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quarta-feira, 13 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 6 - Um Disco, enfim, em 1984 ! - Por Luiz Domingues

A repercussão foi muito boa desse terceiro programa onde participamos, só fortalecendo a nossa condição de termos entrado no rol de artistas emergentes, no cenário do Rock oitentista. E certamente com essa construção de imagem, alavancamos a possibilidade de acertarmo-nos com o Luiz Calanca, e num acordo de coprodução, viabilizamos a gravação de nosso primeiro registro fonográfico, enfim.

O acerto com a Baratos Afins foi na base acordo verbal, sem necessidade de contrato etc e tal. Nós bancaríamos a parte de estúdio, e o Luiz cuidaria da parte gráfica e prensagem do disco, além do suporte na distribuição e divulgação do trabalho. Passamos então a preparar-nos nesse sentido, já tendo escolhido as duas canções que fariam parte do compacto simples. Seriam "Luz" do lado A, e "18 Horas", no lado B. Toda a produção de lay-out da capa correria por nossa conta e a produção de áudio no estúdio, idem. Nesse aspecto, o Luiz bancaria fotolito, e a despesa da gráfica em sua composição. Então, o Zé Luiz sugeriu que víssemos um desenho que sua irmã, Elizabeth Dinola estava desenvolvendo.

Uma pintura de Beth Dinola, exposta numa Galeria de Arte em São Paulo, recentemente, pós anos 2000, e que hoje pertence à uma colecionadora de Roma, Itália.

A Beth Dinola era (é) artista plástica. Embora sua especialidade fossem os trabalhos com cerâmica, ela desenhava e pintava também. Gostamos dos rafs iniciais que vimos, e autorizamos que a Beth prosseguisse na finalização do Lay-out final.

A ideia, era a de uma estrada estilizada como o braço de uma guitarra, com baquetas de bateria em suas laterais.

Na contracapa, três fotos individuais e ficha técnica. Já o logotipo, foi criação de um rapaz chamado José Vicente Dias, indicado pelo Luiz Calanca. Tal logo acabou tornando-se objeto de merchandising, no decorrer de 1984. Era um pássaro voando sob a presença do Sol.


E assim findou-se o ano de 1983, com  A Chave do Sol centrando baterias nos ensaios para a gravação do primeiro compacto. A produção da capa estava andando na parte de lay-out. A ficha técnica eu mesmo cuidei de elaborar o texto, e as fotos individuais do trio foram clicadas no início de 1984.Falarei dessa sessão de fotos, posteriormente.

Com a fase intensa de shows com o Língua de Trapo que iniciei, sobraram poucos dias para ensaiar com A Chave do Sol, mas eu fazia das tripas coração para aproveitar essas brechas. Como balanço final, digo que o ano de 1983 foi de altos e baixos, com o ponto alto predominando ao final, ainda bem. Iniciamos com a euforia por estarmos prosperando num circuito underground, fruto de um bom embalo que criamos no final de 1982. 

Tínhamos uma vocalista de uma voz incrível, portanto muito promissora, ainda que limitada em outros aspectos, mas o progresso da banda era visível. Saímos de um circuito off, rapidamente para uma casa badalada, e frequentada pela jovem burguesia paulistana, e vimo-nos rodeados de artistas que estavam acontecendo no mainstream do BR-Rock 80's.

Ficamos sem a vocalista promissora e tivemos que recuar, indo parar novamente no "off do off" do underground.


Algum tempo depois, estabelecidos novamente como trio, tivemos oportunidade de uma aparição na TV e tudo mudou, abrindo portas para mais aparições, e perspectiva de lançar um disco. Agora estávamos nos últimos dias do ano, preparando-nos para entrar no ano de 1984 com estúdio à vista, e dessa forma, é claro que o balanço de 1983, fechara-se positivamente para A Chave do Sol !!


E então o ano de 1984 iniciou-se...
Estávamos bastante eufóricos com a perspectiva de gravar o nosso primeiro disco, e assim esforçamo-nos para ensaiar o melhor possível e cuidar dos detalhes da produção, que ficaram por nossa conta, no acordo que fizemos com o Luiz Calanca. Logo na primeira semana de janeiro, agendamos uma sessão de fotos, visando ilustrar a contracapa do compacto. Lembro-me que foi num sábado, no período da tarde, que o fotógrafo Fabio Rubinato, compareceu à casa do Rubens, onde tínhamos o nosso QG.

Da esquerda para a direita : José Reis (meu amigo e roadie do Pitbulls on Crack na época); Nilton "Cachorrão" Cesar (vocalista do Centúrias); eu (Luiz Domingues), e Junior (aluno meu na época), no Parque Antártica em 1994, vendo Palmeiras x Peñarol do Uruguai, e sendo flagrados pelo click de Fabio Rubinato

O Fabio era fotógrafo profissional e experiente já naquela época, apesar de ser ainda bem jovem. Anos depois, ele tornar-se-ia fotógrafo oficial da Federação Paulista de Futebol, e eu encontrei-o diversas vezes em estádios de futebol. Inclusive, ele tirou uma foto minha, acompanhado de meus amigos José Reis; Nilton "Cachorrão" Zanelli (vocalista do "Centúrias"), e Junior, em 1994, de dentro do campo do Palestra Itália, quando avistou-nos na mureta da arquibancada, num jogo entre Palmeiras e Peñarol de Montevidéu (foto exposta acima). Voltando à Chave, o Fabinho Rubinato era amigo de meus primos mais velhos, Marco Antonio e Rubens Turci, e eu conhecia-o desde os anos setenta, quando a fotografia era só hobby para ele.

Ouvimos juntos muito som na casa de meus primos, nos anos setenta etc etc. Quando pensamos em contratar um fotógrafo, pensei nele, e por isso foi a minha indicação que prevaleceu.   
Mas na base do improviso e sem as condições de um estúdio profissional com luz adequada; guarda-chuva; fundo infinito, e outros recursos, não dava para fazer fotos realmente incríveis. 
Em ritmo de camaradagem, estávamos apenas bancando os filmes e a ideia era usar o quarto de ensaios da banda, usando de criatividade e luz natural... 
O Fabinho tirou várias fotos na sessão e quando revelamos, as fotos do Zé Luiz não estavam com uma iluminação legal, e nenhuma tinha ao menos uma expressão facial bacana. Então não tivemos outra alternativa a não ser fazer uma nova sessão exclusiva para capturar uma boa foto do Zé Luiz, mas desta feita, ele quis fazer com outro fotógrafo. Para agilizar, convocou o irmão de sua namorada à época (Marly Ogawa), o Seiji Ogawa, que realmente apesar de ser amador, tinha uma máquina bacana e gostava de fotografar. Tanto que o Ogawa fotografou vários shows da Chave, também, principalmente na fase inicial da carreira da banda.

Eis acima a foto oficial do Zé Luiz Dinola, na contracapa de Compacto que lançamos em 1984
 
Essa sessão ocorreu sem a presença do Rubens ou da minha. 
Apenas os dois, Ogawa e Dinola, foram à Praça do Por-do-Sol, um lugar aprazível no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo, e é de lá que saiu a bucólica foto do Zé Luiz na contracapa do compacto. A foto do Rubens e a minha, foram da sessão do Fabinho, em nossa sala de ensaio. A do Rubens, um close-up, tem um escurecimento proposital. Foi ideia do Fabinho usar um Abatjour, improvisadamente obscurecido com uma echarpe escura. 
Além de uma lente especial que usou, a intenção era criar uma atmosfera misteriosa.

Muita gente estranhou a foto escurecida e reclamou disso, achando tratar-se de uma discrepância em relação às demais. De fato que destoa, sem dúvida, mas creio que ficou com um diferencial legal. 
E quanto à minha, tive a ideia de quebrar o visual rocker tradicional ao usar uma gravata. O contraste da longa cabeleira com a gravata comportada, ficou interessante. Não era nada revolucionário no mundo do Rock, mas deu um efeito legal, pois muita gente na época, incluso jornalistas, perguntaram-me o motivo da gravata.

E lá estou eu na contracapa do compacto, parado na porta da nossa sala de ensaios... 

