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terça-feira, 26 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 11 - Primeiro Semestre de 1986 : Muito Trabalho e Reformulação - Por Luiz Domingues

O ano de 1986, iniciou-se com muito trabalho para a banda. Não tínhamos agenda prevista para curto prazo, mas colocamo-nos nos ensaios, a trabalhar em muitas músicas, e rapidamente, obtivemos um repertório renovado e sobretudo, ao adotarmos uma nova estética. Como reagiriam os fãs ? E a crítica, o que teria a dizer sobre mais uma mudança radical ? 

Pois foram riscos que corremos, como se estivéssemos no ar, a pilotar um avião e simultaneamente a estabelecer mudanças de rota a todo instante. Fora urgente a nossa necessidade em gravar uma demo-tape que retratasse essa nova fase da banda, com canções mais palatáveis ao mercado pop, midiático e radiofônico. O lado bom dessa cruzada inglória que enfrentamos, foi a determinação com a qual lançamo-nos na tarefa. O mau, na verdade desdobrou-se em algumas nuances.
 

Foi óbvio que tantas mudanças reverteram-se nocivas à imagem da banda. A troca frenética de vocalistas gerara confusão, certamente. Primeiro pela questão do material de divulgação, com a necessidade constante de atualização de foto; release; histórico e currículo, itens básicos do material da banda. O lado mercadológico disso seria ainda pior, com a não fixação de uma imagem, com a agravante de um vocalista ser ainda mais incisivo para uma banda, por estigmatizar seu timbre de voz; interpretação e atuação como frontman. Pior ainda, fora promover mudanças sonoras significativas. Isso gerou algo além da confusão, mas uma autêntica quebra de confiança na banda, pois denotara uma insegurança interna muito acentuada. 
Como fazer com que as pessoas acreditassem no trabalho, se nós mesmos não demonstrávamos tal confiança, ao menos subliminarmente ? Lógico que essas conjecturas não foram levadas em consideração à época. Analiso tudo isso sob o distanciamento histórico, e certamente beneficiado pela experiência acumulada ao longo de tantos anos.

Isso porque ali no calor dos acontecimentos e diante de vinte e poucos anos de idade, só queríamos que a banda lograsse êxito, e mudar estratégia com o jogo em andamento não seria o ideal, mas não tivemos constrangimento em tentar tais mudanças de rota. Assim foi o nosso mês de janeiro de 1986, com os dias quentes de verão dedicados aos ensaios de composição e arranjos para um novo material.

O lado bom desse esforço frenético, foi que renovamos o repertório sob uma velocidade estonteante. Como se fôssemos uma banda recém criada, com um material inteiramente inédito em mãos. Todavia, haveria um certo aspecto a ser levado em conta, também. A despeito de nossa resolução interna em mudar radicalmente, tínhamos dois discos lançados. E assim, como lidar com o fato de que já tínhamos um público significativo e que mostrava-se dividido entre os dois trabalhos lançados ? Quem gostava da Chave do Sol da fase do Power Trio, versado pelo Jazz-Rock, das apresentações na  televisão, via ,"A Fábrica do Som", não abriria mão de ouvir "Luz"; "18 Horas", e outras canções dessa sonoridade / estética. E a despeito do EP ter gerado controvérsias, "Um Minuto Além" caíra no gosto dos fãs, mesmo com o ranço Heavy-Metal, que evitaríamos, doravante. Descartaríamos o passado, então, para começarmos tudo de novo, do zero ?

Nesse ínterim, uma atividade com aura de recreação movimentou o nosso carnaval de 1986. Como costumeiramente ocorria, o carnaval sempre foi um período infrutífero e entediante para rockers como nós, não interessados na tal da "folia". E como a família do Rubens geralmente viajava para aproveitar a casa de praia que possuíam em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, o Rubens lançou a ideia de nós fazermos uma festa Rock, na sexta feira que antecedeu o início dos festejos carnavalescos, e convidar assim várias bandas da cena paulistana. Deveria ser algo totalmente informal, mas no boca-a-boca, ganhou proporção, pois até o jornalista, Antonio Carlos Monteiro (Revistas "Roll" e "Metal"), foi convidado e eis que aproveitou a ocasião para realizar entrevistas. Lembro-me bem dele a abordar o guitarrista de Blues, André Christovam, por exemplo, e realizar uma entrevista, ali mesmo. Então, o equipamento de ensaio da nossa banda foi colocado à disposição de todos, montado na ampla sala de estar da residência dos Gióia e muitas bandas fizeram pocket shows. Estavam presentes bandas como o "Golpe de Estado"; "Harppia"; "Salário Mínimo"; "Abutre"; "Centúrias"; "Inox" e muitos músicos avulsos de outras bandas, tais como o já citado, André Christovam; um músico da banda "Vírus" (um dos guitarristas); o trombonista superb, "Bocato" e o Rolando Castello Junior, da "Patrulha do Espaço" (ainda que nessa época fosse membro do "Inox"). Um momento incrível do qual recordo-me, foi quando o trombonista, Bocato, jogou-se no chão e ficou a rodopiar como se fosse o ponteiro de um relógio, a solar seu trombone, e deixar-nos todos boquiabertos, com sua performance ensandecida...
Além dos pocket shows, jams com os músicos misturados, também aconteceram e claro, foi muito divertido. Infelizmente (mas previsivelmente, também), os vizinhos não gostaram do nosso "grito de anti-carnaval", e com a polícia sendo acionada, nossa "Festa do Rock" teve que ser encerrada, graças ao simpático pedido do valoroso policial que tocou a campainha da residência. Lamento muito a ausência de fotos e vídeos desse acontecimento...


Então, claro que mesmos dispostos a reformular o nosso repertório com bastante ênfase, não poderíamos ser tão radicais ao ponto de ignorar tais preceitos básicos que citei anteriormente. Enfim, "Um Minuto Além"; "Crisis (Maya)"; "Luz"; e "18 Horas", deveriam continuar no repertório de shows, normalmente, por uma questão de coerência. Não tínhamos previsão para shows em curto prazo. Mas apesar desse hiato, não havia motivo para preocuparmo-nos, pois os ventos mostravam-se favoráveis, e a parada estratégica fora conveniente nesse esforço de renovação. Além disso, a questão da gravação de uma demo-tape e a sua respectiva estratégia para abordar gravadoras, foram as tarefas mais importantes que poderíamos executar naquele momento, e foi exatamente o que fizemos.

Para aproveitar essa falta de compromissos em curto prazo, o Beto programou uma viagem à Nova York, para o primeiro semestre de 1986, com o objetivo de comprar alguns equipamentos e instrumentos. E também nesse espírito de renovação, eu e Zé Luiz empreendemos uma ativação na parte estrutural da banda, quando criamos diversos mecanismos para o fã-clube; material de venda de shows, e merchandising da banda. Aproveitamos portanto, esse tempo sem shows que tivemos para também investirmos na organização do Fã-Clube. Na verdade, já mantínhamos uma rotina forte com o "escritório" desde 1983, mas à medida que a banda crescia, o movimento de fãs aumentava também, e além da demanda, sentíamos a necessidade de melhorar os serviços, a objetivar oferecer mais produtos de merchandising.

Tal necessidade fora premente, e claro que precisávamos aproveitar o interesse espontâneo dos fãs.

Então, em junho de 1985, resolvemos lançar um informativo sobre as novidades da banda, com a ideia de ser na prática, um boletim periódico e enviado gratuitamente para os membros do fã-clube, via correio. É bem verdade que um piloto desse projeto havia sido tentado antes, em 1984, mas na época, não foi lançado oficialmente.

Fora disso, percebemos que além dos itens básicos como discos e camisetas, as pessoas pediam-nos muito, material como : fotos da banda e letras das músicas. Pois ao considerarmos esse sinal vindo das pessoas, passamos a oferecer tais produtos e desde então, tornou-se uma fonte de renda extra para a banda, ao ajudar-nos astante na manutenção do fã-clube.

