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domingo, 17 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 9 - Um Minuto Além, com Fran Alves - Por Luiz Domingues

Os primeiros dias de 1985 traziam muitos ventos de esperança.
Estávamos a menos de vinte dias do início do Festival Rock in Rio, e a euforia decorrente de tal evento, era enorme. Boatos esparramavam-se pelo ar, tal como a ação de uma polinização. Tínhamos muito pressa em preparar o vocalista novo, Fran Dias Alves, mais popularmente conhecido como "Fran", simplesmente.

Resenha do show que fizéramos em outubro de 1984, no festival Lubrax Br Rock , no Circo Voador do Rio, e ainda destacando com atraso, a presença do ex-vocalista, Chico Dias. Lutávamos contra o relógio e os desencontros de estratégia, pois estávamos a todo vapor preparando Fran Alves como novo vocalista, mas matérias com fotos do Chico Dias, ainda saiam na mídia.

A animação dele era enorme, também, e num intensivo de ensaios, começamos a prepararmo-nos para colocá-lo em condições de estrear no final do mês de janeiro de 1985, quando tínhamos três compromissos marcados. No primeiro deles, iríamos participar de um show compartilhado com outros artistas, na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Essa praça fica em frente onde funcionava o Teatro Lira Paulistana, e esse evento era de fato uma produção do Lira, em parceria com a Secretaria de Cultura do Município, visando fazer parte das comemorações do aniversário da cidade de São Paulo, em 25 de janeiro. No segundo, voltaríamos ao salão de Rock, Fofinho Rock Club. Já o terceiro show desse mês, era parte de um Festival organizado pelo produtor Antonio Celso Barbieri, que conhecêramos em agosto de 1984, quando tocamos pela primeira vez, no evento "Praça do Rock".

Tal festival ("São Paulo Também tem Rock"),  seria uma espécie de resposta bem humorada ao "Rock in Rio", com uma série de shows de bandas independentes da cena paulista, sumariamente ignoradas pela organização do mega festival carioca. O importante naquele instante, era colocar o Fran em condições de atuar, e não tínhamos muito tempo para fazê-lo decorar um repertório grande. Mas saliento que nos primeiros dias desse ano novo, a nossa vontade de acertar a banda, era enorme. Não queríamos desperdiçar as oportunidades que estavam aparecendo, não só pela euforia em torno do BR-Rock 80's que insinuava-se crescer ainda mais, pelo evento do festival Rock in Rio, mas sobretudo pelas oportunidades que a própria Chave do Sol estava tendo, devido aos seus progressos pessoais acentuados, nos últimos meses. Assim começou 1985, com a adrenalina da banda a mil por hora, por conta dessa euforia dupla...


Fran Alves, nessa foto em cena com sua ex-banda, o Ano Luz

O Fran era um artista muito centrado nos seus objetivos. Estava empolgado em ter entrado na Chave do Sol, e era o elemento certo na hora certa, em se considerando que estávamos apostando num direcionamento para o Rock pesado. Contudo, nossas características naturais, nunca foram nesse sentido, e mesmo imprimindo mais peso no novo material que estava sendo composto, nós jamais soaríamos como uma banda de Heavy-Metal, nem que quiséssemos, pois não era a "nossa praia".

Dessa forma, as músicas novas que estavam sendo preparadas, tinham o peso, mas nos riffs e arranjos, toda a nossa influência convergia para elementos do Jazz-Rock; Hard-Rock, e Prog-Rock setentistas, na sua maior parte. Não mensurávamos, mas estávamos criando um problema para a nossa carreira, que no decorrer da narrativa, analisarei com bastante atenção, naturalmente. Mas nesse momento inicial com o Fran, é claro que jamais poderíamos projetar algo diametralmente oposto aos nossos anseios. Pelo contrário, estávamos animados com a perspectiva de mudar o repertório, e com a inclusão do Fran, e seu potencial vocal adequado para tal demanda, julgávamos estar no caminho certo.

Fran em ação com sua ex-banda, "Ano Luz", na Praça do Rock em agosto de 1984, em foto clicada pelo poeta Julio Revoredo, em pessoa.

Como pessoa, o Fran era ser humano sensacional. Sua humildade cativou-me instantaneamente. Era muito correto, centrado e absolutamente convicto do que ambicionava na sua vida, portanto, era o quarto remador importante, que agregáramos ao nosso barquinho, em meio ao mar revolto. Ensaiamos com bastante foco nas três primeiras semanas de janeiro, e com o rápido entrosamento, o Fran dava sinais de que estava apto, sem problemas. O primeiro compromisso com essa nova formação, seria na Praça Benedito Calixto, num evento em comemoração ao aniversário de São Paulo.

Usamos esse show de choque, como uma avant-premiére da estreia do Fran, na banda. O show ocorreu no dia 25 de janeiro de 1985, na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo. Era uma sexta-feira, mas feriado, logicamente, na cidade. Cerca de 2 mil pessoas estavam presentes na Praça, mas os organizadores estavam desapontados, por considerarem um público fraco. De fato, num dia ensolarado, de muito calor, feriado em plena sexta-feira, e com diversos artistas apresentando-se gratuitamente...poderia ter tido mais gente. Tocamos  em companhia de artistas como "Laura Finocchiaro"; "Os Inocentes"; "Jean & Paulo Garfunkel", e outros emergentes da cena mezzo Rock / mezzo "vanguarda paulista". O Fran mostrou muita personalidade, apesar de ter sido um show de choque, portanto, muito curto. Contudo, já deu-nos uma amostra de que entrosar-se-ia quase instantaneamente à banda.

Mas antes de fazermos a estreia oficial do Fran, que seria no Teatro Lira Paulistana, tínhamos um outro compromisso. No dia 26 de janeiro de 1985, fomos novamente ao Fofinho Rock Clube, no bairro do Belenzinho, zona leste de São Paulo, onde já havíamos nos apresentado em 1984. Sobre o que era o Fofinho naquela época, eu já falei quando mencionei a nossa primeira apresentação por lá. Desta feita, a novidade óbvia era a presença do novo vocalista, Fran, além de um approach mais pesado de nossa parte, no afã de aproximar a banda do público Hard-Heavy oitentista.
A presença do público foi boa, e o show bastante frenético, ainda que os equipamentos de som e luz fossem totalmente inadequados.
Dessa maneira, apesar do som ruim, e da luz de serviço acesa de forma ininterrupta, por ausência de uma luz decente de show, a apresentação valeu pela energia, que grande parte do público absorveu.

É bom observar que ao imprimirmos peso extra no nosso trabalho, entrávamos no alcance do julgamento de um público novo, onde não éramos habitantes naturais. E pior que isso, tratava-se de um nicho cuja "tribo", era cheia de maneirismos, códigos próprios de conduta, preconceitos etc. Portanto, esse foi um dos nossos erros ao tentar trilhar esse caminho, pois nunca seríamos aceitos nesse mundo inteiramente, pois os "headbangers", não reconhecer-nos-iam como parte de sua "tribo". Esse foi um dos problemas, mas teríamos outros, que no decorrer da narrativa, descreverei com comentários análogos, certamente.

Nesse show em específico, aconteceu uma coisa chata comigo, no campo pessoal, que é de pequeníssima monta hoje em dia, mas acho que vale a pena mencionar, para deixar o registro de que todo artista sofre esse tipo de assédio moral, e é sempre um aborrecimento lidar com esse tipo de questão inoportuna. O que ocorreu, foi que um rapaz, ligado à produção da casa, procurou-me nos bastidores, e insistiu muito para que eu arrumasse dois ingressos para ele e a sua namorada irem assistir um show da Chave do Sol, no Teatro Lira Paulistana. Sua insistência passava dos limites, denotando uma pressão incômoda e desmedida, ainda mais em se considerando que estávamos ali fazendo o show, portanto, não parecia uma coisa razoável que insistisse tanto numa cortesia para outro show, em outro espaço. Bem, no Lira Paulistana, minha cota de ingressos cortesia estava esgotada para o show de estreia oficial do Fran, no dia 31 daquele mesmo mês, mas disse-lhe que poderia arrumar para uma futura apresentação, que eu sabia que logo seria marcada, mesmo que ainda oficialmente, não havia essa data fechada. Quando a oportunidade surgiu, em abril de 1985, o rapaz apareceu no Teatro e de fato, eu lembrei-me dele e do seu pedido, e reservei os ingressos. Foram dois dias de shows em abril, e no segundo show, eu tinha já uma reserva para a minha namorada na ocasião. Por um golpe fortuito, minha namorada chegou de surpresa no primeiro dia de show, mesmo sabendo que o combinado era assistir só o segundo show. Fiquei numa situação chata, pois o sujeito da Fofinho apareceu com a namorada. Sei que tenho minha parcela de culpa, pois nesse imbróglio, bastava eu comprar o ingresso da minha namorada, e ceder os dois de cortesia para o rapaz e sua namorada, mas o rapaz ao perceber a confusão, melindrou-se e teve uma explosão de nervos. Aos berros, passou a xingar-me e proferir pragas contra a minha banda, jurando que nunca mais tocaríamos no seu salão (e ele nem era dono, absolutamente, do citado salão), etc etc. Conclusão : todo artista sofre esse tipo de pressão inconveniente o tempo todo. Pessoas pedem ingressos; discos; souvenirs, e acham que essas coisas caem do céu, ou pior, que o artista tem a obrigação de atender tais pedidos o tempo todo, no afã de angariar simpatias. E quando há uma negativa, explodem de forma desmesurada, melindrando-se e acusando o artista de ser "mascarado" ou coisas piores...

