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sábado, 9 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 3 - A Era Verônica Luhr, a Diva dos Olhos Azuis - Por Luiz Domingues


Ainda em outubro de 1982, o Rubens lançou essa ideia de uma vocalista. Ele disse ter lembrado-se de uma garota que conhecera em 1978 ou 1979, não tenho certeza, que havia cantado de maneira informal em uma festa onde ele esteve presente. Contou-nos que havia ficado impressionado pelo seu dote vocal, e beleza física. Eles chegaram a engatar um flerte, e poderia ser uma alternativa para a nossa carência vocal. 



Por confiarmos nessa indicação, e sem outra alternativa concreta à disposição, sinalizamos, eu e Zé Luiz, que ele poderia fazer o contato, e se ela interessasse-se, poderíamos enfim, marcar um teste. Ele fez isso. Antes do encontro acontecer, preveniu-nos que seria uma aposta, baseado em uma percepção não profissional, pois a observara a cantar de uma forma fortuita, com uma banda amadora, em uma festa particular, e sem um equipamento com qualidade, à disposição. Entendemos as ressalvas, mas não custava-nos conhecê-la, e testar seu atributo vocal, pois no máximo, a rejeitaríamos e teríamos perdido alguns minutos de tempo nessa operação. 



Marcada a audição, ela previamente foi orientada a preparar-se em casa, mediante algumas músicas para que cantasse, conosco. E assim, tirou algumas da Rita Lee ("Mamãe Natureza", "Agora só falta você'...); Rolling Stones ("Jumpin' Jack Flash"; "Honky Tonk Women"; "Brown Sugar"); "Cocaine", do JJ Cale, versão Eric Clapton, e mais alguma coisa que não lembro-me mais... ah... "Now I'm Here", do Queen. Ela veio, meio tímida, mas chamava a atenção pela beleza. Loira; olhos azuis; muito bonita, e mais de 1,80 metro de altura.

Ganhava a vida como modelo em desfiles do estilista, Ney Galvão, rival do Clodovil à época, quando este ocupava o posto do finado, Denner. O fato dela ser uma bela modelo, era um ponto importante, claro, mas a surpresa veio quando começamos a tocar... ela tinha uma voz incrível ! Sua emissão era tão forte que lembrava cantoras espetaculares como Tina Turner, Etta James e outras Divas desse nível...






A inacreditável, Tina Turner, em foto dos anos setenta, quando fazia dupla com seu marido / carrasco, Ike Turner 

Ficamos muito entusiasmados, e a convidamos, sem pestanejar. Ela aceitou e marcamos ensaios.


Ela chamava-se, Verônica Luhr. Era uma moça simples, sem nenhuma sofisticação, e não era afetada. De certa forma, seguia a cartilha da maioria das meninas que ingressam nessa carreira de modelo, ou seja, vinham / vem de famílias simples dos estados do Sul, principalmente Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e são descendentes de italianos, alemães ou de pessoas oriundas de países do leste europeu.


Geralmente são muito simples, e seus pais são pequenos comerciantes locais ou agrônomos. Verônica tinha essas características. Não lembro-me se sua origem era alemã ou austríaca. A beleza ficou em segundo plano (mas claro que seria um trunfo a mais para a banda), pois a voz dela era verdadeiramente incrível.


 Verônica Luhr, em foto bem mais atual, que achei na Internet



Tanto foi verdade, que a convidamos imediatamente, e certos de que havíamos encontrado uma joia rara, ainda que bruta, a carecer apenas uma lapidação. A Verônica assumiria uma importância tão grande na banda, que por conta de sua entrada, portas importantes abrir-se-iam logo a seguir, conforme esclarecerei ao longo da narrativa.



Com Verônica Luhr efetivada, passamos a acelerar o processo em prepará-la para atuar ao vivo. Já tínhamos mais músicas próprias a caminho, mas ainda precisávamos de "covers" para completar o set list.



E com a entrada dela, e diante de seu imenso potencial, tratamos logo de colocar no repertório, músicas como, "Proud Mary"e "Acid Queen", para ela soltar a Tina Turner que tinha na garganta. O primeiro show foi em meio a um festival colegial.



Não concorremos, mas fizemos o show oficial do Festival do Colégio Manoel de Paiva, localizado no bairro do Campo Belo, zona sul de São Paulo. Mesmo com caráter amadorístico, havia um P.A. alugado, com qualidade razoável, que a direção da escola, em parceria com o centro acadêmico dos estudantes, havia bancado.
Havia cerca de duzentas e cinquenta pessoas presentes, nesse dia 20 de novembro de 1982. A irmã do Rubens, Rosana Gióia, apresentou-se também, para contribuir com backing vocals. 



Essa apresentação foi um estouro, pois além de contrastar com o nível sofrível das bandas de alunos dessa escola, a apresentar-se para concorrer, e 99.9% a fazer aquele Heavy-Metal na onda em voga do "NWOBHM" (The New Wave of British Heavy-Metal, uma típica manifestação oitentista), a Verônica chamou muito a atenção. Sua voz era impressionante e claro, sua beleza física provocou frisson. Seu inglês era "macarrônico" e constrangedor, mas isso não incomodava-nos, pois os covers eram meramente ocasionais, e tinham seus dias contados. 



Esse foi o primeiro show da Chave do Sol, onde não tocávamos para uma plateia formada só por amigos e parentes (a excetuar-se a apresentação com Percy Weiss, no Bar Pierrot Lunar, é claro), e a repercussão provocou aplausos; uivos; assobios, e assédio no camarim. Um começo muito animador para essa nova formação, e na semana seguinte, já tínhamos marcado mais dois shows, novamente no Café Teatro Deixa Falar, e desta feita como quarteto.


Esses shows foram muito fracos em termos de público (dias 26 e 27 de novembro de 1982, e com dez e quinze pagantes, respectivamente ). Mas a Dona Sabine, havia recém adquirido uma outra casa noturna, localizada na Rua 13 de maio, no bairro do Bexiga, zona sul de São Paulo, onde a noite era fortíssima naquela época, e convidou-nos a fazer uma temporada lá, para atrair público. E nessa série de shows, coisas muito engraçadas aconteceram.



Filipeta tosca, para anunciar a temporada da Chave do Sol no Devil's Bar em dezembro de 1982. É horrenda pelo seu Lay-Out, mas também poder-se-ia argumentar ser proposital, para seguir o "desconstrutivismo pós moderno niilista" , pela cartilha da "intelligentzia" do Pós Punk oitentista... ha ha ha !
  
Pois é, foi o que aconteceu. Animados com a voz dela, mais a repercussão do show no festival estudantil do colégio Manuel de Paiva, não abatemo-nos com os dois shows fracos pelo pouco público presente no Café Teatro Deixa Falar, e aceitamos de pronto o desafio em fazermos uma temporada fixa no "Devil's Bar", nova casa da Dona Sabine. Para quem viveu a época, sabe que o primeiro e o segundo quarteirões da Rua 13 de maio, no Bexiga, eram forrados por bares com música ao vivo.

Isso atraía uma multidão de pessoas, a lotar as casas e geralmente ficavam centenas de pessoas a perambular pela rua. Era uma multidão tão grande, que em dados momentos, tornava-se impossível trafegar de carro por ali, com a multidão a ocupar todos os espaços. E revelava-se engraçado ouvir o som de bandas a confundir-se no vazamento que ia às ruas. Rock; Blues; MPB, Jazz... acontecia de tudo, literalmente. O Devil's, no entanto, era praticamente um buraco. Dona Sabine deve ter comprado ou arrendado aquele espaço por um preço irrisório, pois sua estrutura estava péssima. Cozinha imunda; banheiros péssimos; instalações elétricas precárias; mobília velha e quebrada em muitas peças...
Mesmo assim, aceitamos tocar e pela segunda vez, fizemos cartazetes e flyers para um show da Chave do Sol. Lembro-me que esse material tinha o nosso nome; o serviço e uma vaga observação sobre tocarmos, "Rock". E como ilustração, uma foto do B.B. King. O primeiro show foi realizado no dia 2 de dezembro de 1982, e teve quinze pagantes, apenas. 

No segundo dia, 3 de dezembro de 1982, conseguimos melhorar, ao atrair, vinte e cinco pagantes e daí, começou um boca-a-boca na rua, de que havia uma banda muito louca no Devil's, com um guitarrista que tocava Jimi Hendrix a imitar a performance em tocar com a guitarra nas costas e com os dentes, como ele (Hendrix) fazia; um baixista alucinado que tocava com um chapéu pontiagudo ao estilo de um bruxo (verdade, usei em título de brincadeira no primeiro show e o adereço causou um efeito positivo para o público), e uma vocalista doida que cantava muito, mas quando postava-se embriagada, azucrinava no palco...
Desse forma, pôs-se a aumentar o público nos shows posteriores e este a ficar frenético, cada vez mais.



