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sábado, 16 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 8 - Indignado...Fodido...Dias de Chico Dias - Por Luiz Domingues

 

Houve um evento na Praça Benedito Calixto, com bandas desconhecidas num domingo a tarde, nesse mês de agosto de 1984.
Eu; Rubens e Zé Luiz fomos prestigiar, mesmo porque estávamos começando um relacionamento com a cúpula do Teatro Lira Paulistana, e acabáramos de apresentar-nos com sucesso no teatro.

Uma determinada banda foi encaixada de última hora no evento, mas o baixista estava desprevenido, e alguém do Lira pediu-me a gentileza de emprestar o meu baixo para o rapaz tocar. Sinceramente não lembro-me porque eu estava com o meu baixo ali em mãos na ocasião, pois a Chave não iria tocar. Mas enfim, eu socorri-o e a banda pôde apresentar-se. A banda não tinha nada demais, pois era muito fraca. Parecia o som da banda gaúcha, "Os Garotos da Rua", banda que tinha um pouco de projeção no Rio Grande do Sul, mas esta, chamada "Licor de Maçã", além de ser obscuríssima, era muito piorada.


 

Por coincidência, eles também eram gaúchos, e estavam apostando suas fichas nessa apresentação para tentar a sorte em São Paulo, o que prova que sonhar é gratuito, mas tornar tal devaneio uma realidade, custa muito caro. Mas uma coisa chamou-nos a atenção : o vocalista tinha um potencial vocal muito bom e presença de palco interessante, ainda que precisasse de muita lapidação. O importante é que detectamos um potencial forte no rapaz. Lembro-me de nós três entreolharmo-nos durante a apresentação da banda, e comentarmos sobre isso.

O Rubens foi esperto, e assim que terminou a apresentação da banda, abordou-o saindo do palco, e convidou-o para um teste com  A Chave do Sol, no dia seguinte. Na hora, o rapaz aceitou, pois sabia que seria muito difícil conseguir algo para a sua banda, e que na verdade, tentava a sorte individualmente, também, e os seus colegas sabiam disso. Portanto, sem ferir nenhuma questão ética, o convite foi feito, e o sujeito aceitou o teste e uma conversa. Trocando contatos, o Rubens combinou de buscá-lo no local onde hospedara-se, e no dia seguinte, às três da tarde, o rapaz estava no nosso ensaio, pronto para submeter-se a um teste.

Lembro-me que foi excepcional o desempenho, e após algumas músicas tocadas (clássicos do Rock 1960 / 1970), formalizamos o convite, e ele aceitou efusivamente. Dava para sentir nele a empolgação, como se estivesse com um bilhete de loteria sorteado em mãos. Ele conhecia A Chave do Sol, graças às nossas aparições no programa "A Fábrica do Som", que era retransmitido para o Rio Grande do Sul, via TVE gaúcha. Naquele dia mesmo, o levamos à rodoviária, pois ele precisava voltar imediatamente ao sul, e ficamos com a incumbência de providenciarmos um lugar para ele morar aqui em São Paulo. Ele voltaria em poucos dias, com sua bagagem definitiva, e tivemos que correr para arrumar um lugar.
Mal sabíamos contudo, que seria uma etapa de muitas histórias a serem acumuladas, que hoje reputo como cômicas, mas muitas, foram dramáticas à época. Apertem os cintos, pois contarei todas as que lembrar-me, a partir deste ponto. Era a "fase Chico Dias" que iniciava-se para A Chave do Sol, que foi muito rápida, porém intensa...

Foto do Chico Dias, em Click, acervo e cortesia de Julio Revoredo

Então, nesse ínterim do Chico Dias ter voltado à sua cidade natal para preparar sua mudança para São Paulo, passamos um bom tempo procurando uma moradia para ele. Naturalmente, não tínhamos condições de abrigá-lo em nossas respectivas residências e dessa forma, nossa ideia original foi buscar uma acomodação numa pensão, onde ele pudesse ter um quarto privativo.

Com a verba curta e na impossibilidade dele bancar-se sozinho por muito tempo, era a mais razoável alternativa, visto que não dava para pensar em alugar uma casa ou apartamento para ele viver com mais comodidade. Tínhamos a esperança, todavia, de que essa acomodação num pensionato simples, seria momentânea e com a banda alçando voos maiores, ele poderia enfim acomodar-se com maior conforto. E a busca começou pela maneira mais usual que dispúnhamos nos anos 1980, numa fase pré-internet popularizada : através de um jornal de classificados chamado "Primeiramão".

Havia uma infinidade de anúncios de pensionatos oferecendo quartos e dessa forma, selecionamos os mais próximos da casa do Rubens, pensando na facilidade do Chico Dias locomover-se, e principalmente levando em consideração o fato dele não conhecer absolutamente nada em São Paulo. Claro, o fator financeiro também pesava e não podia ser muito caro...
Nossa busca foi intensa e também bizarra em alguns momentos. Lembro-me de ter visitado pelo menos entre oito a dez pensionatos, e em alguns, termos tido reações estranhas por parte de seus donos.
Por exemplo, num deles, quando viram-nos, resolveram simplesmente mentir, dizendo que a vaga estava preenchida. Ha ha ha ... sentimo-nos como naqueles filmes americanos focando em preconceito contra negros; índios ou hippies...

Noutro, eram simpáticas senhoras idosas e adoraram-nos, pois éramos cabeludos, mas bonzinhos, educados... e dessa forma, ofereceram-nos chá, biscoitos etc. Parecia um ambiente familiar bacana, e ficou entre as favoritas para fecharmos negócio. E um foi demais !! Era uma casa sinistra, com retratos estranhíssimos pelas paredes, parecendo um mausoléu. Com decoração lúgubre, parecia a casa da Família Adams...

A senhora que atendeu-nos lembrava personagem dos filmes do Zé do Caixão e por mais engraçado que parecesse, não achamos adequado colocá-lo ali, pois em dois ou três dias, ele entraria em depressão...
Todavia, mesmo nas casas onde achamos condições boas para o Chico viver, o fator aluguel preocupava-nos. A banda crescia e tinha uma agenda em expansão, contudo ainda não tínhamos uma estabilidade que permitisse segurança absoluta. Era um risco grande que corríamos e ele também, claro.

Vendo com o prisma da minha atual idade, sem dúvida que foi uma loucura bancar a vinda dele numa circunstância assim. Da parte dele, mais ainda, considerando que era um garotão, com apenas 18 anos de idade naquela ocasião. Mas, admiro o arrojo e sobretudo a confiança que tínhamos no trabalho. A confiança que tínhamos no sucesso da banda, era muito grande, e isso é algo a ser considerado.
Estávamos quase fechando com uma pensão, apesar do aluguel estar acima do razoável para as nossas posses, quando uma solução doméstica e providencial surgiu, através de um grande amigo e colaborador da banda...


Chico Dias já vestindo a camisa da nossa banda, literalmente, e feliz da vida no portão de entrada da residência do poeta Julio Revoredo. Click e acervo do próprio Julio Revoredo

Pois foi o poeta Julio Revoredo quem teve a ideia que salvaria essa situação. Partindo inteiramente dele a iniciativa, propôs que Chico Dias ocupasse um quarto que estava vago em sua residência, no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo. Tal oferta generosa foi imediatamente aceita por nós, e além do mais, para quem não conhece São Paulo, se não era exatamente perto da residência do Rubens, digamos que ficava numa linha reta, bastando usar qualquer ônibus que circulasse pela Av. Santo Amaro, sentido centro, e sem trânsito, chegava-se em 20 minutos aproximadamente. E também dava para encarar a pé, não era nenhum bicho de sete cabeças.
Claro, ficou estabelecido que o Chico daria uma ajuda de custo para auxiliar nas despesas, visto que faria refeições, fora as demais despesas naturais de uma residência. Mesmo assim, sairia muitíssimo mais barato do que hospedá-lo numa pensão tradicional.
Fora o fato de que estaria num lar, muito diferente de ficar numa pensão entre estranhos e sem dúvida, com o Julio Revoredo, ele estaria acompanhado de um grande amigo, incentivador e colaborador / parceiro da banda.

O dia em que o Rubens foi buscar Chico Dias na rodoviária Tietê : habemus vocalista ! Click, acervo e cortesia de Julio Revoredo

Então, poucos dias depois, assim que chegou do Rio Grande do Sul, o Rubens levou-o à residência do Julio. Esse dia "histórico" para A Chave do Sol, foi registrado em fotos, pelo próprio Julio, que sempre teve o hobby de fotografar. Era um passo e tanto para o jovem Chico Dias. Ele estava com o semblante assustado, e sua adaptação não foi nada fácil. Demos um dia de folga para ele recuperar-se da longa viagem e no dia seguinte, teríamos o primeiro ensaio e o início de um esforço para colocá-lo em condições de apresentar-se ao vivo, visto que tínhamos datas fechadas a vista.

E havia uma preocupação extra : com a mudança de formação de trio para quarteto, o repertório sofreria mudanças. Precisávamos de mais músicas vocalizadas, diminuindo a quantidade de temas instrumentais, que tínhamos em profusão na primeira fase da banda.
Além disso, era a oportunidade para criar mais canções pesadas, dentro daquela proposta de adequar mais o som à realidade dos anos oitenta. Enfim, era um tempo de muito trabalho para correr contra o relógio e deixar A Chave do Sol em condições de brigar por um espaço no mainstream do BR-Rock 80's.

Chico Dias posando num daqueles muros que picháramos em 1983... Click, acervo e cortesia de Julio Revoredo

A adaptação de Chico Dias à megalópole de São Paulo, não foi nada fácil. Para ele, Porto Alegre já era demasiada grande, pois sua cidade de origem era Rio Grande, no litoral sul do estado, quase na divisa do Brasil com o Uruguai. Por coincidência, eu conhecia a cidade portuária de Rio Grande. Eu tinha / tenho parentes paternos naquela cidade, e por três vezes, visitei-a, em 1961, 1967 e 1976.

Esse fator ajudou-me a criar uma atmosfera tranquilizadora para ele, pois conversamos sobre a cidade, embora minhas memórias fossem poucas, mais centradas na viagem de 1976, quando eu já era adolescente e evidentemente armazenei mais lembranças sólidas.
Rio Grande era uma cidade pequena, apesar de ter um porto gigantesco, o mais meridional do Brasil e se não engano-me, o terceiro em tamanho, apenas atrás de Santos e Rio de Janeiro.

Fica distante cerca de 60 Km de Pelotas, esta por sua vez, uma cidade de maior porte, uma das maiores do estado do Rio Grande do Sul. Por isso, eu podia compreender o choque que era para ele, estar em São Paulo e enfrentar a rudeza da megalópole, para quem não está habituado.

Esse foi o primeiro ponto. Mas haviam outros, naturalmente, a começar pelo fato de que ele era extremamente jovem, e apesar do potencial vocal, sua inexperiência era preocupante. Essa transição de uma pequena banda interiorana, acostumada a parcas apresentações amadorísticas para algo muito maior, era assustadora, claro.

Estávamos fora do mainstream, mas o tamanho que tínhamos naquele momento de 1984, era incomensurável numa análise comparativa em relação à sua ex-banda. Só o fato de termos um disco, o compacto recém lançado, já era algo extraordinário para os parâmetros dele. Fora as exibições de TV; entrevistas de rádio; perspectivas de shows, e resenhas publicadas por jornais e revistas.
Sem dúvida, era algo muito grande para o imaginário dele, e aliado à sua extrema juventude e inexperiência, mais a adaptação à cidade grande, era um turbilhão.

Para amenizar esse choque, eu, Rubens e Zé Luiz imbuímo-nos de boa vontade para dar-lhe o melhor respaldo possível. Fora o poeta Julio Revoredo e sua família que acolheram-no, a família do Rubens que tratava-o muito bem, e a do Zé Luiz, idem. No meu caso, por morar mais longe, ele teve pouco contato com meus familiares, mas também foi bem tratado, apesar disso. E indo além, ele também foi "adotado" por muitos amigos da banda, aquele pessoal que gravitava em torno da banda, e acompanhava-a desde 1982.

Com uma única exceção : o Wagner "Sabbath" nunca absorveu a ideia de que nós nunca cogitamos dar-lhe uma chance para ser vocalista da banda, apesar de seus insistentes pedidos para teste, canjas e afins. 

Portanto, quando viu que efetiváramos Chico Dias, um rapaz que apareceu "do nada", vindo lá do litoral do Rio Grande do Sul, sentiu-se magoado, certamente. Porém, a sua mágoa não voltou-se contra nós, especificamente, mas dirigiu-se ao Chico Dias.
O clima foi sempre hostil entre os dois, e quase acabou nas "vias de fato'", certa vez, com a "turma do deixa disso" apartando a tempo, numa ocasião, na porta da casa do Rubens. Logo teríamos shows, e o Chico precisava estar bem ensaiado e pronto para a estreia. E tínhamos a preocupação também de realizar uma urgente sessão de fotos, e um novo release, com a sua incorporação à banda, devidamente relatada. Contudo, faríamos shows ainda como Power-Trio antes da estreia dele.


Resenhas sendo publicadas e animando-nos muito ! Aqui, num jornal de grande circulação em Curitiba, extrapolando fronteiras interestaduais.

E como tínhamos compromissos marcados para um curto espaço de tempo, decidimos só promover a estreia do Chico Dias, num outro momento adiante, com maior segurança. Por isso, fizemos os shows mais próximos ainda no formato do Power-Trio, adiando a estreia dele para setembro. Nesse ínterim, era dramática a adaptação, como já citei anteriormente. Apesar de ter aprendido a deslocar-se da casa do poeta Julio Revoredo para o ensaio, até a casa do Rubens (sendo inclusive ciceroneado pelo próprio Julio, nos primeiros dias), isso assustava-o. 
Mas haviam outros temores da parte dele, indisfarçáveis e que compreendíamos, pelas circunstâncias. Por exemplo, notamos que ele evitava sempre ocupar o banco do passageiro, no carro do Rubens, ou no do Zé Luiz. O motivo era prosaico : ficava apavorado com o movimento, principalmente em relação ao enorme fluxo de ônibus nas grandes avenidas.

E logo deu mostras de que estava com saudade de sua rotina caseira, ao lado da família, e na segurança de sua pequena cidade.
Muito natural que sentisse tal nostalgia, entendíamos, mas ao mesmo tempo, preocupava-nos, pois mal estávamos iniciando a convivência, e não havia acontecido ainda nenhum show sequer.
Lembro-me dele tecer comentários singelos do tipo : -"três da tarde... nesta hora, a minha mãe estava preparando-me um mingau..." com seu forte sotaque gaúcho.


Se por um lado entendíamos a sua nostalgia, e relevávamos o fato de estar sendo duro para ele estar em São Paulo, arriscando uma carreira e tendo respaldo de estranhos praticamente, por outro, vendo pelo aspecto frio, era preocupante também para nós, termos feito uma aposta em alguém tão novo, desestruturado financeiramente, e tão longe de casa. Se ao menos ele fosse paulistano e tivesse a estrutura familiar presente, tudo seria mais fácil para ambos, é claro. Mesmo sendo bastante imaturo, daria para nós arriscarmos a aposta, baseado no potencial artístico dele. Porém, sem respaldo sócio / familiar, tudo amplificava-se em termos de insegurança mútua.

E ainda haviam outros aspectos : além de prepará-lo para o palco, preocupava-nos a sua imaturidade para ser frontman, num momento em que a banda estava tendo oportunidades na mídia.
Como comportar-se-ia numa entrevista (e de fato, teríamos que submetê-lo à isso), e logo surgiriam tais compromissos ?
Tanto no rádio, quanto na TV, seria inevitável que dessem-lhe a palavra, mesmo se nós três, mais tarimbados e acostumados, tomássemos a dianteira. Seria natural que o "vocalista" fosse procurado pelo entrevistador, até mais do que qualquer outro membro. E mais um fator : num momento em que estávamos aprimorando o nosso figurino, ele chegou em São Paulo, despreparado nesse quesito. Portanto, era mais uma preocupação que tínhamos...

Dessa forma, o show mais próximo em questão, realizou-se ao ar livre, na Praça Benedito Calixto, em Pinheiros, em frente ao teatro Lira Paulistana. Era parte do show de lançamento de um livro chamado "Das Tripas, Coração" de um escritor chamado Dau Bastos. Cerca de 300 pessoas estavam presentes, e não havia nenhum nome forte que tivesse tocado no mesmo dia. A maioria das bandas que ali apresentaram-se, eram de pequeno porte, não despertando a minha atenção, nem como possivelmente emergentes. Isso ocorreu no dia 12 de agosto de 1984.

Foi um show de choque, naturalmente, e lembro-me de termos tocado músicas óbvias para esse tipo de apresentação rápida, tais como "Luz" e "18 Horas". Ainda em agosto de 1984, realizamos mais duas apresentações no formato do Power-Trio, antes de promover a estreia oficial do vocalista gaúcho, Francisco Dias, vulgo "Chico Dias". O próximo, inclusive, seria um a ser realizado no interior de São Paulo, na cidade de Vinhedo, bem próxima da capital, e no meio do caminho para Campinas.

Era uma casa noturna, que propunha-se a seguir a moda oitentista das "danceterias". Chamava-se "Scalla", e era localizada no centro daquela simpática cidade interiorana. Instalada num casarão típico do interior, e adaptado de residência para casa noturna, tinha esse charme extra, mas claro, deixava a desejar na infraestrutura para abrigar shows de Rock. O fato, é que na realidade, toda a "aura" de danceteria, na verdade, ficava mesmo obscurecida, evidenciando tratar-se de um clássico barzinho, com palco minúsculo; luz e P.A.deficientes; ausência de um camarim, etc etc.
Esse show foi um pouco tenso, contudo. Isso porque o contratante não informou-se corretamente sobre o nosso trabalho e dessa forma, esperando que tocássemos covers do Br Rock oitentista, irritou-se com nosso repertório autoral, e intragável para um público incauto de playboys.

E pior, fomos um pouco hostilizados por playboys interioranos. E o motivo era outro, fora da questão do mal estar gerado por não tocarmos músicas conhecidas. O fato, é que alguns contrariaram-se por notar que algumas meninas estavam entusiasmadas conosco, mais pelo fato de sermos cabeludos, coisa rara naqueles tempos oitentistas, e sobretudo por sermos da capital.

Então, entre uma música e outra, alguns insultos foram proferidos e mesmo assim, levamos adiante sem abalarmo-nos, pois aceitar a provocação era o que queriam, certamente. Ficou nisso, mas curiosamente, duas semanas depois, enfrentaríamos o mesmo problema, em outra cidade interiorana e dessa vez, o imbróglio foi mais sério. E ainda falando desse show na danceteria "Scalla", eu, particularmente, fui hostilizado quando fui trocar-me no banheiro coletivo da casa, único lugar onde era possível tal arrumação, na ausência de um camarim decente. Muitos playboys ironizaram o meu visual rocker, e a questão ali não era a típica confrontação de oitentistas contra rockers sessenta / setentistas (prática normal naquela década), mas ignorância mesmo, estilo "velha guarda", hostilizando por eu ter cabelo comprido. Oitocentas pessoas mais ou menos, estiveram presentes, e certamente não entrou para a história da banda como uma de suas melhores apresentações, apesar do cachet ter sido bom, único ponto
positivo, nesse dia 18 de agosto de 1984. 


Enquanto preparávamos o vocalista Chico Dias para a estreia, sentimos que o próximo compromisso, apesar de importante para a projeção da banda, era ainda prematuro para que ele, Chico, pudesse estrear com segurança. Tratou-se da nossa primeira aparição num evento ao ar livre que ganhava força em São Paulo naquela ocasião, denominado, "Praça do Rock". 
Vista aérea do charmoso Parque da Aclimação, localizado no bairro de mesmo nome, na zona sul de São Paulo

Era uma iniciativa de um simpático jornal de bairro, o "Jornal do Cambuci e Aclimação", bairros que envolvem o famoso Parque da Aclimação, onde o evento estava ocorrendo já com algumas edições transcorridas. Esse evento era um sonho pessoal de um jovem músico, chamado Dalam Junior, morador do bairro, e muito ativo nas ações culturais e de cidadania. Por ser um militante ativo de tais ações, ficou muito amigo dos editores do jornal do bairro, o simpático casal Roberto e Mirna Casseb. Eles também eram ultra ativos nas ações de cidadania, com múltiplas realizações em prol dos bairros que circundam o parque e incluso, muitos agitos culturais e esportivos. 
E dessa forma, com esse entusiasmo, viabilizaram no departamento de parques da prefeitura de São Paulo, a autorização para o evento "Praça do Rock", e patrocínio da secretaria de cultura municipal para promover o evento, com a questão de equipamento e ajuda na divulgação. O Dalam foi decisivo nesse processo, por ser um músico em atividade intensa, e conhecer muita gente do meio. Seu entusiasmo como produtor era a mola mestra de tudo.

Nós já sabíamos da existência desse evento, desde 1983, e já tínhamos levado nosso então tímido material para oferecermo-nos a participar. Mas o tempo passou, e A Chave do Sol alcançou outro patamar muito diferente entre um ponto e outro, no momento em que fomos escalados para participar, em agosto de 1984. E o evento "Praça do Rock" também crescera nesse ínterim, com muito mais público presente, e o Dalam batalhando para fazê-lo crescer a cada dia, melhorando sua logística toda.

                         Dalam Junior em foto bem mais atual  

Portanto, quando fomos escalados, era um momento bem mais propício para a banda e o evento seria uma ótima oportunidade de dar-nos novo élan, somando-se a tudo o que estava ocorrendo conosco em termos de projeção, naquele instante. Sendo assim, ficamos muito animados a participar, apesar de lamentando o fato do Chico Dias ainda não estar preparado adequadamente, pois sentíamos que precisávamos de um frontman, urgentemente.

Nesse ínterim, em meio à adaptação do vocalista Chico Dias conosco, muitas coisas aconteciam paralelamente, conforme já alertei anteriormente. Passados os dois shows de lançamento oficial do compacto, tínhamos perspectivas de divulgação nas rádios e TV's. Começavam a aparecer também, as primeiras resenhas do disco, na imprensa escrita.


A primeira resenha que muito animou-nos, foi na Revista "Roll", que era naquele momento de 1984, a principal revista de Rock & Pop do país. Super calorosa, elogiou-nos e cotou bem o lançamento.
Essa primeira resenha numa revista de porte nacional, além de orgulhar-nos, abriu portas, pois dali em diante, passamos a frequentar as páginas de outras revistas, além de voltarmos à Roll, muitas vezes. Assim como as aparições no programa "A Fábrica do Som", foram importantes para colocar-nos na linha de frente para "brigar" por um lugar no mercado, quase na mesma proporção, aparecer nas páginas de revistas como a Roll, tinham o mesmo efeito. Disse "quase", pois o peso da TV é muito maior como difusor de imagem, em relação à imprensa escrita, obviamente.
Essa resenha foi publicada na edição de agosto de 1984, em seu número 9.

