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domingo, 31 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 12 - Fim do Primeiro Semestre de 1986 : Telefone Tocando e Portas Abrindo-se ! - Por Luiz Domingues

Quando percebemos que a conversa sobre o vídeo clip realmente esquentara, e parecia que essa produção seria mesmo concretizada, tratamos de escolher uma música nova para alavancar o rumo de nossas mudanças estruturais. Enquanto as outras bandas não tinham esse tipo de preocupação, porque não pensavam em mudar sua estrutura estética, nós precisávamos usar essa oportunidade em obter um vídeo clip com tal perspectiva. Por isso, vivíamos um impasse, pois não poderíamos mergulhar de cabeça em tal produção, antes de ter o áudio da demo-tape, e isso só foi possível no fim de abril. Outra desvantagem era técnica. Com um áudio inferior, obtido de uma gravação de demo, portanto gravado às pressas e num estúdio de segunda (ou quiçá, terceira...), linha, é claro que não seria o ideal. 

Mas estávamos novamente numa situação embaraçosa, pois mesmo que decidíssemos usar uma faixa do disco oficial em voga, o EP de 1985, a voz era de outro vocalista. "Um Minuto Além " era uma canção com potencial comercial para um clip, mas estava inutilizada doravante para tal propósito, justamente por ter outra voz na linha de frente. E mesmo que não fosse só por isso, o fato é que a música tinha um tamanho inadequado para o veículo, outra falha estrutural não pensada por nós quando de sua composição e arranjo final.

Enfim, era o "viver e aprender" que exercíamos na raça, infelizmente sem um produtor de visão calculista a orientar-nos e dessa forma, a nossa carreira seguia numa trilha de percalços, e muitos deles, autogerados...
Voltando ao clip propriamente dito, nossa dificuldade em ter o áudio ideal foi entendida pelos produtores, mesmo porque eles estavam propondo-se a fazer quatro clips simultaneamente, portanto, a solução da parte deles era até óbvia em deixar-nos por último na fila de produção, pois não tinham estrutura para realizar quatro clips ao mesmo tempo, e dessa forma, poderiam tranquilamente esperar-nos. No "brainstorm", fechamos com a ideia de filmar o clip usando a música "Saudade". Era de longe a aposta mais pop da nova demo e mostraria a um público televisivo e inteiramente novo, um som simples e direto, em que nada lembrava  a "velha" Chave do Sol, e suas firulas setentistas centradas no Jazz-Rock. Daí em diante, tenho histórias engraçadas a relatar sobre os bastidores dessas filmagens...


Inevitavelmente, ao escolhermos "Saudade" para compor o clip, as ideias giraram em torno de uma historieta acompanhando ipsis litteris a letra da canção e aí, já viu... seria bem na onda dos clips do "Whitesnake", com o David Coverdale usando e abusando de recursos "sensuais", numa proporção que muito aproximava-o de verdadeiros canastrões da música brega em geral, incluso alguns brasileiros óbvios. A ideia era que o Beto por ser o vocalista, protagonizasse algumas cenas "românticas" intercalando-as com intervenções da banda, não necessariamente tocando ao vivo, mas aparecendo sempre na edição.

Claro que o Beto adorou a abordagem, e lógico também que foi um dos que mais alimentou o brainstorm nesse tipo de orientação. Bem, uma primeira ação foi marcada para colher as primeiras imagens e seriam cenas românticas do Beto com uma garota numa casa noturna. Os demais membros da banda apareceriam fortuitamente no ambiente, mas o foco da ação concentrar-se-ia no Beto com a garota; conversando, flertando, e com o casal vivendo momentos "felizes"...
Os rapazes da produtora sugeriram o bar "Singapura", localizado em Cerqueira César, bairro nas cercanias da Avenida Paulista, para fazer tal filmagem, pois tratava-se de uma casa cujo dono era conhecido deles, e o cederia gratuitamente como locação da filmagem. 

E por falar em economia, a produção era bem simples. Não havia equipe técnica; eletricistas e iluminação adequada; tampouco figurinista; maquiador; cabeleireiro, continuísta etc etc. Eram os dois rapazes da produtora; uma garota como assistente de produção; e como equipamento, uma câmera VHS, um pouco acima do padrão de uma amadora, mas bem abaixo de qualquer câmera minimamente profissional.

Era lógico que tal produção jamais teria o padrão de um clip profissional nessas condições, e no máximo seria exibido em programas de menor expressão, jamais em emissoras top como a Globo. Mas o que poderíamos fazer ? Era a corda bamba do artista independente e situações assim sempre deixavam-nos entre a cruz e a espada, o eterno "pegar ou largar"...

E havia outro aspecto : como poderíamos recusar fazer, se os rapazes estavam empolgados e correndo atrás da produção do show do Palmeiras, mostrando serviço, e falando em expansão, crescimento etc ? Nesses termos, claro que aceitamos e com toda a boa vontade, empenhamo-nos em colaborar.

Evidentemente que num bar, a iluminação natural do ambiente já é escura por natureza, e ainda por cima filmando sem nenhum recurso de luz cênica, e câmera quase caseira, a possibilidade da fotografia ficar boa, era quase de 0%. Enfim, a justificativa era de que poucos frames dessa filmagem em específico, seriam aproveitados, mas mesmo assim, para dar uma inteligibilidade visual mínima, aquele padrão estava abaixo do aceitável.

A garota que fez a cena, era uma amiga do Beto, e claro que não haveria dinheiro para contratar uma atriz, e também é lógico que nenhuma aceitaria participar de uma produção audiovisual simples que comprometesse sua imagem, a não ser que fosse uma novata e aspirante à cata de qualquer oportunidade para aparecer. Nessas cenas, o trivial do casal feliz foi feito...
Mãozinhas dadas; olhares; beijos "de leve", e pequenos closes dos respectivos rostos. Ou seja, nada muito diferente do que acontecia em 90% dos clips oitentistas "românticos", com a diferença de ser uma produção nível "Boca do Lixo", longe do glamour global...
A próxima cena programada para filmagem seria "picante", e o Beto estava adorando ser o galã...


A cena dita "picante", seria no ambiente de um quarto de motel.
Seriam takes rápidos, mas mostrando o casal na cama, aos beijos etc etc. Para tanto, a produção recorreu ao próprio Beto que era amigo do dono de um estabelecimento desse molde, na região do Jardim Bonfiglioli, zona sudoeste de São Paulo, nas margens da rodovia Raposo Tavares.

Como a produção era toda amadora, exatamente como na filmagem no ambiente do bar Singapura, a garota que aceitou rodar a cena, era só uma amiga, e não uma atriz profissional. No bar, até que enganou bem, fazendo cenas simples, como "namoradinha", mas nessa hora do motel, teve bastante dificuldade devido ao constrangimento inerente que esse tipo de cena traz, até para profissionais tarimbadas, imagine uma menina muito inexperiente e amadora. Prevendo tal situação de constrangimento da parte dela, ficou acertado que os demais membros da banda não presenciassem as filmagens, evitando assim uma aglomeração atrás da câmera, e inevitável clima pesado para a garota.

Ela de fato ficou bastante inibida, mesmo com uma equipe reduzida na locação improvisada, mas as cenas foram feitas. Claro, naquelas condições de iluminação e câmera de baixa qualidade, fora o set improvisado, e com atores amadores, não havia como ficar bom, mas era o que tínhamos em mãos. Indo além, analisando muito friamente e com o clássico distanciamento histórico de 30 anos de distância (2016), claro que toda a mentalidade estava muito equivocada desde o início dessa produção, e se achávamos válido em tal ocasião, denotava claramente um quase desespero de nossa parte em querer adentrar o mainstream. Pior ainda era a concepção que achávamos adequada para lograr êxito em tal missão, pois uma música com o teor de "Saudade", em termos de letra, e um clip com cenas românticas, poderia ser o mais adequado numa visão sem muito apuro, mas por outro lado, se pensávamos em seguir os passos do Whitesnake, aqui é o Brasil, e nesses termos, mais aproximávamo-nos do Fábio Junior ou quiçá o Wando, se insistíssemos nesse caminho.

Enfim, desde 1984, estávamos cegos pela determinação em ingressar no mainstream, e todos os nossos esforços afunilavam nesse sentido. As várias e repentinas mudanças de estratégia, mostram isso claramente e nesse momento de 1986, que na verdade iniciou-se a partir da entrada do Beto, no final de 1985, parecia ser enfim, o caminho mais fácil para atingirmos o nosso objetivo perseguido. Corríamos o risco enorme de dar passos no sentido da cultura brega, que parecia ser a única solução naquele instante, e se servia de consolo, não estávamos sós nessa empreitada. Bandas de espectro pesado como "Salário Mínimo"; "Platina", e "Proteus", também estavam buscando tal caminho. Por outro lado, bandas como Rádio Táxi; RPM; Kid Abelha; Metrô; e similares, faziam sucesso no mainstream, com esse tipo de abordagem pop-brega. Bem, isso justifica o direcionamento desse clip para o romantismo, mas não o isenta totalmente de seu pecado cometido em direção ao mau gosto...
A próxima cena a ser filmada foi marcada para um domingo, no período da tarde, e seria uma externa, com a participação da banda inteira, numa avenida de grande circulação na cidade de São Paulo.
Seria o nosso "dia do mico". E o foi, de fato...


Foi num domingo de sol que fomos com baixo; guitarra, e baquetas de bateria à Avenida Paulista, para uma sessão de "micagens" entre os pedestres e carros...
A ideia era filmar takes dos membros da banda em situações inusitadas de rua, fazendo poses etc.

 
Matéria que saiu na Revista Metal, no início de 1986, ainda repercutindo o ano de 1985, e nos citando (com foto), como destaque dessa cena "Heavy-Metal". Já estávamos em outra direção, com outro vocalista, mas ainda pipocavam matérias nesse sentido...

Claro que demos uma respirada bem funda e fomos encarar esse martírio, pois não sendo atores, é claro que situações assim para nós eram sempre constrangedoras. Uma coisa é ter mise-en-scenè no palco, com o calor de um show de verdade, com você tocando e sentindo aquela pressão sonora, fora a iluminação adequada, fumaça, efeitos etc. Outra, bem diferente, é fazer pose de "Rock Star" na rua, com instrumentos desligados, e no nosso caso, com a agravante de não  sermos suficientemente famosos para despertar o conhecimento público imediato, e daí, estarmos sujeitos ao escárnio por parte de populares numa situação dessas... então...

Fomos para a avenida Paulista, num domingo de bastante movimento. As ideias que surgiam da parte dos produtores, eram de total improviso, do tipo : -"Rubens, que tal uma tomada contigo na esquina da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, fazendo a base da música " ?
Ou, -"Agora o Zé Luiz vai fazer malabarismos com as baquetas, andando pelo Parque Trianon"... enfim, o óbvio ululante e completamente amadorístico, mas claro, isento-os totalmente de qualquer culpa, pois além de não haver grandes alternativas, era o conjunto da obra : proposta da música e década de oitenta.

Lembro-me de estar filmando na ilha entra as pistas, com roupa de show, e meu Fender Jazz Bass em mãos, sentindo-me completamente idiota com aquele monte de gente olhando, carros passando etc...
Então, algo prosaico ocorreu bem nessa hora... numa cidade de "pequeno porte" como São Paulo, era de esperar-se que alguém conhecido avistasse-me nessa situação, não é mesmo ?

Eu, Luiz Domingues, e Marco Antonio Turci, meu primo, em foto bem mais recente, de 2001

Enfim, brincadeiras a parte, vi um carro de cor amarela (o velho Corcel II...), e familiar, passando devagar. Mediante buzinadas de advertência perpetradas pelo motorista em questão, verifiquei ser quem deduzira ser... meu primo Marco Antonio Turci, e sua namorada, Silvana...
Atônitos, vendo-me naquela situação, pararam numa rua próxima e foram a pé verificar o que ocorria, quando então pude contar-lhes sobre a filmagem de um vídeo clip etc. Ainda falando dessa filmagem, lembro-me também de duas garotas que ficaram seguindo-nos o tempo todo. Eram fãs da banda e claro, num número reduzido, foram bastante respeitosas, sem intenção alguma de tumultuar...
Se fôssemos o "Menudo", que era o fenômeno pop-brega daquele momento, nem haveria condição de filmagem externa, com milhares de garotas histéricas dando trabalho para a polícia...

Filmamos mais alguns takes tolos, fazendo caras e bocas pela Avenida Paulista, e aos primeiros sinais do entardecer, encerramos o expediente. Segundo os produtores, com todas as cenas filmadas, já davam por encerrados os takes, e consideravam o material satisfatório para a realizar a edição final. Com a experiência que tenho hoje em dia, acho que faltava-lhes noção básica desse tipo de trabalho, pois o material bruto que dispunham, era absolutamente insuficiente para pensar numa edição final com um mínimo de qualidade, sem contar a precariedade absoluta da produção como um todo.

Mas não era só isso, as tomadas que dispunham eram de baixa qualidade dramatúrgica, em todos os quesitos imagináveis.
Se realmente tivesse sido editado, esse clip teria ficado de gosto duvidoso, acredito. Falo isso com grande pesar, pois os rapazes estavam na maior boa vontade, e tal empenho da parte deles, jamais poderia ser desconsiderado, a despeito de qualquer consideração técnica; estética, ou artística. E também falo com tristeza, porque precisávamos de um vídeo clip, pois nos anos oitenta, tão ou mais importante que uma música tocando na FM, ou um disco nas prateleiras da lojas, o vídeo clip sendo exibido na TV, era fundamental.


A década de oitenta foi a década dos clips, sem dúvida alguma. Ter um clip era vital, e se fosse de qualidade, era o diferencial entre o underground e o mainstream. Mas, convenhamos, com aquelas condições, o clip com o qual estávamos envolvidos, jamais poderia ficar bom. Acho que nem mediano ficaria e portanto, o fato dele nunca ter sido finalizado, pode ter frustrado-nos à época, mas poupou-nos de um constrangimento que tranquilamente poderia ter sido revertido em anti-propaganda. E por que não foi para frente se os rapazes estavam empenhados ? Bem, os dois rapazes em questão eram muito animados e voluntariosos, mas faltava-lhes experiência e conhecimento da área ao menos na época, não descarto que tenham crescido posteriormente, é claro. Portanto, chegou um ponto onde notaram que não conseguiriam produzir quatro vídeo clips (estavam simultaneamente tentando fazer os das outras bandas envolvidas, como já expliquei anteriormente), e produzir o show de porte grande que estavam querendo, ao mesmo tempo...
Claro que tudo ficou nebuloso e eles comunicaram às quatro bandas envolvidas, que estava inviável preparar os clips antes do show, e que paralisariam tal produção momentaneamente, para dedicarem-se à produção do espetáculo, e só posteriormente retomariam o projeto dos clips.

O fato é que o show aconteceu, conforme contarei logo mais, mas depois do evento, o contato esfriou completamente, e os clips foram engavetados. Nunca vi os "copiões" desse material, e acredito que tenham sido apagados. Gostaria imensamente de ter acesso ao material, pois hoje, tal material bruto, independente de sua má qualidade técnica e mau gosto estético, seria muito legal para ser postado como promo ou mesmo constar em um possível documentário sobre a história da banda. Mas realmente desconheço o paradeiro desse material. Se alguém tiver uma pista, que avise-me, por favor...

Antes porém de falar do show em si, preciso contar um fato novo que surgiu na mesma época, e que animou-nos muito além do que já estávamos animados com os rumos da banda nesse final de primeiro semestre de 1986. Por um momento, ficamos completamente eufóricos com a perspectiva de termos dois clips, ao invés de um !!
A diferença, foi que a segunda proposta, ao contrário desta que comecei a contar e malogrou, deu certo !!

Os primeiros meses de 1986, representaram um raro momento de escassez de shows, desde 1984, onde a banda alcançara uma regularidade, graças à crescente exposição na mídia e advento do primeiro disco, emendando com o segundo, um ano depois. Mas, por incrível que pareça, não ficamos preocupados, apesar de chateados, é claro. A ausência de preocupação dava-se pelo fato de que sabíamos que era um hiato meramente ocasional, e que em breve, retomaríamos a agenda com constância e perspectiva de expansão. E uma coisa era fato em 1986 : "o telefone estava tocando"...

Essa expressão que citei acima, é um jargão entre artistas de uma forma geral, e na música é bem usado, designando que o momento é bom e as oportunidades estão batendo à sua porta e não o contrário, com o artista batendo nas portas invariavelmente fechadas para ele.
Dentro dessa dinâmica, era nítido que os anos de labuta estavam sendo recompensados nesse "momentum", pois a cada dia, novas oportunidades surgiam espontaneamente, e foi o caso do que contarei a seguir.

Desde 1983, tínhamos uma boa relação com a TV Cultura de São Paulo, por termos participado do programa A Fábrica do Som, por cinco oportunidades. Contou pontos também quando tocamos numa sexta oportunidade que não foi ao ar, mas ajudamos a evitar um tumulto generalizado, entretendo o público do Teatro Sesc Pompeia, e sob condições técnicas inóspitas, numa situação que já descrevi capítulos atrás. Também tivemos boas participações na rádio Cultura, que era um braço da fundação Padre Anchieta etc etc.

Então, nessa mesma época em que estávamos entretidos em preparar a demo tape com músicas novas e filmar um vídeo clip (conforme estou contando nesta fase da cronologia, anteriormente), recebemos um telefonema do departamento de jornalismo da TV Cultura de São Paulo, para filmarmos um vídeo clip produzido por eles, sem nenhum ônus, e que seria exibido em vários programas dessa rede. Pessoas ligadas à antiga produção da Fábrica do Som, já sabiam que estávamos com uma demo tape com músicas novas no gatilho, e uma dessas novas canções tinha uma temática interessante de cunho sociopolítico, falando sobre o "apartheid" na África do Sul, o que despertou-lhes o interesse, visto que era um assunto jornalístico muito em voga.

Claro que aceitamos, e colocamo-nos à disposição, imediatamente.
Era um desses fatos típicos do "telefone que está tocando", e paralelo ao clip que fazíamos de "Saudade", uma oportunidade de ouro de termos dois clips para passar na TV, simultaneamente, e sem custos para a banda. E lá fomos nós, numa tarde de terça-feira, no final de abril de 1986, para essa filmagem, nos estúdios da TV Cultura...

Chegamos nos estúdios da TV Cultura no horário combinado, por volta das 10:00 h da manhã. A única informação prévia da qual dispúnhamos, era que seria um clip bem simples, com cenas da banda dublando a canção, intercalando-se com cenas do Apartheid sulafricano, extraídas de matérias jornalísticas, oriundas de material de agências internacionais (aliás, uma boa pergunta : eram imagens liberadas para qualquer uso ? Seria domínio público ?).
OK, não tínhamos como dar grandes palpites naquela circunstância, com despesa zero. Então, ficamos de "bico calado", mas apesar da simplicidade toda, não fugiria muito dessa ideia central, de intercalar o Apartheid da África do Sul com a banda, na nossa concepção também.

Como a música era praticamente um manifesto da banda, posicionando-se contra a segregação racial, o caminho mais simples seria esse, numa primeira instância, e se houvesse verba de nossa parte, talvez a sofisticação viesse com uma abordagem mais metafórica, usando de alegorias, representações oníricas etc.

Se pudéssemos contratar o Ken Russell, certamente faríamos desse clip, um delírio onírico, quiçá com elefantes negros e encapuzados, sendo arrastados para o mar por "criptonazistas", ou coisa que o valha... (ha ha ha, como são bons e loucos os filmes do saudoso Kenny...). Enfim, em nossa realidade o negócio era dublar a canção e torcer para o editor escolher imagens significativas do jornalismo, mostrando a injustiça naquele país. Então, veio a pior parte na minha opinião. 

Após sairmos da sala de maquiagem e colocarmos nosso figurino de show, fomos convidados pelo diretor em questão (o leitor vai matar-me, mas não lembro-me de seu nome, tampouco achei alguma anotação que ajudasse-me a recordar), a dirigirmo-nos para um local ermo das instalações daquela emissora. Até então, achávamos que filmaríamos num estúdio tradicional, com iluminação adequada, e uso do Chroma Key, para depois facilitar a vida do editor, ao somar as imagens do jornalismo. Mas por azar total, todos os estúdios estavam ocupados com outras produções, e como essa produção era um encaixe, e desprovido de recursos, resolveram improvisar...

Aí, entrou a cabeça do rapaz e seus paradigmas distorcidos sobre o que era o Rock;  em qual ambientação ficaríamos mais adequados, a confusão pessoal dele ao não entender nosso espectro artístico etc etc...
Em suma, alojaram-nos num lugar ermo, inóspito e rude. Era uma espécie de lixão, onde colocavam sobras de material destinados ao lixo, e ali ficavam amontoados de uma forma muita feia, parecendo escombros desoladores...

Eu sempre fui um crítico contumaz desse tipo de ambientação rude, por remeter ao Punk-Rock enquanto ideologia de destruição; aspereza; baixo astral; decadência; sujeira devastadora denotando desleixo; depravação; ruína social etc. Ou seja, era um desastre filmar num lugar feio desses, como se fosse um set de filmagem para filmes oitentistas de mentalidade Punk, como "Mad Max", e "Blade Runner". Dessa forma, fiquei muito chateado com tal decisão repentina, mas havia dois argumentos da produção que não poderíamos contestar :
1) A falta de um estúdio decente naquele momento e;
2) Se falávamos de uma crise social onde um povo segregacionado pela sua condição racial, vivia na miséria, em detrimento de outro que privilegiado pelo poder, usufruía de conforto total com a tal praia privativa (Sun City), fazia sentido que a banda colocasse-se na ambientação miserável, como forma do espectador do clip identificar-nos como "mocinhos" nessa história...
Nesse aspecto, fazia sentido, mas na minha visão, internamente, era uma lástima estar todo arrumadinho como Rocker à moda antiga, bem vestido, naqueles escombros com o aspecto do baixo astral dos anos 1980...
Enfim, não cabia-nos dar muitos palpites nessa produção, pois tratava-se de um gentil oferecimento sem ônus, portanto, não tinha cabimento estabelecer contestações...

 
Dessa maneira, a nossa postura não poderia ser outra, a não ser a da resignação. Filmamos ali naquele lixo desagradável e só restava-nos fazer uma mise-en-scenè legal e torcer para a edição caprichar nas imagens do jornalismo. Bem, fizemos três ou quatro takes da música inteira e com uma câmera única, móvel. Eram as câmeras portáteis usadas em jornalismo de externas, mas com padrão profissional, obviamente, usando VT U-Matic, uma fita profissional com qualidade muito acima das VHS caseiras que já existiam no mercado há anos.

A ideia era praticar a clássica dublagem, como se estivéssemos num programa de TV, com a diferença de que pelo menos o Zé Luiz pode simular a performance numa bateria de verdade, aliás a dele mesmo, visto que nas infames dublagens de TV, o baterista era sempre o maior prejudicado com a clássica e triste atuação mediante uma caixa e um prato tão somente. A produção foi hiper enxuta, mas simpática o tempo todo conosco. Era uma equipe reduzida, contendo o cinegrafista; o diretor, e um cabo-man apenas, fora a maquiadora, mas essa estrutura da maquiagem fora feita na sala onde todo o cast da TV Cultura usava tal serviço, portanto essa profissional não estava à nossa disposição, exclusivamente. O próprio diretor tratava de soltar o play no micro P.A. que foi montado para ouvirmos a canção, e podermos fazer a "micagem" toda.

Terminado o processo, por volta das 14:00 h, disseram-nos que agora era esperar o pessoal da edição trabalhar. Como esse clip era um encaixe camarada que fizeram para nós, é claro que a ilha de edição da emissora e o profissional envolvido só trabalhariam nele em horário alternativo, e claro que a prioridade era o trabalho normal da casa com seu jornalismo, programas etc. Nem precisava ter avisado-nos, pois era óbvio que seria nesses termos e estávamos preparados para uma espera razoável e como era tudo gratuito e feito na maior camaradagem, claro que era justo aceitar tais condições. Fora isso, estávamos tão animados com a produção do outro clip, apesar de toda a aura amadorística que envolvia-o, que achávamos que esse clip produzido pela TV Cultura, era um acréscimo repentino e dessa forma, o encarávamos como um verdadeiro "bônus", portanto, nossa expectativa maior era a conclusão do clip de "Saudade", e os preparativos para o show no Ginásio do Palmeiras, que aproximava-se.

Mais ou menos em maio de 1986, fomos avisados que o clip estava pronto e que seria exibido pela primeira vez no próprio jornalismo da Cultura, o que era muito exótico para nós. Por essa não esperávamos e foi uma grata surpresa, pois vimos o clip sendo apresentado como reforço de uma pauta sobre a situação na África do Sul, o que deu um status diferente para a música; o clip e para nós mesmos enquanto banda. Claro, posteriormente foi exibido muitas vezes nos programas mais adequados da casa, direcionados à música e cultura, como "Som Pop" e "Panorama", mas que foi legal assisti-lo no Jornal da Cultura, claro que foi.

Na edição final, ficou exatamente como esperávamos, com a banda fazendo sua performance fictícia, intercalando-se com imagens da situação tensa na África do Sul, usando imagens do jornalismo internacional, via agências de notícias tradicionais do jornalismo internacional, tipo Reuters e API. Não faço nem ideia de como são as normas de direitos autorais nessas condições de uso de imagens do jornalismo dessas agências. Mas se usaram, e em se tratando de uma emissora oficial e ainda por cima estatal como era (é), a TV Cultura de São Paulo, claro que tinham o respaldo jurídico que dava-lhes a segurança para usarem sem problemas. Portanto, duvido que tenham pago alguma taxa para habilitar direitos, e jamais tal assunto foi ventilado conosco.

Enfrentamos um probleminha com esse clip, no entanto. Achávamos, inocentemente, que poderíamos usá-lo em outras emissoras. Conversamos com o staff da TV Cultura e da parte deles, não havia restrição, mas eles mesmos advertiram-nos que dificilmente outras emissoras veiculariam-no, por ter sido uma produção feita pela TV Cultura. Não era uma regulamentação jurídica e formal nesse sentido, mas veladamente, ninguém aceitaria, fomos avisados...
Teimosos, solicitamos cópias U-Matic para tentar abordar outras emissoras, mas infelizmente constatamos na pele o que haviam preconizado, pois o clip só foi veiculado mesmo na TV Cultura, infelizmente. Técnica e esteticamente falando, ficou muito simples, eu sei disso. Estava a anos-luz de vídeo clips luxuosos, portanto caros, que as bandas mainstream do BR-Rock 80's em voga possuíam aos montes, difundindo suas respectivas carreiras, mas era o melhor que pudemos fazer e a partir daí, tínhamos um vídeo clip enfim, o sonho de consumo de qualquer artista nos anos oitenta.


Eis o Vídeo Clip de "Sun City", cuja produção descrevi acima.
Ainda incomoda-me o lixão... e sempre incomodará, pois definitivamente não associo o Rock aos escombros...

http://www.youtube.com/watch?v=2cz_mZleBSo




Muitos anos passaram-se, e um novo vídeo clip de Sun City surgiu na internet, produzido por um rapaz chamado Will "Dissidente".
Esse rapaz tornar-se-ia um verdadeiro historiador da carreira da banda, criando o Blog Chave do Sol, que considero o maior museu virtual sobre a carreira da banda, na Blogosfera. Em 2009, editou por sua iniciativa um novo vídeoclip da música "Sun City". Utilizou o áudio da gravação oficial do LP The Key" e na minha opinião, sua edição é muito mais interessante que a edição da TV Cultura no primeiro clip. Além de ter tido a grande sacada de colocar a letra da canção como legenda, a utilização de fotos significativas do problema em questão, do Apartheid, foi muito feliz.