Contudo, mesmo ao vendermos tais produtos pelo correio e também nos shows ao vivo, chegamos em um ponto onde enviar o informativo para duas mil pessoas, tornou-se inviável financeiramente, e dessa forma, passamos a cobrá-lo. Claro que a adesão foi reduzida, mas ao menos, quem ficou, observou a gradativa melhora do material enviado, e nos anos de 1986 e 1987, o informativo tornou-se quase uma revista, com colunas; seções, e ricamente ilustradas com fotos. Eu escrevia todos os textos e o Zé Luiz fazia a diagramação. Ele comprava material na papelaria, e eu visitava o correio para efetuar as postagens. Éramos uma equipe de apenas dois componentes, mas trabalhávamos em perfeita afinação, visto que esse esforço seria importante para o nosso bem mútuo.

Eliane Daic, namorada do José Luiz Dinola na época, e produtora da banda, em foto de novembro de 1985

Para não deixar transparecer que nós mesmos é que fazíamos tudo, inclusive responder cartas (eu as respondia de punho), usamos o nome da namorada do Zé Luiz na época, Eliane Daic, como se fosse a responsável. De fato, ela ajudou-nos muitas vezes em tarefas manuais, como envelopar os informativos e filipetas de shows, além de tarefas gerais, mas nunca foi a responsável pelo fã-clube, como alardeávamos, publicamente. Usamos também o nome de Claudio D. de Carvalho (o popular "Capetóide", amigo nosso desde os primórdios de 1982, e que recebera um jingle em sua homenagem, de uso interno entre amigos, composto por nós, que dizia : "Capetóide, o homem que veio de um asteroide"...), como um colaborador, mas foi o mesmo caso da Eliane, ou seja, um ajudante fictício para não tirar-nos o "glamour" da publicação. Ao final de 1986, esboçamos uma profissionalização do fã-clube e chegamos a contratar um funcionário para auxiliar-nos, o saudoso Eduardo Russomano, que também tornou-se roadie, mas isso eu conto mais para a frente, na cronologia.


Nos quatro primeiros meses de 1986, concentramo-nos na composição de novas músicas, conforme já falei anteriormente.
Mas também foi uma fase para estabelecermos contatos, e nesse aspecto, amigos que queriam dar-nos uma ajuda, e estavam no mainstream, foram muito prestativos para conosco.

Por exemplo, cito inicialmente o baterista dos Titãs, Charles Gavin, que mostrava-se muito solidário com colegas que estavam na segunda ou terceira divisão da música profissional, nosso caso.
Charles era velho conhecido do Beto Cruz, pois ainda ao final dos anos setenta, houvera sido baterista de uma banda cover em que o Beto atuou, chamada "Zona Franca", e cujo baixista, fora o seu irmão, Claudio Cruz. Gavin visitou-nos em nosso ensaio, e deu-nos dicas valiosas sobre o que precisávamos para compor o material que pretendíamos gravar em uma nova demo, além da explanação sobre os meandros da gravadora WEA. Contou-nos várias particularidades sobre como funcionava a mentalidade das pessoas que comandavam o departamento artístico daquela gravadora, e também histórias pitorescas (nada impublicável, mas não revelarei nada pois não acho correto, visto que são coisas que eu não presenciei, mas só ouvi dizer, fora o fato de que não poderia trair a confiança do amigo Gavin, por considerar ter sido revelações feitas sob segredo, mesmo com essa defasagem de tempo, enorme).

O ex-baixista dos Mutantes nos anos 1970, e produtor incensado nos anos oitenta, Liminha    

Gavin prontificou-se a levar a nossa demo em mãos para o Liminha, no Rio, assim que a tivéssemos pronta. Ele gostava da nossa banda e enxergava uma possibilidade, agora que o som estava mais adequado ao padrão Pop, portanto mais condizente à mentalidade das gravadoras e mídia, ainda que não fosse exatamente o ideal, pois aos parâmetros desse pessoal, éramos "pesados" demais e longe do maledetto padrão do Pós-Punk, a monolítica estética que ditou as normas na década de oitenta. Contudo, com esse amigo a interceder, ficamos muito mais esperançosos em haver ao menos a boa vontade para fazer-se uma audição do material. Sendo assim, intensificamos nossos esforços para ensaiar e marcar enfim, uma sessão de estúdio, para preparar a demo.

Preparados para encarar um estúdio, fechamos o repertório e o Beto Cruz trouxe a sugestão de um estúdio simples (e viável ao nosso bolso), mas em condições para proporcionar-nos uma qualidade sonora mínima, o suficiente para suprir nossas necessidades diante do padrão de uma demo-tape. Chamava-se, "Ensaio Estúdio", e sua localização ficava no bairro do Planalto Paulista, na zona sul de São Paulo, razoavelmente próximo à estação São Judas do Metrô. Para minimizar ainda mais o custo dessa operação (e nós estávamos sem recursos, pela estiagem de shows dos primeiros meses de 1986), marcamos essa gravação para a sexta-feira "Santa", da Páscoa de 1986. Caiu então no dia 21 de março de 1986, com o desdobramento da sessão para cumprir no sábado, dia 22 de março de 1986. O dono do estúdio aceitou fazer o serviço e uma substancial redução no preço do pacote, devido à óbvia escassez de clientes em uma "Semana Santa", onde fatalmente teria que fechar as portas e não ganhar nada. Nessas circunstâncias, fora melhor fornecer um desconto e trabalhar, a não ganhar nada.

Enfim, foi ótimo para todos, e ainda que tratasse-se de um estúdio bem equipado com uma estrutura de captação e paramétricos razoáveis, mas inferior logicamente ao padrão dos estúdios "classe A" de São Paulo. O técnico foi solícito e prestativo, mesmo sendo meio carrancudo, mas não dava para cobrar muita gentileza em uma sexta-feira, feriado, e às 10 horas da manhã, convenhamos...
Claro, com um estúdio simples, mas bem municiado para satisfazer produções razoáveis em um padrão de baixo orçamento para uma demo-tape, tudo foi planejado para ser muito rápido. As bases foram gravadas ao vivo. Foi bateria; baixo, e guitarra base a valer nas tomadas iniciais, e com a consciência de que não teríamos muita margem de erro para muitos repetições. Portanto, salvo erros crassos de andamento, harmonia ou execução individual, a ordem foi para relevar-se erros menores e arroubos de perfeccionismos que só seriam cabíveis em uma gravação oficial de um álbum, com maior margem de tempo e dinheiro para bancar tais caprichos. E lá fomos nós...

Como de costume, estávamos absolutamente bem ensaiados e reputo esse esmero, como um dos maiores méritos que A Chave do Sol teve em sua história. De minha parte, acredito que essa foi a banda em que atuei, que mais preocupou-se em manter-se sempre sob uma excepcional forma, com constância de ensaios e de certa forma, até a exagerar nessa determinação, pois ensaiávamos à exaustão. Portanto, em uma circunstância onde teríamos que encarar uma produção de estúdio sem grande folga para correções eventuais, o nosso mérito foi estarmos sempre afiados, a evitar assim, muitas tomadas nas gravações. E por darmo-nos ao luxo de gravar ao vivo, para economizar ainda mais o tempo. Particularmente, não gosto de gravar ao vivo, pois o lado psicológico de tal tipo de produção, desgasta-se com facilidade. Torna-se inevitavelmente um barril de pólvora, visto que um músico pode irritar-se com o outro por um erro tolo cometido e assim, arruinar-se a tomada, e como consequência, obrigar a descartar-se tudo o que havia sido gravado previamente, a obrigar a iniciar-se tudo novamente.