E um detalhe minúsculo dava a quebra da quebra do paradigma : na gravata, tinha um bottom com a figura do Eddie Van Halen.

Minutos antes de ter tido esse impulso de colocar o bottom na gravata, eu relutei entre esse e outro com a capa do disco “Close to the Edge”, do “Yes”. Escolhi o da figura do Eddie Van Halen, raciocinando que seria uma forma de mostrar-me antenado com o presente e não revelar-me assim um artista saudosista de uma época passada, que o logotipo do Yes pudesse sugerir. Arrependo-me pelo raciocínio adotado, pois tinha mais é que ter usado a capa do disco do Yes a refletir minha alma, e pouco importava se vivia uma época completamente antagônica a isso. Muito pelo contrário, deveria ter firmado meus propósitos ante os inimigos...”I get down...I get up... close to the Edge, down by the river” !! Indo além, eu não era nenhum fervoroso fã do Van Halen, longe disso, mas sem dúvida que tal banda era naquele instante, um elo setentista rocker, que servia como uma boia salva-vidas no meio daquele oceano revolto onde encontrávamo-nos, com punk; pós-punk, e seus derivados abomináveis oitentistas...


 
Antes de entrar em estúdio, no entanto, tivemos um show em janeiro de 1984. Foi numa rara brecha de agenda, onde o Língua de Trapo não apresentar-se-ia, e dessa forma, A Chave do Sol subiu ao palco do Bar Persona, encravado no bairro do Bexiga, no dia 13 de janeiro de 1984.

O Persona, para quem frequentava o bairro do Bexiga naquela época, era uma casa interessante por possuir ambientes separados para duas bandas apresentarem-se simultaneamente, e tinha um atrativo extra, que era o espelho do jogo "Persona", que não era muito conhecido no Brasil, mas bastante conhecido na Europa.
Consistia num jogo de ilusão de ótica, onde duas pessoas olhando-se no espelho, mediante a luz de uma vela, viam seus rostos fundiram-se num só, formando uma feição exótica com a mistura das feições de ambos. Esse jogo chegou a ser adaptado para um formato de tabuleiro e lançado no Brasil por uma fábrica famosa (só não lembro-me se era da "Estrela" ou da "Troll").

E no lançamento do jogo nos anos setenta, o Tutti-Frutti fez um jingle, e o disco vinha como brinde no pacote. É um som absolutamente experimental, longe das características do Tutti-Frutti normal que conhecemos, e mais parece Space-Rock, tipo do trabalho feito por bandas como "Hawkwind"; "Tangerine Dream"; "Can", e similares. Conheço um amigo que tem essa raridade, dono de um estúdio perto da minha casa, onde eu ensaiei algumas vezes com a Patrulha do Espaço, em 2001.



Voltando à Chave, foi um show onde o aspirante a vocalista, Wagner, "Sabbath" insistiu muito para dar uma canja, sonhando ser recrutado como vocalista da banda, e nós acabamos deixando que ele cantasse uma música. O público foi apenas razoável, com cerca de 100 pessoas na plateia, mas com um entusiasmo legal, que animou-nos. Um dado extra e legal, foi que o jornalista Leopoldo Rey fez discotecagem no dia, e seguindo seu gosto pessoal, mandou uma seleção de Rock'n Roll e R'n'B dos anos cinquenta, sensacional, livrando-nos assim, de uma discotecagem normal de casa noturna, massacrando-nos com o lixo pop oitentista em voga, como seria de esperar-se... 
Após esse show, as baterias concentraram-se novamente nos ensaios visando a gravação do nosso primeiro disco.


Escolhemos o estúdio Mosh, para gravar o nosso primeiro disco oficial, o famoso compacto. Nossa sorte, digamos assim, era que o Mosh era um estúdio relativamente novo, e longe do status que alcançaria ainda nos anos oitenta, quando consolidou-se como um dos estúdios top do Brasil, responsável pela produção de grande parte da música mainstream, durante a década de noventa. Nessa época, o Mosh operava numa casa ampla, antiga residência, localizada na Rua Coronel Melo de Oliveira, na Vila Pompeia, zona oeste de São Paulo.

Marcamos as sessões para o final de janeiro, pois eu teria um pequeno hiato de shows com o Língua de Trapo. Estávamos afiados para o estúdio, com as duas músicas absolutamente ensaiadas.
Em "Luz", contaríamos com o reforço de duas vozes femininas convidadas para o backing vocals: Soraia Orenga e Rosana Gióia.

A Soraia foi uma garota que conhecemos no início de 1983, quando estávamos cumprindo temporada no Victoria Pub. Em meio às crises de ego e posterior saída da vocalista Verônica Luhr, chegamos a cogitar que a Soraia fosse a substituta, mas a predileção dela era mais a MPB, e acabou não dando certo essa aproximação.
Lembro-me que conversas com ela aconteceram nesse sentido, e também dela ter ido assistir-nos no Victoria Pub. Quanto à Rosana Gióia, ela é a irmã caçula do Rubens, e também sempre quis cantar.
Mas por ser adolescente, e muito novinha nessa época (14 para 15 anos de idade), havia um claro desestímulo da família nesse sentido, e o Rubens apesar de dividido, acabou não forçando barras para não criar conflitos com seus pais etc. Mas como era uma participação simples no disco, apenas fazendo backing vocals, tanto a Rosana Gióia, quanto Soraia Orenga compareceram, e deixaram suas respectivas colaborações.

Gravações de Backing vocals na música "Luz", estúdio Mosh, janeiro de 1984. Da esquerda para a direita : Zé Luiz; Soraia Orenga; Rubens; Rosana Gióia, e eu, Luiz Domingues.
Eu, Luiz Domingues, fazendo pose de "Brian Jones" no Estúdio Mosh, em janeiro de 1984

E finalmente chegou o dia. Estava marcado para as 15:00 h de um dia de janeiro de 1984 (não anotei o dia certo, peço perdão ao leitor / fã da Chave do Sol).

A sala de gravação no antigo Mosh, era um quarto muito amplo, cuja suíte foi retirada, e tornou-se uma casinha isolada para a bateria. Com uma elevação substancial, víamos o Zé Luiz como se estivesse num praticável de show ao vivo, com a bateria suspensa.
Dessa forma, apesar de fechado na casinha, tínhamos a comunicação visual essencial numa gravação, ainda mais em se considerando que gravaríamos toda a base ao vivo.


Ele levou sua bateria Tama, usou três pratos (Crash 18' ; Ride 22' e China 24' ); os pratos de chimbau que ele usava nessa época, eram da Zildjian. Pedal de bumbo, Speed King. Ele usou peles Remo hidráulicas em todas as peças, incluso na caixa.
Eu usei o meu Fender Jazz Bass, com cordas GHS (040), mas plugado diretamente na linha. E o Rubens usou sua Fender Stratocaster, plugada num amplificador Music Man, com dois falantes de 12". O Rubens tinha na pedaleira nessa época, um Phase 90 da MXR, certamente; Wah-wah Cry Baby; Compression / Sustainer da Boss, e Chorus da Boss, como principais opções. Ele tinha também cinco pedais da Coloursound, que acoplava esporadicamente ao vivo, um ou outro, mas não lembro-me de vê-los todos na pedaleira.

O Chorus ele usava pouco, é verdade. Sua preferência era pelo Phase 90, aliás uma marca registrada que tipificou o som da Chave do Sol, pois quase todos os solos dele, eram feitos com o pedal ativado. Muitos guitarristas comentam que isso era típico da Chave do Sol, e é verdade. Gravamos inicialmente a base de "Luz", por ser um Rock mais simples. Teoricamente apenas, pois se a estrutura harmônica era de Rock'n Roll básico cinquentista, haviam diversas convenções e verdadeiros momentos de inspiração jazzística, com escalas de baixo andantes, por exemplo. 