Will "Dissidente", que além das atividades virtuais, também costuma apresentar shows de Heavy-Metal em São Paulo e Minas Gerais, principalmente

Will não usou nenhuma imagem do vídeo clip original, e foi sábio nessa escolha, para evitar problemas com a TV Cultura. Mas com isso, não privilegiou o baterista Zé Luiz, que ficou alijado desse clip, que mostrou o Ivan Busic, em proeminência pelo fato dele ser o baterista mais presente no LP The Key. Outro pequeno vacilo foi mostrar imagens da Chave ao vivo, mas na fase de sua dissidência e sem o Rubens, portanto, com Eduardo Ardanuy na formação, mas por favor encarem essas ressalvas como crítica construtiva, pois reconheço que o promo é agradável, e encaro-o como um presente do abnegado Will, um jovem pelo qual tenho grande admiração pelo seus esforços em preservar a memória da banda, com o sensacional Blog A Chave do Sol, que mantém com grande entusiasmo.
Segundo Vídeo Clip de Sun City - 2009 : 

http://www.youtube.com/watch?v=M3J7LX3NtIA


Concluído e já em exibição na TV Cultura, é claro que o clip de Sun City auxiliava-nos e muito na construção de nossa fama. Era um elemento a mais, somando aos nossos esforços que vinham de uma luta de quatro anos. Nessa altura, o telefone estava tocando com frequência e na ausência de um escritório de representação realmente profissional, virávamo-nos como podíamos para não desperdiçar oportunidades. Muitos dos contatos que apareciam, eram via Luiz Carlos Calanca. Através da gravadora Baratos Afins, muita gente procurava-nos com propostas de shows; agendamento de entrevistas; produção de Rádio e TV; e também propostas malucas, como muitas que já revelei anteriormente.

Todavia, faltava-nos um manager, um empresário de estrutura, carisma e contatos, que impulsionásse-nos de fato. Nossa experiência com empresários era péssima até então. Lidamos com gente em condições de empreender, mas que não enxergou potencial em nós; aventureiros completamente despreparados, e até lunáticos. Particularmente, o meu sonho de consumo era contar com Jerome Vonk como nosso manager. Minha experiência artista / empresário com sua condução no meu tempo de Língua de Trapo era exemplar, e eu projetava a expansão da Chave do Sol em caráter definitivo no mainstream, com seu trabalho a nosso favor.
Mas isso nunca ocorreu, e hoje em dia é claro para a minha percepção que ele jamais enxergou potencial pop na banda, e daí a sua recusa em vestir a nossa camisa. Agora, a aposta era nessa dupla de jovens que sinalizavam ideias e dinamismo para concretizá-las. O show no Ginásio do Palmeiras seria realizado com um porte que credenciava-nos nesse sentido, aparentemente.
Então, estávamos pagando para ver, e a produção corria nesse mês de abril de 1986...


Independente dessa dupla de jovens empresários firmarem-se e trabalharem conosco, tomamos uma resolução interna. Pensamos em criar uma espécie de autogestão empresarial, abrindo espaço para pequenas autoproduções, que poderiam correr em paralelo, independente de dar certo ou não com esses rapazes, ou outro manager que aparecesse. Como disse anteriormente, estávamos muito apreensivos quanto à demora em não arrumar alguém legal ou minimamente esperto para aproveitar o "momentum" da banda, portanto, resolvemos dar esse passo, internamente falando.
E a primeira ação que tivemos nesse sentido, foi a de produzir um show no interior de São Paulo, uma semana depois do show que faríamos no Palmeiras, na capital.

Era uma oportunidade para testar a nossa capacidade de autogestão, e não foi à toa que escolhemos a cidade de Bragança Paulista, no interior de São Paulo, para fazer esse show teste de autoprodução. Em primeira instância, claro que parecia loucura produzir um show fora de São Paulo e era mesmo. Contudo, tínhamos fortes indícios de que uma produção ali seria uma "barbada", em termos de perspectiva de lograrmos êxito. Por que ?
Primeiro porque havíamos feito um show em 1985 naquela cidade, e constatamos que tínhamos muitos fãs locais. O segundo ponto, era que havíamos feito dois shows na cidade vizinha também, Atibaia, no ano de 1984, e lá também havia um público rocker.

Em Atibaia tínhamos o apoio de um fã abnegado, chamado Hélcio, que inclusive citei muitas vezes quando comentei fatos de 1984, muitos capítulos atrás. E outro fator, em Bragança Paulista, não seria diferente nesse aspecto de apoio local, com o apoio de um grande fã, que tornou-se amigo e roadie da banda, logo a seguir, ainda em 1986, o saudoso Eduardo Russomano. Russomano morava em São Paulo, mas sua cidade natal era Bragança Paulista e lá, conhecia a cidade inteira, principalmente a comunidade rocker da cidade. Indo além, conhecia rockers da cidades vizinhas, também, como Atibaia; Socorro; Piracaia, e Extrema, esta no estado vizinho de Minas Gerais, pois ali em Bragança Paulista, é muito perto da fronteira entre os dois estados, São Paulo e Minas.
Então, baseado nesses fatos, achamos que seria uma experiência boa testar a nossa capacidade autogerencial, e resolvemos bancar a essa loucura...

Para tanto, criamos uma "empresa" e se a experiência desse certo, daríamos o passo para legalizá-la em todos os trâmites governamentais; cartorários; e fiscais, tornando-a o nosso escritório próprio de gerenciamento. Se arrumássemos um empresário de maior envergadura e claro que essa era a nossa meta, o escritório próprio ficava no estado de suspensão, mas sempre estaria a postos para entrar em ação, em qualquer missão. Na verdade, o escritório já existia... todas as ações do fã clube eram tocadas por eu e Zé Luiz, e usávamos as instalações do consultório dentário do pai dele, em Pinheiros (zona oeste de São Paulo), que tinha em anexo, uma estrutura de escritório, com arquivos, máquinas de escrever e material de papelaria a vontade para usarmos, numa gentileza de seu progenitor. Com tal estrutura, não só gerenciávamos o fã-clube, como as ações de divulgação da banda saíam dali, na falta de uma assessoria de imprensa profissional. Então, a estrutura para o escritório de representação já estava lá, montado, e em pleno uso, desde 1983...

Dessa forma, eu e Zé Luiz criamos o "Núcleo ZT", um nome fantasia que designava por iniciais os nossos nomes, prosaicamente falando, é claro, pois "Z" era de "Zé" e "T", de "Tigueis" (aquele apelido infeliz pelo qual era conhecido naquela época...).
Abrindo um parêntese, acho oportuno, como constatação, deixar essa observação histórica : entre janeiro e abril de 1986, não fizemos shows, mas..

1) Preparamos uma demo tape com seis músicas inéditas;
2) Filmamos um clip para a música "Saudade";
3) Filmamos e lançamos o Clip de "Sun City";
4) Envolvemo-nos na produção do show no ginásio do Palmeiras;
5) Criamos o "Núcleo ZT";
6) Começamos a produção do show em Bragança Paulista;
7) Fomos ao Rio de Janeiro abordar gravadoras majors com a demo em mãos;
8) Continuamos trabalhando fortemente no fã clube (e aliás, preciso em breve abrir um parêntese para falar com detalhes sobre a criação do informativo do fã clube, que fez barulho entre fãs !!);

Em suma : trabalhamos intensamente...

 
Com o apoio do amigo / fã / roadie, Eduardo Russomano, mobilizamo-nos, e sua primeira dica foi sobre uma pequeno salão pertencente a uma associação cultural formada por descendentes de japoneses. Segundo o Russomano, a localização era muito boa, próxima do centro da cidade de Bragança Paulista, e tinha uma vantagem, aliás duas :
1) Ele conhecia pessoas da diretoria de tal associação e;
2) Sabia de antemão que o aluguel ali era barato.

Com tal afirmativa, fechamos com a Associação Nipo-Brasileira o aluguel do seu salão de festas e checamos orçamentos de P.A. e luz na região. Se fosse da própria cidade, melhor ainda para minimizar custos. Fechamos um apoio na emissora de rádio local, sem ônus, com chamadas grátis, em troco de patrocínio, nos cartazes e faixas que mandaríamos fazer e espalhar pela cidade.

Em São Paulo, eu conversei com o Calanca, e consegui apoio da Baratos Afins, que viabilizou uma verba, e assim pagamos a despesa de gráfica para confeccionar o material. As faixas, mandamos fazer na própria cidade, e obviamente que eles tinham todo o esquema para colocá-las nos principais pontos da cidade.
Parecia tudo azeitado e esperávamos uma bilheteria forte que cobriria a despesa com o equipamento alugado, a nossa viagem e pequenas despesas com alimentação. O Zé Luiz foi duas ou três vezes até Bragança Paulista no mês de abril (fora a viagem para o Rio !), de moto, onde amarrou toda a produção e entregou o material de cartazetes ao amigo Russomano, que prontificou-se a espalhá-lo com seus amigos da cidade.

Parecia uma produção que daria um impulso ao Núcleo ZT, e aconteceria logo depois do show no Ginásio do Palmeiras, portanto pegando-nos novamente num embalo de apresentações. Mas corroborando a máxima que sempre cito, "o telefone estava tocando" para nós, nessa época...

Por exemplo, mais um convite para participarmos do programa "Realce", da TV Gazeta de São Paulo. Aconteceu no dia 17 de abril de 1986. Desta vez, foi ainda mais hilária a nossa participação, pois antes de entrarmos no cenário, o Sam estava gravando uma entrevista com duas garotas que eram modelos. Falavam sobre sua carreira etc e tal, e claro, eram lindas e muito insinuantes em seus trajes que valorizavam-lhes as suas curvas femininas. Quando acabou a gravação delas, o Sam naqueles seus improvisos malucos e repentinos, pediu para que elas participassem da nossa gravação, e elas aceitaram... o que fariam ??
Pois é, foi hilário dublar com as duas dançando aquelas “pauleiras”, sem a menor noção, claro, por não estarem acostumadas com Rock pesado...
Digno de nota, no camarim do estúdio da TV Gazeta, encontramos com o pessoal do “Ira”, que também gravaria participação no programa. Infelizmente, não existe registro em vídeo dessa aparição. Se surgir uma cópia, obviamente que posto-a no You Tube, imediatamente.




E mais convite inesperado e irrecusável novamente colocou-nos numa espécie de situação indelicada. Uma nova versão do evento conhecido como "Praça do Rock" ocorreria. Mas seria em outro espaço, pois os moradores do entorno do Parque da Aclimação fizeram abaixo assinado, e com a intervenção de políticos famosos do bairro (até deputado federal intrometeu-se na questão), pressionaram a prefeitura e dessa forma, o evento fora cancelado naquele seu espaço tradicional.

Mas seus abnegados produtores não conformaram-se e mediante pressão na Secretaria Municipal de Cultura e na Paulistur (o departamento de eventos turísticos & culturais da Prefeitura de São Paulo), trataram de achar uma solução, ainda que amargassem um hiato de meses sem a realização do evento, esperando a burocracia oficial tomar uma posição. Então, ficou determinado que a nova versão da "Praça do Rock" realizar-se-ia doravante no Parque do Carmo, um imenso parque público (muito maior que o Ibirapuera que já é gigante), localizado no bairro de Itaquera, na zona leste de São Paulo.

O produtor Antonio Celso Barbieri, que costumava apresentar as edições da "Praça do Rock", quando realizadas no Parque da Aclimação
 
Bacana terem lembrado-se de nós, e convidado-nos para fazer parte dessa nova fase do evento, em casa nova. Mas o tal constrangimento estava concretizado, pois a data do evento era um dia após o show do Palmeiras, portanto, o nome da Chave do Sol constando da divulgação desse evento, seria um constrangimento para nós, perante os produtores do show do Palmeiras. Isso porque era óbvio que esse show da Praça do Rock fora marcado bem depois, e nós sabíamos que eles ficariam bravos conosco, porque todo o empenho era em pró de desse show, e não tinha cabimento empenharmo-nos em divulgar o outro, que era gratuito. Enfim, repetimos a mesma situação de 1985, quando tocamos num sábado no Sesc Pompeia, e no domingo fizemos a Praça do Rock com entrada gratuita. Falo agora sobre o show no Palmeiras, e retomo essa história da Praça do Rock e de Bragança Paulista, na sua cronologia, a seguir.


Mesmo envolvidos com diversas frentes de trabalho simultaneamente, não perdemos de forma alguma o foco no show que faríamos no Ginásio do Palmeiras. Pelo contrário, estávamos bastante motivados e acreditando que os sucesso de um show desse porte, abriria muitas portas para nós, e quiçá sedimentaria a parceria com a dupla de empresários. Queríamos mais é que eles prosperassem, e de fato seu escritório crescesse ao ponto de investir em nós, gerenciando a nossa carreira. Então, apesar de estarmos envolvidos em tantas coisas simultaneamente, claro que o foco maior era nesse show do Palmeiras nessas semanas que antecederam-no, no mês de abril de 1986.

Bem, no "Brainstorm" inicial, muitas coisas mirabolantes foram colocadas, mas é evidente que não reuniam condições de concretizarem-se. É simples a equação : sem dinheiro, sem delírios...
Portanto, ter outdoors de grande porte; chamadas em emissoras de Rádio e principalmente na TV, era impossível. Sendo assim, dentro de uma realidade plausível, respaldada pelos pequenos patrocinadores arregimentados, ao menos o trivial foi providenciado, com filipetas; cartazetes, & lambe-lambe.

Nos anos oitenta, ainda era possível mandar notas para as redações dos grandes jornais mainstream e obter êxito, mesmo não tendo por trás a estrutura de uma assessoria de imprensa profissional, dessa forma, muitas notas saíram nos jornais mais importantes de São Paulo, fora publicações de menor porte e na imprensa especializada, e claro que comemoramos esse reforço. Apesar de estar marcado para um dia que emendava-se a um feriado prolongado, tínhamos a informação que o evento estava bem comentado e que ingressos antecipados estavam sendo vendidos em bom número.

Tinha tudo para ser um bom evento, e de fato, o foi...
Chegando a semana do show, estávamos bem ensaiados e motivados para o espetáculo. Paralelamente, tínhamos equacionado as outras frentes de trabalho e estávamos tranquilos para o show da semana seguinte em Bragança Paulista, nossa primeira aventura do "Núcleo ZT", mas não a primeira vez que aventurávamo-nos na autoprodução, pois em 1983, já havíamos feito isso (relatado com detalhes, muitos capítulos atrás). Fomos para o Ginásio do Palmeiras no horário combinado para a realização do soundcheck e lá montamos rapidamente o equipamento de palco. O P.A, contratado era de porte, e de uma empresa fidedigna do mercado, portanto ficamos tranquilos por verificar que som e luz seriam de qualidade.

Mas o backline no entanto, não era alugado, portanto, o arranjo foi em ritmo de cooperativa, com as quatro bandas unindo-se e fazendo o backline comunitário com os melhores amplificadores e bateria possíveis. No caso da bateria, nem era o caso de ser a melhor, mas optou-se pela permanência de uma bateria de Kit grande, pois era uma necessidade de outras bandas, e o Zé Luiz aceitou usá-la, apesar de tradicionalmente usar um Kit simples, com dois tons e um surdo apenas, na carcaça básica.

Fora disso (e não foi nada problemático para ninguém), o palco ficou adequado para todos, sem insatisfações da parte de nenhuma banda. E de fato, o clima era de muita camaradagem entre as bandas, portanto, não haveria de ser de outra forma. O telão previsto estava providenciado. Na antesala do show, seriam exibidos vídeos de bandas internacionais apreciadas pela maioria, e eu comemorei internamente o fato de que haveriam várias setentistas, visto que a tendência seria a de exibir vídeos de bandas modernas de então, e voltadas ao Heavy-Metal. Tudo parecia estar azeitado, e não posso deixar de mencionar que tive meu Deja Vù pessoal ali dentro daquele grande salão de festas...

O Boca do Céu, minha primeira banda, em foto de 1977, com a formação que tocou no Festival Fico, no Palmeiras, nesse referido ano. 

Isso porque significava muito para a minha percepção estar apresentando-me com uma banda autoral naquele espaço, visto que apenas nove anos antes, eu era um sonhador adolescente apresentando-me ali, em duas eliminatórias do Festival FICO, de 1977, com minha primeira banda o Boca do Céu (história amplamente contada no capítulo dessa banda). Eram tempos desbravadores e mágicos. Ao mesmo tempo em que engatinhava na música, sob todos os aspectos, eram os últimos momentos da vibe Hippie que ainda ecoava por aqui no Brasil, sob a chancela do atraso. Então, embalado pelo sonho "sixties" anacrônico, lá estava eu naquele salão, em 1977, ambicionando ser um rocker, mas lutando contra os meus parcos recursos técnicos. Eu era apenas um sonhador com muita vontade de mergulhar nesse universo, mas sem nenhuma condição técnica minimamente razoável, e desprovido de talento bruto e nato. Era pura vontade, só isso...

                          Luiz Domingues, em foto de 1978
 

Portanto, bateu-me uma emoção interior, enquanto andava naquelas dependências nessa tarde de maio de 1986, pois agora eu sabia tocar, tinha uma banda que estava fazendo sucesso (claro, dentro dos parâmetros do underground, tinha a plena consciência disso), e estava ali para fazer um show com um público 100% interessado em ouvir-me, e não um Festival Colegial como um ilustre desconhecido, e pronto a ser hostilizado por cinco mil adolescentes mal intencionados e exclusivamente preocupados em praticar bullying coletivo contra qualquer um que subisse naquele palco. Era uma vitória e tanto para quem só tinha um sonho em mãos, e senti-me muito bem nessa breve e secreta epifania que tive ali, naquela tarde...
Mas nem tudo eram flores... e ainda nas dependências do Palmeiras, fui vítima de um pequeno Bullying...

Bem, após realizarmos nosso soundcheck, resolvemos dirigirmo-nos à lanchonete interna do clube, normalmente só frequentada pelos sócios do mesmo. Estávamos acompanhados de outros músicos de outras bandas, menos o pessoal do "Abutre", que estava no seu soundcheck naquele instante. Aproximamo-nos da lanchonete, e enquanto fazíamos pedidos ao garçom, ouvimos um grupo de mulheres falando alto propositalmente, para que ouvíssemos : -"este clube já não é o mesmo... olhem os tipos que deixam entrar aqui"...

Ninguém respondeu e continuamos comendo; bebendo, e conversando animadamente entre nós, e de fato, que coisinha triste ouvir desaforos gratuitos daquelas senhoras pequeno burguesas... o que melhor poderíamos ter feito, fizemos, ou seja, ignoramos retumbantemente a provocação. Encerrado o lanche, voltamos ao salão de festas, não sem antes ver de longe a fila, que já era enorme, formada por fãs das bandas que já aglomeravam-se no portão principal do Parque Antártica, na rua Turiaçu (hoje em dia, Rua Palestra Itália).


Nesse momento, o presidente do Palmeiras na ocasião, Nelson Duque, passou por nós e foi à portaria, acompanhado de seguranças. Pudemos ouvir muita gritaria quando ele foi visto pela multidão, e logo um improvável coro irrompeu, quebrando toda a ideia de que aquele bando de cabeludos ali supostamente interessados em assistir um show de Rock, não acompanhassem o futebol, pois começaram a gritar : "Presidente, não vende o Mirandinha"...

Tratava-se de um atacante que jogava no Palmeiras naquela ocasião, e naquele momento estava gerando polêmica na imprensa, porque estavam especulando a sua venda à um clube do exterior. 
Foi muito surpreendente ouvir tal coro, pois não obstante o fato de que acompanhavam futebol, denotava que havia muitos palmeirenses na fila. Realmente o Mirandinha não saiu do Palmeiras naquele momento, mas logo a seguir, foi parar no clube  Newcastle, da Inglaterra...
 

Já começava a escurecer, e recolhemo-nos aos camarins. A primeira banda da noite foi o "Salário Mínimo", e por uma passagem reservada, conseguimos sair do camarim para assistir um bom pedaço do show deles num camarote reservado para a produção do show. A carga do público ainda não era máxima quando tocaram, mas era bastante significativa, e ficamos animados por verificar que o fluxo de gente chegando não parava, denotando que teríamos um ótimo público nessa noite. O som e a luz estavam bons, e o palco estava bonito, mesmo com o backline "Frankenstein" que foi montado na base da cooperação entre as bandas.

Voltamos para o camarim e começamos a arrumarmo-nos ainda com o "Abutre" no palco, e ainda haveria o show do "Centúrias" para aprumarmo-nos. Nesse show, teríamos uma novidade sensacional. O irmão do Beto Cruz, o baixista do "Harppia", Marcos Cruz, era um experiente vendedor de instrumentos vintage no mercado paulistano naquela ocasião, e havia oferecido uma guitarra Gibson SG de dois braços, ano 1966, para o Rubens. A vontade de comprar era imensa, e a torcida da banda para que ele adquirisse-a, idem, mas era uma "nota preta", e o Rubens não poderia comprá-la naquele momento.


Mas, mesmo assim, o Marcos emprestou-a para que o Rubens usasse-a no show. Claro, a guitarra ficou por volta de dez dias nas mãos do Rubens, e ensaiamos com ela para que ele adaptasse-se.
Era para tocar "Um Minuto Além" e "Crisis (Maya)", apenas, com o restante do show sendo conduzido pelas guitarras usuais do Rubens, naturalmente. Mas confesso, o som da Gibson, principalmente no braço de 12 cordas, era inacreditável, e os arpejos de "Um Minuto Além" soavam com um brilho incrível !!
Era como se a nossa música tivesse ganhado ares de "Stairway of Heaven", fora a beleza visual que ela ostentava, com aquela cor de vinho, lembrando a do Jimmy Page, exatamente. Depois de arrumados, só restava-nos esperar a hora de subir ao palco.


Quando entramos no palco, pudemos verificar que o público era muito bom e concentrado, coeso, formado por pessoas que eram realmente fãs, e estavam ali para ver as bandas do festival. Só a gritaria que fizeram quando entramos, já denotou isso fortemente e claro que estávamos motivados para fazer uma bela apresentação.
E foi mesmo... tocamos com muita garra, aproveitando todos os espaços do palco e com desenvoltura. "Um Minuto Além" tocada com a guitarra Gibson SG de dois braços, arrancou suspiros. De fato, a sonoridade dos arpejos nessas circunstâncias, ficou magnífica !! 

Áudio da nossa execução da música "Um Minuto Além", nesse show do Palmeiras. Captura de época: Claudio Cruz. Produção para Internet em 2015 : Will Dissidente e Edgard "Bolívia Rock".

Eis o Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=3Q5jl3SaoQQ

Fotos recentemente postadas na Rede Social Facebook, por um dos produtores desse festival em que tocamos no Palmeiras. Clicks; acervo e cortesia de Rene Mina Vernice

Além de "Um Minuto Além" que arrancou suspiros com essa sonoridade especial devido ao uso de uma guitarra de 12 cordas, "Crisis (Maya)", também ficou muito bonita com todo aquela sequência de acordes iniciais e finais, executadas com essa guitarra maravilhosa.


Mais fotos recentemente postadas na Rede Social Facebook, por um dos produtores desse festival em que tocamos no Palmeiras. Clicks; acervo e cortesia de Rene Mina Vernice

"O Que Será de Todas as Crianças ?", mesmo com aquele andamento equivocado, foi muito aplaudida pelo público, além de "Sun City".

Era um de nossos primeiros shows imprimindo um repertório completamente renovado, mas era extraordinário notar como tais músicas novas já caíram no gosto do público, quase que apagando da memória o peso pesado do repertório da fase do vocalista Fran Alves conosco, a não ser "Um Minuto Além", que continuava querida e muito pedida. O mesmo pode dizer-se em relação ao Beto como novo membro. Ao contrário da rejeição que o Fran sofrera, infelizmente, o Beto demonstrava ter um grau de aceitação muito grande, para não dizer total, e as opiniões que chegavam até nós, eram positivas, dando conta de que encontráramos enfim o vocalista adequado, após tantas mudanças.

Analisando com o famoso distanciamento histórico, digo que realmente chegamos perto do ideal como banda de aspiração pop visando o mainstream, com essa formação, e para corroborar essa tese, digo que existe um verdadeiro contingente de fãs da banda que acintosamente preferem essa fase Hard Rock, e outra que gosta do Trio Jazz-Rock, predominantemente. Poucos lembram com saudade da formação com Fran, e quase ninguém lembra-se dos primórdios pré-Fábrica do Som (e curiosamente, essa é a minha fase predileta...). Enfim, nesse show do Palmeiras, comemoramos uma grande performance, e animamo-nos com as perspectivas geradas pelo repertório e formação nova.

Estávamos com uma boa demo em mãos; perspectivas de shows; mais inserções de mídia, e o melhor de tudo : o telefone estava tocando !! Em breve falarei detalhadamente sobre as boas propostas que estavam surgindo com frequência muito forte, para nós. Encerrando o assunto Palmeiras, apesar de ter sido um ótimo show, os dois rapazes empresários amargaram um resultado financeiro não muito bom.

O fato, é que os patrocínios que haviam conseguido não garantiram a cobertura total das despesas arroladas. O resultado da bilheteria, com cerca de 2000 pagantes foi ótimo, mas nas expectativas deles, contavam com pelo menos 3500 pessoas para pagar tudo, e alavancar a próxima investida que queriam fazer numa cidade da região do ABC. Provavelmente teria acontecido no Clube Aramaçan, tradicional por receber grandes shows de Rock em Santo André (Até o Deep Purple já tocou lá). Enfim, diante desse quadro, os dois jovens recuaram e adiaram o projeto de continuidade. Estava postergado o show de Santo André, e o projeto dos quatro clips que estavam produzindo para as bandas, foi congelado momentaneamente, também. Mas o tempo foi passando e os dois rapazes foram adiando a conversa, até que pararam de ligar, e sumiram do mapa, denotando desistência absoluta do projeto.

Cerca de seis anos depois, A Chave do Sol já nem existia mais, e eu estava no Pitbulls on Crack em plenos anos noventa, quando o baterista do Centúrias, meu amigo Paulo Thomaz, ofertou-me uma cópia do show da Chave, com o copião bruto, sem edição de duas câmeras. Tal cópia chegou às suas mãos, com o material do Centúrias, e o nosso, e ele gentilmente deu-me uma cópia só com o material da Chave do Sol. São trechos cortados, sem edição, e em alguns momentos com falhas, mas é um registro. 

Foi assim o "Metal 4", onde tocamos para um público de 2000 pessoas aproximadamente, na noite de 3 de maio de 1986, um sábado de outono.

Eis abaixo o vídeo com 17 minutos de um copião bruto desse show da Chave do Sol no Palmeiras em 3 de maio de 1986. Produção de Rene Mina Vernice e William para a "Galeria Produções" e uma produção para a Internet em 2016, de Jani Santana Morales.

Eis o link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=AuwvAON9Jh0

No dia seguinte, teríamos outro show de grande porte para cumprir... Praça do Rock, com endereço novo, no Parque do Carmo, na zona leste de São Paulo.

Seria a nossa quarta participação em tal evento, mas desta feita ele seria realizado em outro endereço, pois a pressão dos moradores do bairro da Aclimação, foi forte e mediante abaixo-assinado e bedelho de políticos identificados com o bairro, onde vereador, deputado estadual, e até um deputado federal colocou a mão pesada em cima, ficou difícil para os organizadores manterem o simpático e histórico Parque da Aclimação como palco do evento.

