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terça-feira, 12 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 5 - Indo para a TV, e a Vida Começando a Mudar - Por Luiz Domingues

Feito o show de abertura para a Patrulha do Espaço em Limeira, com grande sucesso para nós, estávamos eufóricos pela proximidade da nossa primeira apresentação na TV. Fizemos ainda um ensaio antes da gravação do programa, pois éramos muito dedicados, porque realmente não precisava....

Era o dia 12 de julho de 1983, uma terça-feira, quando chegamos no período da tarde no Teatro do Sesc Pompeia, zona oeste de São Paulo. Estava frio, ainda numa época pré-aquecimento global e portanto com invernos rigorosos e bem definidos. Quando chegamos, fomos orientados a aguardar nossa vez de fazer o soundcheck, e portanto esperamos no camarim. Assim que fomos chamados ao palco para o soundcheck, tivemos uma ligeira indisposição com os técnicos do equipamento de P.A. e os técnicos da filmagem da TV Cultura.

Uma visão do palco do Teatro Sesc Pompeia, com a presença de público pelos dois lados, além de um mezanino com camarotes
 
Ocorreu que o Rubens levou seu amplificador, e o Zé Luiz, sua bateria Tama. Evidentemente que seria muito mais conveniente para a nossa apresentação ter mais qualidade sonora, que o Rubens usasse seu amplificador "Music Man", ao invés do amplificador "Palmer", disponibilizado pela produção. E usando sua Tama, o Zé Luiz atuaria com total qualidade, ao invés de uma bateria Gope, de qualidade inferior, e meio desconjuntada...
Aliás, era uma bateria que estava em todas as produções musicais da TV Cultura, e que infelizmente o Zé Luiz foi obrigado a usar em ocasiões posteriores. Driblamos a indisposição com os técnicos, que pelo óbvio motivo da preguiça, não queriam que usássemos nossos equipamentos. Só eu usei o amplificador de baixo disponível no palco, mas sem prejuízo para o som da Chave do Sol, pois era um velho Duovox, que a despeito de ser nacional, timbrava muito bem, e o meu Fender Jazz Bass roncou forte. Passada essa indisposição, que aliás seria uma praxe doravante na minha trajetória musical (e que depois percebi isso em relação aos técnicos de P.A. em geral, salvo raras exceções), fomos ao camarim para aguardar a chamada para o show / filmagem. Coisas engraçadas aconteceram naquele camarim, conforme relatarei a seguir.



No camarim do Sesc Pompeia, fomos bem tratados pela produção do programa. E por serem pessoas simples e honestas, deram chance para inúmeros artistas desconhecidos, sem parentes importantes e dinheiro no bolso, como dizia o Belchior, aliás, nosso caso.

Lembro-me mais detalhadamente de três pessoas : Pedrão, Cristiane Macedo e Marina. Futuramente, tivemos envolvimento profissional com essas duas moças, mas relatarei na cronologia.
Do camarim, ouvíamos o murmurinho das pessoas agitadas na fila.
Naquela época, o programa "A Fábrica do Som" já tinha virado uma febre na TV, e atraía um enorme público às dependências do Sesc.

O fato é que havia um acordo entre a TV Cultura e o Sesc, para não cobrar ingressos, e com o volume de gente crescente, foram obrigados a mudar a política, pois de um patamar com cerca de 800 pessoas que eram permitidas no teatro, começaram a "empilhar" 1500, com no mínimo mais 500 na rua, tentando entrar à força, e invariavelmente o Sesc era obrigado a chamar a Polícia Militar para coibir tumultos. Eram diversos artistas e aspirantes a, dentro do enorme camarim, além do entra-e-sai de técnicos da TV, funcionários do Sesc, e do equipamento de P.A. locado para o evento. Das atrações arroladas para o nosso dia, só conhecíamos o pessoal do "Tonelada e seus Kilinhos", cujo vocalista era conhecido de adolescência do Rubens. Seu som era na onda do Rock satírico, tentando achar uma brecha no mercado, via Leo Jayme; João Penca e seus Miquinhos Amestrados, e até Eduardo Dusek, artistas esses que surfavam nas ondas do BR-Rock oitentista, usando tal recurso de linguagem. O Ultraje a Rigor os atropelaria a seguir com tal proposta, mas nesse momento, ainda não haviam estourado para valer, porém estavam na boca do forno para tal, via "Inútil".

O excelente "Duofel", artistas comprometidos com o Folk e a  qualidade técnica, inquestionável

Das outras atrações escaladas, conhecíamos o trabalho do Duofel, que era uma dupla de violonistas sensacionais, num trabalho instrumental de alto nível, mesclando Jazz, erudito e música de raiz brasileira, e a Tetê Spíndola, que era egressa do movimento "Vanguarda Paulista". Fato engraçado é que uma famosa atriz que fazia um programa infantil da TV Cultura nessa época, perambulava pelo camarim e teve que usar o banheiro do camarim. Deve ter sido constrangedor para ela, pois eram aqueles reservados semi vazados, onde vê-se os pés e um pedaço do tornozelo das pessoas. Ela viu-nos olhando para ela, e chegou a demonstrar no semblante que queria desistir, mas acredito que o problema fisiológico que precisava resolver era muito maior, e dessa forma...
Mas o Zé Luiz não resistiu e quando ela saiu, soltou uma piada indireta. Acho que ela não ouviu, pois minutos depois, por ironia do destino, ela entrevistou-o, elegendo-o como porta voz da banda...
Daqui a pouco, prossigo...

Do camarim, ouvimos o público entrando, e pelos gritos, sabíamos que lotaria completamente o teatro. Aliás, superlotaria, pois costumavam abarrotar, e dessa forma, ter gente além da capacidade oficial. Então, fomos chamados enfim. A bateria e o amplificador já estavam próximos, e foi rápido montá-los para a nossa performance, apesar da má vontade dos técnicos, que faziam sinais acintosos de descontentamento por conta de nossa exigência. Se depender deles, todo mundo toca no mesmo equipamento, e com o set up de equalização igual, tudo flat. São "comodistas" por excelência (evito usar outro termo mais adequado, para não pesar na narrativa), e pouco lixam-se para as necessidades técnicas diferenciadas de cada artista.

Logo que entramos no palco e aprontamo-nos, dava para sentir a expectativa no ar. Éramos ilustres desconhecidos do público, e tudo o que construímos ao longo de 9 meses de trabalho, a despeito de "pequenas grandes" vitórias, nada representava aos olhos do grande público. Começamos com "Utopia". Era um Rock simples, com melodia e letra bem pop, e poucas firulas (mas haviam, conforme o leitor pode conferir no vídeo que posto abaixo.) 

http://www.youtube.com/watch?v=YfBvb6ql8HI
Link que direciona ao vídeo citado, no You Tube


Assim que acabou, fomos muito aplaudidos, e arrancamos alguns gritinhos mais efusivos. Um sujeito da plateia chegou a provocar-me, mas de leve. Eu estava usando um macacão de estilo "jardineiro", e na última hora, no camarim, resolvi tirar a camiseta que usava por baixo, e fui apresentar-me assim, e ainda inventei de usar um cachecol enorme enrolado no pescoço, tornando meu figurino, exótico.

Aí, ouvi um grito, cujo autor da frase, não identifiquei, visualmente.
O elemento gritou : -"aí, seu lagartixa"...
Fazia referência ao fato de eu estar absolutamente branco, sem nenhuma graduação de bronzeamento. Mas, levei no bom humor, e não achei ofensivo ou desdenhoso. Por sorte não tornou-se viral. Não que eu ofendesse-me se aquilo tornasse-se um epidemia de pilhérias, ou mesmo um coro com uma palavra de ordem. Mas poderia ser desastroso para o andamento da nossa apresentação, no sentido do desvio de foco. Se tivesse acontecido, poderia ter atrapalhado-nos e muito, não permitindo que as pessoas pudessem prestar atenção na nossa música. A apresentadora Silvana Teixeira, que já mencionei anteriormente, fez a seguir uma micro entrevista, escolhendo o Zé Luiz para falar, provavelmente por ele ter sido o vocalista da música "Utopia", e naturalmente as pessoas tendem a achar que quem canta, é o líder da banda. Mas sem queixas, pois éramos abertos e democráticos, e assim, todos falavam sem problemas, em qualquer entrevista.

A segunda música que tocamos, foi "Crisis (Maya)". Nesta altura, o público já estava conquistado. Enquanto eu tocava, olhava para todos os lados, e via pessoas dançando; tocando instrumentos imaginários; sorrindo; batendo palmas, enfim, muitas reações diferentes de pessoa para pessoa, mas o importante é que estávamos provocando essas reações positivas. Por ser um tema muito mais complexo do que o anterior ("Utopia"), percebia que o público ia inflamando-se. As convenções e o arranjo individual de cada um, cheio de desenhos, começaram a impressionar a plateia, que era formada em sua maioria por amantes de Rock setentista, fãs do Raul Seixas etc.