Tirante notas de shows e uma micro entrevista concedida ao jornal "Folha da Tarde", ainda em 1982,  essa resenha da revista Roll, foi sem dúvida a melhor peça de portfólio que conseguimos, do início da banda, até esse momento de julho / agosto de 1984. Coisas melhores viriam na imprensa escrita doravante, mas essa resenha foi realmente a primeira importante, e com visibilidade num órgão focado no mundo do Rock, e música em geral. Eis a reprodução do que publicaram a nosso respeito :

"O Compacto de estreia do grupo paulista, A Chave do Sol, produção independente de Baratos Afins, mostra que ainda é possível fazer um bom Rock, sem grandes inovações, , desde que o trabalho seja realizado por músicos talentosos. E, é exatamente este o caso do grupo A Chave do Sol. No lado A do compacto simples, eles tocam um rockão. com uma ótima presença da guitarra de Rubens Gióia e pelo belo apoio vocal de Soraia e Rosana. A música, intitulada  "Luz", possui uma grande espontaneidade, além daquele clima bem swingado, característico do legítimo Rock. No lado B, a faixa "18 Horas", um tema instrumental, tipo jam-session, onde os músicos mostram todo o seu virtuosismo. A excelente linha de baixo de Luiz Domingues, as viradas do baterista Zé Luis e a perfeita levada do guitarrista Rubens, se complementam, formando um som compacto e uniforme, sem maiores pretensões. Para um grupo estreante no vinil e com a proposta de fazer um som que reúna um pouco do blues, do Rock, do progressivo e do Hard-Rock, o Chave do Sol pode ser saudado como uma grata revelação e, no mais, é torcer, para que em breve, eles possam mostrar todo o seu potencial num LP. Obs. : o compacto do Chave do Sol só se encontra à venda na loja Baratos Afins, em São Paulo".


Após o show realizado na cidade de Vinhedo, as baterias centraram-se no show ao ar livre no Parque da Aclimação, no evento "Praça do Rock". Era o domingo, dia 26 de agosto de 1984, numa tarde muito fria em São Paulo. Que eu lembre-me, até o fim dos anos oitenta, as estações climáticas em São Paulo eram totalmente definidas e dessa forma, agosto era gelado, tradicionalmente, com maio; junho, e julho, muito mais gelados, também.

E assim, lembro-me muito bem que quando subimos ao palco da famosa concha acústica, que fica em frente ao lago, o termômetro eletrônico que ali ficava, marcava 7° graus. Naquela tarde, apresentaram-se também outras bandas, naturalmente. Além da Chave do Sol, passaram pelo palco do evento, o "Cygnus"; "Ano Luz", e "Abutre". O "Cygnus", era uma banda muito interessante, que praticava um som instrumental voltado ao Jazz-Rock setentista, o que dava-lhes similaridade conosco, apesar de que estávamos mudando a orientação nesse momento, conformo venho relatando.
O show deles foi bom, e eu gostei da proposta e do trabalho, com bons músicos, sem dúvida. Muitos anos depois, fiquei amigo do baterista, por outro motivo. Era o Paulinho, que tornou-se técnico de P.A. do Centro Cultural São Paulo, e operaria muitos shows da Patrulha do Espaço, onde eu atuaria, e também do Pedra, a seguir, no decorrer dos anos 2000.

Show do "Ano Luz", com Fran Alves em destaque, no mesmo dia na Praça do Rock. Click. acervo e cortesia do poeta Julio Revoredo

A segunda banda, foi o "Ano Luz", uma banda de Hard-Rock, beirando o Heavy-Metal, mas com boas influências setentistas, ainda que obscurecidas pelo caráter pesado daquele trabalho deles naquele momento. Era uma boa banda, com bons instrumentistas (o guitarrista Olavo, por exemplo), mas o destaque era o seu vocalista, chamado Fran Alves, um frontman de presença dramática no palco, e uma voz potente, chegando a ser impressionante. Mundo muito curioso e que dá muitas voltas, mesmo. Vimos a performance do "Ano Luz" admirando a força interpretativa do Fran Alves ao cantar "Aurora Boreal", música de destaque do repertório dessa banda, mas nem passava pela nossa cabeça, algumas circunstâncias que envolver-nos-iam e num curto espaço de tempo. Por exemplo :
1) Admiramos o Fran Alves, mas estávamos convictos de que havíamos achado o vocalista ideal para nós, na presença do gaúcho Chico Dias;

2) O Chico Dias ainda nem havia estreado conosco, coisa que só aconteceria alguns dias depois, num show no interior de São Paulo, que relatarei logo mais. Portanto, nem de longe vimos o Fran, com alguma intenção de que ele viesse a incorporar-se à Chave do Sol;
3) Não sabíamos, mas naquele instante, o "Ano Luz" estava num início de crise interna, e pouco tempo depois, encerraria atividades;
4) Mais que tudo isso, era inacreditável imaginar que o Chico Dias não daria certo conosco; sairia logo e o Fran Dias tornar-se-ia nosso vocalista oficial nos últimos dias de dezembro de 1984; para estrear em janeiro de 1985; entrar em estúdio em março, para gravar um álbum que perpetuaria-o. Pois é..."um minuto além", e tudo muda...
Mas, devo registrar que se nós três (eu; Rubens e Zé Luiz), não cogitávamos isso, um membro honorário da banda estava presente no evento e sim, vislumbrou a possibilidade com muita sensibilidade e antevisão. O poeta Julio Revoredo revelou-nos à época que estava muito impressionado com a performance do Fran Alves, e que considerava-o um vocalista ideal para A Chave do Sol.

Fran Alves no palco do Parque da Aclimação. Click, acervo e cortesia do poeta Julio Revoredo

De fato, meses depois, o Julio foi decisivo nesse processo, quando perdemos o Chico Dias e ficamos novamente sem perspectivas.
Graças ao poeta, a ponte foi feita, rapidamente estabelecemos contato e Fran tornar-se-ia o novo vocalista da nossa banda para o ano de 1985. Todo esse relato está ricamente elucidado pelo próprio poeta Julio Revoredo, em recente entrevista que concedeu ao Blog da Chave do Sol, conduzido por Wilson "Will Dissidente" (refiro-me a 2013). Voltando à Praça do Rock, a terceira banda era de garotos muito jovens, mas com um potencial, e uma garra impressionante. Chamava-se "Abutre" e essa sim, era uma banda bem calcada no som da época, mesclando o Hard californiano oitentista, com o Heavy-Metal, e uma brutal influência do Van Halen, ícone oitentista, sem dúvida. Mais que garotos de potencial e força de vontade, o "Abutre" era composto por seres humanos excepcionais. Ficamos muito amigos dos quatro componentes, inclusive frequentando ensaios uns dos outros, e atividades sociais em conjunto. Eram dois irmãos; guitarrista e vocalista, Wagner e Ricardo "Cabeção", os irmãos Giudice. O baterista Adalberto, popular "Dalbinha", e o baixista, Tomas. Outro elo que unia-nos, era pelo irmão mais novo dos Giudice, Adriano, que também era guitarrista, e conhecia a irmã caçula do Rubens. Adriano Giudice era um garoto prodígio na guitarra, e mesmo muito novo, entraria no "Centúrias", a seguir, graças ao seu alto nível instrumental, apesar de imberbe, ainda. Tocamos muitas vezes juntos doravante, e pelo menos até meados de 1987, nosso convívio fraternal foi constante. A banda era muito jovem naquele agosto de 1984, portanto ainda carecendo de mais experiência naquela ocasião, mas sua performance naquele dia, foi acima da média, não deixando o nível do evento cair. E por fim, chegou a nossa vez...

      Foto do nosso show na Praça do Rock - 26 de agosto de 1984

O frio era de rachar quando começamos a tocar e mesmo com o público visivelmente incomodado por isso, somado à garoa que acentuara-se, nossa apresentação foi de uma energia incrível, arrancando aplausos e gritos acalorados. Percebi até expressões de espanto de algumas pessoas mais próximas à grade de proteção entre público e palco, denotando estarem positivamente surpreendidas com o nosso som.

Por um segundo, lembrei-me da Mama Cass soltando um "Wow", enquanto assistia o "Big Brother And the Holding Co.", no festival de Monterey de 1967, mas certamente hipnotizada pela vocalista da banda, uma texana mal ajambrada, mas de voz estonteante, chamada Janis Joplin...
Guardadas as devidas proporções, senti essa perplexidade no semblante de alguns ali presentes, e claro que tal perspectiva animava-me mais ainda.

Minha performance pessoal, que era sempre frenética nesses tempos, intensificou-se por um motivo de força maior, emergencial.
Estourou uma corda da guitarra do Rubens, bem na hora em que executávamos "18 Horas". Não fazendo-me de rogado, enquanto ele providenciou a troca (sim, lamentavelmente não possuía guitarra sobressalente nessa época, e nós não tínhamos estrutura para contratar roadies...), puxei um improviso com o Zé Luiz, e por sorte, foi bastante criativo e inspirado.

Ao final, quando o Rubens sinalizou que estava pronto para voltar à música, demos a sua deixa e o público, em sua maioria, nem percebeu que a guitarra do Rubens teve problemas, julgando aquele improviso, uma parte do arranjo natural da música. Ao final, já com a noite avançando, saímos muito aplaudidos do palco, lembrando nossas performances no programa, "A Fábrica do Som".

Claro, apesar da ótima acolhida, falhamos no quesito comunicação com o público, pois nenhum de nós três tinha esse carisma natural, e não era por menos que estávamos preparando um vocalista para assumir, pois sentíamos essa carência de comunicação. E a meu ver, tal falha ocasionou-se por termos falado muito pouco ao microfone, privilegiando tocar sem muitas pausas entre as músicas. As portas se abriram para nós no evento, e novas participações aconteceriam no futuro, inclusive com o crescimento do próprio evento, simultaneamente.


Tudo isso ocorreu no dia 26 de agosto de 1984 e segundo estimativa da polícia militar, cerca de 1500 pessoas assistiram os shows, sob frio; vento e garoa. Fico imaginando se poderia existir a possibilidade de hoje em dia (2016), 1500 pessoas saírem de casa nessas condições climáticas elencadas, para assistir quatro bandas de Rock autorais, desconhecidas da mídia e grande público...
Eu tenho inúmeras restrições aos anos oitenta, por diversos motivos, mas nesse quesito, não há como não lamentar que hoje em dia não exista tal predisposição do público...


Na semana seguinte, o Jornal do Cambuci e Aclimação, publicou uma matéria assinada pelo Dalam Jr., fazendo uma resenha geral sobre o evento. Quando referiu-se à nós, Dalam disse :

"Chave do Sol : Musical perfeito, dentro de um estilo que funde o Rock' n' Roll ao Jazz, e até mesmo ao som progressivo. Uma banda que, com grande técnica musical, consegue superar suas deficiências de comunicação e visual. Um grupo profissional, que conseguiu arrancar aplausos até dos metaleiros mais radicais, que somavam a maior parte do público".

A despeito do Dalam não ser um jornalista profissional, acho que suas observações foram bem colocadas.


Discordo apenas da questão do visual que criticou-nos, mas faço um ressalva : na percepção dele, ali no calor de 1984, era óbvio que achasse mais adequado que tivéssemos um visual mais espalhafatoso, e similar à de bandas de Hard e Heavy Metal de tal atualidade, ou no mínimo, visual de seguidores das correntes do Pós-Punk, ambas, em grande voga do momento.

Lembro-me bem que o Zé Luiz privilegiou o seu conforto pessoal, além de levar em conta o frio em questão do dia, usando moletom.


 
Talvez isso tivesse impressionado o Dalam negativamente, mas eu e o Rubens estávamos mais adequadamente trajados, como Rockers, ainda que mais parecendo setentistas.

Mas, são só detalhes, pois o importante foi que o show foi um sucesso.

Ainda trabalhando para adaptar o Chico Dias o mais rápido possível
durante os ensaios, voltamos ao interior, uma semana depois.
Desta feita, o compromisso também era numa cidade próxima, chamada Atibaia, às margens da Rodovia Fernão Dias, que liga São Paulo à Belo Horizonte. Esse foi, na verdade, o show de estreia dele, na banda.


O show seria realizado num pequeno Centro Cultural, no centro daquela cidade, onde realizava-se atividades de oficinas de artes plásticas; pequenos saraus literários e apresentações musicais intimistas. Portanto, preocupava-nos o fato de ser um espaço não preparado para um show de Rock pesado. De fato, não havia infraestrutura para tal, e seria uma coisa adaptada e desconfortável para nós.

Contudo, a oportunidade de tocar no interior era importante para os
nossos planos de expansão, numa primeira análise, mesmo não sendo em condições ideais. Outro ponto importante, era que o show fora fechado graças a um esforço de um abnegado fã, chamado Hélcio, que era oriundo da cidade embora morasse em São Paulo, tendo assistido muitos shows, incluso na Fábrica do Som, onde teve a iniciativa de mandar fazer uma faixa exaltando-nos, e tendo-a exibido em participações nossas no programa, inclusive aparecendo em vídeos, hoje disponíveis no You Tube. Pois então, esse fã proporcionou toda a ponte para o contato ser feito e fechado o show.

Nesse dia, contamos com um apoio extra muito importante, da parte de um amigo da banda. O Daniel Negrão, vulgo "Papel", tinha uma casa de veraneio de sua família na cidade, e insistiu para que hospedássemo-nos lá para o show. Não era o caso, pois Atibaia fica a apenas 60 Km de São Paulo, e acabamos optando por voltar à capital imediatamente após o show, mas sim, usamos a casa como camarim, passando momentos agradáveis horas antes do show, curtindo a comodidade de uma tremenda casa confortável e afastada do centro, mais parecendo uma casa europeia no bosque.

A Chave do Sol e sua turma de amigos / roadies, na casa de veraneio da família Negrão, minutos antes de irmos para o show do "Crie", em Atibaia / SP - 1º de setembro de 1984
Da esquerda para a direita, em pé : José Luiz Dinola e sua namorada, Eliane Daic; Sérgio de Carvalho; Hélio; Rubens Gióia e sua namorada Mônica Maya; Agachados : Daniel "Papel" Negrão (o dono da casa de veraneio); eu (Luiz Domingues); Claudio "Capetóide" de Carvalho, e Chico Dias 


A enorme casa de veraneio da família Negrão em Atibaia, tinha uma espécie de cenário de castelo / masmorra medieval, em anexo, e com vários artefatos, como armas; móveis rústicos, e armaduras. Nessa ambientação que parecia um set de filme de época, não resistimos e tiramos fotos performáticas fazendo alusão aos filmes de "capa e espada" ambientados na Idade Média...
Carlos Muniz Ventura empolgou-se, e interpretando um carrasco, ameaça a donzela Eliane Daic... 
Em cima da mesa, enfrentando três "oponentes", senti-me o Errol Flynn interpretando o valente "Capitão Blood", ou mesmo Stewart Granger em "Scaramouche", empunhando a espada...
Carlos parece ter enamorado-se de uma luminária, por ter abusado do Rum, e abaixo, Daniel revelou-se o "Homem da Máscara de Ferro"... 
 
Fim da linha para o Carlão... a Idade Média não era mole, não... 
Num provável "contraplano" exigido pelo diretor Michael Curtiz, "Errol Flynn / Capitão Blood", ou Luiz Domingues nas horas vagas, enfrenta os oponentes visto de costas. Atente para o detalhe estilístico da mão esquerda livre, onde o "ator" revela que prestou atenção nas aulas de esgrima...

O espaço cultural, chamava-se "Crie".




Fizemos o show com surpreendente público de cerca de 200 pessoas, o que era muito para um espaço inadequado para shows de Rock, tratando-se de um mini centro cultural, mais preparado para ser um espaço de exposições e apresentações musicais intimistas, como já salientei anteriormente.

Apesar disso, o show foi bastante energético e mesmo com pouco espaço, o Chico Dias demonstrou ter potencial como "frontman", carecendo de um pouco de lapidação de nossa parte, e experiência, da parte dele.

O ponto negativo ocorreu com um roadie nosso, que criou uma confusão alheia à nossa vontade.

Como já relatei anteriormente, havíamos passado por algo parecido poucos dias antes, mas desta vez o imbróglio foi mais sério.
Ocorreu que esse roadie, que na verdade era um garoto bem novo e mais "carrier"(profissional que dedica-se somente a carregar equipamentos e instrumentos, mas não envolve-se em seu processo de montagem, que requer conhecimentos técnicos superiores), do que roadie, propriamente dito.

Empolgado em estar viajando com uma banda de Rock, inebriou-se com toda a atmosfera glamorosa que isso poderia soar em sua percepção e principalmente, quando percebeu que isso poderia dar-lhe algumas vantagens pessoais. Entre tais supostas benesses por estar na equipe de uma banda, ele notou que isso facilitaria a possibilidade dele paquerar e conquistar garotas.

Então, engraçando-se com uma menina bem novinha e bonita, despertou a ira de alguns rapazes presentes, e o "zum zum zum" começou, com hostilidades e promessas de briga na rua, aumentando a chance do inevitável "acerto de contas". Isso respingaria na banda, certamente, pois não aceitaríamos que ele fosse agredido, de forma incólume.

Então, tentando apaziguar os ânimos, o amigo Hélcio, que era da cidade e conhecia os garotos, interveio, com amigos apoiando.
O clima esquentou e na rua, chegaram a partir para as vias de fato, enquanto tocávamos, mas Hélcio e seus amigos apartaram e salvaram o rapaz, que chamava-se Hélio.

Os brigões prosseguiram hostilizando-o, prometendo voltar com "reforços", mas o Hélcio tranquilizou-nos, dizendo tratar-se apenas de moleques de cabeça quente, conhecidos na cidade, e que não haveriam desdobramentos preocupantes.

De fato, o show acabou tranquilo e nada mais desagradável ocorreu nesse sentido. Voltamos para São Paulo na mesma madrugada e com o dever cumprido, além de estarmos contentes com a estreia do Chico Dias.


De certa forma, foi importante ele ter estreado num show de pequeno porte, pois deu-lhe mais segurança para encarar compromissos mais importantes doravante, e de fato, em breve os teríamos. Isso ocorreu no dia 1° de setembro de 1984.

Curiosamente, o próximo show seria num outro espaço, mas na mesma cidade de Atibaia...



Voltamos à cidade interiorana de Atibaia, logo a seguir, em outra oportunidade aventada pelo amigo Hélcio. Desta vez, o show realizar-se-ia num espaço maior, porém não adequado em 100 % para shows de Rock, também, como no show anterior. Todavia, tratou-se de um show mais agradável, no sentido de que o espaço para a performance da banda foi maior, com um palco mais extenso, e a existência de um equipamento mais adequado, onde pudemos tocar com uma pressão sonora mais forte e compatível com um show de Rock.

Mais solto, o Chico Dias pôde enfim ter uma performance mais condizente como um frontman. Claro, ele era muito jovem, inexperiente e portanto, faço as ressalvas de que além do nervosismo inerente, ele ainda exagerava em imitar trejeitos de vocalistas que admirava, como Freddie Mercury; Paul Rodgers, e David Lee Roth, entre outros. Meno male, ao imitar tais ídolos seus, imprimia um ritmo em sua atuação, bastante interessante e energético.

Precisava melhorar em muitos aspectos, mas era um alento ter um frontman, coisa que não tínhamos desde a saída da Verônica Luhr, a frontwoman que deixou-nos em abril de 1983. 


 

 
Dividimos a noite com o Excalibur, uma banda de Heavy-Metal com ótimos músicos e cujo vocalista era um rapaz muito interessado em literatura, chamado Beto. Portanto, fugindo ao lugar comum das bandas dessa época, procurava escrever letras de um teor muito poético, e seus ídolos eram os poetas malditos franceses e Jim Morrison, portanto, referências démodé para os anos oitenta, mas eu admirava-o exatamente por esse aspecto.




 

Jovem, porém culto e bastante articulado, destoava da média dos músicos de Heavy-Metal daquela cena oitentista e de certa forma, aproximava-se mais dos adeptos do Pós-Punk, por tais predileções mais avantajadas sob o ponto de vista intelectual, contudo sem compactuar com a musicalidade tosca dessa gente. O show do Excalibur foi energético, e logo a seguir fizemos o nosso.


 
A casa era um centro cultural localizado num ambiente paradisíaco. Era um grande salão envidraçado, no meio de um mini bosque, com direito a um belo lago. À noite, com o frio e a garoa, remetia à Europa.


 

 

 

 

O evento foi batizado como "Festa da Crisi", escrito dessa forma, propositalmente. Era um evento produzido por um C.A. de uma faculdade.


 

 
Ocorreu no dia 15 de setembro de 1984, e levou cerca de 200 pessoas, considerado bom pelos organizadores, mas nós ficamos com a impressão de que foi fraco, devido ao espaço que comportava muito mais gente.


Antes do próximo compromisso, tivemos uma missão de produção.
O Chico Dias alegou que precisava voltar à sua cidade, Rio Grande, para buscar mais alguns objetos pessoais seus, e perguntou ao Rubens, se ele aceitaria ir junto, pois poderia tentar fazer uma alguma coisa em Porto Alegre, onde morava a sua namorada, e ela tinha alguns contatos interessantes. Aproveitando a deixa, resolvi ir ao Rio, onde eu também tinha alguns contatos e assim, em setembro, fomos fazer produção em duas frentes fora de São Paulo.

Em Porto Alegre, Rubens e Chico visitaram a Rádio Ipanema FM, e fizeram uma entrevista. Essa emissora, assim como a Rádio Fluminense FM do Rio, tinha uma programação 100% Rocker, e já estava tocando o compacto da Chave do Sol. Portanto, o contato da "guria" dele, abriu uma porta, mas a banda já tinha uma excelente receptividade na emissora gaúcha e assim, a entrevista foi feita de uma forma instantânea, sem frescuras. De minha parte, no Rio, visitei a redação da Revista "Roll", e entreguei bottons; camisetas e mais discos aos membros de seu staff que lá encontrei. Mas a missão mais certeira mesmo, foi ter levado material da banda ao Circo Voador, e entregue nas mãos da Maria Juçá, a produtora que cuidava do espaço, junto com Perfeito Fortuna.

                          Maria Juçá em foto bem mais atual
 

Ela foi muito receptiva e falou-me que o Circo iria organizar um festival de grande porte, e que já tinha patrocínio etc etc. Seria com o apoio da Petrobras, estatal peso pesado, e que dispensa apresentações (e naquela época, uma empresa de reputação ilibada, longe de qualquer suspeita...). E também já tinham contratado diversos artistas do BR-Rock 80's, muitos do mainstream.
Ela analisaria o material com carinho, e senti que daria certo, pois ela alegou saber que tocávamos na programação da Fluminense FM, além de também saber que o nosso disco era do selo Baratos Afins, acrescentando o fato de que conhecia o Luiz Calanca, e mais uma, o contato dela havia sido passado pela Cida Ayres, produtora do Língua de Trapo, e conhecendo a Cida, isso também reforçava.
Então, essas duas viagens acabaram sendo benéficas para a banda, sem dúvida alguma.