Bem, essa historieta adiantou a cronologia, mas achei o registro, conveniente aqui, no momento em que esse rapaz importunou-me para pedir ingressos, sendo que estava ali assistindo o show, dentro do espaço onde trabalhava. Voltando à cronologia, o próximo passo, seria enfim a estreia oficial do Fran na Chave do Sol, no Teatro Lira Paulistana.

31 de janeiro de 1985, no Teatro Lira Paulistana. Muitos avisos do show saíram em jornais, nas páginas de agenda cultural, dando-nos um suporte bom, além da divulgação tradicional de cartazetes e filipetas, proporcionadas pelo bom trabalho de Antonio Celso Barbieri, o produtor do show.

Claro, havíamos disparado o nosso mailing também, que naquela altura crescia vertiginosamente, com volume significativo de adesões ao Fã-Clube, tocado por nós mesmos (leia-se : eu, Luiz Domingues, e José Luiz Dinola). O enfoque nessa data houvera sido proposital como já salientei anteriormente, justamente por considerarmos que os dois shows que ocorreram dias antes, não teriam a estrutura que considerávamos adequada para um momento significativo da banda, como a estreia de um novo vocalista, imprimindo uma nova identidade visual; cênica; e sobretudo, sonora, à banda.

Estávamos musicalmente preparados, e de certa forma, o fato de ter havido dois shows já com a presença dele, ajudou-nos a quebrar o gelo. Dessa maneira, estávamos seguros da performance e prontos para um grande show.

Esse projeto do produtor Barbieri, era uma espécie de resposta irônica ao fato do Rock in Rio ter ignorado todas as bandas paulistas em condições de terem sido escaladas naquele festival carioca (considerando-se o pessoal do mainstream, é claro, e nesse raciocínio, o que dizer de nós, e dezenas de bandas que habitavam o underground ?). Lógico, a estrutura do teatro Lira Paulistana em comparação com o mega festival de Roberto Medina, era nanica, e seria como querer estabelecer uma comparação entre uma Ferrari e um carrinho de plástico, de R$ 1,99.

Contudo, o Lira era um baluarte do artista independente brasileiro, e muito nos orgulhava termos mais uma oportunidade de nos apresentarmos no famoso palco subterrâneo da rua Teodoro Sampaio, 1091. Naquela noite, uma banda de abertura estava escalada por Barbieri. Chamava-se "Fênix" e tratava-se da banda de nossos amigos Carlos Muniz Ventura e Iran Bressan. Nesse dia, nosso amigo Carlos ousou na sua performance ao usar os dentes para fazer um solo de baixo, mas quase causou-lhe um transtorno dentário óbvio. Terminado o show deles, chegara a hora do público conhecer o novo vocalista da Chave do Sol, Fran...

O show foi muito intenso, com o adendo de que a presença de palco do Fran era esfuziante, mas não sabíamos exatamente como reagiriam os fãs do trabalho, pois era algo totalmente inusitado para quem acostumara-se há anos, ver-nos em formação de Power Trio, visto que o vocalista anterior, Chico Dias, mal teve tempo em marcar presença na banda. Outro ponto, com a entrada do Fran e a mudança de comportamento radical que a banda buscava musicalmente, era de fato, muita mudança em questão, para o público absorver. Tínhamos consciência de tais elementos, mas não da dimensão de sua consequência, certamente. Bem, de que forma reagiria o público ?

Entenderia que o momento "1985" era de tornar o som mais pesado ? E quem gostava da Chave do Sol das apresentações do programa Fábrica do Som, entre 1983 e 1984, com aquele Jazz-Rock setentista e "firulento", o que acharia ? Os "headbangers" oitentistas passariam a considerar a banda como interessante em seus anseios metálicos ?

De qualquer forma, de nossa parte, confiávamos no nosso taco, com a decisão de incorporar um vocalista de potencial, como o Fran, e também nas novas músicas com tais características, contudo, era uma incógnita a reação do público com tantas mudanças. Nessa estreia, o Fran apresentou-se com muita garra. Aliás, essa era uma de suas qualidades. Quando pisava no palco, deixava de lado o rapaz sereno, tranquilo e equilibrado que era no cotidiano, para dar vez a um vocalista decidido, com 100% de entrega à performance, banda e à música. E nessa entrega artística, dava tudo de si, dando margem às vezes, a deslizes, o que era normal e de certa forma esperado, pois só a constância traria o equilíbrio perfeito e portanto, era questão de tempo. Cito tais desequilíbrios como excesso de vontade de imprimir uma mise-en-scené muito vigorosa, e algumas vezes, cometendo excessos. Serei mais direto: nesse primeiro show, sentindo a pressão em querer impressionar o público, exagerou um pouco na movimentação cênica, e duas ou três vezes desequilibrou-se, literalmente, quase caindo no palco, além de trombar comigo e Rubens, ao fazer movimentações mais fortes, e considerando que nós também movíamo-nos bastante, eu, bem mais do que o Rubens. Mas, ele era muito criterioso e chegou no camarim dizendo que exagerara e precisava melhorar nesse quesito, mostrando grande discernimento. Fran sempre foi um artista muito preciso nas suas observações e humilde, reconhecia seus erros, sem nenhum sinal de melindre, demonstrando uma enorme hombridade, qualidade que eu admirava nele. Quanto à parte musical, sua voz mega potente, impressionava. Era uma emissão vocal, portentosa, e com afinação incrível.

Ele gostava de usar o trêmulo na voz, mas analisando hoje em dia, creio que sua intenção não era imitar vocalistas setentistas de voz rouca como Rod Stewart e Noddy Holder (vocalista do "Slade", este, uma influência confessa do Fran), ou para citar alguém da época (anos oitenta), Kevin Du Brown, (vocalista do "Quiet Riot"), mas sua intenção real era buscar um "drive" natural do diafragma, para potencializar o vocal. Para nós, foi um grande show, e estávamos muito felizes pela performance poderosa do Fran, e ele também estava radiante.


Mas naquele mesmo dia, colhi, particularmente, uma série de opiniões divergentes, e fiquei chateado com as coisas que ouvi. 


Algumas pessoas não haviam achado a inclusão do Fran boa para a banda, e críticas desagradáveis ocorreram. Ouvi reclamações sobre o excesso de trêmulo na voz dele. Outros reclamaram dos deslizes cênicos, e uma opinião que achei pesada na hora, fez-me pensar a posteriori. O produtor do show, Barbieri, chamou-me de lado no camarim, e disse-me que precisávamos pensar no aspecto visual do Fran, pois ele destoara do trio. De fato, o Fran apresentou-se usando uma calça vermelha acetinada, mas sem camisa, usou uma capa também de cetim, parecida com capas ritualísticas de umbanda e candomblé, igualmente vermelha, com detalhes em preto. Dessa forma, realmente parecia um visual ritualístico, destoando de nós três, que usávamos calças de couro ou veludo; camisas de seda ou cetim; botinhas e adereços rockers bem setentistas, como lenços indianos e / ou echarpes. Para piorar, apresentou-se descalço, realçando a diferença com os demais.

Ingênuos, nem percebemos tal discrepância enquanto aprontávamo-nos no camarim. Particularmente, achei a capa bacana, e o fato de subir ao palco descalço e sem camisa, parecia muito mais uma atitude hippie, que remetia ao Caetano Veloso dos bons tempos, usando o famoso "Parangolé" do Hélio Oiticica, do que rituais de religiões afro-brasileiras (nada contra tais vestimentas, mas dentro de seu ambiente ritualístico, e não em show de Rock, só isso !). E da parte do Fran, certamente que pensava o mesmo, achando estar num visual rocker, e compatível com a importância daquele show, fora estar de acordo com os demais integrantes da banda.
Além disso, pesava o fato dele não ter maiores opções de figurino disponíveis naquele momento. E nesse fator, só restava-nos torcer para a banda ter uma agenda legal, que permitisse condições para que ele pudesse preparar-se melhor nesse quesito. Fora isso, que era algo corrigível, preocupou-me as opiniões sobre o vocal dele não ser compatível com a banda, mesmo diante de músicas novas, com características mais pesadas. Mas vida que seguia, estávamos confiantes e muito contentes com a entrada dele. Esse show foi gravado direto da mesa, com carinho pelo técnico / amigo, Canrobert e por muitos anos, tive essa fita K7, bem guardada.
Num dia de 1989, um amigo, que gravitou na órbita da banda em 1984, apareceu em minha casa, e pediu-me emprestado tal material, com a promessa de devolução em poucos dias, com o objetivo de fazer uma cópia. Bem... espero até hoje a devolução (2016), e nem é preciso descrever o quanto lamento essa perda, pois era o único registro da voz do Fran ao vivo, na Chave do Sol. Nesses tempos em que coloco minha energia na construção de minha autobiografia, e por conseguinte, promover o resgate total de material inerente (além da possibilidade de lançamento no You Tube), tal material seria um tesouro inestimável para os fãs da banda, para nós mesmos, ex-integrantes, e para a viúva e os dois filhos do Fran. Só lamento a mancada, "seu" Hélio...

Ainda falando da estreia oficial do Fran, além da divulgação tradicional, tivemos também apoio de dois programas de TV. No mesmo dia do show, 30 de janeiro de 1985, havíamos ido novamente ao programa feminino e vespertino, "A Mulher dá o Recado", da TV Record de São Paulo. No período da tarde no dia do show, gravamos o "Realce" da TV Gazeta, que foi ao ar às 18:00 h., e sempre dava-nos um bom apoio. No programa da TV Record, apesar de ser ao vivo, não esperávamos tanto retorno assim, visto que sua audiência básica não era de rockers, mas muito pelo contrário, de donas de casa, e certamente idosos. Contudo, achávamos muito válido aparecer em tais programas, pois mesmo  posicionando-nos como uma banda de Rock, queríamos angariar um público maior. Claro que um programa dessas características não era o mais adequado para nós, mas eu ficava muito contente quando abria a caixa postal da banda, na agência do correio, e via cartas de pessoas que estavam elogiando-nos por terem assistido-nos em programas assim, e neste em específico, rendeu frutos nesse sentido.