Apesar do programa ser o berço de inúmeras bandas de estética "moderna", oriundas do pós-punk, e derivados dessa tendência, o público era em essência formado por hippies anacrônicos, seguidores de Raul Seixas etc. Dessa forma, o nosso som caía como uma luva, pois tocávamos na contramão da estética vigente, e sua ruindade musical inerente e indecente...


A partir do solo, a Fender Stratocaster do Rubens deu uma desafinada básica. Ele abusava (ainda bem !), do uso de alavanca, "Hendrixiano" que era, mas isso causava um dano à afinação, certamente. Na parte final, onde ele toca diversos acordes de influência jazzistica, isso ficou evidenciado. Mas mesmo assim, a performance foi boa, e o público gostou muito. Notamos um certo desconforto dos produtores da TV, com o tamanho da música, naturalmente achando que tocaríamos três músicas do tamanho de "Utopia".

Isso explica o fato de na edição da TV, só terem colocado "18 Horas", outra mais longa ainda. Mas também concordo que foi a melhor da nossa performance no dia, e a que provocou a maior reação, conforme relatarei a seguir.
Eis o Link do vídeo de "Crisis (Maya)", no You Tube :
http://www.youtube.com/watch?v=ulOWgEvvl44

Contudo, devo observar que o público foi reagindo num crescendo.
Antes de darmos a primeira nota de "Utopia", o sentimento era de profunda incógnita estampada naqueles rostos. Mas após "Crisis (Maya)", já estavam ganhos. Porém, ao final de "18 Horas", foi uma ovação.


Enquanto o Rubens tratava de afinar sua Fender Stratocaster, o apresentador Tadeu Jungle entretinha o público, que nessa altura, já estava muito simpático à Chave do Sol, após quebrarmos o gelo.
E mais que isso, havíamos arrancado muitos aplausos e gritos com a execução das duas músicas anteriores, "Utopia" e "Crisis (Maya)".
Assim que o pessoal da TV autorizou, o Tadeu Jungle anunciou mais uma música nossa.

Eu iniciei o riff de "18 Horas", que começa com o baixo, como todo mundo que conhece essa música, bem sabe. Está bem claro no vídeo, eu estava sorridente e tranquilo, pois sentia o público bem favorável e estava confiante, porque a banda estava bem ensaiada e não só eu, mas os dois outros membros do nosso trio, estavam super seguros, também.

À medida que avançávamos na música, eu olhava para a plateia, e via nos semblantes a euforia tomando conta das pessoas.
O que era uma recepção boa, foi aumentando a sua graduação rapidamente e sendo assim, já na metade da música, pessoas dançavam, batiam palmas etc. Inclusive no vídeo, tem vários flagrantes nesse sentido, bem explorados pela edição da TV Cultura.

Chegou o momento do meu solo. Usei o máximo das possibilidades da câmera móvel que acompanhava-me de muito perto. O cinegrafista empolgou-se com minha movimentação frenética, e eu entrei na dele também, ao perceber que ele fazia movimentos malucos, visando enquadramentos nada usuais. Encontrei com meu pai alguns dias depois da exibição na TV, e ele não querendo dar o braço a torcer, pois não aprovava minha insistência em ser músico, mas nitidamente orgulhoso, limitou-se a dizer que eu devia fazer menos caretas na TV, enquanto tocava...
Bem, realmente olhando o vídeo, acho que exagerei um pouco, mas... eu tinha 23 anos de idade, vinha de uma luta de 7 anos para chegar num momento daquele, e sentindo a banda explodindo, e com o público respondendo, empolguei-me, naturalmente...

Realmente, impressionar as 1500 pessoas ali presentes no teatro do Sesc Pompeia, era muito importante, mas levávamos em conta que havia a cúpula da TV Cultura, com todos os produtores da Fábrica do Som ali envolvidos, também. Isso sem contar jornalistas de outros órgãos; olheiros de gravadoras, gente envolvida com produção musical etc. E milhares de telespectadores...
Como falei no capítulo anterior, enquanto tocava, pensava o quanto era importante causarmos uma boa impressão aos telespectadores.
Claro, não era a Rede Globo, mas mesmo nos padrões modestos da audiência da TV Cultura, seriam milhares de pessoas a assistir-nos...

Após o solo do Zé Luiz, veio a parte mais densa da música, onde o Rubens soltava seus bichos "Hendrixianos", com um solo pesado, e da pesada. Embora não fosse do seu feitio movimentar-se, pois tocava estático, tinha na manga, seus trunfos.

Quando tirou a guitarra da postura normal, e solou com os dentes, e com o corpo dela às suas costas, enlouqueceu de vez o público.
Vi gente pulando, como se estivesse numa arquibancada de estádio, comemorando um gol. Foi uma explosão incrível de euforia, que extrapolava a mais otimista previsão que poderíamos ter feito.

Esperávamos fazer uma boa figura, mas essa euforia espontânea, surpreendeu-nos, e basta olhar o vídeo para ver que nós três estávamos boquiabertos com essa reação coletiva. Num dado momento dessa explosão, dá para ver no vídeo um rapaz levantando-se, com um gravador portátil na mão. Era um radialista da Rádio Cultura AM, que vendo aquela reação, levantou-se rapidamente para chegar primeiro ao camarim, e entrevistar-nos.

Quando a música encerrou-se, grande parte do público levantou-se para aplaudir-nos, e um coro espontâneo pediu "bis". Não era possível tocar mais uma, e mesmo vendo essa reação espetacular do público, a produção do programa apressou-se para sairmos, pois outra banda esperava para apresentar-se. Chegamos ao camarim suando em píncaros, mas eufóricos. Esbaforidos e suados, concedemos entrevista à Rádio Cultura AM.

O jornalista foi muito simpático, embora tenha feito apenas as perguntas básicas que esperar-se-ia para um artista desconhecido, e entre tais colocações padronizadas, questionou-nos sobre perspectivas de lançamento de disco. Naquela época, estávamos com uma perspectiva, ainda que remota. Falarei sobre isso logo mais. Aliás, falando sobre perspectiva de gravação, havia uma segunda alternativa, que parecia ainda mais utópica naquele instante, mas, acabou concretizando-se logo a seguir.

Voltando ao momento da Fábrica do Som, digo que os produtores do programa cumprimentaram-nos efusivamente. Saímos eufóricos do Sesc Pompeia. E no dia seguinte, uma quarta-feira, tive o primeiro sinal de que aquele momento seria um divisor de águas na carreira da banda. Dirigia-me ao ensaio, no horário habitual, quando um rapaz abordou-me na plataforma da estação Tatuapé do Metrô. Perguntou-me se eu era o baixista da Chave do Sol, cumprimentou-me e pediu um autógrafo...
Achei emblemático, mas o que mais empolgou-me foi projetar que quando o programa fosse ao ar, no sábado subsequente, esse tipo de manifestação seria multiplicado numa proporção incalculável.

Então, esse programa foi mesmo o agente causador que tirou-nos do anonimato, catapultando-nos a um degrau de visibilidade mínima no mercado musical, o suficiente para entrarmos enfim, na briga por um lugar ao sol. Estávamos na guerra, e em condições de lutar, finalmente ! E quando o programa foi ao ar, isso confirmou-se, pois a nossa performance foi muito elogiada.

A edição oficial que a TV Cultura colocou no ar, contou com uma animação (com um foguete colorido no meio da música por alguns segundos). Mas nós conseguiríamos, através de um contato direto da produção, uma cópia com a filmagem bruta, sem tal intervenção, também, além da filmagem das músicas "Utopia" e "Crisis (Maya)".




Assistimos a exibição na casa do Rubens no sábado, 16 de julho de 1983. Duas horas antes, já tínhamos ouvido o programa especial da Rádio Cultura, com a entrevista e a execução de "18 Horas" naquela emissora.

Portanto, já estávamos eufóricos pela ótima performance da banda, e os elogios do radialista, fora a entrevista, onde eu fui o que mais falei. Estávamos acompanhados dos familiares do Rubens, e de alguns amigos. Comemoramos a exibição, e ficamos muito contentes com o resultado sonoro e visual na tela da TV (apesar do foguetinho...).