O próximo compromisso seria em São Paulo, onde finalmente o Chico Dias faria sua estreia na capital, e diante do público em expansão da banda. Tocaríamos num salão de nome estranho, mas que tinha tradição na cidade, e segundo constava, existia desde 1972, chamado "Fofinho Rock Clube". Sua localização desde a fundação, era na Av. Celso Garcia, bem em frente a uma guarnição do Corpo de Bombeiros, no bairro do Belenzinho, zona leste de São Paulo.

Tratava-se de um salão de médio porte, com dois ambientes distintos, um parecido com um lounge e bar; e outro, uma pista de dança com bastante iluminação e um P.A. de muita potência. Apesar de ter ares de uma discotheque e privilegiar som mecânico quase o tempo todo, a proposta sonora, desde o início de suas atividades, sempre foi tocar Rock e também a MPB setentista.
Seu público habitue, era formado por Hippies; Freaks & Rockers nos anos setenta, e com o avançar da década de oitenta, também tornou-se um espaço para adeptos do Heavy-Metal, os tais "headbangers", típicos daquela década.


Mas por ter essas raízes Rockers setentistas, ainda tinha um público de Hippies anacrônicos, pejorativamente chamados de "Bichos Grilo". Recebemos o convite para uma apresentação em 1984, pois a casa estava finalmente abrindo espaço para shows ao vivo, ainda que mesclando à sua tradição de som mecânico, coisa que perdura inclusive até os dias atuais. Nessa fase oitentista, eles costumavam dividir o seu público. O domingo geralmente era reservado aos seguidores de som 1960 / 1970, e o sábado tinha programação Heavy-Metal, com esse tipo de público (os tais "headbangers" sua tribo típica), comparecendo em massa. Fomos tocar então, no dia 6 de outubro de 1984. Dividiríamos a noite com a banda "Performance's", cujo vocalista Robson Goulart, tornou-se nosso amigo doravante. A casa estava com um bom público, mas o som não estava legal. Se tivessem feito o show no andar superior, onde funcionava a pista de dança, teria sido muito mais adequado. Mas resolveram improvisar um palco no andar inferior, e pior ainda, com uma estrutura de som e luz aquém do que possuíam no outro patamar.

Mesmo assim, nossa apresentação foi intensa, com o Chico Dias sentindo-se mais seguro, e até permitindo-se alguma margem de improvisação, imprimindo um ritmo de mise-en-scené forte, que  deu-nos muitas esperanças de que ele melhoraria a cada show, estando pronto para apresentações de maior porte, muito rapidamente. Cerca de 300 pessoas assistiram-nos nessa noite de um sábado, e no dia seguinte, teríamos outro compromisso, num outro canto da cidade, o Centro Cultural do Jabaquara, um arrumadinho e novo espaço da prefeitura, naquele tradicional bairro da zona sul de São Paulo.


A sensação de ter shows em dias consecutivos era ótima. Tratava-se de uma agenda em expansão, e fruto de nossos esforços com muitas oportunidades na TV; Rádio, e matérias na mídia impressa. E foi assim que surgiu mais um convite para fazer um show num espaço cultural estatal, desta feita, no Centro Cultural do Jabaquara. 

Tratava-se de um espaço novo em folha, com a proposta de ser um polo de cultura para aquele simpático e tradicional bairro e região.
Pelo que vimos, cumpria essa meta, com várias atividades no campo da literatura (palestras com escritores, saraus); exposições; teatro; cine-clube; shows musicais; atividades infantis, e com idosos etc etc. 


Havia dentro dessas atividades todas, um projeto para shows de Rock, com bandas autorais e independentes. E dentro desse espectro, recebemos o convite. O show aconteceu no período da tarde, um esforço para forjar um novo hábito para o público daquele bairro e imediações. 

Nessa altura, terceiro show com a banda, o Chico Dias já demonstrava bem mais entrosamento conosco, e mais serenidade.
O show foi bom, com energia e performance forte, potencializada pelo fato do palco ter uma metragem grande.
O som era inadequado para o espaço, mas deu para fazer o show, ainda que não em condições ideais. E a luz era digna, com torres de spots novinhas, apesar do iluminador fazer o burocrático papel de ligar e acender aleatoriamente os spots, sem um mapa de luz, e claro, nem cogitar afiná-los adequadamente. 

Isso aconteceu no dia 7 de outubro de 1984, um domingo. O projeto chamava-se "Última Estação", uma referência ao fato do Centro Cultural do Jabaquara ficar muito próximo da estação Jabaquara do Metrô, a última da linha 1, azul. 

Uma banda nova fez o show de abertura. Chamava-se "Bandazul". 
Chamou-me a atenção o fato de que essa banda destoava das correntes estéticas em voga naquela década. Não eram nem de longe ligados ao Heavy-Metal , mas tampouco tinham comprometimento com alguma escola do Pós-Punk. 


 
Era uma boa banda, mas fiquei sem entender a sua proposta musical. Na hora, achei que tinham influência da MPB, mas era algo difuso, sem muita clareza. 

Um bom público esteve presente no Centro Cultural Jabaquara, naquela tarde. Cerca de 200 pessoas passaram pela bilheteria, e ao final do show, fui abordado por muitos frequentadores do Rainbow Bar, que ficava localizado ali perto, e entre eles o "Taínha", figura mítica daquele bar, e que já não está entre nós, mas é lembrado por todo mundo que frequentava aquele espaço rocker, no Jabaquara.


As conversas sobre os rumos do Rock no Brasil esquentavam numa ebulição tremenda. A euforia gerada pela profusão do Rock na mídia, dava margem ao festival de boatarias. Um músico que era conhecido do Rubens, por exemplo, e era membro de uma banda independente chamada "Tonelada & Seus Kilinhos" (sim, eram obesos e tinham proposta musical centrada no humor, tentando pegar o vácuo de bandas como "Ultraje a Rigor" e "João Penca & Seus Miquinhos Amestrados", entre outras), era bem informado sobre os meandros das gravadoras e mídia.

Foto do poeta Julio Revoredo flagrando Luiz Domingues & Rubens Gióia na saída de emergência do Teatro Lira Paulista, em julho de 1984. Click; acervo e cortesia de Julio Revoredo 

Em várias ocasiões em que o encontramos, falou-nos muitas coisas sobre o que sabia dos bastidores das gravadoras e nesse sentido, alertou-nos sobre a necessidade de prepararmos um material urgentemente, com uma demo-tape, e músicas novas. Computamos a dica e imaginamos que o momento seria propício, visto termos mudado a formação de trio para quarteto, e agora com um frontman, teríamos mais chances para pleitear uma chance no mainstream.

A dica dele era para direcionarmos nossos esforços para a Warner, que teria um plano de abrir espaço para bandas mais pesadas, fora do espectro do Pós-Punk, que privilegiavam na ocasião. Nesse aspecto, deveríamos enviar material para o Pena Schmidt, que era o produtor em São Paulo, e associado ao Liminha, que dava as cartas no Rio.

Já estávamos com muitas músicas novas prontas, e outras em fase de elaboração, e planejamo-nos para pensar numa demo-tape, no final do ano que aproximava-se, mesmo porque, precisávamos dar um tempo maior de maturação para o Chico Dias e, coisa boa, tínhamos compromissos agendados, o que impedia-nos de parar para focar num pré-produção para gravar uma fita demo. O que era interessante nessa fase, além do nosso crescimento, era essa euforia que sentíamos no ar, por conta do "BR Rock 80's" estar muito forte na mídia, dando a ideia de sustentabilidade e abertura, por conseguinte.

E outro fator óbvio : a proximidade do Festival Rock in Rio, para janeiro de 1985, estava potencializando muito essa euforia, e "pilhando" todo mundo que sonhava com um pedaço desse bolo.
Nossa suposta "chance" nessa fase, seria apostar na possibilidade de que realmente as gravadoras investissem em bandas com som mais pesado, saindo do mundo do Pós-Punk, que dominava tudo até então, com a rara exceção de bandas como Barão Vermelho e Herva Doce, que pareciam incólumes aos ataques niilistas do patrulhamento ideológico dos punks, e seus simpatizantes, e estas sim, eram bandas que tinham proposta musical mais centrada no tradicionalismo de raízes 1960 / 1970, coisa raríssima na ocasião e certamente o encaixe perfeito para a nossa banda.

Foto clicada pelo poeta Julio Revoredo, quando esteve acompanhando-nos na nossa primeira entrevista ao programa Balancê, da Rádio Excelsior de São Paulo, no Teatro Pimpão

Esse espectro seria o ideal para nós, pois também não  encaixávamo-nos no mundo do Heavy-Metal, de forma alguma.
Mas decifrar o que esses "gênios" do marketing musical desejam e acham que é a tendência rentável, é literalmente impossível. Se fôssemos gravar um material mais a ver com nossas raízes normais, 1960 / 1970, corríamos o risco de sermos rejeitados sem audição, pois aquela década era a do repúdio sumário dessa vertente.

Se alguém perguntar-me porque o Barão Vermelho e o Herva Doce pareciam não sofrer esse patrulhamento da turma do Pós-Punk e seguiram sua carreira no mainstream com sucesso, sem serem boicotados, acho que tenho argumentos, mas não cabe aqui descrevê-los, e foge do sentido desta narrativa, naturalmente.
Só é relevante notar que nossa chance era o som pesado, ainda que não fosse a "nossa praia", porque o Pós-Punk e sua ruindade musical indecente, não dava para nós...


O próximo passo foi uma das maiores "roubadas" da história da banda. Nos causou um prejuízo financeiro forte, e pior que isso, um desgaste emocional absolutamente desagradável e desnecessário, na medida em que não precisávamos passar por isso. Ocorreu o seguinte : fomos convidados a apresentarmo-nos em mais uma danceteria famosa. Vivia-se a febre das danceterias naquela época, e numa cidade grande como São Paulo, principalmente, abriam aos montes, e por todos os bairros.

Desta feita, recebemos o convite da danceteria "Tífon", que localizava-se ao lado do Shopping Ibirapuera, em Moema, bairro da zona sul de São Paulo. Ficamos um pouco renitentes em princípio, porque entre tantas danceterias que abriram na cidade, em 1984, a "Tífon", em específico, era bastante hostil à manifestações musicais que não coadunassem-se com a estética do Pós-Punk.

Apesar das danceterias serem apenas grandes salões de entretenimento, sem maiores comprometimentos com estéticas, tribos & afins, a Tífon tinha esse comportamento que assemelhava-a à casa de shows "Madame Satã", esta sim, um templo dessa estética, e portanto, um reduto para seus entusiastas.
Mas a argumentação de quem contactou-nos e convidou, era a de que a casa agora estava abrindo o seu leque, e com a proposta de abrir uma noite para o "Heavy-Metal"...

Seguindo no seu poder de argumentação, disse-nos que uma semana antes de nós, o guitarrista Robertinho de Recife, que estava desenvolvendo um trabalho de Heavy-Metal nessa época, apresentar-se-ia, portanto, quebraria o gelo por haver shows pesados, doravante na casa. Bem, já começou mal falando em Heavy-Metal, mas na cabeça dessa gente, se não éramos "modernos" e tínhamos cabelos longos, logicamente que éramos "metaleiros"... ledo engano a parte...


Bem, ok, se não seria hostil, por que não fechar, visto ser uma casa com estrutura de som e luz de qualidade etc etc ? Fechamos a data, mesmo sabendo que cairia num feriado, pois não correríamos riscos, aparentemente.

Mas tudo começou a mudar na semana do show, quando recebemos um telefonema, dando conta de uma notícia ruim sobre o funcionamento da casa, e que atrapalhar-nos-ia muito em relação à esse show...


Bem, esse telefonema que recebemos da danceteria "Tífon", comunicou-nos que o tal show inaugural de sua fase "pesada" em sua programação, houvera gerado uma grande briga em suas dependências. Tal briga teria sido entre os admiradores de Robertinho de Recife, contra "New Wavers", inconformados com a presença de um artista de Heavy-Metal no seu "templo", e daí gerou-se as vias de fato.

Como consequência, o show terminou de forma abrupta e no tumulto, grande parte do equipamento de P.A. da casa, foi avariado, portanto, se quiséssemos manter a data de pé, teríamos que responsabilizar-nos pelo P.A. do show, levando o nosso, ou alugando um compatível com o tamanho da casa. Era fora de cogitação usarmos o nosso pequeno P.A. Ele servia apenas para os nossos ensaios, e no máximo modestas apresentações em casas de pequeno porte.

Então, a solução seria alugar um equipamento, arcando com tal despesa, sem nenhuma ajuda da referida danceteria. Ora, o mais lógico teria sido desmarcar a data. Um cancelamento teria poupado-nos de uma série de aborrecimentos que sucederam-se, fazendo desse show, um roteiro de comédia, que nem Jerry Lewis conceberia.

O que contribuiu decisivamente para que insistíssemos com a manutenção do compromisso, foi o fato de que já havíamos enviado filipetas pelo correio, para centenas de pessoas que tínhamos no nosso mailing do fã-clube. Era um trabalho dispendioso e oneroso, mas naquela Era pré-Internet, era um meio muito eficaz de divulgação de shows.

Especificamente falando desse show, nossa verba para divulgação era curta e não dava para pensar em outros meios, portanto, apostamos no mailing, e diante dessa notícia vinda da parte deles,  doeu-nos a ideia do dinheiro de nosso caixa indo pelo ralo, e o tempo gasto para a preparação, pois as tais centenas de cartas eram preparadas num sistema manual, e demandava horas de trabalho.
Então, resolvemos sustentar a data e bancar o P.A., acreditando que teríamos um retorno conveniente de bilheteria. Ora, éramos muito jovens e estávamos inebriados pelos ventos positivos que sopravam, portanto, por que não acreditar que teríamos um público bom ?

Contudo, não ponderamos outros aspectos :
1) Era uma casa hostil, portanto havia o risco disso inibir o nosso público ter vontade de ir lá, deixando para ver-nos noutra circunstância mais agradável;
2) Seria num feriado, portanto, era uma incógnita total a presença de público.
Correndo o risco, checamos a nossa conta bancária e a banda tinha um montante reservado para a futura gravação de uma demo-tape, com o objetivo de levar às gravadoras grandes, com músicas novas e mais centradas no universo pesado, e acima de tudo, contando com a presença do vocalista gaúcho, Chico Dias, nosso novo "frontman".

Mas diante de tais circunstâncias e pensando de forma otimista, achamos que estávamos calçados para bancar um P.A. e claro que não usaríamos esse dinheiro, para tal finalidade menos importante para nós, avaliamos de forma muito otimista...
Não era uma quantia grande, por isso descartamos contratar uma daquelas empresas famosas que faziam grandes shows de artistas consagrados. Optamos por contratar um equipamento mais modesto, porém adequado ao ambiente acústico daquela casa, que era de médio para grande porte. Contratamos então o equipamento do mesmo rapaz (Pérsio), que sonorizou o nosso show no Teatro do Colégio Piratininga, em abril de 1983. Eu conhecia-o desde o início de 1980, porque ele auxiliou muitas vezes o Terra no Asfalto, minha banda cover naquela ocasião. Em 1984, surpreendi-me ainda mais do que em 1983, pois ele crescera mais, e seu equipamento em nada deixava a desejar em relação às empresas de grande porte do setor, e a vantagem, era uma tarifa bem mais acessível. Essa foi a parte boa da produção desse show... depois disso...

A danceteria "Tífon" ficava localizada bem ao lado do shopping Ibirapuera, em Moema, bairro da zona sul de São Paulo. Conforme já comentei, era uma danceteria mais radical, diferente das outras, no sentido de que a maioria tinha aquela aura oitentista por modismo e adequação pura e simplesmente, sem nenhuma preocupação ideológica com o movimento A, B ou C. Já a "Tífon", era conduzida por entusiastas das estéticas oriundas do Pós-Punk, e sabíamos que geralmente só abria as suas portas para artistas coadunados com tal estética, com seu público sendo formado por seguidores de tais ideais.

De fato, do dono ao mais humilde funcionário da faxina, todos pareciam fazer parte de um vídeo clip do Bauhaus; Siouxie and the Banshees, e similares...
Da questão da briga, soubemos de alguns fatos, por várias versões.
Conhecidos nossos do mundo do "Heavy-Metal", vieram dizer-nos que realmente uma turma de punks, entrou no recinto com a clara intenção de provocar o Robertinho de Recife, e seu público. Não eram muitos os admiradores do guitarrista pernambucano, agora tentando impor-se como "Guitar Hero" de Heavy-Metal, portanto, foram alvo fácil das provocações. Segundo soubemos, o Robertinho irritou-se com isso e bateu boca com os opositores, dando início à um tumulto generalizado, que teria danificado o P.A., e certamente muito mais coisas na casa. Mesmo jovem e ingênuo, eu não havia engolido aquela versão da "Tífon" de que "News Wavers" teriam brigado ou pior, motivado a briga. De todas as tribos derivadas do Pós-Punk, essa turma era uma das poucas não hostis, e sua postura não evocava truculência como um princípio, ao contrário de outras, bem beligerantes. Eram até meio efeminados e tinham uma indisfarçável admiração pelo Glitter-Rock setentista. Todo fã do "Duran Duran" ou "Adam & the Ants", potencialmente gostava de David Bowie e Marc Bolan, portanto não seguiam necessariamente as "ordens" do "manifesto de repúdio ao passado", ditado em 1977. 
Bem, estávamos metendo-nos num imbróglio e nesta altura em que escrevo (2016), adoraria poder fazer uma "viagenzinha" básica no tempo e mudar essa história, mas como não posso, resta-me relembrar e lamentar o não cancelamento desse show "maledetto"...

Enfim, ensaiamos o nosso show normal, mesmo conscientes de que poderíamos ter problemas como o Robertinho de Recife enfrentou, uma semana antes, embora não achássemos que haveria novo tumulto nesse porte. Fomos para o show com essa hipótese na cabeça, mas sem temores acentuados, e por um lado, até animados para fazer uma noitada legal para os nossos fãs. Era uma sexta-feira, dia 13 de outubro de 1984.  O dia anterior houvera sido feriado nacional, portanto, estávamos num dia útil "emendado" pela maioria, prolongando o final de semana.

Chegamos à Danceteria Tífon para o soundcheck e o equipamento do Pérsio, que havíamos contratado, estava todo montado e ele fazia testes de equalização. Da parte dele, tudo legal, com profissionalismo e camaradagem. Mas os problemas começaram com os funcionários da casa. Bastante mal educados, tratavam-nos com rispidez, mal respondendo perguntas básicas e absolutamente necessárias, como por exemplo : "onde fica o camarim, por favor ?"

Até então, ok, isso não arrancar-nos-ia pedaços, poderíamos suportar a grosseria generalizada. Fizemos o soundcheck, chegando num resultado confortável e isso era tranquilo com o Pérsio operando, um profissional competente e bastante equilibrado no trato humano, com os músicos. O camarim estava um horror. Com uma bagunça generalizada, como se fosse um sótão cheio de bugigangas guardadas sem sentido algum, que não fosse a preguiça de jogar fora tais quinquilharias.

Ficamos com a impressão de serem objetos de cena usados por alguma companhia de teatro, mas em mau estado de conservação e assim, sem objetivo de reuso. Lembro-me até de haver a existência de um caixão de defunto na coxia, onde o nosso amigo Wagner "Sabbath"(que acompanhou-nos nesse show como um misto de roadie e segurança), ter brincado de entrar nele, e ter tirado fotos (fico devendo tais registros fotográficos, lamentavelmente). O forro do caixão era de um "púrpura profundo" (não resisti ao trocadilho !!), muito intenso, e a performance engraçadinha do Wagner, despertou-nos gargalhadas, raro momento de felicidade nesse dia...
Antes de falar do show em si, preciso contar que paralelamente, esse final de semana reservar-nos-ia um drama pessoal motivado pelo Chico Dias, que estender-se-ia até a segunda-feira posterior. Isso só potencializou toda a tragédia oitentista da Tífon...


Começando pela questão pessoal do Chico Dias, ele comunicara-nos dias antes, que estava com muita saudade de sua namorada, e que pensava em convidá-la a vir para São Paulo, passar o feriado prolongado com ele. Ora, apoiamos de imediato a ideia, porque seria um fator motivacional a ajudar nessa fase difícil de adaptação que ele enfrentava.

E além do fato de ser um feriado, e a moça poder programar-se sem perder as aulas de sua faculdade, ele certamente contava com uma apresentação num lugar mais badalado, com equipamento de som e luz de alto nível, para impressioná-la, pois nos shows anteriores, ainda não tinha tido tal oportunidade de atuar em melhores condições com a banda. Até aí, tudo bem, mas um componente social estaria atrapalhando tal planejamento pessoal dele : onde estava hospedado, na casa do poeta Julio Revoredo, a presença da namorada não era conveniente para o pernoite. Portanto, sem meios financeiros para bancar um hotel para o casal, a presença da namorada tornou-se um problema a mais para ser resolvido.

A solução inicial seria hospedá-los na casa de veraneio da família do José Luiz Dinola, que ofereceu-a, gentilmente. Apesar de um pouco longe, no município de Itapecerica da Serra, era extremamente confortável e nesse caso, o casal teria uma luxuosa "lua de mel" para desfrutar, e só daria um trabalho extra ao Zé Luiz, por conta de ter que levá-los e buscá-los na cidadezinha (não tão longe assim, pois fica na Grande São Paulo). Solucionado aparentemente a tempo, por conta do Zé Luiz ter checado, e ninguém de sua família ter afirmado que usaria a casa naquele final de semana, foi dado o sinal verde para a garota gaúcha comprar sua passagem de Porto Alegre à São Paulo. Chegou o dia do show e a "guria" estava a postos para acompanhar a performance de seu namorado. Ela era simpática e educada, inteligente e universitária, parecendo ser, sinceramente, bem mais madura do que ele.




No que interessava-nos, estávamos contentes, pois a sua presença parecia ter dado o equilíbrio que o Chico Dias precisava para suplantar suas dificuldades de adaptação. Voltando ao show em si, quando a casa abriu para o público, vimos que aquele lugar era realmente hostil para nós. Todos os funcionários estavam fortemente maquiados e vestidos a caráter, reforçando o que eu disse anteriormente, ou seja, não era forma de expressão apenas, mas literalmente parecia que estávamos num vídeo clip daquelas bandas do Pós-Punk.


Olhavam-nos com um desdém tamanho, que sentimo-nos impossibilitados de circular pela área social da casa, e resolvemos assim, recolhermo-nos ao camarim, que mesmo tumultuado, parecia mais agradável do que estar naquele pesadelo oitentista vivo...
Chegou a hora do show...
Posicionamo-nos e quando a casa fechou o som mecânico da pista, demos início. Havia um público bem razoável presente, mas estava absolutamente indiferente à nossa apresentação. Alguns mais abusados, hostilizavam-nos, dançando de forma debochada e /ou rindo acintosamente...
Tocamos "Luz" nessas condições e sinceramente, mesmo sendo um público hostil, "Luz", por ser um Rock tradicional com ares cinquentistas, poderia não ser tão ruim ao preconceito deles, por isso a colocamos como primeira música do set list.

