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sábado, 9 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 3 - A Era Verônica Luhr, a Diva dos Olhos Azuis - Por Luiz Domingues


Ainda em outubro de 1982, o Rubens lançou essa ideia de uma vocalista. Ele disse ter lembrado-se de uma garota que conhecera em 1978 ou 1979, não tenho certeza, que havia cantado de maneira informal numa festa onde ele estava. Contou-nos que havia ficado impressionado pelo seu dote vocal, e beleza física. Eles chegaram a engatar um namorico (hoje em dia a terminologia seria : "ficaram"), e poderia ser uma alternativa. 



Confiando nessa indicação, e sem outra alternativa concreta à disposição, sinalizamos, eu e Zé Luiz, que ele poderia fazer o contato, e se ela interessasse-se, poderíamos enfim, marcar um teste. Ele fez isso. Antes do encontro acontecer, preveniu-nos que era uma aposta, baseado numa percepção não profissional, pois a vira cantando de forma fortuita, com uma banda amadora, numa festinha particular, sem um equipamento de qualidade. Entendemos as ressalvas, mas não custava-nos conhecê-la, e testar seu atributo vocal, pois no máximo, a rejeitaríamos e teríamos perdido alguns minutos de tempo nessa operação. 



Marcada a audição, ela previamente foi orientada a "tirar" em casa algumas músicas para que cantasse conosco. E assim, tirou algumas da Rita Lee ("Mamãe Natureza", "Agora só falta você'...); Rolling Stones ( "Jumpin' Jack Flash"; "Honky Tonk Women"; "Brown Sugar"); "Cocaine", do JJ Cale, versão Eric Clapton, e mais alguma coisa que não lembro-me mais... ah... "Now I'm Here", do Queen.
Ela veio, meio tímida, mas chamava a atenção pela beleza. Loira, olhos azuis, muito bonita, e mais de 1,80 m.

Ganhava a vida como modelo em desfiles do estilista Ney Galvão, rival do Clodovil à época, ocupando o posto do finado Denner.
Isso era um ponto importante, claro, mas a surpresa veio quando começamos a tocar... ela tinha uma voz incrível !!! 


Sua emissão era tão forte que lembrava Tina Turner, Etta James...






A inacreditável Tina Turner em foto dos anos setenta, quando fazia dupla com seu marido / carrasco, Ike Turner 

Ficamos muito entusiasmados, e a convidamos, sem pestanejar. Ela aceitou e marcamos ensaios.


Ela chamava-se Verônica Luhr. Era uma moça simples, sem nenhuma sofisticação, e não era afetada. De certa forma, seguia a cartilha da maioria das meninas que ingressam nessa carreira de modelo, ou seja, vem de famílias simples dos estados do Sul, principalmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e são descendentes de italianos, alemães ou de pessoas oriundas de países do leste europeu.


Geralmente são muito simples, e seus pais são pequenos comerciantes locais ou agrônomos. Verônica tinha essas características. Não lembro-me se sua origem era alemã ou austríaca. A beleza ficou em segundo plano (mas claro que seria um trunfo a mais para a banda), pois a voz dela era verdadeiramente incrível.


 Verônica Luhr, em foto bem mais atual, que achei na Internet



Tanto é verdade, que a convidamos imediatamente, e certos de que havíamos encontrado uma joia rara, ainda que bruta, carecendo de lapidação. A Verônica assumiria uma importância tão grande na banda, que por conta de sua entrada, portas importantes abrir-se-iam logo a seguir, conforme esclarecerei a seguir.



Com Verônica Luhr efetivada, passamos a acelerar o processo de prepará-la para atuar ao vivo. Já tínhamos mais músicas próprias a caminho, mas ainda precisávamos de "covers" para completar o set list.



E com a entrada dela, e diante de seu potencial, tratamos logo de colocar no repertório, músicas como "Proud Mary"e "Acid Queen", para ela soltar a Tina Turner que tinha na garganta. O primeiro show foi num festival colegial.



Não concorremos, mas fizemos o show oficial do Festival do Colégio Manoel de Paiva, localizado no bairro do Campo Belo, zona sul de São Paulo. Mesmo de caráter amadorístico, havia um P.A. alugado, de qualidade razoável, que a direção da escola, em parceria com o centro acadêmico dos estudantes, havia bancado.
Havia cerca de 250 pessoas presentes, nesse dia 20 de novembro de 1982. A irmã do Rubens, Rosana Gióia, apresentou-se também, fazendo backing vocals. 



Essa apresentação foi um estouro, pois além de contrastar com o nível sofrível das bandas de alunos, a apresentar-se concorrendo, e 99.9% fazendo Heavy-Metal na onda do "NWOBHM" (The New Wave of British Heavy-Metal, uma típica manifestação oitentista), a Verônica chamou muito a atenção. Sua voz era impressionante e claro, sua beleza física provocava frisson. Seu inglês era macarrônico e constrangedor, mas isso não incomodava-nos, pois os covers eram meramente ocasionais, e tinham seus dias contados. 



Esse foi o primeiro show da Chave do Sol, onde não tocávamos para uma plateia só de amigos e parentes (excetuando-se a apresentação com Percy Weiss no Bar Pierrot Lunar, é claro), e a repercussão provocou aplausos; uivos; assobios, e assédio no camarim. Um começo muito animador para essa nova formação, e na semana seguinte, já tínhamos marcado mais dois shows, novamente no Café Teatro Deixa Falar, e desta feita como quarteto.


Esses shows foram muito fracos de público (dias 26 e 27 de novembro de 1982, e com 10 e 15 pagantes, respectivamente ).


Mas a Dona Sabine, havia acabado de adquirir uma outra casa noturna, localizada na Rua 13 de maio, no bairro do Bexiga, zona sul de São Paulo, onde a noite era fortíssima naquela época, e convidou-nos a fazer uma temporada lá, para atrair público.
E nessa série de shows, coisas muito engraçadas aconteceram.



Filipeta tosca, anunciando a temporada da Chave do Sol no Devil's Bar em dezembro de 1982. É horrenda pelo seu Lay-Out, mas também poder-se-ia argumentar ser proposital, seguindo o "desconstrutivismo pós moderno niilista" da cartilha da "intelligentzia" do Pós Punk oitentista... ha ha ha !!
  
Pois é, foi o que aconteceu. Animados com a voz dela, mais a repercussão do show no festival estudantil do colégio Manuel de Paiva, não abatemo-nos com os dois shows fracos de público no Café Teatro Deixa Falar, e aceitamos de pronto o desafio de fazermos temporada fixa no "Devil's Bar", nova casa da Dona Sabine. Para quem viveu a época, sabe que o primeiro e o segundo quarteirões da Rua 13 de maio, no Bexiga, eram forrados por bares com música ao vivo.

Isso atraía uma multidão de pessoas que lotavam as casas e geralmente ficavam centenas de pessoas andando pela rua. Era uma multidão tão grande, que em dados momentos, tornava-se impossível trafegar de carro por ali, com a multidão ocupando todos os espaços. E era engraçado ouvir o som de bandas confundindo-se no vazamento que ia às ruas. Rock; Blues; MPB, Jazz... acontecia de tudo, literalmente. O Devil's, no entanto, era praticamente um buraco. Dona Sabine deve ter comprado ou arrendado a "preço de banana", pois sua estrutura estava péssima. Cozinha imunda; banheiros péssimos; instalações elétricas precárias; mobília velha e quebrada em muitas peças...
Mesmo assim, aceitamos tocar e pela segunda vez, fizemos cartazetes e flyers para um show da Chave do Sol. Lembro-me que esse material tinha nosso nome, o serviço e uma vaga observação de que tocávamos "Rock". E como ilustração, uma foto do B.B. King. O primeiro show foi realizado no dia 2 de dezembro de 1982, e teve 15 pagantes. 

No segundo dia, 3 de dezembro de 1982, conseguimos melhorar, levando 25 pagantes e daí, começou um boca-a-boca na rua, de que havia uma banda muito louca no Devil's, com um guitarrista que tocava Jimi Hendrix imitando a performance em tocar com a guitarra nas costas e com os dentes, como ele (Hendrix) fazia; um baixista alucinado que tocava com um chapéu pontiagudo ao estilo de bruxo (verdade, usei de brincadeira no primeiro show e o negócio "pegou"), e uma vocalista doida que cantava muito, mas quando bêbada, azucrinava no palco...
Desse forma, foi aumentando o público nos shows posteriores e ficando frenético, cada vez mais.



