personagem", e forma de comportar-se, e aceitou a ideia de que ele fizesse parte da equipe, mas vetou pagar-lhe salário fixo, até segunda ordem, pois disse-nos que só poderia garantir isso quando a banda entrasse numa rotina de shows com agenda cheia. Mas relutou bastante com a ideia do Eduardo ser contratado para trabalhar no Fã Clube. Ela queria enquadrá-lo apenas como roadie, e nas mesmas condições do Edgard, ou seja, ganhando por produtividade em shows, mas a necessidade que tínhamos era outra pelo trabalho que o Fã Clube tinha etc etc. Tivemos que usar vários argumentos para convencê-la que o Fã Clube era vital, e não poderia parar, mas pelo contrário, era hora de expandi-lo. Ela convenceu-se enfim, e resolveu contratar Russomano, oferecendo-lhe um salário modesto, de escriturário, mas com a "vantagem" de não precisar cortar cabelo; vestir-se a vontade; e trabalhar para uma banda de Rock que gostava, e de cujos membros, tornara-se amigo, portanto, era uma perspectiva boa para ele que estava desempregado naquele instante.



Nesse ínterim, começaram também uma série de reuniões convocadas pela Sonia. Ela dava-nos abertura para falarmos sobre o nosso universo do Rock underground, e o que queríamos atingir, mas trazia-nos todo um lado diferente, do métier artístico off-Rock, e mais centrado no mundo do teatro e da TV, que era a sua área, ao menos supostamente, pelo que falava-nos. Dizia-nos ter produzido mais de noventa produções teatrais, tendo sido agente pessoal de atores famosos da dramaturgia nacional, como Felipe Carone (já falecido há tempos e de quem ela afirmava que tinha um mau hálito impressionante, que disfarçava fumando charutos o tempo todo, aliás, o que é pior, nesse caso, em termos de odor ?), e Regina Duarte. Eu sabia que esse tipo de abordagem para tais artistas da dramaturgia, existia, mas não era algo usual no meio Rocker, e muito mais normal em setores popularescos. Trata-se da prática conhecida como "gerenciamento de carreira", onde o artista é preparado para portar-se em entrevistas; lidar com fãs; como vestir-se etc etc. Isso funciona bem em setores popularescos onde tudo é mais importante que a música. No mundo brega, é primordial ter esse tipo de controle sobre um artista contratado, por uma razão muito simples, e por favor que ninguém ofenda-se, pois não é minha intenção desdenhar de ninguém : o baixo nível educacional e cultural das pessoas envolvidas, que, muitas vezes, nem alfabetizadas adequadamente o são.

Mas no nosso caso, sem querer gabar-me de forma alguma, esse tipo de abordagem era invasiva, inadequada e fora de propósito, porque no nosso métier, a música vem em primeiro lugar, e não a roupa que usamos, corte de cabelo, e o que devemos dizer a jornalistas, pois o tipo de jornalistas com os quais lidávamos eram setoristas, portanto gente capacitada que falava a mesma linguagem, e não desavisados que não tinham discernimento algum.
Mas, claro que não criamos caso e aceitamos fazer as trais reuniões de gerenciamento de carreira, com mente aberta, dispostos a não desdenhar ou debochar dos conceitos estapafúrdios que seriam ditos, e pelo contrário, abertos a absorver algo que fosse-nos útil de alguma forma, desde que não ferisse nossos propósitos, enfim.


A primeira reunião realizada com Sonia e seu consorte, Toninho, foi hilária. Ela fez todo um mise-en-scenè, com um preâmbulo dramático, exaltando-nos a não escondermos nenhuma informação dela, e que deveríamos lidar com ela, como se fosse "nossa mãe" etc e tal. Entreolhávamo-nos com vontade de rir, mas estava acontecendo, era inevitável...
Posteriormente, falou-nos que precisava saber se consumíamos drogas, ou tínhamos outros vícios. Bem, exageros melodramáticos a parte, não acho que estivesse errada em ter essa preocupação, pois é sabido que muitas carreiras são abreviadas por conta de artistas que abusam dessa prática.

Foi bastante constrangedor, no entanto, pois a conversa enveredou para a bebida alcoólica, e aí ânimos acirraram-se um pouco, pois entrou-se no mérito da moralidade sobre drogas serem condenáveis e bebidas, tão nocivas quanto, liberadas e a Sonia percebeu que aquele não era o objetivo que queria atingir, e deu um basta na conversa...
Outra reunião foi marcada para falar de roupas, e corte de cabelos. Nessa, mais amena, perceberam que nossas cabeleiras longas tinham um propósito, e não havia cabimento em propor cortes curtos e coadunados com outras estéticas, embora o modelo deles, sempre citado como exemplo de sucesso, era o "RPM", então na crista da onda. No quesito roupas, não fizeram restrição à nossa indumentária habitual de shows, mas exigiram melhor apuro no cotidiano, e em ocasiões sociais em que diziam que seríamos inseridos. Nesse aspecto, tinham razão, concordo.

Outra questão, curiosa e absolutamente ridícula colocada por ela,  deu-se em torno de um conceito que é típico no meio televisivo, mas não faz sentido algum entre nós, rockers. Para atores e principalmente atrizes da TV, a questão da idade é primordial. A ordem é tentar parecer jovem o máximo que pode-se, e não é à toa que tais artistas submetam-se a tantas cirurgias plásticas e tratamentos mil para driblar a ação do tempo...
Mas para nós, isso não faz nenhuma diferença. Rocker não está nem aí para a idade, porque nada é mais importante do que a música e se faço música de qualidade, o que importa ao fã se eu tenho 20 ou 120 anos de idade ?

Nesse sentido, Rockers herdaram a tradição dos velhos bluesman, que tem enorme longevidade, e muitas vezes levam a carreira além do suportável, subindo ao palco carregados por enfermeiros ou mesmo apresentando-se sentados em cadeira de rodas, e ninguém tem má impressão por isso, pelo contrário, tais velhos bluesman são ovacionados por essa tenacidade que extrapola a decrepitude física.
Mas a Sonia nada sabia sobre o nosso universo, e acostumada a viver os bastidores de artistas da TV, achava isso primordial enquanto gerenciamento de carreira, e ficou falando-nos sobre a importância de sempre "mentir" a idade real quando perguntado por jornalistas.

Achávamos isso ridículo, constrangedor e infrutífero para nós, mas nesse caso, ela ficou irredutível, porque acreditava nesse conceito tolo. Para não criar caso, aceitamos fazer isso numa única entrevista na mídia escrita, que ela armou, aliás, uma das pouquíssimas ações que o Studio V proporcionou-nos por sua conta, e não por contatos que nós já tínhamos sozinhos, sem a força deles.
Foi no jornal "A Gazeta Esportiva", mas contarei essa história posteriormente, pois tem um detalhe de bastidores nessa visita a tal redação, que reputo sensacional, e não pode deixar de ser contada com detalhes.



Reinávamos naquele casarão já a partir de setembro, ensaiando a todo vapor, concedendo entrevistas (já falei sobre duas delas, e que eram frutos de nossos esforços, e não do escritório, é bom frisar), aproveitando as benesses da estrutura, incluso a discoteca. Nesse aspecto, o fato do Miguel ser um radialista de sucesso, e ter sido também executivo de gravadora e dono da empresa "Clube do Disco", pesou na construção de uma bela discoteca, e éramos incentivados por ele mesmo a usufruir do acervo gigantesco, numa sala de audição com um equipamento Hi-Fi de primeira linha etc. Claro que isso era sensacional. Café; lanches, e afins também eram servidos a vontade. Havia uma faxineira e a secretária pessoal do Miguel, agia como governanta da casa, cuidando de sua limpeza, organização e funcionamento da cozinha. Chamava-se Maria Amélia, uma mulher de meia-idade, mas com uma jovialidade preservada. De fato, logo soubemos que fora Miss Santos nos anos 1950 (acho que no ano de 1955, salvo lapso de minha memória), portanto, quando jovem, deve ter sido muito bonita. 

Dava para ter uma noção disso, observando sua filha adolescente, uma menina de uns 13 ou 14 anos de idade, que era belíssima, mas prudentemente, logo notamos que a sua mamãe orientou-a a não dar-nos atenção. Vivia fugindo pelos cantos quando via-nos, e claro que ficou óbvia a orientação materna nesse sentido. Particularmente, não acho errado que um pai ou mãe tome certos cuidados com filhos nessa idade, principalmente se forem do sexo feminino...

O Beto sempre foi extrovertido ao extremo, e brincalhão. Ele era assim com qualquer pessoa, era seu jeito pessoal de ser e agir. 
Pois então, logo foi dando apelidos para todos naquela casa, e a Dona Maria Amélia, virou "Mamé", uma intimidade que assustava-a, mas com a qual teve que acostumar-se...
Porém, dava para sentir no seu semblante que aquilo era incômodo para ela, e apavorava-a em relação à filha. Esta por sua vez, obedecia a mamãe, e evitava-nos, mas era nítido que devia achar o máximo o convívio com uma banda de Rock, com quatro cabeludos ali, e isso manifestava-se quando íamos ensaiar e ela dava um jeito de ficar na técnica assistindo, toda vez que sua mãe estava ocupada numa reunião com Miguel, por exemplo.

Miguel era um gentleman. Sua postura era a de um Lord inglês, com modos refinados, linguajar sofisticado, e até um certo exagero no portar-se, mas particularmente eu admirava sua educação milhas acima do brasileiro médio. Eu e o Rubens, que também admirava esse grau de educação cavalheiresca de outrora. Beto e Zé Luiz, que tinham personalidades bem mais despojadas, achavam-no empolado demais. O consorte de Sonia, Toninho Ferraz, era um rapaz bem mais jovem do que ela, e muito falante. Demonstrava uma esperteza muito grande e parecia fazer o contraponto ao Miguel aristocrático. Ele sabia portar-se de forma educada, naturalmente, mas havia interiormente em sua personalidade, uma disfarçada malandragem de rua nele, e claro que essa personalidade diametralmente oposta, poderia somar, agregando em outros aspectos.

A estrutura e os grandes contatos eram do Miguel, com Sonia e Toninho fazendo o trabalho mais braçal da produção. Eles seriam produtores diretos do cotidiano, praticamente a função de um Road Manager, cuidando do gerenciamento da carreira e agregando seus contatos de Teatro e TV, eventualmente, e o Miguel, entraria com seu prestígio na mídia radiofônica e televisiva, mas principalmente nos meandros da indústria fonográfica, onde ele fora um executivo, e conhecia de fato muita gente. Havia uma possibilidade a mais nessa equação, mas isso revelou-se mais um delírio, do que uma realidade. O Toninho apresentava-se como artista plástico e daí, dizia ter muitos contatos nessa área também, e que isso poderia agregar. Lógico que poderia... quisera eu ser amigo do Salvador Dali e ter sua arte e presença física sempre por perto, quiçá colaborando diretamente com a parte visual dos shows, material gráfico, capas de discos, ou no mínimo, seu prestígio social que não abria, mas escancarava portas...
No caso do Toninho, ele autodefinia-se como um artista fechado no estilo "Quixotesco". Eu gosto de artes plásticas, aliás sempre apreciei, mas fiquei confuso quando ouvi-o falar isso, pois desconhecia que houvesse uma escola estética com tal denominação.

Ele disse que só fazia "Quixotes", ou seja, todas as suas obras eram motivadas por um único mote : a figura do personagem criado por Cervantes, Dom Quixote. De fato, mostrou-nos pinturas, desenhos e várias esculturas com tal inspiração, apesar de acharmos aquilo estranho, pois é no mínimo esquisito um artista que declara-se fechado numa única ideia...
Logos nos primeiros dias, prometeu fazer "Quixotes" para cada um de nós, mas só o Rubens acabou recebendo um, que levou para o seu pai ornar seu gabinete de trabalho, visto que o Dr. Rafael Gióia Junior, admirava o personagem de Cervantes.

Eles prometiam "mundos & fundos", e respaldados pela estrutura toda que ostentavam, somada aos contatos que diziam ter, representava para eles, praticamente favas contadas que fazer-nos-iam "estourar" no mainstream, em questão de pouco tempo. 

Conforme já disse, estavam empolgados com nosso progresso conquistado sem a interferência deles, e achavam-nos uma pedra semi lapidada, só precisando de poucos ajustes para ser valiosa de fato, no mercado. E isso reforçava-se à medida que outros compromissos não paravam de aparecer espontaneamente. O telefone não parava na casa do Rubens, e agora nós só transferíamos tudo para eles, ingenuamente eu diria, pois além da estrutura física do estúdio, e poucos contatos de mídia que eles arrumaram, tudo o que estava explodindo na nossa órbita, era fruto de nossos próprios esforços ao longo de quatro anos de atividades.
Deveríamos ter testado mais o poder de fogo real deles, mas caímos no "blá blá blá", com a ressalva de que estávamos tão bem naquele instante, que era realmente difícil acreditar que não chegaríamos no nosso objetivo, que era o mainstream da música. E nesse ínterim, teríamos mais três shows em setembro. Todos frutos de nossos esforços, mas já fechados com eles, tendo que dar-lhes uma taxa muito robusta...


Finalmente, o Stúdio V sinalizou serviço, agendando uma entrevista num programa de Rádio diferente do nosso mundo habitual.
Abertos e sempre mirando na expansão, claro que aceitamos e fomos participar de um programa de uma então jovem jornalista na Rádio Tupi AM, que não era muito famosa na época, mas hoje em dia, o é bastante : Sonia Abrão.

                     Sonia Abrão em foto bem mais atual

Contato da "nossa" Sonia, era o típico programa centrado em fofocas de artistas do mundo brega, notadamente atores e atrizes de novelas, mas também artistas musicais do mesmo espectro popularesco. Não posso queixar-me no entanto, pois Sonia Abrão foi muito simpática conosco, executou a canção "Sun City", proveniente da demo que graváramos em abril daquele ano, deu-nos abertura para falar de agenda, planos etc. De nossa parte, não maculou-nos em nada ter participado de um programa supostamente fora de nosso nicho habitual, e pelo contrário, queríamos mais é angariar público que nunca havia ouvido falar a nosso respeito.

E achamos muito bom vermos um primeiro esforço do "Studio V" lograr êxito. De certa forma, não incomodava-nos que não acrescentassem nada nos meios onde já éramos conhecidos, e solicitados espontaneamente, e assim, essa primeira demonstração de esforço extra e agregado aos nossos esforços naturais, agradou-nos, mesmo não sendo nada muito marcante. O próximo compromisso em termos de apresentação, não seria dos mais glamorosos, mas havíamos aceitado participar porque era uma festa de um programa de Rádio que desde 1985, dava-nos força, e para sermos simpáticos, nesse caso, não dava para deixar de participar de um evento da parte de quem ajudara-nos com entrevistas, e execução de músicas. O programa em questão era o "Riff Raff", que era transmitido pela 97 FM de Santo André, e que era a melhor emissora Rock de São Paulo naquela época, embora não estivesse exatamente na capital, mas na simpática cidade vizinha.

Seu apresentador era um garotão expansivo e histriônico, chamado, Richard, que falava pelos cotovelos e tinha uma orientação bem puxada para o Hard e Heavy dos anos oitenta, e onde invariavelmente mais éramos saudados e enxergados como componentes da cena. O local desse show era exótico ao extremo, mas foi muito engraçado fazer um show nesse lugar, embora no decorrer da noite, tivéssemos problemas, e que foram muito preocupantes.

Bem, o local chamava-se "Ácido Plástico", e ficava localizado a duas quadras da penitenciária do Carandiru. Até aí, sem problemas, mas o exótico nisso era o fato do local ser uma "ex-igreja" evangélica, ou seja, era muito surreal que uma igreja tenha deixado suas instalações para que um novo dono usasse-a, sem modificações arquitetônicas básicas, para atividades seculares, ainda mais shows de Rock, quando geralmente vemos o contrário, com ex-salas de cinema e teatros sendo transformados em templos.
Não saberia dizer a que denominação evangélica pertencera a instalação, mas seguramente era uma igreja oriunda do protestantismo clássico, e não uma pentecostal, pois sua arquitetura assemelhava-se à das igrejas católicas, nas partes externa e interna.

Portanto, o palco era com estrutura de púlpito, tornando aquilo muito exótico. Na hora em que entrei no local, pensei naquela cena do filme "Tommy", com o The Who e Eric Clapton, interagindo juntos, e onde a Divindade a ser cultuada, era uma estátua enorme de Marilyn Monroe...
No caso do "Ácido Plástico", claro que não havia esse glamour louquíssimo de um filme de Ken Russell, e fora a rudeza da ambientação de uma ex-igreja, e equipamento bem modesto de som e luz, ali aconteceria um show de Heavy-Metal, com uma banda do gênero, e A Chave do Sol, incluso, como a mais leve da noite, ainda que na percepção daquelas pessoas, fôssemos uma banda da mesma cena. Além de nós, tocaria também a banda "Destroyer", cujos membros eram gente boa, e nós tínhamos bom relacionamento de amizade. Claro que o som deles era o metal pesado, mas não seria problema para nós, pois estávamos acostumados a fazer shows coletivos com bandas pesadas. Todavia, um fato curioso e perigoso ocorreu quando da realização do soundcheck.

Eu estava em pé vendo os preparativos do Destroyer para iniciar seu soundcheck, quando resolvi sentar-me num canto do salão. O som dos rapazes era peso pesado e como de costume entre bandas desse gênero musical, não faziam dinâmica alguma, tocando de forma "reta", como diz-se no jargão musical. Com a agravante do fato do salão estar vazio, só com os músicos e técnicos presentes, além da constatação daquela acústica ter sido concebida para cultos religiosos e não shows de Rock, claro que com os rapazes tocando naquele volume ensurdecedor, fazia tudo vibrar, inclusive os vitrais das janelas.

Foi quando numa fração de segundos... senti uma punhado de farelos brancos cair sobre meus ombros e nem deu tempo para raciocinar, pois senti um forte impacto na cabeça, seguido de gritos, e a banda parando de tocar. Sem entender direito o que ocorria, tornei-me o centro das atenções... o que ocorreu ?
Por azar absoluto, estava sentado num canto, bem abaixo do aparelho de ar condicionado do estabelecimento. Talvez não muito bem fixado na parede e certamente estimulado pela trepidação que o som estava causando, tratou de despencar.

A minha sorte, foi que o impacto foi causado pela tela protetora, bem mais leve do que o sólido aparelho em si. Este também caiu, mas nessa altura, naquela fração de segundos, atingido pela tela, meu reflexo de defesa funcionou, e eu dei um salto da cadeira, pois a carcaça mais pesada cairia a seguir, espatifando-se no chão sob forte estrondo, assustando a todos. Fui prontamente socorrido por todos os presentes, mas o ferimento causado fora mínimo, com um leve arranhão na parte lateral da testa, sangrando pouco e ficando um hematoma discreto como lembrança imediata.

Nada pior ocorreu, portanto, mas foi uma sorte incrível não ter ocorrido algo muito pior. Se tivesse atingido-me em cheio, receio que poderia ter ferido-me gravemente, quiçá, letal e assim, não estaria aqui, anos depois, escrevendo essa história...
A seguir, refeito do susto, firmei posição de prosseguir com a programação sem modificações, apesar dos apelos dos amigos para ir à um Pronto Socorro buscar uma avaliação médica mais apurada.
Mas a noite proporcionar-nos-ia outra surpresa, tão desagradável quanto...


Bem, o Destroyer fez seu show habitual, e a casa estava com um bom público, mas cabe uma ressalva : havia cerca de 200 pessoas no local, mas para os padrões daquele tempo, nós chegamos a considerar um público pequeno... imagine, do jeito que as coisas ficaram dos anos 1990 em diante, 200 pessoas é sinal de grande sucesso hoje em dia. Após o show do Destroyer, o locutor Richard fez sua intervenção bem agitada, promovendo sorteios, falando de seu programa logicamente, e a seguir, anunciou-nos.

Fizemos um show quase de choque, um pouco mais estendido, eu diria, e foi muito bom, embora o nosso som fosse infinitamente mais leve e o público presente fosse predominantemente "headbanger". É o tal negócio : éramos respeitados nesse meio, apesar de mesmo em nossos momentos mais pesados, na época do Fran, nunca fomos uma banda de Heavy Metal, e para agravar ainda mais, com a entrada do Beto, havíamos ficado ainda mais leves, mais parecendo Hard Rock setentista, em alguns aspectos. O Beto estava com um problema de garganta, sentindo dores nos dias que antecederam esse show. Consultou um médico e havia a suspeita de que fosse algo grave, um nódulo nas cordas vocais. De fato, cantou com um desconforto, mas na adrenalina do show, até solo vocal fez (em "Que falta me faz, Baby"), surpreendendo-nos, pois nós três sabíamos que ele estava com esse problema e que deveria conter-se, mas... 
Contudo, um problema extra musical estava do lado de fora das dependências do "Ácido Plástico". Informados por China Lee, vocalista do Salário Mínimo, ficamos apreensivos em saber que uma gang enorme de punks estava do lado de fora do estabelecimento, esperando o momento certo para invadir e promover um tumulto generalizado.