A seguir, tocamos "Anjo Rebelde", que poderia gerar um certo frisson por ser mais pesada, mas o que acontecia de fato, era uma enorme indiferença, com a massa presente na casa, ignorando-nos em sua maioria e alguns hostilizando-nos, ainda que de forma "moderada". Começamos a terceira música, que era "18 Horas".
Ainda tocaríamos mais umas oito, pelo que lembro-me, pois fomos com a proposta de um show mais curto que o normal, devido às circunstâncias.

Quando chegou no ponto da música onde começaria o solo do Zé Luiz, ouvi-o dar uma acento muito forte no seu prato "crash", e a seguir outro, seguido de gritos, fora do microfone. Olhei para trás e vi-o ensandecido, em pé, dando murros no prato, compulsivamente e gritando : -"não, não, não"...

Por uma fração de segundos paralisei, sem entender o que estava acontecendo, quando finalmente percebi que o som mecânico da casa estava ligado a todo vapor, muito mais alto do que o P.A. do nosso show !! A direção da casa, ligara o som mecânico, encerrando o nosso show compulsivamente, de forma arbitrária, e para lá de deselegante, sem nenhuma justificativa ou aviso !!
Eu e Rubens ainda demoramos para entender o que passava-se. O Chico Dias estava sendo consolado pela namorada na coxia, e o Zé Luiz ficou possesso, e com toda a razão !! Bem, de volta ao camarim enquanto desmontavam o palco, estávamos muito chateados. Então, o pior aconteceu...sim, ainda haviam mais desgraças...

O Zé Luiz e o Rubens, esfriaram a cabeça e após alguns minutos recompondo-se emocionalmente, foram ao escritório do dono do estabelecimento para receber o pagamento acordado. Receberíamos uma porcentagem da bilheteria. Independente dessa atitude horrorosa que tomaram contra nós, não abriríamos mão de nosso cachet, mesmo porque, tínhamos que pagar o P.A. que alugáramos...
Chegando ao escritório do sujeito, foram informados pelo rapaz, que não tínhamos direito a nada, pois nosso pagamento não seria medido pelo público presente na casa (cerca de 500 pessoas estavam presentes), mas pela quantidade de pessoas que alegaram ter ido lá para assistir-nos, mediante o preenchimento de um cadastro solicitado na porta !!

O Zé Luiz enlouqueceu, porque era óbvio que não havíamos combinado nada disso no acerto prévio. O elemento, numa arrogância incrível, mandou buscar os tais papéis preenchidos e mostrou pouquíssimos, que daria uma quantia irrisória. E o que isso provava, se não havíamos combinado nada disso ?? Sem contrato assinado, era palavra contra palavra e nem dava para engrossar, pois a segurança da casa, armada, ficou em alerta quando o Zé Luiz esboçou exaltar-se. Cereja do bolo, o elemento ainda teve o supremo requinte de crueldade, ao afirmar que mandara cortar o nosso show, pois estávamos "enchendo o saco do seu público". Segundo ele, "ninguém estava gostando"...
OK, era uma casa hostil ao nosso espectro musical. De fato aquela horda estava indiferente ao show, eu entendo por esse aspecto, contudo, passar por cima do acordo financeiro, ainda mais sabendo que havíamos contratado um P.A., e a grosseria suprema de cortar-nos o show com menos de três músicas executadas, mais parecia uma provocação...


Certo, era uma casa antagônica ao nosso espectro musical, e de fato, aquela horda estava indiferente ao show, eu entendo. Só que :
1) Eles convidaram-nos e convenceram-nos a aceitar a oferta, usando a argumentação de que estavam abrindo o leque de atrações, visando angariar outros nichos de público. Partindo dessa premissa, eram sabedores de que o ambiente era hostil e portanto, sinalizavam apoio para que tocássemos. Sendo assim, na prática agiram ao contrário, como se tivessem atraído-nos para uma armadilha, e muito pior que  "jogar-nos aos leões", eles portaram-se como os próprios;
2) O combinado era uma porcentagem "X" da bilheteria bruta. Não foi falado nada sobre pesquisa de última hora, com a porcentagem da banda sendo vinculada à presença de público específico de nossos fãs;
3) Independente de estarmos ou não agradando o público, cortar nosso show com duas músicas e meia, de forma arbitrária, foi de uma grosseria ímpar. A ética foi esconder-se no subsolo, de vergonha, depois dessa...
Nós certamente iríamos reduzir ainda mais o show, vendo esse clima hostil do público, mas tal decisão cabia à nós, em cima do palco.

Tal atitude perpetrada por um energúmeno grosso e arrogante desse tipo, foi de uma indignidade atroz. Foi certamente um dos piores, senão o pior show da Chave do Sol em sua história. Infelizmente, nossa incauta visão naquele momento, não foi capaz de antever que seria um desastre, e tudo poderia ter sido evitado com o simples cancelamento. Bem feito para nós, e se houve um lado bom, essa humilhação e prejuízo financeiro serviu de lição doravante, e entrou para o nosso rol de exemplos de como faz-se necessário pensar dez vezes antes de envolver-se numa situação que claramente sinalizava um desastre.

Saímos humilhados da casa, com um cheque nosso no bolso do Pérsio, o dono do P.A. que alugáramos (que representava o fim da nossa esperança de gravar uma demo-tape atualizada, num curto prazo), e muito cansados, emocionalmente falando. No alto da madrugada, depois de alojarmos o nosso equipamento na casa do Rubens, combinamos descansar no sábado & domingo, e retomarmos nossos trabalhos só na segunda-feira. Eu só queria esquecer esse episódio, mas no sábado fui surpreendido com um telefonema totalmente inesperado...


O telefonema atordoou-me : uma mudança repentina de planos da família do Zé Luiz, e agora, haviam resolvido passar o fim do feriado na casa de Itapecerica da Serra. O casal tinha que deixar a residência imediatamente, e arrumar onde ficar nos próximos dois dias. Alguma sugestão ?? A única ideia que surgiu, era a vaga lembrança de que o Hélio, aquele garoto que era aspirante a roadie da Chave do Sol, havia mencionado que sua casa estaria disponível, pois seus pais e irmãs haviam viajado ao litoral, e ele estava sozinho no sobrado. Minha ligação com ele era tênue, pois conhecera-o há pouco tempo, e pelo fato de eu ter namorado muito rapidamente, uma de suas irmãs, chamada Débora.

Ele empolgou-se em ser "meu cunhado" e embrenhar-se assim no mundo do Rock, que era o seu sonho. Até aí, tudo bem, dei-lhe essa oportunidade, mas o meu namoro com a irmã dele foi curto, não deu "liga", e portanto, não achava que tinha toda essa liberdade para pedir um favor desses, mesmo sendo um oferecimento dele.
Por outro lado, ele também havia estabelecido amizade com o Chico Dias, e estava solidário ao fato do gaúcho estar sofrendo para adaptar-se a pauliceia etc etc. Bem, incontinente, liguei para o Hélio e mesmo tirando-o da cama, comuniquei-lhe os fatos e solicitei a casa, lembrando-lhe da sua oferta espontânea anterior.

Ele aceitou na hora ajudar o casal, e mediante novos telefonemas, fizemos toda a logística de tirá-los de Itapecerica da Serra e realojá-los na Vila Industrial, um subdistrito do bairro do Tatuapé, na zona leste de São Paulo. Para quem não conhece São Paulo, dou um exemplo metafórico : é como estar em Mercúrio, e querer ir à Saturno...
Bem, cerca de três horas depois desses telefonemas todos, finalmente fui receber o casal na plataforma da estação Tatuapé do Metrô. Ali encontrei-me com o Hélio, que levou-os para a sua casa, tendo ainda que tomar um ônibus, no terminal acoplado à estação.
Estavam com semblantes de muito cansados e contrariados com tudo isso, portanto, posso imaginar o quanto isso estava sendo desagradável para ambos, embora, por outro lado, nós estávamos fazendo o possível para ajudá-los nessa situação, e convenhamos, não tínhamos culpa pela falta de uma estrutura de acomodação melhor...


Bem, voltei para a casa aliviado, mas estava ainda muito aborrecido pelo desastre humilhante da noite anterior, também pelo prejuízo financeiro, e estressado com esse sufoco repentino para alojar Chico Dias e sua namorada. Mais tarde, com todo mundo tendo melhorado o humor consideravelmente, encontramo-nos novamente no Metrô, e fomos dar uma volta na Av. Paulista. A garota (guria !), queria conhecer o MASP (Museu de Arte de São Paulo), mas naquele horário noturno, não estava aberto. Estava tudo calmo e fomos embora. O casal estava rindo, enfim, e foram para a sua sossegada noite de amor, que desse-lhes paz, ainda bem...


Mas outra bomba estava reservada para a manhã de domingo...
Novamente fui tirado da minha cama com a notícia de que uma coisa horrível acontecera, gerando stress na casa do Hélio.
Simplesmente os pais dele anteciparam sua volta a São Paulo, e surpreenderam um casal jovem e completamente estranho, dormindo nus na sua cama !!! Furiosos, expulsaram-nos aos gritos, mal tendo tempo para vestirem-se...
Estressado, Chico Dias não sabia o que fazer e o Hélio entrou num castigo "enclausurante", onde só consegui falar com ele, vários dias depois...
Pensar... pensar... onde alojar esses dois por mais um dia, visto que a namorada só voltaria à Porto Alegre na segunda-feira, por conta da passagem comprada antecipadamente ?


Outra hipótese maluca ocorreu-me : lembrei-me do Hélcio, aquele fã abnegado que levava faixas às gravações da Fábrica do Som, para incentivar-nos, e que intermediara três shows para nós na sua cidade natal, Atibaia, no interior de São Paulo. Ele estudava em São Paulo, e morava num apartamento com seu avô, mas o senhor raramente ficava em São Paulo, portanto, na prática, ele ficava sozinho o tempo todo. Restava-nos saber se o Hélcio estava em São Paulo e poderia ajudar-nos por uma noite. Liguei e dei sorte : ele estava, e indo além, estava sem o avô e aceitaria abrigar o casal, sem problemas. Como fã da banda, sentia-se feliz em ajudar, e até gostaria de recebê-los para tomarem vinho e ouvir música, sendo isso, melhor que estudar...
OK, fui levar o casal até a av. Paulista, onde encontramo-nos com o Hélcio. Seu apartamento ficava nas imediações da rua São Carlos do Pinhal, ali perto. Ao contrário da noite anterior, o casal estava em frangalhos novamente, e confesso, eu também estava cansado dessa situação.

Bem, entreguei-os ao Hélcio e fui para a minha casa. Tudo o que queria era descansar e chegar segunda-feira no ensaio, um pouco melhor, para tocarmos nosso barco adiante. Mas minha paz não durou muito...outro telefonema e lá estava o Chico Dias desconsolado, ligando-me de um orelhão da av. Paulista. O mesmo raio caíra três vezes na cabeça do azarado Chico Dias...
O avô do Hélcio chegou de surpresa, e não gostou da ideia do casal ficar ali naquela noite. Não foi aos berros, mas foi feito um convite para eles retirarem-se...

O Hélcio ficou muito chateado, mas nada podia fazer, pois o avô era de fato o proprietário do apartamento e daí...
Bem, lá fui eu de volta encontrá-los na av. Paulista. Estavam sentados na escadaria da TV Gazeta, cabisbaixos. E desta vez, eu não sabia o que fazer mais para dar um jeito para o casal. Eu também estava sem recursos, e minha casa era pequena naquela ocasião, e sem chance para um oferecimento, nem que fosse de emergência. Minha ideia foi ligar para alguém daquele grupo de amigos que orbitavam a banda, desde 1982. Algum deles poderia ter uma ideia.

Gentis como sempre, mobilizaram-se e vieram encontrar-nos. Nenhum deles poderia oferecer a própria residência, mas organizaram uma vaquinha e dividindo bem, até eu ajudei, apesar de minha precariedade financeira à época. Após um jantar animado, onde o casal pôde relaxar um pouco, depois de tantas emoções, os deixamos num hotel nas Perdizes, bairro da zona oeste de São Paulo. Dali, havia uma estação de metrô próxima, e os instruímos a dirigirem-se à rodoviária no dia seguinte, sem problemas. Deixamos o casal à vontade para descansar no hotel, e fomos embora.
Fiquei muito feliz pelo apoio dos amigos, onde destaco o Carlos Muniz Ventura, que foi fotógrafo de muitas ocasiões importantes da banda, incluso fotos promocionais de encartes de discos (The Key).
Ele liderou a vaquinha e pesquisou hotéis baratos nas imediações onde estávamos etc. Fui dormir extenuado pelo acúmulo de problemas iniciados, desde a catastrófica noite de sexta, e o show horrível na Tífon. Mas ainda aconteceria mais uma desgraça...



Desta vez, não fui chamado para ser o "bombeiro", mas o Carlos Muniz Ventura ligou-me para contar-me que naquela hora (cerca de 13:00 h), estava tudo bem, mas quase acontecera uma tragédia, horas antes. Segundo Carlos, ele fora acordado por volta das 8:00 h da manhã, com o Chico Dias berrando, desesperado. Aos gritos, ele dizia : -"minha mina morreu..."

Transtornado com essa informação chocante, o Carlos foi imediatamente ao hotel, socorrer o casal. Mas nessa altura, alguém do hotel já havia solicitado uma ambulância. O Carlos chegou quase simultaneamente ao resgate e aliviado, descobriu que a moça estava viva, embora desmaiada. Levada imediatamente para o Hospital das Clínicas, foi diagnosticado o seu desmaio como reação do organismo por falta de insulina, visto que ele era diabética e naquele stress todo do final de semana tumultuado, esquecera-se de injetar sua insulina diária. Tremendo de um susto !!! Ela ficou internada por mais um dia e teve que trocar a passagem de volta para o sul, mas nem de longe, foi o pior problema que enfrentou naquele final de semana dantesco. O Chico Dias que era carrancudo e pessimista por natureza, depois desse evento todo, piorou... e a vinda de sua namorada que tinha o objetivo de promover a subida de sua autoestima, infelizmente, no "conjunto da obra", acabou tendo efeito inverso !!

O melhor remédio dali em diante, seria mesmo tentar esquecer tudo, e seguir em frente nos nossos planos. Pensando em física quântica, teria bastado cancelar o show da Tífon, assim que soubemos que teríamos que alugar um P.A. por nossa conta. Nossa insistência em fazer um show numa casa que sabíamos ser hostil e pior, correndo alto risco financeiro, foi uma sandice. Talvez, se tivéssemos de fato cancelado, não houvesse a ideia do Chico Dias, de trazer sua namorada.

No campo das infinitas variantes que precipitam-se a cada peça que mexemos no tabuleiro de xadrez, é fascinante verificar que tudo poderia ser diferente...
Bem, a vida seguiu, apesar desse final de semana de derrotas múltiplas...


Felizmente, esse final de semana de terror, encerrou-se com a garota do Chico Dias voltando para a casa, e chegando sã e salva a Porto Alegre. Apesar do abatimento que essa história toda causara-nos, não tínhamos tempo para cair na depressão, pois mesmo com a humilhação daquele show malogrado na Danceteria Tífon, e a agravante de nossas economias estarem voando num cheque, em direção à um bolso alheio (nem contando o baixo astral perpetrado pela onda de azar cinematográfica de Chico Dias e sua namorada), precisávamos levantar o ânimo, pois no sábado subsequente, estávamos escalados para tocar no Festival BR-Rock, no Circo Voador, do Rio de Janeiro.

A produtora do Língua de Trapo, na época de minha segunda passagem pela banda, Cida Ayres, e que muito auxiliou A Chave do Sol nesse ano de 1984. Aqui, em foto bem mais atual, no entanto

Lograra êxito a nossa investida em setembro, e graças a um empurrãozinho da produtora Cida Ayres, a produtora do Circo Voador, Maria Juçá, gostou do nosso material, e escalou-nos para a noite do terceiro sábado do festival.

Claro, ficamos eufóricos com essa possibilidade de estar num festival de grande porte, tocando em meio à muitas bandas que estavam na crista da onda do mainstream, e no Circo Voador, lugar muito "cool", no Rio de Janeiro. Era hora de espantar o baixo astral, e ensaiar com bastante atenção, e foi o que fizemos nessa semana que antecedeu o nosso show no Festival.

Como o Zé Luiz tinha sua irmã mais velha morando no Rio, propôs que eu fosse com ele um dia antes, para fazermos mais contatos e diante dessa possibilidade de ter um lugar para ficar, claro que aceitei. Eu e Zé Luiz fomos para o Rio, na madrugada de quinta para sexta, e chegamos bem cedo. Da rodoviária, fomos direto para Ipanema, onde descansamos um pouco no apartamento da irmã dele, e logo depois do café da manhã, saímos para aproveitar ao máximo o dia. Iniciamos com uma visita à redação da Revista Roll; fomos à Rádio Fluminense, e visitamos algumas lojas de discos. No meio da tarde, visitamos o Circo Voador para dar uma olhada no equipamento e movimentação do dia, quando a Maria Juçá convidou-nos para que assistíssemos os shows programados para aquela sexta-feira. Claro que tencionávamos voltar ali a noite, mas tínhamos ainda muitas horas pela frente, e resolvemos voltar à nossa hospedagem no apartamento da irmã do Zé Luiz, e descansar; tomar banho e jantar.

Mas tínhamos um plano antes de ir ao Circo Voador. Resolvemos ir ao Parque Laje, onde na mesma noite, ocorreria um show dos Paralamas do Sucesso. Não queríamos ver o show, mesmo porque não daria tempo, mas a nossa intenção era sentir a "vibe" do lugar, que eu particularmente conhecia apenas pelo cinema, com cenas de filmes como "Macunaíma" e "Terra em Transe", que ali foram produzidas. De fato, o local era belíssimo, e usado para show de Rock, com a possibilidade do uso de iluminação, ficava fantástico. Tocar ali não seria nada mau, mas pelo que sentimos, não era um espaço que estava sendo utilizado com essa finalidade, com constância. Portanto, não adiantava nada procurar saber quem estava produzindo aquele show dos Paralamas, naquele instante, pois era algo inusitado e sazonal, numa primeira impressão.

Fomos para o Circo Voador e quando lá chegamos, tivemos uma certa dificuldade para entrar, por conta de seguranças truculentos e despreparados. Bem, nenhuma novidade em se tratando de Brasil e convenhamos, 2016 em curso, e isso não melhorou muito em shows...
Quando finalmente entramos, a casa estava absurdamente lotada. Não dava para mexer-se, literalmente, e o miolo da pista parecia uma guerra campal, pela ação do famigerado "Pogo", aquela prática "maledetta" e tipicamente oitentista do público não prestar atenção no artista no palco, mas usar o som do show para debater-se uns aos outros, denotando a iconoclastia punk de 1977, onde o artista era encarado como um mero joguete de rituais truculentos de ordem primitiva, e não como protagonista artístico de um espetáculo cultural. O Camisa de Vênus tocava, e mesmo eu sabendo que o Marcelo Nova é gente boa, e é Rocker, claro que o Rock'n Roll "raulseixista" que ele professa, passava ao largo em 1984, e ele e seus amigos aproveitavam-se da moda do Pós-Punk, surfando nessa onda. Aquela conversinha fiada de que faziam "Rock'n Roll", era mera retórica distorcida, pois na prática, o som que faziam era um punkinho sem eira, nem beira, e o público adorava aquela tosquice atroz sobre quem matou Joana D'Arc, ou coisa que o valha. Bem, constatar a realidade oitentista no meio da erupção, parecia inevitável e compulsório...

Ficamos assistindo do fundo, pois tentar aproximar-se seria um exercício de masoquismo, graças à batalha campal do famigerado "pogo", que definitivamente não estávamos interessados em submetermo-nos. Quando o show do Camisa de Vênus encerrou-se, o público dispersou em direção ao bar, e muita gente saiu do Circo para recompor-se e respirar, com aquele calor todo. Aproveitamos a brecha e fomos para a coxia, onde o "Metrô" preparava-se para entrar em cena, enquanto roadies apressados faziam a troca de set up. Muito simpático, o baterista Daniel, lembrou-se de minha pessoa e veio conversar conosco. Falara com ele quando toquei com o Língua de Trapo no Festival de Águas Claras, em março daquele mesmo ano, e eles ainda chamavam-se "Gota Suspensa"(essa história está contada em detalhes no capítulo do Língua de Trapo).

Ele mesmo rememorou isso, e dizia que a vida tinha mudado da água para o vinho, e estavam "morando" dentro de aviões e quartos de hotéis, há meses. No sábado, iriam fazer um show em Salvador, mas no domingo, voltariam ao Rio, para gravar o programa do Chacrinha. Um caso raro de pessoa humilde que foi para o mainstream (falarei sobre outro, logo mais), fiquei feliz por vê-lo num momento de ascensão incrível.

Sabia que aquele New Wave oitentista e robótico que tocavam, desagradava-o, pois o negócio dele era o Rock Progressivo setentista, mas como era bonito, por outro lado, ver um conhecido chegando no mainstream !! Bem, ele despediu-se, e convidou-nos a ver o show, mesmo sabendo que não era a nossa predileção naturalmente, e foi para o palco, onde já chamavam-no com insistência e certa tensão.


O show deles começou e realmente era muito decepcionante ver músicos bons a serviço daquele pop raquítico. Aqueles timbres de plástico doíam nos ouvidos. Baixo Steinberger; bateria sintetizada; aqueles teclados de timbres ridículos, e a guitarra plugada num insípido amplificador Roland Jazz Chorus...ninguém merecia, nem mesmo em se considerando que estávamos em 1984...
A performance deles era perfeita para aquela estética. Muito bem vestidos, mas naqueles parâmetros de dândis oitentistas, cortes de cabelo esquisitinhos, e muito gel...
Pareciam os músicos do "Kraftwerk", com coreografias robóticas, dignas daquela época, e tudo parecendo um copião de "Blade Runner".

Absolutamente deprimente... mas reafirmo, os rapazes eram ótimos músicos, gente boa e estavam certos e nadar a favor da maré que favoreceu-lhes. Encerrado o Metrô, era a hora do headliner da noite, os paulistanos do Rádio Táxi...


O palco foi inteiramente renovado e o P.A. do Circo Voador, recebeu reforços significativos de caixas. Vimos um impressionante equipamento particular do Rádio Táxi sendo instalado muito rapidamente, por um exército de roadies, e ficou claro que o som deles seria muito melhor do que o das bandas anteriores, e em relação ao Metrô, ficava a ressalva que tinham bastante equipamento também, ainda que estivessem coadunados com as sonoridades oitentistas medíocres por opção, pois tinham condições de fazer algo muito melhor pelo fato de serem ótimos músicos (exceção à vocalista Virginie, que como cantora, era só uma moça bonita.).

