Pesquisar este blog

sábado, 9 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 3 - A Era Verônica Luhr: a Diva dos Olhos Azuis - Por Luiz Domingues


Ainda em outubro de 1982, o Rubens lançou essa ideia de uma vocalista. Para tanto, ele alegou haver se lembrado-se de uma garota que conhecera em 1978 ou 1979, não tenho certeza, que havia cantado de maneira informal em uma festa onde ele esteve presente. Contou-nos outrossim, que havia ficado impressionado pelo seu dote vocal, e beleza física. Segundo o Rubens eles chegaram a engatar um flerte na ocasião, inclusive. Enfim, poderia ser uma alternativa para a nossa carência vocal. 

Por confiarmos nessa indicação, e sem outra alternativa concreta à disposição, sinalizamos, eu e Zé Luiz, que ele poderia fazer o contato, e se ela se interessasse, poderíamos enfim, marcar um teste. 
 
Ele fez isso e antes do encontro acontecer, preveniu-nos que seria uma aposta, baseado em uma percepção não profissional, pois a observara a cantar de uma forma fortuita, com uma banda amadora, em uma festa particular, e sem um equipamento com qualidade, à disposição. Entendemos as ressalvas, mas não nos custava conhecê-la, e testar o seu atributo vocal, pois no máximo, a rejeitaríamos e teríamos perdido alguns minutos de tempo nessa operação. 

Marcada a audição, essa moça foi previamente orientada a preparar-se em casa, mediante algumas músicas escolhidas por nós para que cantasse, conosco. 
 
E assim, preparou algumas canções da Rita Lee ("Mamãe Natureza", "Agora só falta você"), Rolling Stones ("Jumpin' Jack Flash", "Honky Tonk Women", "Brown Sugar"), "Cocaine", do JJ Cale, versão Eric Clapton, "Now I'm Here" do Queen, e mais algum material adicional que não me lembro mais. 
 
Ela veio, se apresentou um tanto quanto tímida, mas chamou a atenção pela beleza. Loura, olhos azuis, muito bonita e seguramente com mais de 1,80 metro de altura.
Ela ganhava a vida como modelo em desfiles do estilista, Ney Galvão, este, um rival do famoso estilista Clodovil à época, quando ocupara o posto do finado, Denner nessa contenda do mundo da moda. 
 
O fato dela ser uma bela modelo, foi um ponto importante, claro, mas a surpresa veio quando começamos a tocar, pois ela detinha uma voz incrível! A sua emissão era tão forte que lembrava cantoras espetaculares tais como: Tina Turner, Etta James e outras Divas desse nível.
A inacreditável, Tina Turner, em foto dos anos setenta, quando fazia dupla com seu marido & carrasco, Ike Turner 

Ficamos muito entusiasmados e a convidamos, sem pestanejar. Ela aceitou e marcamos ensaios.
Ela chamava-se: Verônica Luhr. Era uma moça simples, dócil, bem agradável no tato social e sem nenhuma afetação por ser bonita e trabalhar no mundo da moda. 
 
De certa forma, a sua trajetória seguira a cartilha da maioria das meninas que ingressam nessa carreira de modelo, ou seja, eram moças simples, oriundas de famílias simples dos estados do Sul, principalmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e que eram descendentes de italianos, alemães ou de povos oriundos de países do leste europeu.
Geralmente são moças muito simples e os seus pais são pequenos comerciantes locais ou agrônomos. Verônica tinha essas características. Não lembro-me se sua origem era alemã ou austríaca. No entanto, a sua beleza ficou em segundo plano (mas claro que seria um trunfo a mais para a banda), pois a voz dela era verdadeiramente incrível.
 Verônica Luhr, em foto bem mais atual, proveniente da Internet

Tanto foi verdade, que a convidamos imediatamente e certos de que havíamos encontrado uma joia rara, ainda que bruta, a carecer apenas de uma lapidação. A Verônica assumiria uma importância tão grande para a nossa banda, que por conta de sua entrada, portas importantes abrir-se-iam logo a seguir, conforme eu esclarecerei ao longo da narrativa.
Com Verônica Luhr efetivada na formação oficial d"A Chave do Sol, passamos a acelerar o processo de prepará-la para atuar ao vivo. Já tínhamos mais músicas próprias a caminho, mas ainda precisávamos de "covers" para completar o set list dos shows.
E com a entrada dela, e diante de seu imenso potencial, tratamos logo de colocar no repertório, músicas como: "Proud Mary" e "Acid Queen", para ela soltar a Tina Turner que ela tinha na garganta de uma forma absolutamente normal. O primeiro show com a sua presença na formação, foi em meio a um festival colegial.

Não concorremos, mas fizemos o show oficial do Festival do Colégio Manoel de Paiva, localizado no bairro do Campo Belo, na zona sul de São Paulo. 
 
Mesmo com caráter amadorístico, havia um PA alugado, com qualidade razoável, que a direção da escola, em parceria com o centro acadêmico dos estudantes, havia bancado para prover o evento. Haviam cerca de duzentas e cinquenta pessoas presentes, nesse dia 20 de novembro de 1982. A irmã do Rubens, Rosana Gióia, apresentou-se também, para contribuir com backing vocals. 
Essa apresentação foi um estouro, pois além de contrastar com o nível sofrível das bandas formadas por alunos dessa escola, a apresentarem-se para concorrer, e 99.9% a denotar ser adepta daquele som baseado no Heavy-Metal em voga em tono do modismo do "NWOBHM" (The New Wave of British Heavy-Metal, uma típica manifestação oitentista), a Verônica chamou muito a atenção. 
 
A sua voz era impressionante e claro, também a sua beleza física provocou frisson. O seu inglês na ocasião era "macarrônico", mas isso não nos incomodava de forma alguma, pois os a incidência de "covers" seria em nossa planificação, algo meramente ocasional, e tinham os seus dias contados, pois a nossa meta foi a elaboração de um material autoral. 
Esse foi portanto, o primeiro show d'A Chave do Sol, em que não tocamos para uma plateia formada apenas por amigos e parentes (a excetuar-se a apresentação com Percy Weiss, no Bar Pierrot Lunar, é claro), e a repercussão provocou aplausos, uivos, assobios e assédio intenso no camarim do momento pós-show. Foi portanto, um começo muito animador para essa nova formação e na semana seguinte, já tivemos marcados mais dois shows, novamente no Café Teatro Deixa Falar, e desta feita como quarteto.
 
Esses shows de volta no "Deixa Falar" foram muito fracos em termos de público (dias 26 e 27 de novembro de 1982 e com dez e quinze pagantes, respectivamente). No entanto, a Dona Sabine, havia recém-adquirido uma outra casa noturna, localizada na Rua 13 de maio, no bairro do Bexiga, zona centro-sul de São Paulo, onde a noite era fortíssima naquela época, e convidou-nos a fazer uma temporada nesse estabelecimento, justamente para atrair público à nova casa. E nessa série de shows, fatos muito engraçados aconteceram.

Filipeta tosca, para anunciar a temporada d'A Chave do Sol no Devil's Bar em dezembro de 1982. Ela é horrenda pelo seu Lay-Out, super malfeito, mas também poder-se-ia argumentar ter sido algo proposital, para seguir o "desconstrutivismo pós-moderno niilista" , segundo a cartilha da "intelligentsia" formadora de opinião em prol dos valores da estética Pós Punk oitentista... 

Pois é, foi o que aconteceu. Animados com a perspectiva da voz espetacular dela, mais a repercussão do show no festival estudantil do colégio Manuel de Paiva, não abatemo-nos com os dois shows fracos pelo pouco público presente no Café Teatro Deixa Falar, e aceitamos de pronto o desafio de fazermos uma temporada fixa no "Devil's Bar", a então nova casa de propriedade da Dona Sabine. Para quem viveu a época em São Paulo, sabe que o primeiro e o segundo quarteirões da Rua 13 de maio, no Bexiga, eram forrados por bares com música ao vivo.

Tal vocação natural dessa localidade, atraía uma multidão de pessoas, a lotar as casas e geralmente ficavam centenas de pessoas a perambular pela rua. Era uma multidão tão grande, que em dados momentos, tornava-se impossível trafegar de carro por ali, com a turba a ocupar todos os espaços. 

E revelava-se engraçado ouvir o som de bandas a confundirem-se no vazamento que ia a se misturar na rua. Ouvia-se Rock, Blues, MPB, Jazz, enfim, acontecia de tudo, literalmente ali naquele ambiente. O Devil's, no entanto, era praticamente um buraco pela sua má condição. 

Dona Sabine deve ter comprado ou arrendado aquele espaço por um preço irrisório, pois a sua estrutura estava péssima. Cozinha imunda, banheiros péssimos, instalações elétricas precárias, mobília velha e quebrada em muitas peças. 

Mesmo assim, aceitamos tocar e pela segunda vez, fizemos cartazetes e flyers para um show d'A Chave do Sol. Lembro-me que esse material continha o nosso nome, o serviço e uma vaga observação sobre tocarmos: "Rock". E como ilustração, inserimos uma foto do guitarrista e cantor, B.B. King. O primeiro show foi realizado no dia 2 de dezembro de 1982 e teve quinze pagantes, apenas como audiência. 

No segundo dia, 3 de dezembro de 1982, conseguimos melhorar, ao atrair, vinte e cinco pagantes e daí, começou um movimento de "boca-a-boca" na rua, a dar ciência de que havia uma banda muito louca no Devil's, com um guitarrista que tocava o som de Jimi Hendrix, inclusive a imitar sua a performance no sentido de tocar com a guitarra nas costas e com os dentes, como ele (Hendrix) fazia, além de um baixista alucinado que tocava com um chapéu pontiagudo ao estilo de um bruxo (isso foi verdade, eu usei tal artefato em título de brincadeira no primeiro show e o adereço causou um efeito positivo para o público), e uma vocalista incrível que cantava muito, e tinha uma performance de palco bastante animada. 