Vivíamos o mesmo problema de quando fizemos programas de TV com a presença do vocalista anterior, Chico Dias, ou seja, lá estávamos nós novamente, para enfrentar uma dublagem, onde um novo vocalista iria apresentar-se fingindo cantar, com o áudio da voz do Rubens em "Luz". Nesse sentido, o fato de termos só um compacto simples, e com uma música cantada apenas, e a outra, sendo instrumental, limitava-nos naquele instante.

A necessidade de um novo álbum, e com a voz do Fran no comando, tornara-se urgente, também por esse aspecto televisivo.
Nesse programa da TV Record, como de costume, tínhamos o compromisso de estar no estúdio às 8:00 h. da manhã. Não era fácil portanto, estar com face limpa e bom humor, prontinhos para entrar no ar, sendo músicos, e naturalmente notívagos, mas todo sacrifício era válido. Desta feita, optamos portanto pela não participação do Fran na apresentação, para não cometermos o mesmo erro já citado, que cometêramos com o antigo vocalista, Chico Dias.

Eis acima, essa aparição no programa "A Mulher dá o Recado", da TV Record de São Paulo, no 31 de janeiro de 1985.
 

https://www.youtube.com/watch?v=_xSsxMCtIbE
 

E na TV Gazeta, no dia seguinte, com a tradicional "esbórnia" do apresentador Mister Sam, proporcionou-nos mais uma divertida aparição. Desta vez, tivemos a oportunidade de executarmos “Luz” e novamente evitamos que Fran Alves participasse, não cometendo assim o mesmo erro que houvéramos cometido com o vocalista Chico Dias, ao fazê-lo dublar a voz do Rubens, com o áudio oficial no nosso disco.




E também fizemos dois programas de Rádio, como apoio ao show. Na verdade, foram duas entrevistas concedidas ao programa "Balancê", da Rádio Globo de São Paulo, onde o comandante era o Fausto Silva.

Já havíamos estado nesse programa algumas vezes antes, e nesse dia 28 de janeiro de 1985, especificamente, a banda foi representada por Zé Luiz e eu, dentro daquele revezamento que havíamos combinado internamente, visando dar entrevistas em duplas, sempre que possível, para render mais nos programas radiofônicos, que tendem a ser confusos, quando mais de duas pessoas são entrevistadas. Mas como o programa tinha um público, apesar de ser radiofônico, uma bizarra condição instaurara-se : pediam aos artistas musicais que dublassem, mesmo não fazendo nenhuma diferença para quem assistia in loco.
Então, eu; Rubens e Zé Luiz, geralmente levávamos um par de baquetas, e uma mini guitarra chamada "Chiquita", que mais parecia uma guitarrinha baiana, dessas de trios elétricos, simplesmente para facilitar as coisas. Dessa forma, combinamos de eu usar a guitarrinha na dublagem, e o Zé Luiz, fazer malabarismos com as baquetas, e ambos dublando a voz do Rubens. Ou seja, bizarrice total...
Mas demos um azar nessa manhã de 28 de janeiro de 1985...

O que ocorreu, foi que naquele específico dia, por alguma falha técnica, algumas "sonoras" falharam. "Sonora", para quem não conhece o jargão do jornalismo radiofônico, são reportagens pré-gravadas, que são disparadas, geralmente com entrevistas e / ou boletins do cotidiano dos clubes de futebol. Como essas "sonoras", alimentavam o programa, ocupando grande parte de sua duração, a produção ficou sem o que fazer para ocupar o espaço, e dessa forma, decidiram "esticar" a nossa participação, fazendo perguntas improvisadas.

Mas o tempo foi passando, e as "sonoras" de futebol não foram executadas por problemas técnicos, então, o Faustão, naquele seu jeito despachado, e na base do improviso total, resolveu que tocaríamos uma segunda música, para "encher linguiça", como diz-se no linguajar popular. Até aí, tudo bem, pois estávamos lucrando com essa esticada, ganhando quase meia hora de audiência, quando o normal teria sido de oito a dez minutos, com uma música e uma conversa rápida. Mas, o sonoplasta "Johnny Black", teve a brilhante ideia de sugerir ao Fausto, que tocássemos ao vivo, bem naquela onda de "quem sabe faz ao vivo".

Uma foto de uma guitarra "Chiquita" que achei na internet. A do Rubens, era azul claro.

Como músicos "de verdade", e não fabricados em escritórios de marqueteiros, preferíamos sempre tocar ao vivo, logicamente, contudo, sem noção alguma, ambos, Faustão e Johnny Black, ficaram cegos pela ideia, sem mensurar como seria possível tocar uma música como "18 Horas", com uma guitarra apenas ??
Pior, eu nem era o guitarrista da banda, mas não adiantaria nada dizer isso aos rapazes, porque estávamos ao vivo, e isso seria ridículo para a imagem da banda. Mesmo que fosse o Rubens ali presente, o que poderia fazer, sem um amplificador, e com uma "Chiquita" em mãos ? E outra, faria um solo, ou ficaria tocando apenas o riff principal da música ??

Naqueles segundos em que a proposta surgiu, tive uma ideia salvadora : falei para o Johnny Black, que como estava preparado para fazer dublagem, nem levara um cabo. Ele ficou, contudo, ainda mais "pilhado", e passou a vasculhar a cabine de som do teatro onde o programa era realizado, à procura de um cabo "P10". Era quase certeza de que arrumaria um, e de fato, arrumou...
Nesse ínterim, o Faustão cravava-nos de perguntas, e para piorar as coisas, chegou um reforço de peso, na figura do locutor esportivo Osmar Santos, para também fazer perguntas, e ajudar a enrolar a audiência. Uma das perguntas que não esqueço-me, e até achei legal, pois pude expressar uma opinião forte, ainda que ninguém que ouvia aquele programa deva ter entendido, foi quando perguntando o que estávamos achando do Festival Rock in Rio, quis saber o que eu pensava das atrações Go-Go's e Yes...
Ora, ora...justo eu a ser questionado nesses termos...


Disse que a diferença era simples : uma banda era para crianças, e a outra, formada por músicos de alto nível... falei alguma mentira ??
Então, o Johnny Black chegou com um cabo P10 velho, cheio de emendas de fita isolante... sem saída, tive que plugar e estava decidido a tocar o riff de "18 Horas" e fazer ruídos com microfonias (aliás, como isso seria possível com a guitarra plugada em linha, e sem um amplificador para provocar o feedback ?), simulando um solo performático. O que mais poderia fazer ?

Mas o cabo P10 que o Johnny Black providenciou, estava "podre", e falhou miseravelmente. Só lembro-me do Faustão falando coisas como : -"ô louco, problemas técnicos estão minando-nos, meu"...fazendo alusão ao fato das "sonoras" terem falhado também.
E o mais engraçado, foi que o Johnny Black não desistiu e correndo para a cabine, eu vi-o com uma solda, tentando consertar aquele P10 putrefato... ha ha ha !! Ainda bem, não deu tempo para traze-lo de volta, e o programa acabou...

O humorista Tatá, que fazia parte do staff do Balancê, também

Bem, foi com certeza a nossa maior participação, em termos de tempo, no programa "Balancê"...
Mas não ficou clima algum. Pelo contrário, os três, Faustão; Johnny Black e Osmar Santos, agradeceram o nosso esforço em esticar a nossa entrevista, e sabendo que teríamos show, convidaram-nos a voltar no programa, dois dias depois, para nova entrevista, e reforçar assim a divulgação do show. Claro que aceitamos e dessa forma, voltamos no dia 31 de janeiro de 1985. Desta vez, resolvemos ir em trio, levando o Fran, junto, para ele ir acostumando-se com tal dinâmica de entrevistas. Mas nessa segunda ocasião naquela semana, tudo ocorreu normalmente, com as sonoras de futebol funcionando sem falhas, e nossa entrevista resumindo-se a uma conversa, reforçando o convite do show, e uma dublagem com o Rubens pilotando a "Chiquita"; eu fingindo tocar bateria com um par de baquetas em mãos, e o Fran dublando a voz do Rubens.

Após esse show no Lira Paulistana, as conversas evoluíram para que voltássemos ao estúdio, e gravássemos então o segundo disco.
Com a troca de vocalistas, e os planos malogrados para gravar uma demo de qualidade, com o objetivo de levarmos tal material às gravadoras Majors, claro que a oferta vinda de Luiz Calanca, do selo Baratos Afins, foi muito bem recebida por nós.

O produtor e dono da famosa loja Baratos Afins, Luiz Calanca

Se no primeiro trabalho, o compacto, trabalhamos num regime de cooperação, 50/50, desta feita, ele queria bancar o trabalho sozinho, num regime semelhante ao de uma gravadora tradicional.
Lógico que na situação financeira que tínhamos naquele instante, somada à necessidade premente de um novo registro fonográfico, aceitamos a proposta de pronto, e aceleramos os ensaios para fechar o material.