Dessa maneira, a solução encontrada pela Paulistur (a empresa paulistana de turismo, subordinada à prefeitura de SP), foi deslocá-lo para o Parque do Carmo, localizado no bairro de Itaquera, na zona leste de SP. Por ser um parque gigantesco, com área maior que a do Ibirapuera, naturalmente que a tendência era de não incomodar a vizinhança, mesmo porque, o som de um P.A., mesmo com potência absurda para alimentar show de Rock internacional em estádios de futebol, mal era escutado no parque inteiro. Hoje, aquela região desenvolveu-se muito, mas trinta anos atrás (1986 / 2016), a locomoção era difícil para chegar ao parque. O metrô passava longe, e só restavam linhas de ônibus ou carros particulares / táxis para poder acessá-lo.

O equipamento que a Paulistur disponibilizou era digno, porém inadequado para a imensa área livre onde o público aglomerar-se-ia para assistir. Se realmente lotasse aquela área, receio que as fileiras colocadas mais longe do palco receberiam a carga sonora de um som embolado, fora de sincronia (graças ao "delay"), e de volume baixo, irritando as pessoas. O palco era bem simples, tratando-se de uma armação daquelas improvisadas e montadas para eventos de praça pública, notadamente pequenos comícios políticos. Não havia equipamento de iluminação, e a determinação era tocar com a luz natural do dia, tão somente. Eu não importo-me em tocar ao vivo, e ao ar livre sob a luz natural, mas claro que fazer um show com o recurso da iluminação é outro impacto, totalmente diferente, e evidente que vou preferir.

Enfim, era um "pegar ou largar" e nós julgamos ser bom aceitar como mais uma oportunidade de show / divulgação, com perspectiva de grande público. Como já observei anteriormente, havia um conflito instaurado por termos aceitado participar desse evento de caráter gratuito para o público, pela óbvia razão de que na noite anterior fizéramos um show no Palmeiras com cobrança de ingressos. Certamente que muita gente que esteve nesse show da Praça do Rock tenha optado por assisti-lo, e deliberadamente não foi ao Palmeiras para ver-nos, pagando. Contudo, haviam show de outras três bandas no Palmeiras, e no Parque do Carmo, tocaríamos com outras três diferentes, portanto, teoricamente o sujeito que economizou ao não ver-nos no Palmeiras, perdeu as outras bandas que não tocariam no domingo. O clima no Parque do Carmo estava bom quando chegamos. Confraternizamo-nos com o pessoal do Harppia do qual éramos amigos há tempos. Não lembro-me quem eram os membros da outra banda, "Expresso Paulista", no entanto.

Não havia tempo para um soundcheck decente, pois sendo parque público, quando mal os técnicos ainda terminavam de montar o P.A., já havia público a espreita, e ao menor sinal de som, mesmo os testes preliminares para afinação do estéreo do P.A., já tende a agitar, pensando que o show está prestes a iniciar-se, e essa euforia atrapalha muito o processo. Então, um ajuste mínimo e certamente insuficiente foi feito e logo pressionaram o "Expresso Paulista" a entrar no palco e começar a sua apresentação. Minha lembrança sobre o som dessa banda é bastante vaga, pois estava nos bastidores conversando com os amigos, e mal fui olhar o movimento por trás dos amplificadores. Remotamente lembro-me de que o som deles era anacrônico para os anos oitenta, mais parecendo influenciados pelos Rolling Stones, ainda que numa pegada mais modernosa de Jagger, Richards & Cia., parecendo o som da banda no Pós "Tatoo You". Para o meu gosto pessoal, claro que era um oásis ver alguém naquela década demonstrar gostar dos Stones, e não do Iron Maiden ou do New Order, mas se fosse o som dos Stones na fase do Black and Blue para trás, para o meu gosto pessoal teria sido muito mais agradável... enfim...

O Harppia tocou a seguir e um pouco antes deles entrarem no palco, vimos o ônibus do "Metalmania" chegando. Era a banda do Robertinho do Recife, um tremendo guitarrista, que fora side man de inúmeros artistas legais da MPB setentista, e agora tentava impor-se como guitarrista de Heavy-Metal. Era exótico para todo mundo, ver alguém que habitava o mundo mainstream ainda que como sideman, tentando emplacar num outro mundo que notoriamente estava no underground, mas por outro lado, era até uma esperança de dias melhores para nós que vivíamos em tal patamar inferior, ver que alguém que vinha de cima estava apostando nessa perspectiva do Rock pesado.

                    O Metalmania de Robertinho do Recife & Cia.

Naquele momento, achamos a postura dele e da banda, arrogante, todavia, pois permaneceram dentro do ônibus, parecendo não querer confraternizar-se conosco. Só o empresário e roadies passaram a circular, checando equipamento e demais pormenores, e nitidamente demonstrando que os componentes da banda só desceriam do veículo na hora de subir ao palco. Vendo hoje em dia, acho a postura normal, pois não havia uma estrutura adequada de camarim para os artistas, e usar o seu ônibus próprio como refúgio, não tinha nada demais. Anos depois, fiz isso muitas vezes quando estava como membro da Patrulha do Espaço, aguardando para tocar em situações onde o nosso próprio ônibus era o lugar mais seguro e confortável possível.

O vocalista do "Metalmania", Luciano, ou "Lucky Luciano, como queiram, que tornou-se meu amigo no Rio de Janeiro, anos depois

Reforçando, cerca de quatro anos depois, tornei-me amigo do vocalista do Metalmania, Luciano, por conta dele ser namorado de uma amiga da minha namorada na ocasião, e muitas vezes  reunimo-nos para ouvir um som na casa da minha namorada, e prosear por horas a fio. E aí, constatei que o amigo era gente boa, não tinha nada de arrogante, e aquela postura era absolutamente normal. O Harppia saiu do palco e nossos amigos reclamaram muito da monitoração. Se esse quesito é complicado até quando faz-se um soundcheck eficiente e o técnico é da sua própria equipe, o que dizer de shows coletivos sem soundcheck, e com a operação a cargo de um técnico estranho ? É óbvio que o sujeito vai deixar tudo "flat" e montar um monitor muito "meia boca", sem chance de ficar arrumando no meio do seu show, mesmo que você peça para ele tomar alguma providência emergencial.

E assim foi o nosso show, com bastante dificuldade de monitoração. A nossa sorte, ou melhor, o nosso grande trunfo, era que a Chave do Sol era uma banda que tendia a não errar ao vivo, pois ensaiava muito. Estávamos sempre em excelente forma e seguros, portanto, mesmo sob condições insalubres de som, era raro ficarmos perdidos ao vivo. Na raça e na resignação, fizemos o show e arrancamos aplausos do público. Claro que a maioria ali presente era fã de Heavy-Metal, mas havia bastante fãs da Chave do Sol e nesses termos, foi uma plateia muito bacana, mesmo que não eufórica, como houvera sido na nossa participação anterior no evento, em 1985, ainda com a presença do vocalista Fran Alves na formação.
Essa nova edição da Praça do Rock em outro parque, teve curta duração pois a proposta com quatro bandas no evento, e toda a produção pressionando para terminar antes do início do crepúsculo, foi determinante para que cada banda fizesse um show de choque.
E não ficamos para ver o Metalmania, pois ficamos chateados com a postura deles que julgamos arrogante nos bastidores. Hoje eu sei que não tem nada a ver, e mesmo no início dos anos 1990, já pensava dessa forma, e contando essa história para o Luciano, demos boas risadas juntos sobre tal fato. E assim foi a nossa participação pela quarta vez no evento "Praça do Rock". Seria na verdade a última vez que participaríamos. No ano de 1987, houve a cogitação de uma quinta participação, mas que  acabou não concretizando-se. Bem o que relatei ocorreu então no dia 4 de maio de 1986, no Parque do Carmo, localizado no bairro de Itaquera, zona leste de São Paulo. Segundo estimativa da Polícia Militar, haviam cerca de 5000 pessoas presentes no local. Mas como a área era gigantesca, parecia que havia pouca gente, pela dispersão em proporção ao vasto campo. Infelizmente, não tenho nenhum material referente ao show do dia seguinte, no evento Praça do Rock, realizado em 4 de maio de 1986, no Parque do Carmo, em Itaquera, zona leste de São Paulo.


O telefone tocava... como já salientei outras vezes e perspectivas novas surgiam. Recebemos um convite muito bom da Editora Três, que editava a famosa Revista Som Três, e diversas publicações sazonais sobre música e o Rock em específico, como desdobramentos de seu carro chefe. Eram os famosos posters de bandas de Rock clássicas, que muita gente que viveu a década de oitenta, há de recordar-se.

Para a minha sorte em particular, apesar de estarmos em pleno 1986, no olho do furacão oitentista, a Som Três privilegiava bandas clássicas setentistas e quando enfocava as coisas "modernas" de então, pendia para o Rock pesado ao invés da tendência natural que seria de enaltecer o Pós-Punk, que ditava as regras naquela década.
O Rock internacional mainstream predominava, mas houve um poster desses que foi parar nas bancas de jornais e revistas, onde duas bandas brasileiras com raízes anos anos 1960 e 1970, foram prestigiadas, o Made in Brazil e a Patrulha do Espaço. Dessa forma, resolveram dar nova investida no Rock pesado, desta feita falando de bandas brasileiras oitentistas que estavam em voga, e A Chave do Sol foi uma das bandas sondadas para aparecer em tal publicação.

Daí a concretizar-se teve um tempo de algumas semanas, mas só o fato do telefone ter tocado, já era genial, denotando que em 1986, o esforço empreendido desde os primórdios da banda em 1982, estavam finalmente levando-nos à colheita. No momento oportuno falo sobre o making off da sessão de fotos desse poster. O próximo passo foi o show no Clube Nipo-Brasileiro de Bragança Paulista, no interior de São Paulo. Seria o teste de fogo do "Núcleo ZT" !!

De fato, não poupamos esforços para fazer dessa experiência de auto produção, um sucesso. Com a verba que tínhamos, graças ao patrocínio concedido pela Baratos Afins, conseguimos enfim fazer um material que julgávamos suficiente para promover o show na cidade de Bragança Paulista. Tínhamos faixas nos pontos cruciais do centro, e no entorno do grande lago que é famoso na cidade, além de cartazetes nos locais estratégicos, selecionados a dedo pelo nosso colaborador, Eduardo Russomano, que era da cidade, e sabia exatamente onde chamariam a atenção do público alvo que iria ao show, potencialmente.

O Zé Luiz foi várias vezes à cidade, amarrar contatos de produção e conseguira uma entrevista na emissora de rádio local e testemunhais
na sua programação. Verificamos a agenda da cidade, e não haveria nenhum show de Rock concorrente na cidade, nem mesmo atrações pop de mainstream ali, ou nas cidades vizinhas naquela noite. E a previsão de meteorologia era de tempo bom, para a noite do sábado em que tocaríamos. Portanto, cumprimos todo o "caderno de encargos" de um bom produtor de shows, sem nada que pudéssemos arrependermo-nos posteriormente e que justificasse um fracasso de público para essa produção... mas...



Chegamos à cidade de Bragança Paulista na tarde do dia do show.
O cronograma estava todo certinho e tudo correu como o combinado, com o clube aberto, o pessoal do PA. e luz contratados trabalhando em seu interior, e as faixas espalhadas na cidade, intactas. Apesar de ser uma tarde fria de outono, o tempo era bom e o sol predominava, não dando-nos nenhum indício de que poderia chover. Deixamos nossos instrumentos no local com os roadies Edgard Puccinelli Filho e Eduardo Russomano, que a partir desse show acompanhar-nos-ia dali até 1987, com regularidade, e fomos para a emissora de rádio local, onde demos uma rápida entrevista ao vivo e reforçamos o convite para o público de Bragança Paulista acompanhar-nos mais a noite. Na passagem de som, tudo ocorreu com normalidade, com apenas um acidente a ser registrado.

Como já explicitei diversas vezes, desde os primórdios da história da Chave do Sol, o Zé Luiz era o nosso coringa para qualquer tipo de serviço emergencial. Sua capacidade criativa de dar um jeito em tudo, era notável. Desta feita, na falta de uma verba para elaborar um cenário que quebrasse a rudeza estética do salão daquele clube, resolvemos levar o cenário que havíamos elaborado para os shows de lançamento do EP, meses antes, no Teatro Lira Paulistana de São Paulo, com exceção do painel do Ser Humano masculino nu, que realmente não passava a ideia pura de humanismo que imagináramos, mas num país de mentalidade lasciva, era objeto pronto para chacotas que desviavam o foco de nossos propósitos, digamos assim...
Então, a ideia era usar a parte que dava formato de fechadura, com elevações de uma instalação simples de cunho cênico, mas que dava um belo efeito visual e simbólico ao show. E quem sabia instalar aquilo ?

Pois lá estava o Zé Luiz pendurado numa enorme escada de pintor de paredes, trabalhando com uma furadeira, quando um dos roadies foi buscar o tecido, enrolado numa enorme bobina de papelão.
Ao apanhá-lo, descuidou-se e a cena que vimos foi bizarra, com a bobina desgovernada em suas mãos, batendo com contundência na escada e derrubando-a, sem chance de que evitasse-se tal desastre.

Lembro-me de ter gelado a minha espinha por ver naquela fração de segundos, o Zé sofrendo uma queda feia, e quiçá contundindo-se com gravidade. Mas ele teve um sangue frio extraordinário, pois ao sentir o impacto, largou a furadeira sem pestanejar e manteve-se equilibrado o suficiente para saltar quando a escada quase tocava o piso do palco, minimizando a queda. Sua experiência na Faculdade de Educação Física fizera-o aprender a minimizar quedas, sem dúvida. Então, nada de mais grave ocorreu, nem mesmo com a furadeira que ele jogou no solo, para evitar algo pior. Passado esse susto, o soundcheck foi tranquilo, embora no salão vazio, a reverberação tenha preocupado-nos, mas como sabíamos, na hora do show, com um bom público, tal tipo de dificuldade sonora sempre minimiza-se, pois muitos corpos humanos aglomerados, tendem, acusticamente falando, a abafar a reverberação natural de um espaço. Posto isso, agora era só descansar, jantar e esperar a hora do espetáculo...

Quando chegamos ao local do show, constatamos que havia poucas pessoas no local, a despeito da noite bonita que fazia, apesar de fria. E a temperatura baixa não era nenhuma desculpa, pois a pracinha próxima ao grande lago, estava abarrotada de gente jovem, incluso vários rockers que supúnhamos, iriam para o show a seguir. De fato, é tipicamente brasileiro deixar tudo para a última hora e em cidades interioranas de pequeno e médio porte, isso ganha a agravante de que todo mundo o faz deliberadamente, pelo fato das distâncias serem mínimas em cidades de tais dimensões.
Mas a nossa esperança de que o público aumentasse foi diminuindo na inversa proporção de que o tempo passava, e faltando pouco para o horário de início do espetáculo, não havia indícios de que a parca presença de público aumentaria.

E para piorar as coisas, o público presente era formado em sua esmagadora maioria por headbangers radicais, que muito provavelmente não tinham orientação alguma sobre o que era A Chave do Sol. Nem o repertório do EP de 1985, que foi onde mais chegamos perto do Heavy-Metal oitentista, chegava minimamente próximo do metal extremo que esperavam...

Era uma turma bastante agressiva, e antes do show começar, estavam espantando o tédio arrastando longas correntes no chão e usando-as eventualmente como chicotes para dar chibatadas nas paredes, produzindo um som horripilante, que faria Roger Corman  contratá-los imediatamente para trabalharem na sonoplastia de seus filmes de terror. Consultando nosso roadie, Eduardo Russomano, que era da cidade, fomos informados que aquela turminha era a dos "headbangers" radicais e costumavam ir em todos os shows de Rock produzidos na cidade, independente de serem de Heavy-metal ou não. Estava bem, era compreensível em se tratando de uma cidade interiorana, diferente da capital onde tem shows para todas as tribos e tendências, simultaneamente.
Mas, onde estava o público rocker de gosto mais moderado ?
Por que não chegavam se a cidade tinha essa tradição de ter um público significativo, e a nossa banda em específico, era querida ali ? Tais perguntas jamais foram respondidas, mas uma lição tivemos ali : o empreendedorismo sofre derrotas inexplicáveis, e no ramo da produção artística, muitas vezes fatos dessa monta acontecem.
Muitos fatores podem decretar o insucesso de um espetáculo : chuva; greves repentinas de transportes públicos; queda de energia elétrica; shows de grande apelo popular na mesma hora; último capítulo da novela na TV; final de um campeonato de futebol transmitida ao vivo na TV, etc etc. Mas na ausência desses fatores, e deixando claro que o preço cobrado no ingresso era extremamente acessível, qual a explicação para o nosso fracasso ???

Bem, alheios ao resultado de bilheteria aquém de nossas expectativas, subimos ao palco e demos o nosso recado com o profissionalismo acima de nossa decepção. Tocamos o nosso repertório normal, e sinto muito se frustramos os apreciadores de Heavy-Metal extremo que ali encontravam-se. Justiça seja feita, apesar de serem radicais e não muito preocupados em serem educados, não hostilizaram-nos, respeitando a nossa proposta muito "leve" para os seus padrões extremados. Sei que estou insistindo num lamento de fracasso de público desde que iniciei o capítulo, mas visto pela ótica atual, de 2016, o número de pagantes ali presentes não caracterizaria um fracasso propriamente dito. Digamos que esteve aquém do que esperávamos, sem dúvida, mas 120 pagantes não configurou exatamente um fiasco...

Bem, o show ocorreu no dia 10 de maio de 1986. A seguir, faríamos um show no Rio de Janeiro, que reputo ter sido histórico para a banda. E reforçando a máxima de que o "telefone estava tocando", fomos contactados para conceder entrevista para uma nova revista que entraria no mercado, e teria peso editorial, sem dúvida. E nada tinha a ver com o convite para fazer parte de um poster, editado por outra revista, da concorrência. Programas de TV e rádio chamavam-nos sem que os procurássemos, e a agenda de shows começara a aumentar, mesmo ainda não tendo um empresário eficiente para cuidar de nós...
Nessa metade de 1986, o "momentum" era excepcional. Acho que muito provavelmente foi o nosso pico como exposição midiática e gerencial. Artisticamente não foi o melhor momento da banda a meu ver, mas gerencialmente, acredito que sim. Dessa metade, até o final de 1986, acredito que foi o nosso auge como banda emergente que quase chegou ao mainstream, e daqui para frente, vou relatar vários fatos que corroboram tal impressão.


O fato do show de Bragança Paulista não ter tido o resultado que esperávamos, não desabonava o esforço empreendido pela produção, planejamento e logística do Núcleo ZT. Tudo o que estava ao nosso alcance, foi feito. Principalmente pelo Zé Luiz, que tomou a dianteira de toda a logística na cidade, mediante as dicas valiosas de nosso amigo Eduardo Russomano. O que ocorreu, então ?

Para ficarmos ainda mais irritados com o infortúnio, o Eduardo Russomano contou-nos que durante os dias posteriores, muitas pessoas abordaram-no em Bragança Paulista para perguntar-lhe se A Chave do Sol havia mesmo tocado no sábado...
Ora, esse fato real estava sendo tratado como um boato, e as pessoas lamentavam não terem sabido do show !!

Como isso era possível numa cidade interiorana, com faixas espalhadas pelo centro; cartazes nos pontos cruciais; chamadas na emissora de rádio local; matéria no jornal da cidade, e repercussão  "boca a boca" ?? Pois aprendemos uma lição importante nesse dia, e todo produtor de show sabe bem disso que estou falando : nem sempre ter todas as condições favoráveis garantem o sucesso da produção. Principalmente em cidades interioranas, existe esse imponderável, misterioso e incompreensível fator. Demos o azar supremo de enfrentá-lo logo na primeira tentativa e esse foi um momento crucial para a banda, pois se tivesse sido um sucesso total tal empreitada, teríamos tomado um outro rumo no aspecto gerencial, acredito.

O revés financeiro não foi acachapante mas deu um abalo no nosso caixa, é claro. Por sorte, o telefone estava tocando, como tenho alardeado nos últimos parágrafos, e perspectivas gerenciais estariam batendo na nossa porta, conforme explicarei logo mais. Antes de falar sobre o show significativo que fizemos a seguir, no Rio de Janeiro, comentarei alguns agitos de rádio e TV que tivemos nesse meio tempo e um importante parêntese para falar do informativo do fã-clube, uma ideia que tínhamos tido ainda em 1984, mas que nessa metade de 1986, transformara-se numa ferramenta a mais para a nossa divulgação.

Já em termos de TV, fomos participar mais uma vez do programa "Realce", da TV Gazeta de São Paulo. Esse programa, ao lado da extinta "Fábrica do Som" e do programa de Rádio, "Balancê", da Rádio Excelsior, foram certamente os que mais participamos, com diversas ocasiões arroladas na história da banda. Tempo bom (sei que já repeti isso muitas vezes, mas nunca canso-me de enfatizar !!), em que a indústria maldita do Jabá ainda não havia dominado tudo, literalmente. Portanto, contar com programas assim, foi fundamental para que tornássemo-nos muito populares, ainda que jamais entrássemos de fato no seleto rol de artistas do mainstream.
OK, hoje temos a internet, mas naquele tempo, para o artista sobressair-se, era TV; rádio e mídia impressa, e não posso queixar-me, porque para uma banda do underground, A Chave do Sol fez muita televisão; rádio, e colecionou muitas matérias de jornais e revistas.

Frame da primeira exibição nossa no Realce, em julho de 1984

Enfim, lá estávamos nós mais uma vez no estúdio da TV Gazeta, entrando na divertida loucura do apresentador Mister Sam, um comunicador que sempre foi bacana com a Chave do Sol, também.
E uma nova investida no programa "Panorama", da TV Cultura de São Paulo, ajudou-nos bastante a divulgar o show do Palmeiras, sem dúvida. Desta vez, a apresentadora Paula Dip que entrevistara-nos nesse mesmo programa em 1985, não estava mais como âncora desse jornal cultural bacana. Quem comandava-o agora era o Maurício Kubrusly, que era bastante conhecido na mídia impressa, como editor da Revista Som Três, colunista de vários jornais, e eu lembrava-me dele desde o bom tempo da revista "Rock, a História e a Glória", nos anos setenta.

Bastante performático, Kubrusly na noite em que fomos, fez uma matéria molhando-se numa banheira, literalmente, usando apenas uma sunga...bem, não foi nada agradável de ver-se, mas foi inusitado, certamente. Para nossa sorte, quando apresentou-nos, estava já seco e vestido...
No Realce, da TV Gazeta, aconteceu no dia 17 de abril de 1986, e no Panorama da TV Cultura, dia 23 de abril de 1986...
Infelizmente, esses dois programas citados entram na lista dos perdidos em termos de imagens preservadas. Lamento muito não ter essas imagens disponibilizadas. Foram duas fitas VHS lotadas de aparições na TV, que perderam-se. Nossa próxima participação na TV, só voltaria a ocorrer em setembro desse mesmo ano, e para a nossa satisfação, em outro estado, e até mesmo outra região do país...
A seguir, falo do jornal do fã clube, uma investida do Núcleo ZT que deu muito certo...

Desde 1984, quando criamos o fã clube da Chave do Sol, empreendíamos esforços para fazer dessa ferramenta, um braço de apoio da banda. Vivendo numa Era pré-Internet, o fã clube era o nosso melhor meio de comunicação com os fãs, mas claro, desde que cadastrassem-se nele para estar no mailing. No início, nossas ações limitavam-se a responder manualmente as cartas que recebíamos na nossa caixa postal (19090 - São Paulo !!), e eu era o responsável por tal tarefa, pessoalmente. Entre 1984 e 1989 (e esticando até um pouco depois do fim da banda, no início dos anos noventa), minha rotina cotidiana era recolher as correspondências na caixa postal da banda, numa agência de correio muito próxima da casa do Rubens Gióia, e respondê-las em minha residência durante a madrugada, para poder postá-las na minha visita à mesma agência, numa espécie de modus operandi.

Revista Rock Brigade anunciando a entrada de Beto Cruz na nossa banda.

E além de responder as cartas, passamos a emitir comunicados de shows, com uma confecção de filipetas caseiras, bem simples, datilografadas e geralmente sem ilustrações. A produção disso era obra do Zé Luiz na arte-final / lay-out, e minha colaboração no envelopamento e colagem de endereços nos envelopes, e o carimbo de fã clube no remetente, fora a tarefa de postar na agência dos correios. À medida que o tempo foi passando, o contingente foi aumentando e chegou um tempo onde chegamos a ter 2200 pessoas inscritas no fã clube e daí, cada ação de mailing feita sem uma infraestrutura de apoio de um escritório profissional, era muito trabalhosa e consumia horas e horas de trabalho. Por outro lado, valia muito a pena, pois tais fãs eram fieis e ávidos por novidades da banda. Eu esmerava-me para manter o fã-clube em dia, e contava com o apoio fundamental do Zé Luiz, também. No início do segundo semestre de 1984, tive a ideia de criar um fanzine em formato de revista, no intuito de manter os sócios do fã-clube, informado sobre todos os aspectos da carreira da banda, focando em novidades, mas também cobrindo o cotidiano interno da banda sob o ponto de vista artístico e incluindo curiosidades sobre a banda e até particularidades de seus integrantes.


 


Eu e Zé Luiz trabalhamos nesse projeto e dessa forma, conseguimos elaborar um fanzine com quatro páginas, mas o custo de rodar tal material, e distribuí-lo aos sócios do fã-clube ficou caro num primeiro instante. A ideia original, era a de ter uma formatação de revista, com capa contendo manchetes e matérias divididas em pequenos boxes, com ilustrações, num padrão clássico de lay-out.
Claro, feito de forma absolutamente simples, com parcos recursos, não poderia jamais ter um aspecto profissional, mas diante das circunstâncias, atenderia nossas necessidades em manter os fãs informados sobre as novas da banda, mantendo-os sempre com o interesse vivo em nossa carreira. Nesse piloto inicial de 1984, o enfoque principal foi a entrada do vocalista gaúcho, Chico Dias na banda. Nesses termos, escrevi um texto falando de sua origem, características técnicas, e acrescentei algumas bravatas, como forma de atiçar a curiosidade dos fãs. Por exemplo : "Dono de uma voz arrepiante e de uma espetacular presença de palco"...

E mais exagerado ainda : "Para a legião de fãs da Chave do Sol, fez uma promessa bombástica : vai ser o nº1 (vocalista) do Brasil"...
Em outro tópico, falei sobre algumas emissoras de rádio que estavam executando o nosso som, e nesse caso, a citação de emissoras como Eldorado FM e Gazeta FM, ambas de São Paulo, não era uma mentira, como alguns chegaram a pensar, mas de fato, tais emissoras haviam executado nossa música de trabalho, "Luz", mas poucas vezes, ao contrário de emissoras como a Fluminense FM (Rio de Janeiro); Ipanema FM (Porto Alegre), e 97 FM (Santo André / SP), que tocavam-na com constância nas suas respectivas programações. Citações sobre os últimos shows realizados, assim como a gravação do primeiro compacto da banda, além de anúncios de shows a serem realizados, deram conteúdo para um outro box. Acrescentei também uma autêntica bobagem, mas com risco calculado ! Como sempre fui fã do estilo de redação do Ezequiel Neves, enquanto jornalista / crítico de Rock por diversas publicações onde ele foi colunista (e principalmente na revista "Rock, a História e a Glória", dos anos setenta), achei por bem dar esse toque de pilhéria, misturada ao conceito cafona de colunismo social, onde ele foi um mestre. Nesses termos, convenci o Zé Luiz que deveríamos ter essa pequena licença, para dar um contraponto à sisudez dos outros textos, mais burocráticos e parecidos com o estilo jornalístico engessado do "Jornal Nacional", da Rede Globo.
Então, inventei uma brincadeira tola para essa edição inicial, em forma de "Quiz". 