Dessa forma, pôs-se a aumentar o público nos shows posteriores e este a ficar frenético, cada vez mais.

Na segunda foto, estou a usar o propalado chapéu de bruxo, e essa foto é oriunda de uma filmagem (still), cujo teor e história eu revelarei no momento oportuno da narrativa

Tenho esse flyer guardado orgulhosamente no meu portfólio. Lembro-me que o fizemos de uma maneira artesanal, e o copiamos mediante xerox. Ele ficou tosco, grotesco mesmo. E os nossos amigos ajudaram-nos a distribuí-los em meio à multidão que aglomerava-se na Rua 13 de Maio, principalmente durante as noites e madrugadas de sexta e sábado. 

Ao vê-lo hoje em dia, parece algo deliberadamente feito daquela forma, ao dar-lhe aura "cool", mas na verdade, fora um horror feito de uma forma tosca e muito apressadamente, para suprir a necessidade premente que tivemos.

O "Rainbow", em foto bem no início de sua carreira, 1975, e com Ritchie Blackmore a usar o famoso chapéu, seu hábito desde os tempos do Deep Purple. Foi uma inspiração, naturalmente 

O chapéu foi algo totalmente improvisado. Eu o achei no quarto de despejo da casa do Rubens, enquanto o arrumávamos para que viesse a se tornar a nossa sala de ensaios. Deve ter sido uma peça usada em alguma festa a fantasia cuja ocasião nem o Rubens lembrava-se em ter participado. 

Pedi para usá-lo durante os shows, como uma brincadeira e ficou interessante como adereço ao figurino, pois lembrava-me o Ritchie Blackmore em meio àquele famoso promo do "Deep Purple", com a a música: "Highway Star" de 1971 (a foto acima é do "Rainbow", eu sei, leitor.). 

Nas duas primeiras noites, tivemos poucas pessoas presentes, mais a se configurar como os amigos fiéis, do que público espontâneo. No entanto, a partir da segunda semana, o movimento começou a melhorar, ao atrair muita gente, conforme eu relatarei a seguir, e aí, com todos esses fatores somados pelos quais arrolei anteriormente, colaboraram para fazer dessa mini-temporada, um sucesso. 

E sim, o Rubens, a rigor, fazia com destreza os seus malabarismos com a guitarra, inclusive desde o primeiro show, mas quando começou a entrar mais gente no ambiente dessa casa, começaram as reações mais entusiasmadas mediante tais apresentações (é verdade que no show do Colégio Manuel de Paiva, também houve frisson, quando ele tocou a sua guitarra com os dentes).

Nessa mini temporada no Devil's, estreamos em uma quinta-feira, dia 2 de dezembro de 1982. Como eu já disse anteriormente, nos dois primeiros dias, o público foi pequeno. Mas à medida que o boato correu pela Rua 13 de maio, o público aumentou progressivamente. 

Já no dia 4 de dezembro de 1982, tivemos cem pagantes, na casa. Nessa altura, o entusiasmo com a banda e as performances da Verônica, chamavam a atenção. No dia seguinte, tivemos público com apenas trinta pagantes, mas o domingo era tradicionalmente vazio na rua e assim, consideramos também um bom público pelas circunstâncias. 

E o que ocorria em cena, que chamava tanto a atenção, além da voz privilegiada dela? Bem, a Verônica não tinha muita experiência ainda em lidar com o palco e para criar aquela coragem extra, se imbuía de uma força extra, ao seu modo. E e dessa forma, ela forçava a extroversão e vez por outra as suas falas e trejeitos eram também hilárias. Em meio ao seu imprevisível arsenal de encenações improvisadas, lembro-me em ouvi-la a falar coisas inusitadas, criar uma linha gestual exótica e assim, a reação do público era de frenesi

E claro, a sua beleza física despertava uma calorosa reação masculina. Em certas ocasiões vimos rapazes mais ousados saírem de suas mesas a correr para aproximarem-se do palco e certa vez, um deles, mais impetuoso, chegou a tentar escalá-lo para alcançá-la, no afã de tocar-lhe a perna. Ainda bem que o palco era bem alto, com mais de dois metros de altura, e um amigo nosso, chamado: Wagner "Sabbath", estava por perto e conteve a euforia do tarado. 

Mas lembro-me bem do Rubens a iniciar o riff da próxima música mais rápido, para tentar acalmar os ânimos. Isso chamava a atenção para a banda, mas era algo que não desejávamos, certamente pois o objetivo nunca foi nos aproveitarmos de tal expediente para alavancar-nos. 

Um outro aspecto do "Devil's", foi a sua precariedade física, com falta de higiene, conforme eu já citei anteriormente. Nesse aspecto, lembro-me de uma outra ocasião, quando ocorreu uma gritaria em meio ao nosso show, que começara entre o público. Pensamos ser uma briga, mas tratou-se de uma garota que estava apavorada, e que subiu a mesa para fugir de um rato, enquanto o seu namorado tentava caçá-lo entre as mesas. O tumulto generalizou-se, pois outras mulheres seguiram o gesto, e rapazes correram atrás do roedor.

No quesito rítmico, a nossa cantora ia bem e também apresentava uma ótima afinação. Ela não tinha noção de tonalidade nessa época, mas assim que lhe dávamos o acorde certo, ela cantava direito. Isso é fato, pois apesar de não ter nenhuma noção teórica na ocasião, pelo fato de ter um vozeirão natural, foi certamente uma condição intrínseca o fato dela possuir um bom ouvido. 

Fora disso, por falta de maior experiência à época, ela se expunha ao correr riscos. Não sei especificar em qual dia, mas ela tomou um tombo certa vez, após um movimento brusco que a desequilibrou, e o público delirou. No entanto, ela rapidamente se levantou e prosseguiu a cantar. 

Eram comuns os gracejos masculinos, como eu já narrei, e por conta da beleza dela, naturalmente, mas não podíamos evitar essas reações. O Rubens que era o mais intempestivo entre nós, esboçava reagir, mas para não estragar as apresentações, continha-se em seu ímpeto masculino protetor. 

Mas vou contar-lhe, amigo leitor: a despeito dessas trapalhadas que ela passou por impetuosidade de sua parte, o fato é que ela cantava como uma Diva do Soul, Blues e Rock'n' Roll. Se ela tivesse permanecido na formação da nossa banda e se assim nós tivéssemos tido a chance de encontrarmo-nos com um produtor de porte em 1983, quando o BR-Rock 80's explodiu definitivamente na mídia mainstream, teríamos certamente chegado ao estrelato, (claro, desde que adequássemo-nos ao padrão Pop de FM's). Creio que a Verônica esmagaria impiedosamente (no bom sentido), cantoras dessa cena que estouraram, como Paula Toller, Virginie e Dulce Quental e as backin' vocalistas da Blitz (sei que Fernanda Abreu ficou bem famosa a posteriori), entre outras, e só encontraria uma rival à altura, na Cássia Eller. Por outro lado, estávamos em 1982, e a Cássia Eller só estouraria no meio dos anos noventa, portanto, seria uma rival apenas para uma outra geração, futura.

Isso poderia ter acontecido, pois sua voz era idêntica à da Tina Turner, Maggie Bell, Etta James entre outras Divas da voz. Com um pouco de produção, ela teria sido um estouro!

A segunda semana de nossa mini temporada no anti-higiênico Devil's Bar, ocorreu entre os dias 9 e 12 de dezembro de 1982. Atraímos um público proporcional aos dias da semana mais compatíveis com movimento, com vinte, setenta, cem e quarenta pagantes, respectivamente, entre quinta e domingo. 

Nessa segunda semana, o baterista, Rolando Castello Júnior, da Patrulha do Espaço, foi assistir um desses (sexta ou sábado, não lembro-me), e ao término do nosso espetáculo, subiu ao palco para cumprimentar-nos, mas ele esteve mesmo interessado em conversar com a Verônica Luhr. Estávamos a usar nessa mini-temporada, alguns equipamentos emprestados da Patrulha do Espaço, novamente, tal como no primeiro show, realizado em setembro. 

Apesar do lugar ser um "buraco", nós aproveitamos bem esses nove shows, a angariar a simpatia de um público além do horizonte limitado, formado por nossos amigos e parentes, e mesmo não sendo uma maravilha, ganhamos um cachê somado pelas nove noites em cartaz, suficiente para comprarmos componentes e assim podermos providenciar caixas para incrementar um pequeno PA próprio, que acompanhar-nos-ia por muito tempo em apresentações pequenas, e alimentaria o som de nossos ensaios, por anos. 

Graças a um convite ocorrido devido à essas apresentações no Devil's, também marcamos um show em um bar chamado: "Água Benta", que ficava localizado na Alameda Santos, bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo.

No primeiro dia em que lá apresentamo-nos, 19 de dezembro de 1982, encontramos com o pessoal do Ultraje a Rigor. Eles não tocavam música autoral em predominância, nessa época, mas sim, um repertório munido com covers, pela noite paulistana. Foi a segunda vez em que encontrávamo-nos, pois isso já houvera ocorrido uma vez no Café Teatro Deixa Falar.  