O Zé fez viradas difíceis e sendo assim, apesar de parecer fácil para um baterista de seu nível, exigia concentração. A guitarra ficou isolada por um biombo de madeira almofadado à moda de estúdios vintage, no fundo da sala. Não lembro-me sinceramente qual foi o microfone usado para a captação do amplificador. Remotamente recordo-me que era um AKG, mas foge-me o seu modelo específico. A verba era curta, portanto não tínhamos outra alternativa a não ser gravar a base ao vivo, reservando apenas solo e contrasolos para os overdubs, além da voz e backing vocals, evidentemente. Faltava-nos experiência em estúdio, pois na ausência de um maior preparo nesse sentido, o Rubens equalizou seu amplificador para uma base limpa, mas exagerou na dose. Ficou quase uma base de country music, bem Nashville. 

Sua Fender Stratocaster soa como Telecaster praticamente, nessa base que ficou registrada no disco. Não posso dizer que seja feia, pelo contrário, são desenhos rítmicos muito bem engendrados por ele e agradáveis naquela base limpíssima, mas faltou um contraponto que seria necessário, com uma segunda guitarra com base mais suja, abrindo no estéreo. Era o primeiro disco da minha vida, como banda minha de fato. Antes disso eu gravara uma faixa num disco de um cantor de MPB em 1980 (já relatado no capítulo "Trabalhos Avulsos"); uma demo-tape com o Língua de Trapo (também já relatado no capítulo dessa banda), e algumas gravações mambembes de fita demos para inscrever músicas em festivais etc.
Em suma : era muito pouca a minha experiência.

Zé Luiz de costas; o ex-vocalista do Made in Brazil, Caio Flávio, que acompanhou a gravação como convidado do Mosh, e o técnico Robson T.S., de bigode

Estava seguro e muito calmo, mas faltava-me experiência em lidar com o estúdio, coisa que hoje tenho de sobra. Para o Zé Luiz também era o primeiro disco. Fora disso, sua experiência resumia-se à fitas demo com sua banda anterior, o "Contrabando".
E o Rubens tinha gravado um compacto com a banda "Santa Gang" em 1981, o que também era muito pouco. A nossa sorte foi que estávamos excepcionalmente bem ensaiados, e tranquilos, seguros. E também pelo fato do técnico de som designado para servir-nos, ter afeiçoado-se ao som, e ser extremamente gente boa.
Estabelecendo amizade e sintonia musical instantânea conosco, foi um rapaz que auxiliou-nos do início à mixagem, com extrema boa vontade, e espírito cooperativo. O nome desse técnico é Robson T.S. Ele era jovem, mas bastante competente e interessado em mostrar serviço, dando o melhor de si para o som ficar redondo.
O dono do estúdio era (é) o Oswaldo Malagutti, ex-baixista dos Pholhas, e muito do equipamento do Mosh naquela época, era dessa banda, e muito usado na década de setenta.


A gravação da base de "Luz", foi relativamente rápida. Dado o caráter de gravarmos ao vivo, tivemos que fazer dois ou três takes apenas, motivados por errinhos bobos de um ou de outro. Mas realmente foi muito pouco, demonstrando que nossa eficácia era o fruto de uma pré-produção esmerada, com muito ensaio.

Hoje em dia, acho que o andamento da música deveria ser um pouco para trás. Daquele jeito que gravamos, tem um entusiasmo, admito, mas acho que um pouco mais lento traria um balanço maior. Penso nisso pela questão da linha melódica em primeira instância, claro, mas também pelo fato de que muitas convenções poderiam (e deveriam na verdade), ter saído com mais "swing".

Na base da otimização máxima do tempo, apenas checamos a afinação, e partimos direto para a gravação da base de "18 Horas".
Naturalmente, essa seria bem mais difícil, por ser longa, cheia de convenções precisas, e solos dos três instrumentos. Começamos a gravar com muito foco, e apesar do grau de dificuldade maior, além de estarmos muito bem ensaiados, sentimo-nos muito mais à vontade na hora de gravar "18 Horas", pelo fato de estarmos aquecidos e ambientados ao estúdio.

Fora o fato de termos adquirido confiança no técnico, Robson T.S. , fator fundamental também nesse processo. No momento em que chegou o meu solo, senti uma certa insegurança por conta do fone de ouvido. Faltou-me a experiência para pedir ao técnico que desse um ganho de volume naquele momento, pilotando o som do baixo na mandada do monitor. Com isso, toquei de forma linear como era o plano durante a música normal. Por outro lado, o fato da guitarra parar naquele trecho contribuiu para a minha melhor audição.
Só com a bateria do Zé Luiz acompanhando-me, ficou mais fácil, evidentemente. Na hora do solo do Zé Luiz, a nossa preocupação era a de não alterar em demasiado o andamento, arruinando a volta à música na sua parte final.

Como não estávamos usando metrônomo, esse risco era muito grande, pois em se tratando de um solo, em algum momento ele desviaria a atenção da marcação, e sem "chão", o pulso seria perdido. De fato, nós tentamos ensaiar com o "click", mas músicos intuitivos que éramos, a rigidez espartana do metrônomo atrapalhava-nos demais, tirando-nos toda a segurança. Voltando à gravação, digo que sim, naturalmente que o andamento voltou oscilado, mas aos ouvidos do grande público leigo, e sejamos francos, também de quase todos os críticos e muitos músicos, trata-se de um erro imperceptível. Só maestros, musicólogos, ou produtores perfeccionistas percebem essa sutileza. E passados esses dois momentos críticos da música, apesar do longo solo de guitarra, e algumas convenções difíceis, era mais fácil gravar a base.

Nesse caso, invertemos um fator em relação à gravação de "Luz", pois tocamos realmente como se fosse ao vivo, com o solo do Rubens sendo feito "valendo". Dessa forma, ele reforçou algumas coisas apenas num overdub. E como sobrou um tempinho dentro de nossas previsões, resolvemos incorporar um luxo extra de última hora. Como havia muito equipamento dos "Pholhas" à disposição no estúdio, resolvemos reforçar o riff principal de "18 Horas" com intervenções de teclados. 

Queríamos usar o vistoso Mini-Moog, mas como não sabíamos que timbre escolher, e o objetivo era só reforçar a convenção e não fazer solos exagerados, acabamos optando pelo uso do Clavinete Hohner D6, outro teclado tipicamente setentista.

O Rubens acabou fazendo a gravação e apesar do timbre marcante do teclado, na soma com baixo e guitarra, ficou como mero reforço, fazendo uma sombra quase invisível. Quase não dá para notá-lo, mas eu sei que está lá...
E assim encerramos o primeiro dia de gravações, satisfeitos com o resultado, e certamente já eliminando 75 % do processo, pois os overdubs, e as vozes seriam bem mais fáceis de serem concluídos. 


A sessão de Overdubs, marcada no dia seguinte, foi tranquila e um dos técnicos mais experientes do estúdio na ocasião, chamado de "Primo", foi acompanhar um pouco o desenrolar dos trabalhos. No mesmo dia, começamos a sessão de voz. Na verdade era fácil a tarefa, por ser só uma música cantada ("Luz"). E no mesmo dia, fizemos também os backing vocals, nós três da banda, e o reforço de Soraia Orenga e Rosana Gióia.

Quanto ao vocal solo do Rubens, foi bem rápido, pois ele já estava seguro desde quando incorporamos essa canção ao repertório, e por termos tocado-a em quase todos os shows que fizemos no ano de 1983, estando mesmo bem preparada para gravá-la. E os backings foram tranquilos também. Fizemos uma círculo em volta do microfone Neumann, e gravamos juntos num único canal.

Gravando em apenas oito canais, era inevitável que fizéssemos reduções e dessa forma, alguns timbres ficariam mesmo achatados nesse processo reducionista. Alguns dias depois, fizemos a sessão de mixagem de ambas. No dia da mixagem, o ex-vocalista do Made in Brazil, Caio Flávio, apareceu, e ficou assistindo a sessão. Com redução e aliado à nossa inexperiência, a mix ficou a melhor possível dentro desse cenário.