Mas naquelas circunstâncias, não tínhamos escolhas, e assim como nos dois primeiros discos, e nas demos caseiras que havíamos gravado em 1983 e 1984, aceitamos o desafio em gravar novamente com tal metodologia. Usei o amplificador que o rapaz possuía disponível no estúdio, e gostei muito do timbre ao vivo e pelo resultado final da gravação. Tratou-se de um "Hiwatt", que timbrava do jeito que eu gostava, à moda antiga, 1960 / 1970, a extrair som robusto, com peso e brilho. Indo além, não tenho dúvida, nem vergonha em reconhecer que o som de baixo nessa demo-tape, ficou muito melhor que o som do disco oficial de 1985, o EP. O Fender Jazz Bass timbrou exatamente da forma como deveria, ou seja com peso; brilho e corpo. Infelizmente no EP (e no compacto de 1984, também), a mixagem final tratou de achatá-lo (flat...), a diminuir o impacto da sua característica natural. Mas nessa demo, gravada em um estúdio simples, e sob uma produção a toque de caixa, soou melhor...
Hoje em dia, com a experiência acumulada, é muito óbvio na minha percepção que o técnico teve o bom senso de não coibir determinadas frequências na hora da mixagem, para deixar a timbragem que eu escolhera no amplificador, predominar, a despeito de possíveis choques que os técnicos em geral correm para corrigir ao olhar os gráficos de paramétricos, no analisador de espectros. Claro que certos preceitos devem ser respeitados por ser parâmetros respaldados pelas leis da física e da acústica, mas deixar de lado o excesso de rigor científico nessa hora, e permitir que o velho e bom ouvido dê o martelo final na decisão, respeita mais a integridade artística da obra, ainda que possa incomodar o sofisticado crivo de técnicos de som, mais argutos. Para resumir, o timbre de baixo nessa demo despojada, ficou melhor que o dos discos oficiais, gravados em estúdios profissionais renomados como, Mosh e Vice-versa...

O Dinola levou sua própria bateria, naturalmente, e gravou com toda a segurança. Sua performance em estúdio foi sempre exemplar. Fazia aquelas viradas técnicas com uma facilidade assustadora e nos vídeos ao vivo onde ele aparece sempre sorridente, não era só por uma questão de performance, mas pelo fato dele ser 100% seguro, e fazer aquelas levadas difíceis, a divertir-se, como se fossem simples... já o Rubens, levou seu kit tradicional de trabalho, com a Fender Stratocaster e o amplificador Music Man. A novidade para as gravações da Chave, foi a segunda guitarra, marca, Jackson, que representava o último grito da moda oitentista, e ele havia adaptado-se muito bem à sua sonoridade e estética. Foi uma época onde uma guitarra dessas era muito cobiçada, e chegou até a despertar comentários em matérias de revistas, o fato dele possuí-la, só para ter-se uma ideia desse tipo de valorização.

Hoje em dia, eu a acho uma guitarra defasada, e sou mil vezes a Fender Stratocaster '73 que ele ainda possui nos dias atuais, e certamente que uma guitarra estigmatizada como a Jackson não faz sentido para um músico como eu, que tem muita restrição aos parâmetros da década de oitenta. Enfim...
A gravação das bases ocorreu de forma muito eficaz e ainda na sexta-feira fomos direto para os overdubs de guitarra. O Rubens gravou com bastante rapidez seus solos; contra-solos, e desenhos adicionais, sem nenhum problema.

E ainda deu tempo para o Beto iniciar sua sessão de vocais. Após oito horas de trabalho, a parte instrumental estava completamente pronta, e das seis canções gravadas, quatro já tinham os seus respectivos vocais finalizados. Para o dia seguinte, iniciamos a sessão com os vocais que faltaram, e partimos para a mixagem.
A mixagem foi rápida também, e sem nenhuma elucubração indevida. Claro, ao gravar-se em 8 canais, as reduções foram inevitáveis e dessa forma, a bateria foi alojada em parcos 2 canais.
Incrível como mesmo assim a sua presença na demo é digna, mesmo sendo um procedimento rudimentar sob extrema pobreza sonora pela falta de melhores recursos técnicos. O mesmo pode-se dizer sobre todos os instrumentos e a voz do Beto, que teve um tratamento padrão em termos de ambientação, com o clássico advento de reverber; delay, e uma sutil equalização de timbre.

As músicas que escolhemos para fazer parte dessa demo-tape, foram : "O Cometa";, "O que Será de Todas as  Crianças" ?; "Solange"; "Saudade"; "Sun City" e "Forças do Bem". Bem, nem é preciso dizer que consideramos tais músicas como ideais em nossa empreitada para forjar uma nova identidade sonora à banda, e mais que isso, em condições para ser apresentadas aos diretores de repertório das gravadoras majors. Nossas apostas óbvias recaiam sobre "Sun City"; "Solange" e "Saudade", que considerávamos as mais pop do repertório dessa demo.

De fato, uma canção como, "Solange", tinha um apelo "romântico", não só na letra, ao evocar o amor homem / mulher, mas em sua estrutura harmônica, melódica e até na interferência que tal preceito causou na confecção do solo de guitarra, e no riff inicial. Como já deixei claro anteriormente na narrativa, essa canção gerou celeuma no âmbito interior da banda, assim que foi sugerida pelo Beto, quando de sua entrada como componente, ao final de 1985. Fora consenso geral entre os quatro componentes, que devíamos aparar as arestas pelos erros estratégicos cometidos anteriormente, notadamente a opção pelo peso "heavy" imprimido no EP de 1985, e cuja maior vítima fora o vocalista, Fran Alves, infelizmente. 

Mas daí a achar o ponto ideal nessa transformação, revelou-se uma missão difícil, pois esbarrara na visão particular de cada um, e na total falta de senso de mercado que tínhamos à época, por vários fatores. Um deles, reputo ser o fato concreto de que éramos uma aeronave em pleno voo, portanto, algumas (para não dizer muitas), impressões que tínhamos, foram pautadas pelo frescor dos acontecimentos e nesse parâmetro, foi até legítimo que errássemos em certas avaliações, pois tínhamos um público em franca expansão ! O que quero dizer com isso, é que talvez o mercado mainstream soprasse de forma inversa (e soprava mesmo, é óbvio), mas a nossa impressão pessoal dava conta de outra perspectiva, pois nossos shows lotavam; as pessoas gostavam cada vez mais de nossa música (apesar das mudanças drásticas de direcionamento artístico); e nosso portfólio só crescia, recheados com matérias de jornais e revistas a conter elogios ao trabalho.  

Portanto, achar o ponto certo da temperatura dessa tal mudança não foi uma conquista fácil em obter-se. Nosso parâmetro único foi a da medição da temperatura de cada reação às músicas novas em nossas apresentações. No entanto, tratou-se de uma avaliação pouco embasada ao considerar-se a nossa falta de conhecimentos mais sofisticados sobre produção musical & mercado. É fácil neste instante eu realizar uma análise desse nível, com 31 anos de isenção histórica e experiência acumulada (2016), mas é claro que nenhum de nós pensara nesses termos, naquela época. Talvez o Beto, para ser muito justo, reconheço, fosse o membro da banda que mais tivesse essa percepção próxima da realidade e portanto, foi o agente decisivo para que promovêssemos as mudanças.

No caso da canção "Solange", foi acintosa a sua perspectiva pop, e chegou a incomodar-nos justamente pelos fatores que expressei acima. E entre os três membros que estranhavam mais, o Zé Luiz foi o que mais incomodou-se, por considerar ser destoante das tradições da banda, ao comparar-se ao Jazz-Rock tipicamente setentista, que professávamos nos primórdios da carreira da banda. Se a canção em si, já trazia tanta controvérsia interna, quando a sua letra foi mostrada-nos, o choque que tivemos, intensificou-se. Claro que tratou-se de uma letra sob teor romântico, e poderia tranquilamente ter sido escrita pelo Fábio Júnior. O Zé Luiz arregalou os olhos e ficou atônito com a possibilidade de nós seguirmos os passos do Rádio Táxi, como ele tanto receava...
Mas se realmente pleiteávamos um lugar ao sol (com o perdão do trocadilho), no mainstream, foi na verdade uma música com potencial competitivo e tais executivos de gravadoras pouco importavam-se com questões estéticas pelo vés artístico. "Solange" tinha potencial radiofônico e poderia tranquilamente ser incluída como tema de uma novela da Rede Globo, em nossa visão.