Na segunda foto, estou a usar o propalado chapéu de bruxo, e essa foto é oriunda de uma filmagem (still), cujo teor e história revelarei no momento oportuno da narrativa

Tenho esse flyer guardado orgulhosamente no meu portfólio. Lembro-me que o fizemos de uma maneira artesanal, e o copiamos mediante xerox. Ele ficou tosco, grotesco mesmo. E nossos amigos  ajudaram-nos a distribuí-los em meio à multidão que aglomerava-se na Rua 13 de Maio, principalmente nas noites / madrugadas de sexta e sábado. Vendo-o hoje em dia, parece algo deliberadamente feito daquela forma, ao dar-lhe aura "cool", mas na verdade, fora um horror feito de uma forma tosca e muito apressadamente, para suprir a necessidade premente que tínhamos.

O "Rainbow", em foto bem no início de sua carreira, 1975, e com Ritchie Blackmore a usar o famoso chapéu, seu hábito desde os tempos do Deep Purple. Uma inspiração, naturalmente 

O chapéu foi algo totalmente improvisado. Eu o achei no quarto de despejo da casa do Rubens, enquanto o arrumávamos para tornar-se a nossa sala de ensaios. Devia ser uma peça usada em alguma festa a fantasia que nem o Rubens lembrava-se em ter participado. Pedi para usá-lo nos shows, como uma brincadeira e ficou interessante como adereço ao figurino, pois lembrava-me o Ritchie Blackmore naquele promo do "Deep Purple", da música "Highway Star" em 1971 ou 1972, não sei ao certo (a foto acima é do "Rainbow", eu sei, leitor.). Nas duas primeiras noites, tivemos poucas pessoas presentes, mais os amigos fiéis, do que público espontâneo. Mas a partir da segunda semana, começou a entrar muita gente, conforme relatarei a seguir, e aí, com todos esses fatores somados pelos quais arrolei anteriormente, colaboraram para fazer dessa mini-temporada, um sucesso. E sim, o Rubens a rigor, fazia seus malabarismos com a guitarra, desde o primeiro show, mas quando começou a entrar mais gente, começou as reações mais entusiasmadas nessas apresentações (é verdade que no show do Colégio Manuel de Paiva, também houve frisson, quando ele tocou sua guitarra com os dentes).

Nessa mini temporada no Devil's, estreamos em uma quinta-feira, dia 2 de dezembro de 1982. Como já disse anteriormente, nos dois primeiros dias, o público foi pequeno. Mas à medida que o boato correu na Rua 13 de maio, o público aumentou progressivamente. Já no dia 4 de dezembro de 1982, tivemos cem pagantes, na casa. Nessa altura, o entusiasmo com a banda e as loucuras da Verônica, chamavam a atenção. No dia seguinte, público com trinta pagantes, mas o domingo era tradicionalmente vazio na rua e assim, consideramos também um bom público. E o que ocorria em cena ?
A Verônica não tinha muita segurança em subir ao palco e para criar aquela coragem extra, bebia. E quando bebia, sua voz não era prejudicada na execução das músicas, mas sua coordenação motora e sobretudo suas intervenções entre as músicas a conversar com o público, eram hilárias. Em meio ao seu imprevisível arsenal com loucuras improvisadas, lembro-me em tê-la visto a imitar uma ave. Imagine a reação do público vendo algo assim...

Em outra ocasião, empolgou-se e disse que queria "estar" com todos os homens presentes. Nesse momento, vários saíram a correr de suas mesas para aproximar-se do palco e um deles, mais impetuoso, chegou a tentar escalá-lo para alcançá-la, no afã de tocar-lhe a perna. Ainda bem que o palco era bem alto, com mais de dois metros de altura, e um amigo nosso, chamado, Wagner "Sabbath", estava por perto e conteve a euforia do tarado. Mas lembro-me bem do Rubens a iniciar o riff da próxima música mais rápido, para tentar acalmar os ânimos. Isso chamava a atenção para a banda, mas era algo que não desejávamos, pois o objetivo não era aproveitar-se de tal expediente para alavancar-nos. Outro aspecto do "Devil's", era a sua precariedade física, com falta de higiene, conforme já citei anteriormente. Nesse aspecto, lembro-me de uma outra ocasião, quando ocorreu uma gritaria, que começara entre o público. Pensamos ser uma briga, mas tratou-se de uma garota que estava apavorada, e que subiu a mesa para fugir de um rato, enquanto seu namorado tentava caçá-lo entre as mesas. O tumulto generalizou-se, pois outras mulheres seguiram o gesto, e rapazes corriam atrás do roedor.


No quesito rítmico, nossa cantora perdia-se um pouco, tanto pela pulsação, quanto pelo andamento, mas na afinação ela era boa. Ela não tinha noção de tonalidade, mas assim que dávamos-lhe o acorde certo, ela cantava direito. Isso é fato, pois apesar de não ter nenhuma noção teórica, pelo fato de ter um vozeirão natural, era condição intrínseca ter um bom ouvido. Agora, tinha esse problema de desconcentrar-se, quando bebia. Ela era um doce de pessoa quando estava sóbria, mas para subir ao palco, sentia um nervosismo incontrolável que a impelia a beber. E quando embriagava-se, perdia o controle de seus atos, e fazia coisas absurdas.
Não sei especificar em qual dia, mas ela tomou um tombo certa vez, após um movimento brusco, e ficou com as pernas para cima. Seu vestido naturalmente seguiu a lei da gravidade, e o público delirou. Eram comuns os gracejos masculinos, por conta da beleza dela, mas não podíamos evitar essas reações. O Rubens que era o mais intempestivo entre nós, esboçava reagir, mas para não estragar as apresentações, continha-se em seu ímpeto masculino protetor. Mas vou contar-lhe, amigo leitor : a despeito dessas trapalhadas que ela aprontava por estar embriagada, cantava como uma Diva do Soul, Blues e Rock'n Roll. Se ela tivesse permanecido na banda e nós termos tido a chance de encontrarmo-nos com um produtor de porte em 1983, quando o BR-Rock 80's explodiu definitivamente na mídia mainstream, teríamos certamente chegado ao mainstream, (claro, desde que adequássemo-nos ao padrão pop de FM's), a Verônica esmagaria impiedosamente cantoras dessa cena que estouraram, como Paula Toller; Virginie, e Dulce Quental entre outras, e só encontraria uma rival à altura, na Cássia Eller.
Por outro lado, estávamos em 1982, e a Cássia só estouraria no meio / fim dos anos noventa, portanto, seria uma rival de uma outra geração, futura.

Isso poderia ter acontecido, pois sua voz era idêntica à da Tina Turner, Maggie Bell, Etta James... com um pouco de produção, ela seria um estouro...


A segunda semana de nossa mini temporada no anti higiênico Devil's Bar, ocorreu entre os dias 9 e 12 de dezembro de 1982. Atraímos um público proporcional aos dias da semana mais compatíveis com movimento, com vinte; setenta; cem e quarenta pagantes, respectivamente, entre quinta e domingo. Nessa segunda semana, o Rolando Castello Júnior, da Patrulha do Espaço, foi assistir um desses (sexta ou sábado, não lembro-me), e ao término, subiu ao palco para cumprimentar-nos, mas estava mesmo interessado em conversar com a Verônica. Estávamos a usar nessa mini-temporada, alguns equipamentos emprestados da Patrulha, novamente, tal como no primeiro show, realizado em setembro. Apesar do lugar ser um "buraco", nós aproveitamos bem esses nove shows, a angariar a simpatia de um público além do horizonte limitado, formado por nossos amigos e parentes, e mesmo não sendo uma maravilha, ganhamos um cachet somado das nove noites, suficiente para comprarmos componentes, e fazermos caixas para um pequeno P.A. que acompanhar-nos-ia por muito tempo em apresentações pequenas, e alimentaria o som de nossos ensaios, por anos. Graças a um convite ocorrido devido à essas apresentações no Devil's, marcamos um show em um bar chamado, "Água Benta", que ficava localizado na Alameda Santos, bairro do Paraíso, zona sul de São Paulo.

No primeiro dia em que lá apresentamo-nos, 19 de dezembro de 1982, encontramos com o pessoal do Ultraje a Rigor. Eles não tocavam música autoral em predominância, nessa época, mas sim, um repertório com covers, pela noite. Foi a segunda vez em que encontrávamo-nos, pois isso já havia ocorrido uma vez no Café Teatro Deixa Falar. Tocamos para cinquenta pagantes, o que motivou o dono do bar a marcar mais uma data, desta feita para o dia 23 de dezembro de 1982. Sob uma antevéspera de Natal, até que foi bom ter trinta pessoas presentes, e o dono também pensou assim, pois marcou uma nova data para o dia 30. E como a maré era boa, antes disso, apareceu uma data para o dia 25 de dezembro de 1982. Sim, no dia do Natal, tocamos no Café Palheta's, um minúsculo bar localizado na Rua Haddock Lobo, bairro da Consolação, região da Av. Paulista. Rosana Gióia fez backing vocals, nessa apresentação.