Ouvindo hoje em dia, acho que tem excesso de reverber, e a extrema leveza da base do Rubens em "Luz", incomoda-me um pouco. Se houvesse um dobro de guitarra base, com um pouco mais de "drive", creio que a música ficaria mais encorpada. Também acho que poderia haver um pouco menos de reverber na bateria, no geral, mas entendo perfeitamente que não dava para fazer milagres numa redução para dois canais de um instrumento complexo como é a bateria. Gosto, contudo, do Flanger nos pratos, durante um trecho do seu solo em "18 Horas", e isso foi proposital evidentemente, com a aprovação da banda inteira. No tocante ao baixo, hoje em dia eu tiro um timbre tão espetacular usando amplificador e caixas Ampeg, principalmente nos trabalhos do Pedra, que realmente fico chateado por ter gravado em linha, sem nem cogitar usar um amplificador nessa gravação da Chave. Não está ruim, mas meu Fender Jazz Bass rende 100 vezes mais nessa circunstância que descrevi acima. O timbre comedido, quase flat desse compacto, poderia ter sido matador, pois o Fender Jazz Bass é o mesmo, com cordas novas etc. Mas admito que há um fator limitador nesse caso, a mais. Os baixistas puristas vão execrar-me, mas o fato de nessa época eu tocar exclusivamente na técnica "Pizzicato", contribuiu também, decisivamente.

Desde 1992, eu eliminei esse estilo de tocar na minha vida, e com o uso de palheta, não tem comparação a qualidade "timbristica".
Com os dedos, a tendência é perder o brilho. Com palheta, o baixo ronca de forma violenta, produzindo o máximo que um instrumento vintage tem de bom, ou seja, a sua sonoridade natural. Dessa forma, há anos estou acostumado a explorar o máximo de baixos Fender e Rickenbacker. Ouça qualquer gravação do Pedra, e sentirá quando é Jazz Bass; Precision; ou Rickenbacker, pois isso é nítido. Mas estou comentando tecnicamente apenas. Não queixo-me e pelo contrário, orgulho-me muito desse primeiro trabalho da Chave do Sol, por representar mesmo a concretização de um sonho pessoal que acalentava desde 1976, quando formei minha primeira banda, o Boca do Céu.

Ele é importante por esse aspecto pessoal, e também pelo trabalho em si, representando muito para a carreira da Chave do Sol. Esse compacto, aliado às aparições na Fábrica do Som, foram os dois principais fatores que catapultaram-nos de uma condição de anonimato para uma exposição midiática, dando-nos oportunidades ímpares de impulsionar a nossa trajetória, e foi exatamente o que ocorreu.


Com a mixagem encerrada no Mosh, em sua antiga instalação da Vila Pompeia, o próximo passo seria o processo do "corte". Por indicação do Luiz Calanca, o corte foi realizado no estúdio da RCA, pelo competente Oswaldo Martins, acostumado a cortar discos há muitos anos, e que depois, na Era digital, abriu estúdio de masterização, e em seu estúdio (chamado "Turbo", o CD "Chronophagia" da Patrulha do Espaço foi finalizado, em 2000, coincidentemente.

Para quem não sabe o que significava o "corte" no processo dos antigos vinis, explico rapidamente que era a etapa de acabamento final pós estúdio, onde a fita mixada do estúdio recebia a última camada de frequências agudas e graves, no cômputo geral, onde esse "corte final" definia a cópia matriz que seria imprimida no acetato de vinil, e que serviria então de base para a prensagem das cópias na fábrica.

O Rubens foi assistir o processo, e mesmo sem condições de opinar, pois era um processo técnico essencialmente, assim ao menos representou a banda, como apoio moral nessa operação final.
No tocante à capa, tivemos alguns problemas com o fotolito da gráfica, e também com algumas provas rejeitadas por erro do uso de cores. Além disso, tivemos problemas com a revelação das fotos da capa, especificamente com a foto do Rubens. A ideia de escurecimento para dar clima sombrio na foto do Rubens, sugerido pelo fotógrafo Fabio Rubinato, parecia muito legal em tese, mas na prática, o laboratório fez muitos esforços para clareá-la.

O certo seria abrir nova sessão e tentar capturar outras fotos boas do Rubens, mas não obstante o fato de termos essa foto comprometida pela ausência de luz, nós gostávamos dela em si, pela expressão facial do Rubens, e enquadramento. Dessa forma, fomos muito teimosos, bancando a sua permanência, e mesmo com os esforços do laboratório para clareá-la (numa era pré-digital, sem photoshop e que tais). Mas esse processo durou um tempo enorme.
Por vários problemas de agendamento no estúdio RCA; da gráfica com suas idas e vindas, e do laboratório que trabalhava nas fotos, o processo tornou-se lento. Por esse motivo, o disco só foi ficar pronto meses depois, lá por maio de 1984.


De uma certa forma, o fato do disco ter enfrentado entraves burocráticos e extra musicais para ficar pronto, teve um aspecto atenuador para a banda. Ocorreu que no período entre o fim de janeiro, até a minha saída do Língua de Trapo pela segunda e definitiva vez, no início de julho de 1984, quase não houve brecha possível para agendar shows da Chave do Sol. Portanto, o risco que corremos em perder o bom embalo construído arduamente desde 1982 (e potencializado pelas aparições na TV), era enorme.

Isso somava-se ao fato de não termos na ocasião um empresário que pudesse capitalizar o "momentum" propiciado pela exposição midiática. Então, o fato do disco ter demorado para sair, de certa forma foi estratégico, pois quando ficou pronto enfim, coincidiu com a época em que eu estava de saída do Língua de Trapo, portanto, com liberdade para dedicar-me integralmente à Chave do Sol, novamente. Nesse ínterim, tivemos mais uma participação no programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura. Nessa participação que foi ao ar no dia 31 de março de 1984, tocamos "Luz"; "Crisis (Maya), e novamente "Átila". 

Somente as duas últimas que citei, foram ao ar, e os respectivos vídeos estão no You Tube. Desta vez, a produção do programa fez jogo duro, e o Zé Luiz teve que usar a bateria Gope, acrílica da TV Cultura, como houvera sido na nossa 3ª aparição, em novembro de 1983. 
http://www.youtube.com/watch?v=oZlb0BzsKhI
O link acima direciona para o vídeo de "Crisis (Maya)", performance da 4ª aparição da banda no programa "A Fábrica do Som", gravado no dia 27 de março de 1984, e que foi ao ar em 31 de março de 1984 

O Rubens aparece nesses vídeos com o cabelo bem mais curto do que o habitual, pois questão de dias antes, foi padrinho de casamento de sua irmã mais velha, Roseli Gióia. Apesar de "negociar" insistentemente com sua irmã para ir ao casamento com o cabelo preso, ela foi irredutível, e ele deu um corte meio exagerado para os nossos padrões rockers setentistas...
O Zé Luiz iria usar uma camiseta com o logotipo novo que acabáramos de adotar, e estaria na capa do compacto. Era a famosa ilustração da pomba voando em direção ao sol. Mas ela não ficou pronta a tempo, infelizmente.

Esta camiseta eu nunca usei, mas a preservei como peça de memorabilia da Chave do Sol

Esse logotipo foi usado nessa remessa de camisetas e também em bottons que mandamos fazer. Foi um sujeito chamado Paulo que propôs-nos esse merchandising e mediante um pacote, acabamos fechando o negócio. A arte final era de um rapaz chamado, José Vicente Dias, que já comentei anteriormente. De todas as nossas seis apresentações na Fábrica (somente cinco foram ao ar, e logo mais eu explicarei essa 6ª aparição que tem uma história sui generis), essa foi a mais comedida de todas para nós, tanto em termos técnicos, quanto na recepção do público.
http://www.youtube.com/watch?v=oZlb0BzsKhI
O link acima direciona para o vídeo de "Átila", executada ao vivo no programa "A Fábrica do Som", gravado em 27 de março de 1984, e que foi ao ar no dia 31 de março de 1984  


Mas de forma alguma poderia dizer que foi ruim. Foi boa, só não teve o calor efusivo das anteriores e da derradeira, posterior.



E desde que o BR-Rock oitentista começou a penetrar com força na mídia mainstream, ainda no final de 1982, estávamos atentos, e assim que tocamos pela primeira vez no programa " A Fábrica do Som", ouvíamos todo o tipo de boatos. Isso intensificou-se em 1984, quando começaram os rumores sobre a realização do Festival Rock in Rio, a ser realizado em 1985. Vendo o estouro de todas aquelas bandas na mídia, sabíamos que não adequávamo-nos àquela estética New Wave, Pós-Punk e que tais. 