Alegando que Rubens Gióia havia relatado ter avistado um "Disco Voador" dirigindo numa estrada, lancei uma pergunta aos leitores :
1) É mentira;
2) É verdade;
3) Anda com a Imaginação muito fértil
4) Ele está tocando tão rápido a sua Fender Stratocaster, que já afetou seu cérebro

Além de quebrar a seriedade do restante do texto, minha aposta também era em agradar os adolescentes, grande contingente de nosso público.

Uma especial atenção aos shows de lançamento do compacto, no Teatro Lira Paulistana, mereceu box separado, pela óbvia importância que tais eventos tiveram para a banda. Ainda com um número reduzido de membros no Fã-clube, era viável para os nossos recursos, enviar gratuitamente tal material para todos, mas à medida que esse quadro avolumou-se (e o crescimento foi enorme e muito rápido), ficou inviável que tal formato de quatro páginas fosse mantido, pelo menos nessa fase. Então, mais ou menos em maio de 1985, nós tivemos o ímpeto de lançar novamente uma próxima edição, onde tentaríamos de forma periódica, alimentar os fãs com novidades. É bem verdade que o simplificamos para viabilizá-lo economicamente e reduzido, com uma página apenas, assumindo inicialmente o formato de um informativo simples, quase um "memorandum", em detrimento de uma revista mais complexa, como sonháramos em 1984. Seria um formato de fanzine, xerocado como muitos fanzines que eram típicos dos anos oitenta, mas dentro de nossas possibilidades, esmerar-nos-íamos para dar-lhe o melhor acabamento possível. De fato, de comum acordo, o Zé Luiz incumbiu-me da tarefa de ser o redator dos textos novamente, e ele responsabilizou-se pela diagramação e lay-out.

O primeiro número (consideramos o piloto lançado em 1984, como o n° zero da publicação), saiu em junho 1985, e o foco, é claro, era o advento do EP que ainda estávamos finalizando, e com o Fran Alves como componente da nossa banda. Lembro-me que ficamos muito contentes em concretizá-lo, apesar dessa nova versão mais tímida, com apenas uma página. E ainda mais animados quando o enviamos para os fãs, que nessa época batiam na casa de 1000 pessoas (ou um pouquinho mais que isso). Em sua primeira edição, ele continha apenas uma folha, e trazia os seguintes tópicos :

1) TV : Anunciávamos que a TV Cultura de São Paulo estava lançando um novo programa nos moldes da saudosa "Fábrica do Som" e que nós, da Chave do Sol, havíamos gravado participação no programa piloto, o que era verdade. O tal programa iria chamar-se "Trilha Sonora". De fato, gravamos o piloto dentro do estúdio da TV Cultura, tocando "Anjo Rebelde", mas o programa nunca foi ao ar, frustrando-nos, pois uma nova atração nos moldes da velha Fábrica do Som, seria muito salutar não só para nós, mas para toda a cena da época.
2) LP : Claro que anunciávamos o lançamento do EP e aproveitamos para anunciar também que o compacto estava esgotando-se em sua primeira tiragem.
3) Rádio : Falamos dos agitos de rádio que tínhamos feito recentemente.
4) Toque : Fizemos uma propaganda de apoio para a Baratos Afins, nossa gravadora, indicando os discos que o Calanca estava lançando naquela ocasião.
5) Shows : Anunciamos shows que faríamos no futuro próximo, incluso um que acabou não concretizando-se, em Americana, no interior de SP.
6) Fã-Clubes : Descrevemos Fã-Clubes que apoiavam-nos, numa ação de colaboração mútua, muito parecida com o que ocorre nos dias atuais nas redes sociais da internet e blogs. Enfim, esses foram os assuntos e o jornal saiu com uma foto promocional da formação de 1985, logicamente, com a presença do saudoso Fran Alves.


Retroagindo um pouco na cronologia, ainda falando da fase do Fran Alves na banda, em 1985

Ainda falando sobre o jornal / zine do nosso fã clube, o sucesso foi enorme entre os fãs que receberam-no, e claro que animamo-nos a prosseguir, melhorando-o cada vez mais. Em princípio, tentamos mantê-lo então com periodicidade trimestral, e apesar da crescente chegada de novos membros, mantivemos envio gratuito para todos, porque o caixa da banda permitia esse gentileza, e claro que era um investimento de carreira que valia a pena, visto que graças a essa propaganda, não fomentávamos só a carreira da banda, de forma indireta, mas também movimentávamos seu merchandising, com a venda de produtos, naturalmente.


Nesses termos, lançamos o número 2, em setembro de 1985 com uma pequena melhora no formato do primeiro, ao acrescentar uma página a mais (na verdade, como verso e reverso), além de uma nítida melhora no lay-out. Os tópicos do número 2, foram os seguintes :

1) Disco - Anunciamos o lançamento oficial do disco com uma breve descrição da ficha técnica e repertório do mesmo, além do toque para adquiri-lo na loja Baratos Afins.
2) TV - Muitas dicas de programas que fizemos recentemente e alguns onde havia a perspectiva de aparecermos e que acabou não concretizando-se, tais como : "Clube dos Esportistas" (TV Record); "Destaques" e "Foco" (TV Gazeta); "Batalha 85" (TV Bandeirantes);"Perdidos na Noite" (TV Record, e sobre este inclusive, eu já contei uma história hilária em capítulo anterior...) e "Marília Gabriela" (TV Bandeirantes). Além de falar que a TV Cultura ainda não havia dado perspectiva sobre o programa "Trilha Sonora", cujo piloto nós participamos, mas na verdade, tal programa nunca foi aprovado e morreu nos arquivos daquela emissora.
3) Rádio - Falamos sobre muitos programas de rádio que haviam tocado nossas músicas e citado-nos com testemunhal. De fato, ao longo desta autobiografia, falo bastante de emissoras que auxiliaram-nos bastante tocando nosso trabalho em suas respectivas programações (Fluminense FM do Rio; Ipanema FM de Porto Alegre; 97 FM de Santo André / SP, entre as mais significativas), mas tivemos apoio de inúmeros programas de rádio, isoladamente, mesmo que tocando alguma música nossa ao menos uma vez, seguido de um pequeno testemunhal, fora esporádicas entrevistas. Neste número do jornal, citamos alguns deles, tais como : Sinergia (USP / FM); Rádio Matraca (USP / FM); Matéria Prima (Cultura FM); "Tempo de Rock (Alvorada FM / Ribeirão Preto/SP); Sessão Rockambole (97 FM / Santo André/SP); Heavy Metal Rock (FM Notícia / Americana / SP);  Super Stars do Rock  (Eldorado FM / Bauru / SP); Concerto de Rock (USP / FM); Central Rock (Ipanema FM / Porto Alegre / RS). "Rock Expresso ( Cultura AM).
4) Revista - Anunciamos uma entrevista que concedemos à Revista "Visão", uma publicação voltada à pauta de economia e negócios, predominantemente, mas que esboçava ter um caderno cultural e ampliar assim o seu leque jornalístico. Outra coisa bastante exótica para nós, foi uma entrevista que saiu na revista "Amiga", uma revista popular / popularesca, mais centrada no métier da TV, e em artistas da música brega. Mas por um lado, era genial para nós estarmos saindo do nicho fechado do Rock e alcançando novo público. E seguia uma tendência que tínhamos iniciado com várias incursões em programas de TV populares, típicos femininos, na TV, desde 1984.

Ainda falando de revistas, anunciamos com ênfase, o lançamento do álbum de figurinhas onde A Chave do Sol também estava representada com um cromo e anunciamos uma misteriosa novidade, que viria a ser o songbook de partituras que na verdade nunca concretizou-se, e cuja história já contei com detalhes, muitos capítulos atrás.
5) Claro que a ênfase sobre os próximos shows que aconteceriam, recaiu sobre os shows de lançamento que faríamos numa micro temporada no Teatro Lira Paulistana, em setembro de 1985.
Tem um comunicado em tom de desabafo, que lendo hoje em dia soa hilário... transcrevo-o :

"O show do Radar Tantã (20 de setembro de 1985) foi cancelado por falta de profissionalismo dessa nefasta danceteria"

Ha ha ha... realmente tínhamos uma data marcada nessa danceteria, mas decadente no fim de 1985, não levava para as suas dependências aquela multidão que costumava arrebatar nos seus primórdios de 1984, portanto, o trato fácil, com cachets gordos (muitos capítulos atrás, contei a incrível história de nossa apresentação nessa casa, em julho de 1984), não era mais a realidade daquela casa de shows, portanto, o cancelamento sumário, após termos disparado divulgação via mailing, portanto gastando dinheiro, gerou frustração, daí o tom de desabafo no fanzine, mas pensando hoje em dia, acho que livramo-nos de uma bela "roubada", isso sim...

6) Falamos sobre o espaço de merchandising nos nossos shows, que agora era uma constante e com a presença do Edgard no comando, o Extraterrestre que viera do "Planeta Glapaux"...
Essa era uma onda "Sci-Fi" que eu forjei, evocando o Rock setentista, certamente, e que dava um efeito legal para chamar a atenção. Claro que o Edgard aceitou a brincadeira e curtia o assédio das meninas com essa história de ser um extraterrestre radicado no planeta Terra etc e tal...
7) Um curioso adendo no tópico sobre shows que passaram, davam conta de que o Rubens "agora" usava um transmissor da marca "Nady", modelo GT 49. Era um típico recurso tecnológico da década de oitenta e eram poucos os que dispunham da possibilidade de possuir um naquela época, daí o destaque dado, como se fosse uma grande nova tecnológica da banda e de certa forma, foi mesmo.

E mais curioso ainda, foi o toque em defesa do Fran, quando eu escrevi que era a hora dos fãs pararem de reclamar da presença dele como vocalista, e sonharem com a volta do trio instrumental de outrora. Infelizmente, lutávamos contra a maré e a rejeição à participação do Fran na banda era muito grande. Tanto que alguns dias depois dessa edição chegar às residências dos membros do fã-clube, ele anunciou sua vontade de sair da banda. Era inevitável...
8) Outro toque que hoje soa hilário !! Anunciamos que este seria o último número enviado gratuitamente para as pessoas, pois a despesa não poderia ser mais coberta pelo caixa da banda...
A frase final do comunicado, é uma pérola : "Aproveitamos para deixar claro que esta situação não foi imposta por nós, mas sim pelo sr. Delfim Neto"... Ha ha ha... o velho Delfim e seu "milagre econômico" não teve meios de colaborar com o fã clube da Chave do Sol...
8) Anunciamos que estávamos vendendo fotos doravante. De fato, tal receita ajudou-nos bastante a tocar o fã clube e ajudar a divulgar a banda por extensão.
9) Fã clubes que estavam apoiando-nos : "Quiet Riot of Bad Girls Fan Club; Karisma Dirt Club; SP Liga Metálica; Neapdor Club do Rock; Heavy Metal Maniac e Rock Brigade Fan Club de Heavy Metal. A tendência era essa mesma, ou seja, havíamos feito a opção de andar com essa turma, a partir de 1984 e assim fomos caminhando. Mesmo não tendo nada a ver com o mundo do Heavy-Metal , muita gente enxergava-nos dessa forma e claro que o apoio, ainda que inadequado, era sempre bem vindo. Com essa história da crise financeira que não permitiu-nos prosseguir enviando gratuitamente para todos os fãs cadastrados, criamos uma faixa de membros que tornaram-se apoiadores financeiros. Claro que os interessados em colaborar representavam uma fatia ínfima do contingente total, mas ficamos muito surpreendidos com a adesão, que beirou 150 pessoas aproximadamente. Mas tivemos um atraso operacional com essas mudanças e o terceiro número que deveria sair em dezembro, acabou ficando para janeiro de 1986.
Tornou-se rotina administrarmos também a entrada de recursos financeiros, e também com o movimento de vendas pelo correio e na barraca dos shows, uma contabilidade caseira, foi estabelecida, para não misturar com o dinheiro dos cachets de shows e acertos com a venda de discos da gravadora. Eram três receitas distintas e esforçamo-nos para não misturá-las para que o fã clube pudesse andar com seus próprios pés, sem recorrer ao caixa da banda propriamente dito. Caixa 2 e caixa 3... ha ha ha...
E outra coisa : o volume de trabalho para o fã clube, cresceu muito e quando 1986 chegou, começamos a cogitar seriamente a possibilidade de contratarmos um funcionário, pagando salário etc.
Seria em princípio, algo informal, pois ainda não tínhamos condições de abrir uma firma oficialmente falando, com CNPJ e demais oficializações contábeis e governamentais, mas era uma possibilidade de médio prazo inevitável, eu diria.

Por enquanto, a única certeza que tínhamos, era que o volume de trabalho e movimento financeiro estava aumentando, e isso tomava o meu tempo e do Zé Luiz, prejudicando a rotina de ensaios da banda. Logo mais falo sobre os demais números, até alcançar a cronologia onde encontro-me na narrativa. Lançaríamos o terceiro número, no início de 1986, e daí, já com a presença do Beto Cruz na formação.


Ainda falando sobre os números do jornalzinho, a edição número três saiu em janeiro de 1986, conforme já esclareci no capítulo anterior. Desta vez, a grande novidade era a mudança na formação da banda, com a saída de Fran Alves e a entrada de Beto Cruz. E a ênfase era sobre uma mudança radical que causaria uma guinada na orientação musical da banda, praticamente descartando o repertório do EP, como se estivesse enterrando uma fase da banda, aliás, foi isso mesmo o que aconteceu. Os itens do jornal foram :

1) Disco : A despeito de praticamente anular o EP com a nova fase, claro que o promovíamos como última novidade fonográfica da banda e não poderia ser de outra forma. Uma frase de efeito que escrevi, tem um tremendo de um ranço de despeito, que atribuo à falsa compreensão de que éramos "injustiçados" por não ter chances nas gravadoras majors. Não pela banda em si, que é claro que reunia condições técnicas. Aliás, por esse quesito, com todo o respeito aos maiores expoentes do BR-Rock oitentista que estouraram no mainstream, o nível baixíssimo das bandas que usufruíam dessas benesses do sucesso popular denotava que não tinham condições de rivalizar conosco, e essa sensação de "injustiça" acabou tornando-se um paradigma para nós. Mas, vendo pelo lado real da indústria fonográfica / mídia e formadores de opinião, como poderíamos pleitear um espaço no mainstream com o som que fazíamos ? Nem a fase Jazz-rock fazia sentido nesses termos, com todas aquelas firulas que fazíamos nos arranjos super anticomerciais e fora da estética do Pós-Punk, obviamente, aliás, era um contraste, se levarmos conta que tal estética que dominava a formação de opinião do mercado, primava pela rudeza musical acima de tudo...
E talvez pior ainda ficamos ao adotar o peso do Hard-Rock e do Heavy-Metal, afugentando ainda mais as nossas chances de ingressar nesse seleto rol de artistas que contavam com apoio de uma gravadora major e por conseguinte, de todas as suas mordomias. Agora, a frase lapidar que proferi, onde fica claro a "síndrome de inferioridade"que acometia-nos naquela época :
"O EP da Chave continua vendendo bem, mesmo sem o aparato monumental das grandes multinacionais, o disco está vingando. Dá-lhe Chave !!"    

2) Rádio : Comentamos sobre mais uma série de emissoras/programas que nos deram força, como : "Os Rapazes da Banda" (USP FM); Globo FM Rio; "Rock 98" (98 FM Presidente Prudente / SP); Beira Mar FM (São Sebastião / SP), 89FM de São Paulo, e "Highway"(Bandeirantes FM).
3) TV : Anunciamos a 6ª aparição na TV Gazeta de São Paulo, enaltecendo o fato de que duas dançarinas "esculturais" haviam participado da palhaçada habitual da dublagem. Foi verdade, mas meramente ocasional a participação das duas garotas, que aliás, eram razoavelmente famosas na época, por conta da suas respectivas participações em vários comerciais da TV e campanhas publicitárias em revistas, também.
Outra notícia que demos, era que a TV Cultura estava reprisando números musicais isolados da extinta "Fábrica do Som", todo dia, na faixa das 19:30 h. E o ponto alto da nota, a meu ver, foi a advertência dada aos fãs-leitores :
"Devemos esclarecer aos fãs que todos os programas de TV que nós dissemos que a Chave iria aparecer no informativo nº 2, e não vingaram, não foi por culpa nossa ou da banda, mas sim dos produtores dos referidos programas que hipocritamente fazem promessas e não as cumprem". Ha ha ha ... que "chororô" !!
A alfinetada foi para alguns programas que davam como certo a nossa participação, só faltando acertar data e que misteriosamente
desmarcaram-nas.
4) Revista : Uma relação de matérias recém saídas em revistas importantes, como "Roll", "Metal", "Bizz", "Rock Stars", "Som Três" e o anúncio de que sairíamos em breve no poster da Revista "Som Três".
5) Shows : Uma descrição de como foram os shows de
lançamento do EP, algo que deveria ser o ponto mais alto do jornal, mas soava anacrônico com apenas três meses de defasagem do fato anunciado, pois falava do lançamento de um disco que agora rejeitávamos veladamente e com a presença de um outro vocalista que nem era membro mais da banda....
6) Uma micro propaganda sobre souvenirs reforçava a ideia de que estávamos valorizando tal expediente.
7) Inauguramos uma nova coluna denominada "Perfil de Chave", dando a oportunidade para falar diretamente dos componentes da banda e mesmo tropeçando na ética, por que eu era o redator do jornal, rasguei elogios ao companheiro Zé Luiz, que aliás, era o diagramador do mesmo...
Assassinamos a ética com requintes de crueldade, mas o jornal era "chapa branca" assumido e havia uma atenuante, pois não assumíamos publicamente a autoria do trabalho, mas usávamos o nome de duas pessoas : Eliane Daic e Claudio T. de Carvalho.
Tais pessoas existiam de fato, não eram meros nomes inventados como pseudônimos. Eliane era namorada do Zé Luiz e verdadeiramente, trabalhou como produtora da banda, principalmente entre 1984 e 1987, apesar de não ter qualificação pregressa para a função. Verdade seja dita, é que ela foi aprendendo com o tempo, e já em 1986, estava bastante funcional no cargo, ajudando-nos muito. E o Claudio, era o popular "Capetóide", amigo do Rubens desde o início dos anos oitenta, e que acompanhou a banda desde os primórdios.

Eliane Daic preparando uma explosão a ser realizada num show ao ar livre da Chave do Sol, em foto de 1986

A Lili (Eliane Daic), ajudou muitas vezes nas tarefas do fã clube, principalmente quando de envelopagens de filipetas para o mailing.
E o "Capetóide" muito ajudou-nos em muitas circunstâncias, inclusive atuando como "ator" nas intervenções cênicas malucas que criamos para os shows de lançamento do compacto e do EP, respectivamente (1984 e 1985).
8) Equipamento : A novidade deste número era a nova guitarra do Rubens, uma "Jackson". Essa guitarra era considerada sensacional nos anos oitenta, principalmente no nicho do Rock pesado, portanto causou furor quando o Rubens passou a usá-la ao vivo, pois nessa época só dois guitarristas possuíam-na em São Paulo e quiçá no Brasil : ele e Fernando Costa, o guitarrista do Inox.
9) "Fofoca" era uma outra coluna nova, onde eu imitava acintosamente a papagaiada que o Ezequiel Neves tinha em sua saudosa coluna na revista "Rock, a História e a Glória", nos anos setenta, falando de aspectos extra musicais dos músicos de Rock, como se estes vivessem num mundo de "Jet Set Hollywoodiano". Era a minha maneira de homenagear o velho mestre fanfarrão do jornalismo musical brasuca...

Não inventei nenhuma mentira, mas valorizei coisas banais do cotidiano extra musical nosso, como por exemplo : "Rubens agora dedica-se a um esporte exótico, o arco e flecha". Era verdade, pois ainda no fim do 1985, ele passara a frequentar um Bar / Arqueria, que oferecia aos frequentadores a possibilidade de usar o arco e flecha, com direito a orientação de técnicos especializados da Federação Paulista de Arco e Flecha. E na determinação ao falar de dois membros a cada edição, falei que eu mesmo (ah, a quebra da ética, da modéstia e da falta de noção...), fora visto circulando pelas dependências do Pavilhão da Bienal, prestigiando a Bienal de Artes de São Paulo, recentemente. Era verdade também, e fui mesmo, como vou em toda edição da Bienal, desde 1977...
10) Repertório : Demos nota que logo que o Beto entrara na banda, sua contribuição como compositor enriqueceu as possibilidades de composição e dessa forma, produziu muito rapidamente, uma série de músicas novas, e que isso realmente propiciou que déssemos uma guinada, abandonando o repertório base de 1985. Citamos "O Cometa"; "O Que será de Todas as Crianças", e "O Rock me fez assim", esta, aliás, uma música que foi rapidamente descartada, pois outras que consideramos mais fortes logo surgiram e ela foi suplantada. Falo sobre o jornal nº 4 a seguir, e volto à cronologia, em seguida.


O quarto número do jornal informativo, saiu em abril de 1986.
Com maior verba advinda da colaboração monetária dos membros do fã clube que inscreveram-se para continuar recebendo o jornal, pudemos não só garantir o seu envio, como ampliar o seu formato, trazendo ainda mais informações sobre os agitos da banda no trimestre enfocado. E os tópicos publicados foram os seguintes :

1) Disco : Falamos que realmente o Luiz Calanca sinalizava novas prensagens para o compacto de 1984 e o EP de 1985.
2) Rádio : A 89 FM de São Paulo realmente estava naquela altura executando duas músicas do EP em sua programação. "Anjo Rebelde" e "Um Minuto Além".
Mencionamos novamente a maior apoiadora da nossa carreira, a Fluminense FM do Rio, e também a Ipanema FM de Porto Alegre.
"A Hora do Rock" (Rádio Progresso / São Carlos / SP); "Rock Time" (Rádio Cultura de Araraquara / SP); "Rock Festival" (Globo FM / SP) e "Disque Rock" (Imprensa FM / São Paulo), eram programas que haviam tocado e falado sobre A Chave do Sol.
Uma novidade era que o Beto Peninha, do programa "Sessão Rockambole" da 97 FM de Santo André / SP, estava anunciando o lançamento de uma revista impressa do programa, e que A Chave do Sol constaria do primeiro número, mas isso não se confirmou posteriormente. E uma rádio pirata chamada "Xilik", prometia um especial da Chave, com uma hora de duração para breve...
3) Revista : Matérias recentes haviam saído nas revistas "Metal"; "Roll"; "Som Três", e agora anunciávamos enfim o lançamento do poster coletivo com quatro bandas, onde A Chave do Sol era uma delas.
4) Uma coluna nova chamada "Stars", visava citar pessoas famosas que haviam declarado apoio público à Chave do Sol. Não poderíamos perder a oportunidade de fazer tais menções que muito contribuíam para a formação de opinião. É bem verdade que muitas dessas citações não foram checadas, como faz-se no jornalismo profissional. Fontes informais davam-nos a notícia e nós tentávamos capitalizar a nosso favor a opinião de pessoas relevantes. Claro, muitas eram comprovadas, mas algumas realmente não, todavia, aceitávamos o boato como verdade, porque interessava-nos (confesso !!)...
Neste caso, alguém disse-nos que o Raul Seixas teria escutado algumas músicas nossas, e teria elogiado o Rubens Gióia, comparando-o ao Sérgio Dias, dos Mutantes. Nunca comprovamos tal informação, mas claro que publicamos como fato cristalino...


10) Repertório : Mais músicas novas que saíam do forno e eram comentadas. "Sun City"; "O Que Será de Todas as Crianças"; "Que falta me faz, baby"; "Solange", "Forças do Bem" e "Saudade", ou seja, canções que no mesmo mês de abril seriam gravadas na demo (cuja descrição já fiz, alguns parágrafos atrás), fora "O Cometa".

Também citei duas outras músicas que foram compostas nessa época, mas que foram descartadas da gravação e do set list de shows : "O Rock me fez assim", e "Dezoito anos", cuja letra contava de forma bem humorada o receio de um jovem dessa idade que não queria alistar-se no exército. Outra canção que não vingou também nessa época, era "Vivendo pra Entender".
11) Fofoca : Como a festa de anti carnaval na casa do Rubens ganhou coluna própria, aqui segui com a linha iniciada em números passados, de falar dos membros da banda em atividades extra musicais. Citei a tendência esportiva do Zé Luiz, em correr logo no início das manhãs pelo campus da USP, na cidade universitária. Isso era 100 % verdade, pois o Zé Luiz era de fato um esportista em potencial, e costumava se exercitar regularmente. Mais uma vez auto citando-me, mas via pseudônimo, falei que "eu" era visto regularmente em salas de cinema alternativas; cine clubes e similares. Era verdade, e nesse ano de 1986, realmente tive uma assiduidade enorme em eventos cinematográficos underground, vendo mostras obscuras, assistindo filmes absolutamente "vintage" em exibições em fã clubes etc. 

Lembro até de ter visto "Birth of a Nation", do diretor D.W.Griffith, que é um filme mudo de 1915, com três horas de duração, exibido numa tela improvisada que na verdade era um lençol branco estendido numa lousa (quadro negro), de uma sala de aulas da FAAP, graças à ação abnegada de alunos do curso de cinema que criaram um Cine Clube sem apoio algum da faculdade (Cine Clube Chico Boia), além do espaço...
Uma declaração hilária (mas autorizada !) do Rubens Gióia, teve a clara intenção de atiçar a imaginação das fãs da banda e de fato, o Rubens era o galã da banda, e recebia muitas cartas com "cantadas", fora o assédio natural nos shows. Eis a frase hilária : 


"Rubens Gióia andou murmurando que aos quatro cantos que está farto de experiências amorosas passageiras...agora ele quer uma mulher para compromisso duradouro"...
Outra nota hilária, falava sobre o "ET" Edgard, que teria feito uma performance em plena avenida Santo Amaro. Era verdade, pois o Edgard adorava escandalizar em público com suas vestimentas nada usuais e trejeitos tresloucados, mas isso era corriqueiro em sua vida e do jeito que citei, parecia algo excepcional.

O poeta Julio Revoredo em pessoa, em foto de seu acervo pessoal, de 1985

Falei também sobre o fato do poeta Julio Revoredo ter algumas fotos inéditas da Chave em seus arquivos e que estava planejando disponibilizá-las para o fã clube. Isso não ocorreu na ocasião, porque o fanzine optou por outras matérias, mas esteve na pauta o tempo todo. Recentemente (2014), o poeta cedeu-me tais fotos, e elas já ilustram os capítulos da Chave do Sol que estou republicando neste Blog 2, e também no Blog 3. Finalmente, citei a visita que fizemos ao estúdio Mosh, onde "Os Inocentes" gravavam um novo álbum, o primeiro pela WEA. Essa história será contada com detalhes na narrativa, pois contém informações muito importantes, e também traz momentos hilários que quero revelar aos leitores.
11) Equipamento : Uma descrição sobre as guitarras do Beto Cruz e seus pedais. De fato, cada vez mais o Beto participava como compositor na banda e sua atuação como guitarrista aumentava.

