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quinta-feira, 14 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 7 - Lançando o Disco com Muito Nonsense ! - Por Luiz Domingues


Sei que é chato observar isso, mas não dá para não deixar de notar o erro crasso nessa nota publicada no Diário Popular... como assim, "Chaves" ?

Aproximavam-se os preparativos para os shows oficiais de lançamento do primeiro disco da Chave do Sol, mas antes disso, o próximo passo da banda foi um show numa casa noturna, numa rara data em que fiquei sem compromisso com o Língua de Trapo nesse primeiro semestre de 1984. Ocorreu no Albergue Bar, no dia 29 de junho de 1984. Localizado no bairro do Bixiga em São Paulo, aconteceu numa sexta-feira, e teve 50 pessoas na plateia. Nesse show, aproveitamos para realizar o teste final com aqueles dois candidatos a vocalista que havíamos testado anteriormente, e cuja passagem de uma avaliação preliminar, já citei anteriormente.

E mais uma vez, o nosso amigo e eterno postulante à vaga de vocalista, Wagner "Sabbath" apareceu, e cometeu uma tumulto nesse processo. Fizemos a nossa apresentação normalmente, e na parte final, com o bar quase vazio, fizemos o teste. Os dois rapazes cantaram bem, e eram muito parecidos tecnicamente. Contudo, nenhum dos dois convenceu-nos, e diante dessa falta de entusiasmo em relação a eles, resolvemos dispensar a ambos. E no caso do Wagner "Sabbath", ocorreu que ele agiu no sentido de que pressionou-nos para ser incluído nos testes. E não contente com isso, pressionou os candidatos, psicologicamente, importunando-os, acintosamente. 

Uma coisa era certa : ele tinha obstinação, e isso eu admirava nele. 
Bem, acabamos por não fechar com nenhum deles, mas em breve, uma nova oportunidade surgiria para a banda. Antes de chegar nesse ponto, preciso falar que no dia seguinte, fizemos um novo show, e esse rendeu história...
Era 30 de junho de 1984, um sábado, eu teria um show com o Língua de Trapo na cidade de Jundiaí, no interior de São Paulo (já falei sobre esse show no capítulo do Língua de Trapo). 

Mas eu havia dado sinal verde para fechar outro show da Chave do Sol, pois seria uma apresentação marcada para a meia noite. Falei com o Jerome, empresário do Língua de Trapo e ele garantiu-me que o show em Jundiaí não teria atraso, e dessa forma, por volta das 23:00 h, estaríamos novamente em São Paulo. Combinei com o Rubens Gióia, para ele dar-me uma carona, e assim, numa correria total, fiz o show com o Língua no interior, e fui voando para o show da Chave do Sol. Jundiaí, fica perto de São Paulo, cerca de 50 Km, portanto, deu tudo certo nesse sentido. A Kombi da produção deixou-nos por volta de 23:15 h. no bairro de Pinheiros, na zona oeste de São Paulo e logo que entrou na rua combinada para o desembarque, avistei o carro do Rubens, que aguardava-me. Até aí, foi tudo OK, conforme o previsto e o combinado. Contudo, quando chegamos ao local do show, um mal entendido foi gerado por uma coisa que eu falei de forma inocente, e criou-se assim, um clima ruim para o show. O local era o "Morro da Lua", onde fizéramos um dos mais inusitados shows da carreira da Chave, no ano anterior, 1983. Novamente contactados pelo rapaz que organizava festas com performances de motociclismo, desta vez porém ele foi menos invasivo, e não propôs maluquices como em 1983 (já relatei anteriormente), contentando-se em que tocássemos o nosso repertório normal, sem afetações.

O grande entrevero deu-se quando chegamos ao local, e encontramo-nos com o Zé Luiz. Ele estava muito nervoso, pois apesar de eu ter chegado só alguns minutos além do combinado, ele fora o responsável pela montagem do equipamento, e estava há muitas horas ali, cansado; faminto, e ansioso. Quando viu-me, disse-me para preparar o baixo, que começaríamos o show imediatamente. Eu, sem nenhuma intenção de causar-lhe nenhuma contrariedade, retruquei, dizendo-lhe que acabara de chegar, e que achava melhor aguardar alguns minutos.


Então, ele explodiu e tivemos uma ríspida discussão. Na mesma hora, percebi que ele estava irritado com a demora em esperar-me, e claro que esse estopim também tinha a insatisfação que ele e Rubens sentiam por eu estar tocando em outra banda simultaneamente, e prejudicando assim a nossa banda. Todavia, todos sabiam que eu precisava ganhar dinheiro, e A Chave do Sol ainda não reunia condições nesse sentido, portanto, a insatisfação era previsível, porém não justa comigo, pelas circunstâncias. 
Naquele dia em específico, todos sabiam da situação, e vendo pelo meu lado, não medi esforços para fazer os dois shows, esforçando-me para cumprir os dois compromissos da melhor maneira possível. Claro, fiquei chateado na hora, mas alguns minutos depois, entendi o ponto de vista dele, e fizemos o show, talvez não com o astral bom de sempre, mas de forma digna, e profissionalmente.

O público não foi bom, com apenas 100 pessoas na plateia, e sob o frio de rachar do início do inverno, ainda mais naquela época onde as estações climáticas eram bem definidas. Fora o local ser um morro descampado, com pista de motociclismo e sendo assim, mais frio ainda. Ocorreu no dia 30 de junho de 1984, um sábado...

E no mesmo dia 30 de junho de 1984, foi ao ar a quinta participação da Chave do Sol no programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura de São Paulo, conforme já relatei no capítulo anterior.


Antes de eu seguir falando sobre os preparativos do show de lançamento do nosso compacto, no Teatro Lira Paulistana, tenho uma história incrível para contar, e tem muitos detalhes. Com a projeção que alcançáramos através do programa "A Fábrica do Som", da TV Cultura, criamos um divisor de águas.

Da primeira aparição em diante, num crescendo, solidificamos a nossa posição como banda emergente e postulante ao mainstream, com todos os elementos inerentes a quem alcança esse status. E dessa forma, era natural que oportunidades acontecessem. Pois foi uma produtora jovem, que mostrando-se muito solícita, abordou-nos em meados de junho para dar-nos uma ótima nova : queria saber se aceitávamos fazer um show numa enorme danceteria recém inaugurada em São Paulo, com grande badalação.

Claro que aceitamos e com grande euforia, evidentemente, pois eram muitos fatores positivos em jogo :

1) A oportunidade de tocar num lugar badalado;

2) Com um público enorme, pois o local era gigantesco;

3) Com equipamento de som e luz de peso e qualidade;
4) Certeza de cobertura na mídia mainstream impressa;
5) O melhor de todos os benefícios : um cachet gordo... acima dos nossos padrões...