Tocamos para cinquenta pagantes, o que motivou o dono do bar a marcar mais uma data, desta feita para o dia 23 de dezembro de 1982. Sob uma antevéspera de Natal, até que foi bom ter trinta pessoas presentes, e o dono também pensou assim, pois marcou uma nova data para o dia 30. E como a maré esteve boa, antes disso, apareceu uma data para o dia 25 de dezembro de 1982. Sim, no dia do Natal, tocamos no Café Palheta's, um minúsculo bar localizado na Rua Haddock Lobo, bairro da Consolação, região da Av. Paulista. Rosana Gióia, irmã o Rubens, fez backing vocals, nessa apresentação.

Nós estávamos a explodir por tanto entusiasmo, e isso refletia-se nas nossas performances. A Verônica chamava muito a atenção, claro, mas a banda estava a alucinar, também. Eu e o Zé Luiz estávamos a nos entrosar cada vez mais, e tanto foi assim, que criávamos convenções de baixo e bateria o tempo todo. Rubens no meio de seus ótimos solos, ainda fazia as suas acrobacias, "Hendrixianas", que provocavam suspiros, gritos e assovios.
O show do dia 25 de dezembro de 1982, movimentou trinta e cinco pessoas ao Café Palheta's. O próprio dono ficou surpreendido, pois esperava um retumbante fracasso.

Claro, pelo menos doze pessoas ali presentes, eram nossos amigos, mas mesmo assim, ao considerar-se ser dia de Natal, foi ótimo. E por incrível que pareça, ainda houveram shows em 1982, que encerrara-se muito bem para A Chave do Sol. 

Essas oportunidades que estavam a nos ocorrer, foram em sua maioria, decorrentes da ascensão que estávamos a obter naquele momento. Quando se está em uma maré alta, várias chances aparecem, pois uma porta precipita a abertura de outras tantas, essa é uma máxima do meio artístico que eu atesto ser verdadeira. 

Esse momento pós-entrada da Verônica em nossa banda, foi fantástico pois surgiram vários convites para tocarmos e um, muito especial, estava por acontecer, logo no início de 1983. Esse seria o maior desde que começáramos em setembro de 1982. Entretanto, eu só vou comentar no momento correto da cronologia dos fatos.

E assim, embalados por uma boa dose de euforia, ainda fizemos dois shows nesse final de ano, por incrível que pareça, pela época do ano. 

Tocamos no dia 30 de dezembro de 1982, novamente no Café Palheta's, com a presença surpreendente de trinta pagantes, em uma época onde geralmente ninguém quer saber de nada, pelo inusitado da data. E no dia seguinte, 31 de dezembro de 1982, fizemos um show de Reveillon na própria residência do Rubens. Eu considero show, por que tocamos o nosso set list normal de apresentações oficiais, e também pelo fato de ter havido a presença de muitos amigos da banda, tirante os parentes e amigos da família Gióia, logicamente.

Virou o ano, e 1983 pareceu-nos ser um ano auspicioso para A Chave do Sol. Estávamos sob um embalo muito forte com apresentações e o entrosamento entre os membros pareceu estar a atingir um nível muito grande. Ainda por cima, tínhamos mais músicas próprias a sair do forno, a caracterizar a nossa principal meta artística. 

Parece inacreditável, mas lá estávamos nós no Café Palheta's, para mais um show, desta feita em mais uma outra data improvável, isto é, no dia 1° de janeiro de 1983. Nada melhor do que iniciar o ano de 1983 com um show, logo no seu primeiro dia! Tudo bem, ninguém é de ferro, pois só vinte pagantes apareceram, mas nós apreciamos muito tocar nesse dia.

A intercalar os ensaios com os shows, o Zé Luiz, pessoalmente, construiu caixas para o nosso PA. De fato, ele sempre teve muita habilidade para trabalhos manuais, herança de seu pai que era dentista por profissão, mas marceneiro por hobby. 

Com o dinheiro que levantamos dos shows de dezembro, conseguimos comprar falantes, twiters, além de outros materiais, e dessa forma, na base do serrote, martelo e alicate, ele criou o nosso PA, com a minha pequena colaboração como ajudante. 
No dia 6 de janeiro de 1983, houve um novo show no Água Benta, com trinta e cinco pessoas presentes, e no dia 7 de janeiro de 1983, mais uma nova investida no Café Palheta's com vinte e cinco pessoas na plateia. 

Nos ensaios, nesse ínterim, mais músicas novas surgiam, e muita empolgação pelo futuro da banda, unia-nos. Outro show no Água Benta com trinta pessoas nas mesas, no dia 13 de janeiro de 1983, e no dia 14 de janeiro de 1983, uma apresentação em uma casa nova, chamada: "Sampa", um exótico bar decorado com motivos tropicais. Cinquenta pessoas assistiram esse show. Fizemos a seguir, o show do dia 20 de janeiro de 1983, no Água Benta, para quarenta pessoas, e estávamos eufóricos, porque A Chave do Sol não parava de agendar shows!

Nesses shows que eu mencionei, ocorridos nas improváveis datas de Natal e Reveillon de 1982 & 1983, respectivamente, não tivemos a dimensão de que uma simples fita K7, trazer-nos-ia a rara oportunidade para preservar o único registro sob áudio dessa fase da banda, com a vocalista, Verônica Luhr. De última hora, o Rubens teve a ideia de gravar os shows, mas a fita que utilizamos era usada, e ele a apanhara repentinamente no console de seu carro. Esse gesto aparentemente despojado, tornou-se um tesouro arqueológico da banda, apesar de sua precariedade sonora. 

Do lado "A", registramos trechos do show do dia 31 de dezembro de 1982, realizado na sala de estar da residência da família Gióia. No lado "B", trechos do show realizado no Café Palheta's, em 1º de janeiro de 1983. Tal fita ficou engavetada desde então, e somente no ano de 2012, eu tive a oportunidade de digitalizá-la, não sem antes, procurar cumprir essa tentativa em estúdios profissionais e especializados nesse tipo de conversão, e receber a negativa por parte de seus responsáveis, visto que o estado de degradação da mesma, já estava bem alto. 

Mesmo assim, eu insisti, pois sabia tratar-se de um tesouro para os fãs do trabalho, e uma homenagem à Verônica Luhr, que era (é), muitíssimo talentosa. Consegui o meu intento, enfim, mas mesmo a vencer essa batalha contra o relógio da deterioração natural de uma velha fita K7, houveram outros empecilhos. A gravação em si, foi feita de uma forma precária, mediante o uso de um tape-deck caseiro, espetado na nossa mesa de P.A.Giannini. 

A microfonação foi a melhor possível para os nossos parcos recursos à época, porém, obviamente inadequada para capturar o som da banda, decentemente, e pior, sem nenhuma possibilidade para empreender-se uma mixagem posterior, é claro. Outro fator agravante, foi que no afã de se aproveitar o ínfimo espaço possível, com trinta minutos de cada lado da fita, algum amigo nosso que operou o tape-deck (nesse caso, sinceramente não me lembro exatamente qual deles o fez), por sua conta pôs-se a picotar as músicas. A sua intenção naquele momento foi ótima, por que ele quis aproveitar ao máximo o espaço, mas lamento não haver músicas autorais preservadas, mediante essa escolha aleatória e isolada que ele estabeleceu de improviso. 

Enviei esse material para o Site/Blog Orra Meu, que gentilmente promoveu uma edição, muito simples, com colagem de fotos e peças do portfólio da banda à época, e dessa forma, assim foi lançado no YouTube, ainda em 2012. 

O resultado que se ouve são trechos de canções, covers internacionais de Rock, e uma curiosa interpretação de uma música do Caetano Veloso ("Muito Romântico"), além de Mutantes ("O Contrário de Nada é Nada"). Uma pena não haver nenhuma performance com material próprio da banda, a conter a voz espetacular da Verônica Luhr, mas comemoro o fato de haver pelo menos esse registro preservado.

                        Verônica Luhr, em foto bem mais atual

Sinto-me muito aliviado por ter conseguido salvar ao menos esses parcos momentos, com essa cantora, no comando dos vocais d'A Chave do Sol. A banda teria um crescimento gigantesco doravante, após a saída dela, e proporcionou-me inúmeras alegrias e lembranças que guardo com carinho na memória. Mas confesso, e já disse isso ao Rubens, recentemente (2012), que apesar das fases posteriores ostentarem os seus ótimos momentos, permeados por uma expansão midiática, enorme, esse período de 1982, até o início de 1983, é o meu predileto da história banda, por um motivo muito simples: foi o sonho a concretizar-se pelos nossos próprios esforços, a forjar com determinação, um caminho em meio à selva que era (é) o meio artístico. 

Das apresentações humildes ocorridas na clandestinidade do underground, a subir degrau a degrau, com a vontade como única aliada, e por ter sangue; suor & lágrimas como marcas da labuta. 

Com vocês, A Chave do Sol 1982/1983, a apresentar a voz da Diva Soul do "Jabaquara" (bairro da zona sul de São Paulo, onde ela residia naquela época), Verônica Luhr!

Eis o Link para assistir no YouTube:
http://www.youtube.com/watch?v=BJnuSuN_MAE

Em relação à agenda cheia que estávamos a conquistar naquele instante, foi a conjunção do fator da sorte com o nosso entusiasmo em desejar expandir os horizontes da banda, sem contar que houve o aspecto da ascensão pura e simples do trabalho, graças às nossas performances alucinantes, que lembravam a fúria do "The Who", de certa forma. 

No caso do mini PA que estávamos a construir, a minha ideia e do Rubens, foi comprar um sistema de fábrica. Mas a verba mostrara-se diminuta e o Zé Luiz lançou a ideia de nós comprarmos os componentes eletrônicos, alto-falantes, além da madeira. Foi a sua iniciativa e mérito, portanto. E de fato, o dinheiro que dispúnhamos, foi suficiente para tal iniciativa mais laboriosa, digamos, e graças ao talento de marceneiro, e técnico de eletrônica, dele, Zé Luiz, nós preparamos um equipamento que alimentou os nossos ensaios por três anos, doravante, além de propiciar que cumpríssemos shows em casas de pequeno porte.