Portanto, parabenizo o Beto, 31 anos depois (2016), pois entre nós quatro, foi o que melhor enxergou a necessidade de adequação radical da banda aos parâmetros do mainstream. Entretanto, mesmo assim, sendo bem detalhista, hoje posso afirmar que nem mesmo "Solange" teria sido a ideal para cumprir tal objetivo, pois realmente para adequar-se nesses termos, muitas arestas deveriam ter sido coibidas. É incrível constatar, mas nem mesmo uma faixa que considerávamos incrivelmente pop para os nossos padrões de avaliação, foi na verdade preparada para agradar os ouvidos dos homens das gravadoras. Hoje eu sei bem disso...


http://www.youtube.com/watch?v=BjrAEt6maPk

Ao falar sobre a canção, "O Cometa", não relacionei-a como uma das quais tivéssemos maior esperança, mas na verdade foi uma de minhas prediletas nessa nova safra por um motivo muito simples : fora nitidamente influenciada pelo Hard-Rock dos anos setenta, portanto, muito mais próxima da sonoridade que eu apreciava mais, como gosto pessoal. E sob uma análise fria, talvez não fosse a mais adequada para angariar a simpatia de quem analisava música como um "produto" de gôndola de supermercado, caso dos homens de gravadoras majors, contudo, na minha ótica, tinha potencial, certamente.

Sua estrutura harmônica e melódica foi bem adaptável ao padrão de pessoas não acostumadas às sonoridades do Rock de uma maneira geral. Por ser Hard-Rock, era até amena em sua agressividade inerente, portanto, tornara-se híbrida e passível em ser digerida até por não rockers, inclusive. Bem, isso foi uma expectativa apenas, e não uma máxima científica, é claro...
E houve um elemento a mais nessa equação : a letra da canção.
O Beto mostrou-nos sua primeira versão, e logo de início ficamos com a impressão que seria oportuno o tema, pois abordaria um assunto que em 1986, tomou conta da mídia. Tratou-se da passagem do cometa de Halley pela órbita da Terra, que cumpria a sua rota de 76 anos para aproximar-se do nosso planeta.

Particularmente, a história do cometa era antiga em minha consciência, pois desde a infância eu convivia com essa perspectiva, visto que meu avô materno, contou-me sobre como ele havia tinha tido a experiência em vê-lo, por ocasião de sua última passagem em 1910, quando fora um jovem com 18 anos de idade etc e tal. Quando eu era criança, achava esse relato do meu avô, fascinante e mal podia esperar para chegar 1986, e poder ver com meus olhos a presença do astro celeste, porém, quando aproximou-se de fato a data, meu interesse pelo fenômeno astronômico diminuíra substancialmente, todavia, claro que a perspectiva em termos uma música a abordar tal assunto, soou-me oportuna e dessa forma, contar com tal possibilidade, pode ser considerada um trunfo a mais dentro dessa demo-tape.

Na letra, o Beto levou a sua construção para algo com teor místico. Tem pessoas que interpretam-na quase como uma mensagem religiosa. De fato, possui algumas partes que eu não escreveria, pois também sinto um certo ranço nesse sentido. Mas ele veio até nós com a letra praticamente pronta e nós simplesmente acatamos a maneira como fora concebida originalmente, por ele, Beto, sem reservas, apesar de pequenas discordâncias em alguns pontos. Foi dessa forma, uma aposta no oportunismo que nortearia, 1986. 

Quando recorda-se desse ano de 1986, basicamente o que o cidadão comum que o viveu, lembra-se ? 
1) Copa do Mundo de 1986 (la mano de Dios...);
2) Araken o "showman";
3) O Plano Cruzado e os "fiscais do Sarney"
4) A aparição do Cometa de Halley...

Musicalmente a descrever, "O Cometa" lembrava bastante o som do "Whitesnake", principalmente em sua fase inicial ainda bem calcado no som setentista. De fato, a banda de David Coverdale atravessou a década de oitenta, com dignidade, mesmo sendo fiel a uma estética que fora violentamente desprezada, graças ao signo máximo oitentista, baseado no repúdio ao passado, via niilismo barato. Claro, com tal roupagem, a canção teve bastante influência do "Led Zeppelin"; "Bad Company", e "Free", bandas setentistas clássicas, em seu rol de predileções básicas. Foi uma das primeiras músicas da nova safra do repertório, assim que o Beto entrou na banda, ao final de 1985, e foi executada ao vivo logo no primeiro show do Beto como novo vocalista, na cidade de Santos, no ginásio do Santos F.C., conforme já relatei com detalhes, um capítulo atrás. Infelizmente, essa música cairia em um espécie de limbo, posteriormente, ao sair do set list dos shows, e nunca sendo gravada oficialmente em um disco, infelizmente, por sinal.

Portanto, só existe essa versão da demo de abril 1986, como registro de sua existência. Apesar de ser um áudio simples, sem muitos recursos, fico feliz que tenha conseguido sobreviver ao armazenamento inadequado de uma perecível fita K7 por tantos anos, e agora esteja salva em um CD, e disponibilizada no You Tube, com imagens na forma de um promo, feito em 2011. Aliás, agradeço o empenho do Site / Blog Orra Meu, na pessoa de Emmanuel Barreto, que muito ajudou-me nesse processo de resgate e promoção desse tesouro escondido da banda, após quase 30 anos de obscuridade.

http://www.youtube.com/watch?v=SBCS5cVK4x0

Ao falar de uma aposta muito incisiva que tínhamos para essa demo, em prol do padrão pop, a música "Saudade" foi uma esperança tão ou mais forte do que "Solange". Criada a partir de um riff que o Rubens apresentou-nos, tal música foi deliberadamente concebida para ser "pop" nas suas atribuições gerais. Primeiro pela simplicidade generalizada com a qual concordamos em empreender na sua concepção e arranjo. O Riff e a harmonia são simples, bastante diretos e com caráter "bubblegum", ou seja, com a clara intenção de ser "grudenta", com fácil assimilação pelo público e não somente para o público rocker, mas também ao procurarmos atingir um público mais amplo. A melodia foi o seu carro chefe, evidentemente, e nesses termos, o Beto trouxe a sua contribuição, ao criar uma linha linear, que qualquer criança poderia cantarolar e convenhamos, para o mundo da fonografia, tratou-se de um super indício de sucesso. No quesito, letra, o Beto tinha facilidade em escrever letras coloquiais, e sob o mote do romantismo.


Devo dizer que sua inspiração fora o Whitesnake de David Coverdale, mas convenhamos, uma letra escrita em português ganhava contornos bem diferentes e assim, ultrapassava-se a linha tênue que separava o romântico do brega açucarado e piegas. Foi um risco enorme que corremos, pois nesses termos, aproximávamo-nos do Whitesnake em nosso conceito sonoro, mas aos olhos dos leigos, pela mensagem explicitada na letra, poderia ser mais para o Fábio Júnior e similares...

Na parte instrumental, o maior esforço empreendido foi da parte do Zé Luiz, eu reconheço. Foi inacreditável ver sua atuação sob uma condução simples; sem suas viradas técnicas; sem inversões de ritmos; sem quebras no chimbau; enfim, ao ouvir a canção, parece gravada por um baterista comum, e não pelo Zé Luiz, que já era reconhecido naquela época, como um baterista muito técnico, e fortemente influenciado pelo Jazz-Rock internacional. De minha parte, a linha de baixo também foi simples ao extremo, e sendo assim, limitei-me a fazer uma condução contínua em notas colcheias, apenas a seguir a tônica dos (poucos) acordes presentes na harmonia da canção.