O Rádio Táxi era outro caso de uma banda de excelentes instrumentistas com a intenção deliberada de fazer uma música pop e 100% coadunada com aquela estética em voga. Egressos dos anos setenta, não tiveram dúvida em cortar o cabelo bem curtinho; encomendar roupas de dândis; e o pior de tudo, evocar aquelas sonoridades abomináveis. Para tocar aquele som, foram fundo, e tal como o Metrô, usavam instrumentos modernosos e ridículos como o famigerado baixo Steinberger, aquela baboseira "Dark", metida a futurista...
Como resultado, a sonoridade era horrível, e só lamentávamos o fato de músicos de enorme capacidade estarem fazendo aquilo somente pelo dinheiro, mas com a maturidade adquirida, hoje eu pergunto-me : não teríamos feito a mesma opção se tivéssemos a mesma chance ? Mas essa constatação ia além do lamento, pois mexia diretamente conosco. Tal realidade fazia-nos elucubrar a nossa própria expectativa de carreira. Sendo muito francos conosco mesmos, quantos por cento, não queríamos estar naquela situação confortável do Rádio Táxi, Metrô e outras bandas que estavam gozando as benesses de uma carreira bem estruturada no mainstream ? Todavia, na época, não pensávamos dessa forma. Claro que ambicionávamos o mainstream, e era óbvio que o mercado oitentista estava borbulhando para o Rock, mas nesses moldes das estéticas oitentistas que abominávamos.

E nessa altura dos acontecimentos, não bastava só ir ao barbeiro e cortar o cabelo com um corte esquisitinho, e usar muito reverber e chorus nos instrumentos. Já estávamos na luta, e mesmo que num patamar muito inferior ao que esses artistas privilegiados estavam usufruindo, pelo fato de termos música tocando em rádio; muitas aparições na TV; e portfólio em franco crescimento, não havia meios de retroagir, remodelando a carreira. Seria digno de filmes de Cheech & Chong, se uma banda com a nossa sonoridade e identidade ideológica, aparecesse da noite para o dia, com visual Pós-Punk, e músicas novas coadunadas com aquela estética...
Deixaríamos de tocar "18 Horas" repentinamente, e seríamos o "Echo and the Bunnymen "do Itaim-Bibi, assim, num piscar de olhos ? Ha ha ha !!

Claro, mera especulação, pois não havia meio de nós pensarmos numa estratégia desesperada dessas e convenhamos, nunca cogitamos uma bobagem desse porte, pois tínhamos muitas esperanças em atingir o mainstream, mas por outros meios.
Estávamos muito confiantes na possibilidade do mercado expandir-se, abrindo um outro nicho, fora dessa egrégora do Pós-Punk, ou seja, seguindo a tendência do mercado americano e europeu, onde haviam os dois polos funcionando concomitantemente (referindo-me ao Hard-Rock e Heavy-Metal).
Era para esse lado que deveríamos pender, mais próximo de nossa realidade, apesar de também ser terreno inóspito para rockers que comungavam pela velha cartilha 1960 / 1970.


Bem, voltando ao assunto, o som do Rádio Táxi estava todo arrumadinho para ser modernoso e estar coadunado com a estética da época, mas como a intenção era ser pop e leia-se o conceito pop, como algo bem perto do popularesco, ou seja, era como se o "The Fevers", ou os "Pholhas" tivessem tomado um banho de "modernidade", e estivessem fazendo seu som, travestidos de banda Pós-Punk, só para seguir um modismo de ocasião. Fora o fato de serem excelentes músicos e portanto tocarem com uma segurança incrível, o Rádio Táxi  soltava aqui e ali, pequenos lampejos de Prog Rock, Jazz-Rock, muito sutis, e dava para entender. Parecia que faziam isso como fumantes de escritório, que dão aquelas escapadas para os fumódromos, buscando um alívio rápido...
Não deixava de ser um mérito, claro e os rapazes já tinham muitos Hits naquela época, com o público respondendo de forma rápida a cada canção de apelo radiofônico e noveleiro que executavam, daí as "escapadas" para um som sofisticado no meio do set list.
Foi um show longo, e embora o público demonstrasse estar apreciando, nem de longe havia aquela euforia, que verificamos quando chegamos ao Circo Voador, e o Camisa de Vênus apresentava-se. Fomos para o apartamento da irmã do Zé Luiz, conversando sobre todas as observações que fizéramos, e no dia seguinte, por volta das 14:00 h, fomos à rodoviária, onde o Rubens e o Chico Dias chegariam, acompanhados do amigo Claudio "Capetóide", que viria improvisadamente como roadie. 


Encontramos com a outra metade da banda no horário combinado, e fomos diretamente à Lapa, para aguardar o momento de realizarmos o soundcheck. Estávamos muito contentes com o fato de estarmos escalados para o sábado, um dia nobre, e no turbilhão de um Festival de grande porte, tocando ao lado de nomes consagrados do BR-Rock 80's, ainda que no nosso dia de atuação em específico, não houvesse ninguém muito famoso.

Pode parecer bobo, ingênuo até, mas achávamos que esse festival poderia ser um marco para a carreira da banda, pois dava-nos a impressão de que era fruto da ascensão nítida que estávamos tendo, por vários fatores já elencados anteriormente nesta narrativa.
De fato, era mesmo, se considerarmos que talvez não fôssemos escalados, se não estivéssemos nesse "momentum" significativo.
No sábado, no entanto, as atrações que circundavam-nos, não eram de grande relevância para aquele panorama. Lamentamos, pois queríamos ter sido escalados num dia que estivéssemos acompanhados de "Lobão & Os Ronaldos"; "Barão Vermelho", "Paralamas do Sucesso" etc etc.

Todavia, era clara a intenção do Festival em agrupar bandas emergentes, portanto ainda não consagradas, e indo além, o fato de terem pensado no sábado, supostamente um dia nobre, como o dia para esse tipo de bandas com menor apelo de público, só podia ter um motivo : o fato das bandas consagradas estarem com agendas lotadas... nessa hora, lembrei-me do baterista Daniel, do Metrô, que dissera-me na noite anterior, que no sábado, iriam tocar em Salvador, para voltar ao Rio no domingo, visando gravar o programa do Chacrinha...
Então, estaríamos acompanhados de "Gato de Louça"; "Vento Sul", e "Luciano Alves".

O único conhecido na minha visão, era o tecladista Luciano Alves, que eu tinha vivo na lembrança, pelo fato de ter sido o último tecladista dos Mutantes. Mas a questão, era : o que estaria fazendo agora ?
E no meio do turbilhão oitentista, só podia esperar pelo pior, ou seja, um som decepcionante, modernoso... na onda do Pós-Punk.
Fomos bem tratados no soundcheck, e quando saímos do palco, a banda de Luciano Alves chegou para passar o som. Assistimos um pouco a passagem deles antes de partirmos para o hotel, em que hospedar-nos-íamos ali perto, na Lapa mesmo. Pelo pouco que vi, até surpreendi-me, pois não era nada radicalmente modernoso como esperava. Pelo contrário, apesar de parecer algo pop, tinha elementos de Rock'n Roll tradicional. Enfim, dos males o menor, não tocaríamos com "replicantes" ou "Cyber-Punks" saídos dos filmes "Blade Runner" ou "Mad Max"...

O lado ruim, internamente falando, foi que o Chico Dias chegara ao Rio, com um mau humor insuportável. Infelizmente ainda não recuperara-se dos aborrecimentos da semana anterior, e ao invés de estar feliz por estar conhecendo o Rio de Janeiro, e prestes a cantar no Circo Voador, um espaço "cool", em meio aos maiores artistas do BR Rock 80's (falando em termos do Festival inteiro e não especificamente sobre os artistas escalados para o dia), estava com o semblante fechado, poucas palavras, e nenhum entusiasmo por tudo o que citei acima. Bem, não tínhamos tempo para contratar um psicólogo, e sendo assim, só restava-nos ter um tato mínimo para não piorar o clima, e com isso, tal mau humor, não atrapalhar a performance da banda. Só faltava-nos mais essa, num momento desses...


Luiz Domingues no destaque, com Zé Luiz Dinola ao fundo. A Chave do Sol no Circo Voador do Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho
  
Passado o soundcheck, tínhamos um bom período de espera pela frente. Demos uma volta pela Lapa, caminhamos um pouco pela Cinelândia, e voltamos ao Circo Voador. A primeira atração do dia, foi o "Vento Sul", que sinceramente não lembro-me exatamente de sua apresentação, pois nessa hora, estávamos no camarim. O "Gato de Louça", eu assisti uns trechos pela coxia, e pareceu-me uma boa banda, com músicos de bom nível e arrisco dizer que tinham alguma influência de Jazz-Rock setentista, e convenhamos, é preciso ter nível técnico para arriscar-se nessa complicada área musical. Os próximos seríamos nós...

Da esquerda para a direita : Rubens Gióia; Chico Dias; José Luiz Dinola (ao fundo) e Luiz Domingues. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho
 
A Maria Juçá deu-nos o aviso e fomos ao palco, com bastante confiança, apesar do mau humor do vocalista Chico Dias. Infelizmente, demos muito azar, pois já antes da primeira atração subir ao palco, uma chuva torrencial caíra. E continuou, prejudicando a presença de um público melhor. Enquanto tocávamos, a chuva apertou ainda mais. Durante o nosso show, deu para ouvir o barulho de trovões, demonstrando que a coisa estava feia na rua.

Zé Luiz Dinola ao fundo; Luiz Domingues de costas para o público; Rubens Gióia e Chico Dias de frente para o público. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho
 
Convenhamos, as atrações não eram chamativas o suficiente para levar um grande público ao Circo Voador, apesar de ser um sábado.
O único nome mais significativo, seria o de Luciano Alves, mas mesmo assim, era algo bem distante da ideia de que ele fora tecladista dos Mutantes em sua fase final nos anos setenta etc etc.
E naquele ambiente oitentista hostil, era até melhor omitir isso, falar em Rock Progressivo etc...
Os demais, incluso A Chave do Sol, eram bem desconhecidos do público carioca (no nosso caso, apesar do apoio maciço da Rádio Fluminense FM), e à margem do BR-Rock oitentista e midiático, em voga.

Luiz Domingues em destaque. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho

Sendo assim, o público era muito diminuto, em se considerando o da noite anterior, que superlotou o Circo Voador, graças a três nomes fortes do BR-Rock, conforme já citei anteriormente.
Em relação à nossa apresentação, apesar de ser um público pequeno, foi bastante caloroso e arrisco dizer que haviam pessoas ali motivadas pelo fato da música "Luz", estar tocando na programação da rádio Fluminense FM, há meses.

Rubens Gióia à esquerda; Zé Luiz Dinola ao centro e Luiz Domingues à direita. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho

Nossa performance foi muito boa. Não deixamo-nos abalar pelo pouco público, tampouco pela chuva diluviana que caía, com direito a raios & trovões ensurdecedores. Tocamos com muita energia. O vocalista Chico Dias fez até um solo vocal, imitando bastante o Freddie Mercury, o que deixou-nos um pouco apreensivos, pois com pouca gente no ambiente, tendia a ser constrangedor, devido à insistência dele em cobrar interatividade das pessoas.

Rubens Gióia em destaque. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho

Mas demos sorte, pois os poucos presentes, responderam o convite à participação e tudo encaixou-se. Pelo contrário, talvez tenha passado uma imagem de segurança por parte dele e da banda, e de certa forma, "pegou bem". Desse show, tiramos muitas fotos, e a minha foto individual na contracapa do EP que lançaríamos no ano posterior, 1985, foi extraída daí. Estava todo de preto, com calça e camisa de cetim brilhante, num visual ultra setentista. Pareço o Ritchie Blackmore...
Apesar do pouco público presente, creio que cumprimos a nossa missão, e saímos satisfeitos do palco.

Uma panorâmica da banda no palco. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho
 
Assistimos um trecho do show de Luciano Alves, que parecia mesmo uma tentativa de algo Pop, mas com elementos setentistas discretos na sua música. Enfim, nem era explicitamente oitentista, mas também não assumia-se como algo setentista, portanto, era um híbrido indefinido, mas sem nenhum brilho, infelizmente.

No camarim do Circo Voador : Rubens; eu (Luiz Domingues), e Chico Dias. O semblante do vocalista gaúcho não desmente a minha narrativa em relação ao seu humor naquele dia. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho

Esse show ocorreu no dia 20 de outubro de 1984, um sábado, com cerca de 400 pessoas na plateia. Hoje eu soltaria rojões em tocar para um público de 400 pessoas, mas naquele momento, achávamos pouco, diante das quase 2000 que espremeram-se no Circo Voador, na noite anterior, que descrevi parágrafos atrás...
Fomos jantar nas imediações, e dormir num hotel ali próximo, na Lapa.

Rubens Gióia de frente; Luiz Domingues de lado e ao fundo, José Luiz Dinola. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho
 
No dia seguinte, quando acordamos, decidimos esticar um pouco no Rio, para tentar levantar o astral do Chico Dias. Guardamos os instrumentos e a bagagem no guarda volumes da rodoviária, e fomos dar uma volta pela zona sul. Demos uma volta por Ipanema, e na Rua Prudente de Moraes, encontramos por acaso o ex-apresentador do programa "A Fábrica do Som", Tadeu Jungle.
Ele ficou surpreso por ver-nos circulando por ali, mas também mostrou-se contente por verificar que estávamos subindo na carreira, tocando num lugar badalado do Rio de Janeiro, onde certamente o fato de termos apresentado-nos tantas vezes naquele seu programa, que repercutia nacionalmente, havia ofertado-nos tal possibilidade.

Perspectiva da coxia. Rubens Gióia & Chico Dias, com Luiz Domingues ao fundo semi encoberto. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho
 
Isso era verdade, claro que sabíamos disso, e estávamos tentando agarrar todas as oportunidades que estavam surgindo à nossa frente.
Depois fomos caminhando até Copacabana, e alguém sugeriu que esticássemos até a Urca, para um passeio típico de turistas...


Zé Luiz Dinola em destaque, na primeira foto. Na segunda, Rubens Gióia & Chico Dias em destaque, com Luiz Domingues de costas e Zé Luiz Dinola na bateria, semi encoberto. A Chave do Sol no Circo Voador, Rio de Janeiro, em 20 de outubro de 1984. Foto : Claudio de Carvalho
O passeio sugerido foi o de subirmos ao Pão de Açúcar...
Apesar de ser um passeio manjado e para turistas, foi bastante divertido para todos, menos Chico Dias, que parecia ter entrado num processo ainda mais intenso de contrariedade.

Nada demovia-o de seu mau humor crônico, e de fato, a oportunidade de estar no Rio; ter tocado num evento onde estávamos relacionados aos maiores nomes do Rock da ocasião (pensando no festival como um todo e não só nas atrações que estiveram conosco no sábado), e numa casa de shows badalada como era o Circo Voador, parecia não ter sensibilizado-o. Portanto, passear no dia seguinte pelo Rio, é que não o seduziria, mas infelizmente não tivemos essa percepção naquele momento. E como cereja do bolo, compramos a revista "Rock Star" numa banca ainda no Rio, contendo reportagem abordando-nos, portanto, mais um sinal de ascensão, e ele nem quis folheá-la...

Para quem conhece bem o Rio, ou pelo menos já fez esse passeio, sabe que faz parte da estratégia de consumo, para arrancar dinheiro de turistas, uma artimanha quase secreta, que é praxe ali no bondinho do Pão de Açúcar. Assim que desce-se do bondinho, já lá naquela altura enorme, as pessoas geralmente estão no torpor mental, misto de medo pela subida e êxtase pela paisagem inacreditável. Então, nem percebem, mas são amplamente fotografadas. Alguns minutos depois, vendedores abordam-lhes, com pratos de porcelana em mãos, onde o destaque é a sua foto pregada neles, como adorno...

Geralmente as pessoas são clicadas com aquelas expressões faciais "abobalhadas", de turistas incautos, e encantam-se com tal "lembrancinha" do passeio, pagando uma pequena fortuna pela quinquilharia. O Chico Dias estava com uma expressão indisfarçável de tédio, e que simbolizava bem o seu estado de espírito na ocasião...
Claro que não compramos nossas respectivas fotos cotadas a peso de ouro, e com a malandragem local achando que éramos argentinos pelo tamanho de nossos cabelos, mas hoje em dia, claro que eu gostaria de tê-las para publicar aqui na autobio...

Bem, com a tarde findando-se, resolvemos voltar para São Paulo, enfim. Já no trajeto dos ônibus urbanos que usamos nessa tarde inteira, o Chico Dias aproveitava para "dormir" durante o percurso, demonstrando seu completo desinteresse pelo passeio. Hoje na minha percepção, é claro que estava totalmente arrependido de ter entrado na banda, mudado-se para São Paulo, e nenhum progresso da banda, que era claro para todos, parecia seduzi-lo. Depois do traumático evento vivido por ele e sua namorada, uma semana antes desse show no Rio, parece que seu pouco comprometimento com a banda, tratou de zerar a cota...

Ainda não percebíamos que tratava-se de um processo irreversível, portanto tínhamos esperanças de que ele realinhasse-se, e que aquele momento seria passageiro. Assim foi o nosso final de semana no Rio, em outubro de 1984. Mas nossa agenda estava em expansão, e já no dia 23, uma terça, tínhamos um compromisso firmado de última hora, e que foi muito interessante, em São Paulo. Ao contrário daquela semana terrível em que descrevi o show da danceteria Tífon, e a saga de Chico Dias e sua namorada, este novo final de semana no Rio, começou bem, com contatos na sexta-feira, com direito a muitas histórias pitorescas que vivemos dentro do turbilhão do BR-Rock oitentista; passou pelo nosso bom show, apesar da chuva, e encerrou-se num esforço coletivo de promover uma terapia ocupacional para o Chico Dias, infelizmente, infrutífera. O show no Circo Voador ocorreu no dia 20 de outubro de 1984, um sábado chuvoso no Rio de Janeiro. Cerca de 400 pessoas estiveram presentes (parece bom, mas para o tamanho do Circo Voador, era realmente pouca gente...).


Chegamos a São Paulo no início da madrugada de segunda-feira, e cancelamos o dia off que havíamos programado para descansar da viagem, pois surgira um compromisso de última hora. Graças ao pessoal da banda "Tonelada e seus Kilinhos", fomos contactados e aceitamos fazer um show relâmpago no Teatro Objetivo (atual "Gazeta"), na avenida Paulista. Nessa ocasião, tocariam além de nós, o próprio "Tonelada", é claro, e algumas bandas novas.
O show era beneficente, e ninguém ganharia cachet, mas segundo os amigos peso-pesado da banda "Tonelada e seus Kilinhos", seria vital a nossa participação, pois "olheiros de gravadoras" estariam presentes, e entre eles, o Peninha Schimdt.

Bem, claro que aceitamos, e na segunda-feira fizemos um novo ensaio, para chegarmos bem preparados. Falando especificamente sobre esse detalhe, a despeito de achar a postura bem profissional e madura, aparentemente, acredito que havia uma dose de exagero enorme nesse tipo de procedimento de nossa parte. Éramos ultra ensaiados naquela época, e havíamos tocado ao vivo num show de grande responsabilidade e importância para nós, no sábado !

Portanto, fazer um novo ensaio, visando a apresentação na terça-feira posterior, não parecia ser uma necessidade premente, e de fato não era, mesmo. Mas, éramos muito obstinados naquela época, e fizemos esse ensaio extra, assim mesmo, achando a coisa mais normal do mundo naquela ocasião, mas claro que não era necessário esse esforço adicional. O show no Teatro Objetivo, foi de choque, e muito energético. Havia cerca de 300 pessoas na plateia. Lembro-me bem do líder do "Tonelada", eufórico na coxia, pois a energia estava a mil por hora, e ele enxergava essa "vibe'", como ideal para impressionar os ditos "observadores" ou "caça talentos" presumidamente ali presentes. Além de nós e dessa banda citada, não recordo-me de nenhuma outra banda que fosse significativa o suficiente ou que tenha adquirido tal status a posteriori. Não anotei o nome das demais no meu guia de shows da Chave, como dado análogo. Minha única lembrança nesse dia, em relação a essas bandas, é que em sua maioria esmagadora, eram bandas muito ruins, formadas por jovens muito fracos tecnicamente falando, e pior, quase todas rezando a cartilha do Pós-Punk, mas pelo viés da miserável ruindade da New Wave.

Eram bandas com nomes baseados em siglas, uma outra prática abominável e típica daquela década, e com todo mundo usando aqueles cortes de cabelo mega esquisitos, fora as roupas de cores cítricas. Mais pareciam bandas infantis egressas da "Turma do Balão Mágico"...
Nesses termos, se os supostos "olheiros de gravadoras" estivessem realmente presentes, é claro que interessar-se-iam muito mais por essas bandas do jardim da infância do que nós... realisticamente falando, é claro que seria isso !
Isso ocorreu no dia 23 de outubro de 1984, uma terça-feira. Cerca de 300 pessoas, em sua maioria, adolescentes, assistiram o evento.
Tocamos quatro ou cinco músicas apenas, por tratar-se de um show de choque. No dia seguinte, teríamos outro dia puxado !

Estavam agendadas duas aparições em programas de TV,  uma logo cedinho, outra na parte da tarde. Também estávamos agendados num programa de rádio, ao vivo, na hora do almoço, e na parte da tarde, tínhamos o soundcheck no Teatro Lira Paulistana, onde faríamos show, naquela noite. Se o Chico Dias não animasse-se com uma agenda dessas, era porque realmente não estava dimensionando a oportunidade que estava tendo na vida.


Na manhã de quarta-feira, precisávamos estar nos estúdios da TV Record, de São Paulo, pontualmente às 8:00 h. da manhã. Participaríamos do programa "A Mulher dá o Recado", típico programa feminino matinal, mas que abria espaço para aparições de bandas independentes, além dos tubarões das "majors".
Nunca canso-me de dizer que se detesto a década de oitenta por diversos aspectos, devo reconhecer que nessa época, havia ao menos locais para tocar, e a abertura na mídia mainstream, ainda não estava totalmente corroída pela máfia do jabá...
Achávamos que era válido apresentarmo-nos em programas femininos, e não exatamente especializados em música, e muito menos no Rock, porque era uma oportunidade de expansão, atingindo um tipo de público diferente. De fato, continuo pensando assim. Acho muito válido aparecer em programas de TV não necessariamente especializados em música.

A apresentadora, era a Márcia Maria, uma atriz que fora bem famosa nas décadas de sessenta e setenta, e que agora estava atuando numa nova função. A música que dublamos, foi "Luz".
Era uma escolha única, pois só tínhamos o compacto na ocasião, e o lado B do disco tinha "18 horas", uma música instrumental e longa, portanto inadequada para o formato de dublagem na TV.
A entrevista foi trivial como poder-se-ia esperar de um programa dessa natureza, e dessa forma, só o básico foi relatado na mini entrevista promovida por ela.

Claro, o curioso ficou por conta de Chico Dias ter que dublar a voz do Rubens, presente no disco. Não tínhamos outra alternativa, submetendo-o à esse constrangimento, pois não havia cabimento em apresentarmo-nos sem a presença dele, Chico, pois estávamos forjando uma nova imagem como quarteto. E dentro dessa perspectiva, já tínhamos feito fotos promocionais novas (clicadas pelo amigo Carlos Muniz Ventura), inclusive.