O Dinola é muito talentoso em muitos aspectos além da música. Mais ou menos na mesma época, ele confeccionou fez cases (estojos), para a sua bateria, a utilizar madeira, que chamou a atenção de outros músicos. 

Muitos anos depois, já no tempo do "Sidharta" (banda em que eu e ele participaríamos entre 1997 e 1999, e que tem seus capítulos exclusivos, é claro), ele reformou um jipe sozinho, que foi o seu carro de uso pessoal, por muitos anos dali em diante! Comprou todas as peças e reconstruiu o carro com fibra de vidro. Inacreditável!


Eufóricos por esse momento bom que vivenciávamos, no dia seguinte ao nosso show do Bar Água Benta, em 20 de janeiro de 1983, tivemos um compromisso Rocker para os dias 21 e 22 de janeiro: desembarcara em São Paulo, o "Van Halen", banda Hard-Rock norte-americana e proeminente naquele momento, que navegava contra a maré do Pós-punk/New Wave que reinava naquele início de década. Na verdade, foram três shows dessa banda em São Paulo, mas eu menciono dois, pois foram os que eu vi. Somente o Rubens (entre nós d'A Chave do Sol), foi quem compareceu os três dias de apresentações de tais artistas estrangeiros.

Quando entramos no grande salão do ginásio do Ibirapuera, vimos um imenso tecido preto como cenário e uma imponente bateria da famosa marca, Ludwig, de cor marrom, postada no centro do palco. Havia um amplificador Duovox em cada canto do palco, e ficamos estupefatos. Será que o Van Halen usaria um palco tão simples e com amplificadores brasileiros, da década de setenta? 

Foi quando aproximamo-nos mais do palco que o Rubens matou a charada: era a bateria do Rolando Castello Júnior, da Patrulha do Espaço. Como assim? Não estava prevista nenhuma banda de abertura!

Quando as luzes de serviço se apagaram, vimos a entrada dos três músicos a aprontarem-se, e aos primeiros arpejos de guitarra, a insinuar o início da canção, "Columbia", com o guitarrista, Dudu Chermont a tocar a sua Fender Stratocaster, confirmamos ser mesmo a Patrulha do Espaço. Garanto que muita gente ali presente, para não dizer a maioria, demorou para notar ser a Patrulha do Espaço no palco, e não o Van Halen.

Foi um show muito digno de abertura. Eles tocaram o set list de seu show da época, baseado no dito disco "branco" (denominado simplesmente: "Patrulha"), e o Júnior fez até um belo solo de bateria, muito aplaudido. Quando a Patrulha do Espaço encerrou, um exército de roadies tomou conta do palco, a extrair o equipamento da valorosa banda nacional, em segundos, como se fosse um ataque de piranhas no rio. A eficiência de uma equipe de roadies norte-americana, foi impressionante. Ficamos a observar a movimentação, atentamente.
Então, o pano de cena preto foi içado e ficamos boquiabertos com o palco do Van Halen, imenso, ricamente ornado por uma montanha de amplificadores. Ou seja, sem ilusões sobre a diferença entre uma produção nacional e outra, internacional, digamos assim

Os dias que seguiram-se ao show internacional que presenciamos, foram marcados pela finalização das caixas do nosso mini PA. 

Lembro-me de dias quentes de verão, muita Coca-Cola gelada, eu e Zé Luiz a pintarmos as caixas de preto, em nossa sala de ensaios e uma vitrola Philips portátil a tocar os quatro lados do LP: "Tales from Topographic Oceans" do Yes, à exaustão:"Nous sommes du soleil...du soleil"...

Nós teríamos muitos altos e baixos em 1983. Estávamos a viver um embalo muito bom desde o final de 1982 e alcançaríamos um pico ainda maior, logo no início de 1983, conforme estou a relatar. 

Logo mais nesta mesma narrativa, eu vou dissertar sobre o auge dessa fase, e a queda brusca, ainda no primeiro semestre de 1983. En passant, aproveito para dizer (para reiterar, pois já falei isso, anteriormente), que esse período do início d" Chave do Sol, entre setembro de 1982, até o meio de março de 1983, foi um dos que mais gostei na história da banda. A euforia que sentia pelos avanços, é uma lembrança muito boa que guardo com carinho.

Visto com o distanciamento histórico e pela ótica de um homem de 56 anos de idade de hoje em dia (refiro-me a 2016), poderia parecer exagero, pois tocávamos em casas noturnas obscuras, e o máximo que conseguíramos como algo extraordinário até então, fora uma nota em um jornal de grande circulação e uma aparição fortuita através de um programa de TV, mas proporcionalmente, tais feitos representaram uma conquista tão grande, que produziu-me uma euforia enorme, e essa energia mágica, sob ordem motivacional, tratou por imprimir-me um estrato de memória dos mais doces. Tempos depois, A Chave do Sol teria vitórias estrondosamente maiores, mas eu tenho muito carinho por esses momentos iniciais da trajetória da banda.

E após assistirmos os shows do Van Halen, voltamos à nossa dura realidade: show no Água Benta Bar, dia 27 de janeiro de 1983.
Mas a despeito das condições nada glamorosas do nosso show em relação ao que vimos na produção do Van Halen (sem contar com as cinquenta pessoas presentes, em detrimento das doze mil do ginásio do Ibirapuera), tivemos uma grande notícia. 

Um dos diretores de uma badalada casa noturna paulistana, foi nos ver a tocar, e daí surgiu o convite para fecharmos um pacote de shows com cachê fixo, e com o direito de dividirmos o palco com o "Tutti-Frutti", "Fickle Pickle" e eventuais shows das bandas efervescentes da cena do movimento "BR-Rock 80's", a se sedimentarem no patamar mainstream, que estavam a acontecer toda a semana, naquela casa. Ficamos eufóricos, pois seria um tremendo salto de qualidade, e uma oportunidade de ouro que não poderíamos desperdiçar.

Uma foto extraída da internet a retratar o ambiente do palco principal do Victoria Pub, ao final dos anos setenta ou início dos oitenta, provavelmente

Essa casa foi o "Victoria Pub", então localizada na Alameda Lorena, em Cerqueira Cesar, bairro nobre da zona sul de São Paulo. Tal estabelecimento continha uma decoração incrível, fielmente copiada de pubs de Londres, e era também um labirinto intrincado por deter passagens secretas, saletas, câmaras reservadas, dois palcos e dois bares. 

O público habitue, era formado em sua esmagadora maioria por jovens burgueses, milionários & esnobes em geral. Apesar de não ser o público dos nossos sonhos, tocar no Victoria Pub não fora um feito fácil para qualquer banda, portanto, ficamos eufóricos com a oportunidade. 

Logo no dia seguinte ao convite, fomos ao Victoria para assinarmos o contrato. O cachê oferecido foi excelente, ao se considerar o fato de que estávamos acostumados a ganhar cachês modestos, oriundos do resultado incerto de bilheterias provenientes de casas obscuras do circuito da noite musical de São Paulo.

Uma outra foto que eu achei na Internet, mostra um dos muitos ambientes que o labiríntico, Victoria Pub, ostentava 

E nessa reunião do contrato, o gerente da casa deu-nos o regulamento do estabelecimento, a constar o horário de entrada para a passagem de som, horário de show, e advertiu-nos sobre o cuidado em não falarmos "palavrões" ao microfone, além de pedir para que nos trajássemos "o menos "riponga" (escrito dessa forma pejorativa), possível"... ou seja, hilário e ainda bem que não pediu para cortarmos os cabelos. O repertório tinha que conter alguns covers conhecidos, e não somente música autoral, mas também falou-nos sobre excessos no volume. Independente dessas restrições, estávamos muito felizes pelo salto que estávamos a dar.

O contrato foi para cumprirmos dois meses, com média de dois shows por semana, mas no todo, fizemos quatorze shows ao invés de dezesseis, como estava previsto anteriormente. A animação foi total, e sentíamos que portas ainda maiores abrir-se-iam por estarmos a imprimir um ritmo de ascensão desde que a Verônica entrara para a banda, como nossa vocalista.

E só por ver que tocaríamos toda noite a revezarmo-nos com o "Tutti-Frutti", ou com o "Fickle Pickle", já fora um tremendo sinal. Além disso, haviam os shows grandes, programados. Não ocorriam nos dias em que tocávamos, mas nós sabíamos que haveriam shows de bandas estouradas no mainstream da época, tais como o "Kid Abelha", "Herva Doce", "Blitz", "Lobão e os Ronaldos", "Lulu Santos", "Barão Vermelho" e "Paralamas do Sucesso". Tratavam-se dos grandes nomes do BR-Rock 80's, a estourar na mídia, portanto a denotar que estávamos nesse bojo, também. E pensar que dois meses antes, estávamos a tocar no Devil's Bar, sob condições precárias, em meio a ratos! 

Não somente por essa conquista, mas pelo crescente em que vínhamos a percorrer desde a entrada da Verônica, foi uma sucessão de boas novas que alçaram-nos a condições melhores, sob um curto espaço de tempo. Obviamente que a banda estava muito bem, super motivada com tudo isso e especialmente em relação a entrada no âmbito do Victoria Pub. 

Sabíamos também que a badalação ali não ficava só por conta dos jovens bem-nascidos e malcriados, os endinheirados que a frequentavam. Em realidade, tirante as atrações musicais, havia a presença de muitos "vip's" que ali compareciam, regularmente. Músicos famosos, modelos, atores consagrados da TV, gente de Teatro e Cinema etc.

