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segunda-feira, 18 de maio de 2015

A Chave do Sol - Capítulo 10 - Beto Cruz e uma Nova Mudança Radical - Por Luiz Domingues

Beto Cruz rapidamente começou a trabalhar conosco, pois o tempo urgia. Tínhamos compromissos agendados, e ele precisava adaptar-se à banda o quanto antes. Em princípio, teria que cantar todas as músicas do EP, mais "Luz", do compacto. Eventualmente contaríamos com "Átila", e "18 Horas" no repertório, mas não queríamos carregar muito nas músicas instrumentais. O fato dele ser guitarrista, animou-nos, pois além de ser uma possibilidade inédita para a banda, facilitaria e muito o processo de criação de novas canções, pois ele também era compositor e criador de Riffs.

Em princípio, não cogitávamos que ele tocasse guitarra nos shows, mas era uma real possibilidade que não descartávamos para o futuro. Ele começou a ensaiar conosco ainda naquela semana, e gostamos muito do astral dele, sob vários aspectos. Além de mostrar-se apto como cantor; guitarrista, e compositor / letrista, o Beto mostrava-se decidido, com personalidade forte. Tinha muitas ideias sobre gerenciamento, marketing, e tal demonstração de versatilidade agradou-nos bastante.

E ele sabia exatamente que era uma oportunidade muito boa que estava agarrando pessoalmente, ao saber dimensionar o tamanho que A Chave do Sol tinha naquele momento, e a possibilidade de crescimento que demonstrava ter. Agimos o mais rápido que pudemos e providenciamos uma sessão de fotos imediatamente; um novo release, e usamos o mailing do fã clube para anunciar a notícia oficial de sua entrada na banda.

O Luiz Calanca lamentou a saída do Fran, e certamente, como produtor fonográfico da banda, enxergava nessa troca, com o novo disco ainda quente, e recém saído da fornalha, um prejuízo e tanto para o seu investimento. Ele tinha razão sob esse aspecto, certamente. Mas...o que poderíamos fazer ?? Sobre o Beto, as informações que tínhamos eram de que ele tinha tido recente participação numa banda Hard-Rock radicada no interior de São Paulo (Mogi-Guaçu), denominada "Zenith". Tratava-se de uma boa banda, com bons instrumentistas em seu line-up, e composições de bom nível, vide "Change My Evil Ways", que era do repertório dessa banda, mas como tratava-se de uma composição de seu guitarrista (Zé Carlos Vasconcellos), em parceria com o Beto, este último a trouxe para A Chave do Sol, onde a gravaríamos no final de 1987, no LP The Key.

E antes da passagem pelo Zenith, o Beto Cruz vinha de uma banda de covers, onde o baixista era seu irmão, Claudio Cruz (baixista do Harppia, já a partir de 1986), e um dos bateristas que por ali passou, foi Charles Gavin, que posteriormente foi fundador do Ira, e depois, membro dos Titãs. A orientação musical do Beto, era toda anos 1970. Ele gostava de coisas boas dos anos 1960, certamente, mas o que gostava mesmo era das "setenteiras", notadamente o Hard-Rock de bandas como Led Zeppelin, Bad Company & afins.
Em termos vocais, gostava muito de Robert Plant e David Coverdale, e dessa forma, saía a voz rouca de Fran e ganhávamos com uma voz mais "aveludada", talvez mais palatável aos ouvidos do público, que tanto estranhou e rejeitou a voz potente de Fran Alves. Bem, essas foram as primeiras impressões e informações sobre o Beto Cruz que obtivemos logo no início de sua entrada na banda. Teríamos dois shows para cumprir já no início de novembro, e ambos tinham características de shows para um público de grande porte. Ambos tem histórias... e algumas engraçadas...