Enfim, eram muitos elementos sensacionais e que justificavam a nossa euforia. Aceitamos, é claro, e ela tomou a dianteira das negociações com a casa, fechando o show. Quando ela disse-nos o valor do cachet, quase capotamos... era muito maior do que havíamos imaginado pelo status da casa. Não saberia mensurar hoje em dia, após tantas mudanças monetárias no Brasil, mas digamos que estávamos acostumados a ganhar no máximo, quinhentos mil cruzeiros, quando o cachet era considerado excelente, e ela propôs-nos um valor de quatro milhões...
Ficamos eufóricos e já fazendo planos de divisão, investimentos na banda etc. Ela cobrou vinte por cento sobre o valor, o que era justo, naturalmente, e batia com a praxe do mundo empresarial. Outro fator bacana, foi que o show foi marcado para uma data onde eu já estaria desligado do Língua de Trapo, portanto, foi o primeiro show da Chave que marquei nesse período pós-Língua, onde não tive que melindrar-me com as duas bandas e com o empresário do Língua, Jerome Vonk.
A despeito de estarmos focados com os preparativos do show de lançamento do compacto, sabíamos que esse show da danceteria também merecia uma atenção especial, por tudo o que mencionei. Então, preparamos um repertório mesclado, porque sabíamos que lidaríamos com um público não acostumado às nossas elucubrações instrumentais, setentismos e que tais. 

Enfrentaríamos uma juventude burguesa, curtidora de BR-Rock oitentista, não por gostarem realmente, e serem aficionados de tal estética, mas simplesmente por ser a crista da onda, que era massacrada nas rádios e TV's daquele instante de 1984. Mas, claro, não apelaríamos tocando Culture Club, ou Duran Duran...
Nossa aposta foi em Rock cinquentista, via "Blue Suede Shoes", "Johnny B.Goode", além de Jimi Hendrix, onde o Rubens sempre poderia chamar a atenção com seus malabarismos.

De instrumental, só tocaríamos "18 horas" por ser música do disco que estávamos lançando, e mesmo assim, se eu pudesse voltar ao passado, a cortaria sumariamente do repertório. Realmente, tocar uma música instrumental enorme, com solos longos, convenções complexas inspiradas em Jazz-Rock, num embalo burguês daqueles, foi uma insanidade. Claro que tocamos "Luz", também, por ser a música mais palatável do compacto, e ter uma levada cinquentista.

Fora essa burilada no repertório, pensamos em caprichar no visual, e lembro-me que o Rubens chegou a alugar uma vestimenta. Era um casaco estilo medieval, que deixou-o muito parecido com um príncipe de histórias infantis dos irmãos Grimm, ou Hans Christian Andersen...
Mas não estou ironizando. Ficou bem bacana, e lembrou Rockers sessentistas da adorável "Swinging London"sessentista. O Brian Jones certamente amaria essa vestimenta.


No dia do show, ficamos felizes por ver que notas na imprensa grande, anunciavam o show. Era esperado, porque a casa estava na crista da onda, sendo a danceteria mais badalada da cidade, num momento onde haviam muitas, e todas abarrotando de gente.
Chamava-se "Radar Tantã", e ficava localizada num antigo galpão de fábrica, no bairro do Bom Retiro, centro de São Paulo.

Era uma fábrica imensa, e seguindo uma tendência europeia, manteve a arquitetura rústica de suas instalações, com as paredes de tijolos, estrutura antiga do teto e piso rústico. Como modernidade, apenas o palco que era pré-montado, e seguia o padrão de palcos montados para shows ao ar livre. Os camarins atrás do palco, deviam ser as antigas instalações de vestiários e sanitários para funcionários da velha fábrica. Eram igualmente instalações antigas, mas em condições de uso, portanto chegavam a ser charmosos pelo estilo retrô.

Era o segundo final de semana da casa em funcionamento, pois na semana anterior, havia sido inaugurada pelo Barão Vermelho, em sua plena forma, e com Cazuza no auge. Era uma tremenda responsabilidade, pois se por um  lado, A Chave do Sol era uma banda em ascensão, por outro, não éramos banda mainstream, com sucessos pop nas rádios etc etc.

A casa tinha alguns donos. Uma das sócias era a Dedé Veloso, ex-esposa de Caetano Veloso, e que esteve presente no dia, desde a passagem do som. Um fator extraordinário mudaria completamente o rumo desse show, não artisticamente, mas no seu aspecto financeiro...
Ocorreu que a moça que fechou a data, telefonou-nos na manhã do dia do show, e comunicou-nos que não poderia estar presente, pois estava fortemente gripada, e muito indisposta. Perguntou-nos se não importávamo-nos em nós mesmos acertarmos o cachet com o gerente da casa, e mediante instruções sobre como procederíamos sem sua presença, despediu-se e combinamos de acertar a parte dela, depositando o valor cabível de sua comissão, na segunda-feira. Sem problemas nesse sentido, fomos ao show, mas uma surpresa aguardar-nos-ia em relação ao cachet...

                      Foto Promocional de julho de 1984

Chegamos à danceteria para o soundcheck, no horário combinado.
Não lembro-me se 3 ou 4 da tarde. O equipamento era peso pesado, um P.A. para shows em estádios de futebol. O galpão era imenso, e segundo os produtores que receberam-nos, a expectativa era de 4 mil pessoas para aquela noite. O técnico de som era um sujeito conhecido no meio, apelidado como "Castor". Gente boa, deixou-nos à vontade e equalizou um ótimo monitor de palco, ao qual não estávamos acostumados, diga-se de passagem.

Em conversa informal, contou-nos que operara a Patrulha do Espaço em ocasiões passadas, quebrando o clima, e assim ganhando a nossa confiança. Depois da passagem, desistimos de voltar para a casa e ficamos no próprio local. A espera seria enorme e entediante, mas voltar mais tarde seria arriscado, com um tumulto generalizado na porta, e dificuldades para estacionar carros. A casa abriu no início da noite, e foi lotando numa velocidade incrível. A maioria era oriunda da juventude burguesa, mas via-se ali e aqui, figurinhas de tribos oitentistas. Entre tais tribos, predominavam os "New Wavers". Esses ao menos eram pacíficos, e sua postura social era a de vestir-se com aquela estética e seguir seu som, sem incomodar ninguém, a despeito de outras tribos oitentistas, extremamente agressivas.


Haviam muitas meninas entre eles, com aqueles cabelos pintados com cores cítricas, imitando as garotas do B52's, Cindy Lauper etc.
O que incomodou-nos foi o som mecânico muito alto saindo daquele P.A. pesado. Mesmo no camarim, era quase impossível conversar com aquela zoeira, e tocando todo o repertório pop oitentista possível e imaginário, portanto, a nossa paciência foi à lua e voltou por muitas vezes, tamanha a quantidade de ar que a fez-lhe inflar...

Um pouco antes do nosso show iniciar-se, duas pessoas da produção da casa convidaram-nos a participar da sessão livre de uso de aditivos, debaixo do palco, sob a estrutura metálica de sustentação. Só o Zé Luiz aceitou ir, e esse ato causar-nos-ia uma dificuldade durante o show...
Começou o nosso show, e a pressão do som era muito forte.
Víamos que o público reagia bem, aplaudindo e dançando, mas se fôssemos mais uma banda famosa do mainstream, estariam delirando, tenho certeza. Não desagradamos, fomos aplaudidos, mas não houve um entusiasmo muito exaltado, digamos assim.
Todavia, esperávamos até um clima meio hostil e no máximo, uma educada frieza, portanto, saímos contentes com os aplausos educados daquele público nada a ver conosco, ou vice-versa como queiram...
O problema do Zé Luiz ter aceito o convite gentil que mencionei, foi que os andamentos das músicas foram à Marte; Plutão e Vênus...