A única banda que aproximava-se do nosso gosto setentista era o Barão Vermelho, por ter aquela sonoridade Rock'n'Roll, meio "blueseira", mas mesmo assim, se havia um ponto ao menos de similaridade, nossos temas de passagens instrumentais intrincadas, com influência Jazz-Rock, eram muito distantes da turma de Cazuza. Aqui em São Paulo, o panorama era ainda mais diametralmente oposto. Bandas como Ira e Titãs, e mesmo o Ultraje a Rigor, seguiam a estética do Pós-Punk, fora as bandas Punk propriamente ditas, como "Os Inocentes"; "Cólera"; "Ratos de Porão"; "As Mercenárias", e outras.

Essa turma e mais uma leva de derivados da vertente do Pós-Punk (Cabine C; Smack; Fellini; Voluntários da Pátria; UHF; Akira S. etc) também despontavam, mas eram seguidores da cartilha de Malcolm McLaren em essência, portanto, estávamos isolados e correndo o risco de ficarmos estigmatizados como anacrônicos, dentro de um mundo oitentista hostil ao extremo para artistas como nós, ainda vibrando em moléculas setentistas proibitivas para aquela estética quase fascista, de repúdio ao passado. Naturalmente fomos então movendo-nos em direção à outra vertente oitentista que era antagônica à tudo o que descrevi acima, mas que demonstrava fôlego para sobreviver em quase pé de igualdade. Refiro-me ao Hard-Rock e Heavy-Metal dos anos oitenta. Pelo peso, pela estrutura instrumental calcada em riffs de guitarra acima de tudo, e também pela estética visual, éramos quase que atraídos para essa turma, por absoluta falta de opção mais adequada aos nossos propósitos.

Numa análise muito simplista, mas verdadeira, éramos menos hostilizados nesse mundo peso / pesado, embora não ficássemos nada confortáveis nele, do que entre os Post-Punkers; Punks; New Wavers; Darks; Góticos; entusiastas de Ska; Techno Pop, e demais vertentes derivadas do Punk' 1977, que dominavam completamente a cena da década de oitenta. Diante desse dinâmica de sobrevivência, duas coisas começaram a mudar drasticamente dentro de nossos planos, já no início de 1984 :
1) Precisávamos de um vocalista de voz potente, que sobretudo fosse um frontman de grande carisma e domínio de palco e;
2) Começamos a trabalhar em novas músicas com a preocupação em adequar a banda à essa nova estética, incrementando o aspecto Hard-Rock, quiçá Heavy, trazendo mais peso e Riffs "ganchudos".
Queríamos ficar competitivos para estarmos aptos a abraçar oportunidades que certamente apareceriam. Na verdade, depois que fizemos a primeira aparição na Fábrica do Som, elas começaram a surgir. 

Estávamos quase para lançar o primeiro compacto, mas sentíamos que apesar das músicas serem boas, estavam ambas defasadas em relação ao mercado. "Luz" era um Rock'n'Roll de estrutura cinquentista. Havia entre os oitentistas, um nicho de Rockabilly que pululava entre os apreciadores de vertentes do Pós-Punk. Bandas como o "Coke Luxe" (que aliás era do cast da Baratos Afins, e muito incensada pelo próprio Luiz Calanca), e até o "Magazine" do Kid Vinil, encaixavam-se nesse nicho. Mas o nosso Rock, "Luz", soava diferente de tudo isso, com peso e certas atitudes jazzísticas estranhas aos apreciadores do Rockabilly puro.


E no "lado B" do compacto, traríamos "18 Horas", pior ainda... um tema instrumental de influência Jazz-Rock, cheio de convenções e solos enormes, portanto um verdadeiro alienígena naquele mundo do Pós-Punk, com seus artífices apresentando instrumentais medíocres; vocalizações monocórdicas; e posturas robóticas, ao som de timbres de plástico. Então, já a partir de março de 1984, estávamos trabalhando em sonoridades diferentes para novas músicas. Os arranjos elaborados, e cheios de detalhes de divisão rítmica, prosseguiam, mas o peso começou a ser observado, e passamos também a evitar ficar só em instrumentais. 

Concomitantemente, iniciamos esforços para tentar achar um vocalista que adequasse-se à esse plano de expansão. A ideia era achar um postulante com voz potente, mas com carisma também, e domínio de palco. E claro, tinha que ter boa aparência, fundamental para um frontman...

Num primeiro impulso, colocamos um anúncio no jornal "Primeiramão", mas sem assinar o nome da banda, pois nessa época já estávamos com um nome na praça graças às quatro aparições na TV, e prestes a lançar um disco. Dessa forma, alguns candidatos fizeram contato, e num dia mais ou menos entre março e abril de 1984, marcamos um teste com vários desses aspirantes. Foi numa segunda-feira, lembro-me, e é uma pena que não tivéssemos filmado tal experiência bizarra.

Foi uma autêntica "Buzina do Chacrinha", com alguns tipos inacreditavelmente ruins e bizarros, presentes. Destaco um sujeito que chegou de terno e gravata, aspecto de "almofadinha" e cheio de arrogância. Tinha postura de quem chegou para assinar contrato e assumir o posto, ignorando outros postulantes rivais. Era horrível, no entanto, e por algum tempo, ficamos achando que tinha ido ao nosso ensaio para provocar-nos, pois era inacreditável como era ruim. Só podia ser gozação aquele sujeito dizendo ser vocalista de Rock, com aquela completa falta de noção. Esse foi bizarro pela postura altiva e petulante, mas a maioria era horrível também, e não precisava nem de um compasso de execução, para vermos que não tinham condições nem de cantar no chuveiro...
Alguns não sabiam nem onde entrar no ritmo, sem noção alguma de pulsação, e em relação à afinação, melhor nem falar muito, pois nem sabiam o que significava tonalidade. Entre tantos bizarros (sumariamente convidados a retirar-se), selecionamos apenas três para posterior avaliação. Eram dois rapazes e uma garota.

A garota foi até engraçado, porque veio com uma mini torcida uniformizada. Era um grupo de lésbicas, seguidoras de MPB.
Até aí, sem problema e sem preconceito. Mas foi engraçado ver que enquanto ela fazia o teste (cantou uma canção da Rita Lee & Tutti-Frutti, "Mamãe Natureza"), sua namorada e as amigas vibravam e incentivavam, como se estivessem num festival de calouros. Ela não era ruim, mas não era o que queríamos, pois se fosse para ter uma vocalista mulher, teria que ser alguém ao nível da Verônica Luhr, nossa segunda vocalista (considerando que Percy Weiss fora o primeiro). E não era o caso, pois ela era até afinada, mas sua voz não era para o Rock, seu negócio era a MPB mais intimista. Quanto aos dois rapazes, gostamos mais. Não eram espetaculares; não tinham visual Rocker, mas tinham um certo potencial, e portanto, os convidamos a fazer um novo teste posteriormente, e daí decidiríamos.


Numa rara oportunidade de agenda nesse primeiro semestre de 1984, onde todos os espaços eram praticamente ocupados pela agenda do Língua de Trapo, eu consegui uma brecha, e pudemos marcar um show para A Chave do Sol. Foi um convite da FAAP, a Faculdade Armando Álvares Penteado, super bem localizada no bairro do Pacaembu, e frequentada por alunos, invariavelmente oriundos das classes sociais mais abastadas de São Paulo.

Infelizmente, contudo, não seria realizado no seu bonito teatro, que aliás é um dos melhores do circuito teatral paulistano, mas sim na famosa escadaria central do Hall de entrada, sob seus lindos vitrais (que são famosos, já tendo sido filmados como cenário de filmes, novelas e comerciais).


Foi realizado no final de maio, com a temperatura típica de outono, e tratava-se de um projeto cultural de diversas atrações que transcorreriam durante uma semana de palestras sobre Comunicação, e onde A Chave do Sol era a atração daquele dia.