Este vídeo acima é a da versão oficial que foi ao ar na TV Cultura de São Paulo, no dia 16 de julho de 1983, mostrando a nossa performance da música "18 Horas", contendo a tal edição com o desenho animado inserido, que mencionei no capítulo anterior. 
Bem, como já havia dito anteriormente, após essa aparição na TV, tudo mudou. Saímos de uma condição de anonimato para um começo de notoriedade. Um dos primeiros reflexos de que as coisas começaram a mudar, foi que pessoas ligadas à produção da Fábrica do Som, comunicaram-nos alguns dias depois, que estavam chegando muitas cartas na TV Cultura, elogiando-nos, pedindo informações ou simplesmente pedindo que A Chave do Sol aparecesse mais no programa.

Isso animou-nos muito, evidentemente. Mas estávamos desestruturados para capitalizar essa oportunidade com as duas mãos, naquele instante. Por exemplo, numa Era pré-Internet popular como é hoje em dia, nem tínhamos uma caixa postal nossa, e exclusiva para começar a centralizar essa popularidade crescente. 
A nossa ficha só caiu, quando recebemos essa informação sobre cartas sendo endereçadas à TV Cultura, e não diretamente para nós.

Outro fator crucial e óbvio, era o de não termos um empresário. 
Se tivéssemos alguém minimamente estruturado representando nossos interesses, teríamos vendido muitos shows, aproveitando esse embalo inicial. Mas como não tínhamos nada disso, essa primeira aparição na Fábrica do Som foi fantástica, mas mudanças visivelmente significativas, só começariam a ocorrer algum tempo depois. Paralelamente, havia uma esperança de contato fonográfico à vista. 

Tratava-se de um contato travado pelo pai do Rubens, que conhecia executivos de uma gravadora chamada "Copacabana". Era uma gravadora muito longe do nosso espectro artístico, e que praticamente só lançava artistas brega, mas não podíamos desprezar a boa vontade do pai do Rubens, e naquela época, era importante lançar um disco rápido, exatamente para capturar essas oportunidades que estavam aparecendo. Uma reunião foi realizada entre o pai do Rubens, alguns executivos da gravadora, e o próprio Rubens, foi quem levou nosso material. Claro, nessa época, o material era fraco em termos de portfólio, não indo além de algumas poucas fotos, poucos recortes de jornais e filipetas, além de gravações caseiras de nossas músicas. Nosso maior trunfo era evidentemente a cópia de nossa aparição triunfal na Fábrica do Som.

Mas... era uma gravadora brega. Cantores brega; boleros; pop vagabundo; discos infantis... esse era o mundo da "Copacabana", e mesmo tendo seus executivos como amigos do pai do Rubens, recusaram-nos.

Todavia, vou ser sincero, aqui. Apesar de estarmos precisando de um disco lançado com urgência para impulsionar a carreira e aproveitar a maré pós Fábrica do Som, na realidade nenhum de nós três realmente queríamos ter um disco lançado numa gravadora daquele espectro artístico, exatamente sob a pena de ficarmos estigmatizados. Outra solução fonográfica surgiria logo a seguir, nesse embalo da Fábrica do Som, conforme relatarei logo mais.

Ainda falando sobre a gravadora Copacabana, estávamos bem ressabiados, pois além de "pegar mal" para nós, ainda era um tempo onde gravadoras eram corporações que manipulavam o artista em 100%, interferindo em todo o conteúdo artístico; visual; áudio, estratégia etc etc. Seria vender a alma ao demônio, sem garantias de êxito assegurado e ainda pior, com a perspectiva de entrar num mundo brega, sem possibilidade de volta. Portanto, a negativa dos executivos de tal corporação foi até um alívio estratégico, mesmo levando em conta toda a boa vontade do pai do Rubens em ajudar-nos naquele momento. E de fato, o Dr. Rafael, era uma pessoa sensacional, e sempre disposto a auxiliar-nos. Mas logo a seguir, surgiu uma nova oportunidade.

O Rolando Castello Júnior, baterista da Patrulha do Espaço, deu-nos o toque sobre um dono de uma loja de discos no centro de São Paulo, que estava com um pequeno selo independente, lançando muitos artistas novos, e outros não tão novos assim. Esse rapaz era Luiz Carlos Calanca, e sua loja, estabelecida numa Galeria da Av. São João, chamava-se "Baratos Afins".

Note que o conceito de "Galeria do Rock" ainda não existia em 1983, embora o Luiz não estivesse sozinho naquela época, pois já existiam outras lojas de discos estabelecendo-se no local. E quando fomos conversar com ele, além do Júnior da Patrulha do Espaço ter feito a nossa propaganda, estávamos colhendo os primeiros frutos da repercussão de nossa primeira aparição no programa "A Fábrica do Som", portanto, ele já sabia quem éramos, pois uma coisa o Calanca sempre foi : antenado. A primeira conversa foi excelente, mas não definiu nada. Ele estava envolvido com recentes lançamentos, e dizia não ter como colocar-nos em estúdio imediatamente, exatamente por estar gravando outros artistas, e portanto descapitalizado. Mas num curto espaço de tempo, uma solução conciliadora surgiu, e viabilizou a nossa parceria com a Baratos Afins, que relatarei em breve.

Enquanto isso, finalmente conseguimos marcar um show, tentando capitalizar a enorme repercussão que a aparição na TV havia proporcionado-nos. Não era um lugar glamoroso, mas foi o melhor que pudemos fazer. Tratava-se de um bar, localizado em Pinheiros, zona oeste de São Paulo, chamado : "Espaço Aberto". Era bem montado e bem localizado, embora naquela época, Pinheiros tivesse pouca movimentação de casas noturnas, nada comparado a hoje em dia, quando são centenas de casas, muitas com música ao vivo.

Para a nossa sorte, uma produtora da TV Cultura que havia afeiçoado-se à nossa banda, inseriu um testemunhal falando desse show ("Espaço Aberto Bar" em 6 de setembro de 1983), numa edição da Fábrica do Som, às vésperas da data marcada, mesmo nós não estando nessa edição do programa em si.
Essa micro propaganda foi vital, pois quando chegamos à casa para tocar, haviam muitos Rockers  na porta. Confesso que senti um frio na barriga, pois mesmo com o aviso rápido na TV, achava que não motivaria muita gente, pois num dia útil a noite, e na porta de um bar sem tradição alguma com o Rock, aquele bando de cabeludos na calçada, só podia ser público interessado em ver-nos. E de fato, era mesmo !

No borderô oficial, foram computados 60 pagantes naquela noite, mas seguramente havia mais de 100 pessoas na porta. Muitos foram embora porque o couvert cobrado pela casa estava "salgado", e nós não podíamos evitar essa antipática atitude do estabelecimento, que ficou irredutível nessa postura de cobrar caro. Muita gente foi embora frustrada, mas não pudemos fazer nada para impedir isso, infelizmente. Fizemos um show bom, mas eu particularmente sofri um abalo pessoal naquela noite. Esse fato já está contado com detalhes no capítulo do Língua de Trapo.

       Pituco Freitas & Laert Sarrumor, em foto bem mais atual  

Aqui, resumidamente, conto que em meio à multidão de cabeludos que estavam na porta, avistei dois velhos conhecidos : Laert Sarrumor & Pituco Freitas, membros do Língua de Trapo.
Nessa noite, eles foram lá deliberadamente para formalizar-me um convite : queriam que eu voltasse a ser integrante do Língua de Trapo, pois haviam brigado e rompido com o baixista, Luiz Lucas.

Eu, Luiz Domingues; Laert Sarrumor; Guca Domenico e Paulo Estevam, num show dos primórdios do Língua de Trapo, em 1979

Era curioso, pois eu deixara a banda em 1981, e o Luiz Lucas foi o baixista que substituiu-me. Agora, trocaríamos novamente. Começaria aqui um período difícil para A Chave do Sol, pois eu não tinha outra alternativa a não ser aceitar fazer parte das duas bandas, simultaneamente, pois o Língua de Trapo havia crescido muito e naquele momento, tinha agenda semelhante à de duplas sertanejas dos dias atuais, com muitos shows e exposição na mídia, portanto, tratava-se de um convite irrecusável. A Chave do Sol estava ascendendo, mas ainda não permitia-me uma segurança financeira satisfatória. Sob o ponto de vista do Língua de Trapo, já comentei tais fatos no capítulo específico dessa banda, esmiuçando a minha volta à banda. Farei o mesmo aqui, naturalmente pela lado da Chave do Sol. Fora isso, foi um bom show esse do "Espaço Aberto", em 6 de setembro de 1983, com aqueles 60 Rockers presentes, saindo de lá sem lamentar a "facada" que a casa deu-lhes no bolso...

Claro que quando contei sobre essa proposta ao Rubens e ao Zé Luiz, os colegas ficaram chocados, e bem chateados. Era óbvio que a nossa rotina de ensaios, e a agenda seria prejudicada, pois o Língua de Trapo vivia uma situação profissional muito melhor do que a nossa. E naquele choque inicial, ninguém poderia apostar que eu não fosse seduzido por essa situação, e A Chave do Sol, seria prejudicada, pura e simplesmente. Não que eu fosse insubstituível, longe disso, mas uma eventual saída minha, provocaria um atraso nos planos da banda, que vivia tempo de expansão franca, após a primeira exibição na TV.