Músicas normalmente rápidas e que exigiam atenção na execução de convenções mais técnicas, ficaram dificílimas de serem executadas, fora a dificuldade do Rubens para cantar, nessa circunstância super acelerada. Claro, o público em sua maioria não percebeu esse desconforto e mesmo assim, driblamos a dificuldade e tocamos tudo, errando muito pouco, mesmo com esse beat absurdo.

E convenhamos, o Zé Luiz era (é) um demônio, e mesmo numa velocidade estonteante, fazia suas viradas mirabolantes, rindo, como se aquilo fosse fácil, e de certa forma, era mesmo...para ele !!
Claro, tirando "Luz", que por ser Rock'n Roll, passava fácil por plateias não acostumadas ao nosso som, e os covers de Rocks cinquentistas que executamos, nas outras músicas o ânimo do público baixou um pouco, o que era compreensível.

A Chave do Sol em julho de 1984, e essa sessão de fotos foi realizada na semana do show do Radar Tantã

Acabou o show, e no camarim recebemos pessoas. Para a nossa surpresa, haviam sim fãs da Chave do Sol no recinto, e fomos visitados por alguns. Nessa noite, lembro-me que um de nossos amigos que auxiliaram-nos como roadies, foi o Wagner "Sabbath", eterno postulante a vocalista da banda.


Wagner "Sabbath" em foto dos anos 1980, do acervo de Julio Revoredo

Como era um cara alto e muito forte, pedi que acompanhasse-me até à sala da diretoria da casa, onde o gerente faria o pagamento do cachet, como "segurança". Essa sala ficava no lado oposto e para acessá-la, não havia outro caminho a não ser passar pelo meio do público. Temendo voltar com maços de dinheiro nos bolsos, sozinho numa multidão de 4000 pessoas (aliás, o borderô oficial acusou 4500 !!), pedi ao Wagner "Sabbath" que fosse comigo, como "segurança" nessa missão temerosa. Atravessamos a multidão e fomos bem recebidos pelo gerente, apesar do clima tenso, com seguranças mal encarados, mas era compreensível com o volume de dinheiro que estavam contando do movimento da bilheteria.

O sujeito pediu então para eu contar o valor. Eu pedi ao Wagner que auxiliasse-me, e dividindo em dois montes iguais no "olhômetro", comecei a contar junto com ele. Comecei a estranhar, contudo, quando eu estava quase chegando à quantia de 2 milhões de cruzeiros, e ainda havia muito dinheiro a ser contado. Teoricamente, se havia dividido o bolo de dinheiro, deveria ter parado na casa de 2 milhões mais ou menos, com o Wagner tendo de chegar nesse mesmo valor, com seu monte.

Mas eu continuei contando e para a minha surpresa, cheguei à casa dos 4 milhões de cruzeiros, enquanto o Wagner ainda finalizava o seu maço. Quando ele terminou e disse-me que estava certo, 4 milhões de cruzeiros também, eu entendi finalmente a questão.
O gerente perguntou-me se estava correta a quantia de ...8 milhões de cruzeiros !!! Caramba !!! A moça havia dito-nos que havia vendido o nosso show por 4 milhões, quando na verdade eram 8 milhões !!

Seu azar foi ter ficado doente no dia e seu "contato" também ter faltado nesse esquema, pois o gerente não sabia de nada, e pagou-nos regiamente pelo cachet justo e combinado...

Então, disse-lhe que sim, estava correto, e  assinei o recibo. Despedimo-nos cordialmente e eu e Wagner voltamos ao camarim, com receio, mas naquela euforia de som alto e iluminação, e levando-se em conta que dos 4500 presentes, 99% estavam muito loucos, bêbados ou ansiosos para arrumarem parceiros sexuais, ninguém notou que estávamos com os bolsos das calças com volumes indisfarçáveis de notas de dinheiro. E tentei ser o mais discreto possível para transmitir a notícia ao Rubens e Zé Luiz, pois o camarim ainda tinha a presença de estranhos etc.

Na casa do Rubens, em clima de euforia, guardamos nosso equipamento e instrumentos, e fizemos chuva de dinheiro, como se tivéssemos ganhado na loteria. Foi hilário...

Encerrando, na segunda-feira, depositamos os 20% combinados da comissão da moça, sobre os 4 milhões que dissera-nos ser o cachet total, e nem um centavo a mais. Naturalmente ela foi buscar a parte gorda que omitira e levou um baita susto. Bem, nunca mais ela abordou-nos para propor nenhum outro show. Claro que ela tinha outros contatos, poderia vender outros etc etc. Contudo, persistir num tipo de relação dessas seria muito desagradável, certamente.

Existe no mundo artístico inúmeras histórias desagradáveis com empresários exploradores. Mas esse "chapéu" que pretendia dar-nos, extrapolava qualquer parâmetro. Para nós, portanto, que estávamos radiantes por receber um cachet muito acima dos nossos padrões, constatar que era na verdade o dobro disso, foi uma surpresa enorme e esse dinheiro, serviu para investirmos em produção e divulgação dos shows que faríamos no Teatro Lira Paulistana, doravante, além de render uma divisão pessoal gorda, para cada um. Eu por exemplo, investi em roupas, melhorando o meu guarda-roupa cênico, o que é nítido pelas fotos e vídeos dessa época em diante. Encerrando essa história, tudo isso ocorreu no dia 14 de julho de 1984, na danceteria "Radar Tantã", sob a visão de 4500 pessoas, que tocamos e voltamos para a casa de bolsos literalmente cheios. E para a tal moça, como era a data de aniversário da queda da Bastilha, só posso dizer que a guilhotina agiu com justiça a ceifar-lhe uma pequena fortuna, que achou que ganharia fácil em nossas costas...

Passado esse show da Danceteria Radar Tantã, o foco seria enfim o lançamento do compacto simples "Luz" / "18 Horas", com dois shows no Teatro Lira Paulistana. Como já analisei as duas faixas do nosso primeiro compacto, quando falei de suas sessões de gravação, vou acrescentar mais algumas observações apenas.


“Luz” (Luiz Domingues)
 
Eis o link para escutar no You Tube :

Bem, o andamento é equivocado, a meu ver. Um pouco para trás, teria ficado ideal. Apesar de gravar em linha e usar técnica de pizzicato a época, o Fender Jazz Bass dá uns alguns estalos vez por outra. Na minha linha, é óbvia a influência do Leo Lyons, do "Ten Years After". É um Rock’n Roll tradicional de sabor cinquentista, mas cheio de pequenas convenções, pois nada em nossa banda ficava “quadrado”. Já falei sobre a falta de uma base de guitarra com mais “drive”, que eu lastimo não haver. E além disso, o solo com o “Phase 90” era a marca registrada do Rubens, e consequentemente da banda. Gosto do vocal solo do Rubens e como já salientei, não deixava a dever para nenhum vocalista do BR Rock 80’s, portanto, nossa busca insana por um vocalista nem precisava ter acontecido. E o Zé Luiz... até num Rock aparentemente simples, quebrou tudo o tempo inteiro. Aquela cortada no chimbau na convenção final, em cada cabeça de tempo tercinado, é genial, mesmo.