Na segunda foto, estou usando o propalado chapéu de bruxo, e essa foto é oriunda de uma filmagem (still), cujo teor e história revelarei no momento oportuno da narrativa

Tenho esse flyer guardado orgulhosamente no meu portfólio. Lembro-me que o fizemos de forma artesanal, e o copiamos mediante xerox. Ele ficou tosco, grotesco mesmo. E nossos amigos  ajudaram-nos a distribuí-los na multidão que aglomerava-se na Rua 13 de Maio, principalmente nas noites / madrugadas de sexta e sábado. Vendo-o hoje em dia, parece algo deliberadamente feito daquela forma, dando-lhe aura "cool", mas na verdade, era um horror feito nas coxas, e de forma muito apressada para suprir a necessidade premente que tínhamos.

O Rainbow bem no início de carreira, 1975, e com Ritchie Blackmore usando seu famoso chapéu, seu hábito desde os tempos do Deep Purple. Uma inspiração, naturalmente 

O chapéu foi algo totalmente improvisado. Eu achei-o no quarto de despejo da casa do Rubens, enquanto o arrumávamos para tornar-se a nossa sala de ensaios. Devia ser uma peça usada em alguma festa a fantasia que nem o Rubens lembrava-se em ter participado. Pedi para usá-lo de brincadeira e ficou legal, lembrava-me o Ritchie Blackmore naquele promo do "Deep Purple", da música "Highway Star" em 1971 ou 1972, não sei ao certo (a foto acima é do "Rainbow", eu sei, leitor.).
Nas duas primeiras noites, tivemos poucas pessoas, mais os amigos do que público espontâneo. Mas a partir da segunda semana, começou a entrar muita gente, conforme relatarei na próxima narrativa e aí, com todos esses fatores somados que relatei anteriormente, colaboraram para fazer dessa mini-temporada, um sucesso. E sim, o Rubens a rigor, fazia seus malabarismos com a guitarra, desde o primeiro show, mas quando começou a entrar mais gente, começaram as reações mais entusiasmadas nessas apresentações (é verdade que no show do Colégio Manuel de Paiva, também houve frisson quando ele tocou com os dentes).

Nessa mini temporada no Devil's, estreamos numa quinta, dia 2 de dezembro de 1982. Como já disse anteriormente, nos dois primeiros dias, o público foi pequeno. Mas à medida que o boato correu na Rua 13 de maio, o público foi aumentando. Já no dia 4 de dezembro de 1982, tivemos 100 pagantes. Nessa altura, o entusiasmo com a banda e as loucuras da Verônica, chamavam a atenção. No dia seguinte, público de 30 pagantes, mas o domingo era tradicionalmente vazio na rua e assim, consideramos também um bom público. E o que ocorria ?
A Verônica não tinha muita segurança em subir ao palco e para criar aquela coragem extra, bebia. E quando bebia, sua voz não era prejudicada na execução das músicas, mas sua coordenação motora e sobretudo suas intervenções entre as músicas conversando com o público, eram hilárias. Em meio ao seu imprevisível arsenal de loucuras improvisadas, lembro-me de tê-la visto imitando uma ave. Imagine a reação do público vendo algo assim...

Noutra ocasião, empolgou-se e disse que queria "estar" com todos os homens presentes. Nesse momento, vários saíram correndo de suas mesas para aproximar-se do palco e um chegou a tentar escalar para alcançar o palco no afã de tocar-lhe a perna. Ainda bem que o palco era bem alto, com mais de dois metros de altura e um amigo nosso, chamado Wagner "Sabbath", estava por perto e conteve a euforia do tarado. Mas lembro-me do Rubens puxando a próxima música mais rápido, para tentar acalmar os ânimos. Isso chamava a atenção para a banda, mas era algo que não desejávamos, pois o objetivo não era aproveitar-se disso para alavancar a banda. Outro aspecto do "Devil's", era a sua precariedade e falta de higiene, conforme já disse anteriormente. Lembro-me de uma outra vez, ocorrer uma gritaria que começou entre o público. Pensamos ser uma briga, mas era uma garota que estava apavorada, e que subiu na mesa para fugir de um rato, enquanto seu namorado tentava caçá-lo entre as mesas. O tumulto generalizou-se, pois outras mulheres seguiram o gesto, e rapazes corriam atrás do roedor.


No quesito rítmico, ela perdia-se um pouco, tanto pulsação quanto andamento, mas na afinação ela era boa. Ela não tinha noção de tonalidade, mas assim que dávamos-lhe o acorde certo, ela cantava direitinho. Isso é fato, pois apesar de não ter nenhuma noção teórica, pelo fato de ter um vozeirão natural, era condição intrínseca ter um bom ouvido. Agora, tinha esse probleminha quando bebia. Ela era um doce de pessoa quando estava sóbria, mas para subir ao palco, sentia um nervosismo incontrolável que a impelia a beber. E quando embriagava-se, perdia o controle de seus atos, e fazia coisas absurdas. Nessa temporada no bar "Devil's", lembro de coisas desse naipe que contei anteriormente.

Não sei especificar em qual dia, mas ela tomou um tombo certa vez, após um movimento brusco, e ficou com as pernas para cima. Seu vestido naturalmente seguiu a lei da gravidade, e o público delirou.
Eram comuns os gracejos masculinos, mas não podíamos evitar essas reações. O Rubens que era o mais "esquentado" entre nós, esboçava reagir, mas para não estragar as apresentações, continha-se em seu ímpeto protetor. Mas vou contar-lhe, amigo leitor : a despeito dessas trapalhadas que ela aprontava por estar embriagada, cantava como uma Diva do Soul, Blues e Rock'n Roll.
Se ela tivesse permanecido na banda e nós termos tido a chance de topar com um produtor de porte em 1983, quando o BR-Rock explodiu definitivamente, teríamos certamente chegado ao mainstream, claro, desde que adequando-nos ao padrão pop de FM's. A Verônica esmagaria impiedosamente cantoras dessa cena que estouraram, como Paula Toller; Virginie, e Dulce Quental entre outras, e só encontraria uma rival à altura na Cássia Eller.
Por outro lado, estávamos em 1982, e a Cássia só estourou no meio / fim dos anos noventa, portanto, era de outra geração.

Isso poderia ter acontecido, pois sua voz era idêntica à da Tina Turner, Maggie Bell, Etta James...
Com um pouco de produção, ela seria um estouro...


A segunda semana de nossa mini temporada no anti higiênico Devil's Bar foi entre os dias 9 e 12 de dezembro de 1982. Levamos público proporcional aos dias da semana mais compatíveis com movimento. 20, 70, 100 e 40 pagantes respectivamente para quinta a domingo. Nessa segunda semana, o Júnior da Patrulha do Espaço, foi assistir um desses (sexta ou sábado, não lembro-me), e ao término, subiu ao palco para cumprimentar-nos, mas estava mesmo interessado em conversar com a Verônica. Estávamos usando nessa mini-temporada, alguns equipamentos emprestados da Patrulha novamente, tal como no primeiro show em setembro. Apesar do lugar ser um "buraco", nós aproveitamos bem esses 9 shows, angariando simpatia de um público além do horizonte de nossos amigos e parentes, e mesmo não sendo uma maravilha, ganhamos um cachet somado das nove noites, suficiente para comprarmos componentes, e fazermos caixas para um pequeno P.A. que acompanhar-nos-ia por muito tempo em apresentações pequenas, e alimentaria o som de nossos ensaios, por anos. Graças a um convite ocorrido devido à essas apresentações no Devil's, marcamos um show num bar chamado "Água Benta", que ficava na Alameda Santos, bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo.

No primeiro dia, 19 de dezembro de 1982, encontramos com o pessoal do Ultraje a Rigor. Eles não tocavam música autoral nessa época, mas sim repertório de covers na noite. Era a segunda vez que encontrávamo-nos, pois isso já havia ocorrido uma vez no Café Teatro Deixa Falar. Tocamos para 50 pagantes, o que motivou o dono do bar a marcar mais uma data, desta feita para o dia 23 de dezembro de 1982. Numa antevéspera de Natal, até que foi bom ter 30 pessoas presentes, e o dono também pensou assim, marcando nova data para o dia 30. Mas a maré era boa e antes disso, apareceu uma data no dia 25 de dezembro de 1982. Sim, no dia do Natal, tocamos no Café Palheta's, um minúsculo bar na Rua Haddock Lobo, bairro da Consolação, região da Av. Paulista. Rosana Gióia fez backing vocals, nessa apresentação.