Nós estávamos a explodir em entusiasmo, e isso refletia-se nas nossas performances. A Verônica chamava muito a atenção, claro, mas a banda estava a alucinar, também. Eu e o Zé Luiz estávamos  a entrosar-nos cada vez mais, e tanto foi assim, que criávamos convenções de baixo e bateria o tempo todo. Rubens no meio de seus ótimos solos, ainda fazia suas acrobacias, "Hendrixianas", que provocavam suspiros, gritos e assovios.

O show do dia 25 de dezembro de 1982, movimentou 35 pessoas ao Café Palheta's. O próprio dono ficou surpreendido, pois esperava um retumbante fracasso.

Claro, pelo menos doze pessoas ali presentes, eram nossos amigos, mas mesmo assim, ao considerar-se ser dia de Natal...
E por incrível que pareça, ainda houve shows em 1982, que encerrava-se muito bem para A Chave do Sol. Essas oportunidades que estavam a ocorrer-nos, foram em sua maioria, decorrentes da ascensão que estávamos a obter naquele momento. Quando se está em uma maré alta, várias chances aparecem, pois uma porta precipita a abertura de outras tantas portas. Esse momento pós-entrada da Verônica foi fantástico para a banda, pois surgiu vários convites para tocarmos e um, muito especial, estava por acontecer, logo no início de 1983. Esse seria o maior desde que começamos em setembro de 1982.
Mas só vou comentar no momento correto da cronologia dos fatos.




E assim, embalados por uma certa euforia, ainda fizemos dois shows nesse final de ano, por incrível que pareça, pela época do ano. Tocamos no dia 30 de dezembro de 1982, novamente no Café Palheta's, com a presença surpreendente de trinta pagantes, em uma época onde ninguém quer saber de nada, normalmente. E no dia seguinte, 31 de dezembro de 1982, fizemos um show de Reveillon na própria residência do Rubens. Eu considero show, porque tocamos nosso set list normal de apresentações oficiais, e também pelo fato de haver muitos amigos da banda, fora parentes do Rubens, logicamente.

Virou o ano, e 1983 pareceu-nos ser um ano auspicioso para A Chave do Sol. Estávamos sob um embalo muito forte com apresentações, e o entrosamento parecia estar a atingir um nível muito grande. Ainda por cima, tínhamos mais músicas próprias a sair do forno. Parece inacreditável, mas lá estávamos nós no Café Palheta's, para mais um show, desta feita em mais uma outra data improvável, isto é, no dia 1° de janeiro de 1983. Nada melhor do que iniciar o ano de 1983 com um show, logo no primeiro dia ! Tudo bem, ninguém é de ferro, pois só vinte pagantes apareceram, mas apreciamos muito tocar nesse dia.

A intercalar os ensaios com os shows, o Zé Luiz pessoalmente construiu caixas para o nosso P.A. De fato, ele sempre teve muita habilidade para trabalhos manuais, herança de seu pai que era dentista por profissão, mas marceneiro por hobby. Com o dinheiro que levantamos dos shows de dezembro, conseguimos comprar falantes, twiters, além de outros materiais, e dessa forma, na base do serrote, martelo e alicate, ele criou nosso P.A., com minha pequena colaboração como ajudante. 
No dia 6 de janeiro de 1983, novo show no Água Benta, com trinta e cinco pessoas presentes, e no dia 7 de janeiro de 1983, uma nova investida no Café Palheta's com vinte e cinco pessoas na plateia. Nos ensaios, nesse ínterim, mais músicas novas surgiam, e muita empolgação pelo futuro da banda, unia-nos. Outro show no Água Benta com trinta pessoas nas mesas, no dia 13 de janeiro de 1983, e no dia 14 de janeiro de 1983, uma apresentação em uma casa nova, chamada, "Sampa", um exótico bar decorado com motivos tropicais. Cinquenta pessoas assistiram esse show. Fizemos o show do dia 20 de janeiro de 1983, no Água Benta, para quarenta pessoas, e estávamos eufóricos, porque A Chave do Sol não parava de agendar shows !


Nesses shows que mencionei, ocorridos nas improváveis datas de Natal e Reveillon de 1982 / 1983, respectivamente, não tínhamos a dimensão de que uma simples fita K7, trazer-nos-ia a rara oportunidade para preservar o único registro sob áudio dessa fase da banda, com a vocalista, Verônica Luhr. De última hora, o Rubens teve a ideia de gravar os shows, mas a fita que utilizamos era usada, e ele a apanhara repentinamente no console de seu carro. Esse gesto aparentemente despojado, tornou-se um tesouro arqueológico da banda, apesar de sua precariedade sonora. Do lado "A", registramos trechos do show do dia 31 de dezembro de 1982, realizado na sala de estar da residência da família Gióia. No lado "B", trechos do show realizado no Café Palheta's, em 1º de janeiro de 1983. Tal fita ficou engavetada desde então, e só no ano de 2012, eu tive a oportunidade em digitalizá-la, não sem antes, fazer essa tentativa em estúdios profissionais e especializados nesse tipo de conversão, e receber a negativa por parte deles, visto que o estado de degradação da mesma, era bem alto. Mesmo assim, insisti, pois sabia tratar-se de um tesouro para os fãs do trabalho, e uma homenagem à Verônica Luhr, que era (é), muitíssimo talentosa. Consegui meu intento, enfim, mas mesmo a vencer essa batalha contra o relógio da deterioração natural de uma velha fita K7, houve outros empecilhos. A gravação em si, foi feita de uma forma precária, mediante o uso de um tape deck caseiro, espetado na nossa mesa de P.A.Giannini. A microfonação foi a melhor possível para os nossos parcos recursos na época, mas obviamente inadequada para capturar o som da banda, decentemente e pior, sem nenhuma possibilidade para empreender-se uma mixagem posterior, é claro. Outro fator agravante, foi que no afã de aproveitar o ínfimo espaço possível, com trinta minutos de cada lado da fita, algum amigo nosso que operou o tape deck (nesse caso, sinceramente não  lembro-me exatamente qual deles o fez), por sua conta, pôs-se a picotar as músicas. Sua intenção naquele momento foi ótima, porque quis aproveitar ao máximo o espaço, mas lamento não haver músicas inteiras, preservadas. Enviei esse material para o Site / Blog Orra Meu, que gentilmente promoveu uma edição, muito simples, com colagem de fotos e peças do portfólio da banda à época, e dessa forma, assim foi lançado no You Tube, ainda em 2012. São trechos com covers internacionais de Rock, e uma curiosa interpretação de uma canção do Caetano Veloso ("Muito Romântico"), além de Mutantes ("O Contrário de Nada é Nada"). Uma pena não haver nenhuma performance com material próprio da banda a conter a voz espetacular da Verônica Luhr, mas comemoro o fato de haver pelo menos esse registro preservado.

                    Verônica Luhr, em foto bem mais atual

Sinto-me muito aliviado por ter conseguido salvar ao menos esses parcos momentos, com essa cantora, nos vocais da Chave do Sol. A banda teria um crescimento gigantesco doravante, após a saída dela, e proporcionou-me inúmeras alegrias e lembranças que guardo com carinho na memória. Mas confesso, e já disse isso ao Rubens, recentemente (2012), que apesar das fases posteriores ostentar seus ótimos momentos, permeados por uma expansão midiática, enorme, esse período de 1982, até o início de 1983, é o meu predileto da banda, por um motivo muito simples : foi o sonho a concretizar-se pelos nossos próprios esforços, a forjar com raça, um caminho em meio à selva que era / é o meio artístico. Das apresentações humildes na clandestinidade do underground, a subir degrau a degrau, com a vontade como única aliada, e por ter sangue; suor & lágrimas como marcas da labuta. Com vocês, A Chave do Sol 1982 / 1983, a apresentar a voz da Diva Soul do "Jabaquara" (bairro da zona sul de São Paulo, onde ela residia naquela época), Verônica Luhr !

Eis o Link para assistir no You Tube :
http://www.youtube.com/watch?v=BJnuSuN_MAE



Em relação à agenda cheia que estávamos a conquistar naquele instante, foi a conjunção do fator sorte com nosso entusiasmo em desejar expandir os horizontes da banda, sem contar que houve o aspecto da ascensão da banda, graças às nossas performances alucinantes, que lembravam a fúria do "The Who", de certa forma.

No caso do mini P.A., a minha ideia e do Rubens, foi comprar um sistema de fábrica. Mas a verba mostrava-se curta e o Zé Luiz lançou a ideia para comprarmos os componentes eletrônicos e alto-falantes, além da madeira. Foi sua iniciativa e mérito. E de fato, o dinheiro que dispúnhamos, foi suficiente, e graças ao talento de marceneiro, e técnico de eletrônica, dele, fizemos um equipamento que alimentou nossos ensaios por três anos, além de shows em casas de pequeno porte.