Mas enquanto eu apenas começava a ensaiar com o Língua de Trapo, ainda esforcei-me ao máximo para não prejudicar A Chave do Sol. Foi uma fase cansativa demais, pois eu saía do ensaio do Língua por volta das 18:00 h, e dirigia-me ao ensaio da Chave, começando às 19:00 h. e esticando até as 22:00 todos os dias.
Claro, contava com o apoio do Zé Luiz que cedia-me carona, visto que ele morava em Pinheiros, e sendo assim, era no mesmo bairro onde o Língua ensaiava. E além do mais, eu tinha 23 anos de idade, e com essa idade, nenhum desconforto derruba um homem jovem, com vontade de trabalhar e empolgado com as perspectivas, potencializando sua força interna. Alguns dias depois de fazermos esse show no bar "Espaço Aberto", recebemos um telefonema da direção do programa "A Fábrica do Som" : queriam que voltássemos ao programa para mais uma apresentação a ser gravada no final de setembro.

Seria um programa especial, homenageando Jimi Hendrix, por ocasião de sua data de falecimento. Ficamos eufóricos, e claro que aceitamos o convite imediatamente. Era uma prova cabal de que estávamos galgando degraus muito rapidamente, e que não podíamos desperdiçar mais uma chance de divulgação maciça como a TV. Nessa mesma época, saiu uma reportagem enorme na extinta revista "Manchete", falando sobre o "Boom" do BR-Rock em 1983.
Várias bandas foram fotografadas juntas no Monumento das Bandeiras, próximo ao Parque do Ibirapuera, aqui em São Paulo.
Lembro-me bem da presença dos "Paralamas do Sucesso"; "Kid Abelha & Os Abóboras Selvagens"; "Barão Vermelho", e "Lobão & os Ronaldos", nessa foto. Haviam outros, mas lembro-me melhor desses.

Com essa revista em mãos, lembro-me bem de dizer aos colegas, Rubens e Zé Luiz, que precisávamos tirar o tempo perdido e não deixar essa turma distanciar-se de nós. Ensaiando o melhor que podíamos, devido ao fato de eu ficar dividido com o Língua de Trapo atraindo meu tempo e dedicação, preparamo-nos bem.
E assim, no dia 27 de setembro de 1983, subimos mais uma vez ao palco do teatro do Sesc Pompeia, para encarar mais uma gravação do programa "A Fábrica do Som".

O teatro estava absurdamente cheio, e houve tumulto na porta, com mais pessoas querendo entrar. Era uma adrenalina absurda, mas desta vez estávamos ainda mais confiantes. A experiência adquirida na primeira exibição, deixou-nos muito mais seguros, principalmente pela reação esfuziante dessa ocasião, mas também pelo fato da cúpula do programa ter afeiçoado-se à nossa banda.
A primeira música que tocamos foi "Átila". 

 http://www.youtube.com/watch?v=mXUqywOna-U
(acima, o link para assistir a música citada, no You Tube)


Tratava-se de um tema instrumental pesado, quase um Hard-Rock, mas com diversas convenções de baixo e bateria bastante ousadas, no estilo do Jazz-Rock setentista. Tocamos com muita garra o som e enquanto eu tocava e esforçava-me para ter uma mise-en-scené a mais frenética que podia, olhei fixamente para toda a plateia, e num dado momento de minha panorâmica, encontrei um rosto conhecido na multidão, sendo João Dinola, irmão do Zé Luiz.

Eu conhecia o João muito bem, e sabia que ele era um rapaz tranquilo, mas quando fitei-o, estava com uma expressão facial de espanto, que muito impressionou-me. Isso porque eu sabia que o João já tinha visto-nos tocar várias vezes, e que tinha consciência do nosso potencial, mas dessa vez, ele surpreendeu-se com a nossa performance, tocando com a pressão de um P.A. de grande porte; casa abarrotada; TV filmando, e uma adrenalina absurda. Horas depois, ele mesmo disse-me que estava boquiaberto com a nossa performance e que teve a impressão que nós iríamos explodir em grande escala dali em diante. 

Após a execução da música "Átila", a adrenalina estava a mil por hora. Passado o intervalo pedido pelos técnicos, iniciamos a execução da segunda música da noite : "A Dança das Sombras".
Tratava-se de um tema instrumental com duas partes distintas.
Na primeira parte, com um ritmo "swingado", meio na onda do Jazz-Rock de acento funk, típico da metade dos anos setenta. 


http://www.youtube.com/watch?v=kgAM_PHm7V8
(O link acima direciona para o vídeo da música "A Dança das Sombras", no You Tube)


O Zé Luiz começava puxando esse ritmo, e logo de início o público embarcou, com muitas pessoas acompanhando com batida de palmas, e outras dançando pelos corredores. Num determinado ponto, fazíamos uma convenção preparatória e mudávamos radicalmente de ritmo e andamento, acelerando para um jazz com bastante liberdade de improviso, mas com convenções estratégicas ao longo do tema, o tempo todo. Dessa forma, evoluímos bem, pois estávamos absolutamente seguros, com muito ensaio, e a única preocupação era estabelecer uma mise-en-scené muito marcante, para realçar a performance. Claro, dentro de nossas características, pois o Zé tinha uma presença espetacular, mesmo sendo baterista; eu esforçava-me para tocar freneticamente, mas o Rubens tinha aquele jeitão dele, estático. Ele só foi começar a soltar-se de 1984 para frente, mas naquele instante, ele tocava circunspecto, como o John Entwistle, no "The Who". Todavia, para compensar sua postura imóvel, ele tinha na manga, seus malabarismos Hendrixianos. E nesse momento, chamava tanto a atenção que invariavelmente provocava picos de euforia na plateia. Era uma arma nossa a mais, sem dúvida.

O final da música foi triunfal, com o público reagindo da mesma maneira de que na primeira exibição nossa, três meses antes, ou seja : público ovacionando, pedindo bis, e muita gente aplaudindo de pé. O efeito cascata que essa segunda apresentação causaria foi incalculável. Dali em diante, a nossa popularidade aumentou muito, e mais para frente falarei sobre notícias vindas de outras cidades e estados, pois a TV estava levando-nos longe. Mas ainda preciso falar sobre essa noite da gravação. Quando chegamos ao camarim, um misto de euforia e preocupação estava nos rostos das pessoas da produção do programa, alheios ao nosso sucesso no palco. Um artista havia faltado, e isso geraria um buraco no cronograma deles.
Dessa forma, fomos quase intimados a fazer uma jam-session com outra banda no palco. Se a outra banda fosse tocar mais uma música deles, não teríamos ficado chateados. E se deixassem-nos tocar mais uma, tínhamos várias músicas como opção, e teria sido um prazer, além de ter sido mais uma oportunidade de divulgar nosso trabalho. Mas o pessoal da produção insistiu nessa ideia de nós tocarmos juntos com uma outra banda, o que foi uma grande bobagem, para ambas, e certamente para o programa, também.

E assim, fomos para o palco novamente, junto com a banda "Arara de Neon". Os rapazes tinham apresentado o seu som anteriormente e pelo que pude observar, eram bons músicos. A onda deles era "meio na praia" do Reggae, com uma intenção Pop. Tinha característica moderna (oitentista), mas não eram fechados ideologicamente com aquela estética, aparentemente, pois seu visual e postura era bem despojado, não adotando nada que caracterizasse-os fortemente ao pós-punk, new wave ou quaisquer outras escolas oitentistas. Pareciam "desencanados", para usar uma gíria da época.

Ali em cima do palco, combinamos tocar "Johnny B. Good", do Chuck Berry. Era um clássico; com harmonia quadrada de três acordes, e pouca possibilidade de alguém cometer erros. Então, lembro-me do baterista deles sugerir ao Zé Luiz, que tocasse bateria enquanto ele ficaria na percussão. Ele era o único músico que eu conhecia daquela banda ao menos de vista, e chamava-se Alaor (não lembro-me de seu sobrenome, mas antes que especulem, não é o Alaor Neves, que é meu amigo e conheço-o bem, evidentemente).
Eu combinei com o baixista, tocar nas partes mais graves, e ele ficaria na região aguda. Eu disse-lhe que faria escalas de Rock, segurando a linha básica de baixo, e ele poderia ficar livre para fazer frases soltas. E o guitarrista deles, combinou rodízio de solos com o Rubens.