“18 Horas” (Luiz Domingues / Rubens Gióia / José Luiz Dinola). 
 
Eis o link para ouvir no You Tube :

Bem, quase ninguém nota, mas tem vários acentos de guitarra percutidos durante partes do meu solo. Tais intervenções são bem discretas, é verdade, mas estão lá, como sombra estratégica. Tem bastante reverber nessa guitarra, mas não aquela coisa desagradável e tipicamente oitentista, como gosma, mas o reberber natural do amplificador do Rubens. Zé Luiz arrebenta e não só no seu solo, o que seria evidente, mas durante o solo do Rubens ele tem uma atuação impressionante. Como o solo tende a atrair toda o foco, experimente prestar atenção nesse detalhe numa próxima audição. No mais, o solo do Rubens é sensacional, mais puxado para o Acid Rock sessentista, sem dúvida. Também poderia haver uma base com um pouco de drive, mas por outro lado é até charmoso haver vários trechos sem base alguma, com o trio tocando exatamente como soava ao vivo nos shows.
O Compacto Simples Luz / 18 Horas, na íntegra. Eis o link para ouvir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=bKVD4osVZ0Q

Conforme já disse anteriormente, para esses shows, nós concebemos várias inserções dramatúrgicas visando impactar e diferenciar a estrutura de um show de Rock tradicional, onde só a performance musical é geralmente produzida, como num recital meramente musical, sem outros atrativos.

E a base literária dessa loucura que queríamos realizar, era respaldada logicamente pelo poeta Julio Revoredo. Logo no início do show, um texto hermético causaria um choque no público rocker, não acostumado à essa erudição avantgarde do poeta Julio Revoredo. Vou publicar esse texto na íntegra e explicar detalhadamente como ele foi declamado na performance do show, mas antes disso, preciso retroagir um pouco para comentar como deu-se a primeira colaboração do poeta Julio Revoredo como letrista da Chave do Sol.

O poema "Vestido Branco", foi feito sob encomenda. Nós tínhamos a música e a melodia definidas, quando pedimos ao poeta a sua colaboração, elaborando a letra. A música era uma balada Soul Music, bem no estilo "Motown" e particularmente eu gostava muito dela. O Julio entregou-nos a letra e adotamos o título por ele sugerido, "Vestido Branco".

Infelizmente, a música foi engavetada ainda no final de 1983, por destoar esteticamente da linha que adotaríamos posteriormente, por conta de nossas tentativas vãs em adequarmo-nos ao mercado da época. Esforço inútil, pois só dava-se bem quem comungasse na cartilha do pós-punk, e ponto final. Contudo, quando se está em meio à um furacão, não há margem para divagações e no desespero, agarramo-nos em qualquer coisa que passar perto. E foi o que fizemos, descartando uma canção de potencial pop muito bacana como teria sido "Vestido Branco".

Enfim, se lamento o engavetamento de uma música boa como "Vestido Branco", isso ainda piora se levarmos em conta o fato de que não existe um único registro, ainda que mal gravado, dessa canção. Só tenho fragmentos oriundos de fitas gravadas em ensaios.
Eis a letra de "Vestido Branco" e depois, mergulho no relato sobre os shows do Lira Paulistana.

 "Vestido Branco"

Há uma noite em algum luar
Um doce mistério a se desvendar
Cortinas brancas
Lábios, um sonho, um tom
Como tocar ?

Cabelos loiros
Um intenso olhar que tenta crer no ato de se dar
Que tenta crer no ato de se arriscar
Há uma noite em algum lugar
 

Vestida de sonhos e de paz
Para vestir a nua carência que insisto em tirar
Num vestido branco de linho a rodar."


Na folha de caderno onde ele entregou-nos o manuscrito, continha a data de 25 de julho de 1983, quando finalizou-a. Nós concluímos sua musicalização ainda antes de impressionarmo-nos com os boatos que mudariam a nossa direção artística, e dessa forma, ela seria descartada do repertório, assim como "Superstar"; "Reflexões Desconexas"; "Intenções"; "Utopia"; "A Dança das Sombras", e "Átila", ainda em 1983.



Passado o show do Radar Tantã, e eufóricos com o cachet gordo que recebemos, nossas baterias concentraram-se então nos shows de lançamento do Compacto, no Teatro Lira Paulistana. Entre tantas ideias malucas que tivemos em meio às sessões de "Brainstorm", fechamos em alguns conceitos de teatro nonsense.
A ideia era mesclar esse teatro do absurdo, à poesia hermética do poeta Julio Revoredo.

Nessa explosiva mistura, nossa música seria permeada por sensações de estranheza por parte do público tradicional de um show de Rock oitentista, e estávamos apostando nesse elemento como propiciador de um diferencial. O primeiro ponto, seria na entrada das pessoas no teatro.

Pensamos numa ação interativa do público, que faria conexão com o texto inicial do show que o Julio havia elaborado para nós. E dessa forma, criamos um sketch teatral inusitado, para complementar a ação interativa com o público.

A parte interativa começaria na catraca, onde o espectador entregar-lhe-ia o ingresso do show, e um de nossos atores convidados fazendo-se de "hostess", convidar-lhe-ia a abrir uma das mãos para entregar-lhe uma porção de açúcar !!
As reações mais inusitadas poderiam acontecer diante dessa estranha ação !! E tinha tudo a ver com o texto que dava início ao espetáculo...


A seguir, criamos a ideia do Edgard Pucinelli Filho entrar em cena de uma forma insólita : ele entraria enrolado dentro de um tapete, carregado por dois atores, e ao sair dele, declamaria o hermético poema inicial de Julio Revoredo.

Quando insistimos nessa ideia, o Edgard criou um empecilho. Ele aceitaria a performance, desde que o poema fosse de sua autoria, e não do Julio. Nada contra a poesia dele, mas queríamos a sofisticação literária do Julio, e causar assim, uma sensação inusitada no show.

Com muito custo, ele aceitou, mas quando realizamos ensaios da performance na casa do Rubens, ele titubeou, pois era incômodo, sem dúvida, deixar-se enrolar dentro de um tapete. Dou-lhe o benefício desse incômodo, pois realmente nos ensaios dava para notar que não era muito tranquilo passar por essa experiência.

Nosso argumento, era dizer-lhe que seria um sacrifício de poucos segundos e que causaria um efeito cênico incrível, o que era verdade. E nesse aspecto, ele ponderou, pois a despeito da poesia ser seu carro chefe, ele gostava de ser performático, e exercitava isso espontaneamente em todo show de Rock que ia, mesmo não fazendo parte da produção, mas apenas como parte do público.
Finalmente o convencemos a fazer a performance, e mediante ensaios realizados na casa do Rubens, com direito à sessões de gargalhadas inevitáveis, vimos que era um pouco chato para ele, mas funcionaria ao vivo. Entre os "atores" amadores que convocamos para as performances, estavam "Celso"Esponja" Bressan; Claudio "Capetóide" de Carvalho; Daniel "Papel"; Iran Bressan, e o irmão do Claudio, Sérgio "Borracha" de Carvalho.