E na época, ele tinha duas guitarras sensacionais, uma Gibson Les Paul, e uma Gibson SG de dois braços. Essa na verdade era uma guitarra que pertencia ao seu irmão, Claudio Cruz que estava vendendo-a, e o Rubens a usou no show do Palmeiras em maio de 1986.
12) Perfil de Chave : Nessa edição, o enfocado foi Rubens Gióia e o texto investiu na descrição de como o nome A Chave do Sol era um sonho de sua infância etc e tal.
13) TV : A descrição de um fato exótico ocorrido num programa de TV, foi o mote principal dessa coluna. Participamos do programa "Realce" da TV Gazeta, pela sexta vez nossa história, e um imprevisto não permitiu que o Zé Luiz participasse da aparição.
Então, eu, Rubens e Beto fizemos a dublagem, suscitando dúvidas para alguns fãs. Na nota, apressamo-nos em esclarecer para não gerar especulações. Muito interessante lembrar desse fato, pois denotava o crescimento da banda que mesmo numa Era pré-Internet podia provocar reações públicas desse porte, gerando boatos. A outra nota dessa coluna, dava conta de que o Rubens participara de um comercial de TV, anunciando uma marca de um calçado (um tênis), e esse comercial fora realmente ao ar. Além dele, fazia parte dessa banda fictícia, Charles Gavin (Titãs); Renato (guitarrista do "Vírus"), e o cantor / compositor da MPB, Tatá Guarnieri. De fato, após o Rock in Rio, muitas agências de publicidade insistiram nessa temática, e muitos músicos famosos ou emergentes, acabaram sendo cooptados a participar de tais campanhas publicitárias. Geralmente produtores de agências ligavam para a Baratos Afins a procura de músicos com visual de "Rocker moderno da estética do Pós-Punk", ou cabeludos Metaleiros"...
E nessa circunstância, apareceu essa oportunidade que o Rubens aceitou, e rendeu-lhe um cachet. Daí, surgiria um outro convite, que eu vou detalhar num momento mais para a frente.
14) Shows que rolarão : O grande anúncio em abril de 1986, não poderia ser outro : o show "Metal 4", a ser realizado no Palmeiras, em maio. Falamos também sobre o show que faríamos no Rio de Janeiro no final de maio, mas omitimos o show de Bragança Paulista, simplesmente porque quando fechamos o jornal, ele ainda não estava confirmado totalmente. Deixamos no ar uma esperança aos fãs-leitores : Estávamos estudando um mecanismo de oferecer descontos aos sócios contribuintes, em shows produzidos pelo Núcleo ZT. Queríamos mesmo fazer promoções assim, mas infelizmente nunca conseguimos viabilizar tal intento...
Assim foi publicado o jornal de número 4, em abril de 1986...

Após o show no Palmeiras, que foi muito importante para nós, mais uma boa aparição no evento Praça do Rock, e a experiência de Bragança Paulista (que se não foi um fiasco artístico, foi certamente um revés financeiro / gerencial para o Núcleo ZT),  tínhamos uma perspectiva muito boa adiante, em termos de show, fora todas as coisas boas que estavam acontecendo paralelamente, e em breve, falarei sobre algumas dessas possibilidades.
 

Voltando ao foco, o que teríamos adiante, era um show no Rio de Janeiro, que era um objetivo importante para nós como estratégia de carreira, evidentemente. Já havíamos feito um show no Rio, num local e situação bastante confortáveis no ano de 1984, mas não capitalizamos a oportunidade como gostaríamos naquela ocasião. Ainda em 1984, tivemos outra boa incursão no Rio, participando de um importante programa de TV, ali no epicentro do BR-Rock 80's e melhor ainda, interagindo (em ambas as ocasiões), com a "turma certa", que dava as cartas no mainstream oitentista. Agora, no entanto, teríamos uma oportunidade, mas com outra perspectiva, interagindo no mundo do Rock pesado, dentro de um esquema de produção underground, mas mesmo assim, seria uma ótima investida para nós.

Havia um rapaz no Rio que estava produzindo shows num espaço alternativo na cidade, denominado "Caverna II". Na realidade, meus amigos cariocas esclareceram-me que ele realizava shows anteriormente num espaço, chamando-o de "Caverna", mas por ser um local alugado, teve que buscar outro espaço na cidade, para continuar produzindo seus espetáculos. Ele passara a usar então o espaço de uma escola estadual em Botafogo, bem próximo do túnel da Av. Princesa Isabel que dá acesso ao Leme e Copacabana, ou seja, um ponto absolutamente maravilhoso, na zona sul do Rio. Tal colégio ficava ao lado, literalmente, do Shopping Rio Sul e do Canecão, a mais famosa casa de shows da cidade ainda naquela época, portanto, não poderia ser melhor, como localização.

O fato de ser um auditório de escola pública, não era demérito algum para que realizassem-se shows, mesmo sendo um espaço rústico e diante dessa simplicidade, supostamente não haver glamour. Mas independente dessas considerações sobre a simplicidade da produção, se o espaço era rústico, o produtor, um sujeito chamado "Alemão", não mediu esforços para providenciar o melhor possível e de fato, não tenho queixas sobre esse show e pelo contrário, só elogios pela maneira com a qual fomos tratados.

O Azul Limão, em foto promocional mais ou menos dessa época em que estou narrando

Nossa ida ao Rio, fora também um esforço pessoal do guitarrista da banda carioca, "Azul Limão" (Marco), que intercedeu pessoalmente para que o produtor "Alemão" contratasse-nos e desse-nos condições ideais de viagem; estadia e qualidade na produção do show em si. E claro, o "Azul Limão" tocaria, assim como outra banda local, chamada "Fim do Mundo". Fomos ao Rio bastante motivados, pois o Marco alimentou-nos de boas informações sobre o evento, e sobre o "Alemão". A nossa expectativa era de fazer um show com casa lotada, e no dia, isso não só aconteceu, como eu diria, que superlotou, com gente saindo pelas janelas !

Apesar de estarmos no fim de maio no Rio de Janeiro, o outono quase beirando o inverno não era muito refrescante por lá, e sendo assim, na tarde em que o show transcorreria, estava bem quente para nós paulistanos, acostumados com temperaturas muito mais amenas. E por que estou fazendo tal consideração meteorológica ? No decorrer da narrativa o leitor vai entender tal menção...

Resenha do nosso show no Palmeiras, semanas antes, publicada na Revista Metal

Chegamos no início da tarde no Rio, e logo que avistamos as imediações do colégio estadual onde o "Caverna II" realizava-se, vimos um bom contingente de rockers nas imediações, denotando que teríamos mesmo um grande público. Ao ingressarmos no local, ficamos contentes por verificar que fomos saudados por muita gente, que conhecia-nos. Naquela altura, 1986, já tínhamos quatro anos de esforços empreendidos, e o resultado de tal labuta era um bálsamo para nós. Após tantas reportagens em jornais e revistas; dois discos; aparições na TV, e principalmente pela força que a Rádio Fluminense FM sempre deu-nos, tínhamos fãs no Rio, e sem medo de faltar com a modéstia, creio que eram muitos. Claro que nossa motivação com tal simples recepção já potencializou-se de forma contundente. Estávamos bem ensaiados, motivados e vindo de um bom embalo de shows realizados recentemente, portanto, prontos para fazer uma grande apresentação que certamente sanaria a expectativa daquele público em grande número que estava ali presente.

E na edição anterior da Revista Metal, Rubens e Beto receberam citação an passant, como "personalidades" presentes num show do Platina no Teatro Artur Azevedo, em São Paulo

Fizemos um soundcheck muito rápido, porque os shows estavam programados para começar ainda no final da tarde, antes do crepúsculo. O palco não era muito grande e mostrava-se bem rústico. Era um auditório cimentado, que naturalmente era usado para apresentações de teatro amador dos alunos, ou festivais musicais amadores. Era um enorme retângulo, com janelas laterais bem antigas e enormes, denotando ser uma construção dos anos trinta ou quarenta, talvez. Deu tempo de encerrar o soundcheck na ordem decrescente do line up do show, e questão de minutos, a primeira banda já estava no camarim trocando-se rapidamente, e sendo devidamente pressionada a subir no palco. Era o "Fim do Mundo", que parecia fazer um Hard-Rock oitentista com um pé além no quesito "peso"... não recordo-me de nada muito extraordinário na apresentação desses rapazes que valha a pena destacar aqui, no entanto. Em seguida, o Azul Limão entrou em cena. Era uma banda de um outro nível musical, sem dúvida. Apesar de praticar o típico Hard oitentista, os rapazes tinham boas influências setentistas na bagagem, e isso fazia a diferença no palco. Era uma boa banda, e de certa forma tinha similaridades com a nossa, principalmente depois que o Beto Cruz ingressou em nossas fileiras, tornando A Chave do Sol bem mais pop. Eles fizeram uma boa apresentação, e seu público era logicamente bem grande, tocando em seus domínios, sendo uma banda carioca. Foi uma gentileza da parte do Marco, guitarrista do Azul Limão, deixar-nos como headliner da noite, pois a intenção do produtor "Alemão", era que tocássemos como segunda atração da noite.

O calor já era insuportável durante o show do Azul Limão, e quando entramos no palco, mesmo ainda sem a iluminação acionada, o calor era inacreditável. As paredes estavam úmidas e lembravam as paredes do saudoso Teatro Lira Paulistana, onde esse fenômeno acorria sempre que a casa lotava. Mesmo com as tais janelas que mencionei acima, abertas, o espaço retangular do auditório fazia com que as pessoas ficassem absolutamente comprimidas, potencializando a sensação de calor no ambiente.
Quando começamos a tocar, o público entrou num frenesi que foi impressionante. Claro que empolgamo-nos e tocamos com uma volúpia muito grande, dando a resposta adequada à expectativa gerada, mas com aquele calor, e a agravante da iluminação acrescida do uso da malfadada máquina de fumaça, "Smoke Mary", fez a temperatura subir muito mais.

Eu tocava e senti a minha camisa completamente ensopada, mas pior que isso, por ser uma camisa de seda muito fina, percebi que deteriorava-se, literalmente, pelo suor corrosivo e potencializado pelo calor excessivo dos spots de luz. Apesar disso, a performance estava sensacional, com o Beto dominando a plateia com suas investidas, cobrando-lhes interatividade, e os demais tocando com aquela garra que caracterizava a banda desde seus primórdios. Mas, lá pelo fim do show, tivemos um tremendo susto...

As músicas estavam sendo executadas em meio a uma performance incrível, pelo fato da sinergia com o público estar totalmente estabelecida, mas havia um elemento além, que era o fato de que não parar (em se considerando que ainda faltavam algumas músicas a despeito do nosso desconforto pelo calor, estar quase desumano), era um fator de superação atlética, eu diria, pois o calor estava infernal e a impressão que tínhamos, era que o melhor antídoto para enfrentá-lo, seria mesmo não estabelecer pausas demasiadas entra as músicas. Mas um colapso estava por vir, e deu-nos um susto tremendo...
Quase no fim do nosso set list, uma pequena pane ocorreu no amplificador que eu estava usando. Era um cabeçote "Hiwatt", cujo dono era amigo dos membros do Azul Limão, e que cedera-o amigavelmente para o evento. Não foi nada demais, apenas a queima de um fusível, talvez pelo desgaste que o calor estava impactando sobre todo o equipamento, também. Aliás, foi a primeira vez que usei um cabeçote Hiwatt ao vivo, que ao lado do Acoustic 360; Marshall; Fender Bass Man e Orange, estava na lista dos amplificadores que sonhava ter desde os anos setenta, quando via meus ídolos através de fotos e vídeos, usando tais marcas.

John Entwistle, o mítico "The Ox", baixista do The Who, em ação nos anos setenta. E se ele usava Hiwatt, é claro que era um ótimo amplificador...

No caso do Hiwatt, a lembrança do John Entwistle era automática para a minha memória afetiva, e portanto, gostei muito em fazer um show com um amplificador desse quilate. A caixa que sustentava-o não era Hiwatt, infelizmente. Claro que se o fosse, eu teria tirado um timbre monstruoso a la Entwistle, nos seus melhores momentos de The Who, mas mesmo com uma caixa simplória, handmade, e com falante nacional (acho que era "Arlen", se não engano-me), tirei um som incrível, com peso e timbre de arrepiar. Enfim, voltando ao "susto", o fato é que essa parada para a troca de fusível no amplificador, estabeleceu uma ruptura no ritmo maluco em que estávamos e ao pararmos, aí sentimos o calor verdadeiramente infernal !!

E desesperamo-nos quando vimos o Zé Luiz desmaiando e caindo sobre o surdo da bateria !! Ele estava enxugando-se naquele momento de pausa, mas não suportando a queda brusca de sua pressão sanguínea, desmaiou, perdendo os sentidos por alguns segundos. Em meio à balbúrdia instaurada no palco naquele instante, com roadies arrumando o amplificador que eu estava usando, nem todo mundo percebeu tal cena. Lembro-me do Rubens e do Beto voando para socorrê-lo, mas tirante poucas pessoas do público que perceberam o fato, a maioria do público gritava e  saudava-nos, porque estavam apreciando muito o show, e estavam com a atenção voltada apenas à pane que o amplificador de baixo havia tido. Foram poucos segundos, pois logo ele voltou à consciência e resoluto, não quis nem saber de nossos apelos para retirar-se ao camarim, e procurar atendimento médico. Quis voltar imediatamente, prosseguindo com o show, e afirmando estar bem.

Ora, o correto teria sido encerrar o show e ir ao pronto socorro de um hospital para um exame imediatamente, mas com a fibra que o Zé Luiz tinha / tem, isso foi descartado de pronto por ele, insistindo em prosseguir. Convenhamos, naquelas condições climáticas, tocando bateria numa banda de Rock, sob o impacto de spots de luz fervendo, era uma temeridade prosseguir após um desmaio. Mas o Zé foi até o fim...
Terminamos o show sob uma ovação incrível. O público vibrou muito e aquilo comoveu-nos, até, pois sabíamos que tínhamos um público grande no Rio, por tudo o que já comentei anteriormente, mas aquela reação fora muito além do que nossas previsões mais otimistas poderiam supor.

No camarim, o Zé mostrava-se bem. Estava cansado e incomodado pelo calor, como todos nós, mas nem parecia ter tido um colapso de queda de pressão sanguínea, poucos minutos antes. Um amigo carioca, mostrou-me um termômetro que tinha em mãos, deixando-me atônito : eram 52 graus Celsius registrados naquele palco !! Uma condição climática de deserto do Saara...
Não foi à toa que o Zé Luiz tenha passado mal.

Minha camisa rasgou, desmantelando-se como se tivesse caído num balde de ácido sulfúrico... e era uma camisa de seda bonita, com um tecido fino e que eu encomendara para uma costureira em 1984, custando caro... enfim, ossos do ofício, tudo pela arte; tudo pelo Rock ! O saldo desse show foi maravilhoso para nós, com um público quentíssimo, surpreendente, até. 

Hospedamo-nos no apartamento da irmã mais velha do Zé Luiz, que morava no Rio, a Eliane Dinola. Muito gentil e nossa "torcedora", cedeu seu apartamento para ser nosso QG naquela ocasião. Comemoramos o ótimo show que fizéramos, com um jantar no Sagres da Gávea, restaurante frequentado por artistas de teatro; jornalistas e músicos, e que eu conhecia desde 1984, quando fui ao Rio fazer temporada com o Língua de Trapo. A Eliana Dinola seria uma aliada nossa em outras ações importantes no Rio, que contarei num outro momento. Ela era mais velha que o Zé alguns anos, e dava para sentir que estava empolgada com o sucesso emergente que seu irmãozinho caçula estava fazendo, e nesse embalo, ofereceu-se para ajudar na produção, em frentes cariocas. 

Claro que aceitamos, mesmo porque, apesar de não ser uma pessoa do ramo do "show business", ela era bastante inteligente e "descolada", fora ser uma mulher linda e muito charmosa, ou seja, era o tipo de produtora que não teria dificuldades para entrar nos lugares chave, e conversar com "tycons" da música mainstream...
Uma matéria sobre esse show, saiu posteriormente na revista "Metal", que mais para frente na narrativa, reproduzirei o seu teor.

Foi assim o nosso show no espaço "Caverna II", no Rio de Janeiro, no dia 25 de maio de 1986, com 1300 pessoas presentes, produzindo um forte calor humano, em todos os sentidos...
Nosso próximo compromisso de show seria em São Paulo, mas numa casa noturna de pequeno porte, e sob circunstâncias bem menos "calientes"...

Depois dessa aventura "caliente" no Rio, voltamos a São Paulo muito contentes, naturalmente. Fora o sucesso imediato da empreitada no palco, comemoramos também um ótimo resultado de vendas de produtos que oferecíamos como peças de merchandising, e as fichas cadastrais que levávamos para angariar mais fãs no fã-clube, voltaram com centenas de novos pedidos de adesão.
Teríamos um trabalhão no escritório do fã-clube para organizar tais novos membros, mas o "Núcleo ZT" estava motivado para dar prosseguimento, e claro que isso era um fator a mais para animar-nos cada vez mais. O próximo show que faríamos, seria bem mais calmo como já insinuei no parágrafo anterior. Voltamos, portanto ao pequeno palco do Bar "Café Brasil", no bairro do Bexiga.

Conforme contei capítulos atrás, no final de 1985, o dono desse estabelecimento quis fomentar a casa com shows de Rock de bandas autorais, e nós fomos uma das primeiras a experimentar esse modelo. Muitas foram sendo agendadas novamente e no final de maio, voltamos a apresentarmo-nos lá, demonstrando que o projeto tivera uma continuidade e isso era bom, pois representava mais uma casa de shows na cidade, a abrir suas portas para o Rock autoral.
Vou falar uma coisa agora que pode soar bastante presunçosa de minha parte, mas absolutamente tem essa intenção ! 
É apenas uma constatação que faço, amparado pela boa margem de distanciamento histórico em que me encontro hoje (2016), para registrar tal observação na minha autobiografia.


Trata-se do seguinte : na época, a quantidade de espaços abertos para shows de Rock com bandas autorais, era enorme. A despeito da ótima intenção do dono do Café Brasil, e claro que apoiávamos com entusiasmo, a verdade era que não achávamos vital para a cena o surgimento de casas desse porte, com característica de bar / casa noturna, porque era muito mais interessante apresentarmo-nos em teatros; casas de shows; e eventos ao ar livre e / ou ginásios / arenas de esportes, e isso havia aos montes em São Paulo; Rio; outras capitais, e grandes cidades interioranas. Hoje em dia, com os teatros com portas cerradas para os artistas autorais do underground, e com a presença de casas de show de grande porte que só abrem agenda para atrações internacionais e para os tubarões do mainstream, simplesmente não existem mais espaços, pois num contraponto cruel, as pequenas casas também não abrem espaço para a música autoral, preferindo ceder seus palquinhos mal iluminados e mal sonorizados, para bandas cover...
Em suma, naquela época, achávamos legal o Café Brasil abrir espaço, mas a verdade nua e crua é : não achávamos que isso fosse vital para o incremento da cena, muito menos para a carreira da nossa banda. Moral da história : como regredimos, culturalmente falando...

Feita essa explicação (e que fique bem claro que trata-se de uma análise histórica, tão somente), fomos ao Café Brasil, e apresentamo-nos no dia 30 de maio de 1986, com 50 pessoas na plateia. Não era um público maravilhoso, mas não era decepcionante, tampouco. Uma data a mais foi-nos oferecida para cobrir uma lacuna na programação da casa, motivada pelo cancelamento de uma outra banda. Portanto, voltamos ao Café Brasil, e tocamos no dia 7 de junho de 1986, desta feita com 100 pessoas na plateia, e a explicação para que o dobro de pessoas tenha comparecido uma semana depois, no mesmo local, só pode residir em dois fatores : o efeito da divulgação, via mailing, e o fator financeiro, pois com a proximidade do famoso dia "10", a tendência era a das pessoas terem mais suporte financeiro para sair e divertirem-se. Enfim, explicações sócio / mercadológicas a parte, o fato foi que fizemos esse show a mais, e com esse resultado bem melhor de público. Vou falar agora sobre algumas matérias de imprensa escrita que resenharam os últimos shows, incluso o do "Caverna II", do Rio, aumentando o volume do nosso portfólio.
E posteriormente, um parêntese para comentar vários fatos ótimos que paralelamente aos shows, nos animaram nessa época de metade do ano de 1986.


Por exemplo, na Revista "Metal", número 22, o jornalista Antonio Carlos Monteiro falou sobre suas impressões do Show "Metal 4", realizado no Palmeiras em maio de 1986 :

"...Mais uma pausa, e surge A Chave do Sol". É impossível falar dessa banda sem usar adjetivos elogiosos. Inexplicável a cegueira absoluta das grandes gravadoras, que ainda não descobriram esse grupo. Além de músicas conhecidas, a Chave ainda mostrou  alguns ótimos temas novos, provando que sempre é possível se superar"...

Na mesma Revista, em sua edição de n° 23, a jornalista carioca Claudia C. Schäfer resenhou o show que fizemos no "Caverna II" no final de maio do mesmo ano, e comentado nos capítulos imediatamente anteriores :

"No último domingo de maio, um grupo paulista muito querido pelos cariocas se apresentou pela terceira vez no Rio de Janeiro : o Chave do Sol. Além do Chave, tivemos a presença do Azul Limão e Fim do Mundo. Como de costume, ás quatro horas, os vídeos começavam a agitar a galera...

...Apesar de ter vindo poucas vezes ao Rio, a galera carioca o conhece pelo EP da Baratos Afins. A chave é uma banda extremamente profissional e seus músicos são excelentes, todos tem o mesmo nível. São eles : Luiz Domingues (baixo); Zé Luis (bateria); Rubens (guitarra) e Beto (vocais). Com temas falando de amor e também com conotações humanitárias eles levaram "Anjo Rebelde", a baladinha "Um Minuto Além", um protesto contra o Apartheid, "Sun City", entre outras encerrando com um belíssimo blues "Forças do Bem"...

Comentando as matérias, agora, em relação a resenha do Tony do show do Palmeiras, digo que seu entusiasmo para conosco era emocionante. Daí em diante (para ser mais preciso, acredito que desde 1985), ele sempre demonstrava publicamente em suas matérias que não conformava-se com o fato da Chave do Sol não ser cogitada por nenhum produtor de gravadora "Major" para uma possível contratação e remanejamento de nossa banda no mainstream.

Isso era muito bacana como lobby para nós, considerando que o Tony já era um jornalista top e escrevia para publicações bem situadas no ranking das publicações musicais do Brasil, caso das revistas "Roll", "Metal" e "Mix", todas da mesma editora, além de colaborar com jornais e fanzines independentes, também. No caso da resenha da Claudia, ela preocupou-se em situar a banda no imaginário do público carioca, e fazer uma descrição das músicas. "Forças do Bem" era uma pauleira, quase um Heavy Metal. Ela deve ter confundido o nome, pois ao descrevê-la como um Blues, referia-se naturalmente à "Que Falta me faz Baby", essa sim, um Blues. Lembro-me que tocamos várias novas, dentro daquela determinação de tirar o "ranço heavy metal" inadequadamente adquirido após o lançamento do EP de 1985. Mesmo assim, tocar "Forças do Bem" foi uma escorregada na estratégia...
Ela omitiu a questão do calor, o desmaio do Zé, e a ovação incrível que tivemos, fatos marcantes do espetáculo, escrevendo uma resenha quase burocrática, apesar de simpática.

Como dado curioso, acrescento que ela era uma mulher muito bonita, loira natural e com aspecto de "gringa", destoando-a do padrão típico da carioca bronzeada (era descendente de alemães), e na mesma época em que escrevia na Revista Metal, apresentava um programa de Vídeo Clips na TV Bandeirantes do Rio. Pouco tempo depois, ficamos amigos, pois ela era muito amiga da minha namorada na ocasião, que era do Rio, também. Chegamos a irmos juntos ao show do Eric Clapton, na Praça da Apoteose, em 1990 : eu; minha namorada; Claudia; e seu namorado, o baixista da banda "X-Rated" (que fez relativo barulho na cena do início dos anos noventa). No próximo parágrafo, ainda no embalo de falar sobre matérias de veículos impressos, comentarei sobre uma entrevista que concedi à Revista "Roll", e aí, tem bastante coisa para repercutir e comentar à luz de trinta anos passados...

Mais uma entrevista que saiu publicada, desta feita na Revista "Roll", número 25, e o entrevistado fui eu mesmo. Vou reproduzir o questionário; as minhas respostas, e posteriormente faço os devidos comentários. Claro, na transcrição abaixo, "modernizei" a matéria, substituindo o antigo apelido pelo qual era conhecido naquela época, por meu nome artístico atual...

"Técnicas

Luiz Domingues (Chave do Sol)

"Luiz Domingues, músico há nove anos e um dos fundadores da Chave do Sol, vem se destacando no cenário Rockeiro como um dos melhores baixistas surgidos nos últimos tempos. Aqui ele dá alguns dicas sobre técnica, equipamentos e influências.

Roll - Qual o seu instrumento ?

Luiz Domingues - No momento uso um Fender, modelo Jazz Bass.

Roll - Há alguma modificação nele ?

Luiz Domingues - Sim. Dois captadores Di Marzio, que tem maior qualidade de som e mais ataque. E troquei a ponte, também : tirei a original Fender e coloquei uma Badass.

Roll - Quais os efeitos que você usa ?

Luiz Domingues - Nenhum, seja no palco ou no estúdio.

Roll - Qual o seu sistema de amplificação ?

Luiz Domingues - Um Duo Vox

Roll - Você toca com os dedos ou usa palheta ?

Luiz Domingues - Só os dedos, desaprendi totalmente a a usar palheta. Quando eu comecei a tocar,  preferia a palheta, mas uns dois anos depois descobri que tocando com os dedos, se tem uma qualidade de som muito melhor. Eu ganho brilho no som e mais volume.Além disso, é possível se desenvolver vários macetes. Eu, por exemplo, deixo a unha do dedo médio um pouco maior para obter timbres mais agudos. Uso também muita estilingada, o que é raro no Rock brasileiro. Isso vem da grande influência que tenho do Funk e da Soul Music, e procuro encaixar essas características no Heavy Metal.

Roll - Qual a marca das suas cordas ?

Luiz Domingues - Rotosound

Roll - Quais os baixistas que o influenciaram ?

Luiz Domingues - Jack Bruce, Chris Squire, John Entwistle e Geezer Butler.

Roll - Dos baixistas atualmente em atividade, qual mais o impressiona ?

Luiz Domingues - São dois : Geddy Lee e Steve Harris".


Agora, as minhas considerações sobre tal entrevista, amparadas por 30 anos de distanciamento histórico (2016)...
1) De fato, eu só tinha o Fender Jazz Bass, nessa época. Só fui ter meu segundo baixo, o Tajima, modelo Precision, em 1989, nos momentos finais da Chave, "sem Sol".
2) Dei uma valorizada nessa resposta, porque na verdade, quando adquiri esse instrumento (o Fender), ele já estava com essas modificações que eu relatei ter feito. De fato, os captadores Di Marzzio e a ponte Badass são de qualidade, mas hoje em dia, eu não tenho essa convicção de que sejam "melhores" que as mesmas peças originais da Fender, e indo além, se comprasse um baixo Fender hoje em dia, não efetuaria a troca de tais peças, deixando-o original.
3) Isso não mudou... continuo avesso aos efeitos, pedais etc etc e olhe que 30 anos depois, o mundo tecnológico de hoje em dia (2016), inunda o mercado de novidades num ritmo frenético, e nada apetece-me. Continuo gostando do som puro do instrumento e tenho dito...