Músicas como "Ufos" e "Segredos", muito pesadas, e no nosso entender, capazes de atender a demanda de um nicho diferente de público que procurávamos, já estavam compostas e praticamente arranjadas. Decidimos incluir apenas uma música do repertório antigo da banda, chamada "Crisis (Maya)", que era um tema instrumental e que havia sido exibida três vezes no programa "A Fábrica do Som". Apesar das mudanças significativas que pretendíamos executar, achamos importante ter um tema instrumental no disco, para manter um pequeno elo com o som antigo da banda, e essa música era sempre bem aplaudida nos shows. "Anjo Rebelde", era outra que estava pronta (já a tocávamos ao vivo, desde a metade de 1984), e a considerávamos, um "Hard-Rock" estilo setentista, mas com o Fran assumindo os vocais, ela ganhou um punch extra, e adequou-se ao que buscávamos, também.

Uma balada surgiu de última hora, graças à uma inspiração que o Rubens teve, criando um riff na guitarra. Mas não fora tão fortuito assim, pois estávamos impressionados com a possibilidade de ter uma balada pesada, que tivesse a capacidade de atender a demanda desse público, mas que fosse ao mesmo tempo, palatável aos ouvidos de gente não aficionada do Rock, e do Heavy-Metal, principalmente. E essa impressão era bem óbvia, com o sucesso estrondoso de uma balada da banda germânica Scorpions, chamada "Still Loving You", que tocou nas rádios ad nauseum, por conta do Rock in Rio, e também por alimentar tema de novela da Globo, simultaneamente. Nesses termos, trabalhamos nessa ideia de riff criado pelo Rubens, com a intenção deliberada de buscar um resultado semelhante. Com a presença do Fran, e sua voz potente, além do poder de interpretação dramático que ele imprimia, tinha tudo para dar certo.

A letra da canção foi desenvolvida pelo Fran. Falando em sua estupefação pelas diferenças sociais, poupou-nos de uma letra romântica, evocando o amor homem / mulher, o que seria esperado numa balada tradicional. Claro que apreciamos a letra que ele escreveu, muito mais interessante e forte, ainda que pudesse descambar para a pieguice, se não tivéssemos cuidado. Foi dessa forma que surgiu "Um Minuto Além", música que trouxe-nos alegrias, tornando-se certamente, a melhor em termos de visibilidade que esse novo disco, ofertar-nos-ia. Nos últimos ensaios, estávamos fechando a derradeira canção surgida para o novo trabalho : tratou-se de mais uma música pesada, chamada "Ímpeto", com outra letra escrita pelo Fran.

No caso de "Segredos" e "Ufos", usamos dois poemas do poeta Julio Revoredo. Gosto bastante dessas letras, e acho que tem versos muito fortes, com poder filosófico de aforismos, até, e apesar da tradicional condição hermética com a qual o trabalho dele desenvolve-se, existe um componente pop nelas, por incrível que pareça. No caso de "Anjo Rebelde", a história dessa letra eu já comentei an passant em capítulos anteriores, mas vale a pena esmiuçar um pouco mais, neste ponto da cronologia.

Bem, no caso da letra de "Anjo Rebelde", a música houvera sido composta e fechada com essa letra em 1984, e já fazia parte do repertório da banda ao vivo, desde então, inclusive com direito à execução em programa de TV, conforme já contei e publiquei o link dessa aparição, disponível no You Tube. Era uma letra escrita pelo Edgard Pucinelli Filho, que era um seguidor da banda, e que ao longo dos tempos, tornou-se roadie e membro do staff de produção.

Havíamos gostado dessa letra, pelo seu teor em forma de ode ao Rock, inclusive relevando seus exageros nítidos. Hoje em dia, acho-a piegas, e não a usaria para musicar uma canção, mas naquela época, achei (com a aprovação de todos), que encaixava-se na música, dando-lhe um tom épico, e que certamente viria de encontro à necessidade de mudanças estéticas que precisávamos promover, buscando um lugar ao sol no mercado. O Edgard ficou encantado com o convite para ter seu poema musicado, e não pensamos que isso trazer-nos-ia um aborrecimento posterior...

Enfim, quando as negociações para a gravação do segundo disco avançaram com o Luiz Calanca, escolhemos "Anjo Rebelde" para estar no repertório do novo álbum. Mas aí, fomos surpreendidos, quando abordamos o Edgard, visando buscar sua assinatura, e dados pessoais para a papelada burocrática do disco, as famigeradas fichas do "GRA". Ele agora estava com o discurso de que o poema não era só seu, mas tinha uma coautoria. Insistia que tínhamos de incluir o nome de uma garota chamada Miriam, que supostamente ajudara-o a compor o poema.

Essa argumentação dele era obviamente uma forçação de barra de última hora. Nunca soubemos o real motivo, mas a desconfiança era evidente por tratar-se de uma intenção dele de impressionar a tal garota em questão, caracterizando o seu desejo de namorá-la ou coisa que o valha. Mas irredutível, não abriu mão de incluir a citada garota na parceria, recusando-se a assinar a papelada se seu desejo não cumprisse-se.

Sem saída, acabamos cedendo à pressão, e lá foi a documentação para o ECAD, com o nome da tal Miriam incluso, como "compositora" de Anjo Rebelde, em parceria com Rubens; Luiz Domingues, e Edgard. Muito provavelmente, essa moça nunca  interessou-se pela canção, e jamais deve ter recebido um centavo de direitos autorais, porque nem devia saber como proceder para reivindicar seus "direitos". Nesse aspecto, o novo álbum já começava mal, com uma intromissão desse nível, sem nenhum propósito...

Com os agitos da pré-produção em curso, estávamos animados com a perspectiva de gravar um novo álbum, e certamente que estávamos apostando muito nesse segundo trabalho, por todos os motivos que já expus nesta fase da cronologia dos fatos. Mas paralelamente, ainda vivíamos os ecos da boa onda de expansão proporcionada pelo primeiro disco, e claro que aproveitávamos cada gota que pudéssemos. Nesses termos, o próximo compromisso que tínhamos agendado, era uma nova participação no evento "Praça do Rock", que por sua vez, crescia, e a cada nova edição, atraía mais público e infraestrutura.

Foto do Zé Luis em ação na nossa primeira participação no evento "Praça do Rock", em agosto de 1984

E por estar crescendo, atraía também pessoas interessadas em capitalizar o sucesso do evento, seja economicamente, seja pelo viés político. Lembro-me de ter participado, por exemplo, de uma reunião na sede do Jornal do Cambuci & Aclimação, o simpático jornal desses dois bairros vizinhos, que apoiava o evento, visando tomar ciência das questões envolvendo a nossa participação.


Essa foto minha também é da nossa primeira participação na Praça do Rock em agosto de 1984. Infelizmente, não tenho em meu acervo, fotos da segunda participação da Chave do Sol, em fevereiro de 1985.

Mas apesar da boa vontade das pessoas envolvidas, alguns deslizes eram inevitáveis, e nesse dia em específico, apareceu um deputado na reunião, que quis capitalizar politicamente o movimento, e o evento. Chegou até a protagonizar um momento patético na reunião, ao subir, literalmente, na mesa, e improvisar um discurso inflamado, onde falava que as bandas de Heavy-Metal precisavam unir-se para pleitear melhores oportunidades do poder público etc etc. Foi muito constrangedor, primeiro porque eu sentia-me um estranho no ninho nessa história de bandas de "Heavy-metal", e segundo, por estar vendo a manipulação política infiltrar-se num evento que crescia, minando-o.

Então, participamos do evento, no dia 24 de fevereiro de 1985. A estimativa da Polícia Militar, contabilizou cerca de 3000 pessoas naquela tarde / noite. Participaram também : "Centúrias", "Abutre" e "Gozo Metal", como outras atrações daquela edição. Nosso show foi forte e arrancou muitos aplausos da plateia, em sua maioria, garotos e fãs de Heavy-Metal. Nesse aspecto, o Fran agradou em cheio a esse tipo de público, onde uma grande parcela conhecia-o por sua atuação com sua banda anterior, o "Ano Luz".
O "Gozo Metal" era na verdade o "Côco Lóco" com outro nome, banda liderada pelo baixista Orlando Lui (ex-Rock da Mortalha, nos anos 1970), e apesar do nome muito infeliz (aliás, ambos os nomes eram horríveis), para uma banda de Rock, tinha em seu líder, um grande batalhador. Ligando-se pessoalmente ao organizador oficial do evento, o baixista Dalam Junior, tornou-se um coprodutor associado, e daí em diante, trabalhou forte para tornar o evento, cada vez maior. Falo disso mais para frente, quando de uma terceira participação da Chave do Sol no evento. E nem só em constrangimentos a reunião na sede do jornal foi pródiga. Pelo contrário, nesse mesmo dia, conhecemos outro personagem que prometia ser importante para o métier do Rock pesado paulistano.

O fato, é que já sabíamos por intermédio do guitarrista e amigo, Hélcio Aguirra, que um empresário estava interessado em trabalhar com bandas da cena pesada de São Paulo. Segundo o Hélcio, o senhor em questão, tinha experiência no ramo desde os anos setenta, tendo trabalhado com bandas de bailes, principalmente, mas em algumas vezes, também com artistas de som autoral. Ora, não custava nada conhecê-lo, e ouvir suas propostas, evidentemente.

Portanto, a primeira vez que o vimos, na reunião de organização da segunda edição da Praça do Rock, da qual participamos, não foi possível conversar detalhadamente sobre seu interesse pelas bandas, pois estava ali como um ouvinte, colocando-se como voluntário do evento "Praça do Rock", tão somente. Contudo, uma reunião foi marcada para alguns dias depois, no seu escritório, e com a participação de diversas bandas da cena pesada de São Paulo, onde a ideia principal seria criar uma espécie de cooperativa de bandas, com esse senhor dando diretrizes, segundo sua suposta experiência. O nome dele era Mário Ronco, e tal reunião ocorreu ainda no fim de fevereiro de 1985, quando ele expôs suas ideias para os representantes de cada banda convidada. Nessa reunião, lembro-me de estarem presentes componentes de bandas como "Centúrias"; "Salário Mínimo"; "Eclipse"; "Harppia"; "Gozo Metal"; "Abutre"; e "Anthro", além da Chave do Sol, naturalmente.