Carlos Muniz Ventura, popular "Carlão", participou das performances, mas também atuou ajudando na produção e tirando fotos do show.

E o Julio Revoredo, que além do suporte literário, aceitou participar, fazendo uma performance incrível, que descreverei quando falar do show, propriamente dito.

Julio Revoredo em 1984, em fotos de seu acervo pessoal, acima e abaixo
Eis abaixo, a íntegra do poema hermético que o poeta Julio Revoredo preparou para ser apresentado como uma performática apresentação de início do show, com Edgard Puccinelli Filho na declamação :

"A Formiga"  Por Julio Revoredo (escrito em 18 de julho de 1984)

"Ao entrarem na daedalira claustra, vocês receberam o pó que lhes embranqueceu a mente. Aqui vejo de tudo : acromyrmex ; fórmica; atta; saúva; quenquem. Voces viverão as emoções junto à medea masculina in vultus, antropotaupírico, mizar.
Com eles, verão agni in sanus, labirintar, supeto naturae claustra xeno enguido, semita vitae fallentis jhwh êxodo 33-114
Dgjx, aiba, kev. Em forma de lai.
Haverão versus : imagos, imagos, imagos sobre crepera.
O canto de sepulta urbis, fogo de santelmo, occuro animis, o occursus, Sulphur sacrum, eremus...
E se levantará  a voz mórbida de semibus que será destruída por Teseu. Dialecticorum remis a meatin persubtilis creatio.
Teseu de Mithra, Teseu de fax phoebea, Teseu de nitella, traz no nome Helio, traz no nome Febo. 


Outras intervenções que criamos, eram igualmente performáticas. 

Uma delas, eu concebi recordando-me de um velho truque cênico que o Alice Cooper usava nos anos setenta, que era o da simulação de brigas nas coxias, despertando a dúvida no público, se tratava-se de alguma confusão gerada entre técnicos da produção; penetras ou alguém inusitado.

Então, essa foi minha singela homenagem à "tia" Alice, um dos artistas que mais influenciou-me na década de setenta. No nosso caso, consistia em quatro atores que envolver-se-iam numa briga, que começaria nos bastidores, e teria uma rápida incursão no palco.
Três deles perseguiriam um suposto foragido, que tentaria refugiar-se atrás da bateria do Zé Luiz, num esforço desesperado para safar-se... quem eram os perseguidores e o perseguido ?
Qual seria o motivo dessa perseguição ? Aquilo vinha da rua ?
Tinha algo a ver com o show ?

Essas dúvidas todas plantadas, eram exatamente o que gostaríamos de fomentar na cabeça do espectador, trazendo-lhe algo inusitado em meio a um show de Rock tradicional, pois aconteceria com a banda tocando normalmente, e ignorando a ação toda dos atores, o que reforçaria a estranheza do público. Pensando no sketch hoje em dia, admito que assumimos um risco. Os atores simulariam o tumulto, no corredor de acesso, e em meio a pessoas em pé, provavelmente se o Teatro tivesse a lotação que esperávamos (e teve). Num tumulto assim, com a banda tocando sob a pressão de som do P.A. e pessoas desavisadas do caráter teatral da ação premeditada, alguém poderia envolver-se, tentando defender o rapaz perseguido, ou se houvesse um policial na plateia, poderia intervir, e o que era para ser apenas um efeito dramatúrgico, poderia virar um tumulto verdadeiro. E por falar em tumulto, correríamos esse risco, com pessoas assustando-se e naquela estrutura frágil de segurança que o Lira tinha, uma pane com gente saindo em correria, poderia gerar uma tragédia...


Outro sketch muito interessante, era uma performance no meio do show. Sem explicações, um ator usando um figurino performático, apenas entraria e caminharia pelo público.

O inusitado disso, era o caráter quase fantasmagórico dessa aparição, onde ele entraria coberto por uma capa que cobrir-lhe-ia todo o corpo e sobre a cabeça, um abatjour enorme e aceso !! 

Claro, a viabilidade técnica desse aparato, ficou a cargo do Zé Luiz, nosso inventor-mor; técnico de eletrônica; eletricidade; hidráulico; marcenaria, e engenharia do faz-tudo...
Após testes na casa do Rubens, o aparato ficou aprovado e o insólito dessa performance, não era só o aparato em si, mas
o fato de que o poeta Julio Revoredo, aceitou fazer a performance !! O tempo todo ele salientou que não era ator, e sim poeta !!

Mas mesmo tendo essa insistência em deixar clara essa questão, foi muito eficiente, mesmo não sendo seu ofício, e nos shows, cumpriu com galhardia a sua performance, causando um efeito muito significativo, conforme desejávamos. Logo mais, falo sobre a divulgação, os shows em si, e a oportunidade que vislumbramos ao ver um jovem vocalista em ação, e numa circunstância não premeditada por nós. 

Esse personagem de costas numa janela, entraria de forma inusitada na vida da Chave do Sol, alguns dias depois dos dois shows de lançamento do compacto. E protagonizaria histórias incríveis. Já estou chegando lá... aguardem !!
E precisávamos divulgar os shows...
Lembro-me que conseguimos fazer duas ações diferentes nesse sentido, diferentes dos métodos tradicionais da época, que centravam suas forças sempre nos cartazetes e filipetas. Conseguimos emplacar notas nos jornais de grande circulação e encomendar cartazes Lambe-Lambe. Ao contrário do método precário com o qual tentamos fazer um agito desses em 1983, e cuja história pitoresca já contei aqui, desta feita tínhamos verba e fizemos a coisa certa, contratando gráfica & colagem etc e tal.

Todavia, não tínhamos condições de encomendar uma colagem de largo alcance, portanto, centramos nossas baterias em alguns pontos da zona oeste de São Paulo, estrategicamente mais próximos do Teatro Lira Paulistana. E uma ação que consideramos estratégica por um motivo específico : queríamos sinalizar o quarteirão onde localizava-se o Teatro Lira Paulistana e sendo assim, decidimos confeccionar uma faixa, para colocá-la no cruzamento da Av. Henrique Schaumann, com a Rua Teodoro Sampaio, ou seja, no quarteirão onde ficava o Lira, na Teodoro. E de quebra, queríamos ter a exposição de um cruzamento de gigantesco movimento, com milhares de carros e pedestres que ali passavam desde aquela época.

Mas o insólito dessa ação, foi que a verba acabou, e só conseguindo pagar pela confecção da faixa, ficando sem apoio para colocá-la num poste e sendo assim, esta incumbência ficou para nós mesmos.
Adivinhem quem foi o responsável por essa tarefa ? Claro, Zé Luiz Dinola, o faz-tudo da banda. O problema, era que não tínhamos uma escada adequada para aquela altura de um poste de iluminação tão alto. Foi num dia de semana, um pouco antes do dia da estreia que eu; Rubens e Zé Luiz protagonizamos uma cena de pastelão, digna de um episódio de "Os Três Patetas" ...