4) Aqui, uma mentira estratégica e por motivo de vergonha. Sei que não justifica-se, é claro, mas na época em que concedi tal entrevista, fiquei envergonhado em expor a minha situação pessoal e vexatória de não possuir um amplificador na ocasião. De fato, quando a minha banda cover do período 1979-1982 (Terra no Asfalto), encerrou atividades, eu poderia ter optado por ficar com o amplificador que usava, quando da divisão do espólio da banda. Mas optei por ficar com o mini P.A., a mesa de som e uma câmara de eco. Graças a esse sacrifício pessoal, A Chave do Sol nasceu com uma pequena estrutura de apoio para ensaiar, e esse mini P.A. não só sustentou nossos ensaios por mais de quatro anos, como também deu suporte em vários shows de pequeno porte que fizemos. Mas o preço que paguei por isso foi alto, pois só consegui comprar um amplificador em 1987, nos momentos finais da Chave do Sol. Explicado isso, quando o jornalista formulou tal pergunta, é claro que não poderia citar essa longa história para justificar a minha situação de não possuir um amplificador, simples que fosse. E ao mesmo tempo, era ridículo àquela altura dos acontecimentos, expor tal situação, pois era uma contradição à fama que eu havia construído nos últimos anos... portanto, embaraço que obrigou-me contar uma mentirinha "do bem"...
Claro que arrependo-me mesmo assim, e hoje em dia, responderia de pronto que não tinha e ponto final... qual o demérito ?

E por ironia do destino, em 1990, eu compraria um segundo amplificador, e seria um Duovox... parece que foi profético...
5) Impressionante como vamos mudando de opinião de uma forma radical com o passar do tempo ! Na época, defendi com unhas e dentes a técnica do Pizzicato (uso dos dedos, da mão direita), como "superior", alavancando diversas vantagens que eu achava válidas na ocasião. Hoje, penso exatamente o contrário !!


Com palheta, o baixista tem muito mais precisão; timbre; brilho, ou seja, o dedo, na técnica pizzicato funciona em estilos musicais mais calcados em linhas tradicionais do contrabaixo, ainda pensado como uma extensão do baixo acústico, tentando simular as situações e timbres característicos do baixo acústico. Desde 1992, voltei para a palheta com toda a convicção, e passados 24 anos (2016), não tenho dúvida de que é muito melhor para os meus propósitos, e basta ouvir os discos que gravei depois desse advento, e comparar o timbre. Na minha ótica, não há discussão. Engraçado eu ter usado a palavra "estilingada" para designar a técnica do "Slap". De fato, eu incorporava tal recurso à época, mas de uma forma comedida. E de fato também, causava uma certa estranheza entre os adeptos do Rock pesado oitentista, notadamente o pessoal do Heavy-Metal. Mas era algo normal na minha atuação, pois conforme disse na entrevista, sempre gostei de Black Music, em suas várias vertentes. Contudo, fui abandonando o slap, e posso afirmar que há anos nem cogito usar tal recurso. Acho-o muito chato hoje em dia, e se for para buscar o swing do Soul / Funk /R'n'B, uso outros recursos. E por fim, lamentável ter falado em Heavy-Metal, acho que fui infeliz nessa colocação pois já tínhamos virado essa página em 1986, e pelo contrário, tentávamos a todo custo retirar os resquícios desse erro estratégico de 1985, aí eu vou dar uma entrevista numa revista de circulação nacional, e falo uma bobagem dessas... merecia um cartão amarelo !!

6) Citei quatro baixistas sensacionais que realmente admiro (nada contra o Geezer Butler, mas deveria ter escolhido o John Paul Jones, que influenciou-me muito mais, além do Gary Thain), mas na verdade, poderia falar de outros vinte pelo menos, que tem o mesmo peso de influência na minha formação como baixista. Nessa pergunta em específico, aconteceu algo insólito, pois o repórter desligou o gravador e deu-me uma "dica" : tudo bem eu gostar desses baixistas "do passado", mas isso poderia desapontar os leitores / fãs. Pediu-me então que citasse ao menos um que fosse moderno, para que houvesse uma identificação maior com os leitores. Não era uma exigência, mas uma sugestão de amigo, visto que quem entrevistava-me era o Tony Monteiro, um jornalista que era admirador confesso da Chave do Sol e queria muito ver-nos numa situação de carreira, melhor. Portanto, foi quase uma dica de um assessor de imprensa.

Então, só veio uma ideia na cabeça : Geddy Lee, o baixista do Rush. Não era exatamente um baixista moderno, mas a despeito de ser uma figura que veio dos anos setenta, estava atravessando a
década de oitenta com muita dignidade e respeito da nova geração de adeptos do Rock pesado, com trânsito livre inclusive, entre os amantes do Heavy-Metal. Mas mesmo assim, era uma "semi-mentira" educada de minha parte, pois mesmo reconhecendo que ele é excelente e o Rush, uma boa banda, eu nunca fui um admirador contumaz dele, tampouco da banda. Indo além, até acho bons os primeiros discos deles, mas nunca emocionaram-me ao ponto de eu ser um fã potencialmente falando, e nunca interessei-me em absorver alguma coisa dele, Geddy Lee, como músico.

Mas pior ainda, foi quando o Tony sugeriu que eu incluísse mais um. Sua intenção era ótima e eu lembro-me dele falando textualmente : coloque mais um nome moderno, porque esses que você citou, são desconhecidos para essa molecada nova"...
E indo além "soprou" : Steve Harris. Não vou dizer que ache-o ruim. Pelo contrário, dentro do seu estilo, ele é bom, competente, honesto e merece mais um montão de adjetivos. Contudo, eu nunca gostei de Iron Maiden, pois como sempre digo, detesto Heavy-Metal, e quando vi / ouvi o Iron Maiden pela primeira vez, em 1981 aproximadamente, eu já era um Rocker de cabeça feita por um bilhão de outras influências que reputo mais importantes, e não havia motivo para encantar-me com aquela estética, aliás, pelo contrário...
Mas, vendo que uma resposta diplomática poderia ser mais conveniente para carreira da Chave do Sol, e minha por extensão, aceitei a dica e o disse, mas pela resposta que dei, está nas entrelinhas que respeito-o, mas claro que não influenciava-me em nada. Hoje em dia, eu não acataria a sugestão e responderia 100 % o que penso. Mas isento em 1000% o Tony nessa questão, pois sua intenção em ajudar-me foi nobre, sem nenhuma dúvida. Agora sim, vou falar sobre os tais fatos animadores extra shows que aconteceram nesse período entre abril e junho de 1986.

Falando enfim de tais fatos paralelos que venho anunciando há alguns capítulos atrás...
Bem, são alguns acontecimentos que não tem uma cronologia fechada, portanto vou citá-los conjuntamente, situando-os num período aproximado entre março e junho de 1986. O primeiro fato que vou contar, é a questão do poster da Revista Som Três.

Como sabemos, a Editora Três, que publicava a Revista "Som Três", tinha paralelamente a predisposição de lançar publicações alternativas, verdadeiros "splits", ou derivados, para explicar mais precisamente. Tais publicações eram edições especiais, como a "Enciclopédia do Rock", ou o "Livro Negro do Rock", mas dentro dessas publicações alternativas, a mais famosa era a dos posters, onde no formato dobradura, apresentava um histórico de algum artista, e no seu interior, um poster gigante do artista enfocado.
Tais publicações fizeram grande sucesso nas bancas de todo o país, no fim dos anos setenta e início dos oitenta. Era praticamente um oásis para apreciadores da estética setentista principalmente, pois nadando contra a maré da época, salvo raras exceções mais contemporâneas, era quase que exclusivamente composto de artistas setentistas (alguns poucos sessentistas apenas, como The Beatles, Rolling Stones e The Who), como Deep Purple; Yes; Black Sabbath; Led Zeppelin; Rush etc.

Portanto, numa época muitíssimo hostil à estética sessenta / setentista, era mais que anacrônica a linha editorial adotada em tais posters, mas para os órfãos do Rock tão vilipendiado após o manifesto Punk de 1977, tornou-se um "porto seguro", ainda que em tom de nostalgia. Avançando no tempo, o tal poster da Som Três lançou pela primeira vez uma edição focada em artistas brasileiros. Apesar da ótima iniciativa, o formato compartilhado com o qual revestiu-se, denotou uma certa falta de confiança, infelizmente, nos artistas nacionais. 

Melhor que nada, o métier comemorou o fato da Patrulha do Espaço e o Made in Brazil terem saído na referida edição, ainda que em conjunto. Demorou um bom tempo para que fizesse uma nova investida enfocando artistas nacionais, quando surgiu a ideia de um novo poster com esse teor. Em princípio, seguiria a ideia de uma edição compartilhada, mas para piorar as nossas expectativas, a determinação da redação seria diminuir ainda mais o espaço, dividindo-o entre quatro bandas. O "normal" em plena metade de anos 1980, teria sido enfocar em bandas da estética do Pós-Punk, e no mainstream, elas pululavam com pompa e circunstância, mas algum abnegado "mentor" (ouso dizer que desconfio quem era, mas não mencionarei, por não ter certeza), dentro do staff da Som Três, colocou a sua mão pesada na reunião de pauta, e assim, fecharam com a ideia de lançar o poster com quatro bandas brasucas do cenário do Rock pesado e underground. Claro que quando recebemos o convite para estar entre tais bandas selecionadas, comemoramos muito, e o aceitamos sem reservas.

É lógico que o ideal seria um poster para cada banda, individualmente, com maior capricho no texto e recheado de fotos, mas nós não poderíamos perder tal oportunidade, mesmo sendo mais modesta nesse tipo de espaço compartilhado. Aceito o convite, só aguardamos o agendamento da sessão de fotos e os trâmites para fornecer release, com o qual basear-se-iam para formatar o texto na publicação.


Falando do poster, o jornalista que escreveu o texto teve o cuidado de burilar o release oficial que cedemos-lhe e indo além, fez a leitura correta do histórico que enviamos-lhe em anexo, portanto, a redação final que foi publicada no poster, ficou bastante satisfatória. Destaco alguns trechos :

"Uma das mais queridas bandas de Heavy paulista, A Chave do Sol nasceu em 82"...

..."Começaram a tocar como Power-Trio e muitos de seus fãs preferem esta fase, em que a maior parte das músicas era instrumental"...

..."A Chave do Sol possui um estilo diferente, e a rapaziada faz questão de dizer que não sofre influência específica de nenhuma banda. Podem-se identificar influências de Heavy e muito Jazz Rock, que resulta numa mistura bem a gosto dos Heavies em geral"...


Agora comentando esses drops que "pesquei" no contexto geral :
1) Não posso afirmar ser um "erro" por parte do jornalista o fato dele ter nos rotulado de "Heavy". Era o ônus pelo segundo disco lançado e fruto de uma má estratégia na carreira. Agora, era trabalhoso aparar tais arestas e nomeações desse porte, eram quase inevitáveis na mídia.
2) Verdade... era enorme o número de fãs que gostavam da fase do trio mais instrumental, mas se serve como consolo, a "fase Beto", que estava em curso, também angariou muitos fãs.
3) Verdade, também. O EP era isso mesmo, ou seja: o velho Jazz-Rock que praticávamos anteriormente, mesclou-se ao Heavy-Metal, imprimido pelo peso, e esse é o seu som. Inevitável que o jornalista tenha feito tal afirmativa.

Encerrando o assunto do poster, claro que tal publicação foi muito positiva para a banda e auxiliou-nos a atingir esse "momentum" precioso que atingíramos na metade de 1986. Não foi o fator preponderante, contudo, era mais uma ferramenta de divulgação e à medida que maior fama alcançávamos, mais oportunidades apareciam e num efeito potencializador, mais chamávamos a atenção, ou seja, era o doce momento da retroalimentação espontânea que a banda estava atingindo, graças aos esforços somados de quatro anos de trabalho, e apesar dos erros de estratégia e da falta de sorte de termos atraído um empresário; produtor ou manager esperto o suficiente para capitalizar o momentum e empurrar-nos enfim para o mainstream. Falo a seguir mais sobre os bastidores dessa produção do poster. 

De fato, o release que oferecemos, com o adendo de um histórico mais pormenorizado em anexo, serviu de base para o jornalista escrever a resenha que comporia a nossa participação no poster.
Foi bacana que o jornalista em questão, teve o cuidado de não copiar ipsis litteris como muitos fazem normalmente (inclusive até hoje, no jornalismo cultural), quando vão realizar alguma matéria, apenas aproveitando o release oferecido pelo próprio artista. Tal expediente é claramente preguiçoso por parte de alguns jornalistas e hoje em dia, com internet e google, não querer fazer uma pesquisa básica e prévia, é no mínimo lamentável.

Foto da exótica edificação onde a Editora Som Três reunia suas diversas redações, com tantas revistas que possuíam no mercado editorial brasileiro, no bairro da Lapa, zona oeste de São Paulo
 
Marcado o dia da sessão de fotos, dirigimo-nos à redação da Revista Som, localizada nas imediações do trilho de trem na Lapa, bairro da zona oeste de São Paulo, e caracterizado pela presença de grandes galpões industriais.

A redação da Som Três ficava ali, sede da Editora Três, responsável não só pela Revista Som Três, e seus posters e edições extraordinárias (cujo teor já comentei anteriormente), mas também por outras publicações famosas, entre as quais, a Isto É, (talvez a grande concorrente da "Veja", na área de política & economia), e a Revista Planeta, especializada em esoterismo, misticismo & afins, que reputo até serem os carros chefe da editora, tanto que existem até hoje, e no caso da esotérica "Planeta", sem interrupção, desde 1972. Bem, a ideia era fotografar todas as bandas juntas, com seus membros misturados para a composição do poster central, e sessões separadas para colher mais material, com o objetivo de compor as matérias individuais. Assim que chegamos, confraternizamo-nos com as demais bandas. Ali todos eram amigos, e o clima era descontraído, naturalmente. Lembro-me que na sala de maquiagem do estúdio fotográfico, o clima era de total descontração e claro, muita brincadeira surgiu entre nós, porque não sendo artistas assumidamente "glitter", mas com o visual oitentista (pelo menos no "moderno" Hard-Rock da época), quase que promovendo um revival "Glam" no visual, era uma questão contraditória, sem dúvida alguma.

E dentro desses parâmetros, e considerando o machismo inerente em nossa cultura popular, claro que a brincadeira comeu solta. Os técnicos presentes no estúdio fotográfico demonstravam absoluta imparcialidade diante desse clima, não entrando nas brincadeiras do nosso grupinho. Claro que estavam acostumados a fotografar muita gente esquisita, mas duvido que uma "fauna" daquelas aparecesse no estúdio frequentemente. Na hora de fotografar o poster coletivo, a ideia das bandas misturarem-se ganhou força.

Hoje em dia, acho que seria melhor dividir o poster central em quatro pedaços, porque seria mais produtivo para cada banda.
Ali, aquele bando de cabeludos maquiados; misturados, e sem identificar com precisão quem era quem, parecia ser contraproducente para as bandas enquanto divulgação. Mas o pessoal da Som Três tinha na ponta da língua, o argumento de que no encarte, o espaço individual de cada banda estava assegurado etc etc. Era verdade, e também era concreto que a ideia de todos misturarem-se, conferia uma ideia fraternal, portanto simpática.
Isso também era verdade e além do mais, ali todos eram amigos e estávamos acostumados a dividir camarins, estúdios de Rádio e TV e ajudarmo-nos mutuamente há tempos, portanto, não era desagradável para ninguém a mistura, mas ainda acho que sob o ponto de vista do marketing, não foi legal para ninguém. Na hora da captura dos clicks do fotógrafo, havia a disparidade fisiológica evidente. O pessoal do "Abutre" era muito alto, fazendo um contraponto com A Chave do Sol, por exemplo, onde o Beto e o Zé Luiz tinham estatura mediana, e eu, sou bem baixo, com apenas o Rubens, mais alto entre nós, aproximando-se levemente dos irmãos Giudice. O pessoal do Platina também tinha porte alto, e o seu vocalista, Seman, era um gigante com físico de fisiculturista.

Já no visual, todos pareciam seguir o hard "Farofa" californiano oitentista no visual, com exceção do Centúrias que tinha visual rústico de jeans básico, e evocando a simplicidade espartana do AC/DC. Em suma, foi bastante divertida a sessão de fotos.

O poster chegou às bancas e vendeu muito bem. Recebemos informação da Som Três, de que sua cúpula estava até surpreendida com o resultado apresentado na vendagem, porque estava superando as sua projeções que foram baseadas no desempenho do poster que haviam lançado em 1981, com a Patrulha do Espaço e o Made in Brazil.

Cinco anos de defasagem entre os dois lançamentos, mas não podíamos reclamar, porque enfim a Editora Três dignou-se a lançar novamente artistas brasileiros, e lembrou-se de nós. Claro que no "momentum" que atravessávamos em 1986, foi um elemento a mais para animar-nos muito. Tal poster representava a nossa estampa nas bancas de todo o país; e somava-se às matérias que apareciam com frequência em outras publicações; o clip lançado pela TV Cultura da música "Sun City"; os shows de porte que estávamos fazendo; rádios que tocavam-nos em suas programações e / ou programas; o crescimento do fã clube, e outras coisas boas que aconteceram na mesma época, e das quais falarei a seguir.
A rádio 89 FM estava no ar desde o início de 85, tentando firmar-se no Ibope, e colocando-se como uma emissora exclusivamente dedicada ao Rock. Claro, sua estratégia de atuação era privilegiar o Rock contemporâneo, e com pouco ou nenhum espaço dedicado ao Classic Rock.

No mercado paulistano, estava mais forte nesse setor, a 97 FM, com muito maior audiência, ainda que fosse uma emissora de Santo André, cidade vizinha e por conta disso, não poder ser chamada de paulistana, mas o pior mesmo, não ser ouvida na cidade de São Paulo inteira, por deficiência de sua infraestrutura. Por não ter uma antena potente, não era alcançada em muitos bairros de São Paulo, e isso atrapalhava-a certamente na sua solidificação de mercado.

Por conta desses fatores, a 89 FM tinha tudo para crescer e concorrer com a 97 FM, pois ainda por cima, apostava no Rock contemporâneo, e na década de oitenta, a aposta da 97 FM pelo Classic Rock, ainda que fosse um bálsamo para Rockers tradicionalistas como eu, era mercadologicamente um suicídio, infelizmente.

Posto isso, o leitor há de recordar-se que capítulos atrás, quando enfocava fatos de 1985, eu contei um incrível caso da Chave com a 89 FM ( a música "Anjo Rebelde" sendo tocada na rotação errada...), mas agora, nesse primeiro semestre de 1986, teríamos outra passagem, ainda mais significativa e produtiva de certa forma. Vamos aos fatos : não recordo-me se foi no fim de 1985, ou comecinho de 1986, mas num esforço de crescimento, a 89 FM contratou Rita Lee e Roberto de Carvalho para comandarem um programa semanal, chamado "Rádio Amador". 

O casal vivia a sua carreira pop desde 1979, aproximadamente, e seu auge de popularidade havia ficado para trás, até 1982 ou 1983, mais ou menos e dali em diante, só voltariam à baila com sucessos sazonais. Mas em 1985, a percepção não era essa, e o casal desfrutava de fama mainstream forte no imaginário popular e portanto, ter o passe de ambos era um handcap para a emissora que aspirava crescer no ranking das FM's paulistanas, e esse é um mercado fortíssimo, disputado a tapas pela concorrência. O programa era simpático. 

Costumava tocar coisas que o casal gostava, novidades "modernosas" e espaço para os sketchs humorísticos da cantora, que notoriamente gostava de usar tal humor em suas aparições públicas etc etc. Numa ação promocional, Rita anunciou que estava aceitando material de bandas emergentes, e mediante uma audição que garantisse um mínimo de qualidade de áudio do material e do aspecto artístico / técnico de cada banda, tocaria e teceria comentários.

Claro que deve ter provocado uma enxurrada de materiais chegando à emissora, e uma equipe da mesma deve ter feito mutirão para filtrar os materiais recebidos, e escolher as melhores bandas. Nesse caso, animamo-nos a levar o nosso material também, mas aí tínhamos o dilema : levar o compacto; o EP; ou a demo nova, onde a proposta de som era a que queríamos impor doravante ?  O fato de ser uma banda já no mercado, com dois discos lançados, tinha que ser enfatizada, é claro. Levar só a demo, implicaria em nivelar por baixo, denotando sermos uma banda iniciante, como era o caso da maioria, que certamente abordaria a produção do referido programa.

Contudo, levar o compacto apenas, deixava-nos na situação de expor a voz do Rubens como carro chefe, e tendo a obrigação de fazer valer a voz do Beto, como era a atual formação daquela época, não interessava-nos, certamente. Mais inconveniente ainda seria o lado B do compacto, com uma música instrumental e longa, cheia de firulas anacrônicas para o momento oitentista. No caso do EP, pior ainda, pois queríamos esquecer aquelas pauleiras com aspecto de Heavy-Metal, e claro, era a voz de um ex-vocalista, que a despeito de ser um grande cantor, já não estava mais conosco (e agora a nossa obrigação e interesse era divulgar uma nova fase da banda), e tendo portanto, um novo frontman. Sendo assim, levamos a demo-tape que acabáramos de gravar, com release, cópias das melhores matérias de nosso portfólio e claro, os dois discos lançados. O que fizemos, na entrega do material, foi enfatizar à produtora que recebeu-nos, que nossos esforços de divulgação estavam concentrados na demo-tape recém gravada, e que se aprovado o áudio de tal gravação, preferíamos que tocassem músicas da demo, e não dos discos.

Claro que a gravação dos discos tinha maior qualidade de áudio, mas a demo tinha uma qualidade mínima pra tocar no rádio e portanto, estávamos confiantes que a produção a aprovaria para execução. Então, num dia qualquer de junho de 1986, que não recordo-me exatamente qual foi, pois não consta de minhas anotações de época, fomos informados que a música "Sun City" tocou no programa, e que Rita Lee havia tecido grandes elogios à nossa banda, e indo além, havia comparado-nos ao Bad Company.

O grande "Bad Company", uma bela banda britânica setentista e que transitava entre o Blues-Rock; Hard-Rock e o Pop
 
Ora, quem conhece um pouco a história do Rock brasileiro setentista, sabe que na época de ouro de Rita Lee & Tutti-Frutti, era público e notório que ela adorava o "Bad Company", portanto, ficamos bastante entusiasmados quando recebemos a notícia de que ela tocara-nos em seu programa, e elogiara-nos com uma referência que era muito querida por ela (e por nós, também...). Sendo assim, forçamos uma barra, e na semana subsequente, fomos in loco ao estúdio da 89 FM para tentar falar com ela, sob o argumento de que gostaríamos de agradecer-lhe...


Dessa forma, fomos na chamada "cara dura", para tentar uma abordagem direta com Rita Lee, e cabe aqui algumas ponderações prévias sobre tal resolução de nossa parte :
1) Nossa intenção na verdade era outra, além do agradecimento puro e simples... queríamos na verdade, estreitar relação com a "Rainha do Rock", e tentar assim um "amadrinhamento", se possível...
2) Era terminantemente proibida visitas nos estúdios da emissora e o programa era ao vivo. Portanto, era quase certeza de que não conseguiríamos nem passar da recepção.
3) Mesmo não sendo lá uma estratégia bem engendrada e correndo o risco de não lograr êxito, tentamos...
 

Sendo assim, chegamos a referida emissora em cima da hora do programa começar e isso foi proposital. Julgamos ser mais conveniente tentar entrar com a certeza de que ela e Roberto de Carvalho já estivessem no estúdio, a tentar uma abordagem de rua, onde naturalmente poderia haver a presença de seguranças truculentos, ou deles nem pararem para ouvir-nos, alegando pressa pelo horário. Seria incerta a estratégia, portanto. Naquela época, não havia interceptação no hall de entrada do edifício onde a 89 FM localizava-se, portanto, entrar no prédio era tranquilo, mas o impasse seria entrar nas suas dependências no 18° andar.

Foto datada de 1952, da antiga loja de departamentos "Sears", na Rua 13 de maio, onde desde 1989, existe o Shopping Paulista

Portanto, ficamos nas imediações da Praça Oswaldo Cruz, onde localiza-se o referido edifício e aguardamos alguns minutos, para efetuar a nossa entrada. Naquela época, as dependências da antiga loja de departamentos Sears que ficam em frente, no início da Rua 13 de maio, estavam decadentes. Somente quatro anos depois, ali reformar-se-ia e tornar-se-ia o Shopping Paulista. Na espreita, aguardando na praça que marca o início da Avenida Paulista (Praça Oswaldo Cruz), foi quando vimos o casal chegando apressadamente. Estavam num carro particular, e com uma terceira pessoa presente que o dirigia, que deixou-os na porta do prédio e partiu, provavelmente indo estacioná-lo. Quem seria, não sabemos, talvez um produtor do staff do casal, provavelmente.

Vimos portanto o casal entrando apressadamente no edifício, e sem seguranças, tampouco abordagem de fãs, pois achávamos que na porta do prédio aglomeravam-se caçadores de autógrafos, "paparazzis", e curiosos em geral. Na verdade, nada... tudo absolutamente tranquilo.

Subimos então sem problemas, visto que naquela época o edifício não tinha uma recepção para filtrar entradas. Chegamos no 18° andar, e aí sim, enfrentamos a barreira da recepção da rádio. Apresentando-nos à recepcionista, fomos francos : -"queremos falar com a Rita Lee"...
A recepcionista da rádio não mandou-nos embora, como achamos que o faria de forma "incontinente", obedecendo ordens naturalmente, mas resolveu interfonar para o estúdio, e anunciar nossa presença e nosso desejo. Algum tempo depois, uma produtora apareceu, e educadamente disse-nos que a Rita estava no ar, e não poderia receber-nos..."bla-bla-bla"...
Então insistimos no discurso de que a Rita gostara da nossa banda, que gostávamos do Bad Company também... e mais "bla-bla-bla"...

A produtora então disse-se que não era comum a Rita interromper sua performance que era ao vivo, para receber pessoas, mas falaria com ela. Ora, parecia que daria tudo certo, enfim, pois o normal teria sido convidar-nos a retirarmo-nos do recinto...
Mais um tempo passou-se quando ela apareceu e disse para aguardarmos mais um pouco, pois a Rita falaria conosco, mas rapidamente, durante um intervalo comercial do programa, portanto seria bem rápido. OK, ficamos animados com a perspectiva...


Mais um pouco, e apareceu enfim a "Rainha do Rock", no hall onde aguardávamos...
Simpática, "serelepe" e brincando conosco, chegou dizendo que "adorava cabeludos", quebrando qualquer gelo que pudesse haver entre nós, artistas do underground, e ela, consolidada no mainstream desde quando nós mesmos éramos crianças apenas.

Ela mexeu com cada um, brincando e comigo em particular, lembro-me que tocou nos meus cabelos, levantando uma mecha em meio à sua brincadeira carinhosa. E naquele tempo, minha cabeleira não era só vasta, mas bem recheada, posso dizer com uma dose de saudade...
Falamos muito rapidamente, onde ela reforçou a impressão que deixara no ar, dizendo considerar a nossa banda muito boa, e que nós havíamos despertado-lhe a lembrança do Bad Company.