Nós estávamos explodindo em entusiasmo, e isso refletia-se nas nossas performances. A Verônica chamava muito a atenção, claro, mas a banda estava alucinando, também. Eu e o Zé Luiz estávamos  entrosando-nos cada vez mais, e criávamos convenções de baixo e bateria o tempo todo. Rubens no meio de seus ótimos solos, ainda fazia suas acrobacias "Hendrixianas", que provocavam suspiros, gritos e assovios.

O show do dia 25 de dezembro de 1982, levou 35 pessoas ao Café Palheta's. O próprio dono ficou surpreendido, pois esperava um retumbante fracasso.

Claro, pelo menos uns 12 presentes, eram nossos amigos, mas mesmo assim, em se considerando ser dia de Natal...
E por incrível que pareça, ainda houve shows em 1982, que acabava muito bem para A Chave do Sol. Essas oportunidades que estavam ocorrendo, eram em sua maioria decorrentes da ascensão que estávamos tendo naquele momento. Quando se está em uma maré alta, várias chances vão aparecendo, pois uma porta precipita a abertura de outras tantas portas. Esse momento pós-entrada da Verônica foi fantástico para a banda, pois surgiram vários convites para tocarmos e um, muito especial, estava por acontecer, logo no início de 1983. Esse seria o maior desde que começamos em setembro de 1982.
Mas só vou comentar no momento correto da cronologia dos fatos.




E assim, ainda fizemos dois shows nesse final de ano, por incrível que pareça, pela época do ano. Tocamos no dia 30 de dezembro de 1982, novamente no Café Palheta's, com surpreendentes 30 pagantes, numa época onde ninguém quer saber de nada, normalmente. E no dia seguinte, 31 de dezembro de 1982, fizemos um show de Reveillon na própria casa do Rubens. Eu considero show, porque tocamos nosso set list normal de apresentações oficiais, e também pelo fato de haver muitos amigos da banda, fora parentes do Rubens.

Virou o ano, e 1983 parecia ser um ano auspicioso para A Chave do Sol. Estávamos num embalo muito forte de apresentações, e o entrosamento parecia estar atingindo um nível muito grande.
Ainda por cima, tínhamos mais músicas próprias saindo do forno.
Parece inacreditável, mas lá estávamos nós no Café Palheta's, para mais um show, desta feita numa outra data improvável, isto é, no dia 1° de janeiro de 1983. Nada melhor do que iniciar o ano de 1983 com um show logo no primeiro dia !! Tudo bem, ninguém é de ferro, pois só 20 pagantes apareceram, mas apreciamos muito tocar nesse dia.

Intercalando os ensaios com os shows, o Zé Luiz pessoalmente fez caixas para o nosso P.A. De fato, ele sempre teve muita habilidade para trabalhos manuais, herança de seu pai que era dentista por profissão, mas marceneiro por hobby. Com o dinheiro que levantamos dos shows de dezembro, conseguimos comprar falantes, twiters, além de outros materiais, e dessa forma, na base do serrote, martelo e alicate, ele criou nosso P.A., com minha pequena colaboração como ajudante. 
No dia 6 de janeiro de 1983, novo show no Água Benta, com 35 pessoas presentes, e no dia 7 de janeiro de 1983, uma nova investida no Café Palheta's com 25 pessoas na plateia. Nos ensaios, nesse ínterim, mais músicas novas surgiam, e muita empolgação pelo futuro da banda, unia-nos. Outro show no Água Benta com 30 pessoas nas mesas, no dia 13 de janeiro de 1983, e no dia 14 de janeiro de 1983, uma apresentação numa casa nova, chamada "Sampa", um exótico bar decorado com motivos tropicais. 50 pessoas assistiram esse show. Fizemos o show do dia 20 de janeiro de 1983, no Água Benta, para 40 pessoas, e estávamos eufóricos, porque A Chave do Sol não parava de agendar shows !!


Nesses shows que mencionei, ocorridos nas improváveis datas de Natal e Reveillon de 1982 / 1983, respectivamente, não tínhamos a dimensão de que uma simples fita K7, trazer-nos-ia a rara oportunidade de preservar o único registro de áudio dessa fase da banda, com a vocalista Verônica Luhr. De última hora, o Rubens teve a ideia de gravar, e a fita que utilizamos era usada, e ele a apanhara repentinamente no console de seu carro. Esse gesto aparentemente despojado, tornou-se um tesouro arqueológico da banda, apesar de sua precariedade sonora. Do lado "A", registramos trechos do show do dia 31 de dezembro de 1982, realizado na sala de estar da residência da família Gióia. No lado "B", trechos do show realizado no Café Palheta's, em 1º de janeiro de 1983.
Tal fita ficou engavetada desde então, e só no ano de 2012, eu tive a oportunidade de digitalizá-la, não sem antes, fazer essa tentativa em estúdios profissionais e especializados nesse tipo de conversão, e recebendo a negativa por parte deles, visto que o estado de degradação da mesma, era bem alto. Mesmo assim, insisti, pois sabia tratar-se de um tesouro para os fãs do trabalho, e uma homenagem à Verônica Luhr, que era (é), muitíssimo talentosa.
Consegui meu intento, enfim, mas mesmo vencendo essa batalha contra o relógio da deterioração natural de uma velha fita K7, havia outros empecilhos. A gravação em si, foi feita de forma precária, com um tape deck caseiro, espetado na nossa mesa de P.A.Giannini. A microfonação era a melhor possível para os nossos parcos recursos na época, mas obviamente inadequada para capturar o som da banda decentemente e pior, sem nenhuma possibilidade de mixagem posterior, é claro. Outro fator agravante, era que no afã de aproveitar o ínfimo espaço de 30 minutos, algum amigo nosso que operou o tape deck (nesse caso, sinceramente não  lembro-me exatamente qual deles o fez), foi "picotando" as músicas. Sua intenção naquele momento foi ótima, porque quis aproveitar ao máximo o espaço, mas lamento não haver músicas inteiras preservadas. Enviei esse material para o Site / Blog Orra Meu, que gentilmente promoveu uma edição, muito simples, com colagem de fotos e peças do portfólio da banda à época, e dessa forma, assim foi lançado no You Tube, ainda em 2012. São trechos de covers internacionais de Rock, e uma curiosa interpretação de uma canção do Caetano Veloso ("Muito Romântico"), além de Mutantes ("O Contrário de Nada é Nada"). Uma pena não haver nenhuma performance com material próprio da banda tendo a voz da Verônica Luhr, mas comemoro o fato de haver pelo menos esse registro preservado.

                    Verônica Luhr em foto bem mais atual

Sinto-me muito aliviado por ter conseguido salvar ao menos esses parcos momentos, com ela nos vocais da Chave do Sol. A banda teria um crescimento gigantesco doravante, após a saída dela, e proporcionou-me inúmeras alegrias e lembranças que guardo com carinho na memória. Mas confesso, e já disse isso ao Rubens, recentemente (2012), que apesar das fases posteriores terem seus ótimos momentos, esse período de 1982, até o início de 1983, é o meu predileto da banda, por um motivo muito simples : era o sonho  concretizando-se pelos nossos próprios esforços, forjando com raça, um caminho em meio à selva que é o meio artístico. Das apresentações humildes na clandestinidade do underground, subindo degrau a degrau, com a vontade como única aliada, e tendo sangue, suor e lágrimas como marcas da labuta. Com vocês, A Chave do Sol 1982 / 1983, apresentando a voz da Diva Soul do "Jabaquara" (bairro da zona sul de São Paulo, onde ela residia naquela época), Verônica Luhr !!

Eis o Link para assistir no You Tube :
http://www.youtube.com/watch?v=BJnuSuN_MAE



Em relação à agenda cheia que estávamos conquistando naquele instante, foi a conjunção do fator sorte com nosso entusiasmo em querer expandir os horizontes da banda, sem contar que havia o aspecto da ascensão da banda, graças às nossas performances alucinantes, que lembravam a fúria do "The Who", de certa forma.
No caso do mini P.A., a minha ideia e do Rubens, era comprar um sistema de fábrica. Mas a verba era curta e o Zé Luiz lançou a ideia de comprar os componentes eletrônicos e alto-falantes, além da madeira. Foi sua iniciativa e mérito. E de fato, o dinheiro que dispúnhamos, foi suficiente, e graças ao talento de marceneiro, e técnico de eletrônica, dele, fizemos um equipamento que alimentou nossos ensaios por três anos, além de shows em casas de pequeno porte.