O Dinola é muito talentoso em muitas coisas além da música. Mais ou menos na mesma época, fez cases (estojos), para a sua bateria, a utilizar madeira, que chamava a atenção de outros músicos.
Muitos anos depois, já no Sidharta (banda em que eu e ele participaríamos entre 1997 e 1999, e que tem seus capítulos exclusivos, é claro), ele fez um jipe sozinho, que foi o seu carro de uso pessoal ! Comprou todas as peças e fez o carro com fibra de vidro. Inacreditável !


Eufóricos por esse momento bom que vivenciávamos, no dia seguinte ao nosso show do Bar Água Benta, em 20 de janeiro de 1983, tínhamos um compromisso rocker para os dias 21 e 22 de janeiro : desembarcara em São Paulo, o "Van Halen", banda Hard-Rock proeminente naquele momento, e que navegava contra a maré do Pós-punk / New Wave que reinava naquele início de década. Na verdade, foram três shows, mas eu menciono dois, pois foram os que eu vi. Só o Rubens (entre nós), foi quem compareceu nos três dias.

Quando entramos no Ginásio do Ibirapuera, vimos um imenso tecido preto como cenário e uma imponente bateria Ludwig, de cor marrom, postada no centro do palco. Havia um amplificador Duovox em cada canto do palco, e ficamos estupefatos. Será que o Van Halen usaria um palco tão simples e com amplificadores brasileiros, da década de setenta ? Foi quando aproximamo-nos mais do palco que o Rubens matou a charada : era a bateria do Rolando Castello Júnior, da Patrulha do Espaço. Como assim ? Não estava prevista nenhuma banda de abertura !

Quando as luzes apagaram-se, vimos a entrada dos três músicos a aprontar-se, e aos primeiros arpejos de guitarra, a insinuar o início da canção, "Columbia", com o guitarrista, Dudu Chermont a tocar sua Fender Stratocaster, confirmamos ser mesmo a Patrulha. Garanto que muita gente, para não dizer a maioria, demorou para notar ser a Patrulha do Espaço no palco, e não o Van Halen...

Foi um show muito digno de abertura. Tocaram o set list de seu show da época, baseado no dito disco "branco" (denominado : "Patrulha"), e o Júnior fez até um belo solo de bateria, muito aplaudido. Quando a Patrulha encerrou, um exército de roadies tomou conta do palco, a tirar o equipamento da valorosa banda nacional, em segundos, como se fosse um ataque de piranhas no rio. A eficiência de uma equipe de roadies americana, era impressionante. Ficamos a observar a movimentação, atentamente.

Então, o pano preto foi içado e ficamos boquiabertos com o palco do Van Halen, imenso, ricamente ornado por uma montanha de amplificadores...bem, sem ilusões sobre a diferença entre uma produção nacional e outra, internacional, digamos assim



Os dias que seguiram-se ao show, foram marcados pela finalização das caixas do nosso mini P.A. Lembro-me de dias quentes de verão; muita Coca-Cola gelada; eu e Zé Luiz a pintar as caixas de preto, na nossa sala de ensaios; e uma vitrola Philips portátil a tocar os quatro lados do LP "Tales from Topographic Oceans" do Yes, à exaustão..."Nous sommes du soleil...du soleil"...

Teríamos muitos altos e baixos em 1983. Estávamos a viver um embalo muito bom desde o final de 1982, e alcançaríamos um pico ainda maior, logo no início de 1983, conforme estou a relatar. Logo mais na narrativa, vou falar sobre o auge dessa fase, e a queda brusca, ainda no primeiro semestre de 1983. En passant, aproveito para dizer (para reiterar, pois já falei isso, anteriormente), que esse período do início da Chave do Sol, entre setembro de 1982, até o meio de março de 1983, foi um dos que mais gostei na história da banda. A euforia que sentia pelos avanços, é uma lembrança muito boa.

Visto com o distanciamento histórico e pela ótica de um homem de 56 anos de idade de hoje em dia (refiro-me a 2016), poderia parecer exagero, pois tocávamos em barzinhos obscuros, e o máximo que conseguíramos como algo extraordinário fora uma nota em um jornal de grande circulação, e uma aparição fortuita através de um programa de TV, mas proporcionalmente, aquilo representou uma conquista tão grande, que produziu-me uma euforia enorme, e essa energia mágica, sob ordem motivacional, tratou de imprimir-me um estrato de memória dos mais doces. Tempos depois, A Chave do Sol teria vitórias estrondosamente maiores, mas eu tenho muito carinho por esses momentos iniciais da trajetória da banda.


E após assistirmos os shows do Van Halen, voltamos à nossa dura realidade... show no Água Benta Bar, dia 27 de janeiro de 1983.
Mas a despeito das condições nada glamorosas do nosso show em relação ao que vimos no Van Halen (sem contar com as cinquenta pessoas presentes, em detrimento das doze mil do ginásio do Ibirapuera), tivemos uma grande notícia. Um dos diretores de uma badalada casa noturna, foi ver-nos tocar, e daí surgiu o convite para fecharmos um pacote de shows com cachet fixo, e com o direito a dividirmos o palco com o "Tutti-Frutti"; "Fickle Pickle", e eventuais shows das bandas do BR-Rock 80's Mainstream, que estavam a acontecer toda a semana, naquela casa. Ficamos eufóricos, pois seria um tremendo salto de qualidade, e uma oportunidade de ouro que não poderíamos desperdiçar.


Uma foto a retratar o ambiente do palco principal do Victoria Pub, ao final dos anos setenta ou início dos oitenta, provavelmente

Essa casa era o Victoria Pub, localizado na Alameda Lorena, próxima aos Jardins, bairro nobre da zona sul de São Paulo. Tinha uma decoração incrível, fielmente copiada de pubs de Londres, e era também um labirinto intrincado por passagens; saletas; câmaras reservadas, dois palcos e dois bares. O público habitue, era formado em sua esmagadora maioria por playboys; milionários & esnobes em geral. Apesar de não ser o público dos nossos sonhos, tocar no Victoria Pub não era um feito para qualquer banda, portanto, ficamos eufóricos com a oportunidade. Logo no dia seguinte ao convite, fomos ao Victoria para assinarmos o contrato. O cachet era excelente ao considerar-se o fato de que estávamos acostumados a ganhar cachets modestos, oriundos do resultado incerto de bilheterias.

Outra foto que achei na Internet, mostra um dos muitos ambientes que o labiríntico, Victoria Pub, ostentava 

E nessa reunião do contrato, o gerente da casa deu-nos o regulamento da casa; horário de entrada para a passagem de som; horário de show, e advertiu-nos sobre o cuidado em não falar "palavrões" ao microfone, além de pedir para trajarmo-nos "o menos riponga possível"... ha ha ha... ainda bem que não pediu para cortarmos os cabelos...
O repertório tinha que conter alguns covers conhecidos, e não só música autoral, mas também falou-nos sobre excessos no volume.
Independente dessas restrições, estávamos muito felizes pelo salto que estávamos a dar.



O contrato foi para cumprirmos dois meses, com média de dois shows por semana, mas no todo, fizemos quatorze shows ao invés de dezesseis, como estava previsto anteriormente. A animação foi total, e sentíamos que portas ainda maiores abrir-se-iam por estarmos a imprimir um ritmo de ascensão desde que a Verônica entrara para a banda, como nossa vocalista.

E só por ver que tocaríamos toda noite a revezarmo-nos com o "Tutti-Frutti", ou com o "Fickle Pickle", já fora um tremendo sinal. Além disso, havia os shows grandes, programados. Não ocorriam nos dias em que tocávamos, mas sabíamos que haveria shows de bandas estouradas no mainstream da época, tais como o "Kid Abelha"; "Herva Doce"; "Blitz"; "Lobão e os Ronaldos"; "Lulu Santos"; "Barão Vermelho", e "Paralamas do Sucesso". Tratava-se dos grandes nomes do BR-Rock 80's, a estourar na mídia, portanto a denotar que estávamos nesse bojo, também. E pensar que dois meses antes, estávamos a tocar no Devil's Bar, sob condições precárias, em meio a ratos...

Não só por essa conquista, mas pelo crescente em que vínhamos, desde a entrada da Verônica. Foi uma sucessão de boas novas que alçavam-nos a condições melhores, sob um curto espaço de tempo. Obviamente que a banda estava muito bem, super motivada com tudo isso e especialmente em relação à entrada no Victoria Pub. Sabíamos que a badalação ali não ficava só por conta dos playboys endinheirados que frequentavam-na. Em realidade, fora as atrações musicais, havia muitos "Vip's" que ali compareciam, regularmente.
Músicos famosos; modelos; atores consagrados da TV; gente de Teatro e Cinema etc.

Quando começar a relatar sobre os shows em si, revelarei algumas histórias paralelas nesse sentido. Só havia uma controvérsia nesse contrato : tinha regime de exclusividade e nesses termos, estávamos proibidos para agendar shows em São Paulo, em outros espaços, no mesmo período. Não dimensionamos esse detalhe à época, inebriados pela sensação de ascensão, mas algum tempo depois, isso geraria o primeiro momento de queda da banda.