Uma das histórias, começou na verdade, alguns dias antes do show em questão. Surgiu uma proposta para tocarmos num show coletivo, na cidade de Santos, litoral de São Paulo. Ele seria realizado no ginásio poliesportivo do Santos F.C., anexo ao estádio Urbano Caldeira, popularmente conhecido como "Vila Belmiro". O contato era de um produtor, com escritório no centro velho de São Paulo, e que segundo apuramos preliminarmente entre colegas que também haviam sido contactados, tratava-se de um típico empresário "brega", daqueles que lidam com tal espectro musical, e portanto, não tinha nenhuma experiência com shows de Rock. 
O sinal amarelo acendeu não só na nossa cabeça, mas nas de vários colegas de outras bandas que estavam envolvidas. Contudo, não poderíamos descartar imediatamente, sem ao menos conhecer a proposta do rapaz, e assim, fomos conversar, naturalmente. O sujeito era bastante falante e demonstrava uma confiança no que dizia, sem dúvida. 

Era, contudo, uma pessoa de poucos recursos educacionais e portanto, demonstrava ter baixo nível cultural, porém, dentro do seu ramo de atividades, parecia ter uma noção básica, ainda que com a ressalva que seu métier era o mundo da música brega, e nesse aspecto, as produções que estava acostumado a lidar, sem dúvida, respondiam à parâmetros de baixo nível no tocante ao uso de equipamentos. Para não dizer que grande parte das produções que fazia, com tais artistas, era na base do play back, ou seja, shows onde dispensava-se a necessidade de tocar-se e cantar ao vivo, prática normal entre eles, mas para rockers como nós, causava arrepios tal ideia. O sujeito falou sobre como seria o "festival", o equipamento que teríamos ao nosso dispor, estrutura de camarim e a logística do transporte, com um ônibus fretado pela produção, saindo do centro de São Paulo, levando todas as bandas. Falou sobre a divulgação que parecia eficaz, com inclusive apoio de Rádio e da TV local, e o melhor de tudo : um cachet fixo e num valor digno, eu diria. Para um sujeito rude como ele apresentava-se, esse aceno todo, chegou a surpreender-nos.

Foto extraída da primeira sessão de fotos com Beto Cruz integrado à banda. Novembro de 1985

Ponderamos que seria uma oportunidade boa para o Beto fazer sua estreia, quebrando o gelo, visto que no dia seguinte, teríamos um show no Sesc Campestre, aqui em São Paulo, e tratávamos tal compromisso com maior cuidado, primeiro por ser uma unidade de Sesc, onde sempre havia a preocupação de causar uma boa impressão nos bastidores, visando entrar nesse circuito cobiçado de forma definitiva e não sazonal, e segundo, porque havia a perspectiva de jornalistas estarem presentes, cobrindo o show. E, mesmo que o show de Santos não fosse uma maravilha, o tal produtor oferecia a perspectiva de um contrato assinado, o que era uma rara ocasião em que sentir-nos-íamos seguros em relação ao cumprimento das promessas feitas. Nesse caso, não tínhamos nada a perder, numa leitura bem superficial. Dessa maneira, fechamos o contrato e estávamos oficialmente escalados para o tal festival. Uma exigência do contratante, no entanto, causou-nos um aborrecimento inevitável. Dada a circunstância do contrato, fomos obrigados a regularizar a nossa situação na Ordem dos Músicos e passar novamente (no meu caso), pela ridícula prova de aptidão, fora o pior de tudo, pagar as taxas altas e abusivas cobradas por tal instituição. Hoje, a Ordem dos Músicos abrandou muito sua rigidez quase fascista, mas naquela época, era liderada por um ditador monolítico e perpétuo, que andava de braços dados com a ditadura militar que governava o país. Nesses termos, era sempre odioso ter que submeter-se às suas regras e sobretudo desembolsar uma nota preta para ter o "direito" de tocar, sem ser importunado por seus "fiscais", geralmente brucutus arrogantes e intransigentes, agindo como verdadeiros agentes da Gestapo...
Eu tinha a minha carteira desde 1982, mas em 1985, relaxei a guarda e não paguei a anuidade, portanto fui obrigado a pagar a multa e naquela época, o exame de aptidão era obrigatório, todo ano, causando constrangimentos. Os meus colegas tiveram que fazer suas respectivas carteiras pela primeira vez, pois há anos postergavam tal "obrigação". Paciência... se o contrato em questão exigia tal documento regularizado, achamos que valeria a pena, pois o cachet acordado era bom.