O Dinola é muito talentoso em muitas coisas além da música. Mais ou menos na mesma época, fez cases (estojos), para a sua bateria, utilizando madeira, que chamavam a atenção de outros músicos.
Muitos anos depois, já no Sidharta (banda que eu e ele participaríamos entre 1997 e 1999, e que tem capítulos exclusivos, é claro), ele fez um jipe sozinho, que era o seu carro de uso pessoal !! Comprou todas as peças e fez o carro com fibra de vidro.
Inacreditável !!!


Eufóricos com esse momento bom que vivíamos, no dia seguinte ao nosso show do Bar Água Benta, em 20 de janeiro de 1983, tínhamos um compromisso rocker para os dias 21 e 22 de janeiro : desembarcava em São Paulo, o "Van Halen", banda Hard daquele momento, e que navegava contra a maré do Pós-punk / New Wave que reinava naquele início de década. Na verdade, foram três shows, mas eu menciono dois, pois foram os que eu vi. Só o Rubens (entre nós), foi que compareceu nos três dias.

Quando entramos no Ginásio do Ibirapuera, vimos um imenso pano preto como cenário e uma imponente bateria Ludwig de cor marrom, postada no centro do palco. Havia um amplificador Duovox em cada canto do palco, e ficamos estupefatos. Será que o Van Halen usaria um palco tão simples e com amplificadores brasileiros da década de setenta ?? Foi quando aproximamo-nos mais do palco que o Rubens matou a charada : era a bateria do Rolando Castello Júnior, da Patrulha do Espaço. Como assim ? Não estava prevista nenhuma banda de abertura !!

Quando as luzes apagaram-se, vimos a entrada dos três músicos aprontando-se, e aos primeiros arpejos de guitarra de "Columbia", com o Dudu Chermont tocando sua Fender Stratocaster, confirmamos ser mesmo a Patrulha. Garanto que muita gente, para não dizer a maioria, demorou para notar ser a Patrulha do Espaço no palco, e não o Van Halen...

Foi um show muito digno de abertura. Tocaram o set list de seu show da época, baseado no disco "branco", e o Júnior fez até um belo solo de bateria, muito aplaudido. Quando a Patrulha encerrou, um exército de roadies tomou conta do palco, tirando o equipamento da Patrulha em segundos, como se fosse um ataque de piranhas no rio. A eficiência de uma equipe de roadies americana, era impressionante. Ficamos observando a movimentação atentamente.

Então, o pano preto foi içado e ficamos boquiabertos com o palco do Van Halen, imenso, ricamente ornado por uma montanha de amplificadores...



Os dias que seguiram-se ao show, foram de finalização das caixas do nosso mini P.A. Lembro-me de dias quentes de verão; muita Coca-Cola gelada; eu e Zé Luiz pintando as caixas de preto na nossa sala de ensaios; e uma vitrolinha Philips tocando os quatro lados do LP "Tales from Topographic Oceans" do Yes, à exaustão..."Nous sommes du soleil...du soleil"...

Teríamos muitos altos e baixos em 1983. Estávamos vindo de um embalo muito bom do final de 1982, e alcançaríamos um pico ainda maior, logo no início de 1983, conforme estou relatando. Logo mais na narrativa, vou falar sobre o auge dessa fase, e a queda brusca, ainda no primeiro semestre de 1983. En passant, aproveito para dizer (reiterando, pois já falei isso anteriormente), que esse período do início da Chave de setembro de 1982, até o meio de março de 1983, foi um dos que mais gostei na história da banda. A euforia que sentia pelos avanços, é uma lembrança muito boa.

Visto com o distanciamento histórico e pela ótica de um homem de 56 anos de idade de hoje em dia (referindo-me a 2016), poderia parecer exagero, pois tocávamos em barzinhos, e o máximo que conseguimos de extraordinário foi uma nota num jornal de grande circulação, e uma aparição fortuita num programa de TV, mas proporcionalmente, aquilo era uma conquista tão grande, que produzia-me uma euforia enorme, e essa energia mágica de ordem motivacional, imprimiu um estrato de memória dos mais doces. Tempos depois, A Chave do Sol teria vitórias estrondosamente maiores, mas eu tenho muito carinho por esses momentos iniciais da trajetória da banda.


E após assistirmos os shows do Van Halen, voltamos à nossa dura realidade... show no Água Benta Bar, dia 27 de janeiro de 1983.
Mas a despeito das condições nada glamorosas do nosso show em relação ao que vimos no Van Halen (sem contar com as 50 pessoas presentes, em detrimento das 12 mil do ginásio do Ibirapuera), tivemos uma grande notícia. Um dos diretores de uma badalada casa noturna, foi ver-nos tocar, e daí surgiu o convite para fecharmos um pacote de shows com cachet fixo, e com o direito a dividirmos o palco com o "Tutti-Frutti"; "Fickle Pickle", e eventuais shows das bandas do BR-Rock Mainstream, que estavam acontecendo toda a semana naquela casa. Ficamos eufóricos, pois era um tremendo salto de qualidade, e uma oportunidade de ouro que não poderíamos desperdiçar.


Uma foto retratando o ambiente do palco principal do Victoria Pub, no final dos anos setenta ou início dos oitenta, provavelmente

Essa casa era o Victoria Pub, localizado na Alameda Lorena, próxima aos Jardins, bairro nobre da zona sul de São Paulo. Tinha uma decoração incrível, fielmente copiada de pubs de Londres, e era também um labirinto intrincado por passagens; saletas; câmaras reservadas, dois palcos e dois bares. O público habitue, era formado em sua esmagadora maioria por playboys; milionários & esnobes em geral. Apesar de não ser o público dos nossos sonhos, tocar no Victoria Pub não era para qualquer banda, e ficamos eufóricos com a oportunidade. Logo no dia seguinte ao convite, fomos ao Victoria para assinarmos contrato. O cachet era excelente em se considerando o fato de que estávamos acostumados a ganhar cachets modestos, oriundos do resultado incerto de bilheterias.

Outra foto que achei na Internet, mostrando um dos muitos ambientes que o labiríntico Victoria Pub ostentava 

E nessa reunião do contrato, o gerente da casa deu-nos o regulamento da casa; horário de entrada para a passagem de som; horário de show, e advertiu-nos sobre o cuidado em não falar "palavrões" ao microfone, além de pedir para trajarmo-nos "o menos riponga possível"... ha ha ha... ainda bem que não pediu para cortarmos os cabelos...
O repertório tinha que conter alguns covers conhecidos, e não só música autoral, mas também falou-nos sobre excessos no volume.
Independente dessas restrições, estávamos muito felizes pelo salto que estávamos dando.



O contrato foi de dois meses, com média de dois shows por semana, mas no todo, fizemos 14 shows ao invés de 16, como estava previsto anteriormente. A animação era total, e sentíamos que portas ainda maiores abrir-se-iam por estarmos vindo num ritmo de ascensão desde que a Verônica entrou para a banda, como vocalista.

E só de ver que tocaríamos toda noite revezando com o "Tutti-Frutti", ou com o "Fickle Pickle", já era um tremendo sinal. Fora os shows grandes programados. Não ocorriam nos dias em que tocávamos, mas sabíamos que haveria shows do "Kid Abelha"; "Herva Doce"; "Blitz"; "Lobão e os Ronaldos"; "Lulu Santos"; "Barão Vermelho", e "Paralamas do Sucesso". Eram os grandes nomes do BR-Rock 80's, estourando na mídia, portanto denotando que estávamos nesse bojo. E pensar que dois meses antes, estávamos tocando no Devil's Bar sob condições precárias, em meio a ratos...

Não só por essa conquista, mas pelo crescente em que vínhamos, desde a entrada da Verônica. Foi uma sucessão de boas novas que foram alçando-nos a condições melhores, num curto espaço de tempo. Obviamente que a banda estava muito bem, super motivada com tudo isso e especialmente em relação à entrada no Victoria Pub. Sabíamos que a badalação ali não ficava só por conta dos playboys endinheirados que frequentavam-na. Em realidade, fora as atrações musicais, havia muitos Vip's que frequentavam-na.
Músicos famosos; modelos; atores consagrados da TV; gente de Teatro e Cinema etc.

Quando começar a relatar sobre os shows em si, revelarei algumas histórias paralelas nesse sentido. Só havia uma controvérsia nesse contrato : tinha regime de exclusividade e nesses termos, estávamos proibidos de agendar shows em São Paulo, em outros lugares, no mesmo período. Não dimensionamos esse detalhe à época, inebriados pela sensação de ascensão, mas algum tempo depois, isso geraria o primeiro momento de queda da banda.