Nossa primeira apresentação no Victoria Pub ocorreu no dia 1°de fevereiro de 1983. Nesse primeiro show, fomos obrigados a tocar no palco menor, pois era uma espécie de primeira observação da reação do público pela banda, perante os dirigentes da casa. Dessa forma, tocamos logo após um pianista / cantor e entertainer argentino, chamado, Luchin, que aliás era muito bom, e tocava diversos standards de Jazz, músicas de trilhas de cinema etc.

Mais uma foto de um ambiente do Victoria Pub, nos anos oitenta
 
Mas o palco pequeno era pouco requisitado pelo público habitue da casa. Era mais adequado para um pianista como o Luchin, e as pessoas poder conversar enquanto bebiam, com a música ambiente quase como um "muzak". Evidentemente que A Chave do Sol não tinha nada a ver naquele espaço, ao considerar-se a volúpia sonora que nossa banda possuía. E já no segundo dia, 2 de fevereiro de 1983, fomos alojados enfim no palco principal. Com um P.A peso pesado para o lugar, e iluminação, este outro ambiente tinha aspecto de um cabaré, com o público a assistir ao nível do artista ou em pequenos camarotes sob um mezanino. Lembrava bastante aquele teatro onde no filme, "Tommy", o Elton John acompanhado do The Who, canta "Pinball Wizard", só que em uma proporção bem menor.

         Still do filme "Tommy", com a cena que descrevi acima

Ali sim, o clima esquentava, com a pressão de som, luz muito boa e público maciço. E era nesse palco que de terça a quinta, o Tutti-Frutti revezava-se com o Fickle Pickle, e A Chave do Sol foi alojada como abertura para ambos. As sextas, sábados e domingos, aconteciam os shows dos artistas mainstream, conforme já mencionei anteriormente. De volta ao dia anterior, foi quando eu conheci meus amigos, Nelson Brito e Paulo Zinner. Eles tocavam no "Fickle Pickle", uma banda que existia desde 1978, e que fora fundada pelos dois e Chris Skepis, que conheciam-se desde o final dos anos 1960, pois estudaram juntos no mesmo colégio, e moravam no mesmo bairro. Mas Skepis saíra e cedeu sua vaga ao guitarrista de blues, André Christovam. Quando os conheci, o guitarrista no entanto, não era mais o André Christovam, mas sim, Raul "Zica" Müller (com quem alguns anos depois, eu tocaria rapidamente em uma banda que não prosperou, e só fez um show - essa história está contada no capítulo "Trabalhos Avulsos" sobre a "Pinha's Band"-), e o vocalista, era o Catalau, que eu conhecera em 1980 (saiba como o conheci anteriormente, ao ler os capítulos sobre o Terra no Asfalto)...

          O Fickle Pickle, com a presença de André Christovam


Nessa época em que conheci o Fickle Pickle, eles haviam abandonado a questão autoral, quase completamente. Tocavam noventa e nove por cento de covers, e a sua base sonora baseava-se em : "The Rolling Stones"; "The Beatles", e "The Who". Anos depois, a banda voltou a atuar em paralelo ao "Golpe de Estado", e chegou a lançar disco autoral, com o André Christovam de volta à guitarra.

Catalau em foto mais do final dos anos oitenta, quando atingira grande fama com o Golpe de Estado
 
O Catalau era o vocalista, mas eu já o conhecia desde 1980, pois ele era amigo do pessoal do Terra no Asfalto, banda cover em que toquei naquela época. Sim, essa formação do Fickle Pickle, foi sem dúvida o "pré-Golpe de Estado". Representava-se ali, 3/4 do Golpe, que só nasceria, contudo, ao final de 1985. Nessa época eles nem conheciam o Hélcio Aguirra. Eu conheci o Hélcio, antes deles, em 1984, só para ter-se uma ideia.

Mais uma foto de um ambiente do Victoria Pub, nos anos oitenta
 
Tocar no palco principal do Victoria, era sensacional, pois a estrutura mostrava-se muito boa, e o ambiente lembrava o de um cabaré europeu, dos anos 1920. E havia a questão do status, pois ali era onde chamava-se a atenção, visto que no palco secundário, o ambiente era mais "lounge", para tocar comedidamente, e passar despercebido. Ao mencionar algo fora da cronologia. mas sobre o Golpe de Estado, verdade... quase todos os álbuns do Golpe tem agradecimento à minha pessoa.

De fato, eu já ajudei o Golpe em muitas ocasiões, mas seus componentes (mesmo antes de existir como banda, propriamente dita), foi que começaram a ajudar-me nessa época do Victória. O fato é que eu estava sem amplificador nessa época, e usei o amplificador do Nelson nessas apresentações no Victoria (um "Acoustic 360", dos anos 1960 / 1970). O Nelson mal havia conhecido-me, e disponibilizou seu equipamento, em uma gentileza que selou nossa amizade, de forma instantânea. Fora o prazer em tocar com um amplificador que era o meu sonho de consumo...

Nunca esqueci-me dessa ajuda, e dali em diante, ajudei-o, sempre que pude, sob uma retribuição eterna.


 
Na primeira foto, John Paul Jones como garoto propaganda dos amplificadores "Acoustic", um dos melhores, senão o melhor amplificador de baixo dos anos sessenta e setenta e usado por 9 a cada 10 baixistas de bandas de Rock britânicas e norteamericanas nessas duas décadas. Na segunda foto, promocional do "Harppia", com Hélcio Aguirra no line-up da banda. Ele é o segundo da esquerda para a direita.

Conheci o Hélcio quando ele tocava no "Harppia". Lembro em vê-lo pela primeira vez em um evento ao ar livre, a tocar com essa banda, chamado : "Praça do Rock", realizado na concha acústica do Parque da Aclimação, onde A Chave do Sol tocaria também algumas vezes, futuramente. Isso só aconteceria em 1984. Mas só tornamo-nos amigos de fato, alguns meses depois dessa apresentação, quando encontramo-nos em um show no Teatro Lira Paulistana (não lembro-me ao certo, mas acho que fora um show duplo, com apresentações das bandas "Korzus" e "Sabotage"), e nessa ocasião, voltamos juntos no mesmo ônibus que servia aos dois.


A falar sobre o público, a sua reação era boa em linhas gerais, no sentido de que dançavam e aplaudiam nos shows do Victória, mas na prática, não era um público Rocker. Eram playboys em sua maioria, e não estavam nem aí para ninguém, nem mesmo o Tutti-Frutti. Aliás, o Tutti tocava mais covers que suas músicas autorais naquelas apresentações. Para nós, era ótimo estar ali pela badalação toda, a oportunidade em conhecer pessoas do mundo empresarial e fonográfico, artistas famosos etc. Logo mais farei um relato sobre  curiosidades ocorridas em nossos shows.

Mais uma foto extraída da Internet, a mostrar o ambiente do palco principal do Victoria Pub, nos anos oitenta, recheado com Playboys & Patricinhas da alta burguesia paulistana, e que lotavam-na de segunda a segunda
 
Contudo, euforia no sentido de deslumbramento, acredito que não.
Estávamos felizes e confiantes. Quem deu uma balançada, infelizmente, foi a Verônica, conforme relatarei logo mais, e decorrente dessa instabilidade dela, precipitou-se a sua saída da banda, de uma forma triste.

                      A fachada do Victoria Pub, na Alameda Lorena

Como tenho várias coisas a contar sobre esses shows no Victoria Pub, mas sem relacionar ao dia específico, falarei sem essa preocupação. Que fique subentendido que aconteceram durante esses 14 shows que lá fizemos, entre 1°de fevereiro e 6 de abril de 1983.

1) Primeiro foi o convívio com o pessoal do Fickle Pickle. Logo que entramos no Victória, a primeira pessoa que reconheci, foi o Catalau. Eu o conhecera em 1980, por ele ser amigo dos membros do Terra no Asfalto, minha ex-banda cover, e amigo de vários amigos em comum daquela turma de freaks, moradores do bairro das Perdizes, na zona oeste de São Paulo.

A famosa pensão "São Geraldo", localizada na rua homônima, no bairro das Perdizes, onde os guitarristas, Geraldo "Gereba" e Wilson Canalonga Jr. moravam, e onde muitas reuniões do Terra no Asfalto aconteceram, inclusive com a presença do então desconhecido, Catalau...