Quando eu começar a relatar sobre os shows em si, revelarei algumas histórias paralelas nesse sentido. Só houve uma controvérsia nesse contrato: ele previra o regime de exclusividade e nesses termos, ficamos proibidos de agendar shows em São Paulo, em outros espaços, no mesmo período. Não dimensionamos esse detalhe à época, inebriados pela sensação de ascensão, mas algum tempo depois, isso geraria o primeiro momento de queda da banda.
A nossa primeira apresentação no Victoria Pub ocorreu no dia 1°de fevereiro de 1983. Nesse primeiro show, fomos obrigados a tocar no palco menor, pois foi, segundo a orientação da sua direção, uma espécie de primeira observação da reação do público em relação à nossa banda. Dessa forma, tocamos logo após um pianista, cantor e entertainer argentino, chamado: Luchin, que aliás era muito bom, e que tocava diversos standards de Jazz, músicas de trilhas de cinema etc.

Mais uma foto de um ambiente do Victoria Pub, nos anos oitenta
 
Mas o palco pequeno era pouco requisitado pelo público habitue da casa. Era mais adequado para um pianista como o Luchin, e as pessoas poderem conversar enquanto bebiam, com a música ambiente a atuar como um "muzak" despretensioso. 

Evidentemente que A Chave do Sol não tinha nada a ver naquele espaço, ao considerar-se a volúpia sonora pela qual a nossa banda se conduzia normalmente. E já no segundo dia, 2 de fevereiro de 1983, fomos alojados enfim no palco principal. 

Com um PA peso-pesado para o ambiente e iluminação muito boa, este outro ambiente mantinha o aspecto de um cabaré europeu, com o público a assistir ao nível do artista na pista de dança ou em pequenos camarotes sob um mezanino. Lembrava bastante aquele teatro onde no filme, "Tommy", o Elton John acompanhado do The Who, canta: "Pinball Wizard", só que em uma proporção bem menor.

         Still do filme "Tommy", com a cena que descrevi acima

Ali sim, o clima esquentava, com a pressão de som, iluminação muito boa e público maciço. E foi nesse palco que de terça a quinta, o Tutti-Frutti revezava-se com o Fickle Pickle e A Chave do Sol foi alojada como abertura para ambos. Às sextas, sábados e domingos, aconteciam os shows dos artistas mainstream, conforme eu já mencionei anteriormente. 

De volta ao dia anterior, foi exatamente quando eu conheci os meus amigos, Nelson Brito e Paulo Zinner. Eles tocavam no "Fickle Pickle", uma banda que existia desde 1978, e que fora fundada pelos dois e Chris Skepis, que conheciam-se desde o final dos anos 1960, pois estudaram juntos no mesmo colégio, e moravam no mesmo bairro. No entanto, Skepis saíra e cedera a sua vaga ao guitarrista de blues, André Christovam. 

Quando os conheci, no entanto, o guitarrista não era mais o André Christovam, mas sim, Raul "Zica" Müller (com quem alguns anos depois, eu tocaria rapidamente em uma banda que não prosperou, e só fez um show e essa história está contada no capítulo: "Trabalhos Avulsos" sobre a "Pinha's Band"), e o vocalista, era o Catalau, que eu conhecera em 1980 (saiba como o conheci anteriormente, ao ler os capítulos sobre o Terra no Asfalto).

          O Fickle Pickle, com a presença de André Christovam

Nessa época em que conheci o Fickle Pickle, eles haviam abandonado a verve autoral, quase completamente. Tocavam cerca de noventa e nove por cento de músicas baseadas em covers internacionais, e a sua base sonora fora centrada no som do "The Rolling Stones", "The Beatles" e "The Who", principalmente. Anos depois, a banda voltou a atuar em paralelo ao "Golpe de Estado", e chegou a lançar disco autoral, com o André Christovam de volta à guitarra.
Catalau em foto mais do final dos anos oitenta, quando atingira grande fama com o Golpe de Estado
 
O Catalau era o vocalista, mas eu já o conhecia desde 1980, pois ele fora amigo do pessoal do Terra no Asfalto, a banda cover em que eu toquei naquela época. Sim, essa formação do Fickle Pickle, foi sem dúvida o "pré-Golpe de Estado". Representava-se ali, 3/4 do Golpe de Estado, que só nasceria, contudo, oficialmente ao final de 1985. Nessa época esses amigos citados nem conheciam o guitarrista, Hélcio Aguirra. Eu conheci o Hélcio, antes deles, em 1984, só para o leitor ter uma ideia.

Mais uma foto de um ambiente do Victoria Pub, nos anos oitenta
 
Tocar no palco principal do Victoria, era sensacional, pois a estrutura mostrava-se muito boa, e o ambiente lembrava o de um cabaré europeu, dos anos 1920. E havia a questão do status, pois ali era onde chamava-se a atenção, verdadeiramente, visto que no palco secundário, o ambiente era mais considerado como "lounge", para se tocar comedidamente, e passar despercebido. 

Ao mencionar algo fora da cronologia, mas sobre o Golpe de Estado, é verdade... alguns álbuns dessa banda contém agradecimento à minha pessoa.

De fato, eu já ajudei o Golpe de Estado em muitas ocasiões, mas os seus componentes (mesmo antes de existir como banda, propriamente dita), foram quem ajudaram-me nessa época do Victória Pub. O fato é que eu estava sem amplificador nessa época, e dessa forma, usei o amplificador do Nelson nessas apresentações no Victoria (um da marca "Acoustic 360", dos anos 1960/1970). O Nelson mal havia conhecido-me, e disponibilizou o seu equipamento, através de uma gentileza que selou a nossa amizade, de forma instantânea. Fora o prazer em tocar com um amplificador que sempre foi o meu sonho de consumo...
Nunca esqueci-me dessa ajuda, e dali em diante, ajudei-o, sempre que pude, sob uma retribuição eterna.
 

Na primeira foto, John Paul Jones como garoto propaganda dos amplificadores "Acoustic", um dos melhores, senão o melhor amplificador de baixo dos anos sessenta e setenta e usado por 9 a cada 10 baixistas de bandas de Rock britânicas e norte-americanas durante essas duas décadas. Na segunda foto, peça promocional do "Harppia", com Hélcio Aguirra na formação da banda. Ele é o segundo da esquerda para a direita.

Conheci o Hélcio quando ele tocava no "Harppia". Lembro em vê-lo pela primeira vez em um evento ao ar livre, a tocar com essa banda, chamado: "Praça do Rock", realizado na concha acústica do Parque da Aclimação, onde A Chave do Sol tocaria também algumas vezes, futuramente. Em nosso caso, no entanto, isso só aconteceria em 1984. 

Mas só tornamo-nos amigos de fato, alguns meses depois dessa apresentação, quando encontramo-nos em um show no Teatro Lira Paulistana (não lembro-me ao certo, mas acho que fora um show duplo, com apresentações das bandas pesadas: "Korzus" e "Sabotage"), e nessa ocasião, nós voltamos juntos no mesmo ônibus que servia aos dois.

A falar sobre o público, a sua reação era boa em linhas gerais, no sentido de que dançavam e aplaudiam os shows do Victória, mas na prática, não era um público Rocker. Eram jovens burgueses em sua maioria, e não estavam nem aí para ninguém, nem mesmo o Tutti-Frutti. Aliás, o Tutti-Frutti tocava mais covers que suas músicas autorais naquelas apresentações. 

Para nós, era ótimo estarmos ali pela badalação toda, a acrescentar a oportunidade para conhecer pessoas do mundo empresarial e fonográfico, artistas famosos etc. Logo mais eu farei um relato mais detalhado sobre algumas curiosidades ocorridas durante os nossos shows.

Mais uma foto extraída da Internet, a mostrar a perspectiva do público visto da lateral do palco principal do Victoria Pub, nos anos oitenta, recheado com jovens oriundos da alta burguesia paulistana, e que lotavam-na de segunda a segunda
 
Contudo, euforia no sentido de deslumbramento, acredito que não.
Estávamos felizes e confiantes. No entanto, a Verônica passou a ser fortemente assediada e isso precipitou logo a seguir a sua saída da nossa banda, infelizmente.
                      A fachada do Victoria Pub, na Alameda Lorena

Como eu tenho várias particularidades a contar sobre esses shows no Victoria Pub, mas sem relacionar ao dia específico, falarei sem essa preocupação. Que fique subentendido que aconteceram durante esses quatorze shows que lá fizemos, entre 1°de fevereiro e 6 de abril de 1983.

1) Primeiro foi o convívio com o pessoal do Fickle Pickle. Logo que ficamos alojados na agenda fixa do Victória, a primeira pessoa que eu reconheci ali dentro, foi o Catalau. Eu o conhecera em 1980, por ele ser amigo dos membros do Terra no Asfalto, a minha ex-banda cover, e amigo de vários amigos em comum daquela turma de freaks, quase todos moradores do bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo.
A famosa pensão "São Geraldo", localizada na rua homônima, no bairro das Perdizes, onde os guitarristas, Geraldo "Gereba" e Wilson Canalonga Jr. moravam, e onde muitas reuniões do Terra no Asfalto aconteceram, inclusive com a presença do então desconhecido, Catalau...

Lembro-me sobre tê-lo conhecido pessoalmente em uma tarde qualquer no primeiro semestre de 1980, no quarto de pensão onde Wilson e Gereba dividiam a moradia, na Travessa São Geraldo. Ele, Catalau, estava lá presente com uma guitarra Fender Telecaster em mãos e foi naquela fase dessa banda citada quando já sabíamos que o guitarrista Fernando "Mu" sairia da banda. 