Primeiro, tivemos o constrangimento de arrumar uma escada emprestada, pedindo em vários lojas do entorno. Depois, a cena dantesca de segurarmos a enorme escada, com o Zé Luiz pendurado numa altura considerável, e sem nenhuma proteção. Fora a precariedade de não ter ferramentas adequadas etc. Como se não bastassem esses percalços, fomos insultados pelos zombeteiros que sempre aparecem nessas horas, mas o que mais chateava mesmo, era a perda total do "glamour artístico", ao sermos flagrados nessa situação. Não pelo ato em si, pois não há nada de errado em estar fazendo um trabalho dessa natureza, mas por expormos a nossa falta de estrutura, porque estávamos lançando o primeiro disco; tínhamos muitas apresentações na TV; matérias já publicadas, e muitos shows já realizados...

Por outro lado, eu lembrava-me de uma entrevista que havia lido do Herbert Viana, dos Paralamas do Sucesso, naquela época mais ou menos (acho que na Revista Roll, não tenho certeza), onde ele contava que a vida foi "dura" para os Paralamas, antes de estourarem no mainstream. Dizia que lembrava-se do tempo não muito distante, onde faziam shows na casa noturna "Rose Bom Bom", aqui em São Paulo (ficava na Rua Augusta), e que nessas épocas de vacas magras, tinham de tomar táxis na Rua Augusta, às 5:00 h da manhã, pois não tinham estrutura para ter transporte próprio..."Cáspite" !! Pensava eu... eles reclamavam do que ??
Tinham dinheiro para tomar táxi !!  Quantas centenas de vezes vi-me num ponto de ônibus sozinho, durante a madrugada, esperando um ônibus e com um baixo Fender na mão ??



E chegou o grande dia do primeiro show !! Era 30 de julho de 1984, e com um público pagante de 85 pessoas, fizemos o show de lançamento do nosso primeiro compacto simples, que repetir-se-ia no dia seguinte, 31 de julho de 1984.

O início do show, que na verdade começava em seu preâmbulo, causou um efeito sensacional !! Nunca esqueço-me de estar num ponto alto do camarim, que comunicava-se com a técnica (onde o técnico de iluminação trabalhava), e assistir tais reações sem que o público visse-me. O poeta Julio Revoredo; Rubens, e Zé Luiz, também foram ver, e todos gostamos muito de ver as reações das pessoas. E eram diferentes, umas das outras, naturalmente...

Como você reagiria, caro leitor, ao entrar num teatro para assistir um show de Rock, e ser convidado a abrir a palma da mão para receber um punhado de açúcar ? Bem, a maioria ingeriu-o, de diversas formas, comendo, lambendo etc.

Outros caíram na gargalhada; outros faziam expressão facial de estranheza e houve casos de recusas, o que também era esperado, pois muito gente não gosta de interagir em espetáculos. O açúcar tinha tudo a ver com o texto hermético do poeta Julio Revoredo, que evocava o aspecto desse alimento, fazendo analogia com as formigas, e também com A Chave do Sol, propriamente dita. Ouvimos também várias pessoas conversando sobre esse estranho procedimento e assim, o nosso intuito inicial estava cumprido, pois fomentamos algo diferente, surpreendendo inteiramente a plateia. E quem incumbiu-se de fazer tal entrega ao público, foi nosso amigo, Celso "Esponja" Bressan. Aliás, foi interessante pois mesmo não sendo um ator, foi convincente nessa performance. Mas outras surpresas viriam...

Eu aboli o meu antigo apelido por muitos motivos, mas a confusão que isso gerava nos caracteres de TV e grafia nas publicações, sem dúvida era um deles. Aqui nesta nota do "Estadão", o "agraciado" com a gafe não fui eu, no entanto. Imperdoável em se considerando ser um jornal top do mainstream, o que significa chamar o José Luiz de "Jorge" ??
O som lounge ambiente, era na verdade, o clima pré-show dando o momento de começar a performance... 
Era estratégico e cronometrado, combinado com o técnico do P.A.,  Canrobert, que tornar-se-ia nosso amigo doravante, e operaria a banda em alguns shows fora do Lira, também, no futuro.
Já faz anos, o Canrobert é técnico fixo dos "Titãs", e naquela época, trabalhava com "Os Inocentes", e diversas outras bandas da cena punk e do pós-punk. Mas, era um rapaz que apreciava sonoridades dos anos 1970 e em off, sem que seus amigos punks soubessem, gostava de Prog Rock, coisa proibida naquele tempo... Tanto que quando estava operando, ele enlouquecia com o som do Pink Floyd, que era o nosso lounge e "deixa" para começar o nosso show. 


E a contagem, era o tempo certinho de tocar um lado de uma fita K7, com sons escolhidos por nós, Prog e Jazz Rock setentistas, em sua maioria, e quando chegava no auge do grito do Roger Waters, na música "Careful With the Axe, Eugene", do Pink Floyd, as luzes apagavam-se e o show começava. 


Fotos do poeta Julio Revoredo, mostrando eu e Rubens na saída de emergência do Teatro Lira Paulista, em julho de 1984. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

Mas o público esperava que nós entrássemos e iniciássemos de forma tradicional, apenas pegando os instrumentos e passando a tocar, mas, o que viram, foi o Celso "Esponja" e o Claudio "Capetóide", nossos atores amadores e voluntários, entrarem no palco, carregando um tapete persa enrolado. E dessa forma, jogaram-no no chão e ao desenrolá-lo, saiu a exótica figura de Edgard Pucinelli Filho, declamando o intrincado poema de Julio Revoredo, "A Formiga". 

As reações foram novamente dispares e interessantíssimas, tal qual a reação inicial causada pelo punhado de açúcar distribuído individualmente. Pessoas caíram na gargalhada; outras ficaram atônitas; um ou outro grito de "Chave" (certamente querendo que entrássemos e fizéssemos um show de Rock tradicional e poupando-lhes assim de ter que ver um teatro nonsense...), gente mexendo com o Edgard etc etc...
Era o que queríamos em princípio, provocar reação nas pessoas. E nestes termos estávamos conseguindo. Mas nem tudo foi positivo...
 


Rubens clicado pelo poeta Julio Revoredo, na porta do Lira Paulistana, no dia do primeiro show de lançamento de nosso compacto, em 30 de julho de 1984. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

Pelo fato de serem amadores, os amigos Celso e Claudio, entraram em cena nervosos, com a adrenalina a mil, e não colocaram o tapete no chão com o cuidado com o qual ensaiaram na casa do Rubens.
E sendo assim, quando o tapete tocou o solo, o Edgard soltou um gritinho e ao sair do tapete, com a face toda amassada e assustado, causou risadas. Até perceberem tratar-se de uma performance, demorou um pouco.
 


Eu, Luiz Domingues, na porta do Lira Paulistana no dia do primeiro show de lançamento do compacto, em 30 de julho de 1984. Click; acervo e cortesia do poeta Julio Revoredo

E ele gaguejou também no início, só conseguindo o foco, alguns segundos depois. Mas no cômputo geral, foi uma excelente performance, pois ele era performático e carismático, sem dúvida.
A seguir, as luzes apagavam-se e nós entrávamos e começávamos a tocar.