Para os padrões da Chave do Sol, onde o esmero para criar-se uma cozinha com sofisticação rítmica sempre foi uma das marcas registradas da nossa banda, foi chocante ter essa simplicidade "franciscana" na condução baixo / bateria. Tal música destoou tanto do trabalho todo, que chegamos a discutir internamente a possibilidade dela ficar destinada exclusivamente à avaliação dos executivos de gravadoras majors, como objeto da demo em questão e não executada ao vivo, até segunda ordem. Temíamos pela reação dos fãs, que poderiam até chocar-se, e julgar-nos mal pelo choque térmico... e se rejeitassem-na ? Será que julgar-nos-iam oportunistas por tamanha apelação, e de certa forma ficaríamos estigmatizados por tal investida ?

Porém, esse auto preconceito foi logo superado, pois ainda em 1986, a incluiríamos no set list dos shows. Além de não incomodar os fãs antigos do trabalho, pelo contrário, agradou muita gente, creio.Talvez a única conexão mais rocker nela, seja o solo do Rubens, mais agressivo aos ouvidos pouco acostumados às sonoridades do Rock. Mas mesmo com toda a preocupação em fazê-la soar o mais pop de FM possível, mantivemos a pegada rocker como uma pitada de dignidade e autoestima, acredito...

O "Autograph", uma das bandas daquela safra orientada pelo Hard-Rock oitentista, e pejorativamente chamadas como, "Hard-Farofa", tamanha a sua fragilidade musical, e sobretudo pela "pasteurização" em estúdio, no afã de soar como "pop de FM"

No estilo, a música lembrou o trabalho de bandas modernas do Hard-Rock dos anos oitenta, principalmente o "Autograph", mas também o "Alcatraz"; além do "Dokken"; "Y & T"; quiçá "Ratt", e similares da época. De minha parte, nenhuma delas fazia-me a cabeça, e meu coraçãozinho sessenta / setentista estava a hibernar, e assim esperar que o pesadelo oitentista acabasse... mas em comparação com a turma do Pós-Punk, tais artistas seriam os que mais aproximavam-se de sonoridades minimamente decentes, ainda que eu tivesse muitas restrições aos respectivos trabalhos dessa turma. No caso de nossa aposta nessa sonoridade pop das FM's, foi uma grande esperança, e assim a gravamos com tal ideia na cabeça.

Cabe acrescentar que estávamos nessa época absolutamente obcecados pela ideia de alcançar o mainstream, mas ao mesmo tempo, não tínhamos noção real do mercado. Faltou-nos alguém que pudesse realmente orientar-nos nesse sentido. Acredito que as pessoas que mais orientaram-nos corretamente foram o Charles Gavin e o Clemente, dos "Inocentes", que estavam dentro do furacão oitentista. Mas fora o básico do básico, por que nós não percebíamos, apesar de todas as dicas e o apoio que deram-nos (sobre a ajuda do Clemente, ainda não comentei, mas está quase na hora de mencionar isso nesta parte na cronologia), o que seria realmente o som que precisávamos fazer para chegar nesse patamar. De nada adiantaria buscarmos parâmetros pop dentro de elementos Hard, pior ainda Heavy, pois tais estilos jamais entrariam na crista da onda oitentista, do mainstream nacional.

Para ser ainda mais incisivo, eu diria até que o próprio BR-Rock 80's como um todo, estava a decair em 1986. A despeito de alguns artistas que nadavam nas águas mais seguras de sua própria consagração pessoal, foi nítido que o estilo dava sinais de arrefecimento. Mesmo a contar com o fato da explosão midiática do "RPM", já ao final de 1985, acredito que a moda do BR-Rock 80's, estava prestes a perecer. 

Portanto, quem surfou bonito nessa onda, aproveitou as suas chances entre 1982 e 1984, principalmente, e salvo consagrações extraordinárias, como o RPM, já citado, e o "Legião Urbana" (este calcado exclusivamente no talento de letrista, e o carisma de Renato Russo, pois a banda em si, beirava o ridículo de tão frágil que era, musicalmente), a verdade foi que a moda estava a acabar. Se começou a ficar ruim para quem comungava da cartilha do Pós-Punk, o que dizer dos outsiders como nós ?

Essa percepção é fácil de obter-se hoje em dia, mas na época, é claro que ninguém percebia tais sinais de decadência, com clareza absoluta. Nem quem estava adequado ao mercado, quiçá os desajustados, como nós. Bem, o que poderíamos fazer a não ser intensificar nossos esforços nesse sentido de desejar chegar ao mainstream ? E foi o que fizemos ...
Nos próximos capítulos, contarei muitos fatos até dramáticos sobre como esforçamo-nos para buscar um lugar ao sol. Se continuássemos a nossa toada sem tantas mudanças de formação, e principalmente sob um direcionamento musical espartano, talvez tivéssemos tido uma maior continuidade na carreira. Mas como poderíamos ter tido essa percepção ali no calor dos acontecimentos ? 

Aliado a uma série de fatores, onde a falta de um produtor / empresário mais experiente e antenado nos parâmetros da época, contava como maior fator, faltou-nos discernimento. Você vai ver, caro leitor, quando revelar outros fatos dessa época, e vai entender ainda mais, como fora difícil para nós na época, ter essa percepção clara.






Musicalmente a comentar, "Sun City" não seria a música mais adequada para sensibilizar os dirigentes de gravadoras, mas tinha um trunfo e tanto, no quesito da letra. Acho que o Beto foi feliz em abordar o tema da segregação racial na África do Sul, pois foi um assunto forte na mídia, naquele instante. Claro que corríamos riscos e de fato, corremos, ao usar essa letra por ele escrita, com expressões que necessariamente estigmatizaram-na como um verdadeiro panfleto, fora carimbar-lhe na testa a data, literalmente, no verso : "em pleno 1986, sangue inglês"...
A causa fora justa e humanitária, mas algumas colocações incomodavam-me e acho que ainda incomodam. A questão ao meu ver, não seria o fato de haver uma remota raiz britânica, tampouco um conflito de luta de classes como é insinuado na letra ("praia que só tem burguês"), mas a luta contra o segregacionismo, ainda que todos os fatores elencados, tivessem alguma conexão entre si, é claro.


O mote da letra foi uma inspiração direta àquela canção, também chamada, "Sun City", onde diversas estrelas da música pop oitentista cantaram em prol do fim da segregação racial na África do Sul. É bom relembrar ao leitor, que após o advento da canção, "We Are the World", houve um modismo no mundo fonográfico de metade de década de oitenta, sobre canções engajadas por diversas causas humanitárias, e com vários artistas a unir-se para tocar e cantar, a reverter a renda para tais causas etc. Essa tal, "Sun City", que inspirou o Beto, não logrou grande êxito, e a canção em si não era grande coisa (não mesmo), mas a ideia da causa, despertou-lhe a atenção. Sobre a nossa, "Sun City", a parte musical foi uma ideia do Rubens, e de certa forma repetia-se a fórmula de "Saudade", a evocar o Hard-Rock, em seu Riff. Ao contrário de "Saudade", onde exageramos propositalmente na simplicidade para soarmos o mais Pop possível, "Sun City" teve um pouco mais da sofisticação instrumental, marca que a nossa banda sempre imprimira em seu trabalho, costumeiramente. Claro, de forma mais comedida do que o trabalho que desenvolvíamos anteriormente, mas ao menos foi possível soltarmos o excesso de cautela e termos dessa forma, algumas nuances da "velha" Chave do Sol, nessa canção.

Acreditávamos na canção por três fatores básicos :
 

1) O riff criado pelo Rubens, era (é) muito bom;
 

2) O tema da letra tinha tudo para inflamar as pessoas, pelo seu ideal humanitário e nobre; 

3) O refrão era bem pegajoso e já projetávamos as pessoas a cantá-lo em plenos pulmões, nos shows ao vivo, junto com a banda.

Não tenho dúvida, ao falar em termos de percepção atual (2016), que foi a mais bem sucedida canção dessa demo, e tornou-se um dos grandes hits da banda, doravante, ao lado de "Luz"; "18 Horas", e "Um Minuto Além". Creio que "Sun City" foi um dois maiores trunfos da carreira da Chave do Sol, ao lado das três outras que citei. Ao mencionar especificamente essa gravação da demo de abril de 1986, acho que há uma falha estrutural nesta versão. Sabe quando um doce derrete na boca de tão gostoso que é ?