Nossa primeira apresentação no Victoria Pub ocorreu no dia 1°de fevereiro de 1983. Nesse primeiro show, fomos obrigados a tocar no palco menor, pois era uma espécie de primeira observação da reação do público para os dirigentes da casa. Dessa forma, tocamos logo após um pianista / cantor e entertainer argentino, chamado Luchin, que aliás era muito bom, e tocava diversos standards de Jazz, músicas de trilhas de cinema etc.

Mais uma foto de um ambiente do Victoria Pub, nos anos oitenta
 
Mas o palco pequeno era pouco requisitado pelo público habitue da casa. Era mais adequado para um pianista como o Luchin, e as pessoas conversarem enquanto bebiam, com a música ambiente quase como um "muzak". Evidentemente que A Chave do Sol não tinha nada a ver naquele espaço, considerando a volúpia sonora que nossa banda tinha. E já no segundo dia, 2 de fevereiro de 1983, fomos alojados enfim no palco principal. Com um P.A peso pesado para o lugar, e iluminação, tinha aspecto de cabaré, com o público assistindo ao nível do artista ou em pequenos camarotes num mezanino. Lembrava bastante aquele teatro onde no filme "Tommy", o Elton John acompanhado do The Who, canta "Pinball Wizard", só que numa proporção bem menor.

         Still do filme "Tommy", com a cena que descrevi acima

Ali sim, o clima esquentava, com a pressão de som, luz muito legal e público maciço. E era nesse palco que de terça a quinta, o Tutti-Frutti revezava-se com o Fickle Pickle, e A Chave foi alojada como abertura de ambos. As sextas, sábados e domingos, aconteciam shows de artistas mainstream, conforme já mencionei anteriormente. Voltando ao dia anterior, foi quando eu conheci meus amigos Nelson Brito e Paulo Zinner. Eles tocavam no "Fickle Pickle", uma banda que existia desde 1978, e que fora fundada pelos dois e Chris Skepis, que conheciam-se desde o final dos anos 1960, pois estudaram juntos no mesmo colégio, e moravam no mesmo bairro. Mas Skepis acabou saindo e cedendo sua vaga ao guitarrista de blues, André Christovam. Quando conheci-os, o guitarrista no entanto, não era mais André Christovam, mas sim, Raul "Zica" Müller (com quem alguns anos depois, eu toquei numa banda que não prosperou, e só fez um show - essa história está contada no capítulo "Trabalhos Avulsos" sobre a "Pinha's Band"-), e o vocalista, era o Catalau, que eu conhecera em 1980 (saiba como conheci-o, lendo os capítulos do Terra no Asfalto)...

          O Fickle Pickle, com a presença de André Christovam


Nessa época em que conheci o Fickle Pickle, eles haviam abandonado a questão autoral quase completamente. Tocavam noventa e nove por cento de covers, e a base era "The Rolling Stones"; "The Beatles", e "The Who". Anos depois, a banda voltou paralela ao "Golpe de Estado", e chegou a lançar disco autoral, com o André Christovam voltando à guitarra.

Catalau em foto mais do final dos anos oitenta, tendo atingido fama com o Golpe de Estado
 
O Catalau era o vocalista, mas eu já o conhecia desde 1980, pois ele era amigo do pessoal do Terra no Asfalto, banda cover em que toquei naquela época. Sim, essa formação do Fickle Pickle, era sem dúvida o "pré-Golpe de Estado". Representavam 3/4 do Golpe, que só nasceria, contudo, ao final de 1985. Nessa época eles nem conheciam o Hélcio Aguirra. Eu conheci o Hélcio antes deles, em 1984, só para ter-se uma ideia.

Mais uma foto de um ambiente do Victoria Pub, nos anos oitenta
 
Tocar no palco principal do Victoria, era sensacional, pois a estrutura era muito boa, e o ambiente lembrava o de um cabaré europeu dos anos 1920. E havia a questão do status, pois ali era que chamava-se a atenção, visto que no palco secundário, o ambiente era mais "lounge", para tocar comedidamente, e passar despercebido. Falando fora da cronologia. mas sobre o Golpe de Estado, verdade... quase todos os álbuns do Golpe tem agradecimento à minha pessoa.

De fato, eu já ajudei o Golpe em muitas ocasiões, mas eles (mesmo antes de existir como banda, propriamente dita), é que começaram a ajudar-me nessa época do Victória. O fato é que eu estava sem amplificador nessa época, e usei o amplificador do Nelson nessas apresentações no Victoria (um "Acoustic 360", dos anos 1960 / 1970). O Nelson mal havia conhecido-me, e disponibilizou seu equipamento, numa gentileza que selou nossa amizade, de forma instantânea. Fora o prazer de tocar num amplificador que era o meu sonho de consumo...

Nunca esqueci-me dessa ajuda, e dali em diante, ajudei-o sempre que pude, numa retribuição eterna.


 
Na primeira foto, John Paul Jones em propaganda dos amplificadores "Acoustic", um dos melhores, senão o melhor amplificador de baixo dos anos sessenta e setenta e usado por 9 a cada 10 baixistas de bandas de Rock britânicas e americanas nessas duas décadas. Na segunda foto, promocional do "Harppia", com Hélcio Aguirra no line-up da banda. Ele é o segundo da esquerda para a direita.

Conheci o Hélcio quando ele tocava no "Harppia". Lembro de vê-lo num evento ao ar livre, tocando com essa banda, chamado: "Praça do Rock", realizado na concha acústica do Parque da Aclimação, onde A Chave do Sol tocaria também algumas vezes, futuramente.
Isso só aconteceria em 1984. Mas só tornamo-nos amigos de fato, alguns meses depois dessa apresentação, quando encontramo-nos num show no Teatro Lira Paulistana (não lembro-me ao certo, mas acho que era um show duplo, com apresentações das bandas "Korzus" e "Sabotage"), e nessa ocasião, voltamos juntos no mesmo ônibus que servia aos dois.


Falando do público, a sua reação era boa, no sentido de que dançavam e aplaudiam nos shows do Victória, mas na prática, não era um público Rocker. Eram playboys em sua maioria, e não estavam nem aí para ninguém, nem mesmo o Tutti-Frutti. Aliás, o Tutti tocava mais covers que suas músicas autorais naquelas apresentações. Para nós, era ótimo estar ali pela badalação toda, a oportunidade de conhecer pessoas do mundo empresarial e fonográfico, artistas famosos etc. Logo mais farei um relato de curiosidades sobre esses shows.

Mais uma foto extraída da Internet, mostrando o ambiente do palco principal do Victoria Pub nos anos oitenta, recheado de Playboys & Patricinhas da alta burguesia paulistana, e que lotavam-na de segunda a segunda
 
Contudo, euforia no sentido de deslumbramento, acredito que não.
Estávamos felizes e confiantes. Quem deu uma balançada, infelizmente, foi a Verônica, conforme relatarei logo mais, e decorrente dessa instabilidade dela, precipitou-se a sua saída da banda, de forma triste.

                      A fachada do Victoria Pub, na Alameda Lorena

Como tenho várias coisas a contar sobre esses shows no Victoria Pub, mas sem relacionar ao dia específico, falarei sem essa preocupação. Que fique subentendido que aconteceram durante esses 14 shows que fizemos lá, entre 1°de fevereiro e 6 de abril de 1983.

1) Primeiro foi o convívio com o pessoal do Fickle Pickle. Logo que entramos no Victória, a primeira pessoa que reconheci, foi o Catalau. Eu o conhecera em 1980, por ele ser amigo dos membros do Terra no Asfalto, minha ex-banda cover, e amigo de vários amigos em comum daquela turma de freaks do bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo.

A famosa pensão "São Geraldo", localizada na rua homônima, no bairro das Perdizes, onde os guitarristas Geraldo "Gereba" e Wilson Canalonga Jr. moravam, e onde muitas reuniões do Terra no Asfalto aconteceram, inclusive com a presença do então desconhecido Catalau...