Agradecemos e tecemos rápidos comentários sobre o nosso trabalho, mas o tempo urgia e logo a produtora que atendera-nos anteriormente estava desesperada sinalizando que o intervalo estava para acabar e a Rita deveria voltar ao estúdio e reiniciar sua locução. Diante da inevitável ruptura, ela desejou-nos boa sorte, mandou beijos, e voltou voando para o estúdio. Saímos contentes com a abordagem. Acredito que nos dias atuais, seria impossível efetuá-la novamente, portanto, foi uma ação que podemos comemorar e muito.

Apesar disso, o resultado prático, não mudou a nossa vida, evidentemente. Tudo não passou da efemeridade de ocasião, e cabe uma reflexão de minha parte, agora que estou muito mais experiente. Abrindo um rápido parêntese, digo, que não obstante o fato de não ter alcançado nem 1% da fama que Rita Lee teve / tem, eu também passei (e ainda passo), muito pela mesma situação, ou seja, jovens aspirantes a carreira artística, abordando-me a cata de uma avaliação de seus trabalhos, ou mesmo buscando contatos que supostamente acham que eu tenho para auxiliá-los etc etc. Dentro dessa perspectiva, hoje eu sei que a Rita, apesar de seu prestígio e fama à época, o que poderia fazer por nós, exatamente ? 

Talvez seu aval abrisse algumas portas, talvez até impulsionasse-nos em alguns aspectos, mas dificilmente alcançaríamos o mainstream por conta da ajuda dela, a não ser que encantasse-se verdadeiramente, ao ponto de tornar-se nossa "madrinha", um autêntico "anjo da guarda", e colocasse nossa banda como pauta de suas prioridades na agenda. Mas não era o caso...
Ela ainda era jovem, e sua carreira prosseguia em sua rotina de shows; gravações de discos, compromissos de mídia etc etc.
Apesar de achar que seu "momentum" na carreira solo já havia passado, visto pela perspectiva histórica de hoje em dia, claro que ela na época não tinha tal percepção, e naturalmente tocava a carreira achando sempre estar na crista da onda. E na base da "banguela", sua carreira seguiu com certa exposição midiática pelo menos até o início dos anos 2000, apesar do grande boom ter ficado mesmo para trás, até 1983, mais ou menos.

Portanto, claro que eu compreendo que não é assim que funciona, a não ser, como já disse, que o "famoso" em questão queira "comprar essa briga", por ter envolvimento emocional com o artista apadrinhado, ou por acreditar muito no seu trabalho. No caso da Rita, seu elogio foi sincero e a comparação com o Bad Company, foi uma lisonja para nós, mas na prática, não mudou nossa vida em nada. E assim foi a nossa aventura no programa "Rádio Amador", com o posterior contato com Rita Lee e o elogio público que fez-nos, que foi muito bacana. Poucos meses depois desse episódio, teríamos outro contato com ela, mas desta feita, de forma indireta, e aí sim, um pedido de ajuda formal foi feito e negado por parte dela. Mas falo no momento correto da cronologia dos fatos. A seguir, falarei sobre a nossa relação de amizade e cooperação com a banda Punk, "Os Inocentes", e como isso gerou uma história plena de nuances interessantes.



Em praticamente todos os capítulos que venho escrevendo sobre as bandas em que toquei / toco, já expressei a minha opinião sobre a "Revolução Punk" de 1977, e sei que minha visão sobre esse momento da história (e sobretudo suas consequências para a música e o Rock em específico), é bastante polêmica, pois vai na contramão total da maioria das pessoas, que acham que tal movimento foi benéfico, e eu penso exatamente o contrário. Mas claro que minha bronca com o Punk Rock sempre foi institucional, jamais pessoal, numa primeiríssima avaliação. Em segundo lugar, a verdadeira bronca nem é contra o movimento em si, mas muito mais com os ditos "formadores de opinião", que criaram um paradigma maldito a meu ver, e em seu bojo, uma carga de malefícios ao Rock, com desdobramentos múltiplos e praticamente irreversíveis.

Então, para deixar claro, e acho que já expliquei isso em outros capítulos, mas vou reforçar aqui, digo que :
1) A "filosofia" do "Faça Você Mesmo" (Do It Yourself), alardeada como revolucionária em 1977, não é abominável em si, mas abriu sérios precedentes, causando estragos que considero imperdoáveis para a história do Rock.
2) No bojo da dita "Revolução", os seus marqueteiros criaram elementos detestáveis para realçar o seu "conceito / paradigma", e um dos mais terríveis é a exaltação da ruindade musical como um recurso padrão de seu movimento. A ideia de não precisar ser um "virtuose de conservatório" para tocar numa banda de Rock (da qual até concordo), era válida, mas daí a forjar o extremo oposto como algo padrão, foi um desserviço que causou estragos a curto; médio, e longo prazo. Toda uma geração cresceu com a ideia de "quanto pior, melhor" e isso é inadmissível. O direito a fazer um som simples, é legítimo. Se quisesse ser simples, fazer Rocks de três acordes, não haveria problema algum, mas daí a propagar a ideia de tocar desafinado de propósito; tocar o mais toscamente possível, era uma pura ação de marketing, mas que infelizmente os "formadores de opinião" elevaram à décima potência de importância, quando na verdade era só uma "malcriação de meninos contra suas vovós na hora do almoço", e jamais deveria ter passado disso.

3) Outro paradigma maldito forjado nessa história, foi o do repúdio ao passado, como palavra de ordem. Distorceram o conceito de niilismo de tal forma, que parecia uma cruzada anti-Rock, com aquelas hordas de abduzidos massacrando o Rock clássico, e em específico o Rock Progressivo. Toda sorte de ataques foram perpetrados e os ditos "exageros" do Rock Progressivo tornaram-se o cristo a ser massacrado em praça pública. Esse ódio ao passado que eles fomentaram, criou um paradigma maldito, pois isso norteou todo o desenvolvimento da estética dos anos 1980, com a fuga absoluta das raízes e a obsessão pelo novo, que nunca revelou-se minimamente interessante, apenas sendo o "novo". Tal predisposição dos formadores de opinião em "hypar" tudo o que era novo, só porque era novo, criou aberrações. Se tudo o que era novidade e fugia da estética 1950 / 1960 / 1970 era considerado "bom" por essa gente, e consequentemente aceito pela massa não pensante, criou-se um terrível paradigma de que a ruindade musical era "legal", e isso explica a fragilidade absoluta da maioria esmagadora dos artistas do Pós-Punk, e seus derivados durante a década de 1980. Isso foi um crime lesa-Rock e causa-me espanto que em pleno 2016, poucas pessoas ainda, tenham tomado consciência do precedente terrível que essa famigerada mentalidade destruidora causou.
4) Uma desculpa na ponta da língua que esses mentirosos criaram, foi a de que o objetivo dos punks de 1977 foi o de romper como Rock "certinho", dominado por músicos com mentalidade de músicos eruditos, e assim "devolver" o Rock à sua raiz rebelde dos anos cinquenta, quando de seu surgimento. Balela !! Basta olhar a história do Rock e verificar que existia uma dose forte de rebeldia nos primórdios, mas jamais sob a égide da avacalhação como os punks instituíram em 1977. Ninguém queria tocar mal de propósito, ter atitudes anti-sociais para chocar na mídia, ou repudiar a música que precedeu-os...

Pelo contrário, seguindo a normalidade, todos exaltavam seus influenciadores, fossem nomes da velha guarda do Blues, ou da Country Music, Folk etc. O tocar simples, para alguns de seus maiores expoentes era algo normal. Simples sim, mas esculhambado, não...
5) Reforçando, minha bronca sempre foi institucional, contra o conceito e suas consequências, jamais contra pessoas. Mais que o estilo musical, mas contra o seu caráter revolucionário enquanto manifesto artístico e tomada de posição estética, a bronca mesmo é contra os marqueteiros, esses inescrupulosos que no afã de ganhar dinheiro, lançam boatos, criam modas e paradigmas sem mensurar os efeitos colaterais, e mesmo que tenham consciência do malefício que causam, dão de ombros e soltam sua bomba atômica sem dó, pouco importando-se com os estragos inevitáveis que causarão.
Para tais energúmenos, deixo o meu repúdio.
6) Não sou contra o Punk Rock, ou o Pós-Punk ou quaisquer de seus derivados. E muito menos contra quem aprecia tais estéticas e ainda menos para quem os professa. Aceito como legítimo apreciar ou querer fazer música de qualquer estilo, pois a democracia pressupõe a liberdade artística total.

Se o cidadão gosta e quer ouvir música tosca, não incomoda-me em absolutamente nada. Eu acho que todos tem o direito inalienável de expressar-se artística e culturalmente falando, da maneira que  aprouver-lhes. E nessa prerrogativa, rejeito totalmente a antítese criada pelos "formadores de opinião", de que o contrário não possa acontecer na mesma medida. Reservo-me o direito de continuar apreciando, fazendo e incentivando jovens artistas a fazer música de qualidade, bem composta, arranjada e executada. Rejeito o paradigma punk de tosquice como instituição paradigmática. Rejeito o baixo astral, rejeito o "quanto pior, melhor". Feitas essas explicações, vou contar a relação boa de amizade que A Chave do Sol tinha com Os Inocentes, um dos expoentes do Punk Rock no Brasil e com esse relato, creio que deixarei esclarecido de uma vez por todas, a minha opinião sobre o assunto, e sobretudo, o quanto minha posição é coerente enquanto pensamento filosófico, e nada tem a ver com pessoas.


Foi a partir de 1983, quando paralelamente à Chave do Sol, eu voltei ao Língua de Trapo, que comecei a tomar contato mais direto com músicos que gravitavam no mundo do Punk Rock, pelo fato do Língua ter ligação estreita com o Teatro Lira Paulistana, e por ter gravado seu primeiro disco pelo selo mantido pelo Teatro. Por ser um espaço absolutamente democrático e eclético, o Lira não era só a casa daquela cena chamada "Vanguarda Paulista", mas de diversos estilos, artistas, nichos e tribos. Nesse contexto, eram comuns as apresentações de bandas do Punk Rock, do Pós-Punk e de seus derivados.
Então, foi ali no fim de 1983, e durante 1984, que eu comecei a conhecer vários artífices de tal movimento e de fato, estavam na crista da onda, porque a cena oitentista era dominada predominantemente por tais tribos. Outro fator preponderante, foi que o técnico de som do Lira Paulistana, e que operou quase todos os shows que o Língua fez ali com a minha presença e que já operava na fase em que eu estava fora da banda, era o Canrobert, que já citei bastante no capítulo do Língua de Trapo, e aqui mesmo, no da Chave do Sol. Relembrando o que já falei vários capítulos atrás, o Canrobert era um punk de carteirinha, que aderira ao movimento desde o fim dos anos setenta e estava dentro do seu epicentro, pois era o técnico predileto de seus principais expoentes brasileiros, tais como "Os Inocentes", "Cólera" e "Ratos de Porão".
Como ficamos muito amigos por conta do Língua e ele era um rapaz de mente aberta e apesar de punk, gostava de Classic Rock e muito de Rock Progressivo (apesar de esconder isso de seus amigos punks mais radicais que adotavam a cartilha de ódio ao passado, do execrável Malcolm McLaren).


Ele concordava com as ideias do movimento enquanto contestatório e antistablishment, mas na parte da estética, mesmo sabendo ser antagônico, e um tabu entre eles, gostava de música refinada, mesmo porque, como técnico, tinha o apuro musical e sabia distinguir entre o que era tosco ou sofisticado, é evidente.
Por conta dessa amizade firmada com ele, graças ao Língua, ele também tornou-se um amigo da Chave do Sol e apreciou muito o nosso som, tendo nos operado a partir de 1984, em todas as ocasiões em que tocamos no Lira Paulistana. E posteriormente operou a nossa banda em outros lugares, incluso fora de São Paulo, como já contei. E como era entrosadissimo com os punks mais salientes da cena brasileira, foi através dele que conhecemos o pessoal do Inocentes, Ratos de Porão e Cólera.

Lembro de ter sido apresentado ao Clemente, vocalista e guitarrista dos Inocentes, ainda no final de 1983, no escritório do selo Lira Paulistana. Ele falava animadamente sobre os shows que acabara de fazer no Rio de Janeiro, com o Circo Voador abarrotado de gente etc etc. Muito expansivo e descontraído, deixou-me a impressão de ser um rapaz legal, apesar de nós vivermos em mundos onde teoricamente éramos antagonistas. Mas fomos firmando amizade e se tinha algum preconceito sobre o comportamento do punk padrão, percebia que para o Clemente e em outras figuras do punk, havia uma tolerância bem maior do que eu imaginava, em relação à tradicionalistas como eu, de cabelos longos e paixão pelo classic Rock 1960 / 1970. O máximo que ouvi de "ofensivo" da parte dele, era que havia virado punk porque ficara de "saco cheio" do Led Zeppelin, que gostara um dia...

Fiquei amigo também do Redson, líder do Cólera, que era um punk "gentleman". Por trás daquela casca de tosquice, tinha um sujeito tranquilo, praticamente zen. Era um pacifista convicto, idealista de um mundo melhor, e mais justo. Ha ha ha... com tais ideais, era um hippie na verdade, só faltando assumir-se como tal, e deixar a cabeleira crescer...
Quanto ao João Gordo e o pessoal do Ratos, nunca aproximamo-nos de fato, ficando só em cumprimentos fortuitos.
Bem, assim que A Chave do Sol também passou a gravitar na órbita do Teatro Lira Paulistana, e cair nas graças do Canrobert (e vice-versa), ficamos mais próximos dos Inocentes. 

Eles foram em peso assistir nossos shows no Teatro, e nós os vimos também em algumas ocasiões. Uns não gostavam da estética dos outros, mas apoiávamo-nos pela amizade e bom relacionamento construído. E assim o tempo foi passando e claro, apesar do Punk ter deflagrado a explosão do Pós-Punk, por motivos estéticos e mercadológicos, foram os seus filhotes que foram parar no mainstream exatamente por serem mais palatáveis ao mundo fonográfico e midiático.

Mas era só uma questão de tempo para o Punk, propriamente dito, também embarcar na oportunidade do mainstream e assim, Os Inocentes fecharam enfim com a Warner, em 1986. Já eram consolidados no underground dentro de seu nicho, mas agora, partiriam para uma aventura na primeira divisão da música, e entrariam em estúdio, no Mosh, estúdio onde gravamos o nosso primeiro disco, em 1984. Então, o Clemente fez-nos um pedido, que prontamente aceitamos pela nossa amizade firmada há tempos...

Os Inocentes não eram uma banda abonada, apesar do Punk-Rock ser a raiz primordial de toda a estética oitentista (e eles, um de seus principais expoentes no país), na crista da onda, pois eram rapazes de origem simples, e apesar de estarem sedimentados com agenda cheia e ganhando dinheiro, não tinham instrumentos de alto nível para enfrentar uma gravação profissional.

Não sei quanto aos seus álbuns anteriores, e provavelmente suponho que tenham arrumado instrumentos importados para gravar, mas agora, gravando pela Warner, num estúdio de maior categoria como o Mosh, naturalmente estavam sendo pressionados pela gravadora para darem um jeito nessa situação. Mesmo sendo uma banda de Punk-Rock, e onde a preocupação com timbres e performances instrumentais eram quase nulas, gravando numa gravadora Major, as coisas seriam diferentes.

Nesses termos, recorreram a nós da Chave do Sol, para tomar tal providência e assim, de pronto ficamos felizes por poder auxiliar os amigos, emprestando a guitarra do Rubens e o meu baixo, para que o Clemente e o Ronaldo pudessem contar com esses instrumentos na gravação.

Em retribuição, o Clemente disse-nos que a Warner estava oferecendo a eles uma verba para locar instrumentos bacanas e claro que ele poderia ter ficado quieto e embolsado tal verba, visto que nós emprestamos prazerosamente em título de amizade. Mas ele repassou-nos o dinheiro, que aliás era uma taxa alta, que surpreendeu-nos e deixou-nos ainda mais ansiosos por adentrar uma companhia dessas, com tantas mordomias oferecidas aos seus artistas...
E graças a essa troca de gentilezas, Os Inocentes puderam gravar com maior qualidade sonora, seu disco pela Warner.

Indo além, o Clemente tentou ajudar-nos ainda mais incisivamente, e aí tenho boas histórias para contar dessas sessões de gravação dos Inocentes. Além de dar-nos a possibilidade de ganhar um dinheiro extra, de forma inesperada, o Clemente quis ser ainda mais incisivo no seu esforço de cooperação conosco, pois convidou-nos a assistir as sessões de gravação do álbum, no estúdio Mosh. Claro que tínhamos a noção de que estúdio não é lugar para confraternizações, tampouco festinhas e reuniões descontraídas entre amigos. Sabíamos de antemão de que se fizéssemos de fato tais visitas, teriam que ser muito rápidas, num caráter bastante discreto. Mas estrategicamente o Clemente queria muito ajudar-nos, e mesmo sabendo que tal presença poderia atrapalhar o processo de gravação de seu próprio disco, insistiu que aparecêssemos, pois era vital aproximarmo-nos dos produtores Liminha e Peninha, que acompanhariam as sessões, certamente.

Claro que aceitamos tal convite e mesmo imbuídos da prerrogativa da discrição a ser observada, não poderíamos perder a oportunidade. Já tínhamos feito abordagens ao Peninha e também ao Liminha, por duas vezes, em 1984 e 1986, com recusas. Em 1986, tinha ocorrido muito recentemente, conforme o leitor leu poucos parágrafos atrás. Agora, seria outra abordagem, mas com estratégia diferente, numa aproximação mais gradual, não agressiva, mas na base da informalidade, via camaradagem. Já tínhamos o apoio do baterista dos "Titãs", Charles Gavin e agora, o pessoal dos Inocentes estava indicando-nos, portanto, mais que isso, estaríamos ali com o papel de apoiadores dos Inocentes, denotando nossa amizade, suporte, e vice-versa. Foram algumas visitas ao estúdio Mosh, ainda no "sobradão" da Vila Pompeia, zona oeste de São Paulo, e vale a pena descrever algumas histórias ali ocorridas, que reputo serem hilárias...


Sem dúvida que o esforço que Clemente e Ronaldo, dos Inocentes, fizeram para ajudar-nos foi muito salutar. Assim como Charles Gavin, que também esforçou-se para dar-nos um "empurrãozinho", ambos foram muito solícitos nessa ocasião, e logo mais contarei outros desdobramentos, também nessa prerrogativa deles terem auxiliado-nos bastante nesse ano de 1986. Enfim, voltando ao foco da narrativa, seguimos a orientação do Clemente, e paulatinamente fomos visitando o estúdio Mosh, aproximando-nos dos produtores Peninha e Liminha, que eram os nomes fortes da Warner, e junto ao diretor da casa, André Midani, determinavam as contratações e estratégia de ação para o cast da gravadora. Quem mais participou de tais visitas foram o Rubens; Beto e o Zé Luiz, no entanto. 

Eu fui apenas uma vez, e havia uma estratégia explícita de nossa parte, pois combinamos de nunca estarmos os quatro membros da banda juntos, para não caracterizar uma ação predatória de nossa parte. Pelo contrário, queríamos transparecer despojamento em nossas visitas, ao máximo, e tentar dessa maneira uma aproximação "natural" buscando "enturmarmo-nos" com os formadores de opinião. Nesses termos, posso falar de uma visita em que estive presente, onde algo hilário aconteceu.

Creio que posso contar isso numa boa, pois a despeito da trapalhada que configurou-se, não é algo ofensivo para o seu artífice, meu amigo José Luiz Dinola...
Como já falei várias vezes em toda a narrativa, inclusive em capítulos concernentes à outras bandas, o Zé Luiz é um sujeito extraordinário como ser humano. Sua capacidade inventiva, também em aspectos extra-musicais é inacreditável, e suas qualidades musicais são indiscutíveis. Mas ele é extremamente distraído, e não foram poucas as vezes que protagonizou situações engraçadas por conta de sua conhecida e costumeira distração contumaz. 

No capítulo do Sidharta, trabalho que fizemos entre 1998 e 1999, contei a incrível história dele com o ex-estilista, Clodovil Hernandes (está nos últimos capítulos daquela narrativa, inclusive).
Mas neste caso das gravações do álbum dos Inocentes, em 1986, algo incrível ocorreu, e eu fui testemunha ocular...
Fomos ao Mosh numa tarde de terça ou quarta, não recordo-me ao certo. Chegamos ao velho sobrado localizado na rua Coronel Melo de Oliveira, e tocamos a campainha. Ao invés de um funcionário do estúdio receber-nos, atendeu-nos a porta um dos vocalistas dos "Titãs", Branco Melo.

Os Titãs estavam na crista da onda, e com aquela fisionomia típica dele, com olhos esbugalhados e corte de cabelo a la "New Wave", era impossível não reconhecê-lo imediatamente. Agindo com uma certa formalidade, como se fosse um funcionário do estúdio, ao abrir a porta falou-nos :  -" Pois não ?"

Claro que eu o reconheci imediatamente, mas o Zé Luiz tomou a dianteira, e foi falando que estávamos ali a convite dos Inocentes etc etc. O Branco foi solícito ao deixar-nos adentrar a casa, e falou ser "Branco Melo dos Titãs", formalizando uma autoapresentação, mas mesmo assim, o Zé nem entendeu, e continuou tratando-o como a um rapaz desconhecido, com educação certamente, mas sem reconhecê-lo.

O Branco percebeu que o Zé não o reconhecera e sorriu-me, como se buscasse a minha cumplicidade nesse episódio, que se não chegou a ser constrangedor, foi no mínimo, atrapalhado. Então ele pediu para esperarmos um pouco na recepção, e foi falar com o Clemente. Quando ele afastou-se do recinto, eu falei para o Zé que ele dera "um fora", pois não percebera que o rapaz era o Branco Melo, dos Titãs. 

Aí ele surpreendeu-se, e fazendo aquela expressão facial de espanto, riu da situação, pois não acreditara que não pudesse ter reconhecido o Branco, mesmo sendo ele, visualmente falando, talvez o Titã mais marcante, justamente por conta de sua fisionomia, com os olhos proeminentes e geralmente realçados por recursos de maquiagem para forjar uma imagem artística agressiva, seguindo o modismo do Pós-Punk etc e tal. Enfim, não surpreendi-me com a distração do Zé Luiz pois já conhecia-o de longa data, mas que foi engraçado, foi...

Nesse dia, conversamos com o pessoal, num clima bastante amistoso, e o Clemente me falou que o meu baixo fora bastante elogiado pelo Liminha, que testou-o e aprovou-o para a gravação do disco. Nessa altura, eu vi-o com cordas novas, de marca "Rotosound", justamente a que eu mais costumava usar (gostava / gosto, da GHS também), e indo além, ele falou-me que um jogo de cordas novo seria usado a cada dia de gravação, um requinte a que um pobre mortal artista independente e duro como eu, nem sonhava, pois um encordoamento novo no meu caso, era algo bastante sazonal, infelizmente, por questões monetárias. Os produtores Liminha e Peninha haviam saído para um lanche em algum lugar do bairro, demos azar nesse aspecto, e a nossa determinação era obviamente forjar uma aproximação com ambos, seguindo a estratégia planejada pelo próprio Clemente.

Então, tive a ideia de sair, mas deixando o Zé Luiz ali presente para forjar uma suposta naturalidade, dissimulando nossa real intenção, mas sabedor de que o Rubens apareceria ali, posteriormente. Era excessivo ficarmos os três, e o Beto já havia dito que pretendia ir em outra ocasião. E foi assim, de forma estratégica, eu despedi-me de todos e aleguei um compromisso, deixando o Mosh para que o Rubens pudesse chegar a seguir, e junto com o Zé Luiz, tentar essa aproximação velada. Uma segunda visita ocorreria no dia seguinte, conforme relatarei a seguir.


Nessa segunda visita, Rubens e Beto interagiram. O Beto sempre foi bastante extrovertido, era de seu temperamento, normalmente e assim, era teoricamente o melhor entre nós quatro, para quebrar gelo. Eu tendo a ser formal e discreto sempre. Dificilmente estabeleço uma amizade instantânea, a não ser que as pessoas com as quais esteja interagindo, tenham enorme compatibilidade de ideias e ideais, quando, aí sim, costumo interagir com entusiasmo e desenvoltura.

O Rubens também era circunspecto, mas não tão fechado quanto eu. Tinha uma característica de extremo cavalheirismo em situações sociais, e até exagerava um pouco, chamando a atenção pelo excesso de palavras não coloquiais nos cumprimentos, mas claro que não estou reclamando, pois quem conhece-me, sabe que aprecio valores de boa educação & cidadania, e nesse quesito, ele portava-se como um diplomata em meio à cerimônias oficiais.
Já o Zé Luiz, era educado, mas bastante despojado. Sua maneira de  colocar-se era sempre coloquial, sem afetações, mesmo quando estávamos em alguma situação de glamour, em meio a  fãs e / ou jornalistas, portanto, jamais sentia-se inibido em tomar uma atitude em público, coisa que no meu caso que sou muito mais retraído, era bastante complicado (a não ser no palco, onde com exceção dos primeiríssimos shows da vida, no longínquo ano de 1977, nunca tive problema algum em falar no microfone, não importando o número de pessoas que estivessem fitando-me).

Dessa forma, o Beto era realmente o mais adequado para quebrar qualquer gelo, e os demais poderiam conduzir conversas posteriores com outra desenvoltura. Mas havia um dado bastante óbvio nessas visitas : ali não era lugar para visitas sociais, e pelo contrário, nossa presença era basicamente um estorvo...
Sinceramente, hoje em dia eu valorizo ainda mais a predisposição dos Inocentes em ajudar-nos, pois era muito inadequado convidar pessoas que nada tinham a ver com a sessão de gravação em si, para tumultuar o ambiente.

Ali é lugar de extrema concentração, foco e ainda mais com a agravante de ser um estúdio terceirizado e bastante caro, mesmo em se considerando que naquela época, as gravadoras majors trabalhavam com bastante fartura financeira, para dar as melhores condições possíveis para seus artistas. Eu, quando vou gravar um álbum, quero o máximo de privacidade e fora os companheiros da banda e os técnicos envolvidos, não acho conveniente a presença de mais ninguém.

O baixista / guitarrista dos Inocentes, Ronaldo, um amigo extremamente gente boa e solidário

Mas Clemente e Ronaldo estavam realmente empenhados em ajudar-nos, e deixo aqui o meu agradecimento público, embora tenha externado isso a eles na época, naturalmente. Mas foi numa terceira visita que algo muito emblemático ocorreu e nesse dia, a percepção foi toda do Zé Luiz, que foi muito perspicaz...

Nesse dia, eu não fui ao estúdio, mas o Zé Luiz estava lá com o Rubens. Nessa altura, o clima estava mais descontraído com a produção e dentro daquele caráter comedido básico para não tumultuar, já havia pequenos diálogos e momentos de descontração, com brincadeiras e piadas, denotando maior proximidade. Mas se houve um contato maior, não posso afirmar de forma alguma que tenha sido o suficiente para estabelecermos amizade com Peninha e Liminha. O fato de rirmos das piadas, e eventualmente sentirmo-nos aptos para tecer comentários nesses momentos lúdicos, não caracterizava de forma alguma que "estávamos na turma", enfim.


O buraco era muito mais embaixo e vendo hoje em dia, percebo que ali a confraria era 100% fechada naquela estética, e fim de papo.
Só por olhar-nos e ver-nos nossas cabeleiras setentistas, estávamos estigmatizados como antiquados, e simplesmente fora de qualquer possibilidade de sonhar em fazer parte do mundo mainstream oitentista.