Lembro-me sobre tê-lo conhecido em uma tarde qualquer no primeiro semestre d 1980, no quarto de pensão onde Wilson e Gereba dividiam a moradia, na Travessa São Geraldo. Ele estava lá com uma guitarra Fender Telecaster, e foi naquela fase onde já sabíamos que o Fernando "Mu" sairia da banda. Chegou-se a cogitar a entrada dele na banda, para ficarmos então com uma formação com três guitarras. Mas isso não avançou, e ele não entrou na nossa banda. Alguns meses depois, eu e Paulo Eugênio fomos visitá-lo em seu apartamento da Rua Ministro Godoy, no mesmo bairro das Perdizes. Fora uma fase sob reformulação da banda, mas não deu certo novamente, pois o Aru Júnior estava a voltar dos Estados Unidos e assumiria a vaga deixada pelo Geraldo "Gereba", que mais uma vez estava a viajar para o Nordeste. Mas isso eu conto no capítulo do Terra no Asfalto, detalhadamente e no momento oportuno da cronologia.




Nessa visita, o Catalau recebeu-nos, e ficou a fazer exercícios exóticos vocais e faciais que acabara de aprender, ao ler as instruções sugeridas no livro de um guru indiano. Foi hilário, mas ao mesmo tempo, o meu lado hippie apreciou essa maluquice que parecia perdida no tempo, em contraste com a fase dura em que estávamos a ingressar, graças ao conceito do niilismo oitentista.





E tratou-se do dia 18 de setembro de 1980... por que gravei essa data ? Simplesmente foi o aniversário de dez anos da morte do Jimi Hendrix, e fora exibido um especial na TV, no instante em que estávamos ali presentes. Por isso, fiquei contente em encontrar o Catalau, ali no Victoria Pub, em fevereiro de 1983, e verificar que a banda dele estava bem, a tocar sob contrato fixo em uma casa bem badalada de São Paulo.




Na primeira foto, mais uma ambiente do Victoria Pub e na segunda, a clássica "cozinha" do "Fickle Pickle" e "Golpe de Estado" : Nelson Brito & Paulo Zinner

E dessa forma, fui apresentado a Nelson Brito e Paulo Zinner, que depois apresentaram-me ao Raul "Zica" Müller. Instantaneamente estreitamos amizade pela proximidade de ideais, e logo de início por ser ajudado gentilmente pelo Nelson, conforme já contei. Isso porque eu estava sem amplificador, e a casa fornecia equipamento de palco, mas por alguma circunstância excepcional, esse trato foi rompido, e vimo-nos na situação em não ter equipamento disponível mais. Todavia, o Nelson prontamente ofereceu o seu amplificador e caixa, de marca "Acoustic", um equipamento que era um sonho de consumo meu, pois cresci vendo fotos e vídeos de muitos ídolos a usá-la. John Paul Jones; Gary Thain; Tim Bogert; John Deacon, e tantos outros mestres das quatro cordas, por exemplo. E de fato, era um amplificador maravilhoso, pois tinha possibilidades de equalização com muito brilho, e um peso de ao estilo "arrasa-quarteirão". Meu Fender Jazz Bass roncou forte nesses 14 shows, plugado em um amplificador desse nível...

E o Fickle Pickle, apesar de não tocar músicas autorais, era uma banda impressionante ao vivo. Tocavam Stones, Beatles e The Who, principalmente, mas com uma volúpia tal, que pareciam estar no Marquee Club, de Londres, nos anos 1960. Eu gostava muito da performance deles.

2) Outra curiosidade, foi que um dos dirigentes do Victoria Pub, tinha muitos contatos no meio fonográfico, e dessa forma, propôs aos instrumentistas do Fickle Pickle, que formassem uma banda paralela, onde ele seria o vocalista.

Dessa forma, para aproveitar-se do "Boom" do Br-Rock 80's que estava só a nascer, Paulo; Nelson, e Raul gravaram e lançaram com esse sujeito, um single. A banda tinha estética "New Wave", para seguir os ventos do pós-punk, e recebeu o ridículo nome de : "Pepino Irritadiço"...

Os meus amigos não gostavam disso, mas claro que aceitaram e gravaram, pois eram oportunidades...

A banda tinha ainda duas "vocalistas", e na verdade, era uma espécie de "Trio Los Angeles" do Pseudo-Rock New Wave...
O som era realmente uma porcaria (meus amigos também tinham essa consciência, é claro). Em segredo o Zé Luiz Dinola apelidou-o como : "Cenoura Raivosa". 



2) Entre o pessoal do Tutti-Frutti, o convívio foi muito bom, com o Luiz Sérgio Carlini. Logo o líder da banda, foi o mais receptivo, juntamente com o segundo guitarrista, Ronaldo Paschoa. O baixista era Renato Figueiredo, e o baterista era o Marinho Thomaz, ex-Casa das Máquinas, e já no vocal, outro ex-"Casa", Simbas, que eram mais reservados. A banda era muito boa ao vivo, com o Simbas a cantar muito, e fazer as vezes de frontman com a desenvoltura dos velhos tempos. Infelizmente, mesclavam muitos covers, talvez sob uma proporção 70 / 30 %.

Mas devo reconhecer que algumas interpretações soavam brilhantes. O solo em duo que Carlini e Paschoa faziam em "Hotel California", dos "Eagles", era memorável. Lembro-me em ter conversado com o Carlini pela primeira vez em uma dessas tardes, no boteco ao lado do Victoria. Fiquei muito contente em poder conversar com ele, e verificar que era extremamente humilde e acessível, sem nenhum estrelismo.

Recordo-me também de uma outra ocasião, onde ele mostrou ao Rubens o seu novo amplificador, coqueluche do momento, e tipicamente oitentista, aquele cubo Roland, cor de laranja. Parecia uma caixa de sapatos. Alguns dias depois, o Rubens comprou um combo da Music Man, e o Carlini apreciou muito o som, que ultrapassava o Roland e muito. Em outra ocasião, um outro membro do Tutti-Frutti chegou em uma tarde ao Victoria Pub, e sem ninguém para ajudá-lo a descarregar uma bateria de seu carro. Eu e o Zé Luiz fomos ajudá-lo, mas diferente do Carlini e do Paschoa, esse componente mantinha aquele distanciamento, do gênero : "eu famoso, vocês desconhecidos". O Zé aborreceu-se bastante, mas eu relevei, e não senti-me incomodado. Outro dia, o Zé deu o seu troco, ao gerar uma situação desagradável, que prefiro não contar com  maior detalhamento...



3) Sobre os bastidores:

Conforme já descrevi, o Victoria era uma casa labiríntica. A fachada não dava ideia do quanto era grande, e com tantos emaranhados de ambientes; câmaras secretas; saídas inusitadas para outros ambientes etc.

Still do filme "Tron", super modernoso Sci-Fi para aquela época, por tratar de um assunto que começava a mexer com o imaginário dos jovens, a realidade virtual e os vídeo-games... 

A decoração da casa, mostrava-se era riquíssima em detalhes, e certamente que era um luxo naquele começo de anos oitenta, já ter um serviço de TV interna, com monitores em todos os ambientes, e a exibir filmes de estilo Sci Fi, recém lançados como "Tron", e "Blade Runner", por exemplo. O ambiente era burguês, mas apesar de ser dispare, não havia nenhuma hostilidade por parte do público formado por playboys. Pelo contrário, mesmo não sendo rockers, bastava qualquer uma das três bandas fixas começar a tocar, e eles dançavam, gritavam e aplaudiam. Na verdade, queriam divertir-se; beber; drogar-se, e arrumar garotas / garotos. Muita gente do meio musical circulava ali. Lembro-me do Peninha Schimdt, Kid Vinil, e outras figuras.

Uma vez, um sujeito cujo nome não recordo-me, "alugou-nos", eu e Rubens, por uns vinte longos minutos...
Com cabelo cor de laranja e corte "esquisitinho", bem "New Wave", abordou-nos ao afirmar ser produtor musical. Queria que o procurássemos no decorrer da semana, para que levássemos o nosso material ao seu escritório, pois (supostamente), dizia que esteve envolvido na produção dos shows do Van Halen, que viera recentemente ao Brasil, e aventava a possibilidade de colocar-nos para "abrir" o "Kiss", que segundo ele, viria em junho. Deu-nos como brinde, várias palhetas customizadas do Van Halen, e seu cartão. Não era empresário, devia ser um "aspone", mas ficava circulando por aí a botar banca de.

Só fez uma observação : teríamos que cortar os cabelos à New Wave, e repaginar o figurino. Pensando bem, ele não estava errado.
Éramos anacrônicos em 1983, principalmente eu e o Rubens, com visual de Rockers, setentistas. O rapaz falou em cada um ter o cabelo de uma cor diferente, e usar aquele visual de Duran Duran...
Se fosse algo realmente concreto ao menos... mas sair por aí a "modernizar-se" à toa, seria uma estupidez, principalmente pelo fato do principal quesito, ser incompatível com esse visual oitentista : teríamos que mudar o nosso som, também...



4) Ainda a falar sobre os bastidores, lembro-me de uma noite, em específico, por termos tido a sorte em tocar para embalar uma festa da Rede Globo, a comemorar-se o encerramento de uma mini série, chamada : "Bandidos da Falange", que tratava sobre o submundo do crime no Rio de Janeiro etc e tal. Toda a equipe técnica, diretores e muitos atores esbaldaram-se ao som da Chave do Sol. Lembro-me da Betty Faria; Roberto Bonfim; Gracindo Júnior, e Júlia Lemmertz, entre outros, a dançar enquanto tocávamos.