A ideia parecia nobre, e simples de colocar-se em prática : todos cooperariam mutuamente, fornecendo contatos; ideias, apoio logístico etc. E para alinhavar a parte gerencial, entraria enfim, o trabalho de Mário Ronco e seu assistente, cujo nome não recordo-me mais. De fato, a parte de ajuda mútua era válida e fácil de ser executada, pois todo mundo imbuiu-se de boa vontade, e não haveria nenhuma restrição nesse sentido. E o projeto começou alvissareiro, pois o Mário Ronco tinha cartas na manga para impressionar os representantes das bandas, logo na primeira reunião.

A primeira proposta era ótima : ele tinha na mão, datas para organizar um micro festival, no Teatro Arthur Azevedo, que é um ótimo e tradicional teatro localizado num ponto nobre do bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. Pertencente à Prefeitura de São Paulo, esse ótimo teatro, era a oportunidade de apresentarmo-nos com uma estrutura de som e luz, de qualidade. Particularmente, nunca canso-me de dizer, que se dependesse de minha vontade, só tocaria em teatros, evitando apresentações em casas noturnas...
Claro que deu uma animada geral essa proposta do Mário Ronco, e dessa forma, tornou-se a primeira ação da nascente "Cooperativa Paulista de Rock", esse micro festival, e como ação direta de cooperação, o apoio de todos, no tocante ao equipamento dos shows, na base do compartilhamento total nesse sentido, e também no esforço de divulgação. O lado mau disso, era que o tempo urgia, sendo muito escasso para uma divulgação bacana. Mas mesmo assim, na base da correria, e do improviso, conseguimos atrair um ótimo público.



Mesmo em cima da hora, os shows aconteceram com um nível de produção bem satisfatória, bom apoio da mídia escrita, e a presença legal de público. Nós tocamos duas vezes, pois houve um cancelamento de última hora de uma das bandas (Anthro), e o Mário Ronco pediu que ocupássemos essa lacuna extra.

Não foi nenhuma armação de nossa parte para tirar proveito, e tocar mais uma noite que o combinado. Jamais faríamos uma armação política e antiética desse nível dentro da cooperativa, mas infelizmente, o fato da Chave ter tido essa suposta vantagem, suscitou comentários de desagravo por parte de alguns membros da recém criada organização, gerando "ciumeiras". Atesto que de fato, foi o Mário Ronco, quem solicitou-nos tal ação, e claro que aceitamos e assumimos o fato de que estávamos levando um vantagem diante disso, mas isentos de qualquer culpa por premeditação.

O evento ocorreu entre os dias 7 e 10 de março de 1985. Nós tocamos nos dias 7 e 8 de março de 1985. No dia 7, uma quinta-feira, dividimos a noite com o "Gozo Metal", do baixista Orlando Lui (Ex-Rock da Mortalha).

Por sorteio, ficou acertado que o primeiro show da noite, seria do Gozo Metal, e nós faríamos o segundo. Com uma estrutura de cenografia legal, demo-nos ao luxo de começar o show com as cortinas fechadas, causando um frisson na plateia, com tal tipo de recurso cênico.

Com o abrir suave das cortinas, a banda já estava  a mil por hora, com o Fran tendo grande atuação cênica, inclusive. Mas, como era uma quinta-feira, o público não lotou as dependências do ótimo teatro Arthur Azevedo. Todavia, em se considerando ser um dia útil, e o fato de termos tido pouco tempo de divulgação, acredito que as 120 pessoas presentes, pode ser considerado um bom público. E de fato, minha lembrança foi de termos ficado satisfeitos com esse número, na época.


No dia seguinte, cumprimos então a data que era de outra banda. E por ser sexta, claro que o público foi muito melhor. 300 pessoas ocuparam o teatro, e a vibração estava bem quente nesse dia.
O Mário Ronco dispensou o uso de sorteio nesse dia, considerando que tocáramos na noite anterior como "headliner". Portanto, o "Centúrias", do amigo Paulo Thomaz, ocupou tal posição, e nós tocamos na preliminar.

Lembro-me que tocamos todas as músicas novas, e que fariam parte do próximo disco que lançaríamos, e cujas gravações começariam ainda naquele mês de março de 1985. Era legal tocar ao vivo esse material, e sentir a temperatura do público. E mesmo chocando alguns, que ainda não tinham computado a ideia de que as novas canções tinham um peso extra, além do normal para o padrão Hard-Rock. Todavia, ficávamos muito contentes por ver que "Um Minuto Além", nossa aposta de balada pesada, e com "clima de Rock in Rio", agradava em cheio o público. De fato, a interpretação do Fran era de arrepiar...

Aquele vozeirão não era só potente e exoticamente rouco, mas a interpretação dramática que ele impunha, impressionava, certamente. Claro, a harmonia da canção, aliada a um solo épico que o Rubens criou, tornaram-na um clássico imediato da nossa banda. Uma curiosidade quase prosaica e inventada pelo Mário Ronco : em cada show, ele solicitou a presença de dois músicos de bandas da cooperativa que não tocariam naquela noite, para atuarem como apresentadores do evento. Portanto, tocamos na quinta e na sexta, e sendo assim, eu acabei sendo escalado para apresentar os shows do domingo, junto com o baixista do Eclipse. Tocaram Harppia e Salário Mínimo, e senti-me um apresentador do "Oscar", enfrentando o público, e tendo que falar algo minimamente inteligente, e sem cair em pieguices, para não fazer feio...
Nesse domingo, um personagem muito gente boa, e que estava usufruindo a fama mainstream, estourando com uma banda bem calcada na onda do Pós-Punk, apareceu para assistir o show, e foi mega simpático com todos. Era o baterista dos Titãs, Charles Gavin, que mostrava-se muito solícito, e apesar de ser um métier avesso ao que nós transitávamos, mostrava-se bastante interessado em conhecer o som das bandas, e dentro das possibilidades, ajudar ao máximo.

Esse foi o meu primeiro contato com ele, mas num futuro não muito distante, Gavin seria um amigo muito próximo da Chave do Sol, e um sujeito do bem, que tentou levar-nos para o patamar de cima, no mainstream. Conto no momento oportuno da cronologia dos fatos.
Encerrando esta etapa, claro que comemoramos o sucesso súbito dessa empreitada da cooperativa, no Teatro Arthur Azevedo !!
Fora aquela ciumeira descabida pela Chave do Sol ter sido escalada para tocar uma vez a mais, substituindo a banda "Anthro", que teve de cancelar a apresentação por motivos pessoais de seus membros, todo mundo ajudou-se, num espírito de mutirão, e o público foi ótimo. Estávamos animados com essa empreitada do Mário Ronco, mostrando poder de fogo, instantaneamente. Ainda falando da ciumeira, não posso deixar de contar um fato engraçado ocorrido no soundcheck do dia em que substituímos o Anthro. O pessoal da banda que sentiu-se ofendido, pela escolha do Mário Ronco a nosso favor, apareceu em peso e sentados na primeira fileira, com o teatro vazio, assistiram toda a passagem de som, em silêncio, mas encarando-nos de uma forma muito feia, como se fosse óbvia a nossa "culpa". Não falaram nada, mas tal atitude falava por si só...
Claro, o tempo passou e essa bronca dissipou-se, mesmo porque, não havia razão de existir. Tenho uma relação de respeito e amizade com o líder dessa banda, até hoje, que inclusive, é muito gente boa.
Independente desse momento de animação com a cooperativa, e as ações de Mário Ronco, tínhamos outros convites aparecendo.

Na semana posterior, por exemplo, tínhamos dois shows no Teatro Lira Paulistana, num outro micro festival organizado pelo produtor Antonio Celso Barbieri. Mas antes de falar disso, quero registrar um fato ocorrido alguns dias depois dos shows do Teatro Arthur Azevedo, que na época, chateou-me, mas vendo algum tempo depois, é digno do anedotário da banda, e quiçá da minha carreira inteira.

Para quem não conhece a cidade de São Paulo, deixo aqui uma explicação rápida sobre uma tradição típica da cidade, que são os jornais de bairro. Pelo fato de existirem centenas de bairros, e muitos serem gigantescos, com proporção e infraestrutura de verdadeiras cidades, comportam muitos jornais de bairro, que noticiam fatos do cotidiano de sua esfera etc. Poucos dias depois dos shows do Teatro Arthur Azevedo, o empresário Mário Ronco avisou-nos que uma carta de uma leitora fora publicada, num desses jornais, no caso de um que circulava na Mooca, bairro da zona leste de São Paulo, e onde localiza-se o teatro citado, onde tocamos. Claro, ele guardou exemplares, e eu guardei esse recorte, como uma peça curiosa de memorabilia, mais que portfólio, pois pelo fato de ser uma carta de leitor, não caracteriza exatamente um material de imprensa, portanto, não considero como portfólio.

Mas o curioso, é que a carta dessa moça, tinha o teor de uma reclamação indignada, como se o show da Chave do Sol tivesse lhe causado algum tipo de prejuízo pessoal, o que não deixa de ser hilário por esse tipo de abordagem histriônica. Eis a íntegra da missiva da garota mooquense :

"Sou assídua leitora deste jornal, entregue todas as semanas em minha residência, aqui no Alto da Mooca. Gostaria que publicassem minha opinião a respeito do show realizado durante a semana passada, no Teatro Arthur Azevedo, lá na avenida Paes de Barros, chamado 'Tendências do Rock'. Gostaria de saber o que acham esses artistas, ou pseudo-artistas-músicos brasileiros sobre as suas atuações nos shows.
Na sexta-feira, assistimos o conjunto A Chave do Sol. Acho que eles pensam que estão em qualquer lugar, menos no Brasil.
Tocaram tanto que nem perceberam que ninguém estava gostando, nem vibrando com tanto Jazz. Enfim, eles tocam para si próprios, o público que se dane"...