                    O vocalista do Salário Mínimo, China Lee

Diante da iminência de uma batalha campal, com grande chance de transformar-se em tragédia, os responsáveis pela casa chamaram a polícia que veio dispersar a trupe de brigões e assim, o público presente pode sair em segurança, deslocando-se à Estação do Metrô Carandiru, ou por outros meios, e nós músicos, pudemos também efetuar nossa saída em segurança, com nossos instrumentos, equipamentos etc. Aconteceu no dia 14 de setembro de 1986, um sábado, no "Ácido Plástico", com cerca de 200 pessoas presentes.

Resenha desse show descrito acima, que foi publicada na revista Metal, nº 27



No dia 21 de setembro, visitamos os estúdios da 97 FM de Santo André e participamos do programa Riff Raff, onde seu apresentador Richard, repercutiu a festa realizada dias antes no exótico Ácido Plástico. Eu, Luiz Domingues; Rubens e Beto, representamos nossa banda na ocasião, deixando o Dinola livre dessa missão. Outro compromisso que teríamos, seria no Teatro Mambembe, onde costumeiramente levávamos um bom público, e sem fazer grande esforço de divulgação, além do disparo de mailing via correio tradicional; cartazetes, e filipetas. Uma banda amiga tocaria conosco, o "Anarca", que posso afirmar, também colocava-se de forma anacrônica na cena oitentista, pois mais parecia uma banda de Hard Rock setentista. Era naturalmente aceita nesse meio em que vivíamos, mas assim como nós e outras poucas ("Lixo de Luxo"; "Zangoba"; "Orquestra Azul"; "Cheiro de Vida"; "Mixto Quente"; "TNT"; "Fênix", e "Ave de Veludo"), éramos bandas híbridas, tentando sobreviver num cenário muito hostil, mais sendo confundidos com algo que não éramos exatamente, mas na falta de algo mais confortável, aceitávamos o improviso da situação.

Era outra produção do produtor Antonio Celso Barbieri, mas nessa altura, apalavrados com o Studio V, e faltando poucos detalhes para assinar e registrar um contrato oficial, tínhamos que pagar o Barbieri e depois do nosso líquido, dar um filão muito robusto para o Studio V. Como as bilheterias do Teatro Mambembe eram sempre excelentes, não sentimos muito o golpe, mas pensando hoje em dia... que sangria sem sentido, visto que tratava-se de mais um show sem nenhuma interferência deles para concretizar-se.

E como sempre, foi uma noitada sensacional com casa lotada e muita energia. Lembro-me da presença de Sonia e Toninho nos bastidores, e o quanto pareciam eufóricos com aquele sucesso todo. Era uma casa abarrotada, com quase o dobro do público máximo que comportava e inteiramente eufórico com o show. Respondia com total interação às brincadeiras do Beto, além das minhas intervenções como "locutor de FM" ao microfone, para dar recados gerais etc etc. Era óbvio que o casal empolgasse-se, imaginando esse sucesso amplificado na larga escala popular do mainstream, e nós também pensássemos nesses termos. Aconteceu no dia 22 de setembro de 1986, com 634 pagantes, fora convidados, e estabeleceu o recorde de lotação daquele teatro. Era quase o dobro de sua capacidade total, ou seja, pessoas amontoaram-se pelos corredores, algo que nos dias atuais é impossível de ocorrer pelas normas de segurança impostas pelos bombeiros; prefeitura e defesa civil (e quanto a isso, eu concordo, claro, como cidadão consciente).

Mas imprudência a parte, era sensacional para nós estabelecer tal marca e tal recorde só foi suplantado no final de 1987, pelo Sepultura, que estava estourando internacionalmente, e dessa forma, levou mais de 900 pessoas ao teatro, inclusive com mais de 500 na rua, forçando entrada, e obrigando os organizadores a chamar a polícia. Alguns dias depois, teríamos outra aventura interestadual, mas ao invés de irmos novamente ao Rio, ou algum outro estado vizinho, seria uma aventura longínqua e bastante estimulante para nós. Um show no Nordeste, especificamente em Teresina, no Piauí.





Assim como tudo o que estava acontecendo-nos espontaneamente,  o convite para ir fazer um show no nordeste, também fora fruto de nossos esforços reunidos ao longo de anos de labuta. O Studio V vibrava com tais oportunidades, mas a grande verdade, era que tais esforços eram graças às nossas próprias forças, e nada vindo deles, a não ser o "bla bla bla" das reuniões. O show que faríamos em Teresina, no Piauí, era no contexto de um festival a ser realizado naquela capital nordestina. Chamava-se "Setembro Rock Festival ", e era uma produção de um rapaz obstinado, chamado Zilton Filho, que produzia uma banda pesada, e autóctone, chamada "Vênus".
Bem articulado, com cultura e força de trabalho bem organizada, montou de fato um festival bem produzido, e logrou êxito em seus esforços, não tenho dúvida disso.

Éramos a atração maior do festival, o que honrava-nos, certamente, e aos olhos do público piauiense, éramos uma banda consagrada como se estivéssemos no mainstream, e claro que isso não correspondia à nossa realidade cotidiana, mas por outro lado, era para nós, um sinal, aliás mais um, de que estávamos chegando lá.
Recebemos as passagens, e toda a instrução de logística para cumprir na capital piauiense, num profissionalismo muito grande do produtor Zilton Filho. Teríamos um dia cheio, com compromissos na TV e emissora de rádio locais, além dos procedimentos habituais de um soundcheck no local do espetáculo, logicamente. Sonia deu-nos instruções para portarmo-nos sem a presença dela ou do Toninho, que não iriam, mas a verdade é que Zilton havia pensado em todos os detalhes, e foi um dos shows mais bem organizados dos quais participamos. Foi um show que rendeu muitas histórias, e que procurarei lembrar-me delas com detalhes para este relato.


A viagem de ida foi bastante tranquila. Viajando em duas companhias áreas que eram populares ainda nos anos oitenta, mas que simplesmente não existem mais, fomos na primeira fase da viagem, de São Paulo até Brasília, via VASP, onde fomos bem tratados, apesar da típica estranheza pelo nosso visual que chamava a atenção num ambiente social avesso ao mundo do Rock, naturalmente. Em Brasília, trocamos de aeronave, após uma longa espera, embarcando num bólido da Cruzeiro do Sul, uma espécie de linha B da Varig, e o reflexo disso revelou-se assim que entramos na aeronave... mesmo sendo treinadas para serem extremamente gentis, as aeromoças que recepcionaram-nos falaram alto entre si, que "provavelmente nós espalharíamos piolhos aos passageiros".  Foi uma descortesia inadmissível, que suplantava e muito, qualquer tipo de preconceito pessoal que tivessem contra Rockers; Hippies; Cabeludos em geral (ou para sermos "modernos" no conceito da época : "Metaleiros"), e merecia ter sido objeto de uma reclamação formal de nossa parte para com a direção da companhia. Mas "deixamos para lá", pois causaria uma celeuma desagradável, e estragaria o astral da nossa viagem, e convenhamos... estávamos animados por ir fazer um show em outra região do país, longe do circuito Rio-São Paulo que habitávamos normalmente.
Claro, o Beto e o Rubens com gênios mais esquentados, não engoliram a grosseria como eu, mais monástico que sou, e
passaram a viagem toda fazendo pedidos para as aeromoças, fazendo questão de referir-se à elas como "garçonetes", em voz alta, numa forma pejorativa de aborrecer-lhes. Nada contra a profissão de comissária de bordo, tampouco as garçonetes, propriamente ditas, mas um pouco da dignidade daquelas mocinhas mal educadas ficou abalada naquela viagem, e convenhamos, elas mereceram o castigo por sua insubordinação inadmissível para com clientes. Uma artista famosa da MPB embarcara em Brasília rumo à Fortaleza, onde faríamos uma escala. Fafá de Belém, então vivendo um grande momento na carreira, principalmente após os acontecimentos por conta da campanha pelas "Diretas Já", além do hino nacional "a capella" que embalou a comoção pela morte de Tancredo Neves, um ano antes etc. 
Curiosamente, ela estaria conosco na viagem de volta, no dia seguinte, além de outro artista popular da MPB de então.  

Quando o avião finalmente aterrissou em Teresina, e a porta da aeronave abriu-se, tivemos um choque térmico impressionante. Saindo do ar condicionado do bólido e encarando a temperatura ambiente daquela capital nordestina, tivemos a real noção do que era um calor nordestino acachapante...
Tive a impressão de estar entrando numa sauna de banho turco, literalmente...
Rapidamente uma produtora do festival recebeu-nos e mediante ajudantes, auxiliou-nos a transportar nossa bagagem para a velha perua Kombi, a van mais usada no Brasil até então, e de lá, com muita simpatia, conduziu-nos ao hotel onde hospedar-nos-íamos.
Após um banho refrescante e um rápido repouso, levaram-nos para um almoço excelente, com direito a guia turístico mostrando-nos os pontos importantes da cidade, e em seguida, dois compromissos de imprensa : uma entrevista numa rádio FM (Poty FM), e outra na TV, numa afiliada da Rede Bandeirantes, com direito a micro entrevista no noticiário local, chamado "Jornal do Piauí", na TV Pioneira.
Nessa altura, já tínhamos em mãos matérias de jornais com
direito a fotos nossas, referentes à nossa participação no festival, fora o fato de termos visto cartazes; outdoors, e faixas publicitárias anunciando o evento em vários pontos da capital piauiense.
A produção esmerava-se para fazer o melhor que podia, e de fato, fez mesmo. Estava sendo uma das melhores produções onde "A Chave do Sol" esteve presente. Tudo corria às mil maravilhas no que tangia a organização, isso sem contar o tratamento VIP com o qual estávamos sendo tratados pelos produtores. 
O hotel era de 4 estrelas; os restaurantes onde levaram-nos
eram de primeira qualidade; e vendo que não estávamos acostumados com a alta temperatura local, fizeram várias paradas estratégicas em casas de sucos e sorveterias, onde garantiram que  hidratássemo-nos adequadamente. Estávamos encantados com a hospitalidade e queríamos muito retribuir no palco, fazendo um grande show para o público e para o pessoal da produção, que fora extremamente gentil e hospitaleiro conosco. Finalmente fomos conduzidos ao local do evento, o ginásio de esportes conhecido como "Verdão", a fim de participar do soundcheck...
Realizamos o soundcheck com bastante tranquilidade, com a equipe de produção de palco seguindo os passos dos outros membros que cuidavam da logística geral, ou seja, com bastante educação, simpatia e solicitude. O técnico do P.A. que haviam contratado, era um rapaz muito competente e igualmente simpático, que atendia pela alcunha de "Carioca". De fato, o rapaz era do Rio, mas contou-nos que estava radicado no nordeste há algum tempo, e que estava acostumado a sonorizar grandes eventos em todos os estados daquela região.
Segundo contaram-nos, ele tinha o melhor equipamento do nordeste, e estava acostumado a sonorizar todos os artistas top da MPB, e do BR-Rock 80's que apresentavam-se pelas capitais, e principais cidades interioranas da região. E pelo que constatamos no soundcheck, seu equipamento era de qualidade, e sua competência como técnico, idem, portanto, ficamos bastante confiantes de que seria um show muito confortável para nós, tecnicamente falando. Claro, o próprio "Carioca" advertiu-nos que as circunstâncias acústicas do local não favoreceriam em nada a sonorização do espetáculo, mas isso não era surpreendente para nós, de forma alguma, pois em se tratando de um ginásio de esportes, com cimento armado e teto de zinco, é claro que não haveria equipamento no mundo que conseguisse garantir um áudio com pureza ali. Era uma questão acústica pura e simples e tínhamos consciência disso, é claro. Encerrado o soundcheck, fomos reconduzidos ao hotel, onde descansamos e preparamo-nos para o show. Após o jantar feito no restaurante do próprio hotel, aliás, muito bem servido, fomos reconduzidos ao ginásio Verdão, e era a hora do Rock soar em Teresina...
Voltando para o ginásio, este já encontrava-se quase inteiramente lotado. A expectativa dos produtores estava cumprindo-se, e o evento era um sucesso. Bandas locais e de estados vizinhos, já apresentavam-se. Em sua maioria, eram bandas de orientação Heavy-Metal, como era de esperar-se naquela época, e circunstância em específico. Já estávamos prontos no camarim quando fomos chamados a assumir o palco. O ginásio estava lotado e havia uma expectativa criada para o nosso show, muito mais por conta de sermos de São Paulo, portanto uma atração diferente para o público local, do que realmente baseada na nossa fama. Claro que muita gente ali presente conhecia-nos e nutria interesse em ver-nos em ação, todavia, sem ilusões, sabíamos que para a maioria, éramos desconhecidos.
Não tratava-se de um público inteiramente rocker, mas híbrido, muita gente estava ali pelo agito na cidade, e não exatamente por gostar das atrações em si, incluso nós. Segundo algumas pessoas contaram-nos, uma semana antes, os "Paralamas do Sucesso"  apresentaram-se ali mesmo naquela ginásio, e claro que não podíamos gozar das mesmas condições deles, que viviam no mainstream da música, e nós, no underground. Mas começamos a tocar e a reação estava bastante agradável, com o público aplaudindo e respondendo bem os convites para interagir, lançados pelo Beto Cruz, nosso frontman. Foi um show energético, agradável, e saímos do palco com a sensação do dever cumprido, e mais que isso, que havíamos expandido um pouco mais nossas fronteiras. Cheguei a expressar isso no microfone, quando agradeci a presença do público presente, e o quanto estávamos felizes por estar ali, tocando pela primeira vez fora do eixo Rio-São Paulo.
Era a noite de 27 de setembro de 1986, e cerca de 3000 pessoas viram e ouviram-nos. Tudo foi maravilhoso, contudo... uma situação absolutamente desagradável e alheia à toda a simpatia do pessoal da produção, ocorreu quando voltamos ao camarim, no pós-show. Mexendo em seus pertences, o Beto constatou que roubaram-lhe a carteira, inclusive com seus documentos. Fora um lapso de sua parte não deixar os documentos no hotel, mas onde todos incluímo-nos, pois também não havíamos adotado tal medida básica de segurança, mas lamentavelmente, ele fora surpreendido por um gatuno, e nós ficamos ilesos, por pura sorte.
A produção ficou constrangida com o ocorrido e realmente fora uma brecha na segurança, um vacilo que proporcionou a oportunidade para o meliante de ocasião. Isso não desabonava o festival como um todo, tampouco a extrema simpatia com a qual  trataram-nos o tempo todo, mas claro que ainda que involuntariamente, ficou um arranhão na história, infelizmente.
Evidentemente, deram-nos todo o suporte, prontificaram-se a apoiar o Beto para abrir "Boletim de Ocorrencia" na delegacia etc etc, mas a chateação estava armada. Quem já passou por isso, sabe o quanto é chato, não só pela perda financeira e humilhação que é suportar tal infâmia, mas também pelo inferno burocrático que é pleitear a segunda via dos documentos perdidos, transtorno para bloquear cartões de crédito, e talões de cheques etc.
Claro que isso chateou muito o Beto, e não era para menos...
Para amenizar a situação, levaram-nos para a melhor boite da cidade. Não mediam esforços para agradar-nos, e depois do evento do furto no camarim, ainda mais. Eu não bebo, e evidentemente que não interessei-me pelo passeio, preferindo voltar ao hotel.
Na manhã seguinte, após despedidas no aeroporto, e mais pedidos de desculpas por parte do ocorrido no camarim, voltamos para São Paulo, fazendo exatamente o mesmo percurso da ida, ou seja, escala em Fortaleza, troca de aeronave em Brasília. Como já havia comentado, Fafá de Belém voltou conosco de Fortaleza, numa coincidência incrível. E o sambista Almir Guineto também embarcou na aeronave. Muito brincalhão, logo começou a interagir conosco, e naquele jeitão carioca de ser, cheio das malandragens, começou a tirar sarro da Fafá de Belém, que não aprovou as brincadeiras, mas não retrucou, apenas permanecendo calada, mas com semblante fechado, demonstrando não estar gostando das pilhérias do sambista. As piadas que ele formulava começaram a contaminar os passageiros no entorno das poltronas, e ajudado pelo Beto que também sempre foi "despachado", isso gerou uma epidemia de risadas. Foi quando ele disse que "se o avião caísse, não haveria problema, pois a Fafá cantaria o hino nacional "a capella", encomendando bem as nossas almas, como havia feito com o Tancredo Neves"...
O sambista Almir Guineto, que fez muitas piadas naquele voo entre Brasília e São Paulo
 
Isso intensificou uma euforia fora de propósito, e ela passou por nós, fulminando-nos com os olhos, demonstrando estar bastante chateada com as brincadeiras do sambista, e a repercussão gerada entre os demais passageiros, que riam às gargalhadas. Para agravar a galhofa, uma pessoa foi ao toilete e quando saiu, o estrago intestinal que ali causou, levantou verdadeiras brumas fétidas, que rapidamente tomaram os corredores de poltronas de assalto. Diante da euforia gerada antes, e com o espírito brincalhão de Guineto e Beto a mil por hora, isso gerou um sem número de novas piadas, e a viagem nem foi sentida, pois ainda gargalhávamos, quando o avião pousou em Cumbica. Em suma, foi uma tremenda aventura bacana para a banda, e com exceção do furto da carteira do Beto, tudo foi ótimo nessa etapa.
Alguns meses depois, o jornal "O Estado", de Teresina / Piauí, já especulava sobre o festival a ser realizado em 1987, e citou-nos, com direito a foto do nosso show de 1986, como exemplo de como fora a edição anterior.

Retomando a rotina em São Paulo, tínhamos a missão de entrar em estúdio, e gravar a segunda demo tape do ano de 1986, e desta feita, a demo que levar-nos-ia rumo a um contrato com uma gravadora major e ao mainstream, assim esperávamos. E como dizia Rita Lee em seus bons tempos de Tutti-Frutti: "Oh doce ilusão, doce ilusão... ah uh uh, yeah, yeah"....
De volta a São Paulo, estávamos muito felizes por termos feito nosso primeiro show fora do Eixo Rio-São Paulo, expandindo fronteiras. Mais que isso, a somatória de boas novas que tínhamos, parecia uma verdadeira avalanche, e sem dúvida, isso contaminava o staff do Stúdio V, que tratava-nos como uma joia rara, prestes a ser exibida no mercado.
Logicamente, essa euforia toda gerada tinha poder de retroalimentação, e quando reverberava em nós, voltando com o "efeito boomerang", não havia como também não ficarmos muito excitados com a situação de momento, mas sobretudo, pelas perspectivas ainda melhores que teríamos, muito possivelmente.
Portanto, com a entrada de outubro, ficou determinado que gravássemos uma nova Demo Tape, e essa sim, seria o nosso passaporte para ingressarmos numa gravadora major. Uma reunião convocada pelo Miguel, inclusive, teve essa pauta : "demo tape, e qual gravadora almejávamos". Isso mesmo... ele consultou-nos sobre qual gravadora nós achávamos que seria a ideal para cuidar de nossos interesses, e de pronto, dissemos-lhe que nossa prioridade era a Warner, gravadora que mais tinha artistas orientados pelo Rock, se bem entendido, a turma do Pós-Punk, em predominância máxima, mas mesmo assim, parecia-nos a mais adequada.