A famosa foto promocional da Chave do Sol como quarteto em 1984, com Chico Dias na formação, mas com o "pulo" do Rubens Gióia a chamar mais a atenção. Click de Carlos Muniz Ventura
 
Aliás, cabe o parêntese, é dessa sessão de fotos que saiu uma foto publicada na revista "Mix", posteriormente, sobre o universo de instrumentos e equipamentos musicais, onde o Rubens foi entrevistado, e sua imagem foi recortada dos demais, pois havia destacado-se ao dar um pulo muito alto, parecendo o Pete Townshend...
Voltando ao programa, infelizmente eu tenho a cópia preservada em VHS, mas está muito comprometida pela ação do tempo. Digitalizei assim mesmo, mas não tem condições de ser postada no You Tube, pois é irritantemente ruim, com problemas de rotação, inclusive.
Tentarei, por outro lado, aproveitar de alguma forma os poucos takes razoáveis de tal vídeo, e quem sabe utilizar em algum promo, só com alguns "frames", no futuro. Aparecemos no programa "A Mulher dá o Recado", da TV Record de São Paulo, na manhã do dia 24 de outubro de 1984.

Saindo dali, o próximo compromisso seria só para a dupla Rubens e Chico Dias, porque tínhamos um acordo interno na banda, onde entrevistas de rádio, seriam feitas só por uma dupla representando-nos. Isso porque geralmente, era inútil a participação de todos, para o desenvolvimento da conversa. E como da última vez que participáramos do programa "Balancê", da Rádio Excelsior, a dupla em questão fora a formada por eu, Luiz Domingues e José Luiz Dinola, no revezamento acordado, era a vez de Rubens Gióia e Chico Dias. Portanto, ao meio-dia dessa quarta-feira, lá estavam eles representando a banda, e divulgando o show de logo mais a noite no teatro Lira Paulistana...

Essa nota no Jornal da Semana, foi publicada no domingo, dia 21, mas o nosso show no Lira só aconteceu na quarta, dia 24 de outubro de 1984
Por volta das 15:00 h., já estávamos agrupados como quarteto novamente, e presentes nos estúdios da TV Gazeta de São Paulo.
O objetivo era uma nova participação no programa "Realce Baby", do apresentador "loucaço","Mister Sam". Era a nossa segunda aparição em tal programa, e nessa altura, o Mister Sam já tratava-nos como amigos, além de várias figuras da produção, deixando implícito que ali teríamos as portas abertas e de fato, apresentamo-nos inúmeras vezes em tal programa, e se não tinha a mesma audiência da "Fábrica do Som", era muito bem assistido em São Paulo, e trouxe-nos muito público adicional, sem dúvida.
Geralmente os programas eram gravados para a exibição uma semana depois, mas como nesse caso a exibição seria feita na mesma noite, fomos encaixados pelo programador chefe, um rapaz chamado de "primo" por todos, numa prova de camaradagem e boa vontade muito grande, pois o nosso principal objetivo naquela ocasião, era promover o show do Teatro Lira Paulistana.

A apresentação foi hilária, como sempre foi naquele anárquico programa. O Sam parecia transformar-se quando o diretor gritava "gravando", e as luzes vermelhas das câmeras acendiam-se...
Saiu novamente improvisando suas brincadeiras malucas e num dado instante, aproveitou um gancho que observara no semblante do vocalista Chico Dias. Dessa forma, falou algo como "estar sentindo-se ameaçado por ele"...
O Chico entrou na brincadeira e foi para cima, ameaçando-o fisicamente, e imediatamente os demais entraram na palhaçada, também.


Quando viu isso, o Sam improvisou novamente, e saiu dançando a "dança do passarinho", aquela ridícula manifestação popularesca do apresentador Gugu Liberato, e que fazia sucesso no mundo brega daquela ocasião. Foi ridiculamente engraçado...
Fizemos a dublagem da música "Luz", novamente, como opção única para adequar a presença de Chico Dias, na oportunidade.
Esse vídeo, sim, já está postado no You Tube, num esforço de restauração do Site/Blog Orra Meu, capitaneado pelo meu primo, Emmanuel Barreto.
 

http://www.youtube.com/watch?v=DGYg0lxI5jc
Eis aí o link da aparição citada, acima.
Depois dessa gravação na TV Gazeta, fomos voando para o Teatro Lira Paulistana, a fim de fazer o soundcheck. Tínhamos um novo show pela frente, e o furor dessa agenda múltipla dos últimos dias, não parecia animar o carrancudo vocalista Chico Dias, que devia passar o tempo todo sonhando com o "vento minuano" (quem conhece a cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, sabe do que falo)...

Chegamos a tempo de um soundcheck tranquilo no Teatro Lira Paulistana, e é bem verdade que a equalização ali era simples, por conta das dimensões diminutas do espaço. O segredo era tocar baixo no palco, tentando buscar uma padronização de volume com as vozes no P.A., este por sua vez, bem pequeno, pelo fator compatibilidade. Outra vantagem boa que tínhamos, era o fato de termos ficado amigos do técnico de som da casa, o Canrobert. Não errei o nome esquecendo-me de apertar a barra de espaço do teclado... de fato, ele tinha esse nome exótico, de batismo.

Neste frame do documentário sobre a história do Lira Paulistana, Canrobert num momento do vídeo, onde conta "causos" pitorescos da época em que foi técnico daquele Teatro.

Extremamente gentil e gente boa, o Can era muito competente, e tinha uma característica interessante que poderia ser um fator de estranhamento para nós, mas pelo contrário, tornou-nos muito amigos, e essa tal divergência só fez-nos entender uma série de coisas sobre tal movimento antagônico.

Refiro-me ao fato dele ser Punk "de carteirinha", e como ele mesmo gostava de enfatizar, "estava comprometido com o movimento Punk, até o pescoço". Mas, extremamente gentil, destoava de certas características dos que professavam essa "filosofia", principalmente os mais xiitas, que seguiam o "manual de Malcolm McLaren" a risca, com determinação militar. E nesses termos, apesar de ser do movimento, e como técnico de som, acompanhar de perto a carreira de bandas como "Cólera"; "Os Inocentes", e "Ratos de Porão", entre outros, ele não havia comprado aquela imbecilidade niilista, de repudiar o passado, a todo custo. Pelo contrário, entre nós, falava abertamente que apreciava bandas Prog Rock, talvez o maior objeto de ódio dos xiitas de 1977...

E dizia-nos que precisava manter em sigilo tais opiniões, porque era de fato um antagonismo que do lado de lá, ninguém toleraria.
De outro lado, falava-nos também coisas que nos faziam ter uma outra visão mais branda do vulcão Punk. Uma das mais engraçadas, foi quando falou-nos que garotas Punk, eram como abacaxis...com casca grossa por fora, mas doces por dentro... Ha ha ha !!


Ficamos muito amigos e já em 1985, ele acompanhar-nos-ia, como nosso técnico, em shows fora do Lira Paulistana. Enfim, esse era o grande Canrobert, que anos depois, tornar-se-ia o técnico de P.A. dos "Titãs", inclusive até hoje (2016).

E nesse dia 24 de outubro, fizemos uma passagem de som tranquila, e o show, idem. O Chico Dias estava um pouquinho mais animado, "pero no mucho"...

Não percebíamos na hora, achando que passaria, mas ele já devia estar determinado a deixar a banda, pelos sinais que emitia.

Não dá para deixar de observar que em todas as notas publicadas em jornais diferentes, o nome de Chico Dias não constava do serviço. Simplesmente ignoraram o release novo que a própria assessoria de imprensa do Lira Paulistana enviou-lhes. Por outro lado, era um presságio do que estava para acontecer-nos em questão de dias. Nesse dia, ele cantou duas músicas de sua autoria, sozinho, acompanhando-se ao violão. Achamos legal essa oportunidade de trazer um elemento Folk ao som da Chave do Sol. Uma das canções chamava-se "O Lobisomem", a outra, sinceramente, não lembro-me. Mesmo com essa iniciativa dele, em propor uma criação pessoal ser inserida no show, seu mau humor crônico parecia inabalável...
Tivemos um bom público, em se considerando ser uma quarta-feira : 50 pessoas. Era o dia 24 de outubro de 1984...



A nossa próxima atividade, seria só em 8 de novembro de 1984, portanto, nesses quase dez dias que tivemos sem shows, ou compromissos de rádio e TV, tivemos tempo para ensaiarmos mais, visando a gravação da demo-tape que ambicionávamos produzir.
Mesmo com o prejuízo que tivéramos por ocasião do desastroso show na famigerada danceteria Tífon, ainda estávamos imbuídos da vontade de gravar, mesmo que em condições bem mais modestas das que imaginávamos anteriormente. E o próximo compromisso, seria um show de choque numa danceteria nova que estava abrindo em Moema, na zona sul de São Paulo.


Haviam aspectos pró e contra, nesse show de choque. O lado bom, era que o convite havia partido do apresentador "Mister Sam", em pessoa, por ocasião de nossa segunda aparição no programa "Realce", por ele apresentado, dias antes. Nos bastidores, ele abordou-nos para falar que estava envolvido na programação de uma nova danceteria que estava abrindo em Moema, zona sul de São Paulo, denominada "Raio Laser". Num primeiro instante, convidou-nos a participar de uma espécie de "festival", que estava promovendo, onde bandas  "enfrentavam-se", e as classificadas, mediante uma avaliação de um "corpo de jurados", avançavam para ter um prêmio ou coisa que o valha.

Antes mesmo de nós retrucarmos que não éramos amadores, e não interessava-nos entrar num festival de disputa, ele disse-nos que seria uma participação só para ajudá-lo a ter mais uma atração de melhor nível ("Barão Vermelho"; "Sangue da Cidade"; "Made in Brazil"; "Anthro", e "Lixo de Luxo", também estavam programados, além de dúzias de bandas de moleques), e que contratar-nos-ia para um show individual, com cachet decente etc e tal. Bem, nessa circunstância, encaramos quase como um favor pessoal à um amigo que estava abrindo portas para nós, tanto na TV, quanto numa oportunidade de show, posteriormente, portanto, apesar de um tanto quanto vexatório por essa questão juvenil de "disputa", nós aceitamos participar. Seria no dia 8 de novembro de 1984, na danceteria "Raio Laser".

Mas nesse ínterim, coisas muito chatas aconteceram na vida pessoal do vocalista Chico Dias, e para início de conversa, nossa planificação de ensaiar com total afinco, visando a gravação da demo, ficou muito prejudicada. A mais nova desgraça na vida dele (incrível !!), foi quando viu-se novamente sem lugar para ficar. Infelizmente, um revés inesperado aconteceu-lhe onde estava hospedado, na casa do poeta Julio Revoredo.  A casa fora invadida e vitimada por um furto.

Nessa ação, muitas coisas foram roubadas, incluso algumas roupas do Chico Dias, e sendo assim, indignado por mais esse azar, não sentiu mais clima para ali ficar. Só que, claro, não havia outro lugar disponível, trazendo-nos uma dor de cabeça extra. Foi então que lembrei-me que uma prima minha estava vivendo com o namorado, e mais amigos numa "república", num apartamento que alugaram no bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo. Não foi fácil para o Chico Dias, acomodar-se ali, apesar de ter sido super bem recebido por todos, pois conhecendo pouco São Paulo, precisaria usar metrô e ônibus para deslocar-se até o ensaio, ao contrário de onde estava anteriormente, no Brooklin, onde bastava um ônibus apenas, e trafegando praticamente numa linha reta, pela avenida Santo Amaro.

Mara Turci, minha prima, e que ajudou Chico Dias em mais um momento de sufoco dele na Pauliceia.

Contudo, era uma situação emergencial, portanto, não podíamos fazer escolhas nesse instante, e o importante era dar uma acomodação para ele. Claro, com aquele ânimo que era-lhe peculiar, naturalmente que mais um revés desses minaria-o profundamente. Resmungando mais do que nunca, estava ciente dos compromissos, mas alegando estar readaptando-se, pediu um tempo para tal, ausentando-se dos ensaios. Às vésperas do show na danceteria "Raio Laser", comunicou-nos que estava muito gripado, e como seria um show de choque, pediu-nos para não fazer parte, deixando-nos desfalcados. Claro, nessas condições e sendo vocalista, estava sujeito à esse tipo de coisas, eu reconheço. Como tratava-se de um show de choque, e éramos uma banda sempre bem ensaiada, programamo-nos para tocar em trio, coisa que era natural para nós, desde sempre. E assim fomos para o compromisso...


Conformados em fazer a apresentação em trio, sem a presença do vocalista Chico Dias, fomos à Danceteria Raio Laser, participar do evento. Apesar de ser uma quinta-feira, havia um bom público presente na casa. Cerca de 400 pessoas circulavam pelo ambiente.

Algumas bandas tocaram e de fato, como o Mister Sam dissera-nos, (com exceção do "Anthro", e do "Lixo de Luxo" que eram bandas formadas por bons músicos, e eram até anacrônicos nos anos oitenta, pois traziam nítidas influências setentistas em seus respectivos trabalhos), o restante dos participantes eram bandas de moleques, completamente desconhecidas, e em sua maioria, de Heavy-Metal, barulhentas e infantiloides, como era de esperar-se.
Havia também o "Nota Fiscal", como uma banda que buscava a sorte no nicho New Wave, tentando pegar o vácuo do humor de bandas como "Magazine", "Ultraje a Rigor" etc. Tocamos como trio, com a garra habitual, e sem nenhuma falsa modéstia, tampouco soberba, por favor não interpretem-me mal, é claro que destacamo-nos em meio àqueles molequinhos (referindo-me aos metaleirinhos desconhecidos).

Essa matéria saiu na edição de outubro de 1984, na revista Rock Stars, nº 11. E pasmem, compramos tal edição numa banca em pleno Rio de Janeiro, no dia em que tentávamos levantar o astral do Chico Dias e nem mesmo mais um sinal inequívoco de expansão, demoveu-o de seu pessimismo naquela tarde

"Classificamo-nos" para uma nova etapa, mas nunca foi marcada essa outra oportunidade, e pior ainda, jamais ocorreu o tal show com cachet que fora-nos prometido. Paciência...
Na saída, peguei carona com um amigo. Já passava das 2:00 h. da manhã, e não tinha alternativa para sair dali, a não ser com essa carona caridosa.
Mas infelizmente, não sabia o risco que estava correndo, ao aceitar tal oferecimento...

Essa matéria acima saiu na Folha de São Paulo, e fala sobre a cena do Heavy Metal em 1984, pegando o gancho de um show ao ar livre que estava sendo anunciado para ocorrer na Praça da Sé, no centro de São Paulo. E ainda como o Teatro Lira Paulistana tornara-se um "point" para shows do gênero. A Chave do Sol é citada en passant como membro desse rol. Duas curiosidades na foto : a banda se apresentando é o "Santuário", que era da cidade de Santos, e na plateia, a segunda pessoa da esquerda para a direita, no primeiro degrau da arquibancada, é o hoje saudoso Hélcio Aguirra, na ocasião, guitarrista do Harppia, e posteriormente, do Golpe do Estado. Esse recorte de jornal pertence ao acervo do poeta Julio Revoredo, que gentilmente emprestou-me para ilustrar este capítulo.

O rapaz em questão, estava acompanhado de sua namorada, e o clima entre eles parecia não estar muito bom. Bem, claro que eu não tinha nada com isso, e também não poderia supor que correria risco de vida em poucos minutos, por conta desse clima entre o casal. Sentei-me no banco de trás, naturalmente, e mantive-me calado, reservando-me num momento de tensão alheia. Então, quando o carro pôs-se em movimento, percebi que eles resmungavam com animosidade entre si.

À medida que o carro avançava em direção à avenida Santo Amaro, os resmungos aumentavam, e o clima foi azedando. Quando já estávamos na avenida, percebi que o rapaz pisava mais firme no acelerador, conforme a discussão acalorava-se. Na rampa de acesso em direção à avenida Brigadeiro Luiz Antonio, a discussão explodiu. Já não resmungavam mais, entrando nos gritos, ofensas e choro compulsivo, ambos. E o "pezinho" no acelerador, respondeu ao impulso da cólera, indo até o fundo...

Tudo bem que passava das 2:00 h. da manhã, mas o rapaz perdeu a noção completamente, e ultrapassou todos os semáforos vermelhos, numa velocidade absurda, deixando-me apavorado no banco traseiro. Só restou-me torcer para não haver uma colisão, que seria gravíssima naquelas circunstâncias.

Passar voando no farol vermelho da avenida Brasil, entre outros cruzamentos perigosos da avenida Brigadeiro Luiz Antonio, foi de uma imprudência ímpar. Quando o carro perdeu velocidade, enfim, quase na altura da Rua Tutoia, o motorista resolveu parar, e numa rápida conversa com a moça, pareceram selar a paz. Um pedido de desculpas lacônico foi feito direcionado à minha pessoa, com o rapaz olhando-me pelo retrovisor, e claro, o que importava-me naquele instante, era o fato de nada ter acontecido, e estarmos vivos, sãos e salvos.

O bizarro dessa história, foi que eu não senti em nenhum momento, no durante e no posterior, que o casal mensurou o perigo que corremos. Fiquei com a nítida impressão de que relevaram o perigo real que corremos, em detrimento de sua estúpida briguinha, que deve ter sido motivada por ciúmes, dentro daquela danceteria.
Bem, meu anjo da guarda é forte, ou foram os Deuses do Rock, pois sobrevivi, passei por um monte de outras coisas, e estou aqui escrevendo essa história, 32 anos depois (2016)...
Mas o final de semana seria bem cheio. Tínhamos importantes compromissos, e uma surpresa desagradabilíssima nos próximos três dias...


No dia seguinte, sexta-feira, fomos procurar o Chico Dias. Precisávamos saber se ele melhorara, pois no sábado teríamos um show, desta feita numa danceteria nova que estava abrindo na cidade de Santo André.

A informação que tínhamos, era de que a casa já existia em outro formato, e que nós seríamos o primeiro show dessa nova fase como danceteria. Vale notar que realmente havia a febre de danceterias abrindo o tempo todo, o que era animador de certa forma, pois eram espaços para bandas de Rock tocar, de vários estilos, coisa que se comparado com a atualidade de 2016, chega a dar saudade, vislumbrando a escassez árida da atualidade.

Então, mediante uma conversa telefônica, o Chico Dias relatou-nos que piorara da gripe, e estava sem voz. Tínhamos além desse show em Santo André, um importante compromisso no Rio de Janeiro, no domingo. Estávamos escalados para gravar participação no "BB Vídeo Roll", que era um programa de TV importante no Rio, com exibição pela Rede Bandeirantes.

Tratava-se de uma parceria da Band, com a revista Roll. A apresentação estava a cargo do Billy Bond, ex-vocalista da "La Pesada del Rock and Roll", histórica banda argentina dos anos setenta, e aqui no Brasil, do Joelho de Porco, igualmente setentista, e importante na história do Rock brazuca. Portanto, num exercício de dosimetria forçada, tínhamos que considerar que o compromisso no Rio era mais importante para a nossa carreira, ainda que não envolvesse ganhos financeiros, pelo contrário, despesas.

Dessa forma, pedimos ao Chico para repousar o máximo possível nos dois próximos dias, para ver se podíamos contar com sua presença na gravação do programa "BB Vídeo Roll". Ele prontificou-se a preservar-se, e combinamos assim, buscá-lo no apartamento da Aclimação, onde estava alojado, na madrugada de sábado para domingo, quando partiríamos para o Rio de Janeiro imediatamente, pois a gravação do programa estava marcada para as 16:00 h. na danceteria Mistura Fina, na Barra da Tijuca, zona sul do Rio. Sobre a Danceteria Radioatividade, de Santo André, mais uma vez, teríamos que fazer um show como trio, desfalcados novamente do novo vocalista na formação. Tudo bem, eram ossos do ofício, mas essa falta estava repetindo-se com constância, a despeito de problemas de saúde serem imprevisíveis. E assim, fomos tocar na danceteria "Radioatividade", em Santo André...


Chateados por ter que novamente fazer um show sem a presença de Chico Dias, fomos para a danceteria "Radioatividade", de Santo André, em estado de alerta. Sabíamos que a jornada seria cansativa, porque na falta de uma estrutura melhor, teríamos que ir de carro para o Rio, pois resolvemos levar amplificadores, e nossa bateria. Isso porque a apresentação seria gravada, mas com a banda tocando ao vivo, portanto, queríamos assegurar o máximo de qualidade sonora para apresentarmo-nos bem na TV.

Nós estávamos há meses com a música "Luz" na programação da Rádio Fluminense FM. Não acho exagero afirmar, que tal emissora, era o principal centro irradiador do BR-Rock oitentista, ainda que dirigida por apaixonados pelo Rock 1960 / 1970. Recentemente havíamos visto publicada, uma excelente resenha sobre o nosso primeiro disco, nas páginas da revista "Roll"; e cerca de dez dias antes, tocamos no Circo Voador.

Portanto, parecia que participar do "BB Vídeo Roll", seria um importante passo para sedimentarmos posição no Rio de Janeiro, daí a importância que depositávamos nessa aparição na TV, e sendo assim, contar com a banda inteira, com o seu frontman em condições, era vital para os nossos planos. Diante de tudo isso que estava em jogo, resolvemos viajar ao Rio com a Kombi do irmão do Zé Luiz, o João Dinola. Ele tinha uma Kombi, com carroceria aberta, que usava para as entregas de sua fábrica de brinquedos de madeira (aliás, ele fazia belos caminhões; carrinhos, e casinhas de madeira, diga-se de passagem). Tinha o mesmo talento para a carpintaria e marcenaria, que o seu irmão, Zé Luiz.

Seria cansativo, mas éramos jovens, e não medíamos esforços para a nossa carreira deslanchar, enfim...
Mas voltando ao show do sábado, quando chegamos à porta da Danceteria, localizada na Avenida Dom Pedro II, em Santo André, achamos a fachada acanhada. Geralmente, as danceterias que existiam nessa época, eram megalomaníacas, e de certa forma, bregas, querendo ter ares kitsch de Las Vegas...
Mas o que vimos, foi um estabelecimento discreto; sem iluminação de fachada; de cor escura; quase incólume, o que destoava da moda oitentista. Enfim, fomos para dentro, e aí verificamos que o dono estava dourando a pílula, pois aquilo era na verdade um bar mediano, que ele queria dar um status de "danceteria", mas sem fazer nada para reformar o local, a não ser mudar o seu nome.
O palco era tímido, com luz deficiente e um P.A. típico de barzinho, com poucos paramétricos, e caixas insuficientes para um show de Rock, de verdade. O camarim, era na verdade um quarto de despejos, que mais parecia o ambiente desses programas sobre acumuladores de lixo, que passam na TV a cabo. Mas o mais bizarro estava por vir...

Havia um grupo de amigos nossos de São Paulo, presente, mas quando o público começou a entrar, notamos que não eram nem cabeludos "hedbangers", tampouco tribos oitentistas do Pós-Punk, tipo de gente que sempre esperávamos ver nesses lugares. Eram homens em sua maioria esmagadora, e todos parecendo-se com o Freddie Mercury, fase pós-Glitter (com aquele bigodão e cabelo curtinho)...