Lembro-me de tê-lo conhecido numa tarde no quarto de pensão onde Wilson e Gereba dividiam na Travessa São Geraldo.
Ele estava lá com uma guitarra Fender Telecaster, e foi naquela fase onde já sabíamos que o Mu sairia da banda. Chegou-se a cogitar a entrada dele na banda, ficando então uma formação com três guitarras. Mas isso não avançou, e ele acabou não entrando. Alguns meses depois, eu e Paulo Eugênio fomos visitá-lo em seu apartamento da Rua Ministro Godoy, nas Perdizes. Era uma fase de reformulação da banda, mas acabou não dando certo novamente, pois o Aru Júnior estava voltando dos Estados Unidos e assumiria a vaga deixada pelo Geraldo "Gereba", que mais uma vez estava viajando para o Nordeste. Mas isso eu conto no capítulo do Terra no Asfalto, detalhadamente e no momento oportuno da cronologia.




Nessa visita, o Catalau recebeu-nos, e ficou fazendo exercícios exóticos vocais e faciais que acabara de aprender, lendo o livro de um guru indiano. Era hilário, mas ao mesmo tempo, o meu lado hippie curtiu essa doideira que parecia perdida no tempo, em contraste com a fase dura em que estávamos ingressando.





E era o dia 18 de setembro de 1980... por que gravei essa data ? 


Simplesmente era o aniversário de dez anos da morte do Jimi Hendrix, e era exibido um especial na TV, no instante em que estávamos ali. Por isso, fiquei contente em encontrar o Catalau ali em fevereiro de 1983, e ver que a banda dele estava bem, tocando fixo num lugar badalado.




Na primeira foto, mais uma ambiente do Victoria Pub e na segunda, a clássica "cozinha" do "Fickle Pickle" e "Golpe de Estado" : Nelson Brito & Paulo Zinner

E dessa forma, fui apresentado a Nelson Brito e Paulo Zinner, que depois apresentaram-me ao Raul "Zica" Müller. Instantaneamente estreitamos amizade pela proximidade de ideais, e logo de início por ser ajudado gentilmente pelo Nelson, conforme já contei. Isso porque eu estava sem amplificador, e a casa fornecia equipamento de palco, mas por alguma circunstância excepcional, esse trato foi rompido, e vimo-nos na situação de não ter equipamento disponível mais. Todavia, o Nelson prontamente ofereceu o seu amplificador e caixa, de marca "Acoustic", um equipamento que era um sonho de consumo meu, pois cresci vendo fotos e vídeos de muitos ídolos usando-o. John Paul Jones; Gary Thain; Tim Bogert; John Deacon, e tantos outros mestres das quatro cordas, por exemplo. E de fato, era um amplificador maravilhoso, pois tinha possibilidades de equalização com muito brilho, e um peso de arrasa-quarteirão.
Meu Fender Jazz Bass roncou forte nesses 14 shows...

E o Fickle Pickle, apesar de não tocar músicas autorais, era uma banda impressionante ao vivo. Tocavam Stones, Beatles e The Who principalmente, mas com uma volúpia tal, que pareciam estar no Marquee Club de Londres nos anos 1960. Eu gostava muito da performance deles.

2) Outra curiosidade, foi que um dos dirigentes do Victoria Pub, tinha muitos contatos no meio fonográfico, e dessa forma, propôs aos instrumentistas do Fickle Pickle, que formassem uma banda paralela, onde ele seria o vocalista.

Dessa forma, aproveitando-se do "Boom" do Br-Rock 80's que estava só nascendo, Paulo; Nelson, e Raul gravaram e lançaram com esse sujeito, um single. A banda tinha estética "New Wave", para seguir os ventos do pós-punk, e recebeu o ridículo nome de "Pepino Irritadiço"...

Os meus amigos não gostavam disso, mas claro que aceitaram e gravaram, pois eram oportunidades...

A banda tinha ainda duas "vocalistas", e na verdade, era uma espécie de "Trio Los Angeles" do Pseudo-Rock New Wave...
O som era realmente uma porcaria (meus amigos também tinham essa consciência, é claro). Em off, o Zé Luiz Dinola apelidou-o de "Cenoura Raivosa". 



2) Entre o pessoal do Tutti-Frutti, o convívio era muito legal com o Luiz Sérgio Carlini. Logo o líder da banda, era o mais receptivo, juntamente com o segundo guitarrista, Ronaldo Paschoa. O baixista era Renato Figueiredo, e o baterista era o Marinho Thomaz, ex-Casa das Máquinas, e já no vocal, outro ex-"Casa", Simbas, que eram mais reservados. A banda era muito boa ao vivo, com o Simbas cantando muito, e fazendo as vezes de frontman com a desenvoltura dos velhos tempos. Infelizmente, mesclavam muitos covers, talvez numa proporção 70 / 30 %.

Mas devo reconhecer que algumas interpretações eram brilhantes.
O solo em duo que Carlini e Paschoa faziam em "Hotel California" dos "Eagles", era memorável. Lembro-me de ter conversado com o Carlini pela primeira vez numa dessas tardes, no boteco ao lado do Victoria. Fiquei muito contente em poder conversar com ele, e verificar que era extremamente humilde e acessível, sem nenhum estrelismo.

Recordo-me também de num outro dia, onde ele mostrou ao Rubens o seu novo amplificador, coqueluche do momento, e tipicamente oitentista, aquele cubo Roland, cor de laranja. Parecia uma caixa de sapatos. Alguns dias depois, o Rubens comprou um combo da Music Man, e o Carlini curtiu muito o som, que ultrapassava o Roland e muito. Numa outra ocasião, um outro membro do Tutti-Frutti chegou numa tarde ao Victoria Pub, e sem ninguém para ajudá-lo a descarregar uma bateria de seu carro. Eu e o Zé Luiz fomos ajudá-lo, mas diferente do Carlini e do Paschoa, esse componente mantinha aquele distanciamento, do gênero : "eu famoso, vocês desconhecidos". O Zé aborreceu-se bastante, mas eu relevei, e não senti-me incomodado. Num outro dia o Zé deu o troco, gerando uma situação desagradável que prefiro não contar...



3) Sobre os bastidores:

Conforme já descrevi, o Victoria era uma casa labiríntica. A fachada não dava ideia do quanto era grande, e com tantos emaranhados de ambientes; câmaras secretas; saídas inusitadas para outros ambientes etc.

Still do filme "Tron", super modernoso Sci-Fi para aquela época, por tratar de um assunto que começava a mexer com o imaginário dos jovens, a realidade virtual e os jogos virtuais... 

A decoração era riquíssima em detalhes, e era um luxo naquele começo de anos oitenta, já ter um serviço de TV interna, com monitores em todos os ambientes, e passando filmes de Sci Fi recém lançados como "Tron", e "Blade Runner", por exemplo. O ambiente era burguês, mas apesar de ser dispare, não havia nenhuma hostilidade por parte do público de playboys. Pelo contrário, mesmo não sendo rockers, bastava qualquer uma das três bandas fixas começar a tocar, e eles dançavam, gritavam e aplaudiam. Na verdade, queriam divertir-se; beber; drogar-se, e arrumar garotas / garotos. Muita gente do meio musical circulava ali. Lembro-me do Peninha Schimdt, Kid Vinil, e outras figuras.

Uma vez, um sujeito cujo nome não recordo-me, "alugou-nos", eu e Rubens, por uns vinte longos minutos...
Com cabelo cor de laranja e corte de cabelo "esquisitinho", bem "New Wave", abordou-nos dizendo ser produtor musical. Queria que o procurássemos no decorrer da semana, para levar nosso material, pois (supostamente), dizia que esteve envolvido na produção dos shows do Van Halen, que viera recentemente ao Brasil, e aventava a possibilidade de colocar-nos para "abrir" o "Kiss", que segundo ele, viria em junho. Deu-nos várias palhetas customizadas do Van Halen, e seu cartão. Não era empresário, devia ser um "aspone", mas ficava circulando por aí botando banca de.

Só fez uma observação : teríamos que cortar os cabelos à New Wave, e repaginar o figurino. Pensando bem, ele não estava errado.
Éramos anacrônicos em 1983, principalmente eu e o Rubens, com visual de Rockers setentistas. O rapaz falou em cada um ter o cabelo de uma cor diferente, e usar aquele visual de Duran Duran...
Se fosse algo realmente concreto ao menos... mas sair por aí "modernizando-se" à toa, seria uma estupidez, principalmente pelo fato do principal quesito, ser incompatível com esse visual oitentista : teríamos que mudar o som também...