Pois é, para ficar ainda mais gostoso, a doceira resolve dobrar a quantidade de açúcar da receita, e quando a pessoa vai experimentá-lo, percebe que a nova versão do doce, piorou...
Empolgamo-nos tanto com o refrão "pegajoso" quando a música ficou arranjada, que o gravamos sob padrão dobrada, com oito módulos de repetição. Em nossa santa ingenuidade, e na ausência de um produtor que enxergasse o exagero nocivo, nessa versão o refrão ficou muito enjoativo. Parece mesmo um disco arranhado, de tantas vezes em que repete-se a mesma frase : "não pode haver Sun City"...
Corrigimos esse excesso, quando a regravamos na segunda demo que produzimos em 1986 (logo mais vou contar tudo sobre a segunda demo, de outubro desse mesmo ano), e em 1987, mantivemos a versão reduzida de repetições do refrão, quando da gravação da música de forma oficial, para o LP The Key.


http://www.youtube.com/watch?v=aRX9IYwMBp0

Chegou a hora de falar das duas canções que ficaram na demo, mas que não foram músicas em que depositáramos grande esperança.
Meu primeiro sinal de estranheza, ao analisar tal determinação, 30 anos depois (2016), é óbvio : se não foram "necessárias", para que as gravamos ?

Outro ponto que nossa ingenuidade de outrora não deixou-nos enxergar : se não foram canções "competitivas", o simples fato de estar inseridas em meio às demais, não foi contraditório, e aos olhos dos executivos das gravadoras, não poderia desabonar todo o trabalho ? É claro que poderia...
E um terceiro aspecto : se não representava um trunfo, para que gravá-las, a perder um tempo precioso (inclusive, melhor não teria sido gastar tal tempo / dinheiro, se este tivesse sido empreendido com um maior capricho na mixagem das quatro músicas mais "pop" desse repertório) ? Pois é, faltou-nos bastante a visão empresarial do negócio, e falhas assim comeram o nosso parco dinheiro...

Para início, falo sobre "O Que Será de Todas as Crianças" ?, música que realmente tinha uma concepção mais pesada, todavia, teve elementos interessantes inseridos em sua estrutura. O que eu acho nocivo nela, é a questão do andamento. Para um padrão pop, é lógico tratar-se de algo proibitivo. Pelo fato do Riff ter sido gravado sob um andamento tão acelerado, infelizmente imprimiu-lhe um certo ranço de Heavy-Metal, e naquele momento em que tentávamos livrar-nos de tal estigma indevidamente adquirido em 1985, foi um retrocesso, praticamente...

O Riff, no entanto, era / é muito bom, e toda a estrutura harmônica dele advinda tinha / teve um potencial pop, apesar do andamento acelerado. No refrão, que também mostra-se bastante pegajoso, eu criei uma linha de baixo inspirada em "Going for the One", do "Yes". Basta ouvir a canção com essa informação na cabeça, para o leitor perceber que não plagiei, pois recuso-me a fazer esse tipo de prática abominável, mas claramente busquei inspiração no Chris Squire, para criar aquele fraseado em andante. Creio que tal detalhe deu uma amenizada no estigma "Heavy" que a música poderia sugerir, ainda bem. A melodia também possui um bom apelo pop, e o Beto sempre foi habilidoso para criar melodias com tal potencial popular. E a letra foi também motivada pela política, assim como "Sun City", a aproveitar-se bem daquele momento de 1986.

Mais uma vez a correr um tremendo risco, o Beto foi fundo nessa abordagem sobre o "futuro" da humanidade, ameaçado por uma guerra nuclear etc e tal. Risco, porque tal tema teria tudo para escorregar no tobogã da pieguice. Ao falar sobre o futuro das crianças, é claro que o pior vem à cabeça. De Pelé a propagandas institucionais sobre bancos; ranço religioso a excesso de ingenuidade sociopolítica... enfim, evocar "criancinhas" é meio caminho andado para descambar feio, e tornar um tema até interessante, em algo tolo. A "guerra fria" estava nos seus últimos dias, mas naquele ano de 1986, deu seus últimos suspiros com a perspectiva de um aquecimento na animosidade entre Estados Unidos e União Soviética. O Beto impressionou-se com o noticiário em voga e soltou o verbo, ao citar os lideres, Gorbachev e Reagan, os homens que teoricamente mantinham seus dedinhos trêmulos sobre os perigosos botões vermelhos de acionamento das bombas.

Até aí, tudo bem, mas falar do futuro das criancinhas diante da iminência do fim aniquilador do planeta, foi extremamente perigoso. A nossa sorte, foi que a música fez sucesso e doravante, tornou-se uma das mais bem sucedidas nos shows da banda no período 1986 / 1987. Não teria chance de impressionar os executivos das gravadoras, acredito, mas foi uma música muito importante para a banda e de fato, tenho na lembrança e também registrado em gravações preservadas em fitas K7, a performance dela em diversos shows, com a manifestação do público a cantar o seu refrão junto à banda etc. Aliás, é bom registrar também, que nos shows, logo percebemos que o público embarcava fácil no ímpeto para cantar o refrão junto e dessa forma, tornou-se um arranjo ao vivo, parar e deixá-lo a cantar sozinho por alguns compassos, retomar o instrumental e encerrar na euforia generalizada da plateia. Só por termos uma música com tal potencial em gerar euforia e interação da plateia, no repertório, já valera a pena, portanto. 





"O Que Será de Todas as Crianças ?", na versão da demo-tape de abril de 1986  

http://www.youtube.com/watch?v=EEI8jKFgG6Y
Finalmente chego à ultima música gravada nessa demo tape de abril de 1986. Tratou-se de : "Forças do Bem". Essa sim, foi uma música que não deveria estar inserida nessa demo, e não há justificativa para defender sua inclusão, mesmo ao admitir-se a nossa má percepção gerencial na época. Nada justifica a sua presença ali, pois realmente não tinha um potencial pop, e pelo contrário, foi destoante, e dessa forma, perigosamente inserida nesse contexto.

Praticamente um Heavy-Metal, com andamento rápido, e uma letra a narrar a guerra entre o bem e o mal, parecia repetir os clichês exaustivamente usados por bandas desse gênero, portanto, em um momento em que queríamos sair "a francesa" de uma situação na qual jamais deveríamos ter insinuado aproximação, foi no mínimo, contraditória a inclusão de um tema dessa natureza, na demo, quiçá ter sido composta.

Como mérito musical, talvez possa citar que algumas convenções criadas ao estilo da velha Chave do Sol, em sua fase Jazz-Rock, que estão ali presentes. Mas creio que é um mero detalhe diante do equívoco todo, pelo cômputo geral. Para não dizer que erramos tanto em incluí-la, fica como consolo a ideia de que a deixamos por último na ordem na fita. Segundo soubemos, inclusive reforçada tal opinião pelo amigo, Charles Gavin, dificilmente um executivo de gravadora ouvia mais que três músicas de uma demo tape, portanto, seria quase nula a possibilidade dela ser ouvida. Mas convenhamos, para que correr tal risco ?

Essa canção foi tocada poucas vezes ao vivo, pois logo surgiriam outras com melhor qualidade, e sem o ranço desagradável do Heavy-Metal, do qual queríamos fugir. E a letra, principalmente, mostra-se bastante infeliz ao nivelar-nos com bandas praticantes de tais ideias, tão infantis. "Forças do bem contra o mal... forças do bem contra a escuridão"... tire sua conclusão, amigo leitor...