Foi quando um amigo nosso trouxe-nos a informação : até a semana anterior, aquilo era um bar gay, e dessa semana em diante, o dono queria forjar uma danceteria, com shows de Rock...
Então, fomos a cobaia dessa nova fase "hétero" do estabelecimento, mas lamentavelmente, o dono esquecera-se de avisar sua antiga clientela sobre a mudança...
Bem, fomos poupados de manifestações de carinho entre esses casais, e também louvo sua educação em suportar um show de Rock, sem hostilizar-nos. Nossos amigos é que divertiram-se a valer, fazendo desse evento, um manancial de piadas intermináveis sobre a "roubada" em que envolvemo-nos etc etc.

E para coroar a noitada na "gaiola das loucas" de Santo André, um fato inusitado ocorreu. Quando o show acabou, em meio a cerca de 50 pessoas que ali estavam, só havia uma única mulher. Era uma garota acompanhada de alguns amigos seus, e que não tinham nada a ver com os gays em sua maioria. Fiquei sabendo disso, de uma forma inusitada e digamos, agradável, pois quando estava saindo do palco, ainda com o instrumento em mãos, ela subiu ao palco e notei que seus amigos estavam incentivando-a a fazer isso.


Naquela fração de segundos, pensei tratar-se de um pedido de autógrafos, tão somente, mas ela surpreendeu-me, pois chegou dizendo se eu permitia um beijo. Disse que sim, ingenuamente achando tratar-se de um respeitoso beijo na bochecha...
Contudo, ela agarrou-me, e beijou-me na boca. Fiquei atônito, e só lembro-me do amigo Wagner "Sabbath" aos berros dizer para os nossos outros amigos : -"olhem, a mina agarrou o Luiz", seguido de gargalhadas !!  Era a única mulher presente naquele lugar infestado de gays, e era jovem e bonita... parecia ter sido a salvação da noite... Ha ha ha ...

Bem, passado esse momento de "Rock Star", voltamos à realidade, e era hora de desmontar o palco; voltar para São Paulo; pegar a Kombi com o restante do equipamento; buscar o Chico Dias, e entrar na Via Dutra, em direção ao Rio. Quando chegamos à casa do Rubens, nosso "QG", havia um recado próximo ao telefone principal da casa, assinado pela minha prima, dona do apartamento onde o Chico Dias estava hospedado  : "Chico Dias pegou todas as suas coisas, e partiu para o Rio Grande do Sul, nesta tarde de sábado"...
Ficamos desnorteados, em plena madrugada, prestes a tomar o rumo para o Rio !!


Essa notícia foi um choque, porque denotou um ato de abandono premeditado, que provavelmente ele estava planejando há dias, talvez semanas. Bem, estou falando de algo que chateou-me muito, há 32 anos atrás (2016), e nessa época, ele era um garotão do interior; despreparado para viver numa cidade grande; e longe de sua estrutura familiar; de sua namorada, e amigos. A despeito de ainda achar que eticamente agiu muito mal, claro que levo em consideração que todo mundo erra. Eu mesmo, ao longo desta autobiografia, já relatei fatos dos quais portei-me mal, estava errado, magoei pessoas, e usei esta plataforma pública para retratar-me. Portanto, se contei essa história, não foi para execrar a pessoa dele, mas por ser um importante pedaço da história da banda, da qual seria impossível não deixar de contar.

Indo em frente, mesmo atônitos com a notícia, não tínhamos tempo para pensar no fato. Mesmo muito abalados, carregamos a Kombi, e partimos para o Rio, imediatamente. Nessa época, eu não sabia dirigir, portanto, a responsabilidade da condução estava a cargo do Zé Luiz, e eventualmente o Rubens propusera-se a assumir, em caso de cansaço. A viagem foi bem, dentro do possível que uma Kombi oferece de conforto, é claro. Já estava amanhecido quando o trecho da serra encerrou-se, e adentrando a Baixada Fluminense, eu cochilava, quando senti a Kombi diminuir, e estacionar na Avenida Brasil. Meio zonzo de sono, ouço o Zé Luiz conversando com um estranho.

Quando tomo consciência do que ocorria, vejo um soldado do exército na carroceria, falando com o Zé Luiz, e dando-lhes instruções de caminhos. O que havia acontecido afinal ? O Zé Luiz resolvera dar carona para um soldado, e este, perguntando-lhe para onde íamos, ofereceu seus préstimos como guia, para indicar um atalho, que segundo ele, seria bem melhor que o caminho tradicional que faz com que atravesse-se a cidade inteira, até acessar a Barra da Tijuca. Só sei que demos voltas e mais voltas, e só lembro-me de num dado instante, estarmos em Bangu. Depois disso, perdi a noção, completamente. Como paulistano, acho que conheço bem o Rio, devido às minhas andanças por lá, mas daquele jeito...da Tijuca para o Leblon... bem, num dado instante, ele pediu para descer pois estava no seu bairro. Mas dali em diante foi fácil com suas dicas adicionais, e o apoio de placas nas ruas.

Chegamos à danceteria "Mistura Fina", bem antes da hora marcada para a gravação do programa, mas foi legal, porque pudemos descansar e comer, com tranquilidade. O programa era interessante em seu formato, pois dava um bloco para cada banda participante, e um bloco de conversa interativa entre as bandas, além de uma mini entrevista com cada uma.

A estética era bem oitentista, com um cenário que parecia feito de encomenda para o "Culture Club", incluso o apresentador Billy Bond, bem caracterizado nessa onda New Wave. As bandas participantes eram : "Hojerizah"; "Rapazes de Vida Fácil"; "Alynaskina"; "Baga da Praia"; A Chave do Sol, e "Garotos do Centro". Antes do início, a produção ofereceu um lanche. A Danceteria "Mistura Fina", era uma casa bem montada, muito diferente daquela falsa "danceteria" em que tocáramos na noite anterior, em Santo André. Enquanto comíamos, ouvi uma garota que estava na mesa do Billy Bond, tecer um comentário sobre o nosso visual. Lembro-me dela ter ironizado nossas cabeleiras, e o meu paletó de cetim, ultra setentista...
Bem, em se considerando aquele métier, claro que éramos "estranhos no ninho", ou no mínimo, anacrônicos...

No nosso bloco, tocamos "Luz"; "18 Horas"; "Crisys (Maya)"; e "Anjo Rebelde'. Em "18 Horas", os técnicos ficaram surpreendidos, pois estavam acostumados a ouvir bandas do BR-Rock 80's, e aquela sonoridade padrão da época, e nós ali mandando um Jazz-Rock nervoso, cheio de firulas...

No bloco interativo, o Billy perguntou-nos, como víamos a rivalidade entre bandas de Rock paulistas e cariocas. Eu respondi que achava a rivalidade válida só no futebol, e que deveríamos é preocuparmo-nos com o fato de estarmos a menos de dois meses do "Festival Rock in Rio", e verificar que muitas bandas boas haviam ficado de fora da programação, em detrimento de alguns artistas "alienígenas", que estavam escalados...

Não falei isso para fazer média com os cariocas ali presentes, mas fui sincero, ao criticar a mentalidade dos produtores de tal evento, em inserir artistas que não eram do mundo do Rock, e nem precisavam do festival como plataforma de impulso para as suas carreiras, enfim...
Mas algo inusitado aconteceu, pois mal acabei de proferir tais palavras, e todo mundo que ouvia atentamente atrás das câmeras, aplaudiu com veemência, com direito até a alguns gritos e assovios, de apoio.

Já batiam as 21:00 h. mais ou menos, quando estávamos liberados pela produção da TV, e colocamo-nos na estrada. Cogitamos dormir no Rio, mas o Zé Luiz garantiu estar sem sono, e disposto a enfrentar a estrada, portanto, colocamos tudo na Kombi, e partimos. Nunca vimos a nossa participação em tal programa, porque ele era regional, e ninguém gravou no videocassete, para nós. Nunca vi no You Tube alguma postagem, infelizmente. O único registro que tenho, é o relato de amigos cariocas que assistiram, e disseram que colocaram "18 Horas" no ar, e que haviam apreciado bastante. Uma pena não ter essas imagens...
Um último ato desagradável aguardar-nos-ia logo no primeiro posto rodoviário, saindo do Rio. Parados pela fiscalização; cabeludos, e com o carro cheio de instrumentos...o guarda queria as notas fiscais dos instrumentos, equipamentos etc...
-"Ora, somos músicos "seu guarda", fomos fazer um programa na TV Bandeirantes do Rio, veja o nosso disco"...
Então, ele resolveu fazer uma inspeção minuciosa no veículo, e vociferou a frase terrorista : -"está tudo perfeito, mas se eu quiser, eu acho uma irregularidade"...
Após uma canseira de mais de uma hora, conseguimos seguir adiante, e chegamos em São Paulo no meio da madrugada.

Descansaríamos na segunda-feira, mas agora teríamos que encarar o fato de que éramos um trio novamente, e começaria mais uma vez, a luta para procurar um novo vocalista. A ideia da nova demo com canções novas, e cantadas por um frontman de garganta forte, estava arruinada, e atormentava-nos a ideia de que o Rock in Rio aproximava-se, e um mundo de oportunidades abrir-se-ia nesse vácuo, portanto, estávamos prestes a ficar despreparados para agarrá-las...


Adeus, Chico Dias... click, acervo e cortesia do poeta Julio Revoredo

Claro que fui saber com minha prima, e o namorado dela, o que tinha acontecido com o Chico Dias. Eles disseram que o rapaz estava muito deprimido, morrendo de saudades de sua cidade; família; amigos e namorada. Até aí, era legítimo e previsível que sentisse-se dessa forma. Mas disseram-me que ele resmungava o tempo todo sobre as dificuldades que estava sentindo na sua adaptação à São Paulo, e também por ter iludido-se em relação à Chave do Sol, pois quando entrou na banda, pensou que nós estivéssemos num esquema muito maior como banda mainstream, amparada por gravadora major.

Ora, quando o convidamos, deixamos muito claro o patamar onde estávamos; o que desejávamos, e os caminhos que precisaríamos percorrer pra tal. Portanto, considero inaceitável tal argumento, pois explicamos-lhe muito bem a nossa situação naquele instante.
Outro ponto importante, foi que mesmo estando longe de uma carreira coroada e plena de mordomias inerentes, em se considerando sermos ainda underground, estávamos subindo muito rapidamente.

Então, se ele não considerava tais conquistas como importantes, era falha de avaliação dele, por inexperiência (muito provavelmente), e uma certa dose de pessimismo, que era marca registrada de sua personalidade. Basta reler os parágrafos anteriores para o leitor verificar que a agenda da banda, estava em plena expansão.

A despeito de suas dificuldades pessoais (reconheço que eram mesmo difíceis), ele deveria ter esforçado-se para ficar um pouco mais, mesmo porque as perspectivas de melhoras, eram concretas.
Faltou-lhe maturidade, haja vista a sua debandada, aproveitando-se de nossa ingenuidade em ter acatado a sua comunicação de doença.
E pior, ainda soube que ele ficara "magoado", porque não fomos ao apartamento para visitá-lo. Ora, tivemos dois shows em São Paulo, e uma viagem para o Rio, tudo seguido. De minha parte, sabia que estava amparado pela minha prima; seu namorado; e o outro casal que dividia o apartamento república com eles. Deixei um dinheiro com eles para ajudar nas despesas e comprar eventuais remédios na farmácia que ficava na esquina, numa distância menor do que 50 metros do apartamento. Enfim, o que pesou mesmo, foi a inaptidão dele para viver longe de sua terra, e do amparo familiar. Isso eu entendo e respeito.

Mas nunca engoli o abandono sumário, ainda mais numa fase onde tínhamos muitos compromissos importantes. Estávamos lutando para mudar a imagem da banda, e fora os compromissos, havíamos gasto dinheiro em reformular release, organizar sessão de fotos etc etc. Fora os planos para gravar uma demo-tape, o quanto antes, o tempo gasto com ensaios visando adaptá-lo à banda etc. Ele tinha toda a liberdade para sair, se estava insatisfeito, mas não custava nada ter falado-nos abertamente a sua situação, numa reunião. A franqueza não teria chocado-nos tanto, certamente, quanto a sua partida abrupta. Enfim, de minha parte, 32 anos depois (2016), é claro que esse evento diminuiu sua carga emocional, e há muitos anos que nem penso nisso como uma mágoa. Está para lá de perdoado, e espero que perdoe-me também, por ter ficado chateado na época, ainda que eu tivesse motivo forte para tal.

Alguns dias depois, recebemos uma carta manuscrita dele, pedindo desculpas. Dizia-se muito arrependido por ter tido essa atitude não recomendável, mas justificava-se alegando tudo o que eu disse acima, sobre a não adaptação; saudade desmesurada da família; decepção com os recursos da banda etc etc. Por volta de 1989, com A Chave vivendo seus momentos "pós- Sol", o Zé Luiz disse-me que havia encontrado com o Chico Dias circulando por São Paulo. Mais maduro, aproveitou para reiterar seu pedido de desculpas pelo seu ato cometido em 1984. Meno male...
E muitos anos depois, o Zé Luiz contou-me que novamente havia falado com ele, via telefone, onde conversaram sobre amenidades.

Chico Dias tinha muito potencial vocal, e se lapidado, poderia ter tornado-se um excelente frontman de banda de Rock. Sua frase repetida à exaustão, como uma espécie de mantra de lamento, marcou a sua presença conosco : -"Indignado... Fodido"...
Era como sentia-se, infelizmente.
Vida que seguiu, ainda em novembro tínhamos compromissos a cumprir, e uma luz surgiu no horizonte, em relação à um novo vocalista em potencial para a banda. Luz, não, mas uma autêntica "Aurora Boreal"... 

Passada essa decepção com o agora, ex-vocalista Chico Dias, o nosso próximo compromisso era um outro show a ser realizado num teatro pertencente à uma Faculdade.Não éramos o Língua de Trapo, mas vez por outra surgiam oportunidades nesse tipo de ambiente universitário. Desta feita, fizemos mais um show de choque no Teatro da Faculdade Ibero-americana, que ficava localizada na Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, bem próximo do Teatro Jardel Filho, onde aconteciam as gravações do Programa "Perdidos na Noite", quando o Faustão Silva começou a ficar conhecido para valer.

Esse show foi o primeiro após a saída oficial do Chico Dias, da banda, mas convenhamos, dados os últimos acontecimentos, não era novidade para nós estarmos sem a sua presença e de fato, a passagem dele pela banda fora meteórica, e praticamente não houve tempo para formatar a banda com uma nova característica como quarteto. Portanto, tocar em trio, novamente, não era nada difícil para nós. O show ocorreu na noite de 25 de novembro de 1984, e com a presença de cerca de 200 pessoas na plateia.

Lembro-me que duas bandas tocariam, entre elas, a "Archibald's Band" (que passaria a chamar-se "Fênix", doravante), dos nossos amigos, Carlos Muniz Ventura e Iran Bressan, além de uma outra, formada por alunos da referida faculdade. Essa desconhecida banda de alunos, tocou apenas covers do BR-Rock da moda. Lembro-me de muitas baladas do Kid Abelha; Barão Vermelho; e Lobão, entre outros. Para nós, foi um show sem maiores ocorrências, e dali em diante, centraríamos as nossas baterias na abordagem de um novo vocalista, e na demo que tanto queríamos ter gravado em boas condições. Nessas duas perspectivas, avançamos na questão da demo, ainda que a perspectiva surgida, era por demais modesta. E a questão do vocalista, seria uma questão de dias para a tal "Aurora Boreal", aparecer no nosso horizonte...


A perspectiva que surgiu, em termos de gravação, era bem modesta, mas aceitamos dois motivos :
1) Era uma oportunidade de fazer uma pré-produção, onde independente do resultado de áudio, poderíamos avaliar arranjo e performance da banda;
2) Era um oferecimento gratuito de um amigo...
Foi assim : O amigo Carlos Muniz Ventura, baixista e tecladista da banda "Fênix (ex-"Archibald's Band"), e que começava a tornar-se um bom fotógrafo, também, tinha uma máquina "Ampex", de 1/2 polegada, que comprara usada, além de alguns microfones.

Seu oferecimento era o de gravar uma demo, que na verdade seria um ensaio gravado, com mais qualidade do que habitualmente estávamos acostumados, com o uso de um bem mais simples, tape deck da Gradiente. Bem, não haveria condições de coibir vazamentos, a não ser por providências prosaicas, tais como o uso de biombos improvisados, com móveis; cobertores, e almofadas.
Mas mesmo diante de condições inóspitas de captura, e sujeito à vazamentos externos, claro que decidimos gravar.

Isso aconteceu na metade, para o fim de dezembro de 1984, mas infelizmente, não anotei a data precisa, tampouco particularidades dessa gravação. Foi, conforme já descrevi, uma gravação "live"; sujeita à vazamentos, mas pelo que lembro-me, o fato de ser gravado em fita de 1/2 polegada, numa máquina Ampex, de qualidade, deu um resultado obviamente muito superior à de gravações com um tape deck. Isso sem contar com a qualidade superior dos microfones, que o Carlos trouxe. Para uma gravação extremamente simples desse naipe, o resultado ficou até surpreendente. Lembro-me que gravamos "Crisys (Maya)"; "Átila"; "A Dança das Sombras" ; "Anjo Rebelde", e "Vestido Branco".

Nunca providenciamos uma cópia em Fita K7 para tal gravação, pois teríamos que necessariamente alugar um estúdio para tal intento, portanto o tempo foi passando, e a fita engavetou-se.
Mesmo porque em poucos meses estaríamos em estúdio, gravando o segundo disco, e com um repertório inteiramente renovado por força da nova orientação estética que adotamos a seguir, e também pela entrada de um novo vocalista. Essa fita está comigo, e temo que possa estar bem comprometida, pela ação do tempo, embora visualmente, não apresente sinais de degradação. Penso, sim, em digitalizá-la e se o fizer com sucesso, posto no You Tube, como promo, com muito prazer. E nos últimos dias de 1984, tínhamos mais um compromisso, e uma novidade chegando...
Só mais "um minuto além", e conto tudo, embora ainda seja necessário abrir um parênteses para então poder fechar o ano de 1984, nesta narrativa...


Recebemos dois convites para participar de festivais no mês de dezembro de 1984, ambos em São Paulo. Um deles, denominado "Rock'n Circo", foi realizado num circo montado próximo ao Campo de Marte, na zona norte de São Paulo. Tinha o apoio da 97 FM, uma estação de rádio de Santo André, que seguia os passos de emissoras como a Fluminense FM do Rio, e Ipanema FM, de Porto Alegre, ou seja, com uma programação Rock bem legal, e bastante espaço para as bandas independentes, sem o maldito jabá. O apresentador do evento, seria um locutor daquela estação, chamado "Beto Peninha", que estava destacando-se naquele momento, e ficando famoso no meio rocker. A programação era de muitas bandas participantes, portanto, a proposta da organização do evento, era a de shows de choque, para todos, como única maneira de comportar tantas bandas numa noite só. O nosso show foi nesses termos, muito rápido, com quatro músicas apenas. Lembro-me que o equipamento estava muito ruim, e a luz era precária, portanto, tocar um set curtíssimo, veio mesmo a calhar. Isso ocorreu na noite de 7 de dezembro de 1984, com um público que estimo ter sido de mil pessoas mais ou menos, com o "exorbitante" preço de 3 mil cruzeiros, que brincadeiras à parte, não era grande coisa se comparado aos padrões atuais do câmbio...

O segundo festival ao ar livre, seria realizado em plena Praça da Sé, no centro velho de São Paulo. Seria uma espécie de versão ampliada do evento "Praça do Rock", que ocorria no Parque da Aclimação, mas com mais atrações, caracterizando um festival, em dois dias. Seria patrocinado pela Paulistur, uma autarquia subordinada à Secretaria de Turismo do Município de São Paulo, com apoio da Secretaria de Cultura e da Administração Regional da Sé, órgão da Prefeitura. Portanto, com todo esse apoio de engrenagens da máquina municipal, tinha tudo para ter uma estrutura legal de organização; equipamento, divulgação etc.

O tratamento despendido pela imprensa mainstream às bandas da estética do Heavy-Metal era jocoso. Mais uma razão para não ser conveniente sermos inseridos nessa tribo, mas estávamos encurralados, e essa parecia ser a melhor saída naquele momento na década de oitenta, mesmo correndo o risco de sermos ironizados por estarmos em meio ao "jardim da infância" do Rock underground...

Mas, faltando poucos dias para o evento, fomos surpreendidos com a notícia de que fora cancelado, sem maiores explicações. Foi quando surgiu a informação de que fora cancelado a mando de um figurão da política, que alegou ser uma temeridade um evento de Rock; onde poderia haver brigas; consumo de álcool & drogas, e abusos sexuais... ou seja, a velha conversa moralista e hipócrita, pois só em shows de Rock, tais barbaridades acontecem, não é mesmo ?  O cancelamento gerou uma revolta entre as bandas que estavam escaladas, e o produtor de shows e apresentador oficial da Praça do Rock, Antonio Celso Barbieri, apoiado por outras pessoas ligadas à produção da "Praça do Rock", organizou uma passeata no dia 15 de dezembro de 1984, pelas ruas do Centro, saindo da Praça Ramos de Azevedo, em direção à Praça da Sé. Os shows ocorreriam nos dias 15 e 16 de dezembro de 1984.

Se comentei acima sobre a nota jocosa da Folha de São Paulo, falando sobre as bandas que tocariam no Festival da Praça da Sé, esta matéria na Folha da Tarde então escancara a forma com a qual a imprensa lidava com a cena Heavy-Metal do Brasil no ano de 1984, ou seja, como um movimento talvez criado no mini maternal...

   O produtor Antonio Celso Barbieri em foto bem mais recente




O protesto era justo e o Celso Barbieri, por ser um produtor muito consciente, claramente organizou a passeata para angariar barulho na mídia, visando futuras produções e além de inteligente, era bastante criativo em suas ações, fora ser extremamente politizado, portanto, claro que fui solidário, e nessa solidariedade, participei de tal passeata, representando A Chave do Sol, porém, senti-me bastante constrangido, pois se a reivindicação tinha uma razão de ser, pelo aspecto do cancelamento sumário prejudicando a todos, todavia, estar ali andando com aquele bando de moleques cabeludos, e com as mãos erguidas fazendo o gesto do "malocchio", era de uma infantilidade só...


Quando a passeata dispersou-se na Praça da Sé, fui abordado por um jornalista famoso, que eu conhecia por seus textos, desde a década de setenta. Ele pediu-me uma entrevista, e claro que percebendo a oportunidade, aceitei o convite. Infelizmente, é claro que ele não estava nem um pouco interessado em saber da minha banda, querendo apenas colher informações para uma matéria que estava escrevendo sobre a cena do Heavy-Metal no Brasil. Por um instante, conjecturei mentalmente que se um jornalista daquele calibre, escrevendo para uma grande revista de circulação semanal, estava preparando matéria, logicamente que a tal cena crescia, e o faro dele indicava isso. Já cansei de falar, mas realço : eu nunca gostei desse gênero musical (Heavy-Metal), mas enxergava nele, uma oportunidade, talvez a única em que A Chave do Sol encaixar-se-ia naquela árida ambientação oitentista, se ambicionasse o mainstream.