E assim tocamos... não foi um desastre, mas era nítido o desconforto, pois os rapazes deviam ter outra escola de música, e o Rock não era exatamente a sua formação. Essa jam maluca foi ao ar. Ninguém ainda postou no You Tube, que eu saiba, mas oportunamente eu poderei fazê-lo. Só não o fiz ainda, porque a qualidade da imagem VHS não está grande coisa, e essa performance é certamente algo que não acrescenta nada à memória da Chave do Sol, só justificando-se mesmo por tratar-se de um material curioso. O lado bom de ter participado disso, foi que ganhamos mais alguns pontos no conceito do pessoal da produção, e aliado ao sucesso evidente que fizéramos de público, tanto ao vivo, quanto telespectadores (muito mais cartas chegaram à TV Cultura, ficamos sabendo), selamos a nossa participação no programa especial de um ano de Fábrica do Som, a ser gravado no mês posterior, novembro de 1983. Encerrando, acrescento que novamente concedemos entrevista à Rádio Cultura AM, que cobria o programa e transmitia um compacto dos melhores momentos aos sábados, antes da transmissão da TV. Mais uma vez o repórter perguntou-nos sobre disco a ser lançado, e desta vez nós estávamos com uma perspectiva engatilhada. Uma ideia que estava amadurecendo rapidamente, acabaria concretizando-se ao final de 1983, mas falarei sobre isso, posteriormente.

E logo após a nossa participação pela segunda vez no programa "A Fábrica do Som", a repercussão foi muito grande e assim sendo, a produção do programa convidou-nos a participarmos da festa de aniversário de um ano dessa atração musical da TV Cultura.
Seria uma edição especial e gravada fora do seu palco tradicional do Sesc Pompeia, mas sim no "Circo Mágico", um picadeiro montado no estacionamento do complexo de exposições e espetáculos, Anhembi, localizado na zona norte de São Paulo.

Lógico que aceitamos na hora, pois era o reconhecimento de que A Chave do Sol era sem dúvida, uma das mais citadas bandas emergentes naquele universo que girava na órbita da "Fábrica".
E isso era muito significativo, pois ali também tocavam diversos (para não dizer todos), nomes do BR-Rock mainstream oitentista.

A Fábrica do Som, ajudou a catapultar as carreiras de artistas como : "Titãs"; "Ira"; "Ultraje a Rigor", e outras tantas daquela cena do Pós-Punk / New Wave, e que tais. E fora essa euforia pela confirmada terceira aparição, estávamos a todo vapor ensaiando e compondo, a respeito do baque psicológico que foi para A Chave do Sol, o fato de eu ter voltado ao Língua de Trapo, simultaneamente. Como já expressei algumas vezes, isso gerou conflitos nos meses subsequentes, nas duas bandas, e eu no meio do fogo cruzado, pois precisava do emprego no Língua, e também tinha meus laços afetivos naquela banda, por ter sido membro fundador; ter uma parceria com o Laert desde os meus primórdios na música, e também gostar bastante do trabalho. Mas o próprio Laert sabia que o meu sonho era o Rock, e portanto, A Chave do Sol representava a minha esperança nesse sentido.

Enfim, foi uma fase em que "pisei em ovos", 24 h por dia...
Voltando à Chave, digo que apesar desses climas, estávamos muito felizes e em momento de intensa criatividade. Músicas novas não paravam de ser criadas, e nem só de longos temas instrumentais, nós vivíamos. Aliás, nós nunca tivemos essa determinação fechada.
Os temas instrumentais que tornaram-nos conhecidos pelas aparições na TV, eram nuances de nosso repertório, e não a sua essência definitiva. Portanto, nessa época, tínhamos canções com melodia e letra, muito interessantes e que acabaram nunca sendo gravadas e pouco ou mesmo nunca, executadas ao vivo, infelizmente. Lembro-me que nesse final de 1983, tínhamos uma música que eu gostava muito, chamada "Superstar". Era uma canção que lembrava-me demais o som do "The Kinks", e tinha uma letra interessante, que fazia uma irônica crítica às pessoas que querem ser famosas sem ter motivo nenhum para tal. Caramba ! 

Estávamos em 1983 e como isso piorou tempos depois, com programas de TV que tem essa proposta idiota como mote...
Outra canção que eu gostava demais, era "Vestido Branco". Salvo engano, foi a primeira letra do poeta Julio Revoredo, que musicamos. Era uma canção "swingada", de forte acento Soul, com groove de baixo e bateria, que remetia ao "Vanilla Fudge". Uma pena mesmo, mas nem "Vestido Branco", nem "Superstar", foram gravadas ou executadas ao vivo, onde eu pudesse ter ao menos uma cópia preservada numa fita K7 hoje em dia. Para não dizer que não há registro algum, existem pequenos fragmentos de ensaios com tais canções, mas creio não ser adequado lançar no You Tube, pois realmente são trechos minúsculos, e que não conseguiriam dar ideia, mesmo que pálida, de como eram tais trabalhos. E outra nova que preparávamos, era "Reflexões Desconexas". Tratava-se de uma música de apelo Prog Rock, mas com elementos de MPB muito interessantes, principalmente na inserção de backing vocals onomatopaicos, criados pelo Zé Luiz, que sempre foi um arranjador nato.

Era na linha de "Intenções", e cheia de convenções, ritmos quebrados, e outras ousadias instrumentais. Na sua letra, expressava uma complexa reflexão subjetiva, quase uma intervenção psicanalítica...
Antes de falar da terceira apresentação no programa A Fábrica do Som, farei um parêntese para falar de duas coisas paralelas.
Uma delas, uma pequena explanação sobre o poeta Julio Revoredo, nosso grande parceiro, e incentivador incansável.


                    O Poeta Julio Revoredo, em foto de 2001

Eu (Luiz Domingues), e o poeta Julio Revoredo, em foto de julho de 1984. Detalhe : ele estava usando uma camiseta com o primeiro logo da Chave do Sol. Acervo e cortesia do próprio poeta.

Conhecemos o poeta Julio Revoredo no dia da primeira apresentação oficial da banda, 25 de setembro de 1982. Ele apareceu no Café Teatro Deixa Falar, conduzido por uma amigo em comum, meu e dele, chamado Wagner.

Wagner "Sabbath", o rapaz que apresentou-nos o poeta Julio Revoredo. Acervo e cortesia do poeta Julio Revoredo.

Mas o curioso, era que o Julio já tinha assistido-me tocar ao vivo no ano de 1981, pois o Wagner era um admirador da minha banda de covers, com a qual atuei entre 1979 e 1982, chamada "Terra no Asfalto" (cuja história completa está disponível neste Blog, naturalmente).

Outra foto do poeta Julio Revoredo e eu, Luiz Domingues, com ele exibindo a capa de nosso compacto, lançado em 1984. Acervo e cortesia de Julio Revoredo 

Mas só conhecemo-nos efetivamente, a partir da formação da Chave do Sol, quando tomei conhecimento de seu talento literário, e tornei-me um admirador de sua obra. Portanto, em 1983, a nossa ligação com o poeta Julio Revoredo, já estava muito sólida, e nossa parceria consolidou-se, enfim.

Então, desde 1982, eu também já tinha tomado contato com a sua produção poética, e profundamente impressionado pela profusão e erudição de seus poemas, conversei com o Rubens e José Luiz, sobre aproveitar essa oportunidade extraordinária de termos um amigo poeta e entusiasta da nossa música, como um colaborador artístico, em parcerias efetivas. O Julio não é só um poeta brilhante, mas também expert em cinema, música em geral, e Rock em específico, daí a nossa amizade ter solidificado-se de forma quase instantânea. Com muito conhecimento também de Artes Plásticas; Literatura, e Teatro, ajudou-nos muito em diversas ocasiões, principalmente nos shows performáticos que faríamos em 1984 e 1985, mesclando elementos cênicos avant-garde, nos respectivos shows de lançamento do compacto, e do EP posterior (contarei tudo no momento oportuno, e tem muitas histórias sobre os dois !!).

Fanático pelo Cream (famosa banda britânica dos anos sessenta), brincávamos que ele era o "Pete Brown do Brooklin" (Pete Brown era um poeta que escreveu muitas letras para as músicas do Cream, e o Brooklin, é um bairro da zona sul paulistana, onde o Julio mora até hoje). Contentes com essa perspectiva, nós três e o Julio, começamos a trabalhar, musicando um poema dele, chamado "Vestido Branco".

Aliás, esse poema fugiu um pouco às características normais de sua produção, pois foi feito por encomenda, pois normalmente ele dava-nos manuscritos de sua produção para musicarmos. Ponderamos que a produção era complexa, com erudição linguística e até com o uso de expressões em latim, sendo assim, pedimos algo mais coloquial pois estávamos com uma música nova sendo composta, e ela seria algo mais pop do que os habituais números instrumentais que vínhamos preparando, com enfoque nas "firulas" do Jazz-Rock. Dessa forma, ele apresentou-nos a letra de "Vestido Branco". Não foi muito difícil musica-la, encaixando-se muito bem naquela canção de forte apelo Soul. Lembrava bastante o som do "Vanilla Fudge", cheio de swing de baixo e bateria.