 

 


 

Informações sobre a mini-série "Bandidos da Falange" :

http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandidos_da_Falange

E também foram notórios os shows com artistas famosos que ocorriam ali, semanalmente. Naquela época, todo mundo do BR-Rock 80's que estava a explodir, apresentou-se ali, perante multidões a assisti-los, e muita badalação. Os shows com artistas grandes do mainstream, aconteciam as sextas e sábados. Nunca fomos assistir nenhum, mesmo porque não interessávamo-nos por aquela turma oitentista, com menção honrosa ao Barão Vermelho, e ao Herva Doce, que não eram frutinhas da árvore punk, e mantinham suas raízes no Rock clássico e no Blues. E que fique bem claro, nessa primeira leva de artistas, o BR-Rock era predominantemente carioca (com exceção do Paralamas, mas estes estavam radicados no Rio, também). Paulistas e brasilienses começaram a ter espaço após, em 1984. Mas tivemos um contato discreto com uma delas, em uma sexta-feira onde havíamos passado ali só para apanhar o nosso equipamento, que não fora possível remover na madrugada anterior, quando tocamos. 

O Herva Doce, uma rara banda oitentista que não seguia a cartilha do Pós Punk e pelo contrário, mais parecia-se setentista em sua estética
 
Foi sob uma tarde quente de sexta-feira, quando vimos dois carros com placas do Rio de Janeiro, e abarrotados por equipamentos e cabeludos a chegar. Era o Herva Doce a desembarcar na Alameda Lorena. Foi curioso ver os artistas em uma situação não glamorosa, esbaforidos pela viagem, e a descarregar o carro eles mesmos, sem roadies. Lembro de um dos carros ser uma "Belina", dos anos setenta, abarrotada com equipamentos.


O guitarrista, Marcelo Sussekind, perguntou-nos a hora certa. 
Curioso o destino, pois alguns anos depois, o Rubens em sua fase pós-Chave do Sol, e pós-Patrulha do Espaço, chegou a gravar um LP com uma banda que prometia estourar. Esse disco foi gravado no Rio, com toda a mordomia de gravadora major, e o Marcelo Sussekind seria o seu produtor. Só para complementar, acho (não tenho certeza, corrijam-se se for o caso, por favor), que a tal banda chamar-se-ia "Yankee". Particularmente eu tinha um respeito grande pelos músicos do Herva Doce, pela sua árvore genealógica muito boa. Eram oriundos da "Bolha", e do "Bubbles", fora ramificações com "Os Mutantes", "Veludo" etc. Não eram da turminha do "Do It Yourself", pelo contrário, tinham história e estrada.



5) Sobre A Chave do Sol e o Victória:

Na reunião em que fechamos o contrato, o diretor da casa advertiu-nos apenas sobre não exagerarmos no visual "Riponga" (palavras e preconceito, dele), além de não falarmos palavrões ao microfone (senti-me no filme "The Rose"... -"hey you, motherfuckers"...), e pediu-nos para tocar músicas conhecidas. Não houve restrição para que tocássemos músicas autorais mescladas, mas desde que não houvesse exagero. O pagamento ficou acordado para ser realizado, semanalmente. O primeiro show, no dia 1° de fevereiro de 1983, foi realizado no palco pequeno, conforme já mencionei anteriormente. Mas logo no segundo dia, perceberam que a nossa banda jamais poderia tocar sob um palco tímido ao estilo "lounge", de piano bar, e sendo assim, escalaram-nos para o palco principal, a partir do segundo dia. Tocávamos várias músicas nossas, mas evitávamos as instrumentais muito longas, para privilegiar o talento vocal da Verônica. 

Verônica e Rubens na linha de frente, Zé Luiz na retaguarda... A Chave do Sol no Victoria Pub'1983 !

A nossa performance era frenética. Eu; Verônica, e Zé Luiz, principalmente, entrávamos a todo vapor. Eu exagerava mesmo, pois estava 100% seguro como músico, e permitia-me uma mise-en-scené frenética, sem prejuízo ao desempenho musical.

O Rubens sempre foi mais comedido e costumava tocar concentrado, e estático. Mas para compensar, tinha seus arroubos frenéticos e "Hendrixianos" ao tocar com a guitarra virada atrás da cabeça, ou mesmo a tocar com os dentes, e claro que proporcionavam picos de euforia na plateia, cujo momento aguardávamos como se fôssemos mágicos, que sabem exatamente onde usar o seu melhor truque, para gerar o clímax de seu show. A Verônica continuava no entanto na sua toada em beber antes de subir ao palco, e extrapolar nos trejeitos, ou nas bobagens ditas ao microfone. Mas algo pior estava por acontecer...
Antes que comece a contar isso, preciso mencionar que uma vez, eu cometi um acidente que poderia ter tido gravidade. Estávamos a executar a canção, "O Contrário de Nada é Nada", dos Mutantes, quando na euforia da minha mise-en-scené, fiz um movimento muito brusco com o head stock do baixo (a chamada "cabeça", onde ficam as tarraxas, que afinam o instrumento). Estava alucinado a tocar, e nem senti que dei um tranco em alguma coisa...


Eu a viver meus dias de "John Paul Jones", com meu Fender Jazz Bass a roncar forte, plugado em um amplificador, "Acoustic", modelo "360", cortesia do amigo, Nelson Brito.

Percebi que a Verônica tinha parado de cantar, porque eu a acertara violentamente com o headstock do meu baixo ! Ela estava com a mão sobre o rosto, e quando a tirou, seu rosto estava vermelho como um tomate, devido ao hematoma. Mesmo assim, continuamos, e só depois do show pude pedir desculpas pelo acidente.

Tinha meus dias de Pete Townshend ali no Victoria, e como ele, também causei acidente pelos excessos cênicos...
Fora esse acidente do qual ela foi vítima, o que estava a acontecer com a Verônica ? Ela subitamente mudara o seu comportamento para conosco. Se antes era uma moça simples e dócil, passou repentinamente a evitar-nos, e ter rompantes de arrogância.

Passou a ser comum não comparecer ou justificar suas faltas nos ensaios, e nos shows, chegava atrasada toda noite. Evitava-nos no pós-show ao máximo, ao sumir sem explicações, ou despedir-se de uma forma seca. Então descobrimos tudo, quando ela comunicou-nos que seu cachet seria pago em separado do nosso, doravante, conforme já havia combinado com o diretor do Victoria. A verdade é que haviam influencido-a e assim foi convencida a cumprir aqueles shows contratados, e livrar-se de nós, quando presumivelmente partiria para uma carreira solo, com a efêmera promessa de um contrato com gravadora major, a garantir-lhe a gravação de um disco solo, e a contar doravante, com uma nova banda contratada para acompanhá-la, e ela a ser tratada como uma  estrela, absoluta.

Inebriada por esses sonhos, passou a hostilizar-nos, naturalmente a dar como certa a sua escalada meteórica rumo ao sucesso no  patamar do mundo mainstream. Sendo assim, quando acabou o contrato com o Victoria, ela saiu sumariamente da Chave do Sol, e nós ficamos sem perspectivas imediatas, pois todo o embalo maravilhoso que havíamos engrenado, sob muita labuta, desde outubro de 1982, foi para o ralo, porque estávamos sem outras datas, e nesse momento a ter que procurar às pressas um novo vocalista ou voltarmos ao formato como Power Trio, ao necessitar reestruturar todo o repertório para o Rubens, ou o Zé Luiz cantar. Isso sem contar o prejuízo em perder uma vocalista do potencial sensacional que ela tinha. Se tivéssemos prosseguido, e com a sorte em arrumarmos um produtor...
Dali em diante, experimentamos a nossa primeira curva descendente na história de altos e baixos da banda. Relatarei a seguir essa fase dura, que durou três meses sob bastante aspereza.

Essa foto foi tirada durante a realização de um soundcheck no Victoria, sem a presença da Verônica. Tornou-se irônica, pois sua súbita debandada, obrigou-nos a voltarmos ao formato de um Power-Trio, doravante.


Claro que conversamos a respeito das atitudes dela. Mas no princípio, achávamos que era seria apenas uma fase pela qual passava, e motivada por alguma questão pessoal. Talvez fosse timidez por estar agora a tocar em um lugar badalado, com equipamento melhor, pessoas famosas a circular pela casa, e assistir-nos, ou seja, não entendíamos corretamente a leitura dos sinais. Só fomos perceber a real motivação desse rompimento à nossa revelia, quando já fora tarde demais, e então ela revelou seus planos referentes à sua carreira Pós-Chave do Sol.