Portanto, chegou-se a cogitar a entrada dele, Catalau, naquela banda, para ficarmos então com uma formação com três guitarras. Mas isso não avançou, e ele não entrou em nossa banda. Alguns meses depois, eu e Paulo Eugênio fomos visitá-lo em seu apartamento da Rua Ministro Godoy, no mesmo bairro das Perdizes. 

Fora uma fase sob reformulação do Terra no Asfalto, mas não deu certo novamente, pois o guitarrista, Aru Júnior estava a voltar dos Estados Unidos e assumiria a vaga deixada pelo Geraldo "Gereba", que mais uma vez estava a viajar para o Nordeste. Mas isso tudo eu contei no capítulo do Terra no Asfalto, detalhadamente sem dúvida e no momento oportuno da cronologia.

Nessa visita, o Catalau recebeu-nos, e ficou a estabelecer exercícios exóticos vocais e faciais que acabara de aprender, ao ler as instruções sugeridas no livro de um guru indiano. Foi hilário, mas ao mesmo tempo, o meu lado hippie apreciou essa maluquice que parecia estar perdida no tempo, em contraste com a fase dura em que estávamos a ingressar, graças ao conceito deturpado do niilismo que as estéticas oitentistas usaram para se sobrepor.
E tratou-se do dia 18 de setembro de 1980. Por que gravei essa data com tal precisão? Simplesmente por que foi o aniversário de dez anos da morte do Jimi Hendrix, e fora exibido um especial na TV, no instante em que estávamos ali presentes em sua residência. Por isso, eu fiquei contente por encontrar o Catalau, ali no Victoria Pub, em fevereiro de 1983, e verificar que a então banda dele estava bem, a tocar sob contrato fixo em uma casa bem badalada de São Paulo.

Na primeira foto, mais um ambiente do Victoria Pub e na segunda, a clássica "cozinha" do "Fickle Pickle" e "Golpe de Estado": Nelson Brito & Paulo Zinner

E dessa forma, fui apresentado a Nelson Brito e Paulo Zinner, que depois apresentaram-me ao Raul "Zica" Müller. Instantaneamente estreitamos amizade pela proximidade de ideais, e logo de início por ser ajudado gentilmente pelo Nelson, conforme já contei. Isso por que eu estava sem amplificador na ocasião, e a casa fornecia equipamento de palco (backline), mas por alguma circunstância excepcional, esse trato foi rompido, e vimo-nos na situação em não ter equipamento disponível mais. 

Todavia, o Nelson prontamente ofereceu o seu amplificador e caixa, de marca "Acoustic", um equipamento que sempre foi um sonho de consumo meu, pois o fato é que eu forjara-me como Rocker na adolescência a ver fotos e vídeos de muitos ídolos a usá-la. John Paul Jones, Gary Thain, Tim Bogert, John Deacon e tantos outros mestres das quatro cordas, por exemplo. 

E de fato, era um amplificador maravilhoso, pois continha possibilidades de equalização com muito brilho, e um peso de ao estilo "arrasa-quarteirão". O meu Fender Jazz Bass roncou forte nesses quatorze shows que ali A Chave do Sol cumpriu, plugado em um amplificador desse nível...

E o Fickle Pickle, apesar de não tocar músicas autorais, foi uma banda impressionante ao vivo. Tocavam o som dos Rolling Stones, Beatles e The Who, principalmente, mas com uma volúpia tal, que pareciam estar a atuar no Marquee Club, de Londres, nos anos 1960. Eu gostava muito da performance deles.

2) Outra curiosidade a ver com tal banda, foi que um dos dirigentes do Victoria Pub, tinha muitos contatos no meio fonográfico, e dessa forma, propôs aos instrumentistas do Fickle Pickle, que eles formassem uma banda paralela, onde ele mesmo, o tal dirigente, seria o vocalista.
Dessa forma, para aproveitarem-se do "Boom" do Br-Rock 80's que estava a borbulhar em 1983, Paulo, Nelson e Raul gravaram e lançaram com esse sujeito, um single. A banda tinha estética forjada pelo modismo "New Wave", para seguir os ventos do pós-punk, e recebeu o ridículo nome de: "Pepino Irritadiço"...
Os meus amigos não gostavam disso, mas claro que aceitaram e gravaram, pois foi uma oportunidade.
A banda tinha ainda duas "vocalistas", e na verdade, era uma espécie de "Trio Los Angeles" do Pseudo-Rock New Wave. O som era realmente uma pasmaceira Pop (os meus amigos também tinham essa consciência, é claro). Em segredo o Zé Luiz Dinola apelidou tal grupo como: "Cenoura Raivosa", para ironizar. 

2) Entre o pessoal do Tutti-Frutti, o convívio foi muito bom, com o Luiz Sérgio Carlini. Logo o líder da banda, foi o mais receptivo, juntamente com o segundo guitarrista, Ronaldo Paschoa. O baixista era Renato Figueiredo, e o baterista era o Marinho Thomaz, ex-Casa das Máquinas, e já no vocal, havia a presença de um outro ex- membro do "Casa das Máquinas", a se tratar do famoso, Simbas, mas estes últimos foram bem mais reservados para conosco. 

Essa formação de tal banda era muito boa ao vivo, com o Simbas a cantar muito, e fazer as vezes de frontman com a desenvoltura dos velhos tempos. Infelizmente, eles mesclavam muitos covers, talvez sob uma proporção 70 / 30 %, acredito.

Mas devo reconhecer que algumas interpretações soavam brilhantes. O solo em duo que Carlini e Paschoa faziam na canção: "Hotel California", dos "Eagles", era memorável. Lembro-me em ter conversado com o Carlini pela primeira vez em uma dessas tardes, no boteco de rua ao lado do Victoria Pub. Nessa oportunidade, eu fiquei muito contente em poder conversar com ele e verificar que se tratara de uma pessoa extremamente humilde e acessível, sem nenhum estrelismo decorrente da sua fama pregressa desde os anos setenta.

Recordo-me também de uma outra ocasião, em que ele, Carlini, mostrou ao Rubens o seu novo amplificador, coqueluche do momento, e tipicamente um produto oitentista, a se tratar daquele cubo Roland, cor de laranja. Parecia uma caixa de sapatos. Alguns dias depois, o Rubens comprou um combo da Music Man, e o Carlini apreciou muito o som, que ultrapassava o Roland e muito. 

Em outra ocasião, um outro membro do Tutti-Frutti chegou em uma tarde ao Victoria Pub, e sem ninguém para ajudá-lo a descarregar uma bateria de seu carro. Eu e o Zé Luiz fomos ajudá-lo, mas diferente do Carlini e do Paschoa, esse componente mantinha aquele distanciamento, do gênero: "eu famoso, vocês desconhecidos". O Zé aborreceu-se bastante com tal postura altiva de sua parte, mas eu relevei, e não senti-me incomodado. Algum tempo depois, o Zé Luiz deu-lhe o troco, ao gerar uma situação desagradável, que prefiro não contar com maior detalhamento, mas atesto, foi desagradável o impasse gerado.

3) Sobre os bastidores:

Conforme eu já descrevi, o Victoria foi uma casa labiríntica em sua arquitetura instigante. A fachada não dava ideia do quanto era grande, e com tantos emaranhados a conter ambientes inusitados, câmaras secretas, saídas inusitadas para outros ambientes etc.

Still do filme "Tron", super modernosa produção Sci-Fi para aquela época, por tratar de um assunto que começava a mexer com o imaginário dos jovens, a realidade virtual e os vídeogames... 

A decoração da casa, era riquíssima em detalhes, e certamente que foi um luxo naquele começo de anos oitenta, já possuir um serviço de TV interna, com monitores em todos os ambientes, e a exibir filmes de estilo Sci-Fi, recém-lançados tais como: "Tron", e "Blade Runner", por exemplo. 

O ambiente era burguês, mas apesar de ser dispare, não havia nenhuma hostilidade por parte do público formado por riquinhos. Pelo contrário, mesmo não sendo Rockers, bastava qualquer uma das três bandas fixas começarem a tocar, e eles dançavam, gritavam e aplaudiam. Na verdade, queriam arrumar parceiros sexuais. Muita gente do meio musical circulava ali. Lembro-me do Peninha Schimdt, Kid Vinil, além de outras figuras.

Uma vez, um sujeito cujo nome não recordo-me, nos assediou por longos minutos, eu e Rubens, com uma conversa que inicialmente julgamos ser meramente falaciosa. Com cabelo cor de laranja e corte bem esquisito, bem dentro do modismo "New Wave", esse rapaz abordou-nos ao afirmar ser um produtor musical. 

Em princípio, ele desejou que o procurássemos no decorrer da semana, para que levássemos o nosso material ao seu escritório, pois (supostamente), dizia que estivera envolvido na produção dos shows do Van Halen, que viera recentemente ao Brasil, e aventava a possibilidade de colocar-nos para "abrir" o show "Kiss", que segundo ele, viria em junho. Deu-nos como brinde, várias palhetas customizadas do Van Halen, e o seu cartão. Não era empresário, devia ser um subalterno, mas ficava a circular pela noite a botar banca de produtor influente.

Ele só fez uma observação mais incisiva: teríamos que cortar os cabelos à New Wave e repaginar o nosso figurino. O pensar bem, ele não estava errado sob o ponto de vista gerencial. 