Infelizmente, nunca a gravamos e por circunstâncias alheias à nossa vontade, nunca a tocamos ao vivo.

O poeta Julio Revoredo em foto de 1985, usando camiseta da Chave do Sol com o logotipo do primeiro álbum, e exibindo a capa do segundo álbum da banda, o EP lançado nesse mesmo ano. Acervo e cortesia de Julio Revoredo

Recentemente achei uma fita K7 de ensaios dessa época e verifiquei mediante decupagem, que só existem pequenos trechos, onde acertávamos detalhes de introdução, levadas de bateria etc.

Achei um pouquinho só da banda tocando, mas de forma truncada e mesmo assim, com qualidade sonora sofrível, o que inviabiliza a esperança de montar um promo e lançar no You Tube. Salvo falha de minha memória, "Vestido Branco" foi a primeira parceria Chave do Sol / Julio Revoredo, que foi prolífica, doravante. A seguir, outro parêntese, desta feita para falar da histórica caixa postal 19090 -SP...


Sem empresário, produtor ou alguém que gerenciasse os nossos interesses de uma forma profissional, ficamos muito frustrados com a negativa da direção do programa "A Fábrica do Som", em ceder-nos o volume de cartas que haviam chegado à emissora, citando-nos. Se tivéssemos tido esse contato, naturalmente poderíamos ter capitalizado algo bom em nosso favor, mas perder esse "momentum", frustrou-nos. De outro lado, era compreensível que a TV Cultura não fizesse isso, pois legalmente falando, as correspondências pertenciam-lhes e não haveria cabimento em fazer isso, e mesmo por camaradagem, seria um crime fornecer um mailing. Fora o precedente aberto, pois todo artista participante do programa sentir-se-ia no direito de fazer o mesmo.


 
Então, tomamos a atitude que estava às nossas mãos na época : abrimos uma Caixa Postal, onde passaríamos a ter um canal de comunicação direto com o público, englobando fãs; admiradores; produtores de shows, discos ou de quaisquer outras oportunidades afins.

O Rubens morava a cerca de 100 metros de uma agência do Correio, e mediante consulta prévia, descobrimos todas as obrigações que teríamos que cumprir no âmbito burocrático, e dessa maneira, tratamos de tomar tais providências. Como no caso do registro do nome no INPI, que ficou em nome do Rubens porque só uma pessoa física poderia assumir essa responsabilidade, no correio foi o mesmo, e mais uma vez o Rubens tornou-se proprietário, pois era morador do bairro. Mas na parte prática, eu é que assumi a responsabilidade dela, pois tornou-se minha rotina diária por anos a fio, passar na agência e verificar o movimento da caixa. No início, não, mas logo tornar-se-ia importante não faltar um só dia, pois em caso de falta, o volume acumulado era significativo

E sendo assim, o número "19090", tornou-se emblemático na vida da banda, sendo repetido como um mantra, em diversas entrevistas de TV; Rádio, Shows ao vivo e publicações de jornais; revistas; cartazes e filipetas. "19090"... um número que marcou para nós, e para muita gente que gostava do trabalho !!


Aproveitando ainda o parêntese, falo sobre Wagner "Sabbath", um agregado da banda que acompanhou-nos com bastante frequência nos primeiros tempos, e que apresentou-nos o poeta Julio Revoredo, como já salientei anteriormente. Ele era um rapaz que tinha o sonho acalentado em sua alma, de ser um vocalista de Rock. Queria isso a todo custo, e convenhamos, o sonho era legítimo, pois todo mundo que entra para a música, é movido por essa mesma motivação onírica.

                 Wagner "Sabbath". Acervo de Julio Revoredo

Ele começou a frequentar as apresentações do Terra no Asfalto (minha banda cover de então, 1979 / 1982), em 1981. Lembro-me de tê-lo visto pela primeira vez, no bar 790, que ficava no Itaim-Bibi, bairro da zona sul de São Paulo. Bastante extrovertido, sempre pedia para dar "canja" nas nossas apresentações, alegando ser cantor etc e tal. Lembro-me de numa ocasião, o Paulo Eugênio deixá-lo apresentar-se durante um intervalo da banda. Ele tocou usando sua própria guitarra, uma Giannini, e cantou duas ou três músicas ("Paranoid", do Black Sabbath; "Smoke on the Water", do Deep Purple e "Cocaine", do JJ Cale). E vou contar : apesar de não saber nada de teoria musical, ele não decepcionou, não. Só o inglês macarrônico depunha contra, mas a voz era afinada, e ele tinha ritmo, noção de andamento etc. E assim, estreitando amizade, soube da fundação da Chave do Sol e esteve presente no primeiro show da banda, em 25 de setembro de 1982. E nesse dia, levou também um amigo / vizinho seu, que tornar-se-ia um grande amigo e colaborador não só da Chave, como de outros trabalhos meus : o poeta Julio Revoredo. Aliás, ambos contaram-me que o Julio assistira um show do Terra no Asfalto, portanto ele conhecia-me antes do que eu o conhecera formalmente.

O poeta Julio Revoredo em foto de 1984. Acervo e cortesia dele próprio.

Vou falar bastante do poeta Julio Revoredo doravante, pois ele tornou-se um parceiro importantíssimo como letrista, mas também testemunha ocular de diversas passagens de nossa carreira. E o Wagner "Sabbath" continuou suas investidas para ser vocalista oficial da Chave. Desde que viu-nos, com o Percy, ele já insistia em "canjas" e testes. Foi a várias apresentações nossas com a Verônica Luhr no comando de nosso microfone, mas nunca desistiu, e sempre pedia "canjas" ao vivo, principalmente no Devil's Bar, que tinha um clima mais despojado. E isso persistiu até meados de 1985, pelo menos !!

Mas nem tudo eram flores nessa insistência dele e houve momentos de exagero nisso, que relatarei, certamente no instante oportuno da cronologia. Falta um último parênteses para eu voltar a falar da terceira apresentação no programa "A Fábrica do Som". Nesse ínterim, comemoramos o aniversário da banda, com um ano de atividades intensas, através de uma festa produzida por nós mesmos, mas com característica de show, e de fato, o computamos como show oficial...



Antes de falar nisso, porém, depois de gravarmos a nossa segunda aparição na Fábrica do Som, na terça-feira, 27 de setembro de 1983, fizemos um novo show no Bar Espaço Aberto, na quinta posterior, dia 29. Desta feita, sem divulgar na TV, com um público bem mais modesto, com apenas 30 pessoas. Aí fomos ao ar pela TV, no sábado, dia 1° de outubro, com direito também à execução radiofônica na mesma tarde de sábado, pela Rádio Cultura AM, conforme houvera acontecido na nossa primeira exibição na Fábrica, em julho. A participação na rádio constava de uma entrevista e a execução de pelo menos uma música na íntegra, além de trechos de uma eventual segunda música, mas usada como "background" ("BG", no jargão dos radialistas). Ainda em outubro de 1983, tivemos vários agitos, após a segunda aparição na Fábrica do Som. Por exemplo, participamos da edição de 1983 do Festival Fico, numa eliminatória realizada no Teatro Objetivo.

Letra de "Luz", publicada no programa oficial do Festival Fico de 1983. O nome do rapaz, creditado como o "autor" da canção, está riscado a caneta

Claro, não éramos estudantes de tal colégio, mas através de um conhecido da irmã do Rubens, que lá estudava, inscrevemos a música "Luz", colocando-a no nome dele, que era aluno, e classificamo-nos para uma eliminatória.

 Programa do Festival Fico, de 1977, onde concorri com o Boca do Céu

Eu havia tocado na edição de 1977, com minha primeira banda, o Boca do Céu, mas agora, seis anos depois, era uma situação muito diferente, pois estava profissionalizado e atuando numa banda autoral de reconhecido alto teor técnico. Usaríamos o Festival deliberadamente como um meio de divulgação apenas, pouco importando-nos com suas disputas internas e juvenis. Claro, pelo fato de sermos "marmanjos" e tocando muito acima da capacidade técnica dos demais concorrentes, era uma disputa desleal e hoje em dia eu questiono se agimos bem em inserirmo-nos dessa forma naquele universo estudantil, onde não éramos integrantes, só com o objetivo de aproveitarmo-nos do festival para tirar uma "casquinha" promocional. Sinceramente, acho que não, pois tropeçamos no quesito ético, a meu ver. Contudo, "consumatum est", como diriam os romanos, o fato é que apresentamo-nos na eliminatória realizada no Teatro Gazeta, no prédio da Fundação Cásper Líbero, na Av. Paulista, onde o Colégio Objetivo aluga espaço desde os anos sessenta.