Claro, a BMG Ariola também tinha seu cast Rock; assim como a EMI / Odeon (a CBS já tinha o "Inox", uma banda pesada, e isso era um alento para nós...); e outras em menor cotação, mas a Warner era nosso sonho de consumo, por parecer ser a mais incisiva, desde que o BR-Rock 80's estourara na mídia mainstream, ainda em meados de 1982, para consagrar-se nos anos vindouros.
O discurso de Miguel, era de extrema confiança, dando a entender, ou melhor, afirmando categoricamente, que seu contato era com todas, de onde conhecia todos os seus executivos, diretores de repertório e contratações, além dos próprios presidentes. Uma boa demo, bem gravada; com material de apoio gráfico e um álbum de fotos, ajudariam, mas sua intervenção direta garantia-nos a entrada, segundo disse-nos, demonstrando uma tranquilidade tão grande nessa afirmativa, que aos nossos olhos, era muito mais que uma mera bravata, mas uma certeza absoluta. Indo além, disse-nos que seria muito bacana que um artista consagrado do mainstream e com forte identificação com o Rock, "apadrinhasse-nos" e mediante um esforço pessoal de tal padrinho, também comprometesse-se a ajudar-nos, telefonando para a gravadora escolhida, a endossar assim, a sugestão de nossa contratação.
Quando falamos-lhe que ambicionávamos a Warner, claro que ele quis conhecer nossa justificativa para tal escolha, e aí dissemos-lhe sobre o panorama do Rock oitentista, e o quanto a Warner parecia-nos ser a gravadora major que mais investia no Rock, além das várias tentativas que havíamos feito para abordá-la com nossas próprias e incautas forças; fora o apoio que tivéramos de Charles Gavin, baterista dos Titãs; e Clemente, líder dos Inocentes, nesse mesmo esforço.
Rita Lee & André Midani, em foto de 1972. Será que essa dupla de amigos de Miguel, e entre si, conspiraria a nosso favor ? 

Então, mostrando inteira tranquilidade e conhecimento dos meandros das gravadoras majors, determinou que sua secretária Maria Amélia anotasse na agenda, a tarefa de ligar para André Midani, o presidente da Warner, e que segundo ele, era seu amigo pessoal desde o início dos anos sessenta. Tal telefonema seria efetuado assim que tivéssemos a demo tape finalizada, e o material gráfico e fotográfico, idem. Sobre a história de um eventual "padrinho" artístico que apoiasse-nos, pensamos em dois nomes : Rita Lee e Erasmo Carlos. Alegando conhecer, e bem, a ambos, pediu-nos que escolhêssemos apenas um, para que ele fizesse o contato e pessoalmente convidasse tal artista para ser nosso padrinho, ou madrinha artística. Gostávamos dos dois, mas naquela circunstância inicial, fechamos na ideia da Rita Lee, porque já a havíamos abordado pessoalmente, há pouquíssimo tempo, e ela elogiara-nos de forma explícita no seu programa de rádio próprio (Rádio Amador, da 89 FM), executando nosso som no seu programa, e até tendo comparado-nos ao "Bad Company", uma banda britânica e setentista clássica, que ela mesmo adorava naquela década, e que portanto, tal comparação era honrosa para nós, pelo peso duplo que trazia em seu bojo.
Alegando conhecer a Rita desde o tempo que os Mutantes ainda não haviam ficado famosos, também mandou que Maria Amélia anotasse como segunda tarefa sua como nosso empresário, ligar para Rita e formular tal pedido. Contaminamo-nos ainda mais na euforia, mediante essa confiança que ele demonstrava ter nesses contatos de bastidores. Era tudo o que sonhávamos desde o início da carreira da banda, ou seja, um empresário com livre acesso aos bastidores do mundo artístico como um todo, usando seu tráfico de influências (no bom sentido do termo, é lógico), a nosso favor, e de nossa parte, tínhamos mais que um produto artístico / musical bom em mãos, mas quatro anos de esforços realizados e naquele instante, com bastante visibilidade adquirida, e sobretudo com o telefone tocando espontaneamente.
Ou seja, como não contaminar-se com a euforia gerada de tal perspectiva auspiciosa ? Analisando hoje, com a experiência adquirida e três décadas de distanciamento histórico, cabe uma reflexão, no entanto : apesar do Miguel realmente conhecer, e ter intimidade com tais executivos e mandatários de gravadoras, não estaria defasado em relação à cena oitentista ? Seus valores eram da década de sessenta e principalmente baseados na música pop, ou seja, talvez não conseguisse entender a nossa identidade; nosso conflito estético com as correntes oitentistas, e por conseguinte, a mentalidade em voga que norteava a cabeça dos mandatários daquele instante oitentista. 
Tudo bem conhecer o André Midani, e tomar vinho com ele, mas será que Miguel sabia que quem dava as cartas no mercado era a estética do Pós-Punk, e que produtores como Liminha e Peninha rezavam por tal cartilha com as bênçãos de Midani ? Outro aspecto : independente de nossas ponderações artísticas e estéticas sobre qual gravadora parecia-nos mais atraente, ele não sabia o que era melhor para o nosso gerenciamento, mesmo conhecendo os métodos de cada empresa dessas ? Com tantos anos de militância nesse meio, não tinha uma avaliação precisa sobre qual seria a ideal ? A resposta que dou hoje em dia, é categórica para as questões acima elencadas : não...
Acho que ele confiou muito no seu taco, que realmente era forte, mas nesse mercado da música, as coisas mudam muito e rapidamente. Sendo volátil ao extremo, se um produtor não acompanha tais mudanças, fica defasado muito rapidamente e certamente que o Miguel perdera o bonde da história, e raciocinava suas estratégias baseadas no mundo fonográfico e midiático que tanto lidou nas décadas de sessenta e setenta, e sob o prisma da música pop (com estreita ligação com o brega), bastante distante do Rock. Na época, claro que nada disso ocorria-nos e nosso sentimento era o de estarmos à beira de obtermos nosso intento.
Assim iniciou-se o mês de outubro de 1986, e dali até dezembro, a quantidade de fatos e histórias paralelas que foram geradas nos bastidores da banda, e no casarão da Avenida Eusébio Matoso, foram dos mais intensos na história da Chave. Espero não esquecer-me de nada...
Já ensaiávamos regularmente nas dependências do Studio V, desde setembro. E nos primeiros dias de outubro, já começamos os preparativos para gravar a nova demo tape. A grande mordomia era na questão do tempo livre, um fato raro na nossa história que sempre foi a de lidar com verba exígua para gastar em produções desse porte, ou depender de terceiros, caso do EP de 1985, com a Baratos Afins bancando, mas sendo uma gravadora de pequeno porte, sem maiores recursos. Outro fator animador, era que o estúdio tinha porte médio, mas sendo absolutamente novo em folha. Além de ter um bom equipamento básico, e igualmente "zero Km", o fato das instalações serem novas, garantia uma linha de trabalho segura, pois acredite, amigo leitor, não tem nada pior do que empreender gravação em estúdio com más condições de manutenção básica, e sofrer assim o martírio de ter que interromper o trabalho seguidas vezes, para o técnico descobrir de onde vem ruídos indesejáveis ou simplesmente deparar-se com equipamentos que recusam-se a funcionar...
Tínhamos naquela altura, um repertório novo e muito vasto. Desde que o Beto entrara na banda, no final de outubro de 1985, a grande profusão de novas ideias deu-nos esse impulso primordial para renovarmos o repertório. Ele mesmo, Beto, era o mais prolífico nesse sentido, trazendo-nos muitas ideias novas. O fato de também ser guitarrista e compositor, certamente era um agente agregador nesse sentido para a banda, e dessa forma, o Beto trazia muitos riffs novos, quase diariamente, fruto de suas inspirações caseiras, tocando guitarra. Chegamos portanto, nesse instante para gravar uma nova demo, com um leque enorme de opções. Claro, muitas dessas novas canções já vinham sendo tocadas nos shows ao vivo, algumas até, desde 1985, sendo assim, nós já tínhamos expectativas, mediante a temperatura de cada uma testada perante o público.
Lógico, havia a experiência toda acumulada com diversas abordagens feitas a gravadoras majors; conselhos de amigos que já estavam nesse patamar; os erros e acertos da demo anterior, gravada em abril, e também esperávamos pelos conselhos de Miguel, com sua experiência de radialista e executivo da indústria fonográfica. Músicas  "peso-pesado" como "Forças do Bem", gravada na demo de abril, não poderiam figurar nessa nova tentativa. Paralelo a essa produção da demo, os compromissos e oportunidades não paravam de acontecer. E assim, conforme já falei preliminarmente em parágrafo próximo passado, havíamos recebido o convite de um programa da TV Record de São Paulo, para participar de uma edição especial do mesmo, a ser realizado no Palácio das Convenções no Anhembi, acompanhados de outras bandas do BR-Rock 80's, e com a difícil missão de ser "abertura" de uma atração Pop-Brega e infame...
Prossigo essa história bizarra da nossa trajetória, a seguir.
Aceito o convite, sabíamos que seria uma oportunidade de mega exposição televisiva, portanto muito boa para nós, mas não havia nenhuma euforia de nossa parte por conta disso, mesmo porque, teríamos a inglória missão de ser "abertura" de uma atração internacional de péssima qualidade artística, e pior ainda, suprema humilhação, rebaixar-nos-íamos ao seu patamar, pois apresentar-nos-íamos dublando (eca !!!). Para aqueles rapazes criados num laboratório de marketing, era a absoluta normalidade apresentar-se nessas condições medonhas, mas para nós, era muito constrangedor não tocar e cantar ao vivo. Enfim, sem poder contestar, o negócio era amargar essa vergonhosa forma de apresentar-se ao vivo, e pensar na exposição a um público televisivo inteiramente diferente do que estávamos acostumados. 
Foto meramente ilustrativa, pois certamente que não existiam telefones celulares, tampouco Smartphones em 1986...

Chegado o dia de participar da gravação do programa, dirigimo-nos ao Palácio das Convenções do Anhembi, e logo ao o avistarmos, notamos uma multidão nas suas cercanias. Era uma fila gigantesca e exótica, no sentido de que era exclusivamente feminina. Eram adolescentes aparentando estar na faixa entre 12 e 20 anos de idade na média, e em estado de euforia, dançando e cantando, portando cartazes, com posters de seus ídolos pré-fabricados. Estacionamos e fizemos um pequeno percurso a pé, rumo à entrada de serviço, por onde artistas e técnicos tinham acesso, e constatamos que nos bastidores havia também uma multidão (muito provavelmente formada por meninas que não tinham ingressos para assistir a "apresentação", e sua intenção era a de ao menos ver seus ídolos chegando ao local), e a polícia fazia um cordão de isolamento, mediante grades de proteção.
Havia centenas de garotas presentes, e obviamente que a motivação de 100 % daquelas meninas não eram as atrações de bandas de Rock nacionais convidadas a participar, mas o foco era naturalmente, os garotos saltitantes. Quando aproximamo-nos, claro que as ensandecidas adolescentes manifestaram-se, mas de forma debochada e jocosa. Nenhum de nós tinha a ilusão de que seríamos ovacionados (a não ser por uma eventual manifestação de arremesso de ovos...), e nem mesmo reconhecidos por aquele público em específico. Pelo contrário, sabíamos de antemão que éramos desconhecidos por parte daquelas meninas. Mas a saraivada de impropérios e deboche surpreendeu-nos
Ouvimos várias provocações por conta da nossa aparência, principalmente pelas longas cabeleiras setentistas, e que causavam espécie no ambiente oitentista. Algumas mais abusadas debocharam de nós, gritando "Beatles acabou"; Led Zeppelin já era"; "John Lennon morreu", e outras frases de mau gosto, com o intuito de ofender-nos, e estigmatizar-nos como "coisas do passado".
Mas o que realmente essas adolescentes cultuavam era um embuste. Uma banda de mentira, formada num balão de ensaio de marketeiros, e sob a égide do absoluto mau gosto de uma música brega e latinizada (no pior sentido do termo, deixo claro, pois latinidade não é exatamente brega em essência, mas tem esse lado em certas manifestações, exatamente como existe no samba, que "bregalizado" em forma de "pagode romântico", assume tal vestimenta). Cultuavam um pseudo artista pré-fabricado, que raramente apresentavam-se cantando ao vivo; não compunham; não tocavam; não escreviam as letras de suas canções... E além disso, esteticamente, faziam uma música pop hispânica da pior qualidade etc etc. 

A história tratou de varrer para o ralo uma manifestação irrelevante daquelas, e hoje em dia, aquelas meninas vociferantes e imbecilizadas por uma ação viral de superestimação absurda de uma artista "fake", como era o Menudo, são senhoras de meia idade hoje em dia (2015), e dada a aceleração do processo de perpetuação da espécie que observamos nos dias atuais, não duvido que algumas já sejam vovós... 
Resignamo-nos com as provocações, mas o Beto Cruz desconcentrou-se por um momento, quando estávamos quase no fim desse corredor polonês de provocações. Ele parou e fitando uma adolescente histérica que berrava algo como : -"o sonho já acabou", falou-lhe de forma dura : -"eu gosto mesmo dos Beatles, porque eles compunham; tocavam e cantavam suas músicas, muito ao contrário desses chicanos que vocês curtem"...
Era uma verdade absoluta, e essa menina teve que engolir...
Enfim, o fato de gostarem daquele lixo, era uma mera ação publicitária viral e perpetrada por mafiosos que manipulam a música mainstream, e no fundo, eram vítimas, sendo usadas como idiotas úteis para que esses crápulas ganhassem dinheiro.
Os membros da "banda" em si também não tinham culpa. Se eu fosse Porto Riquenho; tivesse habilidade como dançarino; e 15 anos de idade, talvez motivasse-me a fazer um teste para fazer parte de um embuste desses, tornando-me "artista" da noite para o dia e ganhando fama; dinheiro, e com meninas lindas descabelando-se por minha causa... (brincadeirinha... com 15 anos de idade, queria ser Rocker "de verdade", aprendendo a tocar um instrumento, e cultuando a nata do Rock).
Ou seja, os garotos estavam na deles, e ninguém poderia criticá-los por fazer parte disso, pelo menos até a "página 2" do manual de ética e moral... ha ha ha...
Nada como o tempo para restabelecer a justiça... 30 anos depois (2016), o Led Zeppelin continua lá no panteão dos grandes artistas do século XX, como os Beatles, mas e o Menudo, o que representa na história da música, exatamente ??


Superada essa barreira obtusa de adolescentes abduzidas por marketeiros / formadores de opinião, entramos enfim no recinto. 
Produtores do programa conduziram-nos ao camarim, e ali tivemos a constatação de que o tratamento era completamente diferenciado entre os chicanitos fakes, e as bandas "de verdade"...
Todas as bandas ficaram juntas num camarim simples, apenas com água disponível para todos.
Somente ali descobrimos quem seriam os outros participantes convidados. Uma das bandas era o "Hanoi-Hanoi", banda Pop, que fez pequeno sucesso mainstream naquela década. 
Hanoi-Hanoi, banda liderada pelo grande baixista, Arnaldo Brandão

Era a banda do Arnaldo Brandão, ex-baixista da "Bolha", grande banda de Rock setentista, além de ter sido baixista da banda de apoio de Caetano Veloso no final dos anos setenta. Tremendo baixista que eu admirava por essa ficha pregressa, mas o Hanoi-Hanoi não despertava-me nenhuma motivação, contudo, pois parecia uma banda formada de ocasião, para aproveitar o modismo do BR-Rock oitentista, e era isso mesmo, ipsis litteris. Conversamos pouco, mais na base dos cumprimentos, e uma ou outra brincadeira sobre a "grande" atração do programa, os indefectíveis Menudos. A outra banda era quase no nosso patamar em termos de status, mas dali em diante daria um salto vertiginoso, destacando-se do underground, e chegando ao mainstream. Em conversa ainda permeada pela humildade, um rapaz louro, com forte sotaque gaúcho, apresentou-nos seus companheiros. O nome da banda soou-nos exótico, e na hora, a minha impressão pessoal foi de que tratava-se de uma banda satírica, devido ao nome : "Engenheiros do Hawaí". 
Engenheiros do Hawaí em seus primórdios, e na formação que dividiu o camarim conosco no Anhembi

O rapaz era o então desconhecido Humberto Gessinger, que devo admitir, era comunicativo e humilde, apesar de que na época, não haveria mesmo motivo para nenhuma demonstração de soberba, pois a banda era só emergente na ocasião. Mas sinceramente, pelo que pude detectar ali, o rapaz era sincero e não demonstrava nenhuma afetação, e torço para que no trato pessoal ele tenha mantido tal postura, quando a banda alcançou o mainstream, pouco tempo depois. Foram chamados ao palco, e voltaram rindo muito da histeria com a qual lidaram, mas segundo contaram-nos, o frenesi fora positivo e era por causa dos chicanos, e isso até divertira-os.
A Chave do Sol no camarim do Teatro Mambembe, em julho de 1986. Da esquerda para a direita : Rubens (de costas); Beto, Eliane Daic (nossa produtora), eu, Luiz Domingues, e um rapaz desconhecido (de costas)
Enquanto as bandas nacionais "de verdade" dividiam um único camarim no enorme bastidor do Palácio das Convenções do Anhembi, todos os outros camarins ficaram isolados para servir aos chicanitos e sua entourage. Estávamos resignados com a diferença acintosa que faziam em relação aos chicanos. A despeito de ser um embuste sob o ponto de vista artístico, estavam por cima da onda, com sucesso midiático retumbante e na base da "formação de opinião", eles eram "bons" por serem famosos e nós, "maus" por não sermos tão populares quanto o "fenômeno" porto riquenho.
A análise sobre tal disparidade é óbvia, e não carece de distanciamento histórico para ser formulada. O poder do marketing é avassalador e realmente manipula a opinião pública a seu bel prazer.
Um lixo daqueles fazer sucesso massivo é uma prova cabal, mas muito pior, é gerar a opinião errônea de que sucesso popular é sinal de qualidade. Aí, meu amigo... dói na alma ser alvo de uma injustiça desse porte, quando se está no epicentro da criação artística e vendo tanta gente boa sendo deixada à margem das oportunidades. 
Perde a arte e a cultura com essa manipulação nojenta que bloqueia os caminhos para que artistas genuínos possam mostrar sua arte livremente; perde o povo que priva-se da arte livre e sobretudo de qualidade... e por favor poupem-me de contra argumentação relativizando o que significa "qualidade" na arte, tampouco manifestações de apoio ao popularesco, sob a égide de uma suposta legitimidade da livre expressão. Sim, concordo com a livre expressão, mas abomino a manipulação de marketeiros, e sobretudo a teoria da formação de opinião.
Enfim, constatações à parte, sobre como funciona o mundo do show business, a realidade era essa ali nos bastidores : um camarim simples para nós, com água, e para os grandes astros latinos / hispânicos, todos os outros camarins reservados, plenos de mordomias. Com forte segurança de sua produção, deu para ver apenas a arrumação de um dos camarins como copa, com uma mesa gigantesca e um verdadeiro banquete preparado para recepcioná-los. Vimos funcionários levando caixas de garrafas de vinho e champagne, e era a certeza de que a farra seria boa, ali.
Mas a cereja do bolo veio quando ouvimos a conversa de uma produtora com alguns funcionários da segurança. Sem rodeios, pediu para que eles fizessem uma varredura na plateia, e escolhessem 50 garotas para visitar o camarim. O critério era simples e direto : as mais lindas...
Bem, não farei nenhum discurso moralista, mas claro que seria cabível. Enfim, os Engenheiros do Hawaí ainda estavam apresentando-se, quando começaram a chegar as primeiras meninas escolhidas a dedo pela produção. Estavam em estado de êxtase, naturalmente, e certamente que eram lindíssimas e fariam parte do banquete dos chicanos. Os Engenheiros do Hawaí voltaram ao camarim com a reação que qualquer artista verdadeiro teria nessas circunstâncias, ou seja, rindo da dublagem vexatória e da histeria das fãs do Menudo, ensandecidas e rezando para as atrações "menores" sumirem de sua frente, para que seus ídolos dançarinos aparecessem enfim... chegara então a nossa vez...
Ao contrário do Hanoi-Hanoi que tinha um visual modernoso e compatível aos anos oitenta, e do Engenheiros do Hawaí que apresentaram-se de forma despojada e ainda não eram famosos no mainstream, a nossa banda tinha visual setentista, e odiado naquela década marcada pelas ideias niilistas. Temíamos portanto, pelo pior, quando entrássemos no palco com as adolescentes cada vez mais impacientes por tanto esperar por seus ídolos pré-fabricados, e ainda ter que aturar quatro cabeludos "do passado"...
A julgar pela reação hostil que tivéramos na entrada no Anhembi, e relatada nos parágrafos anteriores, esperávamos uma reação muito pior, com uma vaia mastodôntica, seguida de insultos; impropérios e quiçá, arremesso de objetos contra o palco. Então, a produção veio  chamar-nos para subir ao palco...

Subimos ao palco e ele estava decorado de forma a enaltecer o fato de ser uma edição especial do programa em questão. Haviam pequenos praticáveis, e fomos instruídos a ocupar um cada um, individualmente e eu até apreciei isso, pois remetia aos anos sessenta, e basta dar uma busca no You Tube para ver dúzias de programas de TV dos anos 1960, com bandas apresentando-se dessa forma.
Mas havia, claro, uma diferença básica em relação aos anos 1960... não havia nenhum equipamento, pois ninguém tocaria ao vivo ali, e só aconteceriam as malfadadas dublagens. Surpreendeu-me no entanto, a recepção das enlouquecidas fãs do Menudo, pois ao contrário do que imaginava, não fomos hostilizados assim que entramos no palco, tampouco enquanto o apresentador lia a ficha falando quem éramos, o nome da nossa música etc etc.
Ouça acima a canção "Saudade" que as fãs do Menudo "tiveram que engolir" e dá-lhe mestre Zagallo !