 
O show seguia normal até a quarta ou quinta música, não recordo-me ao certo, até que a segunda intervenção cênica ocorresse. E era aquela que descrevi anteriormente, sobre a perseguição e captura de um estranho. Os "atores" posicionaram-se naquele espaço do teatro, entre a entrada da arquibancada e o hall de entrada do mesmo. No primeiro dia, foi tranquila a entrada, pois não haviam muitas pessoas em pé naquele instante, posicionadas ali.

A entrada em cena ocorreu durante o solo de bateria da música "18 Horas", reforçada então pelo fato de que eu e Rubens estávamos quietos e fora dos focos de luz, com toda a ênfase do show no Zé Luiz. O perseguido entrou e escondeu-se atrás do surdo, com o Zé Luiz solando, e esforçando-se para não esboçar reações.

Os três perseguidores vieram a seguir, e fizeram uma simulação tensa, que causou um frisson na plateia. Lembro-me de ver várias pessoas cutucando-se para chamar a atenção uma das outras e até alguns levantando-se da arquibancada do Lira Paulistana, talvez num espasmo de alerta, sem entender o que aquilo significava.
Como já disse antes, uma performance dessas poderia suscitar diversas interpretações na cabeça das pessoas. Do ponto de vista do espectador, seria totalmente plausível acreditar que aquilo poderia ser uma briga e perseguição iniciada na rua Teodoro Sampaio, e completamente alheia ao show. Nesse caso, essas pessoas estariam ali meramente por acaso, como em cenas de perseguição de filmes de ação, onde brigas acontecem em lugares inusitados em meio a pessoas que não tem nada a ver com isso.

Não ocorreu nada errado, mas poderia ter acontecido, hoje eu enxergo essa possibilidade. Alguém poderia tentar intervir, por exemplo. E se houvesse um policial na plateia ? O instinto de um profissional desses seria o de agir, por exemplo. Fora a possibilidade de uma instauração de pânico no ambiente. Bastaria um assustar-se e sair correndo, para deflagrar uma ação desse porte e nas condições precárias de escoamento do Lira, poderia tornar-se uma tragédia. Hoje em dia, eu não faria uma sketch assim, num show meu. Mas nada ocorreu de errado nos dois dias, e cenicamente falando, causou um efeito muito interessante no público.

A terceira participação era a mais produzida, apesar do material usado ser bem simples, improvisado mesmo. Consistia da entrada do "Homem Abatjour", com uma performance meio fantasmagórica, andando pelo palco e interagindo com a plateia, ainda que sem exageros. Mais uma vez, a ideia era dar um efeito nonsense, causar estranheza e sutilmente fazer uma analogia com o "Sol" da Chave do Sol. Durante a execução da música "No Reino do Absurdo", o poeta Julio Revoredo entrou em cena com aquele paramento todo que eu descrevi anteriormente, mas não custa repetir : uma capa preta que cobria-lhe até os pés; um abatjour na cabeça, enorme, e por baixo, roupas e sapatos pretos para reforçar o aspecto obscuro.

O Zé Luiz (quem mais ?), preparou toda a engenhoca para acomodar-se à cabeça do Julio, com a respectiva armação para a lâmpada, e bateria para alimentá-la. A performance nos dois dias foi muito boa, e causou efeito. Foi difícil para o Julio, pois estava quase impossível para ele enxergar alguma coisa, fora o calor que o manto e a luz acesa na sua cabeça, proporcionavam.

No primeiro show, da segunda-feira, ele assustou uma criança na plateia, que saiu correndo, arrancando risos de todos. Era o Victor Dinola, sobrinho do Zé Luiz, então com sete anos de idade, e filho da irmã dele, Elizabeth Dinola, a autora do desenho da capa do compacto. Pelo fato de andar às escuras praticamente, o Julio acabou usando isso como performance, caminhando como o Frankenstein clássico do Boris Karloff, o que foi legal para a performance.


 
No cômputo geral, os dois shows foram muito bons, em todos os sentidos. Na parte musical, tudo fluiu bem. Estávamos muito bem ensaiados e também muito motivados, por ser o lançamento de nosso primeiro disco. A ideia de fazermos um show performático, com intervenções teatralizadas e sob a aura do nonsense, deu certo, pois surpreendemos o público.

Muita gente elogiou, pois ninguém de fato, esperava um show com tais elementos, sequer imaginando que não seria um show de Rock tradicional, com a banda tocando pura e simplesmente. No máximo um cenário ou algum efeito pirotécnico, mas jamais esperariam tantas coisas "esquisitas"...
Lembro-me de algumas pessoas elogiarem essa iniciativa, tais como : Luiz Carlos Calanca, da Baratos Afins, dono da loja e da gravadora pela qual estávamos lançando o disco; Valdir Montanari, jornalista das Revista Rock Stars e Rock Show, além do programa de Rádio, Sinergia; Antonio Carlos Monteiro, jornalista da Revista Roll, entre outros.


 
Nossos colaboradores também gostaram muito. Todos que participaram, divertiram-se na produção. Do poeta Julio Revoredo à Edgard Pucinelli Filho; passando por Celso "Esponja" Bressan; Daniel "Papel" Negrão; Claudio "Capetóide" de Carvalho; Iran Bressan; Carlos Muniz Ventura; Seiji Ogawa; Hélio, e Sergio "Borracha" de Carvalho.

Também firmamos amizade com o técnico Canrobert, que operar-nos-ia futuramente tanto no Lira em outras ocasiões, como em shows em outros locais, inclusive fora de São Paulo. O staff do Lira Paulistana também gostou muito, e as portas abriram-se para mais apresentações futuras.

Tudo aconteceu nos dias 30 e 31 de julho de 1984. O público no dia 30, foi de 85 pessoas, e no dia 31, 120 pessoas (muito bom em se considerando que os shows ocorreram na segunda e terça-feira, "dias mortos" para produzir espetáculos musicais, ainda mais show de Rock autoral). Cida Ayres, que era produtora do Língua de Trapo, deu uma mão e tanto na produção, auxiliando na divulgação, inclusive. 

Eis acima o Compacto na íntegra, para ser escutado.

Link do You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=bKVD4osVZ0Q

Para promover esse show,  havíamos tido algumas ações de mídia anteriormente, que deram-nos suporte. A primeira, foi ter participado do programa "Balancê", da Rádio Excelsior de São Paulo. Esse contato, eu havia conseguido graças ao Língua de Trapo, por ter participado do programa com eles.

Era um programa anárquico, realizado ao vivo de um pequeno teatro de bolso (Teatro Pimpão), localizado na Rua Apa, em Santa Cecília, centro de São Paulo. Na sua condução, revezavam-se Fausto Silva e Osmar Santos, e intercalando-se às atrações musicais e de outros ramos artísticos (geralmente atores promovendo peças teatrais e escritores promovendo lançamento de livros), haviam as intervenções esportivas, com o boletim dos clubes de SP, comentários e "sonoras" de entrevistas.

Nessa primeira aparição da Chave, o poeta Julio Revoredo esteve presente acompanhando-nos, e tirou algumas fotos, inclusive. Era o dia 9 de julho de 1984, e fazia muito frio no feriado estadual em SP.
Fizemos nossa performance, dublando, o que era exótico em se tratando de um programa de rádio, mas tinha um sentido : havia um público, por tratar-se de teatro, portanto, cerca de 50 pessoas apareciam ali todos os dias e geralmente eram os operários do Metrô, pois estavam concluindo as obras da linha 3, leste / oeste, com a estação Marechal Deodoro sendo concluída, ali ao lado.