Isso ocorreu no dia 5 de outubro de 1983. Calculo que havia cerca de 300 pessoas presentes e eu lembro-me que tivemos uma postura arrogante, praticamente ignorando o Festival, pois falamos ao microfone que iríamos gravar o nosso primeiro disco em breve, divulgamos a nossa caixa postal e deixamos claro que não éramos amadores, com uma postura de palco esfuziante, contrastando com os demais concorrentes, adolescentes atônitos, tendo crises de "Stage Fright" (temor em enfrentar o palco), nas coxias do teatro.
Claro, classificamo-nos para a final sem dificuldades e assim, tocaríamos ainda em outubro, no Ginásio do Ibirapuera e com direito à transmissão ao vivo da Rádio Jovem Pan AM. Se era publicidade o que queríamos, nesse quesito, tínhamos garantido o nosso intento...
Só que antes de participarmos da finalíssima do Festival Fico, tínhamos a festa  / show que realizamos, comemorando um ano de atividades da banda.


Em 25 de setembro de 1983, comemoramos um ano de existência oficial. De fato, começamos em julho de 1982, mas adotamos a data de 25 de setembro como oficial, por conta do primeiro show realizado. Mas como estávamos envolvidos com a nova participação no programa "A Fábrica do Som" naqueles dias, não tivemos como preparar uma comemoração como sonhávamos.
Então, marcamos para o dia 8 de outubro de 1983, uma festa / show entre amigos e agregados, mas aberta a estranhos também. O local foi o sitio de propriedade do irmão do Zé Luiz, em Juquitiba, cerca de 60 KM de São Paulo, às margens da Rodovia Régis Bittencourt, BR 116, que faz a ligação entre São Paulo e Porto Alegre. Nesse dia, cerca de 50 pessoas compareceram e além do nosso show, tivemos a abertura da "Archibald's Band", banda de nosso amigo e fotógrafo, Carlos Muniz Ventura, que era o baixista.

Carlos Muniz Ventura, o popular "Carlão", nosso amigo e fotógrafo, em foto bem mais atual

No caso deles, tocaram um repertório de covers setentistas bacanas.
Na formação da banda, além do Carlão no baixo, havia a presença do muito jovem Iran Bressan, à guitarra, irmão de um amigo do Rubens chamado, Celso Bressan. Os demais membros, não lembro-me, sinceramente. E além disso, os poetas Julio Revoredo e Edgard Puccinelli Filho declamaram poemas, além de canja do Wagner "Sabbath", e a presença de uma figura estranhíssima, autodenominado, Marcos "Styx" (seria por causa da banda americana ??). Esse sujeito apareceu como "bico" na festa, sendo que não faço nem ideia de quem o tenha levado. Era figura carimbada nas gravações da Fábrica do Som, portanto não era um estranho totalmente, contudo, foi inusitada a sua presença, pois não o conhecíamos, de fato. E no frigir dos ovos, ele acabou subindo no palquinho improvisado e declamando seus poemas. Vendo o poeta Julio Revoredo, talvez tenha empolgado-se, mas o teor de suas criações em comparação ao trabalho do Julio Revoredo, bem... prefiro nem comentar.

E uma coisa engraçada aconteceu com esse sujeito. Num determinado momento, interpelando-me, fez o gênero "sincero", e disse-me que estava surpreendido em constatar que eu era "legal", pois vendo-me atuando no palco do Sesc Pompeia, havia julgado-me um "babaca" !! Adorei a franqueza, e disse-lhe que iria anotar a sua opinião... ha ha ha !! 

Tocamos por último, naturalmente, e com liberdade para tocar muito alto e o set que quiséssemos, varamos a madrugada tocando, todas as nossas músicas, algumas brincadeiras com covers, e muitos improvisos em forma de jam. Muita gente exagerou nos aditivos e capotou, literalmente. Fez um frio significativo na madrugada, apesar de estarmos na primavera, e os casais que formaram-se no pós-paquera inevitável, foram arrumar lugares para namorar até amanhecer.

Pela manhã, era um "festival" de gente com ressaca e o grande acontecimento foi um filhote de cobra que apareceu na varanda, e um bando de doidos que eu nem sabia quem eram, tratou de embriagar o bicho, jogando-lhe goela abaixo, uma quantidade razoável de pinga. O bichinho estrebuchou em coma alcoólica, infelizmente. E assim foi a festa show de aniversário da banda, com direito a bolo e velinha, e com cerca de 50 pessoas presentes...
O próximo passo foi participar da finalíssima do Festival Fico, a ser realizado no Ginásio do Ibirapuera.



Depois da festa no sitio do irmão do Zé Luiz (João Dinola), chegou a hora de participarmos da finalíssima do Festival FICO. Não estávamos nem um pouco preocupados em vencê-lo, mesmo porque, nem éramos alunos do colégio Objetivo, e graças a uma "maracutaia" da qual hoje em dia arrependo-me em ter participado, estávamos ali indevidamente. Mas se a meta era usar o festival como ferramenta de divulgação, que o fizéssemos da melhor maneira possível e foi assim que procedemos, de fato.

Essa finalíssima ocorreu no dia 21 de outubro de 1983, e foi realizada no Ginásio do Ibirapuera. O público presente foi de aproximadamente 12 mil pessoas, pois o ginásio estava abarrotado.
Eram exclusivamente alunos do colégio, vindos de diversas unidades espalhadas por São Paulo; de cidades interioranas, e até de outros estados, pois o colégio Objetivo havia crescido muito e expandido-se. Tocamos com a nítida preocupação de divulgar o nosso trabalho e aproveitando o fato do festival estar sendo transmitido ao vivo pela rádio Jovem Pan AM, eu quebrei o protocolo, e não fiz-me de rogado, pois assim que o apresentador anunciou a nossa música, e seu falso autor, eu fui ao microfone e falei que éramos "A Chave do Sol" e tocaríamos a música "Luz", de nossa autoria.

O poeta Julio Revoredo estava acompanhando essa transmissão pelo rádio e contou-me posteriormente que a minha intervenção ao microfone foi providencial, e que ficou claro que não éramos amadores juvenis disputando o Festival. Tocamos como se o show fosse nosso, ignorando o corpo de jurados e saímos satisfeitos com a performance. De fato, apesar de ter sido um público de adolescentes agressivos e invariavelmente torcendo por esta ou aquela música, arrancamos aplausos.

Nos bastidores, ao entrarmos no backstage, vimos os músicos do "Rádio Táxi" ali, preparando-se para entrar em cena, visto que fariam o show da noite, ao lado do "Kid Abelha". Havia uma terceira atração mainstream que não recordo-me exatamente quem era. Acho que era o Lulu Santos. Alguns membros do Rádio Táxi fizeram menção de rir do Rubens, assim que ele saiu de cena. Mas pensando hoje em dia, acho que foi uma interpretação errada que fizemos naquele momento, certamente. Os rapazes deviam estar conversando qualquer coisa que não tinha nada a ver conosco, bem na hora que passamos e olharam furtivamente para o Rubens quando passava, rindo, mas certamente que foi absolutamente ocasional. Contudo, o fato é que no calor do momento, achamos que fosse alguma manifestação de desdém da parte deles.

Anos depois, conheci o Wander; o Gelsinho, e o Lee, e nunca comentei esse fato com eles, pois não teria o menor cabimento questioná-los por uma bobagem dessa monta, que certamente nem lembrar-se-iam. E conhecendo-os melhor, tenho a certeza de que não teriam sido capazes de um ato de deboche gratuito desse nível.
Mesmo porque, estavam consagrados, estabelecidos no mainstream e eram adultos, portanto, deve ter sido um mal entendido que interpretamos erroneamente.

A nossa vontade era ter ido embora, mas aguardamos o resultado, pois poderíamos ser convocados a tocar novamente se tivéssemos obtido lugar entre os três melhores classificados do Festival. Isso não ocorreu, mas nós não importamo-nos com o resultado do Festival, pois não era nosso objetivo e além do mais, seria embaraçoso obter uma colocação, pois "Luz" estava inscrita no nome de um aluno "laranja", e era nossa música, não dele. Fomos embora portanto, com o dever cumprido, divulgando um pouquinho mais o nosso som, principalmente pela execução radiofônica numa estação com audiência maciça, em rede nacional, fora o público presente em grande número no Ginásio do Ibirapuera. Falta só um item no grande parêntese que fiz, antes de mergulhar na história da nossa terceira participação no programa "A Fábrica do Som".
Seria a segunda viagem ao interior, e primeira vez como atração principal do evento.