Então, quando decidiram encerrar aquela sessão, o Zé Luiz ouviu o Liminha comentando que precisava sair rápido para o aeroporto de Congonhas, pois tinha um compromisso no Rio, ainda naquela noite. Rápido no gatilho, o Zé Luiz afirmou que estava de saída para ir à casa de sua irmã, na zona sul, perto do aeroporto, e que daria uma carona com prazer para ele. Pura mentira, pois a Elizabeth Dinola, irmã do Zé que morava em São Paulo, na verdade residia em Pinheiros, na zona oeste da cidade, mas a sacada do Zé foi genial, em promover uma ação de camaradagem e mais que isso, quem sabe falar mais incisivamente sobre a nossa banda.

Então, lá foi o incensado Liminha, ex-baixista dos Mutantes nos anos setenta, e celebrado produtor musical nos anos oitenta, a bordo da famosa Kombi de propriedade do João Dinola, irmão do Zé Luiz, e que tantas vezes auxiliou a nossa banda, desde o início de nossas atividades, em 1982. A falta de glamour em andar numa Kombi de carroceria aberta, não causou nenhum constrangimento no celebrado produtor, que era sem dúvida, o maior do Brasil na ocasião.

No caminho, tentando usar de estratégia de despojamento, o Zé no início do caminho, só falou amenidades sobre o trânsito, meteorologia e esperou um tempo para comentar sobre as sessões de gravação dos Inocentes, que presenciara. Quando a conversa fixou-se em música, o Zé sacou do porta luvas uma cópia de nossa demo-tape e colocou-a sutilmente para tocar, mas sem forçar nenhuma conversa. A conversa foi fluindo e o Liminha perguntou se aquele som era de nossa banda, e limitou-se a falar muito timidamente que era "bacana". Pura balela, pois era evidente que aquele som não dizia-lhe absolutamente nada. Naquela altura dos acontecimentos, sua cabeça de produtor estava feita há tempos, em termos de uma estética 100% calcada no Pós-Punk e seus derivados, e nesses termos, pelo contrário, uma banda soando setentista, com solos de guitarra e cozinha sofisticada, devia era incomodar-lhe.

Ignorando retumbantemente a audição que o Zé Luiz estava promovendo veladamente no toca-fitas da velha Kombi, na reta final da viagem até o aeroporto, Liminha jogou a pá de cal sobre nossas parcas esperanças, ao iniciar um discurso inflamado sobre a banda que ele mais adorava naquele "momentum 1986" : "Camisa de Vênus"...
Praticamente uma banda Punk, bem tosca, ainda que seu líder, Marcelo Nova fosse influenciado pelo Rock'n Roll cinquentista (e claro que isso em tese amenizaria bastante a "punkice" dos rapazes, mas que na prática não ocorria), realmente não havia como convencê-lo de que o nosso som tinha possibilidades comerciais, que davam-nos elementos para pleitear o mainstream. Nem vou elucubrar sobre o caráter "Pop" da demo que graváramos em abril, e com nítido teor mais comercial, pelo menos em nossa ingênua ótica. Claro que algumas canções poderiam tocar na programação das rádios; claro que algumas poderiam figurar em trilhas de novelas da Globo; é evidente que poderíamos aparecer no "Chacrinha", dublando "Saudade" ou "Solange"... mas na cabeça do formador de opinião padrão dos anos 1980, não havia espaço para tal hipótese, e a rudeza punk daquela década, norteava a sua percepção de mercado.

Então, o Zé Luiz deixou o famoso produtor no aeroporto, e apesar de encerrar essa etapa com a sensação do dever cumprido, estava frustrado com o rumo da conversa, é claro. Ainda tentaríamos mais duas abordagens com a Warner nesse ano de 1986. Éramos tenazes, não posso negar. Mais que tenacidade e / ou teimosia, acreditávamos no trabalho e apesar de estar nítido que produtores de gravadoras majors estavam fechados com uma estética avessa à nossa, achávamos que poderíamos dissuadi-los a enxergar-nos com outros olhos, vendo o lado Pop que supostamente achávamos que tínhamos, em meio àquela seara árida, que mais parecia o set de filmagens do filme "Mad Max".

E certamente que tínhamos, mas infelizmente não éramos uma banda norte-americana, e São Paulo não era Los Angeles, portanto, não havia meios de uma sonoridade Hard-Rock emplacar comercialmente, ainda que fosse moderna, com roupagem oitentista. O Brasil era e de certa forma continua sendo, a nação que mais ama o Punk-Rock e seus derivados. Costumo brincar, dizendo que na minha opinião, a "Revolução Punk de 1977" não passa de um movimento pusilâmine, ou seja, tem esse apoio maciço dos brasileiros, porque a preguiça aqui impera, como dizia Mário de Andrade.

Uma estética que tem como "pilar", a máxima de que saber tocar um instrumento não é algo necessário para ingressar-se numa carreira musical, cai como uma luva para preguiçosos, não é mesmo ?

Quanto aos Inocentes, gravaram seu disco (o EP, "Pânico em SP"), com uma qualidade de timbres bem bacana, graças ao empréstimo de meu baixo, e da guitarra do Rubens, e em contrapartida, além desse esforço em "introduzir-nos" na panelinha de uma major, proporcionou-nos um bom dinheiro em título de aluguel, pago regiamente pela gravadora. É considerado pelos críticos, como o melhor trabalho da carreira da banda, opinião compartilhada pelo próprio Clemente. Portanto, fico contente por ter contribuído, mesmo de forma modesta, para esse êxito dos amigos Clemente e Ronaldo, com quem mais interagíamos. E num breve futuro, ainda tentariam ajudar-nos em outras circunstâncias, conforme relatarei no momento oportuno da cronologia. Mais para frente, falo de outras investidas que fizemos na Warner, também.

Conforme já havia mencionado anteriormente, o Rubens havia participado de uma peça publicitária para a TV em 1986, graças a um contato que surgira na Loja / Gravadora Baratos Afins.
E algum tempo depois, mais ou menos em junho de 1986, surgiu outra oportunidade para outra campanha publicitária de roupas, onde queriam trabalhar com o mote da "juventude", e procuravam por músicos reais que sabiam empunhar instrumentos corretamente, e não modelos desajeitados, sem familiaridade com o universo musical e rocker, sobretudo.

Claro, era imprescindível ter cabelos longos, mais imprimindo uma aparência de ambientação Hard-Rock ou Heavy-Metal, em detrimento da corrente majoritária na década de oitenta, ou seja, seguidores da estética do Pós-Punk. O telefone tocou na casa do Rubens, portanto, e o convite era para a nossa banda comparecer em peso num teste de câmera a ser realizado pela produtora de vídeos contratada pela agência de publicidade, que faria a campanha.

Todos aceitaram, mas eu criei um mal estar interno na banda, pois recusei-me terminantemente a participar dessa ação, e cabe uma boa explicação para justificar a minha atitude :
1) Não era um convite para a banda apresentar-se usando sua imagem. Se o fosse, eu participaria, mesmo que a peça publicitária não representasse um produto digno, e a sua estética fosse de gosto duvidoso, pois jamais deixaria de estar presente numa ação oficial da banda. Nesse caso, cabe salientar que se fosse um produto do qual eu não gostasse de estar pessoalmente vinculado (cigarros e bebidas alcoólicas, por exemplo), eu ainda assim colocaria a questão em discussão interna, mas se perdesse numa eventual votação, acataria a decisão da maioria, democraticamente. Não sentir-me-ia nada confortável em estar fazendo uma propaganda de maço de cigarro ou bebida alcoólica, pois nunca fiz uso de tais produtos, e tenho inúmeras restrições a eles, enquanto convicções pessoais que tenho sobre a sua existência na sociedade, mas se a banda achasse que a oportunidade de exposição midiática ou o cachet oferecido fizesse isso valer a pena, mesmo sob protesto, eu participaria, ainda que sob constrangimento pessoal intenso, pois tais produtos atentariam contra as minhas convicções pessoais.
Posso incluir nesse rol a questão da alimentação carnívora, pois se detesto militância vegetariana, que muitas vezes atua com truculência nazi-fascista a meu ver, sendo um vegetariano respeitoso ao extremo com pessoas que são carnívoras, mesmo assim sentir-me-ia ridiculamente falso ao estar numa propaganda de uma churrascaria ou indústria frigorífica, rindo e compactuando com a ideia de que aqueles produtos ou serviços são de meu agrado.

Outra situação limítrofe seria estar numa campanha política, fazendo propaganda acintosa e assumida a um partido ou candidatos que ideologicamente falando, ferissem meus princípios democráticos. Seria terrível estar vinculado a radicais, seja lá de que lado da polarização direita / esquerda.

Mesmo assim, se a banda batesse o martelo de que seria uma ação benéfica para a nossa carreira, mesmo em conflito ideológico gritante, a questão de não abrir mão de meus princípios seria suplantada pela ética de estar fechado com a minha banda, acima de tudo.
2) O outro ponto crucial para a minha consciência, era o fato da agência publicitária não estar convidando a nossa banda especificamente para a campanha e isso incomodava-me de uma maneira muito incisiva. O leitor pode interpretar essa minha reação como um arroubo de "orgulho" de minha parte, mas acho que posso justificar tal sentimento. Eu achava que seria ofensivo à nossa banda, participar de um comercial, só pelo fato de sermos "cabeludos" com instrumentos musicais na mão, como se fôssemos anônimos ou simplesmente modelos (sem nenhum demérito a esses profissionais, mas só exprimindo que para eles era / é normal encenar coisas falsas, quase como interpretando situações, portanto, atuando como atores, praticamente).

Na minha ótica, se chamassem a nossa banda para fazer um comercial de TV, não teria problema algum se na peça publicitária ficasse claro quem éramos, e também sem problemas por colocarmos a nossa imagem visando vender um produto. Muitos artistas fazem isso exaustivamente, incluso medalhões. E não só atores de cinema e TV, mas muitos músicos, cantores e compositores famosos. Mas da forma como o convite chegou, era algo vago, e na minha opinião, até ofensivo, pois denotava que não interessava-lhes quem éramos, mas simplesmente se éramos "cabeludos", e se sabíamos segurar instrumentos musicais de uma maneira mais convincente do que modelos sem nenhuma intimidade com o universo musical. E o maior agravante, interessava-lhes a "fachada". O teste era para avaliar a desenvoltura em frente à câmera, mas sobretudo para avaliar a "beleza física" dos candidatos. Nada contra essa expectativa da parte deles, pois isso é norma nesse métier, mas partindo do princípio de que não éramos modelos, mas sim artistas genuínos, essa perspectiva de submetermo-nos a esse tipo de avaliação, era a meu ver, uma indignidade.

Acha exagerado, leitor ? Mas era o que eu sentia a época e ponderei isso com meus amigos, argumentando fartamente. Contudo, eles não importavam-se em serem tratados como anônimos, e só interessava-lhes a perspectiva de cachet.

Insistiram muito comigo para que eu mudasse o meu posicionamento, mas em nenhum momento acharam que a banda seria prejudicada pela minha recusa em participar, e pelo contrário, não achavam que aquilo prejudicaria a imagem da banda. Sendo assim, lá foram os três para o tal teste, numa agência de publicidade, acho que nas imediações da avenida Faria Lima, não recordo-me ao certo.

Chegando lá, estavam outros músicos conhecidos, a maioria da cena do Heavy-Metal, logicamente pela questão das cabeleiras, mas haviam outros de outras vertentes, também. Todos submeteram-se a testes individuais e alguns dias depois, o telefone tocou e os três, Rubens; Zé Luiz e Beto, haviam sido aprovados.

 
Com os três aprovados, lembro-me que mesmo sendo uma situação irreversível no meu caso, eles ainda falaram bastante que eu havia sido "turrão" ao extremo por manter-me firme nos meus princípios, e que dessa forma, amargaria a falta do cachet "gordo" que eles receberiam. Indo além, na visão deles, mesmo aparecendo como anônimos no comercial, muita gente reconhecer-nos-ia, pois naquela altura, metade de 1986, tínhamos um público grande, conquistado através de todos os nossos esforços acumulados ao longo de quatro anos de trabalho.

Nesse aspecto, eles tinham razão, pois realmente a nossa banda tinha alcançado tal visibilidade, até ultrapassando certos limites do nicho Rocker, atingindo pessoas alheias à esse universo, pois tínhamos feito bastante TV; aparecido em revistas fora do mundo especializado e assim, após tantos programas de TV de cunho feminino, éramos conhecidos por donas de casa não necessariamente rockers. Nesse caso, mesmo não ficando arrependido de forma alguma, eu entendia a colocação deles como legítima, pois nesses termos, uma exposição, ainda que aleatória, seria mais conveniente com a banda completa na peça publicitária.

Não caí num possível sentimento de remorso no entanto, pois minha convicção de que esse fator era algo muito vago, não deixou que a argumentação deles provocasse-me arrependimento. Então, lembro-me que eles foram convocados para teste de roupas, e a gravação do comercial consumiu-lhes um dia inteiro de dedicação.
Um quarto músico apareceu na peça, e o rapaz era o Mauro Sanches, baterista da banda Pós-Punk, "Nau", que fez relativo sucesso mainstream na metade dos anos oitenta.

Voltando ao foco, o comercial era para promover uma coleção de roupas ditas "jovens", de um magazine famoso, no estilo das Lojas de Departamentos. Tratava-se da Mesbla, uma rede que estava espalhada nas principais capitais do Brasil. O comercial era bem simples, com imagens intercaladas de jovens dançando em meio a banda fictícia. Tais jovens, rapazes e moças, eram logicamente modelos de agências contratados. E uma das garotas fez o papel de crooner da banda, aliás uma bela morena. Um fato curioso, na "hora H", cismaram em não usar uma bateria tradicional na horrenda dublagem, e o Zé Luiz foi esperto e antes que sugerissem-lhe o lastimável uso de caixa e prato (como a seguir o padrão dos programas de TV), ele pediu-me o meu baixo, e no dia da gravação, apareceu tocando-o na propaganda. Essa peça teve apoio gráfico significativo, e garotas usando as tais roupas semelhantes às do comercial, apareceram em muitas revistas, jornais e outdoors de São Paulo e Rio, e creio que em outras capitais e grandes cidades interioranas. A trilha sonora era um pop insosso de FM, bem sem vergonha e com os típicos timbres medíocres oitentistas. A produção musical de tal jingle era do guitarrista da Blitz, Ricardo Barreto, e também de Bernardo Vilhena (parceiro do Lobão, e de outros artistas da época), o que explica de certa forma a concepção desse pastiche oitentista. Aquele reverber indecente na bateria; guitarra gravada em amplificador Roland Jazz Chorus; teclados horrendos, e demais porcarias inerentes à mentalidade da época, seguindo a cartilha pop baseada na estética do Pós-Punk, típica daquela década. Foi engraçado ver a propaganda passando na TV, com os companheiros naquela micagem...
Ele foi veiculado com bastante repetição nos primeiros quinze dias, pois era conta publicitária peso pesado, e depois foi diminuindo a sua aparição paulatinamente, até desaparecer. Passou em horário nobre, pois era conta peso pesado, e de fato, muita gente reconheceu os três e o Sanches, mas a despeito de qualquer argumentação em contrário, nada acrescentou para a carreira da Chave do Sol, tampouco do Nau. No frigir dos ovos, acho que a vantagem alardeada pelos meus companheiros, ficou só pelo cachet mesmo (de quem participou, logicamente), e "numa boa", apesar de ter sido uma boa quantia, até hoje não arrependo-me de minha atitude de recusa em participar. 


Eis abaixo a propaganda para o leitor assistir : 

Eis o link para ver tal comercial no You Tube.



https://www.youtube.com/watch?v=Umh7l_AeHoE&feature=youtu.be


Foi filmado no teatro do Sesc Pompeia, aqui em São Paulo, e dá para ver bem o Zé Luiz, bem no início, com meu baixo em mãos.
Quando a atriz principal (que de fato era uma cantora também, e chamada Karla Sabah), está começando a "rasgar" as embalagens de papel que envolvem pessoas, o Rubens passa correndo por ela, com sua guitarra Jackson. Beto, e Rubens podem ser vistos novamente, quando entram num ônibus com os demais modelos.
A Karla Sabah fez o tipo "Punk de Boutique", com visual inspirado em cantoras espalhafatosas da cena Pós-Punk oitentista, tais como Cindy Lauper, e principalmente Nina Hagen. Claro que existia a referência à personagem de Daryl Hannah no filme "Blade Runner", também... ah... os replicantes tão cultuados naquela década...

Suas caras e bocas em alguns momentos são constrangedoras, mas talvez tenha sido ideia "brilhante" do diretor e não culpa dela, no afã de imprimir "irreverência jovem"...
E a marca da coleção dita "jovem" que a Mesbla estava lançando, chamava-se "Alternativa Nativa". A seguir, falo de algumas visitas muito inesperadas na nossa sala de ensaio em 1986.


Muitas visitas apareciam na nossa sala de ensaios, desde os primórdios da banda, em 1982. Na maior parte do tempo, amigos que gravitavam na nossa órbita costumeiramente, é claro, mas muita gente que teve envolvimento profissional de ocasião, também circulou pela residência da família Gióia, nos anos em que ali trabalhamos, no famoso quartinho da edícula. Mas houve também uma terceira via, que era a de visitas completamente inesperadas que vinham sem avisar e algumas vezes por conta de convites não necessariamente formulados por nós, membros da banda.

Foto de janeiro de 1984, com Rosana Gióia participando da gravação dos Backing Vocals da música "Luz". Ela usa camiseta preta com a estampa da capa do LP "Black Sabbath Volume 4"

Nesses termos, muitos amigos, e amigos dos amigos da irmã caçula do Rubens, Rosana Gióia, por exemplo, apareciam inesperadamente, e para nós isso nunca foi problema, não causando incômodo. Numa dessas situações (de adolescentes amigos dela da escola, geralmente), apareceu um rapaz que era amigo de um amigo dela. Serei sincero : não lembro-me dessa situação que vou descrever especificamente, ali no calor dos acontecimentos. Minha lembrança sobre visitas de amiguinhos e agregados da Rosana Gióia, é uma verdadeira " mônada", misturando-se portanto, sem que haja alguma ocasião, ou pessoa que destaque-se em específico.
Contudo, no ano de 2002, eu tive uma surpresa incrível, quando um guitarrista conhecido mundialmente contou-me com emoção, que era o tal garoto amigo do amigo da irmã do guitarrista da Chave do Sol, e a experiência de assistir um ensaio da banda que ele admirava pelas apresentações nossas que via pela TV, principalmente, nunca fora esquecida por ele. Indo além, foi taxativo, dizendo que tal visita fora a gota d'água em sua vida, pois saíra decidido a tornar-se um músico profissional, após ter tido a confirmação de que aquela vida, era a que desejava ter, vendo-nos ensaiar. Seu nome...Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura...

Convido os leitores a ler com maiores detalhes esse relato sobre como Andreas Kisser fez-me essa revelação, no capítulo mais adequado, que é o da Patrulha do Espaço, onde na cronologia correta, contei com detalhes essa história, ocorrida em janeiro de 2002. Aqui, o comentário é an passant, pois no calor dos acontecimentos de 1986, eu não poderia imaginar que aquele garotinho imberbe tornar-se-ia um dos mais famosos guitarristas do mundo, aliás, nem ele imaginaria isso naquela época, embora devesse sonhar com isso, naturalmente...
 

Outro caso de visita exótica e inesperada é muito mais vívido em minha memória, e passarei a relatá-lo agora. Estávamos ensaiando um dia, na maior rotina, e sem expectativa de receber ninguém naquele dia em específico, quando ouvimos num momento em que não tocávamos, alguém batendo na porta. O Beto estava mais próximo e tomou a iniciativa de abri-la, e imediatamente espantamo-nos com o grito que ele proferiu : -"Ferrugem" !!

Foi quando deparamo-nos com o famoso ator / comediante da TV; teatro e cinema, e também muito conhecido pela sua atuação em comerciais de TV. Ficamos atônitos, naturalmente, porque nenhum de nós conhecia-o, ou sabia de alguém da nossa relação que o conhecesse. A explicação para a sua presença ali, era a de ser um amigo do amigo da irmã do Rubens, como muitas vezes aconteceu em relação a outras visitas.

O próprio Ferrugem ficou muito surpreendido também, com a recepção escandalosa que o Beto fez-lhe, e a justificativa da parte dele, Beto, era a de que recebera-o daquela forma contundente porque ele era obviamente famoso e portanto, ficara contente com a sua presença. Bem, isso era verdade...
O Ferrugem era / é, um sujeito sensacional, e o clima de sua visita foi de extrema camaradagem, com muitas brincadeiras, risadas, e foi de fato uma tarde / noite das mais agradáveis para todos.

Mas houve uma outra surpresa vinda da parte dele : alegando ser baterista e paralela à carreira de ator / comediante e garoto propaganda, ter uma banda cover do Whitesnake, surpreendeu-nos.
Eu, particularmente, não imaginava que ele fosse músico e ainda melhor, Rocker. Portanto, claro que o convidamos a tocar no ensaio, e mais uma vez surpreendi-me, pois sua pegada como baterista era de profissional, com peso e técnica. Divertimo-nos muito tocando várias músicas do Deep Purple; Led Zeppelin; Whistesnake; Rainbow etc. Ao final despedimo-nos com a promessa de encontrarmo-nos em shows, mas por um acaso, isso nunca concretizou-nos, infelizmente. Apenas fui vê-lo novamente nos anos 2000, mas de forma muito fortuita, pois estava circulando por uma rua do bairro da Aclimação, na zona sul de São Paulo, e reconhecemo-nos no trânsito, mas a circunstância do tráfego não permitiu-nos parar e conversarmos naquele momento, portanto, ficamos só nas buzinadas e acenos. Bem, contada essa história, falo agora sobre a "banda de quartinho" que montamos de brincadeira, com o Beto Cruz tocando baixo, e eu na bateria...


Nossos ensaios eram sistemáticos, com a preocupação de aproveitarmos ao máximo o tempo. Claro que mesmo não tendo a estrutura de um estúdio com vedação e equipamento profissional, o fato de termos um mini P.A. desde o começo, garantia-nos um mínimo de qualidade sonora para trabalhar, e a falta de vedação era compensada pela extrema boa vontade da família Gióia, que suportou nossos ensaios diários e esticados das 15 às 22:00 h. de segunda a sexta, e muitas vezes com a inclusão de sábados e domingos quando tínhamos uma necessidade premente de um eventual reforço, por conta de um show mais importante, ou a iminência de entrar em estúdio para gravar um álbum.

Ainda como trio, posando na nossa histórica sala de ensaios, na residência da família Gióia, em 1984

Como já comentei anteriormente, nos primeiros anos, nossa determinação nesse sentido era ferrenha, e isso é a explicação pela qual A Chave do Sol era uma banda muito afiada ao vivo, e raramente errava pois ensaiávamos muito, e com dedicação extrema, até exagerada, eu diria. Mas isso não quer dizer que não tenhamos tido momentos de descontração na nossa rotina diária de ensaios. Apesar desse caráter quase "caxias", nós tínhamos um clima leve e aberto a brincadeiras e dessa maneira, tivemos muitas ocorrências divertidas, como por exemplo a constante presença de convidados como descrevi no capítulo anterior. Indo além, fora receber convidados; rir e conversar, muitas vezes foram realizadas jam sessions absolutamente descompromissadas, quando amigos músicos apareciam na nossa sala de ensaio.

Hélcio Aguirra, em foto do início dos anos oitenta, quando ainda era membro do "Harppia"

Nesses termos, um dos que mais apareciam lá para conversar e tocar conosco, era o guitarrista Hélcio Aguirra, nosso amigo, e que nessa altura, 1986, já estava no Golpe de Estado, e a banda dava seus primeiros passos mais firmes rumo ao sucesso, que ainda naquela década alcançariam. Nessas visitas, costumávamos tocar clássicos do Rock e temas livres, com o Hélcio atuando com sua habitual categoria e muitas jams ficaram na minha memória pelo aspecto da química boa que ele tinha conosco, proporcionando momentos de grande inspiração musical.

Mas indo além, gostávamos também de tocar outros instrumentos nessas jams descontraídas, e mesmo baixando o nível técnico por conta de assumirmos o instrumento onde não tínhamos o mesmo nível de nossas respectivas especialidades, o importante era a diversão, claro.

No meu caso, sempre que havia uma brecha, eu corria para a bateria e nesta minha autobiografia, mesmo em outros capítulos enfocando outras bandas onde atuei, já mencionei o fato de que aprecio muito esse instrumento, e numa análise fria e isenta de emoção, diria até que se pudesse voltar ao passado e mudar o rumo que tomei, tranquilamente teria investido na perspectiva de ter sido um baterista, e não um baixista. Mas, mesmo tendo desenvolvido-me técnica e emocionalmente com o baixo e a partir de tal prerrogativa, ter construído um afeto por esse instrumento, realmente se pudesse ter escolhido lá atrás, eu teria preferido a bateria.

Enfim, baterista frustrado, no bom sentido, sempre gostava de "tirar uma casquinha" nos ensaios e dessa forma, acabei desenvolvendo uma condição mínima como baterista que me permitia tocar, ainda que de forma simples, sem nem 10 % da técnica e genialidade do Zé Luiz, meu colega de banda e de outros bateristas amigos que admirava. Sendo assim, uma vez que o Hélcio apareceu no ensaio, e o Zé Luiz não estava, fui direto para a bateria e deixei o Beto tocando baixo, para fazermos uma jam livre. Na empolgação, o Rubens colocou uma fita K7 no tape deck, gravando essa brincadeira e quando a ouvimos, o som ficou tão legal que combinamos de realizar outras jams. De fato, essa repetição ocorreu e mesmo jamais cogitando que isso tornasse-se uma banda de verdade, pois eu sabia de meus limites ao instrumento, é claro, e lógico que o foco para todos ali era A Chave do Sol para nós, e Golpe de Estado para o Hélcio, o bacana nessa história, no meu caso, foi que de uma certa forma eu apreciei muito não só a brincadeira, mas constatar que se estudasse e dedicasse-me, poderia ter sido um baterista de fato, pois ali na jam, apesar de muito limitado, não desapontei, mantendo o ritmo da banda, inclusive com várias mudanças de fórmulas de compasso, andamento e pulsação, além de viradas dignas, que colocavam-me no patamar de um baterista simples, sem muitos recursos técnicos, mas capaz de tocar numa banda.

Com o tempo, as oportunidades de tocar um pouco com a bateria dos colegas, foram rareando e o pouco de técnica que tinha desenvolvido, acabou dissipando-se. Estou bastante enferrujado e regredi, é claro. Mesmo assim, costumo ajudar no soundcheck de shows ao vivo e em sessões de gravação, tocando para o baterista titular buscar a melhor equalização de seu instrumento. Muito bem, contada essa história, cabe dizer que esse embalo que ganhamos no segundo trimestre de 1986, principalmente, ganharia ainda mais força com a entrada do segundo semestre. O telefone estava tocando, como diz-se no jargão, denotando que a banda ganhava mais e mais oportunidades, e somado aos esforços concentrados em quatro anos de trabalho aproximadamente, levava-nos a crer que o grande momento de abrir-se uma porta, e possibilitar-nos enfim chegar ao mainstream, estava chegando. O segundo semestre de 1986, foi o período da história da banda, onde mais chegamos perto disso, e tem muitas histórias para serem contadas, a partir de agora.

Continua...

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