Por uma razão de lógica, optamos por apresentar a música "Saudade", que era a nossa aposta mais pop naquele momento, e a despeito de termos só uma gravação de demo-tape, era a coisa certa a ser feita, pelos motivos todos que já coloquei nos últimos capítulos, e acho desnecessário repeti-los aqui. Quando as atenções ficaram entre nós, e o sonoplasta deu o play na máquina, não vou mentir dizendo que tivemos uma ovação, mas muito ao contrário do que eu imaginava, muitas meninas acompanharam a nossa "performance" batendo palmas no ritmo da música, sem deboche, demonstrando estarem divertindo-se. Dentro da palhaçada que caracterizava uma dublagem, ainda mais com a audiência de três mil garotas ensandecidas, até que soltamo-nos nas "micagens". O Beto andou pelo palco, como se fosse para valer, dentro do possível.

Quando acabou a música, fomos aplaudidos. Não com uma ovação, mas bem além das palmas educadas, com certeza. Missão cumprida, estávamos felizes porque a despeito de tudo, enfrentamos um público supostamente hostil e o domamos; não inibimo-nos diante da incômoda tarefa de dublar, que é um pesadelo para quem sabe tocar de verdade, e tínhamos a certeza de que a audiência do programa na TV seria massiva, graças ao apelo dos bregalhões porto riquenhos. 
Voltamos ao camarim, despedimo-nos da produção e partimos, vendo todo o clima que estava no camarim dos chicanitos, com a farra comendo solta, a julgar pelos berros com sotaque castellaño...
Claro que partimos, sem nenhuma intenção de assistir a "apresentação" dos grandes astros
. Gravamos a nossa aparição numa fita VHS, no dia de sua veiculação, no sábado posterior, mas essa fita desapareceu, lamentavelmente, entrando para a contabilidade triste que aponta termos perdido mais da metade do material de TV que fizemos, nos anos todos de existência da banda. Tal filmagem aconteceu no dia 11 de outubro de 1986, e foi ao ar, uma semana depois, em 18 de outubro. Não contabilizei como show ao vivo, é lógico, pelo caráter da dublagem inglória, mas três mil garotas histéricas estavam ali olhando-nos, no Palácio das Convenções do Anhembi. Hoje em dia, escrevendo este relato, é indescritível a minha desilusão quanto a essa perda, pois esse material deveria constar da minha autobiografia, sem dúvida, enriquecendo-a. Paciência...
Enquanto nossa aparição no programa "Frente Jovem"("abrindo" o Menudo), ia ao ar, no dia 18 de outubro de 1986, nesse mesmo dia, fomos aos estúdios da emissora Imprensa FM, onde concedemos entrevista ao programa "Rádio Corsário". Era a segunda vez que éramos entrevistados nesse programa, sendo a primeira vez, ocorrida em maio do mesmo ano. Tratava-se de um programa "peso-pesado", dedicado aos fãs do Heavy-Metal predominantemente, mas claro que nós éramos bem recebidos nesse ambiente, e certamente reconhecidos como "dessa turma". Já havíamos sendo entrevistados nesse mesmo programa, em maio do mesmo ano. Simpáticos, trataram-nos em ambas as ocasiões com bastante entusiasmo, portanto, claro que nós aceitávamos o apoio de bom grado.  

Nesse ínterim, o Clemente, guitarrista e líder dos Inocentes, convidou-nos para o cocktail /show de lançamento do EP que haviam gravado pela Warner, e cuja história de colaboração mútua entre as bandas, foi amplamente relatada em parágrafos anteriores.
Mais uma típica reação às ações espontâneas da banda, e nada a ver com os esforços do Studio V, portanto. Claro que aceitamos, e o Clemente advertiu-nos que seria bom para a banda estar presente, pois muitos jornalistas; executivos da Warner, e artistas do mainstream, estariam presentes e mesmo que ali não fosse lugar para contatos, "ser visto" era importante. Marcar presença era uma necessidade premente, para aos poucos, sermos inseridos no patamar de cima da música.  

Contudo, atormentava-nos a perspectiva de que estar num show de Punk Rock, na casa de shows Madame Satã, ali na metade dos anos 1980, era um exercício de extremo perigo para hippies defasados; cabeludos, e certamente confundidos com "headbangers" ou "metaleiros", como rezava o estigma tupiniquim da época.
Nos anos 1980, a hostilidade chegava às vias de fato, e envolvia muitas vezes, casos extremos, com mortes e graves ferimentos oriundos de emboscadas, registradas nas páginas policiais.
Foto mais atual da fachada da casa de espetáculos "Madame Satã", no bairro do Bexiga, em São Paulo

Para estacionar o carro nas imediações, e caminhar até o estabelecimento, já era uma situação bastante perigosa. Entrar na casa, também não era recomendável, personas non gratas que éramos naquele ambiente oitentista hostil ao extremo. Ponderamos no entanto, que não poderíamos perder a ocasião, não só pela estratégia de "ser visto" pelos formadores de opinião, mas também por uma questão de educação e gentileza aos Inocentes, que foram de fato, muito simpáticos conosco. Outro ponto, o próprio Clemente alertou-nos que não deveríamos temer, pois apesar de realmente haver uma atmosfera hostil para quem não compactuasse com a estética do Punk / Pós-Punk, mote da casa em questão, naquela ocasião em específico tais ditames estariam obscurecidos, porque equipes de reportagem de TV estariam presentes, muitos jornalistas e muita gente alheia às tribos oitentistas e seus radicalismos, portanto, seríamos respeitados e como convidados dele, pessoalmente, dificilmente aconteceria uma provocação, e menos ainda uma agressão física. Bem, ponderamos que a argumentação era sólida e fomos os quatro, mais Eliane Daic, nossa produtora, nessa altura já contratada do Studio V, e subordinada à Sonia, que incumbiu-lhe de fazer um relatório completo, a ser entregue no escritório, no dia seguinte.

Fomos então. Vestimo-nos condizentemente para um cocktail badalado de motivação Rocker, mas sem exagerar no figurino. Não usar nada anacrônico que estigmatizasse-nos com as décadas de 1960 e 1970, sem dúvida alguma, e muito menos deixar margem à interpretação errônea de que éramos "metaleiros". Apesar desse jogo de cintura na arrumação do visual, nossas cabeleiras denunciavam nossa não adequação ao ambiente...
Demos sorte na rua, e apesar de muita gente hostil estar pelas calçadas, nada de ruim aconteceu. Lá dentro, a casa estava lotada e de fato, tinha muita gente da cena oitentista circulando pelo ambiente, além de famosos que pouca afinidade tinham com os meandros da música / Rock. Jornalistas e executivos da Warner, também.  

Fomos hostilizados, mas bem de leve. Alguns esbarrões "sem querer  / propositais"; cochichos; gente apontando para nós; alguns debochando e rindo... mas nada que indignou-nos. O show dos Inocentes ocorreu no famoso porão da casa, e ali o calor era enorme, a aí sim, era imprudente ficarmos, pois o público punk propriamente dito, fazia suas "rodas de pogo", e a luta livre não era o nosso esporte predileto, enfim. Saímos também "numa boa", sem maiores hostilidades e /ou perigos. Aproveitando a deixa dessa lembrança, conto mais uma neste momento : outro amigo que tínhamos no patamar de cima da música, Charles Gavin, convidou-nos a assistirmos um show dos Titãs, onde poderíamos usufruir também dessa estratégia de "sermos vistos" nos lugares certos, nas horas certas...  

Fomos então numa noite de quinta (não tenho certeza, mas acho que foi isso), assistir o show dos Titãs no salão de festas do Clube Tietê, um clube que era muito tradicional na cidade e de fato, localizado às margens do rio Tietê, na altura da Ponte das Bandeiras, no Bom Retiro, bairro central de São Paulo. Apesar de estarem consagrados e vivendo grande fase midiática na época, curiosamente o show estava com pouco público. A mixagem do P.A. estava excelente. Foi um dos shows de Rock onde ouvi maior clareza de uma mixagem ao vivo, sem dúvida. Não sei quem era o técnico de P.A. deles nessa ocasião, talvez já fosse o Canrobert, nosso amigo e também nosso técnico em muitos shows da Chave do Sol (já falei sobre ele bastante em capítulos anteriores da Chave, e também nos do Língua de Trapo), mas independente de quem fosse, realmente fez um trabalho excelente na equalização de P.A.. Não gostávamos da estética dos Titãs, portanto, se a mesma mixagem estivesse a favor de uma banda que rezasse pela cartilha 1960 / 1970, teria sido agradabilíssimo ouvi-la com aquela perfeição de timbres; equilíbrio e peso.  

Infelizmente, não pudemos comparecer aos bastidores como o Charles desejava, pois algo desagradável aconteceu...
Mas claro que valorizávamos e muito o fato dele estar imbuído de toda a boa vontade em dar-nos a sua mão, e tentar assim, puxar-nos para o patamar de cima do Rock mainstream. Havia pouca gente, mas os que estavam lá, eram de tribos oitentistas variadas, hostis entre si, de certa forma, mas unidas na hostilidade para com cabeludos antagônicos como nós.
Não houve um ataque direto, mas assim que o show começou, foram envolvendo-nos sutilmente e jogando-nos dentro da famigerada "roda de pogo" e ali, usando da desfaçatez de ser uma prática usual dentro do universo punk, o real objetivo era encher-nos de socos & pontapés...

Fomos assistindo o show e percebendo a aproximação gradual, quando chegou num ponto onde tornou-se insustentável permanecer no salão. 

Lembro-me de eu ser empurrado bruscamente pelo Beto num determinado instante, porque um sujeito passou muito perto de minha pessoa, naquele movimento que lembrava uma incorporação mediúnica, mas na verdade tinha a intenção de aplicar-me um "cruzado de esquerda" de pugilismo...
Bem depois disso, o Rubens sugeriu que saíssemos, pois estavam muito próximos, e claro que era uma provocação esperando que reagíssemos. Não deu portanto, para cumprimos a visita aos bastidores, como havia sido sugerido pelo Charles. Independente dos resultados sutis nessas duas empreitadas de motivações sociais, claro que Sonia; Toninho & Miguel, vibravam com essa movimentação natural que a banda promovia, vindas de nossas próprias forças, sem que eles fizessem nada. E de nossa parte, ainda era forte o sentimento que eles fariam muito, e tais boas novas vindas de nós, apenas prenunciavam nossa subida ao patamar mais alto da música...


Ainda falando sobre ocasiões sociais em que inserimo-nos, finalmente o Studio V colocou-se numa situação armada por eles.
Antes de falar disso, é preciso retroagir um pouco. Quando fomos abordados pela primeira vez, e disseram-nos que haviam outros artistas de outras correntes musicais, contratados pelo estúdio, na verdade não havia ninguém. Já comentei que tal realidade tinha significados subliminares. Mas eis que por volta de outubro, Sonia e Toninho comunicaram-nos eufóricos, que haviam contratado um "astro" internacional, e que tal artista "consagrado" não precisava de muito empenho para acontecer no Brasil, e que pelo contrário, nós seríamos beneficiados, apanhando carona no seu rastro de sucesso.

Nós estávamos esperançosos que o Studio V proporcionasse-nos uma abertura grande, mas não seria por conta disso, a não ser que tivessem contratado um astro de real grandeza da música pop... quem seria ? Rod Stewart, Elton John ou Tom Jones ? Então, eis que surge a figura de um cantor português chamado Michael Olivier (peço perdão ao leitor, mas não há uma linha sequer sobre esse artista na Internet, portanto, fico devendo fotos ou maiores esclarecimentos sobre sua carreira).

Figura espalhafatosa, e engraçada pelos trejeitos e maneirismos histriônicos, chegou com bastante soberba, falando de sua carreira internacional; shows em cassinos europeus, casas noturnas badaladas do jet set daquele continente etc etc. Seu som era um Pop bem "bregalizado", que lembrava muito artistas nacionais similares, alguns entre os quais, que o próprio Miguel havia produzido nos anos setenta, quando foi executivo da gravadora RGE, gerindo um selo como a "Young". Cantava em inglês e francês predominantemente, mas português, também, é claro.
A julgar pela produção de áudio; estética, e nível artístico dos compactos simples que mostrou-nos entre seus lançamentos na discografia, era mesmo difícil acreditar que beneficiar-nos-ia de alguma forma. O que poderia proporcionar-nos ? Entrevistas em programas de emissoras de rádio AM ? Programas popularescos de TV, estilo Gugu Liberato (acabáramos de fazer algo assim, espontaneamente, "abrindo" o Menudo, portanto, o que ele agregar-nos-ia...) ? Essa chegada dele ao cast da produtora, não tirou o nosso entusiasmo nessa época, mesmo porque sentíamos a euforia de ver a nossa banda subindo pelas próprias forças, mas certamente que acendeu uma pequena luz amarela, pois o sujeito era bastante antagônico, artisticamente falando. E nesses termos, uma coisa é ser eclético, e outra, muito diferente, é não ter noção alguma das disparidades que poderiam até provocar um mal estar em relação à estratégia da produtora. Enfim, nada podíamos fazer, pois éramos apenas contratados e não os executivos e estrategistas da instituição. 
O tal Olivier, era também engraçado, não posso negar. Sua arrogância patética, aliada ao sotaque lusitano castiço, bem carregado, e trejeitos efeminados, provocavam uma série de situações muito engraçadas nos bastidores do casarão do Studio V.
E como estávamos frequentando-o diariamente, ensaiando e gravando a demo-tape, era inevitável que o víssemos diariamente, também. Infelizmente, sua atitude para conosco, foi de ciúmes explícitos. Chamava-nos de "Rockeirinhos insignificantes brasucas", e não pelas costas, mas o tempo todo, diretamente para nós. Era tão patético e engraçado, que ríamos. Nunca ficamos com bronca dele por conta de tais hostilidades, e nem mesmo ao saber que em conversas reservadas com Sonia e Toninho, tinha chiliques histéricos, exigindo que eles despedissem-nos, para focar seus esforços na sua carreira. De tanto que era afetado, e nós não esboçávamos reagir com contrariedade, percebeu que era inútil portar-se como uma criança mimada de cinco anos de idade, e algum tempo depois, amenizou seus ataques, e chegou até a ficar quase simpático conosco. Clovis, o técnico de som que trabalhava conosco nos ensaios, e na produção da demo tape, não acreditava nas coisas que o português falava ali, e ria muito das brincadeiras, principalmente que o Beto fazia para neutralizar os ataques do "gajo".  
Certa vez, o português entrou no estúdio com uma revista Playboy em mãos e exibindo-nos o poster da garota do mês, executou a seguir uma performance "sensual", dançando de forma lasciva e feminina, para provar-nos que ele era muito melhor que ela, a peladona da revista... e saiu aos gritos que ele era mesmo, melhor. Foi difícil voltar a ensaiar depois disso, dada a epidemia de gargalhadas que tal ato patético, gerou...
Ele tinha duas filhas, que eram jovens e muito bonitas. Faziam Backing Vocals nas apresentações do pai, mas nitidamente sentiam vergonha de seus excessos. Então, feito esse aparte retroativo, volto ao início dessa etapa do capítulo, quando mencionava um acontecimento social perpetrado pelo Studio V, onde fomos inseridos a participar.  

Sonia armou um cocktail para anunciar publicamente o cantor lusitano como novo contratado da produtora, e lá fomos nós ao Caesar Park Hotel, um hotel de luxo na rua Augusta, participar disso. É verdade, ela conseguiu levar uma quantidade bem significativa de jornalistas para cobrir o evento. Esmagadoramente, eram setoristas de TV, acostumados a acompanhar esse espectro artístico de atores de novelas, e cantores brega do mundo dos programas popularescos e estações AM de rádio. Mas era o tal negócio : não rejeitávamos nada e assim, não tínhamos preconceito de estarmos também nesse mundo, desde que não interferissem na nossa música e visual. O cocktail foi bem produzido, não posso negar (considerando a recepção dos convidados; comes & bebes), e o salão de festas desse hotel era bem bacana nessa época.
Contudo, a apresentação do cantor, acompanhado de suas filhas, foi bastante constrangedora. Primeiro porque foi na base do abominável "play back". O segundo ponto, sem um palco propriamente dito, mas um tímido praticável, talvez conveniente para um discurso de um palestrante, apenas, mas ridículo para uma apresentação musical, mesmo informal, e nessas condições de playback. Em terceiro lugar, pela ausência de uma iluminação, mínima que fosse, pois na luz branca ambiente, tornou a performance ainda mais difícil de suportar-se. Alheio a isso tudo, o cantor "soltou a franga" para interpretar sua música pop brega e insossa. Suas filhas, que chamavam a atenção pela beleza, estavam muito constrangidas, e ainda mais quando seu pai exortava-lhes a entregarem-se mais à performance, e até que sensualizassem, coisa que recusaram-se a fazer. Não dava para acreditar que estavam eufóricos em contratar um artista tão duvidoso assim, mas fizeram-no.  

O grande Agildo Ribeiro, um comediante clássico do humor nacional
 
Pouco tempo depois, contratariam outro, não da área musical, mas este realmente famoso e com seus muitos méritos. Desta feita porém, ficou claro que este ator / comediante seria tratado como a estrela da companhia. Depois que gravamos a demo, e os procedimentos de entrega do material à gravadora Warner foram formalmente feitos, essa prioridade com tal artista escancarou-se definitivamente. Falarei sobre ele e outros fatos correlatos de outubro, nos próximos parágrafos.
 
Em meio ao turbilhão de oportunidades surgidas na mídia, e shows no meio do caminho, estávamos empenhados na gravação de uma nova Demo Tape. De certa, forma, essa ação era a mais importante naquele momento de outubro de 1986, pelo óbvio motivo de que tal trabalho poderia ser o nosso passaporte para uma mudança radical na carreira.  

Já falei e reforço, estávamos cuidando dessa produção observando muitos cuidados para não cometermos os erros que havíamos cometido na produção da demo anterior, gravada em abril do mesmo ano. A escolha do repertório, por exemplo, tornou-se o primeiro ponto a ser cuidado.

Comparando-se à demo de abril, repetiríamos a maioria das escolhas, mas por um motivo muito forte : nessa altura, já tínhamos a convicção de que tais canções agradavam o nosso público, dada a reação que despertavam nos shows. Esse era o caso de "Sun City" e "O Que Será de Todas as Crianças ?", músicas que eram ovacionadas nos shows, e nessa altura, já tinham status de hits da banda, mesmo ainda não estando gravadas oficialmente em disco.

Portanto, principalmente no caso da segunda citada, a escolha dela justificava-se por isso, muito mais do que pelo aspecto musical, pois não tinha o apelo pop que era necessário para abordarmos gravadoras majors. Dessa forma, escrevendo este trecho 30 anos depois (2016), não tenho como não observar que mais uma vez fomos imprudentes, porque se desejávamos entrar no mainstream, tal escolha não era adequada, mesmo que o nosso público adorasse-a, cantando-a a plenos pulmões.

Sendo muito incisivo, agora, é claro que a demo tinha que estar 100% coadunada com o espírito pop radiofônico, para despertar o real interesse dos executivos das gravadoras, notadamente diretores de repertório, responsáveis por contratações. E certamente que tais senhores, não frequentavam os nossos shows e daí, tal temperatura fervilhante no nosso conceito, era retumbantemente ignorada por eles. Numa análise fria, de fato cuidamos da segunda demo com maior apuro, mas a distância de apenas seis meses entre uma produção e outra, cegava-nos. A nossa percepção dos erros cometidos em relação à primeira demo, não tinha distanciamento histórico algum, e ali, no calor da nossa percepção oitentista, achávamos que a temperatura das músicas testadas ao vivo, falava por si só. Mais um grande erro estratégico, portanto, e inadmissível eu diria, pois nessa altura, além do fato de que já tínhamos bastante experiência acumulada, não houve interferência direta nas escolhas do repertório, por parte de quem mais tinha experiência dos meandros da indústria fonográfica e da mídia, principalmente a radiofônica.  

Miguel pouco ou nada interferiu no processo de escolha das canções, e muito menos nos seus respectivos arranjos. Salvo poucas visitas sazonais ao estúdio para inspecionar os trabalhos da gravação, não colocou a mão pesada na produção. Na época, comemorávamos essa liberdade artística, é claro. Trabalhar tranquilos no estúdio, fazendo tudo a vontade, era muito confortável, mas hoje em dia, eu vejo de outra forma, e se houvesse um apuro maior de todos, nossa história certamente teria sido diferente.