 
Lembro-me que os outros shows seriam de "Laura Finocchiaro", "Nós nas Tranças", e "Freelarmônica", em dias diferentes.
O convite surgiu por termos despertado a atenção através de nossas aparições no programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura.


Era a rigor, o primeiro show que conseguíamos graças ao apoio midiático, ao menos de forma espontânea. O público não empolgou-se com o nosso som, o que era esperado em meio àquele universo de "Patricinhas e Mauricinhos", mas não foi um fiasco total, com repercussões pontuais de poucos que ligaram-se no nosso som, cheio de firulas, e nada pop.


Uma particularidade desse show, foi que por não ser um palco adequado, tinha o piso muito liso de mármore. Era difícil portanto tocar e imprimir um mise-en-scené minimamente condizente com a nossa performance habitual, sem ter o receio de escorregar e passar vergonha.


No cômputo geral, foi uma boa apresentação, que ocorreu no dia 28 de maio de 1984, e sob os olhares de mais ou menos 300 pessoas que estavam naquele saguão.




Na quarta foto, Edgard Puccinelli Filho, o popular "Pulgão", em foto recortada de 1986, no camarim do Teatro Mambembe, de São Paulo

Um parêntese na narrativa para falar de um personagem que agregar-se-ia à banda e acompanhar-nos-ia doravante, até o ano de 1987. Edgard Puccinelli Filho era um "freak" que o Rubens conhecera nos tempos em que tocava no bar "Aponto", um obscuro estabelecimento localizado em Moema, na zona sul de São Paulo. Nessas noitadas de Rock, onde muitas bandas iniciantes apresentavam-se nos idos de 1978, 1979, pouco ouvia-se música autoral. Predominavam as bandas cover, tocando clássicos do Rock 1960 / 1970. 

Muita gente que posteriormente ficaria famosa, passou pelo "Aponto", caso do guitarrista do "Ira", Edgard Scandurra, que nessa época ainda não havia bandeado-se 100% para a turma do Punk / Pós Punk, e nas noitadas do Aponto, gostava de tocar riffs de Jimi Hendrix e do The Who. Já o outro Edgard, não era músico, mas um apreciador, e demonstrava um potencial para ser um agitador cultural, além de que era naturalmente performático e poeta. Mais ou menos no final de1983, ele apareceu na nossa vida, e tornar-se-ia a seguir, uma figura importante no staff da banda, atuando como um apoiador de produção, para toda obra. E indo além, como era uma "figuraça", acabou virando uma entidade agregada, como o "Gato Félix" era para os Novos Baianos.

O folclórico "Gato Félix", personagem e agregado dos Novos Baianos, nos anos setenta

Ele quase não usava jeans. Geralmente estava usando calças de tergal, de ternos que comprava em brechós, e combinava com o mote rocker, ao usar só um colete sem camisa, e usualmente com echarpes de seda, dando um toque glitter. Costumava usar várias pulseiras, estilo Rocker, mas combinando (ou "descombinando", como queiram...), com calças de ternos dos anos cinquenta, quando causava uma estranheza.

Fisicamente, tinha biotipo de indiano, com uma pele bem escura, mas com feições caucasianas. E seu temperamento era expansivo, com grande extroversão, sendo bom como relações públicas, sempre tornando-se o centro das rodinhas de conversas, chamando a atenção de todos.
http://www.youtube.com/watch?=7Zcaebc8Q6s
O link acima direciona para um curioso vídeo postado no You Tube, como uma espécie de coletânea de momentos bizarros vividos no programa "A Fábrica do Som". Logo no início, o Edgard Puccinelli Filho, vulgo "Pulgão", é entrevistado, como anônimo, e por ser performático, arranca mais tempo que o normal nesse tipo de abordagem jocosa das TV's. Lá pelo segundo 23, até o 57 do vídeo, ele declamou o seu poema "Anjo Rebelde", que seria musicado pela Chave do Sol, e gravado no segundo disco, o EP de 1985...

Mesmo sabendo que tínhamos uma sólida parceria com o poeta Julio Revoredo, sempre insistiu para que víssemos seus poemas, visando musicar algum material nosso, ou mesmo ter um espaço para realizar uma performance ao vivo. No meio de 1984, isso acabaria concretizando-se, enfim. E contarei logo mais...


Seguindo na narrativa, marcamos com os melhores candidatos a vocalista (da prévia que fizéramos no nosso ensaio), uma audição decisiva, ao vivo, visto que tínhamos um show marcado para junho, num bar no bairro do Bixiga. Na verdade tivemos outra perspectiva antes disso (o show na Faap, descrito anteriormente), mas esse show por ser num bar pequeno, seria mais conveniente para tal propósito (e convenhamos, num show do porte da Faap, não haveria espaço para tal predisposição prosaica). 

Raf de Logotipo não aprovado para a capa do disco, de autoria de Elizabeth Dinola, em 1983

E seguindo em frente, finalmente tínhamos a capa encaminhada à gráfica, e o disco sendo prensado. Com isso, tínhamos a preocupação de preparar um show de lançamento, mas a minha vida paralela com o Língua de Trapo, nesse primeiro semestre de 1984, complicava demais a agenda da Chave. A despeito de gostar do Língua por vários motivos (por ter sido membro da formação original; gostar do teor artístico; ser amigo do Laert desde os primórdios de nossas respectivas carreiras iniciadas no Boca do Céu; ter feito boas amizades com os demais membros, e por estar dando-me a oportunidade de ganhar muito dinheiro), meu propósito era voltar a ser membro exclusivamente da Chave do Sol, pois sempre foi o meu objetivo ter uma banda de Rock. E também pela afinidade com os companheiros, e o fato de estar atrapalhando os planos de minha própria banda. Além da questão do disco estar saindo, e a necessidade de fazer um show de lançamento ser premente, um outro fato era que inegavelmente eu arrumara inúmeros contatos para A Chave do Sol, através do Língua de Trapo.

Com a permissão dos companheiros do Língua, apesar deles não gostarem exatamente disso (numa fase de "pisar em ovos" que passei, e convenhamos, não era exatamente uma atitude a ser aplaudida por eles), eu tinha sempre um material da Chave no case (estojo), do meu instrumento, quando ia a programas de TV ou rádio. E dessa forma, muitas coisas que A Chave do Sol conseguiu depois que eu saí do Língua, certamente foram arrumadas através do Língua de Trapo. 

A rede de boatarias comia solta no aproximar da metade de 1984. A aproximação com o pessoal do Hard-Rock oitentista parecia inexorável naquele instante, e um dos primeiros frutos nessa tentativa de adequação ao mercado, foi termos concluído uma música nova com esse teor, chamada "Anjo Rebelde". Tal música merece um capítulo à parte, por conta de sua letra, elaborada por um personagem que havia aproximado-se de nós no final de 1983, e que tornou-se importante nos anos seguintes como colaborador ativo nos shows. Tratava-se de Edgard Puccinelli Filho, cuja persona eu já descrevi anteriormente.


Sobre a novidade do merchandising, o rapaz que fez as camisetas e os bottons para nós, com o logotipo da pomba voando sob o sol (a arte é de José Vicente Dias), era bem falante, e envolveu-nos em relação à uma promessa para agendar shows. Ele não era um empresário propriamente dito, mas dizia ter contatos, e entre eles, o de um possível contratante que levar-nos-ia à Porto Alegre. Sabíamos, através de membros da produção do programa "A Fábrica do Som", que muitas das tais "18 mil cartas" enviadas por telespectadores elogiando-nos, pedindo informações, ou pedindo novas exibições, eram do Rio Grande do Sul, e notadamente de Porto Alegre. 

Então, ficamos bastante animados com essa perspectiva. Todavia, o sujeito fazia um joguinho de barganha, tentando obter um acordo de porcentagem absurda como comissão. Irredutível, recusava-se a ceder em sua sanha financeira e dessa forma, ficamos sem o contato, que ele evidentemente não cedeu-nos. E tinha outra coisa, era um sujeito meio comprometido com aquela vibe fascista de repúdio ao passado, comprando a ideia do niilismo punk de 1977 etc e tal. E vivia perturbando-nos para modificarmos o nosso som e visual, buscando adequação com aquela estética. 