Os ensaios intensificaram-se com a proximidade desses shows iniciais com o Beto Cruz na banda. Apesar do pouco tempo que dispúnhamos, estávamos confiantes, pois a banda estava muito ensaiada, e a questão imediata era somente a adaptação do Beto. 
E da parte dele, estávamos tranquilos, pois todo o empenho estava sendo empregado, demonstrando profissionalismo, mas acima de tudo, uma garra que animava-nos, certamente. As músicas do EP, que teria que cantar, não eram exatamente do seu agrado. 

Ele foi sincero logo de início, e disse-nos que aquele peso todo era demais para o seu gosto pessoal, e achava que exagerávamos nas firulas instrumentais, um recurso que trazíamos da nossa influência de Jazz-Rock, desde o início das atividades da banda em 1982.
Nesses termos, ele sabia que teria que cantá-las, ao menos nos seus primeiros meses na banda, mas deixou claro que ansiava por mudanças estruturais no som. De fato, a questão do EP e sua sonoridade, era objeto de nossas discussões internas. Por todos os motivos que já expus na narrativa, era claro que queríamos mudar.
Eu e Rubens gostamos da ideia do Beto de puxar a sonoridade mais para o Hard Rock, ainda que o oitentista em voga, porém com pitadas (sutis), para o Hard setentista.


O Whitesnake tornou-se um exemplo para nós de banda oitentista (sei que a banda começou suas atividades ainda nos setenta, não se assuste, não estou desinformado !), que ainda trazia tais traços em sua sonoridade e nesses termos, era uma saída honrosa para abandonarmos o tiro errado que déramos no sentido do Heavy-Metal do EP. Mas havia um problema básico nessa mudança. O Beto não criticava apenas o peso, mas falava também sobre as letras "cabeça", e o excesso de firulas. 

Seu discurso tinha bastante bom senso, pois falava bastante sobre adequar o som ao padrão mais pop possível, se realmente desejássemos tentar a sorte no mundo mainstream. Claro que tinha coerência, e nesse sentido, eu e Rubens concordávamos, ainda que um pouco relutantes, com a dúvida pairando no ar : até que ponto seriam tais mudanças ? Mas o conflito instaurou-se mesmo foi com o Zé Luiz, pois amenizar o som, tirando o peso e o ranço Heavy-Metal, era salutar, mas na questão das "firulas Jazz-Rock", ele não gostou nem um pouco do discurso do Beto, e contra-argumentava que os arranjos elaborados eram a marca registrada da banda, desde o início. 

Isso que ele afirmava, tinha sua razão de ser, mas ao mesmo tempo, se pleiteávamos um lugar ao sol (com o perdão do trocadilho...), no mainstream, era fundamental que o som fosse simplificado ao máximo.Tal discussão não foi fácil. O Zé Luiz relutou bastante, não foi de primeira que aceitou a simplificação de nosso trabalho, rendendo muitas, mas muitas mesmo, conversas em grupo, e individuais entre ele e eu. Enfim, com o passar do tempo, essa resistência foi sendo quebrada e ainda no final de 1985, começamos a trabalhar numa série de músicas novas que já passaram a ter a característica de Hard-Rock, com letras mais simples, e sobretudo, com arranjos bem mais simplificados, dando uma roupagem muito mais pop à banda. 

Skowa, um artista multifacetado e também empenhado em produção e ativismo cultural
 
Retroagindo um pouco, antes de falar dos shows de estreia do Beto Cruz, devo registrar uma entrevista que eu e Rubens concedemos ao programa "Os Rapazes da Banda", apresentado pelo multi músico e agitador cultural, "Skowa", na Rádio USP FM, em 20 de outubro de 1985. Foi um programa de uma hora de duração, com a oportunidade de falarmos bastante sobre o trabalho, execução de várias músicas e num astral legal com o Skowa, e a garota que assessorava-o, e cujo nome não recordo-me. Apesar desse nome, que poderia sugerir algo muito diferente (para quem liga-se em teatro, "Os Rapazes da Banda" é uma peça teatral centrada no universo gay), nesse caso, o Skowa quis fazer mesmo foi um trocadilho com a questão musical. Essa entrevista eu também ainda tenho preservada numa fita K7, e tenho planos de disponibilizá-la no You Tube. Voltando a falar do show de Santos, no Santos Futebol Clube...