Sobre as escolhas ainda, "Sun City" ganhou um novo arranjo, é bem verdade. Fruto de nossa própria experimentação em relação à primeira demo, cortamos, providencialmente, o excesso de repetições do refrão, certamente um exagero na primeira versão. 
Tal formato prevaleceu posteriormente e na gravação oficial, no álbum "The Key"(no ano posterior, 1987), assim foi imortalizada.
Como contraponto, cabe ao mesmo tempo que fiz a autocrítica sobre nossos erros de avaliação à época, também deixar a ressalva de que uma música como "Sun City" podia não ser o padrão pop que a "intelligentzia" que comandava a mídia e a indústria fonográfica adotava (e certamente que não era), mas isso era um mera paradigma criado pela formação de opinião, pois no caso específico dessa canção, tinha todo o potencial para ser absorvido no mundo mainstream. Se fôssemos americanos, certamente que com uma música desse potencial em mãos, alcançaríamos sucesso mainstream. Mas aqui, a mentalidade acintosamente pró-estética Pós-Punk, deixava o mercado obtuso.
Sem abrir para outras vertentes, o nicho do Rock ficou fechado nessa estética e salvo raras exceções ("Inox" e o "Metalmania" de Robertinho de Recife), ninguém que não comungasse da cartilha do Pós-Punk, tinha chances. E no caso dos dois artistas que citei, acho que nem o fato deles terem sido lançados em gravadoras majors, quis dizer muita coisa, pois não foram trabalhados por ela, no quesito divulgação. Seus álbuns foram gravados nessas companhias multinacionais e fortíssimas, mas nada ajudou-os a romper o bloqueio para estéticas diferentes e apesar do status que ostentavam por serem contratadas dessas instituições ricas, mais atuavam no underground, como qualquer banda independente, como o nosso caso.

Indo além, estar numa gravadora de grande porte, mas que não faz nada por você, além de bastante frustrante, faz-nos pensar que permanecer pequeno, de forma independente ou até estar num pequeno selo, como a Baratos Afins, era uma situação melhor.
Conjecturas a parte, reitero que "Sun City" tinha mesmo que estar nessa segunda demo, pois a despeito da resistência sistemática de aceitação de tal sonoridade por parte dos produtores de gravadoras, ela tinha sim, potencial, e não só nos shows isso era perceptível aos olhos e ouvidos, mas reputo ser uma canção que tornar-se-ia um dos grande êxitos na carreira da banda, sem dúvida alguma. Falo mais sobre a demo, a seguir.

Sobre a gravação da Demo, foi feita sob um clima de muita tranquilidade e descontração. Primeiro, porque a ideia de ter tempo livre, era algo sensacional e inédito, pois os dois discos anteriores, e as três demos que fizemos (as de 1983 e 1984, absolutamente caseiras, portanto tinha tempo hábil, mas em condições precárias, sem estúdio), foram com os olhos pregados nos ponteiros do relógio, que insistiam em voar...
Segundo, porque estabelecemos uma amizade muito boa com o técnico contratado do Studio V, o Clovis Roberto da Silva, um rapaz muito gente boa, solícito, e que também afeiçoou-se à nossa banda e ao som. O terceiro ponto, foi que tratávamos esse trabalho com muitas esperanças, como se fosse realmente o nosso passaporte para dias melhores.

A metodologia de gravação foi diferente portanto. Com mais tempo para trabalhar, gravamos no método tradicional "um-por-um". 
Particularmente gosto mais dessa estratégia, pois evita climas psicológicos decorrentes da pressão de gravar-se mais de um instrumento ao mesmo tempo e portanto, uma possível irritabilidade ser gerada com os erros uns dos outros, postergando o trabalho e obrigando a banda a realizar muitos takes. Não há nada mais frustrante do que alguém errar e a sua performance que estava impecável, ter que ser regravada por conta do erro alheio, e vice-versa quando erramos e vemos companheiros desolados em ter que gravar de novo, quando suas performances foram inspiradíssimas. Sobre as escolhas, como disse no capítulo anterior, optamos por repetir quatro canções da demo de abril, porque acreditávamos no potencial pop de "Solange" e "Saudade". Sobre "O Que Será de Todas as Crianças ?" e "Sun City", já explanei no capítulo anterior. E acrescentamos duas novidades não gravadas na demo de abril : "Trago você em meu Coração", e "Desilusões".  
O corte de "O Cometa", que não figurou novamente na nova demo, foi por consideramos que uma opção mais pop, e com letra "romântica", seria mais adequada. Hoje, digo que se a intenção era boa enquanto estratégia de marketing, privilegiando o pop radiofônico, eu lamento, pois "O Cometa" era uma canção mais forte, em meu entender. Somente em relação à "Forças do Bem", cortada, eu concordei na época, e ainda sustento minha opinião, pois esse "praticamente Heavy-Metal" era um anticlímax para abordar-se uma gravadora major. Mesmo seguindo o padrão de arranjos muito próximos da demo anterior, as músicas repetidas sofreram modificações sutis, a meu ver para melhor. No caso de "Sun City", o corte no módulo do refrão, foi providencial. Das 8 vezes repetidas, causando um enjoo inadmissível ao ouvinte padrão, cortamos pela metade e com quatro, ficou muito melhor. Pequenas mudanças no solo e contrasolos do Rubens, são realmente sutis. Ele dava-se o direito do improviso, claro, mas a grosso modo, fazia tais arranjos pessoais há meses, ao vivo, portanto, estava tudo na sua cabeça, naturalmente. Ouça abaixo tal versão de "Sun City" :

Abaixo, link para ouvir "Sun City", nessa versão de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=8wAxNoyMEf8

Sobre "O Que Será de Todas as Crianças ?", o andamento foi executado um pouquinho mais para trás, mas ainda muito rápido no meu entendimento. Na época, achava-o empolgante, mas hoje eu penso que foi o fator que inviabilizou a canção, comercialmente falando. Mais lenta, ficaria sem o ranço Heavy-Metal do Riff inicial muito acelerado, e daria mais balanço nas partes A e B, e sobretudo no refrão, a dita parte C da canção. Confira abaixo a versão dessa canção, proveniente da Demo Tape de outubro de 1986 :

Abaixo, o link para ouvir "O Que Será de Todas as Crianças", nessa versão de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=STAy5CnJKqQ

Em "Saudade", o Rubens acrescentou um belo contrasolo inicial em dueto, enriquecendo muito a canção, sem dúvida, além dos backing vocals que acho que ficaram mais caprichados. Há um excesso de "flanger" geral na bateria, após o solo. Eu teria deixado nos pratos apenas, e em poucos trechos, não o tempo todo, pensando hoje em dia. Ouça abaixo a versão de "Saudade" da Demo Tape de outubro de 1986 :
Abaixo, o link de "Saudade", dessa versão de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=ahPbnBV4Tds

Sobre "Solange", o arranjo seguiu ipsis litteris a versão de abril. E mais uma vez, o solo foi feito pelo Beto, usando uma Gibson Les Paul. Acho que tem uma falha terrível no fade out do solo, caindo muito bruscamente e perdendo o último harmônico da nota executada.


Abaixo, o link para ouvir "Solange", nessa versão de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=41mO3Fo5DAQ


Caramba !! Os quatro componentes da banda, mais o técnico... milhares de audições em cada fase do processo, a mixagem inteirinha, e isso não foi notado ?? Inacreditável !!
No caso de "Desilusões", a aposta no pop, via Rádio Táxi, era visível. Mas mesmo assim, um maneirismo não detectado na época, causa-nos uma contradição. Se em "Saudade", simplificamos muito a cozinha, tocando de forma reta, nesta canção, há um excesso de quebradeiras, um resquício de nossas influências do Jazz Rock. 

Muito bacana se encaradas sem preocupações mercadológicas, pensando só na arte livre, mas se o objetivo era soar "pop" e impressionar marketeiros, foi obviamente um tiro no pé... ouça abaixo a versão de "Desilusões":

Abaixo, o link para "Desilusões"dessa demo tape de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=fbRr8Wey21Q

A canção, a despeito disso, tem uma melodia agradável e tinha tal potencial. Gosto de algumas passagens desdobradas onde há uma inserção psicodélica muito legal. Mas claro que foi apenas uma coincidência, pois a despeito de eu amar a psicodelia sessentista, nem eu cogitaria buscar esse caminho, ali nos anos oitenta, onde tal tipo de manifestação era passível de fogueira na inquisição niilista dos Post-Punkers...
Acima, o link para ouvir "Trago você em meu Coração, dessa demo tape de outubro de 1986
https://www.youtube.com/watch?v=Y1Ds3TxzvX4

Em "Trago Você no Meu Coração", enveredamos pelo Hard-Rock oitentista. Parecia bastante com o trabalho do "Whitesnake", quando também buscou tal caminho de modernização de seu som na mesma época, e era uma espécie de farol internacional a ser seguido, naturalmente, pois nossa similaridade com essa banda britânica residia no histórico, isto é, éramos também uma banda nascida sob padrões setentistas, mas procurando adequação ao mercado, tentávamos mudanças, como eles também passaram para sobreviver no mercado. Sobre o teor das letras, todas, com exceção de "Sun City" e "O Que será de Todas as Crianças ?" que usaram motivações sociopolíticas, as demais eram românticas e a aproximação com bandas como o Rádio Táxi que usava e abusava desse expediente muito perigoso, foi explícito.
Recentemente, lendo comentários de usuários do You Tube, na postagem da canção "Solange", um rapaz declarou que conhecera a banda há pouco tempo, estava gostando de conhecer nosso trabalho, mas achava as letras muito próximas do "sertanejo". De fato, foi bastante complacente, mas espelhou a verdade, e realmente, essas canções da "safra 86" de nossa produção, são exageradamente populares e melosas. Se ao menos tivéssemos alcançado o sucesso popular mainstream, justificar-se-iam, mas é engraçado ouvi-las nessa perspectiva de que a banda não aconteceu nesse parâmetro e de certa forma, maculam a obra pregressa. A respeito do áudio, acho que a condição melhor do estúdio mais novo (e equipamento), que o anterior, que usamos para gravar a demo de abril, não ajudou-nos decisivamente a ter um produto mais bem acabado em mãos.
Nem mesmo a atenção do técnico Clovis, sempre solícito para conosco, nem mesmo o tempo hábil mais elástico, e ainda por cima a possibilidade de caprichar mais, e evitar erros da anterior.
A grosso modo, a mixagem geral das quatro músicas ficou muito estridente, com excesso absurdo de agudos. Com voz e guitarras muito altas, perdeu a definição do baixo e consequentemente o apoio dos graves. Em alguns momentos, chega a irritar os solos altos em demasia, somados aos agudos estridentes e o mesmo em relação à voz. Faltou peso no bumbo e tons, portanto, o agudo estridente também prejudicou o som final da bateria, com pratos e chimbau prevalecendo. Também acho que a concepção das linhas melódicas (que eram boas, pois o Beto era bastante criativo para concebê-las), prejudicou-se com o registro muito alto para a sua voz. Começando a parte A, já bem alta, quando chegava ao ápice do refrão, subia ainda mais, e tirava muito do potencial que teriam se cantadas em um tom mais baixo. Outro erro, a meu ver, foi a pouca utilização de Backing Vocals. É bem verdade, que nesse quesito o Beto "pegava muito no nosso pé", para fazermos mais participações vocais e encorparmos a vocalização da banda. Ele tinha razão, certamente, pois teria ficado muito melhor se tivéssemos participado mais nesse arranjo.
De minha parte, minha relutância em cantar, era por dois motivos :
1) Achava que minha voz tinha timbre feio, e;
2) Não queria ficar preso num pedestal de microfone tendo que cantar durante o show inteiro, pois privilegiava a movimentação frenética no mise en scenè de palco.

Só a partir do projeto Sidharta, em 1997, forcei-me a cantar com regularidade, e depois da Patrulha do Espaço, de 1999 em diante, tomei o gosto de fazer Backing Vocals com regularidade e de fato, melhorei muito nesse sentido. Mas calma, leitor... estou falando de aspectos negativos para ser muito sincero e minha autobiografia ter senso crítico, portanto. Mas claro que também existem os aspectos positivos. Pequenos erros a parte, as canções tem seus méritos musicais, e no quesito letras, duas pelo menos, também são apresentáveis, embora questionáveis em alguns aspectos ("Sun City" "autocarimbou-se", datando-a, por exemplo). São melodias e riffs bacanas; solos sem concessões, deixando a marca Rocker num contraponto com o Pop. A cozinha bem tocada e mesmo nos momentos comedidos, saliente etc etc.
Lamento mesmo o excesso de agudo na mixagem final, e a voz exageradamente alta, que incomoda em alguns momentos. A ideia do Clovis, e nossa pelo objetivo que almejávamos com esse trabalho, era quase a de alcançar o clássico padrão da MPB, onde a voz é colocada absurdamente alta, privilegiando a cultura tupiniquim de valorizar melodia e interpretação de cantores. Tudo bem, como já disse, tal prerrogativa era uma tática para buscar-se uma vaga no mainstream, mas no caso da Demo, acho que exageramos na dose. Claro, minha análise 30 anos depois (2016), tem o peso da experiência adquirida; o distanciamento histórico etc.
Na hora em que ficou pronta, nada disso ocorreu-nos e achávamos que tínhamos um produto bom em mãos, e pronto portanto, para servir de cartão de visitas nos esforços do Studio V, para colocar-nos dentro do cast de uma gravadora major... e fim de conversa. E não diga, não !!

Eis abaixo o áudio e o link para ouvir a demo-tape de outubro de 1986, na íntegra :


https://www.youtube.com/watch?v=fMC3K4z9I-s&list=PLlP35Q9ZNAOOI1TetFwxtdZ__l7AWQN9F
 


Em mais um contato proveniente do "nosso" mundo Rocker underground, tínhamos um novo compromisso a cumprir. Desta feita, seria uma nova participação num festival, nos moldes mais  ou menos do que fizemos em agosto, por conta do "Baila Bala na Baleia". Esse, chamava-se "Outubro Music Festival" e tinha também a proposta de ser híbrido, misturando bandas da cena Pós-Punk, com bandas Hard-Rock.
Nesse contexto, tocaríamos com o Golpe de Estado, como banda mais pesada e ligada ao tradicionalismo pré-1977, e do lado dos Pós-Punkers, bandas como "Vultos"; Ghetto" e "Prysma".
É bem verdade, que muito da animosidade da estética Pós-Punk, estava arrefecendo-se no caminhar da segunda metade da década de oitenta. A agressividade arrogante das bandas que fizeram tal estética prevalecer nesse período, estava diluindo-se através de uma nova safra que ainda era oriunda dessa tendência, mas apresentava mais docilidade e preocupação em ater-se à parte musical com um pouco mais de afinco, deixando de lado a tosquice punk e ruindade musical que norteou seus "irmãos mais velhos", nos primeiros anos da década de oitenta. Bandas como as que tocariam nesse festival, e posso acrescentar nesse bojo, o "Muzak"; "Nau" e até o "Violeta de Outono" (que era psicodélica sessentista até a medula, mas nessa época camuflava-se de Pós-Punk "moderninha" para sobreviver nesse meio), são exemplos de como tal cena também estava em processo de mudança, mesmo que sutil.

Quanto ao festival em si, foi realizado num clube em Interlagos, no extremo da zona sul de São Paulo, às margens da represa de Guarapiranga, e chamava-se "Sete Praias".



Fazia um frio considerável, apesar de já estarmos na primavera, e embora não tenha tido a mesma organização e as atrações extra musicais do "Baila Bala na Baleia", atraiu um público razoável em suas dependências bucólicas, e geladas naquela noite.

Nossa performance foi excelente. Estávamos muito afiados, empolgados com as perspectivas etc etc.


 

Sonia e Toninho também estiveram presentes nessa noitada e mais uma vez impressionaram-se com nossa energia, e a reação do público que foi ótima, apesar de ser híbrido, como já observei, e muitos ali não serem normalmente simpáticos para com o som de bandas como a nossa, e o Golpe de Estado.



Não teríamos mais shows em outubro, e no mês de novembro também não faríamos mais nenhum, mas por outro lado, seria um mês muito agitado para a banda, com muitos acontecimentos e histórias geradas. Mas para fechar outubro, ainda tenho uma coisa para relatar.

Como última ocorrência a relatar sobre o mês do outubro de 1986, cito o lançamento de mais uma edição do fanzine do Fã Clube, desta vez o número 6. Nesta altura, já tínhamos a estrutura do Studio V, e nosso roadie, Eduardo Russomano trabalhando conosco, também nos afazeres do fã-clube. Portanto, ele colaborou bastante na elaboração deste número, mas a despeito disso, nada avançamos em relação ao lay-out do jornalzinho.

Esperávamos um avanço nesse sentido, com o Studio V auxiliando-nos a usarmos um serviço profissional de diagramação; copy-desk, e quiçá rodando-o em gráfica, com qualidade superior, mas Sonia alegou que não era o momento para dar esse salto, e que no futuro, certamente que fariam-no como uma necessidade aos planos da banda... claro, claro...
Portanto, o jornal saiu nos mesmos moldes simples com o qual estávamos acostumados.


Talvez a única novidade, tenha sido a inclusão do logotipo do Studio V, como uma marca de nossa ligação profissional com tal produtora, mas três décadas depois (2016), chega a ser irônico constatar que o escritório prometia-nos "mundos e fundos" e na prática, nós é que o promovíamos, com nossos parcos recursos...
Sobre o jornal em si, logo no primeiro box, anunciamos justamente a nossa união com tal produtora... 


1) Chave Empresário - Em tom solene, alardeávamos que trabalharíamos com empresários de "alto gabarito", citando-os nominalmente, inclusive um elemento que não era muito presente nesses primeiros meses em que ficamos associados ao escritório, mas que a partir de dezembro, ficaria mais próximo, o marqueteiro Arnaldo Trindade.
2) TV - Falamos sobre o comercial da Mesbla Alternativa, que Rubens; Beto e Zé Luiz haviam feito meses atrás, e a aparição num programa jornalístico da TV Pioneira (afiliada da TV Bandeirantes), em Teresina, Piauí.
3) Rádio - Comentamos sobre a 7ª vez que participamos do programa "Balancê", da Rádio Globo / Excelsior de São Paulo. E nessa altura, já não contava com a apresentação de Fausto Silva, mas de Oscar Ulysses, locutor esportivo que despontava na época - hoje é bem famoso em São Paulo-, e irmão do também famoso, Osmar Santos). Citamos o fato de que a música veiculada na entrevista fora "Saudade", demonstrando que as canções novas da Demo-tape norteavam nossos esforços de massificação naquele instante; No programa de Sonia Abrão, na Rádio Tupi, tocamos "Sun City"; No Riff Raff, programa pesado da 97 FM, demo-nos ao luxo de executar três músicas extraídas de uma fita K7 de um show ao vivo : "Pesadelos"; "Ufos", e "Que Falta me faz baby", denotando uma intenção de soar mais pesado aos ouvintes mais fechados num nicho específico. E a entrevista na emissora Poty FM de Teresina, dando ênfase à nossa primeira visita ao Nordeste.

4) Revista - Comentários sobre as últimas publicações que haviam saído falando de nós, e comentários sobre publicações que estávamos esperando e nesse quesito, invariavelmente frustrávamos nossos leitores e à nós mesmos, pois muitas não vingavam, caso da "Bizz Heavy", cuja história já relatei anteriormente.
5) Repertório - Falávamos sobre o fechamento de novas músicas, destacando "Pesadelos", uma música pesada que não constou da nova demo e não figurou muito do set list dos shows ao vivo, posteriormente; além de "Desilusões", que fez parte da nova demo e a considerávamos "com balanço", e "Lírio de um Pantanal", que acabou se tornando uma das mais queridas do público, e justificou-se tal sucesso quando foi incluída no LP "The Key", que gravaríamos no ano de 1987;
6) Fofoca - Mais demonstrações de bravatas ao estilo "Zeca Jagger", enfocando os componentes da banda em situações extra-musicais, principalmente : Beto andara de limusine quando de sua viagem à Nova York no primeiro semestre; Rubens estava para anunciar a aquisição de mais uma guitarra; e eu, Luiz, frequentava shows de Rock de outras bandas; Zé Luiz, bem mais modesto nesta sessão glamorosa, arrebentava em sua nova atividade paralela como professor de bateria, e os quatro, juntos, foram juntos à exposição de Salvador Dali, no MAM (Museu de Arte Moderna de São Paulo). Era tudo verdade, ainda que eu glamorizasse, aumentando certas coisas...