Mesmo que fôssemos mercenários dispostos a qualquer coisa para ingressar no mainstream, certamente não seria pelos contatos obscuros dele que conseguiríamos. Foi a priori, o primeiro sujeito que aproximou-se de nós para fazer algum tipo de trabalho empresarial. Mas claro, não fechou nada, e ficou só na conversa fiada. Anos depois, chegou a montar loja na Galeria do Rock. Seu nome era Paulo. Não revelarei o sobrenome. Já em 1985, veio  procurar-nos para um novo oferecimento de merchandising, mas ainda estava naquela mentalidade idiota, e ficou o tempo todo ironizando-nos por termos o visual de bandas "ultrapassadas" como o Whitesnake etc... onde estará o grande arauto do pós-punk hoje em dia ??


Nessa dinâmica de estarmos prestes a lançar o disco (até que enfim), também estávamos preocupados com o seu show de lançamento. De minha parte, eu sempre gostei de shows teatralizados, e como fã do "Frank Zappa"; "David Bowie"; "Alice Cooper"; "Arthur Brown", e outras feras que faziam muitas loucuras desse tipo em seus shows, sonhava realizar elementos extra musicais para incrementar o show da Chave do Sol. Então, começou a amadurecer uma série de ideias para esse show de lançamento do compacto.

Eu (Luiz Domingues), à esquerda e o poeta Julio Revoredo em 1984

A ideia era usar toda a estrutura hermética da poesia de nosso colaborador, o poeta Julio Revoredo, mais a figura performática do Edgard, entre outros elementos. Logo mais entrarei nos detalhes.
Falarei sobre as loucuras que criamos, provenientes das reuniões de "Brainstorm" que fizéramos com o Julio, e o Edgard, presentes.
Aproveito para abrir um parêntese, contando sobre dois telefonemas inusitados que recebi no primeiro semestre de 1984...

Não tenho condições de lembrar a data exata, em que recebi tais ligações telefônicas inesperadas, em dias diferentes, e com motivações e pessoas distintas. Para início de conversa, nessa época eu não possuía telefone em minha residência, portanto, essas pessoas acabaram descobrindo o número do telefone da casa do Rubens, possível lugar mais provável onde encontrariam-me.
Desconfio que uma delas obteve-o através do Luiz Calanca (o outro é certeza, pois ele mesmo, Calanca, contactou-me previamente), dono da Loja Baratos Afins, e manager do próprio selo, administrado na própria loja, onde recebia diariamente, contatos de produtores; artistas, e jornalistas atrás de informações sobre o seu cast.

O primeiro, foi do baixista dos Titãs, Nando Reis. Quando fui chamado a atender, por alguns segundos elucubrei : o que será que o baixista dos Titãs tem a dizer-me ? Atendi, e ele chamou-me pelo apelido que eu usava naquela época, e antes que eu manifestasse-me, foi logo dizendo que estava com um problema na "ponte" do seu baixo Fender etc etc...
Fui obrigado a esclarecê-lo de que eu não era Luthier, a despeito do outro baixista que o era de fato, usar o mesmo apelido que eu, etc etc...
Ele desculpou-se, mas nem precisava, pois essa confusão por conta do tal apelido perseguiu-me por mais de vinte anos, e não foram poucas as vezes que músicos vieram falar sobre instrumentos comigo, como se eu entendesse alguma coisa, confundindo-me com o Luthier, "Tiguez".

E o "Tiguez" passou pelo mesmo constrangimento, anos a fio !
Em meados dos anos noventa, ele chegou a colocar um banner no site da sua luthieria, dizendo : -"EU NUNCA TOQUEI NA CHAVE DO SOL"... ha ha ha...
Aliás, trata-se de um grande músico e luthier. Quem precisar de reparos em guitarra; violão ou baixo, recomendo-o, sem dúvida.
O outro telefonema, aí sim era pertinente, de fato. Numa outra tarde, atendi o telefonema do Luiz Calanca, dizendo-me que indicara-me para travar um contato com uma personalidade da MPB, que estava procurando um baixista para acompanhá-la em turnê.

Alguns minutos depois, a própria artista ligou-me, e era a Miúcha, cantora, irmã de Chico Buarque, ex-esposa de João Gilberto, mãe da também cantora, Bebel Gilberto etc. Simpática, convidou-me para fazer parte de sua banda de apoio. Mas tive que declinar do convite, pois estava naquele preciso instante, agoniado por estar tocando em dois trabalhos simultaneamente, e por conta dos inevitáveis choques de agenda, estar o tempo todo "pisando em ovos", com ambos. Portanto, acumular um terceiro trabalho paralelo, seria um desastre naquele instante. Além disso, mesmo estando numa ótima forma musical em 1984, "minha praia" não era a Bossa Nova, e mesmo se esforçasse-me, acho que não encaixar-me-ia na proposta musical do repertório dela, e o correto seria que procurasse um especialista. Fiquei lisonjeado, claro, pois mesmo não tendo a magnitude de seu irmão, e também de seu ex-marido, Miúcha tinha / tem um nome respeitável na MPB.
E assim foram esses dois telefonemas inusitados, ainda no primeiro semestre de 1984...


O próximo evento da Chave do Sol, foi absolutamente inesperado e inusitado para nós. Havíamos sido convidados para assistir a gravação de mais um programa " A Fábrica do Som", mas na condição de convidados tão somente. Era o dia 19 de junho de 1984, e estávamos agendados para participar gravando, somente na semana seguinte, dia 26. Fomos assistir a gravação e colocados num lugar estratégico do mezanino sobre o palco, fomos reconhecidos pela plateia, e muitos gritinhos ecoaram no teatro, dando-nos a sensação boa de que a banda crescia a olhos vistos. 

Então, um pouco antes de iniciarem-se as filmagens, vimos que o clima estava tenso entre os produtores do programa e técnicos da TV Cultura. Um bate-boca começou e de repente os técnicos do P.A. começaram a desmontar o equipamento, gerando um alvoroço na plateia. Não sabíamos o que estava acontecendo ao certo, mas sentíamos a tensão aumentar a cada segundo. Foi quando um produtor da TV Cultura abordou-nos, e pediu-nos para fazermos um micro show relâmpago, pois eles temiam que o público revoltasse-se com o cancelamento das filmagens do programa naquela noite, e iniciasse um quebra-quebra. De fato, havia mais de 1000 pessoas dentro do Teatro do Sesc Pompeia naquela noite, e seria muito perigoso cancelar pura e simplesmente.
Sobre o acontecimento, a explicação que deram-nos foi a seguinte : Durante o soundcheck, no período da tarde, um músico de uma banda, "bateu boca" com um câmera man da TV.  A discussão acalorou-se, e chegou às vias de fato. Em meio à pancadaria, alguém pegou um pedestal de microfone para utilizá-lo como arma, e quebrou-o, causando a revolta dos responsáveis pelo PA., que também entraram na confusão. Mesmo com a turma do deixa disso separando os brigões, o clima azedou, naturalmente. Até aquele instante, os produtores do programa tentavam convencer os turrões a relevarem, e filmarem normalmente o programa. Contudo, os técnicos do P.A. solidarizaram-se com os da TV, e todos recusaram-se a trabalhar.

Com essa situação criada, os produtores do programa, e os responsáveis pelo Teatro do Sesc Pompeia, ficaram muito preocupados com o desfecho desse imbróglio, visto que faltava dar a notícia às mil pessoas que estavam nas dependências, a maioria jovens com a adrenalina a todo vapor. Então, em consideração aos produtores do programa que sempre foram muito bacanas conosco, aceitamos fazer uma apresentação de emergência.