Infelizmente o sujeito que lhe fez a cabeça, era um dirigente do próprio Victoria, o que de certa forma explicitava o nosso iminente fim ali dentro, a reboque. Que eu saiba, não aconteceu absolutamente nada com a Verônica nessa suposta carreira solo com disco, gravadora, e esquema empresarial que fora-lhe prometido. Posso estar errado, mas nem um disco ela gravou, que eu saiba. Tive a informação, mais ou menos em 1985, de que ela havia casado-se com o guitarrista, Jean, da banda Performática do Aguilar, o artista plástico / compositor. E parece que teve dois filhos com ele e morou no interior de São Paulo (Jundiaí, se não engano-me).

Só fui ter outra informação, muitos anos depois. Estava a assistir TV em 1991, quando a vi no programa do Clodovil, na TV Gazeta. Ela apresentou-se acompanhada de uma orquestra, no Teatro de Arame, de Curitiba / PR. A canção que ela interpretou foi um "standard", porém com um arranjo cafona, mas mesmo assim, ela cantou bem, naturalmente. 

Quanto à falta que fazia-nos um empresário, creio que se tivéssemos encontrado com um profissional com contatos e influência, acho que poderíamos pensar no caso de fazermos mudanças no som e no visual. Mas não seria algo fácil de digerir, pois éramos bem radicais. O Zé Luiz não era um rocker, propriamente dito. Essa questão de visual era mais forte para eu, e o Rubens. Mas no quesito musical, ao contrário, o Zé era bem mais radical. Se aparecesse alguém a pedir-lhe simplificações nos nossos arranjos, ele mandaria o sujeito "ir para aquele lugar"...
Mas isso nessa fase. Fatos novos aconteceram-nos, tempos depois...



Realmente, a Verônica era um talento bruto, mas subestimou a banda que tinha seus méritos, também. Não éramos descartáveis como o sujeito que fez-lhe a cabeça, deve ter sugerido-lhe. Mas naquele momento e circunstância, claro que tomamos um baque forte com a saída repentina dela. Foram alguns meses difíceis, a obrigar-nos a promover uma readaptação musical, e também para buscarmos um novo embalo, contudo, já na virada do segundo semestre, daríamos um salto geométrico, portanto, muito maior, para superar a boa fase em que estávamos inseridos entre outubro de 1982, até abril de 1983.

Se ela tivesse permanecido, poderíamos ter tido outro rumo, é bem verdade. Com um direcionamento mais pop, nossas aparições no programa de TV, "A Fábrica do Som", em julho daquele ano de 1983, poderiam ter despertado a atenção de gravadoras, e produtores. A Verônica passaria como um trator sobre aquelas cantoras em voga do BR-Rock. Com todo o respeito à Paula Toller; Virginie; Dulce Quental, e as duas meninas da Blitz, que seriam ofuscadas por ela, fatalmente, pela voz visceral, e na beleza física, ainda mais, ao contar-se com o fato que haveria uma produção cuidadosa de figurino, cabelo e maquiagem. Mas o destino traçou sua meta diferente, e entorpecida por falsas promessas, preferiu sair para mergulhar em uma aventura sem segurança alguma, e seu voo no vácuo, foi sem paraquedas, aparentemente. 



Como já expressei anteriormente, se a Verônica tivesse permanecido na banda, teria sido grande a possibilidade em despertarmos a atenção de produtores, empresários e gravadoras. Claro, teríamos que passar por muitas modificações inevitáveis no som e visual, mas teríamos todas as condições para brigar no mainstream, por um espaço.

A Verônica era uma cantora espetacular e visualmente, era tudo o que essa gente do show business desejava. Loira; bonita; esguia, e já a trabalhar como modelo, bastar-lhe-ia um pequeno "banho de loja e produção", que fatalmente a alçaria à condição de uma artista que chamaria muito a atenção. Aliás, não precisava nenhuma grande transformação, pois ela já arrumava-se bem no cotidiano, postura aprendida nos bastidores da moda, onde já trabalhava há tempos.

E no quesito voz, ela era uma joia bruta. Com o timbre e a emissão semelhantes à da Tina Turner, seria um estouro, e não havia nenhuma cantora naquele emergente Br-Rock 80's que pudesse rivalizar com ela. A Cássia Eller, só surgiria no mercado ao final dos anos 1980, início dos 1990, mas só estourou mesmo, na segunda metade dos anos noventa. Quem iria sofrer, seríamos nós três, instrumentistas da banda, pois seria dureza ter que amenizar nos arranjos, ao deixarmos de lado as nossas convicções, e adotar aquele som empobrecido do pós-punk em voga, como estética a ser seguida, e com direito àquelas timbragens de plástico, detestáveis. Isso sem contar a questão dos arranjos medíocres, letras tolas etc .E não estou nem a mencionar sobre o visual... o Zé Luiz que não era muito Rocker, não sofreria muito, mas eu e o Rubens... já imaginou nós vestidos como dândis oitentistas, e com aqueles cortes de cabelo, "esquisitinhos" ?



Ainda falando sobre a perda da Verônica Luhr, como nossa vocalista, mas a pensar bem realisticamente, se tivéssemos tido uma grande oportunidade com esquema de gravadora e empresário, seria mera questão de tempo para fazer-lhe a cabeça, e ela deixar-nos para seguir carreira solo. Ao analisar sob a ótica da experiência adquirida, penso que  só entraria em num esquema daqueles, quem tivesse contatos. A questão em termos sido esteticamente o oposto da moda estética dessa época, fora só uma agravante a mais, para afastar-nos do mundo mainstream.

Mas sinceramente, lamento muito que ela tenha sido ludibriada, e não tenha acontecido nada absolutamente grandioso com sua carreira naquele momento, pelo menos que fosse público e notório, pois a despeito de sua saída desagradável da Chave do Sol, ela merecia ter ficado famosa pelo seu talento, que era enorme.
Quanto à nossa banda, realmente, embora muito debilitada pelo prejuízo que tivemos ao perder uma vocalista do quilate que a Verônica poderia alcançar mediante uma lapidação adequada, A Chave do Sol prosperou muito, já nos meses seguintes, conforme relatarei aqui.

Naquele instante em que ficamos sem a Verônica, ficamos momentaneamente sem chão, pois como desgraça pouca é bobagem, também fomos comunicados pela direção do Victória Pub, que o nosso contrato não seria renovado. Com isso, teríamos que : ou arrumar um novo vocalista em tempo recorde, ou parar tudo para reestruturarmo-nos como trio, e voltarmos assim a tocar no circuito que estávamos a trilhar antes de entrarmos nessa casa tão badalada. Além de todo o incômodo por enfrentar essa reestruturação, seria um retrocesso tocar novamente em casas como o decadente Deixa Falar; Devil's; Café Palheta, e Água Benta Bar, com todo o respeito e gratidão que tínhamos por toas essas citadas ter aberto suas portas para propiciar nossos primeiros passos como início de carreira etc...

Então, tivemos outra ideia de imediato para a nossa continuidade, que relatarei a seguir. E quanto à Verônica, ela comunicou-nos a sua decisão de uma forma dura, quase como se tivesse aliviada por livrar-se de nós... estava realmente inebriada pelas promessas mirabolantes de seu suposto, "mecenas"...

Tanto que no último show, ela alegou falta de voz por conta de um resfriado, e nem apareceu. Tivemos que improvisar músicas que o Rubens sabia cantar, e foi um show aquém do que podíamos exibir, normalmente. Ficamos chateados, claro, mas ao mesmo tempo, diante do inevitável, vimos o lado positivo, pois estava insuportável conviver com os arroubos de estrelismo dela.


Tivemos que tocar algumas músicas cover que tocávamos logo no começo da banda, em sua fase pré-Verônica, e o set list foi decidido minutos antes, na base do improviso. Estávamos um tanto quanto despreparados com essas músicas, mas enfrentamos, assim mesmo.

Não foi uma apresentação condizente, como havíamos padronizado realizar há meses, mas não chegou a ser um vexame, também.
Estava encerrada a a nossa atuação como banda fixa do Victória Pub. Lá tocamos nos dias 1º; 2; 3; 9; 10; 17, e 23 de fevereiro de 1983, com públicos respectivos de setenta; cento e vinte; cento e cinquenta; duzentas; trezentas; cento e setenta, e duzentas e cinquenta pessoas (a assistir-nos, mas não a refletir o número de pessoas dentro da casa, pois eram muitos os ambientes e as pessoas espalhavam-se). Em março de 1983, tocamos nos dias 2; 9; 10; 15; 22; e 29, com público respectivo de duzentas; duzentas e cinquenta; duzentas; trezentas; vinte, e quinze pessoas a assistir-nos. E o derradeiro show, ocorreu em 6 de abril de 1983, sem a presença da Verônica Luhr, com melancólico público de apenas dez pessoas na plateia.

Logo mais, falarei sobre os primeiros passos sem a Verônica, e a ideia que tivemos para dar continuidade aos nossos planos de expansão.

Verônica Luhr, em uma foto bem mais atual, que achei na Internet.

Continua...

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