Logo a seguir, fizemos um show inusitado. É o tal negócio : sem um empresário que soubesse capitalizar o bom momento que tivéramos com as duas exposições na TV (com enorme sucesso), aceitávamos as propostas que apareciam. Dessa maneira, fomos convidados a tocar numa festa particular, e sem perspectivas melhores no momento e tendo em conta que o conflito de agendas estava formado pelo fato de eu ter voltado ao Língua de Trapo, fomos à cidade de Atibaia, no interior de São Paulo, para tocar na festa de aniversário de um fã da banda, chamado Hélcio.

Ele conhecera-nos tocando ao vivo no Sesc Pompeia, durante as gravações do programa "A Fábrica do Som", e abordando-nos pelos bastidores, fez a proposta, oferecendo condições modestas, mas dignas, com despesas de viagem cobertas, um pequeno cachet, e claro, usufruir da festa. Fomos então à casa do Hélcio, e a parte chata foi que obviamente tínhamos que levar todo o nosso equipamento, incluso o mini P.A. Mas com a ajuda de amigos, não foi tão traumática assim essa logística, e no meio da tarde já estávamos montando o equipamento no deck da piscina, da ampla casa do avô do Hélcio. Para quem não conhece o estado de São Paulo, informo que Atibaia fica apenas a 60 KM distante da cidade de São Paulo, pela estrada federal Fernão Dias, que liga São Paulo à Belo Horizonte. A festa começou cedo, pois ainda não havia escurecido e já começaram a chegar os convidados.

O show foi misto, logicamente, pois não poderíamos tocar só nossas músicas autorais, portanto incluímos diversos covers, ressuscitando músicas que tocávamos apenas nas primeiras apresentações de 1982, na época que não tínhamos material autoral suficiente.
Foi legal, claro, dentro das possibilidades, pois tirante o Hélcio e uns poucos amigos, ninguém conhecia nossas músicas, e os covers que tocamos também causaram estranheza à maioria "não iniciada" ali presente, fora a presença de pessoas de meia e terceira idade, certamente. Isso ocorreu no dia 12 de novembro de 1983, com um público aproximado de 80 pessoas. O fato engraçado, mas pelo lado do humor negro, foi que numa parte da casa onde havia um pequeno bosque, uma turminha de convidados embrenhou-se para realizar uma atividade ilícita que envolvia fumaça (ha ha ha), e um sujeito meio gordinho empolgou-se e ficando "doidão", caiu num pequeno precipício enquanto dançava. Estava bem "animado" o gorduchinho, mas acabou mal, contundindo-se...


Esse show de Atibaia foi devagar, embora não fosse exatamente um local e público ideais para nós. Eu considero-o um show, contudo, pois havia público; equipamento, e nossa postura foi a mesma de sempre, como se estivéssemos num grande show de teatro. Portanto está computado na lista de shows oficiais da banda.

Mas valeu pelo aspecto financeiro; a camaradagem de nosso anfitrião, e para dar uma esquentada ao vivo, pois dali a três dias, iríamos apresentar-nos novamente no programa "A Fábrica do Som". Desta feita, seria um especial em comemoração pelo aniversário de um ano do programa, e seria filmado fora de seu palco tradicional, o teatro do Sesc Pompeia.

Nesse caso, estava designado o Circo Mágico, localizado no Parque Anhembi. Era um enorme circo de fato, instalado no estacionamento do Parque de Exposições do Anhembi, na zona norte de São Paulo. O fato de terem convidado-nos, era uma enorme honra, pois estavam ali reunidos os artistas que mais haviam repercutido positivamente no programa. Lembro-me da presença do "Premeditando o Breque", que nesse dia estava com meu velho amigo Sérgio Henriques (ler capítulos sobre os meus "Trabalhos Avulsos" e "Terra no  Asfalto", onde ele é amplamente citado), como novo integrante daquela banda. Não vi as demais atrações, pois assim que terminou a apresentação da Chave do Sol, saí imediatamente do Circo, pois estrearia com o Língua de Trapo, naquela noite no TUCA. Essa parte da narrativa, pelo ponto de vista do Língua, já está relatada no capítulo "Língua de Trapo".
A seguir, falarei detalhadamente sobre a apresentação.


Bem, pelo fato de ser um programa especial, com essa badalação toda e nós estarmos envolvidos, dava-nos uma responsabilidade extra, naturalmente. E por ser uma ocasião nobre, resolvemos tocar uma música diferente, e uma já exibida anteriormente, no programa. Escolhemos "Luz", como música já executada anteriormente, pois era quase certeza que a gravaríamos de forma oficial, em disco, em breve. Aliás, falo sobre essa perspectiva logo mais.

Voltando à apresentação do Circo Mágico no Anhembi, chegamos cedo, e logo conversamos com a produção do programa.
Era importantíssimo que A Chave do Sol fosse o primeiro artista a apresentar-se, pois eu teria que sair voando do Anhembi, e dirigir-me ao TUCA, no bairro das Perdizes, zona oeste, onde reestrearia com o Língua de Trapo. Eles foram gentis e vendo o meu problema logístico, fizeram a inversão na escala, e apresentamo-nos em primeiro lugar. Tocamos "Luz" com extrema segurança e na mesma noite, resolvemos apresentar uma música nova, denominada "Reflexões Desconexas". Tratava-se de um Hard-Rock, com bastante influência de Jazz-Rock, e nítida influência de MPB setentista, principalmente por conta de um contraponto vocal que o Zé Luiz criou como arranjo, e que nós fazíamos, eu e ele, mesclando-se ao vocal solo do Rubens.
A música era na mesma linha de "Intenções", outra canção que tínhamos no repertório, nesses mesmos moldes estilísticos, e a letra era bem complexa, apesar de ser criação nossa, coletiva, e não de autoria do poeta Julio Revoredo, que costumava brindar-nos com sua erudição poética. "Reflexões Desconexas" era muito complexa; com linha de baixo e bateria bem requintadas; convenções; uma bela melodia "JeffBeckiana" numa das inúmeras intervenções do Rubens; mudanças de ritmo bruscas; e essa parte mezzo / MPB, que causava uma deliciosa estranheza aos ouvidos de Rockers mais radicais.

Infelizmente, eu empolguei-me um pouco na performance e ao esbarrar o headstock (a parte de cima do braço do instrumento, onde ficam as tarraxas), do meu baixo em alguma coisa (nem lembro-me, o que), desafinei levemente as tarraxas das cordas Ré e Sol, do meu baixo. Com isso, tocando e cantando, no meio da música, fui tentando afinar com a performance em curso, e não consegui o meu intento, desarticulando-me um pouco, e fazendo com que eu fosse perdendo a concentração. Infelizmente, essa falha minha comprometeu a performance da banda, não ao ponto de sairmos cabisbaixos, mesmo porque 99% do público, nem percebeu, mas o suficiente para chatear-nos um pouco.

Como consolo, a execução de "Luz" foi boa, e essa é que foi ao ar, representando-nos, nessa terceira participação no programa.
De fato, minha lembrança de quando tocamos "Luz", é a melhor possível. Recordo-me dos rostos da várias pessoas sorrindo, outras tanto dançando, e empunhando guitarras imaginárias etc etc.
Só uma coisa incomodou-me nessa específica performance. Num dado momento, percebi que o cabo do meu instrumento estava enroscado na minha perna, e daí, tive que quebrar a minha mise-en-scené, dando um passo desajeitado, e isso foi capturado pela TV.
Muito azar, mas no vídeo está lá esse pequeno desastre cênico... ha ha ha... 


Foi a nossa terceira participação no programa, gravado em 15 de novembro de 1983, no Circo Mágico do Parque Anhembi, em São Paulo. No meio da plateia, o amigo / fã Helcio, de Atibaia, estava lá com seus amigos, empunhando uma faixa em nosso apoio. Nos bastidores, falei rapidamente com meu amigo Sérgio Henriques, tecladista com quem trabalhei em diversas ocasiões entre 1979 e 1982, e que estava agora como membro do Premeditando o Breque (ler capítulos "Trabalhos Avulsos" e "Terra no Asfalto"). Salvo a minha pressa, e essa falha em "Reflexões Desconexas", foi mais uma boa apresentação na Fábrica do Som, o que só reforçava a ideia que os tempos de anonimato para A Chave do Sol, certamente haviam ficado para trás, e dessa maneira, vivíamos uma nova etapa, desde quando apresentamo-nos na Fábrica do Som, em julho daquele mesmo ano, pela primeira vez.


 

http://www.youtube.com/watch?v=vOJU3DjaIE4


O link acima direciona para o vídeo da apresentação da música "Luz", representando a nossa terceira participação no programa "A Fábrica do Som", em novembro de 1983.

Continua...

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