Mas não seria nada fácil !! Sem o apoio do P.A, só teríamos o som dos amplificadores e sem meios de ter um som de bateria minimamente condizente com o espaço, e com a agravante de mil pessoas berrando. E mais um problema : o equipamento de palco também seria levado embora pela equipe técnica e sendo assim, antes que começassem a desligar, um produtor da TV ainda usou o microfone no PA e deu o recado à plateia que um show da Chave do Sol seria feito de emergência para entretê-los, e que precisaria de dois favores do público :
1) Que esperassem mais uns minutos enquanto o equipamento da banda fosse buscado e;
2) Que entendessem que seria sem P.A., ou seja a banda tocaria em condições insalubres.
Claro que a maioria não entendeu nada, mas pelo menos evitou-se uma tragédia que seria difícil de conter, inevitavelmente sendo encerrada com a tropa de choque da Polícia Militar descendo a borracha em vândalos ensandecidos. O Rubens e o Zé Luiz foram voando ao nosso local de ensaio, e trouxeram nossos instrumentos e equipamento. Sem roadies, nós mesmo montamos tudo na frente do público sob gritos, porém positivos de incentivo, e os produtores da TV entreolhavam-se aliviados, pois estavam temendo algo muito pior.

Claro, sem PA, ficamos com um alcance muito inadequado para aquela situação, e mesmo dando tudo de nós para entreter o público, tecnicamente falando, nosso som reduziu-se a um radinho de pilhas, e só podia ser ouvido timidamente, muito perto do palco.
Não era um show propriamente dito, e nem preocupamo-nos com qualquer possibilidade de agradar ou não o público naquelas condições. Víamos as pessoas indo embora sossegadas e ao longo de uns 45 minutos, onde tocamos heroicamente sob condições sonoras terríveis, agradamos quem dispôs-se a ficar bem perto do palco, e entender as limitações sonoras ali delineadas.
E como era algo excepcional, tanto o pessoal da produção da Fábrica do Som, quanto do SESC, permitiram que pessoas assistissem sob o palco, sentados à nossa volta. Foi um exercício hercúleo, mas fico contente em lembrar que ajudamos, numa hora muito periclitante para todos.


De fato, como espetáculo, um show improvisado e sem condições técnicas mínimas, não rendeu grandes frutos para nós, mas politicamente foi importante, pois ganhamos pontos com a produção do programa A Fábrica do Som. O nosso sacrifício em tentar entreter mil pessoas sem um P.A., serviu mesmo só para o público dispersar, sem causar tumulto nas dependências do Sesc Pompeia. Já na semana seguinte, estávamos lá mais uma vez e nesta oportunidade, com uma grande novidade em mãos : finalmente o disco chegara da fábrica, e nós o lançaríamos na TV.

Desta vez, tínhamos muito o que comemorar, pois tínhamos em mãos finalmente, o nosso primeiro registro fonográfico oficial.
Estava lançado o primeiro compacto, e a missão principal nessa aparição na TV, seria mesmo divulgá-lo e imbuídos dessa tarefa, fomos muito confiantes para a gravação da TV. Tocamos "Luz" e "Anjo Rebelde", música nova que estava ingressando no repertório da banda.
https://www.youtube.com/watch?v=lYRnfhGGG6g
O link acima direciona para a performance de "Anjo Rebelde", nesse dia na Fábrica do Som.



"Anjo Rebelde" foi uma das primeiras músicas compostas numa nova fase da banda, onde passamos a ter a preocupação de imprimir mais peso, tentando trazer mais elementos de Hard-Rock, visando uma adequação ao mercado, que sinalizava (via "rede de boataria"), que as gravadoras abririam uma nova leva de contratações, abrindo um nicho para o Hard-Rock e Heavy-Metal. 
A música foi composta por eu e Rubens, e a letra, foi uma oportunidade que aproveitamos, quando adaptamos um poema do Edgard Puccinelli Filho, vulgo "Pulgão". Então, não abandonando nossas características tradicionais de usarmos elementos do Jazz-Rock setentistas, nosso arranjo privilegiava diversas convenções rítmicas ousadas.
Na TV, contudo, traídos pela adrenalina toda da ocasião, iniciamos a música além do seu andamento normal, tornando-a mais difícil para execução.

Ainda mais pelo fator ao vivo, com a banda esforçando-se para fazer um mise-en-scené agressivo.

Porém, nossa performance foi muito boa, conforme pode-se notar no vídeo. Eu tive a incumbência de falar sobre o compacto recém lançado, e aí, um fato curioso ocorreu. Aliás, dois...
O primeiro, foi que assim que a música encerrou-se, eu estava muito ofegante, pois exagerara na minha performance individual.
Mesmo sendo um jovem de 24 anos de idade (incompletos naquela ocasião), fiquei esbaforido, e como tinha muitas coisas a dizer, fui perdendo a voz, e as últimas palavras que pronunciei, foram quase incompreensíveis, com a emissão falhando. 
https://www.youtube.com/watch?v=G4d0AZu2VPg
O link acima direciona para o vídeo do You Tube, onde o voo do disco é mostrado. Um literal "lançamento de disco"...


Outro aspecto que hoje em dia considero absolutamente prosaico, deu-se no recado em si. Querendo ser objetivo, expus, ainda que ingenuamente, a fragilidade empresarial da banda, pois insisti em dizer que o compacto só estaria à venda na loja Baratos Afins, de São Paulo. Fornecendo o seu endereço completo e conclamando fãs a adquiri-lo por esse endereço, via correio, decretei essa fragilidade.
OK, faço essa "mea culpa", mas ao mesmo tempo, relevo, pois era uma outra época, e mesmo sendo uma manifestação ingênua, era a nossa realidade naquela ocasião, e tratava-se de uma informação vital para a banda, no sentido de que a distribuição era precária, portanto muito diferente de uma distribuição de gravadora multinacional.

Mas o mais inusitado aconteceu posteriormente...
Enquanto eu falava, ouvia gritos da plateia, pedindo o disco que estava em minhas mãos. Quando eu estava quase concluindo o recado, lembro-me de dois rapazes mais ousados, que invadiram o palco, avançando sobre minha pessoa, para arrancá-lo de minha mão, quando num rompante, decidi jogá-lo à plateia do outro lado do teatro. Mas ele subiu e ganhou um efeito aerodinâmico insólito no ar, e tal qual um aviãozinho de papel, planou...
E nesse impulso inusitado, foi alojar-se numa fresta da estrutura metálica do teatro do Sesc Pompeia, muito próximo ao teto !!
Quando o disco fez esse voo e parou nesse lugar improvável, o público vibrou, pois realmente foi algo muito inesperado. Os dois garotos que quase arrancaram-no de minhas mãos, saíram resmungando, e numa fração de segundos cheguei a pensar no quanto o artista passa de uma situação de veneração à de repúdio, num piscar de olhos...
Num impulso, ainda fui ao microfone e exclamei : -"foi Deus que quis assim", referindo-me ao fato do compacto ter ficado quase no teto, portanto perdido. Começamos a tocar a próxima música e quando a encerramos, fui surpreendido, pois um sujeito abordou-me com o compacto na mão, pedindo-me um autógrafo. Fiquei estupefato e perguntei-lhe onde arrumara-o, pois não havíamos levado mais cópias para sorteio ou ações desse tipo. Aí ele deixou-me atônito, dizendo-me que escalara a estrutura do teatro, e buscara-o naquele lugar inóspito !! Sua justificativa deixou clara a facilidade de sua façanha atlética : ele era do Corpo de Bombeiros...
O vídeo de nossa performance tocando "Luz", nesse dia :
https://www.youtube.com/watch?v=_15MWhy061M

E assim foi a nossa última participação no programa "A Fábrica do Som". Infelizmente o programa saiu do ar pouco tempo depois, por uma mudança de mentalidade na cúpula da TV Cultura (incompreensível, aliás...), e nunca mais houve outro programa tão democrático para exibir bandas novas de trabalho autoral, na TV, sem o famigerado jabá das cartas marcadas. Houve a tentativa de reviver a fórmula com o "Musikaos", na mesma TV Cultura, no início dos anos 2000, mas apesar de seguir mais ou menos a linha da velha Fábrica do Som, não tinha o mesmo élan e saiu do ar, rapidamente. A Chave do Sol deve à Fábrica do Som, o seu primeiro impulso de grande público. Mesmo sendo uma emissora estatal e educativa, a TV Cultura chegou a cravar 4 pontos de audiência nas tardes de sábado, graças à esse programa, fora a procura maciça de público para assistir as gravações ao vivo, no Teatro do Sesc Pompeia.

Continua...   

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