7) Shows que rolaram - Uma geral sobre os shows que fizéramos de julho até ali, e já relatados aqui.
8) Fãs - Mais fãs que enviavam-nos solicitações de amizade com outros fãs, e seus respectivos endereços residenciais para receberem correspondência.


9) Perfil de Chave - A sessão criada para trazer mais particularidades de cada membro, trouxe desta vez, o Beto Cruz como enfocado. Falamos sobre sua viagem à Nova York e os shows que lá assistiu ao lado dos músicos da banda brasileira, "Cérbero", que lá estavam tentando a sorte, bravamente no mercado musical americano. Sobre os shows, Beto de fato foi acompanhado desses rapazes do "Cérbero" aos shows de bandas pesadas americanas, como "Raven" e "Anvil". Falamos também sobre equipamentos que ele trouxe da América.
10) Fã-Clubes - Tradicional seção onde destacávamos a colaboração de alguns fã-clubes e fanzines que apoiavam-nos, e ao divulgarmos seus endereços postais, retribuíamos a gentileza. Predominavam fã-clubes de Heavy-Metal, como a "Associação Demolition", que com esse nome poderia ser confundida com uma empresa de demolições prediais...

E assim ficou o conteúdo desse fanzine nº 6, lançado em outubro de 1986, ainda modesto no seu lay-out, mas escrito e produzido sob intensa euforia, de nossa parte.
Eu escrevi todo o texto, e Zé Luiz mais uma vez cuidou do lay-out geral, mas com Eduardo Russomano, nosso funcionário, ajudando bastante. Um toque subliminar salta aos olhos e explicaria fatos desagradáveis que ocorreriam muitos meses depois, na metade de 1987 : o fato do Zé Luiz, mesmo empolgadíssimo como todos nós, ter anunciado aulas particulares, demonstrava que havia uma pressão familiar que pesava-lhe nos ombros. A necessidade de ganhar dinheiro, mais rapidamente do que parecíamos que iríamos ganhar com um "quase certo" estouro na carreira, obrigou-lhe a tomar tal providência.
Não havia nada de errado nisso, a priori, mas parecia um prenúncio de que nossa euforia quebraria na praia, a seguir...


Quando novembro chegou, a nossa primavera não poderia estar mais florida. Com a nova demo finalizada, assim como o material gráfico e fotográfico, agora estava nas mãos do Miguel tomar as providências cabíveis para que nós mudássemos de vida, ou melhor dizendo, começássemos a mudar. Ele certamente tomou suas providências, e assim, os tais telefonemas estratégicos que havia arrolado em sua agenda, foram efetuados.

A primeira investida dele foi com Rita Lee. Mas não foi de primeira que conseguiu êxito, levando uma boa canseira da "Rainha do Rock". Foram diversos telefonemas realizados e sempre esbarrando no filtro de uma assessora / produtora, e nunca falando diretamente com a ruivinha. Até que enfim, conseguiu que Rita retornasse-lhe em pessoa, mas a resposta que ela deu frustrou-o, e logicamente a todos nós. Alegando estar num momento difícil, com a recente perda de sua mãe, dizia estar sem cabeça para fazer nada, e sua carreira estava no "stand by", até segunda ordem, por motivo de luto. Bem, tal justificativa para não auxiliar-nos naquele momento, era justíssima, e não cabia nenhuma contestação de nossa parte. Só lamentamos, naturalmente, pois se Rita havia perdido o bonde da história, artisticamente falando, desde o final da década anterior, naquele instante dos anos oitenta, tinha ao contrário, um prestígio midiático e popular enorme. Portanto, sua intervenção, como boa vendedora de discos que era naquele ponto, teria sido um reforço e tanto para as nossas pretensões.

       O grande Erasmo Carlos, um Rocker que muito admiro
 
Sem Rita como madrinha, partiríamos para o "plano B", de pronto, mas Miguel mudou sua estratégia, e decidiu abordar André Midani diretamente, temendo que pudéssemos perder ainda mais tempo se Erasmo Carlos também demorasse a pronunciar-se, aceitando ou não, apadrinhar-nos. Então, ligando para o mandatário máximo da Warner, agendou encontro da banda com ele, quando o material seria analisado, então. Empolgadíssimos ficamos, é claro...

André Midani, o mandatário máximo na gravadora Warner Brothers

Após diversas tentativas que fizéramos, desde 1984, e errando sempre na abordagem, é bem verdade, finalmente chegaríamos com um material em condições, e agora, com uma mão pesada a introduzir-nos, na figura de um empresário com entrada nos bastidores da mídia e indústria fonográfica. Mais que isso, Miguel era amigo de Midani e certamente que tal fator seria um agente facilitador nesse processo de nossa admissão enfim, numa gravadora multinacional de grande porte. Estaríamos com um pé dentro de uma gravadora major, enfim ? Era o que nós dimensionávamos, logicamente...e tal perspectiva contaminou-nos de uma forma contundente, eu diria. Como não acreditar que nossa hora chegara, diante de tantas evidências alvissareiras ?
Então, Miguel deu ordens para Sonia e Toninho prepararem toda a logística de nossa ida ao Rio de Janeiro. A ideia seria Sonia e Toninho acompanharem-nos nessa missão, e dessa forma, a viagem foi planejada.

A viagem ocorreu logo após o feriado de finados, e nessa comitiva, além dos componentes da banda, seguiram junto, Sonia e Toninho.
O fato de nós irmos juntos de nossos representantes, decorria da possibilidade da primeira abordagem gerar uma "queima de etapas", dada a amizade entre Miguel e André, portanto, era muito possível que convocassem-nos para uma abordagem direta, e nós estaríamos a postos, in loco, no Rio de Janeiro. Seguimos em dois carros (o do Rubens, e o do Beto), divididos em dois trios. O casal de produtores seguiu com o Rubens, e no carro do Beto, seguimos juntos, eu e Zé Luiz.

Nosso primeiro erro nessa comitiva, foi de ordem de imprudência. De forma infantil, não consideramos que poderíamos perder-nos um do outro carro. Um reles pedaço de papel teria evitado um imbróglio, mas ninguém pensou nessa medida de segurança, e o pior aconteceu... bem, quando saímos em comboio do escritório do Studio V, somente a Sonia possuía o endereço e telefone do apart hotel onde hospedar-nos-íamos. Na ingênua ilusão de que um carro não perderia o outro de vista durante o percurso São Paulo / Rio, ninguém teve a ideia prudente de copiar num papel de rascunho, tais dados, numa medida básica de segurança, que qualquer criança que participa de uma excursão escolar, adota. Em 1986, claro que ninguém sonhava com telefones celulares, portanto...
Em algum ponto da estrada, o Gol GT de Rubens, sumiu de nossas vistas, que estávamos a bordo do Opala azul do Beto...
Parar em algum posto de gasolina e ligar para o escritório em São Paulo, parecia ser a única providência cabível naquele momento. A esperança seria que alguém lá informasse-nos o endereço da nossa hospedagem, ou mesmo que Sonia tivesse ligado para fornecer-lhes, ao perceber que perdera-nos de vista. Ocorreu que de fato tentamos tal medida, mas o horário avançado, não deu-nos esperanças, pois já aproximava-se a madrugada e obviamente não havia ninguém para atender-nos no Studio V. Saíramos após o horário do Rush, e quando perdemos o carro do Rubens de vista, já era um horário bem avançado. Nossa última esperança seria a de que eles talvez estivessem parados num posto rodoviário, por motivo de segurança, e ali aguardassem nossa passagem. Continuamos rodando em direção ao Rio, com essa esperança ínfima, e nosso único apoio concreto, era uma pálida lembrança de que Sonia dissera-nos que ficaríamos num "apart hotel na avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca".

Vista da Avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca, zona sul do Rio de Janeiro. Seria procurar uma agulha no palheiro, sem o número correto... 

Com essa pálida pista, seguimos para o Rio...
Claro, mesmo naquela época, já existiam muitos estabelecimentos dessa ordem em tal avenida beira-mar daquele bairro carioca da zona sul. Seria uma loucura procurar um por um, na alta madrugada, e diante desse cansaço iminente, rendemo-nos às evidências e resolvemos dormir, com a determinação de que na manhã seguinte, teríamos a informação do paradeiro dos demais membros de nossa comitiva. Sabíamos de antemão que a reunião com Midani na Warner, estava marcada para o período da tarde, às 14:00 h. Portanto, certamente que encontrar-nos-íamos com eles, muito antes.

E assim foi, quando finalmente ligando para São Paulo, soubemos que Sonia ligara e demonstrando grande preocupação, deixara a incumbência para Maria Amélia, a secretária do Studio V, passar-nos coordenadas, e ser avisada imediatamente de nosso paradeiro. Susto dizimado da parte de todos, porque claro que também cogitamos acidentes; violência urbana, ou problemas mecânicos do auto para eles, também, finalmente soubemos que os três esperavam-nos num restaurante do bairro do Leblon, o La Mole. Fácil de achar, fomos para lá e finalmente todos os temores e aborrecimentos dessa confusão encerraram-se, com direito a muitas piadas sobre o ocorrido, além de acusações contra o Rubens, que gostava de pressionar o seu pé contra o acelerador, e daí ter causado o imbróglio todo...
Mas não era verdade totalmente, pois a falta de um mísero papel de anotação com o endereço do apart hotel, teria poupado-nos disso. Angústias e brincadeiras a parte, estávamos muito contentes com a perspectiva da reunião marcada para as 14:00 h. e quando reunimo-nos com Rubens e nossos representantes pelo Studio V, essa era a tônica entre todos, durante o almoço. Dali seguimos para a sede da Warner, no Jardim Botânico, bairro próximo.

Chegando a rua onde ficava a sede da Warner, ficamos num bar próximo, aguardando a volta de Sonia e Toninho, que foram encontrar-se com Midani. Fugindo de nossas mais otimistas expectativas, a reunião foi longa, em se considerando o padrão desse tipo de abordagem entre produtores de bandas emergentes e mandatários de gravadoras majors.

Geralmente alegando tempo escasso, o normal é uma conversa muito superficial sobre os atributos do artista oferecido em questão, e a entrega do material para ser analisado a posteriori. O fato disso ser feito numa reunião agendada, é considerado um grande avanço nesse meio, pois o grosso dos artistas aspirantes, nem chega nesse passo, e ao deixarem seus materiais na portaria de tais instituições, depositam nessa incerta tacada, todos os seus sonhos, e nesse caso, a realidade é de que a chance de tal material chegar à mesa de um avaliador, é tão ou mais difícil que a análise combinatória de um jogo de loteria.

Portanto, essa era de longe, a mais concreta chance que tínhamos, em se comparando com as vãs tentativas que efetuáramos anteriormente. Quando Sonia e Toninho deixaram a sede da gravadora, e encontraram-nos na rua, chegaram sorrindo e demonstrando grande entusiasmo em contar-nos como fora a conversa com Midani. Bem, segundo Sonia, o Midani fora muito receptivo, e além de ouvir atentamente a argumentação dela e Toninho, perdeu um bom tempo olhando o portfólio e o álbum de fotos da banda.

O som da demo tape ecoou na sala, mas com volume baixo, sem que ele prestasse a atenção devida. Aliás, nem era sua atribuição, nesse caso. O normal seria um diretor de repertório fazer tal análise, e nesse caso, provavelmente seria o Liminha. Sua atenção, portanto estava mais centrada em nós em termos de fotogenia e dado pessoais, pois muitas perguntas foram feitas sobre nós, por ele.
Por exemplo,quis saber de nossa condição sociofinanceira pessoal; se tínhamos instrumentos e equipamentos de qualidade; quis saber sobre o nosso figurino de shows e guarda-roupa do cotidiano etc etc.

E sobre a aparência, destacou que éramos "bem apessoados", mas que o Rubens chamava a atenção como mais bonito e com "pinta de galã". Com essas informações, ficamos com a certeza de que Midani mais preocupava-se com o gerenciamento geral, sem ater-se à parte musical, que certamente era cuidada pelo Liminha. Por suas colocações, parecia que havia aprovado-nos, e mais que isso, não demonstrava ter nenhum rabo preso com a estética do Pós-Punk, e sendo até bem otimista, eu diria que isso não importava-lhe de forma alguma. Nossas longas cabeleiras setentistas, e nosso visual mais próximo dessa mesma prerrogativa do que com a em voga, pareceu não incomodá-lo em nenhum aspecto.

Sua primeira preocupação demonstrada pela conversa e sobretudo pelas perguntas, foi de outra ordem. Seu interesse era saber se tínhamos uma "aparência boa", como raciocinam executivos de TV, quando pensam em contratar atores, e notadamente atrizes. E numa segunda instância, se reuníamos condições técnicas boas para enfrentar uma série de shows, decorrentes de um eventual impulso que a gravadora poderia proporcionar. De nada adiantava sermos bons, se na hora de apresentarmo-nos ao vivo, não reuníssemos condições mínimas de trabalho, causando vexames inadmissíveis em se comparando com a fama mainstream adquirida.

Bem, não nadávamos em dinheiro, tampouco tínhamos um arsenal de instrumentos e um "backline" (equipamento de palco), digno de uma banda internacional. Mas não havia nenhuma dúvida entre nós quatro, que tirante situações prementes de cada um, individualmente, claro que ao entrarmos numa situação mais avantajada de agenda decorrente da exposição massiva, correríamos para uma boa loja de equipamentos e reforçaríamos nosso arsenal. No cômputo geral, Sonia e Toninho estavam muito otimistas, dizendo-nos que Midani gostara da banda. E nós, também ficamos muito certos de que tínhamos uma chance, apesar de todas as adversidades estéticas que tanto anunciei, e expliquei longamente ao longo de vários capítulos anteriores. A resposta no entanto, demoraria alguns dias a ser dada oficialmente, pois a decisão final não cabia a ele, Midani, tão somente. Ficaríamos mais um dia no Rio, pois a Sonia agendara uma visita à redação do Jornal do Brasil, onde tinha contatos. E também uma reunião informal com uma amiga pessoal dela, que dizia ser uma colaboradora de longa data e "formadora de opinião". Então, no período da noite, fomos à residência dessa senhora, onde seríamos recebidos com um cocktail de queijo & vinho. No meu caso, claro que eu iria de Coca-Cola...


O pontinho vermelho representa o bairro de Lins de Vasconcelos, no mapa da cidade do Rio de Janeiro 

Nessa reunião com a amiga da Sonia e seu marido, fomos muito bem recebidos, não posso negar, e a noitada foi agradabilíssima, pois o casal anfitrião era Rocker da "velha guarda", e o som de qualidade permeou tal visita, com clássicos das décadas de sessenta e setenta ecoando no apartamento em Lins de Vasconcelos, zona norte do Rio. Vários tipos de queijos; pão italiano; muitos antepastos; e bom vinho importado (no meu caso, interessou-me mais a Coca-Cola...), garantiram o bem estar geral.

Mas cabe uma análise crítica, a despeito da excelente hospitalidade desse casal : a Sonia vendeu-nos a ideia de que tal recepção era uma missão a mais em nossa estadia carioca, com sua amiga sendo uma importante "colaboradora e formadora de opinião". Até podia ser que sim, mas ficou claro que na verdade, era uma armação dela para visitar uma velha amiga, usufruindo da chance de estar no Rio com despesas pagas pelo escritório.

Se dissesse-nos isso abertamente, não ficaríamos bravos, e de fato foi uma noite ótima, com boa comida & bebida; ótima trilha sonora, e a conversa agradável. Mas definitivamente, aquela noite não era um compromisso formal da banda, mas algo meramente sócio recreativo. No dia seguinte, aí sim, teríamos um compromisso oficial bacana, e graças aos contatos dela.

Visitamos a redação do Jornal do Brasil, localizado na zona portuária do Rio, próximo à Praça Mauá. Quando chegamos na enorme instalação, tivemos um contratempo, pois na informalidade que norteia os costumes cariocas e ainda mais justificado pela presença da alta temperatura costumeira, não poderíamos supor que cobrassem-nos formalidade no vestuário...
Não era o caso de nós três (eu, Rubens e Beto), mas o Zé Luiz foi trajado de forma mais despojada, ao usar uma camiseta regata, e foi barrado na recepção, sob a alegação de que tal traje não era permitido nas dependências daquela instituição. Tentou alegar que fazia calor e no Rio, a informalidade era histórica como cultura local, mas a recepcionista contra argumentou que não haveria nenhuma possibilidade dele entrar trajado dessa forma, e que na semana anterior, um outro artista também fora barrado nas mesmas circunstâncias, ou seja, um rapaz mineiro chamado, Milton Nascimento... 

A solução foi improvisar um arranjo de última hora, usando uma peça de roupa por cima, emprestada de um de nós, e que por acaso estava no carro. Não lembro-me ao certo de quem era, e nem o que era, mas arrisco dizer que tratava-se de um colete, que abotoado, disfarçou a ausência de ombros da camiseta regata. Uma vez lá dentro, Sonia apresentou-nos ao seu contato, o jornalista Luiz Carlos Mansur  



                        O crítico musical, Luiz Carlos Mansur

Na conversa, falamos que abordáramos a Warner, e ele já sentou-se a máquina de escrever para preparar uma nota, quando explicamos-lhe que era ainda um contato preliminar, portanto não havia nada além de uma abordagem inicial. Claro, demos-lhe uma cópia da demo tape para a sua avaliação, e na minha lembrança, foi um contato muito prazeroso, com o jornalista em questão, tratando-nos muito bem. Não havia mais nada para fazermos no Rio, pois a resposta da Warner demoraria dias para sair, e a Sonia não havia agendado mais nada importante em termos de mídia.
Almoçamos num restaurante de Copacabana, cujo dono era amigo dela, e tratava-se de um rapaz muito hospitaleiro que serviu-nos um excelente almoço, apesar de insistir em contar-nos piadas sem graça ("a política em São Paulo vai mal de norte a sul, leste a "Orestes", referindo-se ao então candidato a governador, Orestes Quércia")... bem, não dá para ser perfeito o tempo todo...
Voltamos para São Paulo, então, muito mais esperançosos do que havíamos chegado ao nosso objetivo, pois o contato com a Warner, via André Midani, pareceu-nos auspicioso. Encerrando, não posso deixar de registrar que o bem estar decorrente dessa sensação foi marcante por ocasião de nossa estadia no apart hotel da Barra da Tijuca. Inebriados por essa atmosfera de sucesso que nossa empreitada carioca parecia estar acontecendo, causou-nos uma ótima sensação de euforia, e não refiro-me à minha única percepção, mas certamente entre os quatro componentes da banda.

Ali, tudo misturou-se... tal sensação subliminar, associada a mordomia de um bonito hotel, com paisagens inacreditáveis e paradisíacas, proporcionou-nos a gostosa, porém imprudente sensação de vitória antecipada. Ouso dizer, que a despeito de outras coisas boas que ainda aconteceriam nos próximos meses, esse pequeno momento de uma quase epifania, ali na sacada do hotel, com um visual cinematográfico da praia a nossa vista, foi a última percepção de sucesso a vista para a nossa banda. Digo isso, deixando muito claro, que hoje em dia encaro a carreira da banda como amplamente vitoriosa artisticamente, e até em termos de projeção, embora circunscrita ao métier do Rock underground.

Todavia, a não chegada ao mainstream passa por essa noite olhando para o mar, num andar alto de um prédio de luxo da Barra da Tijuca, sem dúvida, na medida em que ali foi a nossa última sensação real de estarmos quase "acontecendo"...
É triste falar isso, pelo lado da análise fria, mas também é poético, eu diria. Tal momento chegou a ser mágico de tão bonito que foi, mas não passou disso, isto é, um insight, uma epifania... para nós naquele instante, e para a maioria dos pleiteantes...


De volta a São Paulo, Miguel informou-nos que mesmo antes de ter a resposta da Warner, voltaria numa estratégia paralela, em relação à busca de um padrinho famoso pra nós. Uma coisa não desabonaria a outra, e independente de entrarmos ou não, e ele dava como certo o nosso contrato com aquela companhia "major", e era importante para nós, termos um padrinho famoso, para todo tipo de situação e não só para ajudar a ingressar numa gravadora de porte. Tudo bem, aprovamos certamente tal determinação da parte dele, e daí, telefonemas foram disparados para o Rio de Janeiro, buscando contato com Erasmo Carlos.

Mais uma cartada de esperança para nós : Midani e Erasmo eram amigos, e ambos, amigos do Miguel...