Éramos anacrônicos em 1983, principalmente eu e o Rubens, a usarmos como visual, signos de Rockers, setentistas. O rapaz nos falou sobre cada um de nós ter o cabelo de uma cor diferente, e usarmos o figurino a seguir o padrão estético do grupo britânico, Duran Duran. Bem, se fosse algo realmente concreto ao menos, vá lá o sacrifício, mas sair por aí a "modernizar-se" à toa, seria uma estupidez, principalmente pelo fato do principal quesito, ser incompatível com esse visual oitentista: teríamos que mudar o nosso som, também...

4) Ainda a falar sobre os bastidores, lembro-me de uma noite em específico, por termos tido a sorte de tocar para embalar uma festa gerada por uma produção da Rede Globo, a comemorar-se o encerramento de uma mini série, chamada: "Bandidos da Falange", que tratava sobre o submundo do crime no Rio de Janeiro etc. e tal. Toda a equipe técnica, diretores e muitos atores esbaldaram-se ao som d'A Chave do Sol. Lembro-me de atores e atrizes famosos como: Betty Faria, Roberto Bonfim, Gracindo Júnior e Júlia Lemmertz, entre outros, a dançar animadamente enquanto tocávamos.
 
 
 

Informações sobre a mini-série "Bandidos da Falange":
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandidos_da_Falange

E também foram notórios os shows com artistas famosos que ocorriam ali, semanalmente. Naquela época, todo mundo que gravitara na órbita do dito "BR-Rock 80's" e que estava a explodir no imaginário popular, apresentou-se ali, perante multidões a assisti-los, e sob muita badalação. 

Os shows com artistas grandes do mainstream, aconteciam às sextas e sábados. Nunca fomos assistir nenhum, mesmo por que não interessávamo-nos por aquela turma oitentista, com menção honrosa ao Barão Vermelho e ao Herva Doce, que não eram bandas forjadas pela influência da raiz punk e mantinham as suas raízes no Rock clássico e no Blues. E que fique bem claro, nessa primeira leva de artistas, o BR-Rock foi predominantemente carioca (com exceção do Paralamas do Sucesso, talvez, mas estes estavam radicados no Rio, também). Paulistas e brasilienses começaram a ter espaço em outro momento após, em 1984. 

E tivemos um contato discreto com uma dessas bandas citadas, em uma sexta-feira onde havíamos passado ali no Victoria Pub apenas para apanhar o nosso equipamento, que não fora possível remover na madrugada anterior, quando tocáramos. 

O Herva Doce, uma rara banda oitentista que não seguiu a cartilha do Pós-Punk e pelo contrário, mais parecia-se setentista em sua estética
 
Foi sob uma tarde quente de sexta-feira, ali na porta do Victoria que nós vimos dois carros com placas do Rio de Janeiro a estacionar e que estavam abarrotados por equipamentos e cabeludos em seu interior a chegarem. Tratava-se da comitiva do grupo de Rock, Herva Doce a desembarcar na Alameda Lorena. Foi curioso verificar os artistas em uma situação não glamorosa, esbaforidos pela desgastante viagem recém encerrada e a descarregarem os carros, eles mesmos, sem o apoio de roadies. Lembro de um dos carros ter sido uma "Belina" da Ford, dos anos setenta, abarrotada com equipamentos.

O guitarrista, Marcelo Sussekind, perguntou-nos a hora certa. 
Curioso o destino, pois alguns anos depois, o Rubens Gióia, em sua fase pós-Chave do Sol, e pós-Patrulha do Espaço, chegou a gravar um LP com uma banda que prometera estourar na cena mainstream. Esse disco foi gravado no Rio, com toda a mordomia de uma gravadora major, e o guitarrista do Herva-Doce, Marcelo Sussekind seria o seu produtor. Só para complementar, tal banda chamar-se-ia "Yankee" e infelizmente não alcançou o seu objetivo por conta da morte prematura de seu vocalista a interromper a sua trajetória de sucesso.

Particularmente eu sempre tive um respeito muito grande pelos músicos do Herva Doce, pela sua árvore genealógica muito boa. Eram oriundos do "The Bubbles", e consequentemente d'A Bolha. além de conter ramificações com "Os Mutantes", "Veludo" etc. Não eram membros da turminha do "Do It Yourself", pelo contrário, tinham história e estrada.

5) Sobre A Chave do Sol e o Victória:

Na reunião em que fechamos o contrato, o diretor da casa advertiu-nos apenas sobre não exagerarmos no visual "Riponga" (palavras e preconceito, dele), além de não falarmos palavrões ao microfone (senti-me inserido no filme: "The Rose"... -"hey you, motherfuckers"...), e pediu-nos para tocar músicas conhecidas. Não houve restrição para que tocássemos músicas autorais mescladas, mas desde que não houvesse exagero. 

O pagamento ficou acordado para ser realizado, semanalmente. O primeiro show, no dia 1° de fevereiro de 1983, e foi realizado no palco pequeno, conforme eu já mencionei anteriormente. Mas logo no segundo dia, os mandatários da casa perceberam que a nossa banda jamais poderia tocar sob um palco tímido ao estilo "lounge", de piano bar, e sendo assim, escalaram-nos para o palco principal, a partir do segundo dia. Tocávamos várias músicas nossas, mas evitávamos as instrumentais muito longas, para privilegiar o talento vocal da Verônica. 

Verônica e Rubens na linha de frente, Zé Luiz na retaguarda... A Chave do Sol no Victoria Pub'1983!

A nossa performance era frenética. Eu, Verônica e Zé Luiz, principalmente, entrávamos a todo vapor. Eu exagerava mesmo, pois estava 100% seguro como músico, e permitia-me realizar uma mise-en-scène frenética, sem prejuízo ao meu desempenho musical.

O Rubens sempre foi mais comedido e costumava tocar concentrado, e estático. Mas para compensar, ele mantinha os seus arroubos frenéticos e "Hendrixianos" ao tocar com a guitarra virada atrás da cabeça, ou mesmo ao tocar com os dentes, e claro que tal performance proporcionava picos de euforia para a plateia, cujo momento aguardávamos como se fôssemos mágicos ilusionistas, que sabem exatamente onde usar o seu melhor truque, para gerar o clímax de seu show. 

A Verônica continuava a encantar pela sua voz super privilegiada e a exercer também um gestual frenético e parecia que estava tudo bem para nós, mas ao contrário da nossa percepção pueril, algo pior estava por acontecer, infelizmente.

Antes que eu comece a narrar esse revés, preciso mencionar que uma vez, eu cometi um acidente que poderia ter tido uma maior gravidade. Estávamos a executar a canção: "O Contrário de Nada é Nada", dos Mutantes, quando na euforia da minha mise-en-scène, eu estabeleci um movimento muito brusco com o headstock do baixo (a chamada "cabeça", onde ficam as tarraxas, que afinam o instrumento). Estava alucinado a tocar, e nem senti que dei um tranco em alguma coisa...

Eu a viver os meus dias de "John Paul Jones", com o meu Fender Jazz Bass a roncar forte, plugado em um amplificador, "Acoustic", modelo "360", cortesia do amigo, Nelson Brito.
Percebi que a Verônica tinha parado de cantar, por que eu a acertara violentamente com o headstock do meu baixo! Ela havia parado de cantar momentaneamente e estava com a mão sobre o rosto, e quando a tirou, o seu rosto estava muito vermelho, certamente devido ao hematoma. Mesmo assim, nós continuamos a tocar, e só depois do show eu pude pedir desculpas para ela, pelo acidente.

Enfim, tive os meus dias de Pete Townshend ali no Victoria Pub, e como ele, também causei acidente pelos meus excessos cênicos...

Tirante esse acidente do qual ela foi vítima, o que esteve a acontecer com a Verônica que determinou o seu afastamento de nós?

Infelizmente, passou a ser comum que ela não comparecesse ou justificasse as suas faltas nos ensaios, e nos shows, chegava em cima da hora do espetáculo, quase toda noite. No momento do pós-show ela passara a sair rapidamente de cena ao despedir-se de uma maneira formal, sem o calor humano de outrora. 

Foi então que nós descobrimos a motivação, quando ela comunicou-nos que recebera uma proposta para gravar um disco em regime solo mediante a promessa de um contrato com gravadora major, e a contar doravante, com uma nova banda contratada para acompanhá-la, e ela a ser tratada como uma estrela, absoluta.

Seduzida por tal proposta, ela sonhou com a possibilidade de ascensão e devo acrescentar que foi uma aspiração legítima de sua parte, portanto, nesse aspecto não caberia questionamento da nossa parte.

Sendo assim, quando acabou o nosso contrato com o Victoria Pub, ela saiu sumariamente d'A Chave do Sol, e nós ficamos sem perspectivas imediatas, pois todo o embalo maravilhoso que havíamos engrenado, sob muita labuta, desde outubro de 1982, foi destruído, por que estávamos sem outras datas em vista (o contrato com o Victoria nos proibira de agendarmos datas de imediato em outras casas), e nesse momento a ter que procurar às pressas um novo vocalista ou voltarmos a trabalhar mediante o formato como Power-Trio, ao necessitar reestruturar todo o repertório para o Rubens, ou o Zé Luiz cantarem, perderíamos um tempo precioso. Isso sem contar o prejuízo em perder uma vocalista do potencial sensacional que ela continha, o pior revés, sem dúvida. Se tivéssemos prosseguido unidos, e com a sorte de arrumarmos um produtor bem situado no meio, teríamos tido uma outra sorte.

Dali em diante, experimentamos a nossa primeira curva descendente na história da nossa banda. Relatarei a seguir essa fase dura, que durou três meses sob bastante aspereza.