4) Ainda falando de bastidores, lembro-me de numa noite, termos tido a sorte de tocar numa festa da Rede Globo, comemorando o encerramento de uma mini série, chamada: "Bandidos da Falange", falando sobre o submundo do crime no Rio de Janeiro etc e tal.
Toda a equipe técnica, diretores e muitos atores esbaldaram-se ao som da Chave do Sol. Lembro-me da Betty Faria; Roberto Bonfim; Gracindo Júnior, e Júlia Lemmertz, entre outros, dançando enquanto tocávamos.



 

 


 

Informações sobre a mini-série "Bandidos da Falange" :
http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandidos_da_Falange

E também eram notórios os shows de artistas famosos que faziam ali. Naquela época, todo mundo do BR-Rock que estava explodindo, apresentou-se ali com multidões assistindo-os, e muita badalação. Os shows de artistas grandes do mainstream, aconteciam as sextas e sábados. Nunca fomos assistir nenhum, mesmo porque não interessávamo-nos por aquela turma oitentista, com menção honrosa ao Barão Vermelho, e ao Herva Doce, que não eram frutinhas da árvore punk, e mantinham suas raízes no Rock e no Blues. E que fique bem claro, nessa primeira leva de artistas, o BR-Rock era predominantemente carioca (com exceção do Paralamas, mas estes estavam radicados no Rio, também). Paulistas e brasilienses começaram a ter espaço após, em 1984. Mas tivemos um contato discreto com uma delas, numa sexta onde havíamos passado ali só para apanhar o nosso equipamento, que não fora possível remover na madrugada anterior, quando tocamos. 

O Herva Doce, uma rara banda oitentista que não seguia a cartilha do Pós Punk e pelo contrário, mais parecia-se setentista em sua estética
 
Era uma tarde quente de sexta, quando vimos dois carros com placas do Rio de Janeiro, abarrotados de equipamentos e cabeludos chegando. Era o Herva Doce aportando na Alameda Lorena. Foi engraçado ver os artistas numa situação não glamorosa, esbaforidos da viagem, descarregando o carro eles mesmos, sem roadies. Lembro de um dos carros ser uma "Belina" dos anos setenta, abarrotada de coisas.


O guitarrista Marcelo Sussekind perguntou-nos a hora certa. 
Curioso o destino, pois alguns anos depois, o Rubens na sua fase pós-Chave, e pré Patrulha, chegou a gravar um LP com uma banda que prometia estourar. Esse disco foi gravado no Rio, com toda a mordomia de gravadora major, e o Marcelo Sussekind seria o seu produtor. Só complementando, acho (não tenho certeza, corrijam-se se for o caso, por favor), que a tal banda chamar-se-ia "Yankee.
Particularmente eu tinha um respeito grande pelos músicos do Herva Doce, pela sua árvore genealógica boa.
Eram oriundos da "Bolha", e do "Bubbles", fora ramificações com "Os Mutantes", "Veludo" etc. Não eram da turminha do "Do It Yourself", pelo contrário, tinham história e estrada.



5) Sobre A Chave do Sol e o Victória:

Na reunião em que fechamos o contrato, o diretor da casa advertiu-nos apenas sobre não exagerarmos no visual "Riponga" (palavras e preconceito, dele), além de não falarmos palavrões no microfone (senti-me no filme "The Rose"... -"hey you, motherfuckers"...), e pediu-nos para tocar músicas conhecidas.
Não havia restrição para que tocássemos músicas autorais mescladas, mas desde que não houvessem exageros. O pagamento ficou acordado de ser realizado semanalmente. O primeiro show, no dia 1° de fevereiro de 1983, foi realizado no palco pequeno, conforme já mencionei anteriormente. Mas logo no segundo dia, perceberam que nossa banda jamais poderia tocar num palquinho lounge de piano bar, e sendo assim, escalaram-nos para o palco principal, a partir do segundo dia. Tocávamos várias músicas nossas, mas evitávamos as instrumentais muito longas, privilegiando o talento vocal da Verônica. 

Verônica e Rubens na linha de frente, Zé Luiz na retaguarda... A Chave do Sol no Victoria Pub'1983 !!

A nossa performance era frenética. Eu; Verônica, e Zé Luiz, principalmente, entrávamos a todo vapor. Eu exagerava mesmo, pois estava 100% seguro como músico, e permitia-me uma mise-en-scené frenética, sem prejuízo ao desempenho musical.

O Rubens sempre foi mais comedido e costumava tocar concentrado, e estático. Mas para compensar, tinha seus arroubos frenéticos e "Hendrixianos" ao tocar a guitarra virada atrás da cabeça, ou mesmo tocando com os dentes, e claro que eram momentos "plus" de euforia, cujo momento aguardávamos como se fôssemos mágicos, que sabem exatamente onde usar o seu melhor truque no clímax de seu show. A Verônica continuava no entanto na sua toada de beber antes de subir ao palco, e extrapolar nos trejeitos, ou nas bobagens ditas ao microfone. Mas algo pior estava por acontecer...
Antes que comece a contar isso, preciso mencionar que uma vez, eu cometi um acidente que poderia ter tido gravidade. Estávamos tocando "O Contrário de Nada é Nada", dos Mutantes, quando na euforia da minha mise-en-scené, fiz um movimento muito brusco com o head stock do baixo (a chamada "cabeça", onde ficam as tarraxas que afinam o instrumento). Estava alucinado tocando, e nem senti que dei um tranco em alguma coisa...


Eu vivendo meus dias de "John Paul Jones", com meu Fender Jazz Bass roncando forte, plugado num amplificador "Acoustic" modelo "360", cortesia do amigo Nelson Brito.

Percebi que a Verônica tinha parado de cantar, porque eu a acertara violentamente com o headstock do baixo !! Ela estava com a mão sobre o rosto, e quando tirou-a, seu rosto estava vermelho como um tomate, devido ao hematoma. Mesmo assim, continuamos, e só depois do show pude pedir desculpas pelo acidente.

Tinha meus dias de Pete Townshend ali no Victoria, e como ele, também causei acidente pelos excessos cênicos...
Fora esse acidente do qual ela foi vítima, o que estava acontecendo com a Verônica ? Ela subitamente mudou seu comportamento conosco. Se antes era uma moça simples e dócil, passou repentinamente a evitar-nos, e ter rompantes de arrogância.

Passou a ser comum não comparecer ou justificar suas faltas nos ensaios, e nos shows, chegava atrasada toda noite. Evitava-nos no pós-show ao máximo, sumindo, e despedindo-se de forma seca.
Então descobrimos tudo, quando ela comunicou-nos que seu cachet seria pago em separado do nosso, doravante, conforme já havia combinado com o diretor do Victoria. A verdade é que haviam feito a cabeça dela para cumprir aqueles shows contratados, e livrar-se de nós, partindo para uma carreira solo, com a efêmera promessa de um contrato com gravadora major, garantindo-lhe a gravação de um disco, uma nova banda contratada para acompanhá-la, e ela como estrela absoluta.

Inebriada por esses sonhos, passou a hostilizar-nos, dando como certa a sua escalada meteórica rumo ao sucesso no mainstream.
Sendo assim, quando acabou o contrato com o Victoria, ela saiu sumariamente da Chave do Sol, e nós ficamos sem perspectivas imediatas, pois todo o embalo maravilhoso que havíamos pego desde outubro de 1982, foi para o ralo, porque estávamos sem outras datas, e tendo que procurar às pressas um novo vocalista ou voltarmos ao formato de Power Trio, necessitando reestruturar todo o repertório para o Rubens, ou o Zé Luiz cantar. Isso sem contar o prejuízo em perder uma vocalista do potencial sensacional que ela tinha. Se tivéssemos prosseguido, e com a sorte de arrumarmos um produtor...
Dali em diante, experimentamos a nossa primeira curva descendente na história de altos e baixos da banda. Relatarei a seguir essa fase dura que durou três meses de aspereza.

Essa foto foi tirada durante a realização de um soundcheck no Victoria, sem a presença da Verônica. Tornou-se irônica, pois sua súbita debandada obrigou-nos a voltarmos ao formato de Power-Trio, doravante.


Claro que conversamos a respeito das atitudes dela. Mas no princípio, achávamos que era só uma fase pela qual passava, e motivada por alguma questão pessoal. Talvez fosse timidez por estar agora tocando num lugar badalado, com equipamento melhor, pessoas famosas circulando pela casa, e assistindo-nos, sei lá.
Só fomos perceber a real motivação quando já era tarde demais, e então ela revelou seus planos referentes à sua carreira Pós-Chave do Sol.