 

Essa carta com tal "reclamação", saiu na edição de 15 a 21 de março de 1985, do jornal semanal, "A Voz do Bairro", que circulava pelo bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. Não vou divulgar o nome da moça, mesmo porque, muito provavelmente ela nem lembra-se de que perdeu seu tempo escrevendo uma missiva com tal teor, para o jornal. Bem, ninguém é obrigado a gostar de nada. Isso é um princípio básico da vida. Segundo ponto, a minha lembrança pessoal do show é bem diferente, pois o artista em cima do palco sabe exatamente se o show está reverberando ou não. Quando não existe sinergia com o público, isso fica claro, límpido e sem dúvida alguma, chateando-se, claro. Todavia, não foi o caso dessa apresentação. Se ela ou seu acompanhante não gostaram, foram certamente manifestações isoladas e todos estamos sujeitos a isso, mesmo se a maioria esmagadora esteja adorando.

O direito dela expressar sua opinião, eu não contesto, de forma alguma. Claro que tem esse direito de falar o que pensa. Mas convenhamos, precisava ? Eu jamais escreveria uma carta para um jornal, para dizer o que ela disse, mesmo que tivesse razão, pois esse tipo de opinião é pessoal e nada acrescenta. Outro ponto, para que ser agressiva ?  Qual a motivação para usar de colocações desdenhosas tais como : "Pseudo-músicos" ? "Quem pensamos que somos" ?  Ora, realmente não lembro-me de termos sido arrogantes; altivos; presunçosos; prepotentes; ou agido com soberba, de forma alguma, em alguma fala ao microfone. E se ela identificou o Jazz em nossa música, sim, tínhamos tais elementos, mas o que poderíamos fazer se ela não aprecia tal gênero musical ? Bem, é claro que não mudou nada, mas não podia deixar de registrar um fato muito inusitado, já que nesta autobiografia, proponho-me a trazer todos os elementos dos quais lembrar-me, inclusive aspectos negativos e / ou curiosos, como esse...na mesma edição, uma mini matéria, enaltecia os shows, e trazia o contraste, com a opinião de vários leitores que foram assistir e haviam gostado.

Só mesmo essa moça parece ter estragado sua sexta-feira, 8 de março de 1985. Devia ter ficado em casa e assistido mais um capítulo de "Roque Santeiro", onde o "Sinhozinho Malta" não a irritaria com tanto Jazz... 
 

Como já antecipei, os ventos animadores vindos da cooperativa, mas principalmente da parte do empresário Mário Ronco, que mostrava-se dinâmico, estavam frutificando, mas outro produtor começava a despontar no meio do Rock paulistano, mostrando-se também bastante dinâmico. Dessa forma, alguns dias depois dessa empreitada no Teatro Arthur Azevedo, estávamos no palco do Teatro Lira Paulistana, num desses esforços promovidos pelo produtor Antonio Celso Barbieri. Incrível como o Teatro Lira Paulistana funcionava num ritmo frenético, com shows de segunda a segunda, abrindo espaço para artistas independentes, o tempo todo. Nesses dois shows em específico, tratava-se de duas datas arrumadas de última hora, para suprir a lacuna ocasionada por desistência de outro artista. Portanto, não houve tempo hábil para uma divulgação mais robusta. Os shows aconteceram nos dias 13 e 14 de março de 1985. Não lembro-me de nenhuma ocorrência digna de nota. Foram apresentações normais, sem surpresas, nem positivas, tampouco, negativas. A frequência, contudo, não foi das melhores, pois além de não termos tido tempo hábil para uma divulgação melhor, tratavam-se de dias úteis, sempre mais difíceis para atrair um público maior. No dia 13, 50 pessoas estiveram presentes e no dia 14, 35 pagantes. Não houve banda de abertura.
Mas o Barbieri estava com uma nova perspectiva na manga, que renderia frutos melhores, ali mesmo no Lira Paulistana, em abril de 1985, cujos planos de divulgação seriam mais bem executados, sem dúvida.

Logo no início de abril, uma entrevista relâmpago foi marcada para as bandas da cooperativa, no centro da cidade, para um jornal mainstream, a Folha de São Paulo ! Nesse dia, o telefonema inesperado derrubou-me pessoalmente, pois o procurado foi o Rubens, bem na hora em que eu estava na rua, dirigindo-me ao ensaio. Com a repentina convocação, não havia como esperar-me chegar e sendo assim, o Rubens ligou para o Zé Luiz, e ambos mobilizaram-se para representar a nossa banda na entrevista. Por isso, não estou na foto coletiva dessa matéria, tampouco o Fran Alves, com representantes de todas as bandas da dita cooperativa paulista de Rock. E o bacana, foi que além de ter sido matéria de quase página inteira, deu margem para que cada banda falasse um pouco de seu trabalho, saindo da pauta coletiva, e além da foto, teve o adendo de ser republicada ipsis litteris e no mesmo dia, também no jornal "Folha da Tarde" (que pertencia ao grupo Folha, logicamente), e também num jornal de Santos, no litoral de São Paulo.

Com pequenas mudanças na diagramação, manchetes diferentes e fotos diferentes (mas da mesma sessão), o teor da matéria, contudo, era rigorosamente igual.

Tudo isso era muito legal, claro. Sair com quase página inteira em três jornais mainstream, no mesmo dia, era um barulho e tanto, e todos ficamos contentes com essa ação do Mário Ronco, que mostrava serviço, logo de cara. Mas haviam os aspectos negativos, infelizmente, também...

1)Claro que a repórter Vivien Lando pautou sua entrevista pelo festival de preconceitos; maneirismos e até alfinetadas desdenhosas, mostrando um certo escárnio quando colhia opiniões, mesmo dos mais maduros, e cometendo reducionismos tolos, ao dimensionar o pessoal, como criaturas infantilóides.
Por exemplo  : " Netos do Deep Purple e do Black Sabbath; primos pobres do Scorpions, AC/DC e Ozzy Osbourne, os metaleiros paulistanos querem vir para vencer."
Outra pérola : "Só usam cabelo comprido, porque dá movimento no palco. Preferem as roupas pretas e não estão habituados a comer morcegos no palco"...
E outra, no mínimo, desdenhosa : " Os rapazes garantem que esse negócio de metaleiro não gostar de mulher, é tudo mentira".

2) Claro, as fotos mostram cabeludos gritando, fazendo gestos e "causando" em plena avenida São João. Eu não estava presente, mas posso imaginar o tipo de orientação que o repórter fotográfico da Folha, passou-lhes para colher tais "poses"...
Sou um "cabeludista convicto" (como dizia Odorico Paraguaçu...), mas na hora em que li a matéria, apesar de comemorar o benefício que trazer-nos-ia, claro que mensurei os aspectos negativos de uma abordagem infantilóide, tentando denegrir as bandas.
Não que arrependesse-se e desejasse estar na trincheira do outro lado, com os "Post-Punkers", mas deste lado de cá, também não era uma trincheira adequada e confortável, sem dúvida alguma...
Esse sentimento de deslocamento norteou a história da Chave do Sol, durante sua carreira inteira e não era nossa culpa, por um único detalhe cronológico : estávamos na década errada... se estivéssemos nos anos setenta, não teríamos esses conflitos de identidade, certamente. Bem, tudo isso é análise a posteriori, com distanciamento histórico super confortável... pois no calor do momento, o sentimento de que essa matéria em três jornais de grande circulação houvera sido benéfica, foi mais forte, apesar de eu ter tido a plena consciência dos pontos negativos, ali mesmo, no calor dos acontecimentos.

Na Folha de São Paulo, a manchete era : "Rock pesado de São Paulo já tem cooperativa"

Na Folha da Tarde : "O Rock amargo da periferia"

No jornal de Santos : "A prole metaleira de São Paulo explode na Praça do Rock"

Todas saíram nas respectivas edições do dia 2 de abril de 1985.
De certa forma, tais matérias ajudaram a impulsionar diversos shows que tínhamos agendados para o mês de abril, claro.
E no mesmo dia, uma nota curiosa saiu no caderno sobre televisão, do jornal "Folha da Tarde, citando-nos, com outro enfoque : a TV Cultura de São Paulo estava anunciando a gravação de um novo programa musical, e o piloto teria a nossa participação, além de outros artistas como "Smack";"Incoerentes", e o casal Eduardo Araújo & Silvinha. Seria apresentado pelo ator Chiquinho Brandão (que era famoso na época, por interpretar o "professor Parapopó" do infantil, "Bambalalão").

O programa chamar-se-ia "Trilha Sonora", e certamente teria sido uma tentativa de conquistar as viúvas do extinto "A Fábrica do Som". Sabíamos dessa manifestação de bastidores, e realmente estávamos convidados para participar do piloto, mas essa gravação nunca ocorreu, infelizmente, pois a TV Cultura abortou o projeto. Ficamos somente com essa nota no jornal, lamentavelmente...