Essa foto foi tirada durante a realização de um soundcheck no Victoria, sem a presença da Verônica. Tornou-se icônica, pois a sua súbita debandada, obrigou-nos a voltarmos ao formato de um Power-Trio, doravante e daí ficamos famosos a posteriori.
Claro que conversamos a respeito da sua saída e certamente sobre o que motivara tal decisão da parte dela. Em princípio, interpretamos de forma errônea o distanciamento progressivo com o qual ela se colocou em relação à nossa banda. Pensamos que talvez fosse timidez por estar naquele instante a tocar em um lugar badalado, com equipamento melhor, pessoas famosas a circular pela casa, e assistir-nos, ou seja, não entendemos corretamente a leitura dos sinais. Só fomos perceber a real motivação desse rompimento à nossa revelia, quando já fora tarde demais, e então ela nos revelou os seus planos referentes à sua carreira pós-A Chave do Sol.

Não acompanhei se ela realmente gravou na época ou logo depois disso, infelizmente. Tomara que sim. Tive a informação, mais ou menos em 1985, de que ela havia casado-se com o ótimo guitarrista, Jean Trad, da banda Performática do Aguilar, este a se mostrar como um artista plástico & compositor. E segundo consta tivera filhos com ele e passou a morar no interior de São Paulo, doravante.

Eu pude ter uma outra informação sobre a Verônica, mais concreta, muitos anos depois. Estava a assistir TV a esmo em 1991, quando a vi no programa do estilista e apresentador, Clodovil, na TV Gazeta. Ela apresentou-se acompanhada de uma orquestra, no belo Teatro de Arame, de Curitiba. A canção que ela interpretou foi um "standard", porém com um arranjo bem conservador, mas mesmo assim, ela cantou muito bem, naturalmente e eu fiquei feliz por vê-la a atuar. 

Quanto à falta que nos fez um empresário, creio que se tivéssemos encontrado com um profissional munido com contatos e influência, acho que poderíamos pensar no caso de provocarmos mudanças no som e no visual individual de cada membro. Mas não seria algo fácil de se digerir, pois éramos bem radicais. 

O Zé Luiz nunca foi um Rocker, propriamente dito. Essa questão de visual era uma questão mais forte para eu, e o Rubens. Mas no quesito musical, ao contrário, o Zé era bem mais radical do que nós. Se aparecesse alguém a pedir-lhe simplificações nos nossos arranjos, ele fatalmente se recusaria a atender os comandos de um produtor com espírito Pop comercial. Mas isso nessa fase. Fatos novos ocorreram em nossa trajetória, tempos adiante, que comentarei no devido momento.

Realmente, a Verônica foi um talento bruto sensacional, mas ninguém poderia subestimar a banda que tinha os seus méritos, também. Mas naquele momento e circunstância, claro que tomamos um baque forte com a saída repentina dela. 

Foram alguns meses difíceis, a obrigar-nos a promover uma readaptação musical, e também para buscarmos um novo embalo, contudo, já na virada do segundo semestre, nós daríamos um salto geométrico, portanto, muito maior, para superar a boa fase em que estivemos inseridos entre outubro de 1982, até abril de 1983.

Se ela tivesse permanecido, poderíamos ter tido outro rumo, é bem verdade. Com um direcionamento mais Pop, talvez a nossas aparições no programa de TV, "A Fábrica do Som", que ocorreriam, em julho daquele ano de 1983, poderiam ter despertado a atenção de gravadoras, e produtores. 

A Verônica passaria como um trator sobre aquelas cantoras em voga do BR-Rock. Com todo o respeito à Paula Toller, Virginie, Dulce Quental, e as duas meninas da Blitz, que seriam ofuscadas por ela, fatalmente, pela voz visceral, e na beleza física, ainda mais, ao contar-se com o fato que haveria uma produção cuidadosa de figurino, cabelo e maquiagem (claro que levo em consideração que Fernanda Abreu ficou bem famosa a posteriori). Mas o destino traçou a sua meta diferente e assim, ela seguiu o seu caminho e nós fomos para uma outra via.

Como eu já expressei anteriormente, se a Verônica tivesse permanecido na banda, teria sido grande a possibilidade em despertarmos a atenção de produtores, empresários e gravadoras. Claro, teríamos que passar por muitas modificações inevitáveis no som e visual, mas teríamos todas as condições para brigar no mainstream, por um espaço.
A Verônica era (é) uma cantora espetacular e visualmente, seria tudo o que esse pessoal do show business desejava como uma artista com potencial para um grande estouro. Loura, muito bonita, esguia, e já a trabalhar como modelo, bastar-lhe-ia um pequeno rearranjo que fatalmente a alçaria à condição de uma artista que chamaria muito a atenção. Aliás, não precisava nenhuma grande transformação, pois ela já arrumava-se bem no cotidiano, postura aprendida nos bastidores da moda, onde já trabalhava há tempos.

E no quesito voz, ela era uma joia bruta. Com o timbre e a emissão semelhantes à da Tina Turner, seria um estouro, e não havia nenhuma cantora naquele emergente Br-Rock 80's que pudesse rivalizar com ela. A Cássia Eller, só surgiria no mercado ao final dos anos 1980, início dos 1990, mas só estourou mesmo, na segunda metade dos anos noventa. 

Quem iria sofrer, seríamos nós três, os instrumentistas da banda, pois seria dureza ter que amenizar nos arranjos, ao deixarmos de lado as nossas convicções, para adotarmos aquele som empobrecido que se produzia nos termos do pós-punk em voga, como estética a ser seguida, e com direito àquelas timbragens de plástico, detestáveis. 

Isso sem contar a questão dos arranjos medíocres, letras tolas etc .E não estou nem a mencionar sobre o visual... o Zé Luiz que não era muito Rocker, não sofreria muito, mas eu e o Rubens... já imaginou nós vestidos como dândis oitentistas, e com aqueles cortes de cabelo, esquisitos?

Ainda a repercutir a perda da Verônica Luhr, como nossa vocalista, mas a pensar bem realisticamente, se tivéssemos tido uma grande oportunidade com esquema de gravadora e empresário, seria mera questão de tempo para que ela fosse assediada a deixar-nos para seguir carreira solo, pelo seu talento nato, creio que seria algo inevitável. 

Ao analisar sob a ótica da experiência adquirida, penso que só entraria em em um esquema daqueles, quem tivesse contatos. A questão de termos sido esteticamente o oposto da moda estética vigente nessa época, fora só uma agravante a mais, para afastar-nos do mundo mainstream.

Quanto à nossa banda, realmente, embora muito debilitada pelo prejuízo que tivemos ao perder uma vocalista do quilate que a Verônica tinha (tem), A Chave do Sol prosperou muito, já nos meses seguintes, conforme eu relatarei aqui, ainda bem.

Naquele instante em que ficamos sem a Verônica, ficamos momentaneamente sem esteio, pois como desgraça pouca é bobagem, também fomos comunicados pela direção do Victória Pub, que o nosso contrato não seria renovado. Com isso, teríamos que: ou arrumar um novo vocalista e do nível dela, em tempo recorde, ou parar tudo para reestruturarmo-nos como trio, e voltarmos assim a tocar no circuito que estávamos a trilhar antes de entrarmos nessa casa tão badalada. 

Além de todo o incômodo por enfrentar essa reestruturação, seria um retrocesso tocar novamente em casas como o decadente Deixa Falar, Devil's, Café Palheta e Água Benta Bar, com todo o respeito e gratidão que tínhamos por todas essas casas citadas terem aberto as suas portas para propiciar os nossos primeiros passos como início de carreira etc.

Foi então que nós tivemos uma outra ideia de imediato para a nossa continuidade, que eu relatarei a seguir. E quanto à Verônica, ela comunicou-nos a sua decisão de uma forma decidida, certamente estava convicta de sua escolha. Tudo bem, foi uma aposta válida de sua parte.
No último show que cumprimos no Victoria, ela alegou falta de voz por conta de um resfriado, e nem apareceu. Tivemos que improvisar músicas que o Rubens sabia cantar, mas não tocávamos a tempos, e assim, foi um show aquém do que podíamos exibir, normalmente. Ficamos chateados, claro, mas ao mesmo tempo, diante do inevitável, vimos o lado positivo, pois precisávamos enfrentar a nossa nova realidade, doravante e foi o que fizemos.

.  

Tivemos que tocar algumas músicas cover que tocávamos logo no começo da banda, em nossa fase pré-Verônica, e o set list foi decidido minutos antes, na base do improviso. Estávamos um tanto quanto despreparados com essas músicas, mas enfrentamos, assim mesmo.

Não foi uma apresentação condizente, como havíamos padronizado realizar há meses, mas não chegou a ser um vexame, também.

Estava encerrada a a nossa atuação como banda fixa do Victória Pub. Lá tocamos nos dias 1º, 2, 3, 9, 10, 17 e 23 de fevereiro de 1983, com público respectivo de setenta, cento e vinte, cento e cinquenta, duzentas, trezentas, cento e setenta, e duzentas e cinquenta pessoas (a assistir-nos, mas não a refletir o número de pessoas dentro da casa, pois eram muitos os ambientes e as pessoas espalhavam-se). 

Em março de 1983, tocamos nos dias 2, 9, 10, 15, 22, e 29, com público respectivo de duzentas, duzentas e cinquenta, duzentas, trezentas, vinte e quinze pessoas a assistir-nos. E o derradeiro show, ocorreu em 6 de abril de 1983, sem a presença da Verônica Luhr, com o melancólico público de apenas dez pessoas na plateia.

No próximo capítulo, eu narrarei sobre os primeiros passos sem a Verônica Luhr em nossa banda, e a ideia que tivemos para dar continuidade aos nossos planos de expansão.
Verônica Luhr, em uma foto bem mais atual, que achei na Internet.

Continua...

Nenhum comentário:

Postar um comentário