Infelizmente o sujeito que lhe fez a cabeça, era um dirigente do próprio Victoria, o que de certa forma explicitava o nosso iminente fim ali dentro, a reboque. Que eu saiba, não aconteceu absolutamente nada com a Verônica nessa suposta carreira solo com disco, gravadora, e esquema empresarial. Posso estar errado, mas nem disco ela gravou, que eu saiba. Tive a informação, mais ou menos em 1985, de que ela havia casado-se com o guitarrista Jean, da banda Performática do Aguilar, o artista plástico / compositor.
E parece que teve dois filhos com ele e morou no interior de São Paulo (Jundiaí, se não engano-me).

Só fui ter outra informação muitos anos depois. Estava vendo TV em 1991, quando assisti-a no programa do Clodovil, na TV Gazeta, apresentando-se acompanhada de uma orquestra, no Teatro de Arame de Curitiba. Era um tema bem careta, com arranjo cafona, mas ela cantou bem. Quanto à falta que fazia-nos um empresário, creio que se tivéssemos encontrado com um profissional de contatos e influência, acho que poderíamos pensar no caso de fazermos mudanças no som e no visual. Mas não seria algo fácil de digerir, pois éramos bem radicais. O Zé Luiz não era um rocker propriamente dito. Essa questão de visual era mais forte para eu, e o Rubens. Mas no quesito musical, ao contrário, o Zé era bem mais radical. Se aparecesse alguém pedindo simplificações nos nossos arranjos, ele mandaria o sujeito "ir para aquele lugar"...
Mas isso nessa fase. Coisas aconteceram depois...



Realmente ela era um talento bruto, mas subestimou a banda que tinha seus méritos, também. Não éramos descartáveis como o sujeito que fez-lhe a cabeça, deve ter sugerido-lhe. Mas naquele momento e circunstância, claro que tomamos um baque forte com a saída repentina dela. Foram alguns meses difíceis, promovendo uma readaptação musical, e também para buscarmos um novo embalo, mas já na virada do segundo semestre, daríamos um salto geométrico, portanto muito maior, superando a boa onda em que estávamos inseridos entre outubro de 1982, e abril de 1983.

Se ela tivesse permanecido, poderíamos ter tido outro rumo, é bem verdade. Com um direcionamento mais pop, nossas aparições no programa de TV "A Fábrica do Som", em julho daquele ano de 1983, poderiam ter despertado a atenção de gravadoras, e produtores. A Verônica passaria como um trator sobre aquelas cantoras em voga do BR-Rock. Com todo o respeito à Paula Toller; Virginie; Dulce Quental, e as duas meninas da Blitz, que seriam ofuscadas por ela fatalmente, pela voz visceral, e na beleza física, ainda mais contando-se com o fato que haveria uma produção cuidadosa de figurino, cabelo e maquiagem. Mas o destino traçou sua meta diferente, e entorpecida por falsas promessas, preferiu sair para mergulhar numa aventura sem segurança alguma, e seu voo no vácuo, foi sem paraquedas, aparentemente. 



Como já expressei anteriormente, se a Verônica tivesse permanecido na banda, era grande a possibilidade de despertarmos a atenção de produtores, empresários e gravadoras. Claro, teríamos que passar por muitas modificações inevitáveis no som e visual, mas teríamos todas as condições de brigar no mainstream por um espaço.

A Verônica era uma cantora espetacular e visualmente, era tudo o que essa gente do show business desejava. Loira; bonita; esguia, e já trabalhando como modelo, bastar-lhe-ia um pequeno "banho de loja e produção", que fatalmente chamaria muito a atenção.
Aliás, não precisava nenhuma grande transformação, pois ela já arrumava-se bem no cotidiano, postura aprendida nos bastidores da moda, onde já trabalhava há tempos.

E no quesito voz, ela era uma joia bruta. Com o timbre e a emissão semelhantes à da Tina Turner, seria um estouro, e não havia nenhuma cantora naquele emergente Br-Rock que pudesse rivalizar com ela. A Cássia Eller, só surgiria no mercado no final dos anos 1980, início dos 1990, mas só estourou mesmo, na segunda metade dos anos noventa. Quem iria sofrer, seríamos nós três, instrumentistas da banda, pois seria dureza ter que amenizar nos arranjos, deixando nossas convicções, e adotar aquele som empobrecido do pós-punk em voga, como estética a ser seguida, e com direito àquelas timbragens de plástico. Isso sem contar a questão dos arranjos medíocres, letras tolas etc .E não estou nem falando de visual... o Zé Luiz que não era muito Rocker, não sofreria muito, mas eu e o Rubens... já imaginou nós vestidos de dândis oitentistas, e com aqueles cortes de cabelo, "esquisitinhos" ?



Ainda falando sobre a perda da Verônica Luhr, como nossa vocalista, pensando realisticamente, se tivéssemos tido uma grande oportunidade com esquema de gravadora e empresário, seria mera questão de tempo para fazerem-lhe a cabeça, e ela deixar-nos para seguir carreira solo. Analisando sob a ótica da experiência adquirida, só entrava num esquema daqueles, quem tinha contatos.
A questão de sermos esteticamente o oposto da onda da época, era só uma agravante a mais, para afastar-nos do mundo mainstream.

Mas sinceramente, lamento muito que ela tenha sido ludibriada, e não tenha acontecido nada absolutamente grandioso com sua carreira naquele momento, pelo menos que fosse público e notório, pois a despeito de sua saída desagradável da Chave do Sol, ela merecia ter ficado famosa pelo seu talento, que era enorme.
Quanto à nossa banda, realmente, embora muito debilitada pelo prejuízo que tivemos ao perder uma vocalista do quilate que a Verônica poderia alcançar mediante uma lapidação adequada, A Chave do Sol prosperou muito, já nos meses seguintes, conforme relatarei aqui.

Naquele instante em que ficamos sem a Verônica, ficamos momentaneamente sem chão, pois como desgraça pouca é bobagem, também fomos comunicados pela direção do Victória Pub, que o nosso contrato não seria renovado. Com isso, teríamos que, ou arrumar um novo vocalista em tempo recorde, ou parar tudo para reestruturarmo-nos como trio, e voltarmos assim a tocar no circuito que estávamos trilhando antes de entrarmos no Victória.
Além de todo o incômodo por enfrentar essa reestruturação, seria um retrocesso tocar novamente em casas como o decadente Deixa Falar; Devil's; Café Palheta, e Água Benta Bar, com todo o respeito e gratidão que tínhamos por terem aberto suas portas para propiciar nossos primeiros passos como início de carreira etc...

Então, tivemos outra ideia de imediato para a nossa continuidade, que relatarei a seguir. E quanto à Verônica, ela comunicou-nos a sua decisão de forma dura, quase como se tivesse aliviada por livrar-se de nós... estava realmente inebriada pelas promessas mirabolantes de seu suposto "mecenas"...

Tanto que no último show, ela alegou falta de voz por conta de um resfriado, e nem apareceu. Tivemos que improvisar músicas que o Rubens sabia cantar, e foi um show aquém do que podíamos fazer normalmente. Ficamos chateados, claro, mas ao mesmo tempo, diante do inevitável, vimos o lado positivo, pois estava insuportável conviver com os arroubos de estrelismo dela.


Tivemos que tocar algumas músicas cover que tocávamos logo no comecinho da banda, na sua fase pré-Verônica, e o set list foi decidido minutos antes, na base do improviso. Estávamos meio enferrujados com essas músicas, mas encaramos assim mesmo.

Não foi uma apresentação "bacana", como havíamos padronizado realizar há meses, mas não chegou a ser um vexame, também.
Estava encerrada a a nossa atuação como banda fixa do Victória Pub. Lá tocamos nos dias 1º; 2; 3; 9; 10; 17, e 23 de fevereiro de 1983, com públicos respectivos de 70; 120; 150; 200; 300; 170, e 250 pessoas (assistindo-nos, mas não refletindo o número de pessoas dentro da casa, pois eram muitos os ambientes e as pessoas espalhavam-se). Em março de 1983, tocamos nos dias 2; 9; 10; 15; 22; e 29, com público respectivo de 200; 250; 200; 300; 20, e 15 pessoas assistindo-nos. E o derradeiro show, ocorreu em 6 de abril de 1983, sem a presença da Verônica Luhr, com melancólico público de apenas 10 pessoas na plateia.

Logo mais, falarei sobre os primeiros passos sem a Verônica, e a ideia que tivemos para dar continuidade nos nossos planos de expansão.

Verônica Luhr, numa foto bem mais atual, que achei na Internet.

Continua...

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