Bem, precisava ser simpático e solícito com o jornalista, tentar atrair atenção para a minha banda, e não "alfinetar" o Heavy-Metal, para não ser desagradável. Em suma : uma "saia justa" e tanto.
Fui falando, mas ele sempre recorria ao assunto que interessava-lhe, perguntando sobre a cena; usos e costumes de seus participantes; tribos; "headbangers", e todo aquele universo onde eu, definitivamente, jamais fiz parte !! Percebi que o jornalista estava frustrado com minhas respostas sem paixão alguma pelo assunto, apesar de meus esforços para não ser descortês, e num dado momento, pediu-me dicas de shows para ele sentir a "vibe" da cena, in loco etc. Convidei-o a comparecer ao Teatro Lira Paulistana, onde faríamos shows no final de dezembro (já comentei sobre), e de fato, ele apareceu, mas deve ter frustrado-se ainda mais, visto que A Chave do Sol parecia muito mais uma banda setentista e anacrônica, para quem esperava um show de Heavy-Metal oitentista.

O nome desse jornalista era Okky de Souza, famoso critico musical que eu conhecia (não pessoalmente, até esse dia), e admirava desde os anos setenta, lendo suas matérias na revista "Rock, a História e a Glória" , e naquele momento, trabalhava para a revista "Veja".

O último compromisso do ano, foi no Teatro Lira Paulistana. Aceitamos fechar a data, supostamente insalubre, por ser após o dia do Natal, mas para nós, qualquer dia, era dia de Rock, com o perdão do terrível clichê...

Sendo assim, fomos para o teatro Lira Paulistana, no dia 26 de dezembro de 1984, onde tivemos a agradável companhia da banda dos irmãos Giudice, o "Abutre", como abertura do evento. Cerca de 150 pessoas estiveram presentes, público que consideramos muito bom, pelo inusitado da época do ano, e pelo fato de não termos tido apoio de programas de rádio e TV, desta vez. Mas o show em si, apesar de ter sido bom, não foi o principal evento do dia, para nós.

Foto do Ano Luz, banda do vocalista Fran Alves (no destaque), que estava encerrando atividades no final de 1984

No camarim, recebemos a visita do vocalista, Francisco Dias Alves, bem conhecido no meio Rocker de São Paulo. Os contatos estavam sendo feitos desde um certo tempo, quando recebemos a informação de que sua banda, chamada "Ano Luz", estava encerrando as suas atividades, e isso estava ocorrendo concomitantemente ao fato de termos perdido o nosso ex-vocalista, no início de novembro.

O Ano Luz em ação na Praça do Rock, em agosto de 1984, em foto clicada pelo poeta Julio Revoredo

Nessas conversas preliminares, fizemos então o convite formal, e ele pediu para esperar uns dias, antes de avançar nas conversações, pois queria ter certeza de que o "Ano Luz" estava mesmo fechando suas portas.

Essa atitude era ética, nobre, e claro que a respeitamos, e indo além, apreciamos como norma de conduta ilibada, da parte dele.
Então, no camarim do Teatro Lira Paulistana, ele visitou-nos, e comunicou que estava oficialmente disponível, e que sim, aceitava o nosso convite. Ficamos muito contentes, pois o potencial dele como vocalista e frontman, era imenso, conforme já tínhamos avaliado, e corroborado pelo poeta Julio Revoredo, que fizera algumas observações a nosso favor, como um agente de campo, pró-Chave.

Outra foto de Julio Revoredo que impressionou-se com o vocal de Fran Alves em agosto de 1984, assistindo o Ano Luz em ação.

Celebramos esse engajamento de um novo membro, ali mesmo no camarim, tendo como testemunhas, os amigos da banda "Abutre", e o próprio poeta Julio Revoredo, que era um admirador confesso de Fran Alves, como vocalista. Combinamos o início dos ensaios para os primeiros dias de janeiro de 1985, assim que encerrassem-se os dias mortos do pré e pós Reveillon. Assim encerrou-se o ano de 1984, um ano onde tivemos um crescimento muito grande, e dessa forma, sentíamo-nos credenciados a acreditar num 1985, ainda melhor.

Ficha datilografada que estava nas mãos do apresentador Tadeu Jungle, quando de nossa última apresentação na Fábrica do Som, em junho de 1984. Acervo pessoal do poeta Julio Revoredo, que gentilmente cedeu-o para ilustrar a minha autobio.

Perdemos tempo com o vocalista anterior, mas agora estávamos fechados com alguém muito mais maduro e experiente, fora o seu nível técnico inquestionável.

Farei ainda um parênteses para comentar alguns fatos de 1984, antes de encerrar essa etapa e começar a enfocar o ano de 1985, para A Chave do Sol. Parafraseando o jingle do Rock in Rio, que àquela altura, martelava com insistência na mídia : "Se a vida começasse agora"...era o que queríamos para 1985...


Farei um parêntese agora, antes de mergulhar na narrativa sobre 1985, falando de alguns casos pitorescos envolvendo a banda, mas não necessariamente ligados com aspectos da sua carreira, tampouco eventos musicais onde participou. São fatos curiosos que ocorreram em situações cômicas, com membros da banda acompanhados de amigos, e pelo fato de não serem situações oficiais da carreira, e nem mesmo tendo conexão com música, aconteceram de forma esparsa ao longo desse ano, portanto, sem data definida, resolvi agrupá-los num parêntese final abordando o ano de 1984.

1) Para quem conhece São Paulo, sabe bem que o cruzamento da Avenida Paulista com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima, tem em sua esquina, sentido Ibirapuera, uma série de bares, colados uns aos outros e que todos disponibilizam mesas nas calçadas, conferindo-lhe um clima de boulevard àquele quarteirão, e que tais estabelecimentos vivem lotados de gente, dia e noite. Informalmente os paulistanos chamam aquele conglomerado de bares, de "prainha", uma espécie de auto-piada, para ironizar que "praia de paulistano" é assim, no meio do asfalto.
Muitas vezes, entre 1982 e 1983, os ensaios da Chave do Sol terminavam ali, com os amigos reunidos em intermináveis rodas de conversa e bebedeiras. Gostava de estar com eles, conversar, mas pelo fato de não beber, rapidamente enjoava do ambiente e queria ir embora, mas para quem bebe, tais reuniões não acabam nunca...
Numa ocasião, em 1984, notamos que um ator famoso da TV, Teatro e Cinema, estava circulando entre as mesas, mas não conversava com ninguém. Aparentemente estava sozinho e adotava um comportamento estranho, parando perto das mesas e encarando as pessoas, sem falar nada, ou escondendo-se atrás de placas de trânsito e pilastras de prédios das redondezas, olhando para o nada, com semblante bestificado. Mais engraçado ainda, era o fato de que a maioria das pessoas nem notar tal comportamento bizarro da parte dele, e nem esboçar reconhecê-lo, mesmo sendo ele um ator de carreira sólida na TV, com uma série enorme de novelas no curriculum. Aquele comportamento suscitou várias conjecturas da parte de quem estava em nossa mesa, e as hipóteses mais ventiladas eram :
A) Está muito louco por conta de alguma droga alucinógena, ou;
B) Está fazendo "laboratório" de ator, dando uma de louco na rua, para testar reações das pessoas comuns.

Foi quando o poeta Julio Revoredo quis tirar a história a limpo.
Uma característica do poeta que pouca gente conhece, é que ele é um expert em Cinema; TV, e Rádio. Sua memória enciclopédica sobre tais temas (fora Teatro, Artes Plásticas, Música e Literatura, matérias das quais também conhece muito), impressiona.
Nesses termos, ficou muito interessado em abordar o referido ator, e descobrir o que significava aquele comportamento. Então, mediante um caderno universitário que tinha em mãos, levantou-se e foi abordá-lo, solicitando-lhe um autógrafo. Quando aproximou-se do ator, ele nem olhou-lhe no rosto, mas disse com truculência : -"Não" !!
Chocado com a grosseria, voltou para a nossa mesa, e disse-nos que para ele, a impressão que tivera, foi que o ator estava era bêbado, e fora grosso deliberadamente. Nessa hora, um amigo nosso que adorava fazer molecagens, chamado Celso "esponja" Bressan, propôs uma brincadeira para azucrinar o ator.

Visto que ele usava um chapéu, estilo "tweed" , bastante démodé para os anos oitenta, arquitetou o plano de surpreendê-lo, afanando-lhe a peça, para depois devolvê-la, mas não sem antes provocá-lo de alguma forma. A ideia causou euforia generalizada na mesa e de fato, com a minha exceção que não bebo em hipótese alguma, e do Julio Revoredo que é bastante comedido, foi aprovada sob aclamação. Então resolveram pedir a conta, pagaram, e o Celso posicionou-se para roubar-lhe o chapéu e dar a volta no quarteirão.
Os demais já estariam posicionados no carros disponíveis e assim que resgatassem-no, daríamos uma volta no quarteirão e devolveríamos o chapéu, não sem antes cometer alguma provocação extra ao ator. E assim ocorreu...
Sorrateiramente ficamos observando a ação já perto dos carros, quando o Celso passou correndo e arrancou o chapéu do ator. A reação dele foi absolutamente teatral e hilária, pois em câmera lenta, como se estivesse interpretando, gritou : -"Fiiiilllhhhooo  ddaa  ppppuuutttaaa" !!!

Não poderia ter sido mais esquisito, e deixou-nos ainda mais em dúvida se interpretava, ou estava só bêbado /doidão...
Dando a volta no quarteirão, o próprio Rubens tratou de colocá-lo na cabeça e quando voltamos à "prainha" da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, buzinando, jogou-o em direção ao ator e gritou : -"canastra" !!!
Na hora, demoramos "meia hora" para estancar a epidemia de gargalhadas, mas lembrando desse ocorrido hoje em dia, com a idade que tenho agora, já não acho graça alguma...

Algumas semanas depois, a mesma turma estava reunida na Rua 13 de maio, no bairro do Bexiga, e naquela época, como já salientei inúmeras vezes nesta autobiografia, tal rua fervilhava de gente, ao ponto de ser quase impossível o tráfego de automóveis durante a noite / madrugada.


Estávamos na calçada conversando, quando ouvimos alguém buzinando com muita truculência. Era um motorista conduzindo um Ford Galaxie dos anos setenta, enorme e opulento, com tal motorista mostrando-se profundamente contrariado com o fato de que a multidão ocupava a via, que não deixava os carros prosseguirem. Foi quando finalmente conseguiu passar, não sem antes xingar, e ser bastante xingado, num pequeno escândalo que obviamente chamou-nos a atenção. E por prestarmos atenção, vimos que o motorista em questão, era o mesmo ator com quem brincáramos semanas antes. Desta feita mostrando-se nervoso e parecendo estar buscando alguma confusão para extravasar, não era um dia bom para mexermos com ele novamente, mas o destino tratou de colocá-lo perto de nós a seguir. Ele subiu a rua com seu enorme Galaxie azul, e nós esquecemos imediatamente de sua presença. Foi quando de-repente, eis que surge na calçada, bem perto de nós, o dito cujo...
Seu semblante nesse dia era de tensão. Parecia contrariado e nervoso, prestes a explodir, e era nítida a sua predisposição para arrumar uma confusão, vide a agressividade que tivera com os pedestres, minutos antes. Então, ninguém ali estava disposto a mexer com ele, mas como a calçada estava lotada, o nosso amigo Claudio "Capetóide", acidentalmente pisou-lhe o pé...

O berro escandaloso que ele deu, seguido de pulinhos de Saci Pererê, foi hilário...
Não vou revelar o nome do ator... sei que vocês leitor vai frustrar-se e contra-argumentar que não tem nada demais, e as revistas e sites de fofocas divulgam coisas muito piores, mas se tem uma coisa que eu detesto é criar polêmica e expor pessoas.
Contei os casos porque foram pitorescos com tal personalidade, mas não quero ser acusado de usar a sua fama para autopromover-me, portanto, não direi quem é.

Contudo, é alguém que fez muitas novelas na antiga TV Tupi, também na TV Globo, e tem muitas peças no Teatro e filmes no Cinema nacional, em seu curriculum.
 

2) Como mencionei a famosa "prainha" da Alameda Joaquim Eugênio de Lima, outra ocorrência merece nota. Com a turma reunida outra vez em outra ocasião, um mendigo muito embriagado estava rondando as mesas, pedindo esmolas.

Extremamente chato, o homem não entendia a recusa das pessoas em não dar-lhe dinheiro ou mais bebida, conforme pedia, visto já estar muito bêbado. Quando abordou-nos, todos recusaram ajudar-lhe, como nas outras mesas ocupadas por estranhos, mas por sermos um bando de cabeludos, talvez, o sujeito encarnou de não desistir facilmente de seu intento, e começou a abusar, insistindo em esmolar, e tomando liberdades, como tocar no ombro das pessoas, e ameaçar roubar uma garrafa de cerveja da mesa. Após várias advertências para afastar-se, e pedidos ao garçom para o bar tomar uma providência nesse sentido, na medida em que éramos clientes sendo incomodados por um inconveniente estranho, o rapaz abusou ainda mais, dando um empurrão num de nossos amigos, o Claudio "Capetóide". Este reagiu, não com truculência, mas apenas desvencilhou-se do sujeito e deu um grito, falando algo como : -"Sai daqui, já falei" !!
Muito embriagado, o elemento desabou, mas não foi uma agressão propriamente dita, e relato isso isento do sentimento de amizade que havia ali naquela mesa, distorcendo os fatos para proteger o amigo Claudio, e sobretudo isentando-me de culpa moral "por tabela".

Mas, tal reação do nosso amigo causou revolta numa mesa com outras pessoas, estranhas para nós. Como eu não bebo, jamais poderia passar pela minha cabeça, que houvesse um "código ético" e velado, absolutamente "da rua". Pois então... os rapazes em questão ficaram revoltados com o fato do mendigo ter sido "agredido" e como agravante, tendo o fato de estar embriagado e portanto, sem condições de defender-se. Tal raciocínio surpreendeu-me, pois ninguém ali estava disposto a agredir o rapaz embriagado, mas na mesma medida, se estou sóbrio, porque devo aguentar a inconveniente e insistente abordagem de alguém que está alterado, e portanto sem nenhum freio de ordem moral; social; cultural ou educacional que impeça-lhe de incomodar-me ??
Mas na "ética" dessa gente, o bêbado é intocável. Ele pode beber; adulterar o seu comportamento abordando pessoas e incomodar-lhes a vontade, porque está "bêbado", e o sóbrio tem que "entender" isso. É uma lógica bizarra, e que não faz nenhum sentido entre gente civilizada, contudo...
Bem, eu como era bem ingênuo nesse tipo de questão, fiquei surpreendido quando percebi que o clima estava tenso. Apressados em pedir a conta, vi que havia uma movimentação e alguns rapazes da tal mesa que revoltara-se conosco, haviam ido buscar artefatos de luta, no carro de um deles. Nessa altura, já estavam com barras de ferro; tacos de beisebol; correntes; soco inglês; e o pior de tudo, um revólver, ostensivamente colocado sobre a mesa deles.

Sem nenhum aparato do mesmo porte, e na iminência de uma tragédia poder acontecer, saímos rapidamente numa retirada estratégica, e que pelas circunstâncias, nem considero vergonhosa.
Enfim, planeta estranho o nosso, onde a cultura etílica isenta seus seguidores de seus atos realizados sob efeito do álcool, e num estado alterado de consciência, podem tudo, incluso barbaridades como matar, e ferir pessoas no trânsito, e ninguém tolera que sequer sejam repreendidos verbalmente...


Contando mais três "causos" pitorescos e ocorridos no ano de 1984, agora, complementando o assunto abordado nos parágrafos anteriores :

3) Geralmente a turma de amigos que gravitava em torno da banda, principalmente entre 1982 e 1984, reunia-se com regularidade para sair à noite, no pós ensaio da banda nos finais de semana, ou no pós-show. Mas ocorreram coisas engraçadas também no âmbito caseiro, e claro que pelo fato da residência da família Gióia ser o QG da Chave do Sol nos quatro primeiros anos da carreira da banda, muita coisa ali aconteceu, principalmente quando a família do Rubens ausentava-se para viagens recreativas à casa de praia do clã, no litoral norte do estado (na cidade de Ubatuba). Uma delas foi comandada por um de nossos amigos, numa ação no meio da madrugada, motivado por um momento de tédio generalizado, e que rendeu-nos risadas.



Sua ideia era a de escolher telefones a esmo, via lista telefônica, e ligar, sem nenhum pudor, para a residência de pessoas estranhas e sem falar uma palavra, colocar o fone próximo ao alto falante de uma vitrola, onde tocava-se discos da coleção do Rubens, e com o objetivo de sentir a reação delas para esse ato bizarro !!!
Claro, entre 2 e 3 horas da madrugada, as reações eram iradas, muitos xingamentos eram proferidos, e ouvíamos essas manifestações sob risadas. Mas um dia, algo inusitado ocorreu...
Alguém atendeu a chamada, mas manteve-se em profundo silêncio.
Desta feita, o nosso amigo havia escolhido o LP "Close to the Edge", do "Yes", para tocar no telefone, mas o interlocutor não pronunciou-se.

Para quem não sabe, trata-se de uma obra típica de Rock Progressivo setentista, ou seja, a música na verdade dura o lado inteiro do LP, com mais de 23 minutos de duração. Quando acabou, ficamos surpreendidos pois o rapaz disse ago como : -"Ô meu, vira o disco aí, cara, quero ouvir o outro lado", adoro Yes...
Diante disso, o nosso amigo pronunciou-se e puxando papo, descobrira que esse rapaz havia atendido o telefone de uma empresa que trabalhava durante a madrugada e que solitário, e numa Era pré-Internet, espantava o sono para trabalhar, ouvindo rádio, mas fã de Rock setentista, não tinha meios de ouvir nada legal na programação das emissoras naquela época, e assim, quando atendeu o telefone e ouviu Close to the Edge, do Yes, adorou a surpresa absolutamente inusitada...

Esse mesmo amigo nosso que criou a brincadeira muito inconveniente, eu sei (eu não gostaria de atender uma chamada às 3 horas da manhã, de um estranho, mesmo que colocasse-se uma música dos Beatles...), contou-nos que em sua casa, costumava aproveitar ligações erradas que caíam no seu fone, para uma brincadeira absolutamente mórbida de humor negro, embora eu reconheça que fosse criativa. Quando percebia que alguém ligava equivocadamente para a sua residência, procurando por alguém que era completamente estranho ao seu seio familiar, improvisava, com uma incrível dose de cinismo e sarcasmo. Por exemplo, uma mulher ligou, e antes mesmo de falar bom dia, disse : -"Hugo" ?
Sem ter nenhum "Hugo" na família; rol de amizades; e nem mesmo como um esporádico conhecido, nosso amigo respondeu : -"A senhora não soube  ? O Hugo faleceu"...
Claro que a reação de estupefação da senhora estranha, foi total, respondendo desesperadamente do outro lado, que "não era possível, pois falara com o Hugo, ontem"...


É óbvio que não aprovo uma brincadeira desse nível, pelas razões evidentes que possa-se imaginar. Indo muito além do mau gosto, poderia gerar consequências incalculáveis, inclusive provocando um choque com desfecho terrível para quem acredita numa colocação falsa desse nível. Vale também para a brincadeira da ligação na madrugada, trote, trocando em miúdos, que poderia assustar perigosamente pessoas que sempre associam telefonemas nesse horário, a tragédias. Só estou contando, porque a despeito de serem práticas abomináveis que desaprovo, reconheço que foram criativas, e sem nenhuma intenção de fazer apologia desse tipo de brincadeira, pois inclusive, sou bastante avesso à essa prática que muitos programas de TV usam para atrair audiência.

4) E uma outra brincadeira coletiva que rendia risadas e euforia, não era algo reprovável que escorregasse na ética, mas divertiu-nos muitas vezes, foi a instituição de um "Hide and Seek" ("Esconde-Esconde), brincadeira infantil que só era possível fazer porque a residência dos Gióia era bem ampla, e com muitos cômodos, tornava a busca pelos escondidos, muito mais difícil, ainda somando-se ao fato de que era feita durante a madrugada, e com as luzes da casa totalmente apagadas.

Era engraçado, mas acabou de uma forma tensa, pois muitas namoradas participavam também, e num certo dia, um "buscador" apalpou a namorada alheia, e mesmo alegando que fizera-o no espírito da brincadeira, e só tentando achar alguém na escuridão, claro que o namorado não gostou, e decidiu-se que a brincadeira estava encerrada, aliás, definitivamente...


5) Outra história engraçada nessa época mais ou menos, ocorreu com o Rubens e o poeta Julio Revoredo. Eu não estava presente, mas o poeta contou-me tal ocorrido. Estavam ambos no trânsito, com o Rubens à direção do automóvel, certa vez, em meio a um grande engarrafamento numa avenida paulistana. Parados no semáforo, Rubens olhava distraidamente pela sua janela lateral, quando um vendedor ambulante de bouquets de rosas, abordou o Julio, pelo lado direito, e querendo oferecer seu produto com ênfase, sugeriu que o Julio o comprasse para a sua “esposa” que dirigia o carro...

Bem, além de todos os dissabores; perigos, e desaforos que ouvíamos por sermos cabeludos na década de oitenta, em meio aos ataques xiitas de niilistas de plantão, ainda havia a estupefação clássica de incautos com a questão de considerar cabelos longos paradigma de afirmação de gênero...
Bem encerro aqui essa arrolamento de fatos curiosos, e extramusicais ocorridos em 1984.  No próximo capítulo, mergulho na narrativa sobre 1985...


Uma simpática filipeta criada pelo Anarca, uma banda da cena pesada oitentista, enaltecendo o trabalho de vários artistas que labutavam em prol do Rock autoral naquela época. Uma coincidência incrível, o endereço da caixa postal deles era na mesma agência onde tínhamos a nossa saudosa caixa postal 19090...

Como última colocação do capítulo, só reforço a ideia de que, apesar de algumas adversidades (o fato de eu dividir-me em duas bandas durante o primeiro semestre; alguns revés - Danceteria Tífon, por exemplo -, e a frustração perpetrada em arrumar e perder um vocalista em tão pouco tempo), o ano de 1984 foi muito bom para a nossa banda, em inúmeros outros aspectos. O crescimento era visível, tivemos muitos shows importantes; exposição midiática, e o lançamento de nosso primeiro disco. Apesar da apreensão gerencial que tínhamos em relação ao futuro, nossas esperanças em mais ascensão para o ano de 1985, era totais. Mesmo sentindo-nos atrasados em relação a "pegar o bonde da história do Br-Rock 80's", nossa determinação ia de encontro à letra do jingle do Festival Rock In Rio : "Se a vida começasse agora"... 
Continua...   

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