Gostávamos dele, sem dúvida e eu, em particular, gosto muito de sua obra e dele como artista e mesmo não o conhecendo pessoalmente, tenho ótimas referências dele como pessoa, passadas por amigos meus que conhecem-no, e atestam ser de fato, um tremendo sujeito legal, sem afetações, estrelismos e afins. Estava portanto, aprovadíssima tal escolha e seria um prazer ter o Erasmo  dando-nos suas bênçãos artísticas. Indo além na minha análise pessoal, apesar dele ter seu ganha pão na seara do pop romântico, através de suas parcerias com Roberto Carlos, sua carreira solo é sensacional a meu ver, e seu lado Rocker, muito legal. Para a minha percepção, em meio a muitos artistas muito duvidosos que faziam parte da cena da Jovem Guarda, Erasmo era um dos poucos, senão o único Rocker, ali inserido (com menções honrosas para Eduardo Araújo & Silvinha, Os Incríveis; Leno e Ronnie Von). Todavia, demos azar também com o tremendão...
Após muitas tentativas de estabelecer um contato telefônico, finalmente o Erasmo falou com Miguel e declinou do convite, alegando estar passando por uma fase difícil, com problemas particulares. Bem, artista também é gente, e passa por intempéries na vida, como todo mundo. Uma investida num eventual terceiro nome da lista, não foi cogitada logo a seguir. Talvez Miguel tenha esperado sair o resultado da gravadora, se aceitavam-nos ou não, e adiou essa busca paralela, momentaneamente. Contudo, isso nunca mais ocorreu de fato, e tal conversa sobre "apadrinhamentos" não foi mais mencionada no casarão.

Entrevista que concedemos ao jornalista Tony Monteiro para a Revista "Roll", já nas dependências do casarão do Studio V, e publicada em setembro de 1986

Enquanto esperávamos a resposta da Warner, claro que estávamos ansiosos e foi um raro momento naqueles meses de euforia total, que pensamentos nem tão positivos acometeram-nos. Por alguns dias, sem perspectivas de shows em vista, e sem a resposta da gravadora, relaxamos um pouco na nossa rotina de ensaios. Com a demo gravada, e sem shows marcados num curto prazo, nossa ansiedade contaminou-nos um pouco, tirando-nos um pouco da nossa clássica obstinação em ensaiar. Outro ponto, é que o repertório estava gigantesco. Dessa forma, chegamos a conclusão que deveríamos estabelecer um verdadeiro "controle de natalidade", pois já tínhamos material suficiente para um álbum triplo, caso fôssemos contratados para gravar um disco oficial. Não havia portanto, a necessidade de fazer mais músicas naquele instante.

Não obstante tal constatação, o Beto ainda sinalizava estar em grande fase criativa e continuava a dizer-nos que tinha na manga, mais riffs, ideias de melodias e letras para apresentar-nos...
Ainda em novembro, e antes da Warner manifestar-se, a Sonia armou duas entrevistas. Eu diria que toda oportunidade de aparecer na mídia é importante para qualquer artista, independente de ser um órgão de imprensa grande ou pequeno. E muitas vezes, independente de seu tamanho, é preciso considerar se ele é adequado ao tipo de exposição que o artista necessita para expandir-se. Por exemplo : eu nunca recusei solicitação de entrevista para ninguém, mas questionaria, internamente falando, a eficácia de aparecer numa publicação com pouca ou nenhuma identificação cultural, mínima que seja. Feitas tais considerações, agora fica mais fácil para o leitor entender aonde eu quero chegar.

Ocorreu que a Sonia agendou-nos uma entrevista num jornal esportivo, chamado "A Gazeta Esportiva". Não era um órgão pequeno, pelo contrário, tratava-se de um dos maiores jornais esportivos do país, e com larga tradição no mercado editorial brasileiro. Não era, no entanto, um total disparate ser entrevistado ali, pois a despeito de ser uma publicação dedicada ao esporte em geral, e com ênfase quase total ao futebol, havia uma pequena seção cultural, onde artes; espetáculos, e cultura em geral, eram tratados. Fomos à redação da Gazeta Esportiva, que ao contrário do que poder-se-ia imaginar, não ficava no histórico prédio da Fundação Cásper Líbero, na avenida Paulista, mas usava uma ala da redação da Folha de São Paulo, em Campos Elísios, bairro central de São Paulo. 

E por estar instalado ali, gerou uma fantástica história, que tenho o orgulho de contar. Naquela época, a Folha de São Paulo tinha sua gráfica instalada no mesmo espaço, na Alameda Barão de Limeira. Só anos mais tarde, nos anos noventa, inauguraria um parque gráfico gigantesco e moderno, num bairro afastado da periferia da cidade. Portanto, a Gazeta Esportiva também era produzida ali na gráfica da Folha. Chegamos à redação um pouco adiantados em relação ao horário marcado para encontrar o jornalista que entrevistar-nos-ia. Enquanto esperávamos para sermos introduzidos à sala de entrevista, um funcionário da gráfica, chamou-me.

Com seu uniforme inteiramente sujo de graxa, pois estava trabalhando a todo vapor, perguntou-me se eu e meus colegas aceitaríamos conhecer seu ambiente de trabalho.
Era um rapaz simples, mas sua educação e simpatia cativou-nos, e liberados pela Sonia, que sabia que ainda teríamos alguns minutos livres, fomos com ele ao andar da gráfica. Chegando lá, fomos surpreendidos, pois o rapaz apresentou-nos aos seus colegas dizendo : -" amigos, estes rapazes são componentes da melhor banda de Rock do Brasil... A Chave do Sol" !!
Pois o rapaz era um fã da nossa banda, e não havia acreditado que estávamos circulando pelos corredores das instalações da Folha de São Paulo.

Foi surpreendente e comoveu-nos muito, não só pela iniciativa que ele teve em fazer tal festa para nós, mas também pelo fato de que nossos esforços ao longo de quatro anos de trabalho, haviam levado-nos na verdade, a patamares que não supúnhamos.Tínhamos fãs espalhados em muitos lugares e aquele rapaz fez-nos entender isso, orgulhando-nos de todo o esforço feito até então. E ele também estava de parabéns porque teve uma bela atitude, presenteando-nos daquela forma, com uma carga de emoção, humildade, e humanidade, muito tocantes.  Despedimo-nos dele e seus colegas e voltamos à sala de entrevistas para conversar com o repórter. Essa foi, que eu lembro-me, a única entrevista que concedemos levando em consideração aquela determinação ridícula e imposta pela Sonia, em "mentir" nossas respectivas idades cronológicas...

Não tivemos escapatória nesse caso, pois a Sonia acompanhou a entrevista de perto, sentada numa poltrona próxima de nós, e o repórter, setorista de cultura do jornal, já vinha com esse cacoete editorial, provavelmente instruído por seu editor, e certamente amparado pelo fato de ser um setorista acostumado a entrevistar atores e atrizes de TV, onde tal dado, é considerado importante.
Absolutamente ridículo... na época eu tinha 26 anos completos, e disse ao repórter ter 24...
Senti-me realmente constrangido em mentir, e pior, para sustentar uma bobagem sem tamanho, pois que diferença faria ao leitor que eu tivesse dois anos a menos que a realidade cronológica ?
Que diferença faz para a imagem de uma artista de 26 anos, fazer com que o público acredite que tem 24 ? Bem, claro que nenhuma, e ainda bem, paramos de obedecer a Sonia nesse quesito, libertando-nos desse paradigma idiota. Fora essa bobagem, a entrevista foi bem trivial, como era de esperar-se num órgão não especializado em música. Nasci em 1960 (pode fazer as contas a vontade, amigo leitor), portanto não tenho e jamais terei nenhum problema em absorver a idéia de que o tempo passa e envelheço... 
E minha idade mental é 15, ha ha ha...

Eu, Luiz Domingues, aos 15 anos de idade, em 1975, época em que enlouquecia ouvindo o programa radiofônico "Kaleidoscópio", e igualmente "pirava" com a leitura da revista "Rock, a História e a Glória"... e que de certa forma, mesmo tendo 56, em 2016, permaneço o mesmo sujeito...

A resposta da Warner ainda não havia saído, quando a Sonia veio contar-nos eufórica, que reencontrara um velho amigo seu, ator e comediante famoso, que estava desligando-se da Rede Globo, após anos de contrato naquela emissora, e sem agente no momento, acertara sua ligação com o Studio V. Antes que pronunciássemo-nos, já foi advertindo-nos que não deveríamos nutrir ciúmes, pois a entrada dele no cast, não tiraria seus esforços para promover-nos, e que pelo contrário, com um artista famoso na mesma produtora, mais portas abrir-se-iam e nós seríamos beneficiados, também. Não estávamos preocupados com isso, e de fato, ao contrário do obscuro cantor português que realmente não acrescentava nada e talvez subtraísse, por conta de sua ruindade artística e arrogância diametralmente oposta, talvez ela tivesse razão de certa forma e tal comediante pudesse de fato agregar algo ao Studio V, e isso acabar beneficiando-nos, mesmo que em pequena escala.

Tratava-se de Agildo Ribeiro, realmente um comediante e ator que tinha gabarito, e um curriculum bacana. E assim que tal artista agregou-se ao nosso mesmo escritório, Sonia, na contramão do que  exortava-nos a não nutrir ciúmes, deu-nos margem para tal, pois dali em diante, passou a assessorar o comediante, 24 h por dia, e foi deixando-nos de lado...
Cabe no entanto, uma reflexão mais apurada, agora, com a distância histórica aliada à experiência adquirida.

Como o leitor mais atencioso já deve ter concluído, nesses meses em que associamo-nos ao escritório, nosso embalo próprio, construído pelos nossos esforços de quatro anos de trabalho, resultavam numa avalanche de oportunidades, portanto, antes mesmo deles esboçarem mexer um dedo para fazer algo a nosso favor, uma série de oportunidades já estavam acontecendo, sem a sua interferência. O pouco que fizeram em nosso favor, era insignificante em termos de mídia. O melhor que proporcionaram-nos, havia sido o uso do estúdio para produzir uma nova demo tape. Não vou relativizar isso, pois era uma ajuda e tanto, reconheço, é claro. Todavia, Sonia e Toninho não tinham nada a ver com esse fato, diretamente. O estúdio e toda a sua estrutura, incluso o salário do técnico Clovis; contas da eletricidade; gás; água; IPTU do imóvel, e demais despesas da sua manutenção, incluso outros funcionários, como a secretária Maria Amélia, a faxineira e o rapaz da segurança, tudo era bancado pelo Miguel.

No que tangia aos esforços da dupla Sonia e Toninho, salvo pequenas entrevistas agendadas em órgãos menores, e nossa inserção no constrangedor cocktail do cantor lusitano, nada de significativo havia sido efeito. Talvez o contato com Midani no Rio (mas aí fica a ressalva que tudo foi armado e bancado pelo Miguel, e eles só agiram como funcionários com missões a cumprir), e o contato com Luiz Carlos Mansur na redação do Jornal do Brasil, tenham sido suas melhores ações em nosso favor. Sendo assim, o fato de que esfriariam seus esforços em nosso benefício, privilegiando os interesses de Agildo, não mudaria muito a nossa vida, pensando nesses termos.

Por outro lado, todas as conversas preliminares, dando conta de que tinham muitos contatos na mídia, e que "estourariam-nos" sem fazer muito esforço, denotava nesse instante, uma bravata, somente.
Reforçando tal pensamento, as inúmeras entrevistas; oportunidades no rádio e TV; shows com público recorde em teatros pela cidade; além de festivais, incluso fora do estado, eram nossos frutos que colocávamos gratuitamente sob seus colos. Para piorar, a taxa absurda que ganhavam nesse contrato, não justificava tão poucas oportunidades oferecidas, e pelo contrário, moralmente estavam em débito, pois com esse montante que significava o dobro da praxe de mercado, tinham mais é que trazer-nos o dobro do que nós tínhamos por conta própria, e com muito maior repercussão midiática. Mas na prática, estávamos em novembro, e nenhum show sequer havia sido vendido por eles, tampouco produzido...
Portanto, não era ciúmes do comediante contratado, mas começamos a aborrecer-nos com as bravatas, o "blá-bla-bla" que contrastava com a inércia do casal, principalmente, embora na prática, o empresário que fecharia shows, seria o Miguel nessa equação. Começamos a cobrar-lhes portanto, nesse sentido e aí, desculpas clássicas começaram a aparecer como : -"melhor esperarmos a definição em relação à gravadora", ou -"o final do ano aproxima-se, e agora é um período péssimo para vender shows"...
Independente dessas desculpas, começamos a pressioná-los para mostrar mais serviço e fruto dessa pressão, uma sinalização apareceu para o fim de dezembro. Antes disso, porém, mais uma entrevista para jornal, surgiu, e mais uma vez por um contato nosso e não deles...

A nova solicitação de entrevista que recebemos, não era de órgão de grande porte, mas pelo contrário, um jornal de bairro. Claro que a aceitamos de bom grado, e assim, concedemos entrevista à "Gazeta de Moema", simpático jornal desse bairro da zona sul de São Paulo, pelo qual eu mesmo tinha carinho, pois morei ali entre 1973 e 1975, e frequentava-o regularmente desde 1963, por conta de ali morarem meus padrinhos / tios. Isso sem contar que também morei na Vila Olímpia, bairro vizinho, e ambos são separados apenas por uma avenida, na mesma altura, a Avenida Santo Amaro.
Ali, na Vila Olímpia, vivi entre 1967 e 1971, portanto, nessa somatória, conhecia aqueles quarteirões com desenvoltura; estudei no mesmo colégio nas duas passagens que tive entre os dois bairros; e muito da minha formação musical e identidade Rocker, fora forjada naquelas ruas em que tanto andei. O primeiro exemplar da revista "Rock, a História e a Glória", que comprei, foi na banca de jornais da esquina da Avenida Pavão, com a Avenida Santo Amaro, por exemplo, no lado de Moema, em 1975.

Mas por ironia do destino, justo nessa entrevista nesse jornal que representava um bairro que eu tinha carinho e muitas memórias pessoais, não houve uma entrevista conduzida pessoalmente na redação do referido órgão. Portanto, ninguém esteve in loco, e a condução da mesma deu-se via telefone, apenas com Rubens como nosso Porta-Voz, mas sem prejuízo algum à banda, naturalmente, porque o Rubens expressava-se (expressa-se) muito bem.

E tinha um mote essa escolha pelo Rubens : como morador de outro bairro vizinho e também às margens da Avenida Santo Amaro, a Vila Nova Conceição, ele era considerado um morador de Moema pelos responsáveis pelo jornal. Por ser um jornal de bairro, deu-nos um espaço generoso, de uma página inteira, portanto, apesar da pequena tiragem e penetração circunscrita à um bairro apenas da cidade, e mesmo que consideremos que bairros paulistanos tem porte de cidade, pelo tamanho e infraestrutura própria, claro que uma entrevista em jornal de bairro, não pode ter a mesma repercussão que um grande periódico de circulação nacional, ostenta. Por outro lado, como já disse várias vezes neste capítulo da Chave do Sol, e também em outros desta autobiografia, eu aprecio muito os jornais de bairro.

A matéria / entrevista foi bastante simpática e outra grande vantagem dos jornais pequenos, é que não estão fechados em linhas editoriais rígidas, e muito menos comprometidos com estéticas artísticas A, B ou C, portanto atuam com muito maior liberdade, e dão espaço para os entrevistados, sem deturpações; juízo de valor, e perguntas capciosas para derrubar o entrevistado. Também não tiram frases bombásticas do contexto da entrevista para compor manchetes e/ou subtítulos que mudam completamente o rumo da entrevista, comprometendo o entrevistado. E foi o caso dessa publicação da Gazeta de Moema, que foi bastante simpática com a banda.

Foi conduzida por um (então) jovem jornalista chamado, Paulo Mohylovski, e publicada no dia 1º de novembro de 1986.
Perguntas clássicas somaram-se a outras até surpreendentes, quando por exemplo, enveredou por aspectos políticos, sociais e no papel da mídia em relação ao Rock naquele panorama de final de 1986.

Mais ou menos na metade de novembro, finalmente uma secretaria de André Midani ligou no escritório e deu o veredicto : estávamos rejeitados pela Warner...
Uma resposta padrão, amena, dava conta de que Midani "adorara o material", mas o som que fazíamos, não era o que estavam procurando naquele momento. Um ano depois, o "Ultraje a Rigor" mudou completamente a sua orientação estética e sonora, quando passou a posar de banda Hard-Rock oitentista, inclusive no visual, com seus componentes ostentando enormes cabeleiras, e usando figurino igual ao de bandas como o "Ratt"; "Motley Crüe"; "Van Halen"; "Poison", etc etc...

Caramba, nas outras vezes em que fomos desprezados por essa gravadora, não sentimos tanto o impacto, e não era para menos.
Nas outras ocasiões, era muito previsível que não aprovassem-nos, por uma somatória de questões, e que inclusive já foram amplamente descritas e analisadas nesta autobiografia. Mas desta vez, na nossa avaliação, havíamos pensado em detalhes que iam além da parte musical apenas. Contudo, novas falhas saíram de nosso controle...

Tínhamos muita esperança no poder de persuasão do Miguel, mas na hora H, percebemos que ele não usara-o o suficiente. Talvez por excesso de confiança de sua parte, ainda baseando-se nos seus anos de sucesso nessa indústria, e não considerando que agora estava possivelmente defasado do mercado. Outros fatores pesavam, e claro que o principal, pelo aspecto da estética, era que ainda estávamos na contramão do que os mandatários pensavam, por mais que tivéssemos simplificado o nosso som, principalmente nas letras.

O apelo pop que achávamos evidente, muito provavelmente era fora de padrão para eles. Por mais que a cozinha da Chave do Sol tivesse simplificado suas criações, ainda assim era "complicada" demais para o padrão deles, que ainda reagiam sob os parâmetros paupérrimos do Pós-Punk. O excesso de solos de guitarra, em moldes tradicionalistas, certamente ainda os incomodavam, também. Por outro lado, músicas como "Solange", "Saudade"; "Desilusões"e "Trago Você em Meu Coração", não despertavam-lhes o sentimento de serem pop ao extremo, e bandas como Rádio Táxi povoavam as emissoras de AM e FM com canções semelhantes, há anos ? Não teriam as quatro, potencial para fazerem parte de trilhas de novelas Globais ?

Outro fator : naturalmente que na hora de as regravarmos oficialmente, sofreriam muitas modificações por parte dos produtores e nesse caso, nem assim vislumbravam que cortando os excessos que julgassem indevidos, poderiam moldá-las, "pasteurizando-as" ? Até mudanças de andamento e tonalidade poderiam ser feitas, e certamente que "pegariam no pé" do Beto, para ele cantar em tons mais baixos. Era só deixar de pensar no Robert Plant e adotar postura dos vocalistas do BR-Rock 80's, que em sua maioria cantavam para baixo. Não é preciso grande esforço para citar alguns exemplos : "Renato Russo"; "Bruno do Biquini Cavadão", "Herbert Vianna", até mesmo o "Cazuza". Enfim, ficamos chocados em termos sido rejeitados mais uma vez por esses fatores que citei e outros.

Vida que seguiu, pensamos que uma rejeição não inviabilizaria novas tentativas em outras companhias. O discurso do escritório era claro no início : -"temos contato e amizades em todas, escolham uma"...portanto, se a primeira tentativa não logrou êxito, iríamos com tudo para o plano B, certo ?  Mas não foi o que aconteceu...
Na época, não ficou nada claro, no entanto. Ninguém falou que haveria mudança de planos na estratégia, e convenhamos, haviam prometido o céu como limite, mas não haviam proporcionado-nos nada maior ou melhor do que nós já tínhamos conquistado com nosso suor, e pior que isso, mordiam 40% do cachet de shows que nós mesmo fechávamos...
Essa equação não estava batendo e agora, para piorar as coisas, parecia que logo na primeira tentativa esmoreciam na primeira porta fechada na face ? Onde estavam os contatos, as favas contadas ?

Nossa maior comunicação sempre foi com Sonia e Toninho, mas agora, estavam trabalhando quase em regime de exclusividade com o comediante já citado, e o Miguel não deixava-se pressionar, impondo uma distância regulamentar que permitia-lhe só falar conosco em reuniões formais, e convocadas por ele. Foi nesse ínterim que um outro elemento começou a interagir mais conosco. Chamava-se Arnaldo Trindade, e sua formação era de publicitário. Havia sido contratado para orientar os negócios da empresa, sob a estratégia do marketing. Ao contrário da histriônica Sonia e do aristocrático Miguel, era um sujeito Zen, ponderado, sensato e talvez fosse a pessoa ideal para começar a lidar mais conosco naquele momento em que sinais ainda subliminares, indicavam uma queda na avalanche de boas novas e pelo contrário, pequenos revés estavam batendo no casco do nosso frágil barquinho.