Paralelamente a essas ações de mídia e shows, estávamos 100 % acertados com o Luiz Calanca, visando gravar um novo álbum. 
O que fechamos com o Calanca, era que gravaríamos no estúdio Vice-Versa, onde ele havia contratado um pacote de horas, pois administrava nesse estúdio, várias produções de seu cast de artistas, simultaneamente. Estávamos muito ensaiados, pois era uma praxe da Chave do Sol, desde o princípio, esse esmero em estar sempre muito afiado. Em cada banda que toquei, uma característica sempre realçou-se. Nos capítulos do Pitbulls on Crack, por exemplo, disse muitas vezes que naquela banda, eu ri muito, pelo fato de seus componentes terem espírito de humoristas, nato. 

Tranquilamente eu poderia afirmar que no caso da Chave do Sol, foi a banda mais afiada em que toquei, devido à seriedade com a qual dedicávamo-nos aos ensaios. E quando entrávamos em ritmo de pré-produção, a seriedade beirava o exagero, com ensaios específicos só para convenções; levadas de baixo e bateria; solos, etc etc. 

Dessa maneira, estávamos super preparados para gravar novamente de forma oficial, a despeito do pouco tempo em que estávamos trabalhando com o novo vocalista, Fran Alves. Simultaneamente, o Luiz Calanca foi ágil, e indicou um amigo dele para desenhar a capa e encarte do novo álbum. Segundo o Calanca, era um jovem ilustrador que estava trabalhando para a recém fundada revista Bizz. Seu nome era Líbero, e logo uma reunião inicial foi marcada na casa do Rubens, para podermos passar-lhe ideias, e dessa forma, o sentimento que nortearia o trabalho como um todo, além de um apanhado do teor das letras das canções, para com esses elementos, ele pudesse criar, e trazer-nos os primeiros rafs. No tocante ao estúdio, ficamos muito contentes com a confirmação do Vice-Versa, um estúdio fundado nos anos setenta, mas ainda em grande forma. Grandes álbuns do Rock e da MPB ali foram gravados, e o fato dessas gravações estarem impregnadas naquelas paredes, era sensacional como atmosfera para a nossa investida.
Lembro-me que além de nós, o "Platina", banda Hard-Rock que revelou o talento dos irmãos Busic, e do grande guitarrista Daril Parisi, estava gravando seu primeiro álbum. O "Harppia" finalizava o seu primeiro também, além do "Centúrias".
E ainda falando da turma pesada, o Calanca estava preparando o lançamento da coletânea "SP Metal", com quatro bandas no pacote, além de discos de bandas da cena pós-punk, que ele também apoiava. Não lembro-me ao certo, mas acredito que ou "Smack", ou "Voluntários da Pátria" estavam gravando, ou mesmo o "Fellini". 

Mas uma série de contratempos (incluso um pequeno acidente de moto que o José Luiz Dinola sofreu nesse ínterim), fizeram com que a 1ª sessão de gravação não acontecesse em março, como era o plano inicial. Na verdade, somado a alguns atrasos da parte do estúdio Vice-Versa, só fomos agendados para a primeira sessão, em maio, e para piorar, bem no fim do mês...
Bem, honrando as tradições da Chave do Sol, adivinhe o que fizemos ?
Claro, aproveitamos para ensaiar mais...

A questão da cooperativa, e a força demonstrada logo de início pelo empresário Mário Ronco, eram animadoras. Ao mesmo tempo, havia a presença cada vez mais marcante do produtor Antonio Celso Barbieri. Mas havia também uma terceira via, e que se tivesse mostrado reciprocidade, poderia ser tão boa quanto às duas primeiras que citei, ou até melhor. Foi o seguinte : um escritório de empresários interessou-se e abordou-nos, com uma proposta de trabalho.



Tratava-se de um escritório de empresários, com um cartel forte de contratados no seu cast. Entre outros nomes, esse tal escritório tinha entre seu cast de artistas : "Arrigo Barnabé"; "Premeditando o Breque", e "Sossega Leão".

A ideia era ter uma banda de Rock emergente, também, e A Chave do Sol encaixou-se na expectativa deles, pois eles ficaram impressionados com o nosso curriculum até ali. A primeira reunião ocorrera em janeiro e deixaram explícita a sua admiração pelo fato da banda já ter disco, e um portfólio em expansão, além de muitas aparições televisivas computadas, fora o fato de estar naquele momento, com muitos shows agendados e mais programas de TV e Rádio, também. Lembro-me também, que ficaram satisfeitos com a dinâmica de que a banda tinha uma proximidade com o Lira Paulistana, por estar constantemente apresentando-se no Teatro, mas também por fazer shows ao ar livre, com a produção deles, fora o aspecto de ter em suas fileiras, um ex-membro do Língua de Trapo, no caso, eu mesmo. Como marketing, era muito mais interessante ter uma banda de Rock no cast, mas com alguns elos de ligação com outros espectros, caso da Chave, muito mais que qualquer outra banda da cena pesada de 1985, sem esse tipo de ecletismo. Na conversa preliminar, saímos muito animados do escritório deles. Ficava localizado num prédio da Avenida Faria Lima, quase na esquina do cruzamento com a Avenida Rebouças.

Chamava-se "Raio X" esse escritório, e os responsáveis eram um casal : Ricardo e Bia. E o Fran tinha outra carta na manga, que era para ter sido aproveitada pelo "Ano Luz", sua ex-banda, mas que beneficiou A Chave do Sol, também. A revista "Rock Show", havia ficado devendo um anúncio de meia página para o "Ano Luz", numa ação paga ou via permuta, não recordo-me ao certo. Mesmo sendo um acordo verbal, a revista que tinha uma direção ilibada, honrou de pronto a dívida, assim que o Fran procurou-a, para comunicar-lhes que o "Ano Luz" havia encerrado atividades, mas estava reivindicando o anúncio para A Chave do Sol, banda em que ingressara recentemente.

E foi até comemorado esse fato, visto que o jornalista Valdir Montanari, que a dirigia, era fã do nosso trabalho, e havia publicado uma positiva resenha ainda em 1984, sobre o nosso compacto de estreia, na revista "Rock Star", que era da mesma editora. Então, em maio de 1985, engrossando a enxurrada de boas novas que estávamos tendo, esse anúncio foi publicado no número 5 da revista "Rock Show". A foto usada, foi da primeira sessão de fotos promocionais oficiais com o Fran na formação (na verdade, a segunda, e essa história será bem esmiuçada). Essa sessão foi feita no estúdio de uma fotógrafa, localizado no bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo. Tal fotógrafa era uma indicação do Luiz Calanca. Falo mais sobre essa sessão, que foi caótica, depois. O texto, foi elaborado por um assessor de imprensa que trabalhava no escritório desses empresários. É um pouco rebuscado, mas como "statement", pareceu adequado, embora particularmente, faz-me lembrar velhos anúncios de cigarros, quando ainda eram permitidos...
Eis o texto :

"A Chave do Sol

A Pura Energia do Rock

Uma banda de Rock supercarregada de energia. Quase um culto. Competência e preocupação com os caminhos do ser humano. Som pesado e performances arrasadoras. Técnica e sensibilidade. Tudo isso é A Chave do Sol. Rock  de qualidade. Para ficar".

Contatos : Raio X Empreendimentos Artísticos e Culturais Ltda.


Bem, fora o nosso curriculum, pegou bem demais entrarmos no cast desses empresários, e antes mesmo deles mexerem-se para fazer algo por nós, pelo contrário, a banda oferecer-lhes um anúncio grátis, com a divulgação de seu contato numa revista. Independente da "Rock Show" não ser a revista top de Rock no Brasil, como eram a "Roll" e a "Bizz" na ocasião, foi bacana. Curiosamente, na mesma edição desse anúncio, saiu também uma nota falando da cooperativa liderada pelo Mário Ronco, e elogiando a iniciativa, por sinal.

Em relação à sessão de fotos que citei em parágrafo anterior, na verdade, essa sessão foi um desdobramento de outra sessão feita dias antes. Explico : de fato, o Luiz Calanca havia providenciado uma sessão de fotos promocionais para a divulgação do novo disco. Mandou-nos então para um estúdio fotográfico localizado no bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo.

O nome do fotógrafo, era Tirteu, e recordo-me que a sessão fora tranquila, com bastante liberdade para a banda opinar etc etc.

Mas, por uma infelicidade estética qualquer, as fotos ficaram um tanto quanto lúgubres. Não era falha técnica, pois o fotógrafo era profissional, dispondo de grandes máquinas, e equipamento de iluminação adequado, fundo infinito etc. Mas o Luiz não gostou das fotos, e prevendo problemas quando enviasse-as para jornais e revistas, em anexo ao material de divulgação do disco, temia pela não publicação, prejudicando os nossos interesses em comum.


Particularmente, considero as fotos dessa sessão, bacanas, com climas interessantes. São de fato meio "carrancudas", mas o som da Chave nessa época, principalmente em se considerando o repertório do novo disco, de fato evocava uma certa aura sombria. Não havia muito cabimento em que fossem coloridas (de fato, a sessão foi toda em PB), com semblantes descontraídos e sorrisos abertos. Mas o Luiz era o produtor geral do disco e sua palavra teve peso definitivo no veto. Desta forma, ele convocou uma nova sessão, desta feita com essa fotógrafa que citei anteriormente, cujo estúdio localizava-se no bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo. Para início de conversa, o estúdio dela era totalmente improvisado, sem a estrutura profissional que o estúdio anterior oferecia. Apesar de ser uma pessoa bacana, e que recebeu-nos muito bem, demonstrava não ter noção do que faria conosco, como estratégia de enquadramentos. Pior ainda, no afã de ser "agradável", ligou o som, e colocou "Rock", para entrarmos no clima, e soltarmo-nos nas posturas faciais e corporais, mas "Rock" no conceito dela, ou seja, um festival de sons tenebrosos de bandas do Pós-Punk, que ela julgou que gostávamos, por ser a última onda na casa noturna "Madame Satã", ou similares...
Aquele mal estar instaurou-se, até que o Zé Luiz tomou a dianteira e pediu-lhe com "jeitinho" para desligar o som, pois considerava que relaxaríamos mais, fotografando no silêncio...
Infelizmente, a sessão estava desconfortável, tanto pela ausência de um fundo infinito minimamente condizente com o espaço de enquadramento, quanto na inabilidade dela para dirigir a sessão.
Então, incomodada pela ineficácia que estava proeminente, ela sugeriu externas. Aquilo já irritou-me pessoalmente, pois detesto sessão de fotos em externas, normalmente.