"Forças do Bem" em versão da demo tape de abril de 1986 :
http://www.youtube.com/watch?v=6TWqGVgQlfM

Depois de gravada a fita no referido estúdio, movimentamo-nos para preparar o material de divulgação. Não queríamos incluir o EP de 1985, no pacote de tal material, por motivos óbvios, e amplamente já comentados anteriormente. Mas a não inclusão do EP de 1985 no pacote, praticamente inviabilizava a presença do compacto de 1984, e explico o por que : por nossa própria culpa, tantas mudanças de formação e sonoridade em tão curto espaço de tempo, poderia denotar aos executivos de gravadoras, um aura de instabilidade emocional e dessa forma, a má impressão decorrente de tal comportamento, poderia prejudicar nossa imagem. Portanto, a ideia seria a de centrar o áudio sobre as músicas novas da demo, e as menções aos discos oficiais lançados, aconteceriam através das matérias e resenhas publicadas na imprensa, ao constar tais informações no portfólio em anexo, além do release e histórico, tão somente. Além dessas peças básicas, seriam incluídas algumas fotos da banda em caráter promocional, e estaria pronto assim, o material que seria entregue às gravadoras.

Tínhamos pressa, e segundo o Charles Gavin, ele só poderia ajudar-nos a interceder pessoalmente a nosso favor, dali a algumas semanas, graças à sua agenda de compromissos muito cheia, com os Titãs. Então, para burlar a prudência, decidimos fazer o pior tipo de abordagem possível, ou seja, nós mesmos tomarmos a dianteira. Essa é de fato, a pior maneira de tentar uma abordagem profissional, porque é bastante nociva a ideia do próprio artista tentar fazer um contato direto. O bom tom nesse tipo de negociação, é que alguém faça a aproximação sem a presença do artista em questão, ao menos nos primeiros contatos. O ideal é a presença de um empresário; manager ou agente. Sob uma segunda instância, um produtor, pelo menos, mas nunca o artista em pessoa, pois isso denota amadorismo.

Ao ignorar tal praxe do métier, combinamos em levar o nosso material ao Rio de Janeiro, assim que este estivesse pronto. Tínhamos a pressa, pois o tempo urgia e desde 1984, a obsessão em entrar numa gravadora major, assolava-nos psicologicamente, digamos assim. Tínhamos em mente, o objetivo em possuirmos, enfim, a infraestrutura que uma gravadora "major" oferecia aos artistas, e naquela época (e desde décadas passadas), realmente, estar no elenco de uma gravadora major era o sonho de consumo de qualquer artista. O nível de investimentos e mordomia que desfrutava-se em uma situação dessas seria muito grande, e indo além, determinante para catapultar carreiras.

Estar dentro de uma gravadora grande, representava possuir o respaldo de um plano de divulgação complexo. Seria a certeza de estar agendado nos mais populares programas de TV; ter execução radiofônica maciça; estar nos principais jornais e revistas; e daí, com tal poder avassalador de divulgação a popularizar o artista, aspirar ter uma agenda de shows, poderosa. Fora a óbvia possibilidade para ter uma distribuição competente de seu disco nas melhores lojas, e por todo o país. E nesse tempo, não ter uma distribuição competente era quase um estrangulamento para a carreira do artista. Daí o drama em ficar independente por muito tempo, e amargar ter que habitar a segunda, ou terceira divisão da música profissional...
Víamos amigos nossos que estavam no mainstream e as histórias que contavam sobre as suas mordomias, fascinavam-nos a imaginação. Ter aquela mesma estrutura que eles possuíam, ao nosso dispor, também, era a nossa meta.

Então, quando o material ficou pronto, o Zé Luiz prontificou-se a ir ao Rio, levá-lo diretamente nas mãos do produtor da gravadora Warner, Liminha. Como o Dinola tinha uma de suas irmãs a morar no bairro de Ipanema (Eliane Dinola), dispunha de infraestrutura para hospedar-se, fora o apoio logístico e emocional que teria, e de fato, a irmã dele torcia para nós com bastante entusiasmo, e ajudar-nos-ia decisivamente, outras vezes, além dessa ocasião. Com a mochila a conter dois materiais completos, lá foi o Zé Luiz para o Rio de Janeiro em abril de 1986, rumo a WEA, e também à BMG-Ariola, onde de última hora surgira uma pessoa que tinha um contato interessante em tal gravadora e disponibilizara-o. para nós.


Em uma época pré-internet e sem telefonia celular, combinamos fazer contato telefônico convencional para sabermos das novidades, e claro que estávamos ansiosos, todos. Em dois dias, o Zé Luiz conseguiu enfim deixar o material encaminhado, mas não foi nada fácil esse encaminhamento.

Claro, diante de nossa ingenuidade atroz, desrespeitamos a regra número um do manual de comportamento corporativo na indústria da música, ou seja, nunca o artista em pessoa deve fazer uma abordagem dessa natureza... dessa maneira, foi lógico que ao chegar à portaria da sede da gravadora WEA, no Jardim Botânico, zona sul do Rio, foi impossível ser recebido pessoalmente pelo produtor, Liminha. Tal possibilidade jamais poderia ter sido cogitada se tivéssemos uma noção mais realista de como funciona o mundo corporativo, e a indústria fonográfica em nada diferenciava-se de qualquer outro ramo corporativo, ainda que supostamente lidasse com arte & artistas (de onde supõe-se que haja uma tolerância maior, por lidar-se com egos inflados; gente temperamental & maluca, ou muito pelo contrário,  por conta de tais características tornar-se ainda mais exacerbadas e proibitivas, portanto...). Bem, esse imbróglio rendeu pequenas historietas dignas de filmes humorísticos, pois o Zé Luiz foi bastante tenaz em sua determinação para entregar o material nas mãos do Liminha, e não aceitou a negativa da recepcionista da WEA, com facilidade.

Dessa forma, além de tecer várias argumentações para a mocinha em questão, resolveu montar acampamento, no afã de tentar uma abordagem de rua, onde o filtro de proteção mediante agentes de segurança ou assessores, não poderia ser usado pela gravadora. Mas o cansaço o venceu, e apesar da tenacidade extraordinária em manter tal campana, com direito a sacrifício humano de resistência, ele acabou por deixar o material com terceiros, mas não laconicamente na portaria onde a possibilidade de ir direto para a lata do lixo, seria enorme. Culminou, na verdade, a descobrir um assessor direto do Liminha, e assim, o material foi entregue com a promessa de que realmente chegaria nas mãos do incensado produtor. Ao pensar friamente, hoje em dia, não teria sido muito melhor esperar um pouco, e nas mãos seguras do Charles Gavin, que era um amigo nosso com acesso direto e intimidade com o Liminha, ter sido efetuado o contato de uma forma melhor ?
É claro que sim...

E quanto à BMG-Ariola, o contato era indireto. Uma pessoa que quis ajudar-nos, e cujo nome omitirei, pois não acho relevante revelá-lo nesta narrativa, ficou com o material, e assumiu a missão em levá-lo à cúpula de tal organização. Diante disso, seria a hora para cruzar os dedos, e esperar uma resposta que desejávamos ser positiva, naturalmente.


Embora os nossos esforços estivessem direcionados à preparação dessa demo tape (e indo fundo nessa análise, digo que esse processo começara ainda com a presença do Fran Alves na banda, e as primeiras conversas internas que tivemos em torno da ideia da mudança de direcionamento artístico), "muita água passou por debaixo da ponte", como diz-se no jargão popular. Passou por mais uma mudança de formação, com a saída do Fran Alves e entrada do Beto Cruz; um intensivo esforço de preparação de um novo repertório sob um tempo muito curto; providências em relação ao material impresso; novas fotos promocionais da banda; e claro, os esforços para gravar-se a demo-tape, conforme relatei recentemente. Aproveitamos a escassez de shows que tivemos nos primeiros meses de 1986, mas esse fato não foi uma ação premeditada e planejada por nós. A falta de shows foi um fato alheio à nossa vontade, e claro que incomodou-nos.

Independente disso, contatos continuavam a ser feitos, e desde o final de fevereiro, por exemplo, tínhamos sido abordados por uma dupla de jovens empreendedores que pareciam ter ótimas intenções, e demonstravam ousadia em seus planos (chamavam-se William e Rene). Foi o seguinte : tais rapazes, que eram inclusive jovens e batiam com a idade que nós tínhamos à época (os tais "vinte e poucos anos"), eram radialistas, pois produziam um programa chamado, "Disque Rock", na emissora, "Imprensa FM", e estavam a abordar algumas bandas da cena pesada de São Paulo, para elaborar uma proposta ousada no campo da produção de shows e audiovisuais (leia-se, vídeoclips, a linguagem típica dos anos oitenta), e suas ideias para atingir seus objetivos, mostravam-se interessantes.