Nessas conversas preliminares que tivemos, falou-nos bastante sobre estratégias de marketing, e tratou de acalmar nossos ânimos que começaram a exaltar-se, com a falta de empenho do escritório em mostrar mais serviço, principalmente no quesito da marcação de shows, visto que a rejeição da gravadora Warner para conosco, não poderia ser creditada à eles como culpa. Ou melhor, será que não ?
Se bem que, analisando hoje em dia (2016), eu questiono muito a abordagem feita pelo casal Sonia e Toninho ao André Midani.
Talvez eles tivessem boa desenvoltura para vender atores para formação de cast de novelas, abordando diretores de TV, mas será que foi acertado que eles representassem-nos numa reunião com Midani ? O mundo da música era completamente diferente e a falta de traquejo de ambos para lidar com tal situação devia ser total !
Especificamente falando de Rock então, ainda piorava mais o abismo cultural entre as partes para uma discussão de alto nível, usando a mesma linguagem.

Portanto, o ideal a meu ver, teria sido o Miguel em pessoa ter ido ao Rio. O dinheiro que o escritório gastou para bancar seis pessoas hospedadas num apart-hotel de luxo, mais restaurantes bacanas da zona sul do Rio, muito provavelmente teria sobrado pela metade, com ele indo num "bate e volta" de ponte aérea até o Rio, e tivesse falado diretamente com Midani. Mesmo defasado do mercado, ainda assim, Miguel conhecia os meandros da indústria musical, mil vezes mais que o casal somado, e poderia tirar da manga, argumentos fortes que teriam influenciado Midani, e quem sabe com essa afeição, não tivesse bancado a contratação, mesmo que seus produtores rezassem por outra cartilha antagônica ? Para a minha visão de hoje em dia (2016), isso teria sido muito plausível.
Enfim, mais erros cometidos, da parte de todos, incluso o Miguel, o mais experiente dessa equipe toda.



Nesse novo panorama, onde as bravatas não soavam mais pelos corredores do escritório, começamos a substituir nossa euforia pelas apreensões. Sonia e Toninho só pensavam no comediante famoso; Miguel evitava-nos; e somente Arnaldo Trindade, dava-nos ouvidos e conselhos. Arnaldo era um rapaz legal, não nego, mas naquela hierarquia, não tinha o poder de comando, e na real, agia mais como um psicólogo, quiçá padre, ouvindo nossas queixas e tratando de jogar toalhas quentes sobre elas, mais preocupado em coibir tumultos eventuais que poderíamos causar ali dentro. Contra o comediante, não tínhamos absolutamente nada contra. Particularmente, eu era seu fã pelos seus personagens engraçados encenados em programas humorísticos da TV. E quanto ao português afetado, nessa altura, mal frequentava as dependências do casarão mais. Lembro-me que chegaram a vender um show dele em Curitiba, onde a Eliane Daic chegou a viajar na comitiva, tendo trabalhado como produtora nessa aventura e claro, fora uma apresentação pífia, sob a vergonhosa ação do play back, numa casa noturna. Enfim, que tivesse boa sorte na sua carreira. 

Dessa forma, queríamos que mostrassem mais serviço, visto que estávamos cansados de ver a falta de resultados significativos, a não ser pequenas entrevistas agendadas em órgãos pequenos de imprensa, ou do mundo brega, e tais pequenas ações já não poderiam contentar-nos. Dessa forma, enfim sinalizaram com algo concreto, que parecia ser uma boa oportunidade de testar sua capacidade de produzir algo, e não ficarem sentados esperando os nossos contatos próprios captarem oportunidades, e sobretudo a formação de uma agenda.

A sinalização veio da Sonia, que disse-nos que o lendário TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), estaria disposto a ceder uma de suas cinco salas de espetáculos, para nós produzirmos um show.
Histórico templo do teatro paulista / paulistano e do Brasil, tinha / tem uma história espetacular nesse campo, mas pouca tradição em shows musicais, a não ser eventualmente peças de teatro de teor musical. Mas show musical propriamente dito, não.

Ok, animamo-nos, pois seria muito chic tocar num palco histórico da cultura nacional, onde uma série incrível de peças e atores famosos atuaram com grande brilho. Finalmente uma ação concreta do Studio V, em termos de show, e da Sonia, que tanto alardeava ter muita experiência no meio teatral, mas que na prática, só havia arrumado-nos pequenas entrevistas e notas na mídia impressa, e uma entrevista de rádio, até então. Hora boa também para testar o poder de fogo do Studio V, no que eles supostamente tinham de mais forte : a influência de Miguel como grande radialista que foi, portanto usando de seu prestígio para alavancar uma divulgação exemplar, na base da amizade & conhecimento, com custo praticamente zero.

E hora também da Sonia somar, com seus conhecimentos de outro tipo de mídia, baseada em sua experiência no meio teatral, mundo da TV etc. Dessa forma, reanimamo-nos, apaziguando um pouco a queda de euforia que sofrêramos por conta da rejeição não digerida por parte da Warner; rejeição de Rita Lee & Erasmo Carlos; desconfianças sobre o desempenho do Studio V, etc. Nesse ínterim, fomos conhecer finalmente o Agildo Ribeiro, no seu camarim, logo após o encerramento de um monólogo seu (hoje em dia gostam mais de referir-se a esse tipo de espetáculo de humor, em sua alcunha americana, "Stand up Comedy").


Estava em cartaz numa das salas do próprio TBC, e claro, isso explicava o porque da Sonia aventar uma data para nós nesse histórico teatro. Agildo foi extremamente simpático conosco. Claro, foi um momento breve, pois tínhamos o "semancol" de artista também, de saber que no pós show, é de bom tom não abusar de uma visita ao camarim, quando o artista está esgotado após a performance e precisa descansar. Fato, seja lá qual for a área, o palco esgota, mesmo que a performance seja comedida, caso de músicos eruditos que tocam sentados lendo partituras. O simples fato de haver público, já gera uma energia de expectativa, que repercute e muito no emocional e no físico de qualquer artista.

Quando não há sinergia, então, essa energia é ainda mais desgastante, sugando, literalmente a vitalidade de quem apresenta-se. Não vimos o espetáculo, mas em janeiro, convidados por ele mesmo, o assistimos, desta feita num teatro de menor porte, mas conto isso depois. Agora, o empenho final de 1986, seria esse teste múltiplo que teríamos, pois alguns fatores seria analisados :
1) A capacidade do Studio V em produzir o espetáculo;
2) A viabilidade do TBC transformar-se num novo ponto de shows de Rock, na cidade
3) Se conseguiríamos demonstrar reação ao baque sofrido pela rejeição em relação à uma gravadora major.

Era um alento, para continuarmos confiando no Studio V, e isso amenizava a sombria desconfiança de que eles também haviam desanimado com o resultado da Warner e não tentariam outras companhias.



Montamos o show que faríamos no TBC, com a perspectiva de termos tempo livre. Sem ter que dividir o espaço com outras bandas, em situações de festivais, tampouco existir uma banda de abertura para gastar um pouco de tempo, resolvemos tocar bastante. Seria uma oportunidade de experimentarmos uma série de músicas novas, mesclando-as às músicas da demo-tape recém lançada, e as tradicionais do repertório, incluso algumas que não executávamos ao vivo, há um certo tempo, caso de "Um Minuto Além", e "Crysis (Maya)".

Em termos de divulgação, não havia verba para algo espetacular, mas como alertei no capítulo anterior, era também um teste subliminar que observaríamos em silêncio, pois queríamos ver até onde existia de fato o prestígio pessoal de Miguel & Sonia, cada qual com contatos num setor diferente em relação à mídia cultural.

E assim, chegamos às vésperas do show, com ensaios mais animados, e vendo algumas notas saindo na imprensa. Não eram no entanto, espetaculares, a não ser um tijolo de pequeno porte, pago pelo escritório, publicado na Folha de São Paulo. Ok, jornal mainstream, não deve ter sido "baratinho", mas também a julgar pelo porte tímido, não fora nenhuma exorbitância. Na dia do show, talvez os melhores resultados apresentados em termos de divulgação, ao lado do já mencionado "tijolo pago" na Folha de SP, deram-se em termos televisivos. A primeira manifestação nesse sentido, aconteceu na maior emissora do pais, portanto, ponto para o Studio V. O programa jornalístico, "SPTV 3ª Edição", da Rede Globo de TV, exibiu reportagem do nosso show. Claro que foi uma matéria rápida, e no noticiário de menor audiência dessa emissora, veiculado tarde da noite, mas era a Globo, e por isso, claro que teve repercussão, apesar de nada agregar para divulgar o espetáculo em si, pois os telespectadores viram a reportagem com ele já encerrado. Portanto, valeu por ajudar-nos na divulgação de caráter geral, para espalhar ainda mais o nosso nome. E também no mesmo dia do show, mais um trunfo que apresentaram nesse setor da divulgação, com a presença in loco, de outra equipe de jornalismo de TV, que apareceu para cobrir o evento. Bacana ter essa cobertura, embora eu deva esclarecer que nesse caso, chegou com a missão de cobrir a posteriori, para ser exibida no dia seguinte, e assim como no caso do jornalismo da Globo, agregando como divulgação generalizada, mas nada contribuindo para atrair público ao show, propriamente dito. Então, nesse caso, não agregou como agente de divulgação do show em si, mas claro que ficamos contentes com sua presença, e a matéria auxiliou como exposição extra, difundindo a banda em outros termos, é claro. Tal equipe jornalística adotou uma linha de reportagem onde cobriu não só o trabalho da banda, com direito a flashs do show ao vivo, mas também com entrevistas de fãs na porta do teatro, no afã de colher opiniões e medir a expectativa gerada. 

Yves Passarell em foto mais recente, atuando no Capital Inicial

Numa coincidência incrível, o rapaz que escolheram para entrevistar, já era relativamente famoso como artista na época, mas dentro do mundo underground, onde habitávamos também. Por isso, "passou batido" para a produção dessa equipe de jornalismo, tal informação, e ele foi tratado e caracterizado na edição final, apenas como um fã, quando na verdade era o Yves Passarell, guitarrista do "Viper", na ocasião, e hoje em dia, muito mais famoso por ser o guitarrista do "Capital Inicial", banda oitentista que perdura até os dias atuais. Tal reportagem ignorando a já adquirida notoriedade de Yves, deu-se no programa jornalístico, "Cidade 4", exibido pela TVS, hoje em dia, SBT.

Sobre o show em si, foi mais um caso onde a sinergia não foi estabelecida, mas desta vez, havia um motivo plausível e não por  conjecturas subjetivas. Exageramos na metragem do show, com o excesso de músicas que tornou-o longo. Não dimensionamos um mapa de altos e baixos emocionais, como qualquer artista monta seus espetáculos normalmente. Fazíamos isso, naturalmente, mas nesse dia em específico, não preocupamo-nos em causar emoções nas pessoas, mais preocupados em tocar muitas músicas novas, para testá-las.

Erramos feio, portanto. Mesmo considerando que o público era "nosso" e  formado por nossos fãs habituais que acompanhavam-nos em qualquer espaço que tocávamos, a ideia de tocarmos muitas músicas novas, tornou o show longo, e mais que isso gerou o anticlímax da novidade não reconhecida e absorvida pelo subconsciente dos ouvintes. Ninguém faz isso normalmente, pois aborrece o público gerando apatia, portanto, quebrando a sinergia com o artista. Artistas consagrados de porte mundial, não fazem isso. Numa turnê nova, os Rolling Stones montam o set list do show com no máximo três músicas do novo disco, e pelo menos 20 clássicos do repertório antigo. E pode observar, amigo leitor, por melhores que sejam tais canções novas, causam momentos de apatia no público, quebrando a euforia que as músicas consagradas geram. Portanto, não é aconselhável tocar muitas músicas novas num show, sob o risco de estragá-lo. E nós cometemos tal erro, talvez no afã de mostrar logo tantas novas criações ao público, mas também para testá-las ao vivo. Não era necessário, e causou-nos um prejuízo, certamente. Outra coisa, a data desse show era bem difícil : 29 de dezembro...

Muito legal para o artista, tocar em qualquer data, mas sob o ponto de vista do marketing, e da produção musical, tratava-se de uma data muito difícil de ser trabalhada. Todos conhecem a cultura brasileira, onde já a partir do final de novembro, o "gás geral" vai diminuindo em todos os setores da sociedade. Quando chega na semana que antecede o natal, tudo para, a não ser o comércio que lida com a festa em si, em vários aspectos. Do natal ao reveillon, ressaca e novos preparativos para mais uma festa pantagruélica, não deixam ninguém pensar em outra coisa...
Sabíamos de tudo isso, mas queríamos muito ter esse tour de force com o Studio V, portanto, não esmorecemos e demos o nosso melhor, para ser um sucesso. Todavia, apenas 200 pessoas compareceram ao TBC, no bairro do Bexiga, zona central de São Paulo. E havia também esse fator subliminar, isto é, por não ter tradição de promover shows musicais em São Paulo, o TBC era / é um reduto muito tradicional de aficionados de teatro, mas desconhecido por frequentadores de shows musicais em geral, notadamente shows de Rock. O equipamento de P.A. contratado pelo nosso escritório, era bom, e adequado às necessidades acústicas do teatro. O nosso técnico do Studio V, Clovis, operou o som, e conhecia bem o nosso show, pois operara todos os ensaios, além da gravação da demo, em outubro.

Ainda eco de uma boa fase de exposição midiática da qual usufruíamos, em dezembro de 1986, saiu essa entrevista que eu concedi para a revista "Mix". Tratava-se de uma publicação do mesmo grupo editorial que era responsável pelas revistas "Roll" e "Metal". Conduzida pelo ótimo jornalista Tony Monteiro, abordou-me sob aspectos técnicos do instrumento e equipamentos. Falarei mais detalhadamente sobre essa entrevista, em capítulos posteriores.

O iluminador do teatro, fez um trabalho digno, apesar de não conhecer-nos, e nem ter em mãos um mapa de luz profissional do nosso espetáculo. Tecnicamente falando, o show foi bom, portanto. Mas faltou sinergia, com o público não vibrando como normalmente vibrava em nossos shows em outros espaços. O Studio V compareceu em peso. Até a secretaria Maria Amélia esteve presente com seus filhos. Miguel assistiu e dias depois, em reunião convocada por ele, fez críticas ao excesso de músicas novas que entediaram o público; criticou também a longa duração do espetáculo e obviamente isso era decorrência da primeira queixa que formulou. Mas foi além e criticou a estridência das guitarras (Beto tocou bastante, principalmente nas músicas novas); o excesso de peso no som, e até o tamanho de nossas cabeleiras, "exageradas", em seu entender.

Bem, fora cabelos longos em demasia, todos os outros itens que relacionou, tinham fundamento. Questionável em termos, contudo, falar do peso e estridência, por serem questões técnicas, embora para o padrão pop, fazia-se mister que aparássemos ainda mais certas peculiaridades do Hard-Rock (se bem que naquele exato momento, o Sepultura estava estourando, fazendo um som na linha do Heavy-Metal extremo e radical, com cem mil vezes mais peso do que jamais faríamos, portanto era um conceito muito relativo).

Mas acho que estava 100% certo em ter detectado um excesso de músicas novas, que realmente alongou indevidamente o show e pior, tornou-o entediante, até para o mais fanático dos fãs da banda.
Fato lamentável, não tenho nenhuma foto ou vídeo desse show. Ele foi fotografado, mas eu nunca tive acesso aos negativos, infelizmente. Uma pena, pois o palco era histórico e estava bonito...
Assim foi nossa apresentação no TBC, que nunca mais abriu suas portas para shows de Rock, que eu saiba. Aconteceu em 29 de dezembro de 1986, uma segunda-feira (outro fator de dificuldade certamente), e com 200 pessoas na plateia. E também caracterizou a única experiência de produção de um show da nossa banda pelo Studio V. Em janeiro de 1987, ainda haveria um outro show vindo da iniciativa deles, mas não como produção própria, e sim vendido à um contratante. Encerramos o ano de 1986, e cabe uma análise geral, a seguir.

O ano de 1986 começou na verdade para nós, em outubro de 1985. Com a saída do ex-vocalista Fran Alves, não perdemos apenas um ótimo vocalista, mas também uma identidade forjada em torno de uma estratégia errônea, que precisava ser mudada rapidamente.

Claro que o Fran não tinha culpa disso, absolutamente, não !
Mas sua voz potente e rouca, ficou estigmatizada no trabalho da banda, justamente num momento em que fizéramos uma aposta que em poucos meses revelou-se equivocada. Com sua saída, já tínhamos em mente que não só precisávamos encontrar um substituto para a sua vaga, mas empreender uma terceira, e de certa forma dramática, nova mudança em toda a estrutura sonora da banda.

Nesse contexto, tivemos a sorte de encontrar rapidamente o Beto Cruz, que trazia exatamente em sua mente, a mesma ideia a ser adotada doravante. Portanto, com sua chegada à Chave do Sol, mergulhamos fundo na tarefa de renovar inteiramente o repertório, e nesse caso, ele teve participação decisiva e criativa, pois sendo também guitarrista e compositor, acabou tornando-se o dínamo da banda nessa remodelação. Os primeiros meses de 1986 foram marcados por um curioso hiato de shows, no entanto. Fato raro na história da banda, pois desde os seus primórdios, havíamos estabelecido uma agenda boa de apresentações, e logicamente que de 1984 para frente, ainda mais, por conta do crescimento da banda, motivada cada vez mais pela sua proeminência na mídia.
No entanto, a partir da metade de março em diante, uma verdadeira avalanche de oportunidades começou a surgir e nesse momento promissor, aproveitamos cada gota que pingou sobre nós.

Shows; muitas entrevistas na mídia escrita; convite para filmar dois vídeoclips; aparições na TV; entrevistas de Rádio; nossas faces num poster nas bancas; gravar uma demo com seis músicas inéditas...
A concretização de um dos clips, enfim; tocar no Rio de Janeiro e desmaiar no palco; abordar e ser elogiado por Rita Lee...
E parecendo ser o ápice dessa fase boa em que entramos, o convite para sermos contratados por um escritório de empresários, com supostamente, muito poder de fogo em mãos.

Mais uma avalanche de pedidos de entrevistas; ser ajudado por Charles Gavin e Os Inocentes; ser convidado para tocar no Nordeste; tocar em teatros superlotados, batendo recordes de público; abrir o infame Menudo no Anhembi em São Paulo...
Gravar mais uma demo, com mais 2 músicas inéditas; abordar gravadora major com chance real de ingresso...
Portanto, a análise final de 1986, mostra que a banda atingira seu pico de popularidade, e aliado a isso, tinha achado estar enfim, com um plano de carreira em vias de fazer com que subíssemos ao degrau da primeira divisão da música.


A presença de tal escritório, no qual depositamos concretas esperanças de que promoveriam tal gerenciamento seguro, era baseada não só na suposta competência profissional no meio, e nem mesmo sobre seus contatos de bastidores, mas também pelo nosso momento próprio, que demonstrava ser excepcional, fruto de quatro anos de trabalho duro de nossa parte, abrindo caminhos na selva da música, com nossas próprias mãos e criando trilhas até surpreendentes em meio a mata fechada, em se considerando estarmos sozinhos, sem ajuda alguma (referindo-me a empresários, pois claro que tínhamos apoio de muita gente, incluso Luiz Calanca). Portanto, a nossa percepção era de absoluta euforia, baseada na quase certeza de que nessa seguinte somatória : entre nosso pico natural de popularidade + novo trabalho melhor coadunado com os parâmetros pop + a ação desse escritório de empresários e seus atributos, seria uma alavanca natural para o sucesso em larga escala. E assim, o segundo semestre seguiu-se, com um crescente de euforia, expectativa e epifanias.

Todavia, quase no fim do semestre, um golpe deu-nos um revés, diminuindo muito essa euforia. Não era o caso de arrefecer tão violentamente o nosso ânimo, pois uma porta fechada não significaria necessariamente o fim das tentativas e pelo contrário, a luta continuaria, e todos os sinais positivos ainda existiam com força. Mas algo inexplicável minou-nos de certa forma, pois a confiança no tal escritório começou a gerar questionamentos sobre sua real eficácia e pior que isso, um pensamento subliminar de que num vacilo, nós estaríamos arriscando perder o nosso "momentum natural", pelo simples fato do escritório não ter tido a capacidade de segurá-lo com as duas mãos... e nesse caso, quantas vezes uma porta abre para um artista ? Momento de dúvidas a parte, não estávamos encerrando 1986 do jeito que poucos dias antes acreditávamos que seria. Portanto, a luta continuava, mas no virar para 1987, um pouco da energia havia sido desperdiçada por conta de uma derrapagem, que obrigara-nos a perder algumas posições na corrida.

Continua...  

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