E para piorar, estávamos sem uma ambientação interessante que justificasse uma sessão externa. Se ao menos estivéssemos num tremendo lugar "descolado", e que corroborasse tal esforço, mas simplesmente sair à rua, e tirar fotos andando na calçada de uma via normal de bairro, com residências; comércio; placas de trânsito, e semáforos, o que acrescentaria ? Abordagem urbana ? Puxa, nesse caso, existem "trocentos" lugares mais significativos em São Paulo para tal mote, do que uma rua residencial normal do bairro do Paraíso...
Bem, a verdade é que ela estava perdida, e essa ideia de sair à rua deve ter sido a melhor sacada que teve para tentar salvar a sessão...

Então, tiramos algumas fotos sentados numa garagem aberta da casa dela, que mais parecia um banco de reservas de estádio de futebol. Para piorar as coisas, ela sugeriu alguns clicks num terreno baldio do outro lado da rua. Era um terreno onde recentemente uma série de casas foram demolidas, para dar lugar à um prédio residencial. Então, ela teve a proeza de irritar-me duplamente, pois além de detestar externas, eu odeio ainda mais fotos tiradas em ambientes decadentes; sob escombros; ruínas; sujeira; devastação, etc etc.

Sob protesto, lá estou eu de terno de cetim ultra setentista, brilhando sob o sol das 11:00 h da manhã de um dia de abril de 1985, pisando num entulho asqueroso e barrento, amontoado, e a espera de uma caçamba de lixo, naturalmente.... tudo a ver, não é mesmo ?? Infelizmente, acho essas fotos horríveis, mas elas ilustraram várias matérias, e algumas foram reaproveitadas pelo Luiz, quando ele lançou o álbum na versão CD, no início dos anos 2000. Bem, não demos sorte nessas duas sessões de fotos, mas ainda acho a primeira sessão, apesar de lúgubre, muito melhor, e algumas fotos dessa sessão acabaram sendo publicadas também.

Fora tudo isso, acho que faltou direção visual para a banda, no quesito figurino, principalmente. Em relação à primeira sessão, como era um dia de temperatura mais baixa, usamos roupas casuais do cotidiano, porém mais pesadas, condizentes com o frio do dia. Sendo assim, acho que apesar da casualidade informal geral, vestimo-nos melhor nessa sessão, com blazers, casacões de lã etc.
Um pecado cometido foi a troca de acessórios entre nós, típico amadorismo de quem não é do ramo fotográfico, e nem preocupa-se com um detalhe : se mais de uma foto for publicada na imprensa, corre-se o risco daquele acessório compartilhado, ser visto sendo usado por mais de um componente da banda, denotando amadorismo, ou no mínimo, uma caráter prosaico no trato da imagem, enquanto artista.

Então, cometemos esse deslize, pois tem fotos publicadas com o Rubens usando um chapéu acrescido de uma echarpe de seda, mas em outras, eu mesmo uso-o, e tem também fotos do Fran, ostentando-o na cabeça...
No caso da segunda sessão, combinamos de levar roupas de show. Mas esbarramos em conceitos não bem delineados nessa aspecto, pois o Zé Luiz de última hora, achou "legal" fotografar sem camisa, apesar de estar usando uma calça vermelha de courvin, bem condizente com a indumentária de bandas de Heavy-Metal oitentistas. Eu, com aquele terno de cetim ultra setentista, como se fosse tocar com o Humble Pie em 1973, e o Fran também insistindo em aparecer sem camisa. Ora, faltou um direcionamento que buscasse uma maior linearidade, pois daquele jeito, parecia que éramos convidados de uma festa a fantasia, e cada um tinha um personagem distinto.

Esse tipo de disparidade visual numa sessão de fotos já arruinaria a sessão por si só, mas para piorar, a fotógrafa não tinha estrutura, e demonstrava falta de criatividade total para lidar conosco. Em suma...fotos promocionais que havíamos feito num fotógrafo de bairro, sem nenhuma experiência com approach artístico, em 1984, eram / são muitos melhores...
Bem, não foi só esse erro que cometemos em relação à parte visual desse disco novo. Quando falar mais da capa, esmiuçarei um pouco mais esse assunto, que redundou em frustração, infelizmente.


Outro dado interessante dessa época, a ser registrado : o volume de cartas que chegava à nossa caixa postal, crescia de forma acentuada. Tanto que começou a chegar num ponto, onde não estava dando mais conta a maneira prosaica com a qual lidávamos com tal questão. No início, eu mesmo, pessoalmente, respondia todas as cartas. A não ser quando havia alguma solicitação de contato com o Rubens, ou Zé Luiz, eu encaminhava, mas em 99% das ocasiões, eu respondia a todas as cartas. Com o aumento do volume, que era uma soma de todos os nossos esforços de divulgação, era nítida essa somatória, denunciada pelo próprio teor das missivas. Eram pessoas que abordavam-nos por terem visto-nos em programas de TV; Rádio; ou por terem lido reportagens em revistas e jornais; além de também terem assistido shows ao vivo, e anotado o endereço por ouvir-nos falar ao microfone; ou mesmo abordando um roadie etc e tal. Então, era premente a necessidade de organizar melhor esse filão muito animador, onde poderíamos potencializar a divulgação da banda, e fazer dinheiro, se o fã clube se tornasse um catalisador de merchandising. Já tínhamos camisetas e bottoms, fora o disco inicial, como material a ser vendido nos shows ou pelo correio, mas começamos a pensar numa ampliação dessas possibilidades.

Mas para tanto, era fundamental a participação maior dos outros membros nessa empreitada, e claro, o Zé Luiz foi fundamental nesse processo de organização maior e melhor do fã clube, entrando com seu poder de trabalho. Juntos, criamos uma estrutura que cresceu e foi azeitando-se de forma acentuada, atingindo o seu ápice no ano de 1986, quando tornou-se uma "fabriquinha" rentável, e importante também na promoção da banda. Paralelamente, tivemos um revés mais ou menos em abril de 1985, mas que não desnorteou a banda, de forma muito acentuada. Como já comentei anteriormente, desde o início do ano, estávamos no cast de uma produtora chamada "Raio X", que trabalhava a carreira de artistas de peso, como "Arrigo Barnabé"; "Premeditando o Breque", e "Sossega Leão", entre os mais proeminentes. O começo houvera sido promissor, com a dupla de empresários Ricardo e Bia, mostrando-se solícitos e animados com a inclusão da Chave como opção mais rocker ao seu cast etc etc.

Mas com o passar dos meses, nossa carreira não havia tido um sinal sequer de avanço por parte de algum esforço vindo deles. O que estávamos conquistando, era claramente fruto de nossos próprios esforços, amparados pelo bom embalo que tínhamos precipitado desde meados de 1983, somados aos recentes adendos de Mário Ronco e Antonio Celso Barbieri, e também, certamente,  pelo Luiz Calanca, ao acenar com um novo álbum para breve. Enfim, da parte de quem mais contávamos, visto serem "nossos empresários" oficiais, nada acontecia. O único evento, paradoxalmente, fora proporcionado por nós mesmos, ao termos conseguido um anúncio na revista "Rock Show", promovendo o escritório "Raio X", numa carta que o vocalista Fran Alves, tinha na manga. Então numa reunião datada de abril de 1985, cobramos um empenho maior da parte deles e pelo menos conseguimos uma solução final, ainda que amarga nessa infrutífera associação. Numa conversa franca, Ricardo e Bia lamentaram, mas alegaram que estavam focados em duas frentes : A turnê de Arrigo Barnabé pela Europa, e a produção do novo LP do Premeditando o Breque, que assinara com a EMI-Odeon e iriam passar uma temporada no Rio, gravando com a produção de Lulu Santos.

Ora, claro que eram produções grandes e demandavam a atenção da dupla, mas é o tal negócio : por que não dimensionaram isso antes de contratarem-nos ? Não sabiam que não reuniriam condições de trabalhar com tantos artistas simultaneamente ?
Outra questão : um artista emergente, mas ainda não solidificado como A Chave do Sol era naquele instante, precisava de uma estratégia de ação mais incisiva, do que artistas consagrados como o Arrigo Barnabé, por exemplo, que não careciam de tanto esforço, "dirigindo na banguela", como diz-se na gíria. Apreciamos a franqueza, e como era um contrato verbal tão somente, não tivemos transtornos burocráticos com esse rompimento. Na parte estrutural, pouca coisa mudou na nossa vida. Na base do "trabalho de formiguinha", estávamos crescendo acima de nossas forças, pelo aspecto da proporcionalidade. Claro, se tivessem empenhado-se condizentemente, poderia ter sido muito bom para ambas as partes, mas infelizmente não enxergaram potencial na banda, e preferiram centrar seus esforços em artistas em que acreditavam muito mais.
Quanto à isso, não tínhamos nada a reclamar, por tratar-se de escolha e estratégia. Contudo, ficou a dúvida : por que não dimensionaram isso, antes de contratar-nos ??
Vida que seguiu...não foi a primeira, e tampouco a última vez em que tivemos frustração com empresários...

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