O Fausto Silva ainda não era famoso como hoje em dia, mas foi o Balancê que motivou sua ida à TV, primeiramente para fazer o "Perdidos na Noite", que acabaria mudando de estação três vezes antes de chegar à TV Globo e diluir-se no popularesco "Domingão do Faustão", que está no ar, desde o final dos anos 1980. Nesse dia, após o término do programa, o Faustão convidou-nos para um café na padaria da esquina da Rua Apa, com a Rua das Palmeiras, quando disse-nos para levarmos material para a sua produtora, Lucimara Parisi, visando levar-nos para participar do "Perdidos na Noite", na TV (nessa visita à padaria, Faustão confundiu o poeta Julio Revoredo como componente da banda, mas na prática, como colaborador, pode-se dizer que era mesmo...). Eu já havia participado desse programa uma vez com o Língua de Trapo, e de fato, era o "Balancê", só que na TV, com o mesmo formato. E o outro agito que fizemos, foi na Rádio Jovem Pan AM, no dia 16 de julho, num programa chamado : "São Paulo Agora", de cunho jornalístico. Estar numa emissora de grande audiência como essa, era um feito notável para uma banda independente e ficamos contentes em poder falar do lançamento do disco, promover o show do Lira Paulistana e ter a música "Luz", executada para uma audiência de milhões de pessoas em rede por todo o Brasil. Esse programa foi conseguido graças a um contato do Luiz Calanca, da Baratos Afins. As portas do "Balancê" abriram-se para nós, e no dia 26 de julho, voltamos e reforçamos a divulgação do show do Lira Paulistana e desta feita, levamos ingressos cortesia para serem distribuídos aos ouvintes.



Fotos do dia em que fomos às instalações da RTC (Rádio e Televisão Cultura, acompanhados do poeta Julio Revoredo. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

E no dia 27 de julho, eu e Rubens fomos aos estúdios da Rádio Cultura AM, e divulgamos disco e show, no programa "Panorama", outro contato que eu tinha feito graças ao Língua de Trapo.
Mais uma oportunidade que eu havia obtido de meus tempos no Língua de Trapo, foi no programa de TV,  "Realce Baby". Exibido pela TV Gazeta de São Paulo.

Gravamos a nossa participação pela primeira vez, e foi ao ar, no dia 20 de julho de 1984. Nesse dia, havia um grupo de dançarinos de "Break", uma dança de rua que era febre no início dos anos 1980, e o apresentador, o argentino Mister Sam, não fez-se de rogado e deixou-os no cenário, dançando atrás de nós, como figurantes.

Foi hilário ter esse pessoal ali, pois obviamente que o nosso som não fazia sentido algum para eles. No vídeo, dá para sentir o clima de constrangimento por parte dessa gente.


A entrevista que o Mister Sam realizou conosco, foi hilária e em todas as vezes que participaríamos do programa doravante, sempre seria nesses termos, com total improviso e nonsense.
 

A Chave do Sol pela primeira vez no Realce da TV Gazeta, 20 de julho de 1984

Eis o Link para assistir no You Tube : 
https://www.youtube.com/watch?v=o0ZR6XZwB6A


Passados os dois shows de lançamento, tínhamos perspectivas para outros shows em vista, além das resenhas que começavam a aparecer pela imprensa escrita, e das perspectivas para participar de programas de Rádio e TV. Mas todo esse agito não demovia-nos da ideia de procurarmos um vocalista. A ideia era continuar procurando esse frontman. Nessa altura, estávamos a cada dia conhecendo mais gente do meio musical e aproximando-nos do mainstream, pelas beiradas, conhecendo gente que tinha contato com a primeira divisão da música.

Portanto, ficávamos a par da rede de boatos que intensificavam-se com a proximidade do Festival "Rock in Rio", que já alardeava uma mega produção com diversos artistas internacionais, e certamente, todo mundo que estava na luta por um lugar ao sol, pleiteava um lugar entre os artistas nacionais. Claro, a perspectiva concreta seria para o pessoal consolidado do BR-Rock, que estava na mídia fortemente desde meados de 1982. Mas todo mundo tinha esperanças... incluso nós...

E fora o mega evento que aproximava-se, a rede de boatarias falava em investimentos nas gravadoras, buscando novas bandas etc etc.
Claro, nosso som, visual e estética eram antagônicos ao estilo predominante dessa gente, ou seja, o pós-punk e seus derivados.
A turma do Pop, embarcava na New Wave, mas este insípido estilo era uma mera variante do pós-punk, também.

Restava-nos então apostar na vertente oposta, mas igualmente tipicamente oitentista igualmente, que era a do Heavy-Metal / Hard-Rock. A Chave do Sol nunca, em momento algum teve essa vocação. Contudo, naquele funil opressoramente fascista em que os anos 1980 impunha-se na música, não restavam alternativas.

Portanto, estávamos imbuídos da necessidade de impor mais peso no nosso som, sem contudo descaracterizar nossas raízes setentistas, principalmente no tocante ao Jazz-Rock. E uma segunda necessidade premente, era achar um vocalista com potência vocal compatível, e presença de palco de frontman. Seria pedir demais que tivesse como característica também o aspecto do carisma ? 

Mas é claro que isso seria fundamental, igualmente...
Então, nossa busca prosseguia, mas depois das tentativas de testar pessoas mediante anúncios, que haviam feito-nos perder tempo com sessões dedicadas a pessoas sem nenhuma condição concreta, estávamos apenas dando toques para amigos, que pudessem indicar-nos alguém. Nesse quesito, o poeta Julio Revoredo, nosso colaborador e letrista, chegou a fazer pesquisa de campo em nosso favor.




Fotos clicadas pelo poeta Julio Revoredo, durante a apresentação da banda Ano Luz, no evento "Praça do Rock", em 1984, onde ele ficara impressionado com a performance do vocalista Fran Dias, fazendo-o indicá-lo à nossa banda. Cervo e cortesia de Julio Revoredo

Recentemente (referindo-me ao final de 2012), ele concedeu entrevista ao Blog da Chave do Sol (conduzido pelo abnegado fã, Will Dissidente), onde contou essa história, revelando que fora a vários shows de bandas emergentes, para observar vocalistas para A Chave do Sol. Desse esforço, no final de 1984, ele descobriria e  dar-nos-ia a dica de um cantor sensacional, chamado Fran Alves, que ingressou na banda no finzinho de 1984, e estrearia em janeiro de 1985. Mas antes disso, ocorreu uma oportunidade fortuita...
E não foi pelas observações do poeta Julio Revoredo, mas sim por um meio inesperado que conhecemos um vocalista de grande potencial...

No próximo capítulo, esse misterioso personagem da foto, obscurecido pela luz solar, será revelado. Foto : acervo e cortesia de Julio Revoredo
 
E esse vocalista surgido antes do Fran Alves, apareceu de forma inesperada para A Chave do Sol...

Continua...

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