Falavam em shows, obviamente, mas indo além, e por isso chamou-nos a atenção, pareciam mais ousados que produtores normais que só pensavam nos shows em si, e seu aparato de produção inerente. A ideia dos rapazes seria manter paralelamente, um esforço de divulgação permanente, com as bandas escolhidas por eles a fazer parte do esquema, tendo uma assessoria de imprensa contundente e acoplada a uma produtora de vídeo, que produziria constantemente material audiovisual para alimentar as emissoras de TV.  É bom lembrar o leitor, que na década de oitenta, nada era mais importante para uma banda que dispor de um bom vídeoclip, sendo até considerado por muitos, como algo mais importante até que ter um bom disco em mãos. De certa forma, corroborava a máxima oitentista que seguia a cartilha do punk' 1977, ou seja, a música não era mais o elemento mais importante, porém, a tal da "atitude", contava mais. Fazer um vídeoclip bem produzido, seria meio caminho andado para uma banda despertar a atenção da mídia e para muitas bandas oitentistas, isso tornou-se tão obsessivo, que seus componentes pareciam ser mais atores do que músicos, pois deviam passar a maior parte de seu tempo em sets de filmagem e / ou salas de maquiagem do que a ensaiar, ou gravar álbuns...

Independente dessa crítica que faço, com os olhos de 2016 (embora na época, eu achasse também que houvesse muito exagero nesse campo), o fato é que ter no mínimo um vídeoclip em mãos, tornara-se vital para qualquer banda dos anos oitenta. Então, quando ouvimos essa proposta, claro que animamo-nos. A perspectiva em produzir um, quiçá vários clips, com custo zero, além da assessoria de imprensa / clipping, e uma produtora de shows, tudo acoplado em uma agência só, pareceu-nos algo sensacional, e também para todas as outras bandas que esses rapazes consideraram ideais para compor seu elenco inicial de contratados.

Não seria uma cooperativa. no entanto. Claro que havia uma amizade entre todas as bandas que os rapazes citaram estar interessados e normalmente ajudávamo-nos, espontaneamente. Mas ao contrário daquela experiência que não lograra êxito em 1985 (já relatada nesta narrativa), a ideia não foi essa, mas sim a de um escritório de "management" a ambicionar entrar no mercado, e contratar quatro bandas para o início de suas atividades. Após tantas experiências frustradas com empresários ou aspirantes a empresários, claro que aceitamos. Tínhamos a intenção em ter um empresário, desde sempre, e esse desejo fora tão forte quanto o que acalentáramos em relação a estar no elenco de uma gravadora major. Indo além, creio que um fator dependia do outro para dar certo. Seria quase impossível arrumar um empresário competente e bem relacionado no meio, não sendo parte de um elenco forte de uma gravadora major e de outro lado, para entrar em uma major, uma das principais credenciais exigidas pelos executivos, era a presença de um bom empresário para assistir o artista a ser contratado... 

Por duas vezes, tentei persuadir o ótimo empresário, Jerome Vonk, com o qual trabalhei durante minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, em 1983 / 1984. Admirava demais a atuação dele como empresário do Língua, e sonhava contar com sua condução empresarial a favor da Chave do Sol, mas por duas vezes ele recusou-nos. Foi óbvio que não enxergara em nós, um potencial comercial adequado aos seus anseios.

Outro que admirávamos, era, Antonio Celso Barbieri, mas este não demonstrava querer ser empresário exclusivo de nenhum artista, propriamente dito, contudo, seu raio de atuação fora o da produção independente. Seu negócio era produzir shows, mas sem ater-se à um artista em específico, ao preferir ser um free-lancer da produção musical, ou seja, sem vínculo de exclusividade com nenhum artista em específico. Outros que passaram pela nossa vida, oscilaram entre o patético; o desinteressado bocejante, e os malandrinhos de plantão. Histórias que relatei anteriormente (e que ainda relatarei, no decorrer da cronologia), algumas com detalhes, inclusive. Portanto, a abordagem desses dois rapazes pareceu interessante e como sempre, não tínhamos muito a perder ao fazer uma experiência inicial. E pelo visto, as outras bandas envolvidas também pensaram o mesmo, e claro que mantivemos contato com todas, e mutuamente opinamos ao analisarmos a proposta.

Então, mesmo preocupados e focados com a produção da demo-tape, e tendo a abordagem às gravadoras como pauta do dia, tal conversa com essa produtora rendeu alguns encontros, telefonemas etc. E a primeira ação concreta que propuseram, foi para lá de ousada para os padrões de quatro bandas fora do mainstream : um festival com grande porte, a ser realizado no salão de festas do Palmeiras.

Uma foto de 1979, durante uma edição do maior baile Black de São Paulo, quiçá do Brasil, por anos a fio, chamado "Chic Show", no salão de festas do Palmeiras, onde tocaríamos em maio de 1986

Bem, as outras bandas em questão foram : "Centúrias"; "Salário Mínimo", e "Abutre". E como todas aceitaram a proposta desses rapazes, animamo-nos quando vimos que os rapazes demonstravam dinamismo, e logo tomaram providências para esse show de grande porte acontecer, com a previsão que deram-nos, a dar conta de que aconteceria ao final de abril, ou início de maio de 1986. Os planos mostraram-se ambiciosos no tocante a tal produção, pois falavam numa divulgação maciça, amparada por patrocinadores. E a história dos vídeoclips pareceu que frutificaria mesmo, visto que eles agendaram reuniões para a elaboração de "brainstorm" com as bandas, para visar buscar ideias para roteiros etc. Claro que animamo-nos, ainda que sob ressalvas, pois já tínhamos passado por diversos dissabores com empresários e planos mirabolantes, anteriormente etc...


Por outro lado, não tínhamos tempo para sonhar com tais promessas, pois estávamos empenhados no processo da produção da demo-tape nesses meses e portanto, o lado bom dessa agenda cheia, foi que se toda essa movimentação não lograsse êxito por parte de tal produtora, nem teríamos tempo para desanimar...
As negociações com a Sociedade Esportiva Palmeiras avançaram, e logo tivemos a boa nova de que estava mesmo a confirmar tal salão de festas, desse clube, como local do show.

Tocar nesse espaço seria sensacional, pois o Palmeiras tinha longa tradição em realizar shows de Rock; MPB; e festivais, há décadas. Até a Soul Music tinha tradição ali, pois por muitos anos, o Palmeiras foi o local onde acontecera o mais famoso baile / show de Black Music na cidade, chamado como : "Chic Show". Tim Maia cansou de apresentar-se ali, além de outros grandes nomes do Soul brasuca. Shows internacionais também aconteceram ali, fora o famoso show do Raul Seixas em 1982, que gerou comoção geral, pois ele estava ausente, sob um longo hiato na carreira e por conta disso, superlotou o espaço, a deixar uma multidão na rua, desesperada para entrar.

Eu, particularmente, tinha uma lembrança lúdica com tal espaço, e nem fora somente por acompanhar futebol desde a infância e ser um torcedor do Palmeiras, a frequentar o estádio Palestra Itália em anexo, desde o início dos anos setenta. Mas, foi por ter feito ali, a minha primeira apresentação de maior porte na início da minha carreira, quando apresentara-me no Festival "Fico", em 1977, ao tocar com o "Boca do Céu", minha primeira banda. Esse relato está narrado com detalhes no capítulo do Boca do Céu, logicamente. Em suma, tocar no Palmeiras seria importante para A Chave do Sol, mas também teria esse signo importante em minha percepção, por eu voltar ali naquele salão de festas, nove anos depois, sob uma situação muito diferente, musical e artisticamente a falar.

Continua...

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