Aceitamos as condições e assinamos o contrato, mas estávamos obviamente com uma desconfiança, quiçá duas, pois naquela altura do campeonato, mesmo sendo jovens, já tínhamos uma vivência que deixava-nos ressabiados com esse tipo de profissional do nível desse produtor que contratara-nos. Chegou o dia do show, e o ônibus fretado que levar-nos-ia, estava estacionado no local e horário combinado previamente. Era por volta do meio dia, e naquela época, sem os congestionamentos monstruosos de hoje em dia, a ida ao litoral foi de uma hora, aproximadamente.

O ônibus não era top de linha, pelo contrário, era um "Mercedão" bem rodado, anos setenta, e não estava lá muito bem cuidado no seu interior. Entramos, junto com músicos de outras bandas que participariam também, e para amenizar a jornada, muitos eram amigos nossos, tornando a experiência mais amena. Mas o clima era tenso. Tanto o tal produtor, quanto seus asseclas, eram extremamente rudes e trataram-nos como moleques de uma excursão escolar.

Alguém fez algum comentário sobre a produção ser tosca, e o show estar ameaçado com esse tipo de coisas, quando um desses produtores ouviu, e foi contar para o tal empresário. Este ficou enfurecido e no meio da viagem, fez um discurso rude sobre "exigir respeito" etc etc. Para piorar e muito as coisas, ameaçou cancelar o show ali mesmo (claro que era um blefe, pois "o dele" estava na reta), mas exagerou, dizendo que se não colaborássemos, ordenaria que fôssemos expulsos do ônibus, e no meio da estrada, com instrumentos na mão. Muitos gritos e ameaças foram proferidas pelos asseclas do fulano, e para não conturbar mais o ambiente, a discussão acabou, por uma questão de bom senso. Aonde fomos envolver-nos, lidando com pessoas de baixo nível...

Isso sem contar que o ônibus acusou uma pane e chegou a ter um princípio de incêndio logo coibido por extintores, mas... que viagem conturbada. Bem, o resto da viagem foi feita em silêncio e só restava-nos torcer para que o show fosse razoável pelo menos, pois estava claro que seria tensa a relação com essa gente.

Essa foto performática foi tirada pelo poeta Julio Revoredo, em algum momento de 1984. Trata-se de minha própria sombra, e lembra de certa forma, o personagem Nosferatu, da versão clássica de 1922. E tal fantasmagoria espelha bem o clima de terror que vivemos, ao interagirmos com essa produção que estou descrevendo, sobre esse show em Santos...
Click; acervo e cortesia de Julio Revoredo


Chegando ao ginásio do Santos F.C.,  vimos que o P.A. contratado era absolutamente ridículo. Tal equipamento serviria para animar uma festinha de salão de festas de condomínio, desde que limitado à função de alimentar um pick-up; tape deck; ou receiver, tão somente. Todo mundo agitou-se, pois o sujeito responsável pela insanidade de contratar um equipamento de sonorização "Hi-Fi" para servir como P.A. de show de Rock, era no mínimo, um incauto, mas considerando-se que na reunião prévia realizada no seu escritório, a lista apresentada do rider técnico, era decente e compatível, só poderíamos deduzir que tratava-se mesmo era de pilantragem da parte do elemento. Uma pressão começou a irromper para cima do sujeito, e os seus aspones truculentos ficaram atentos, mas não havia como não reclamar diante de um disparate desse nível.

Com aquele equipamento, era impossível fazer o show, e o elemento ligou-se que não estava lidando com artistas brega, que apresentam-se com qualquer equipamento, pois muitas vezes, nem tem crivo pessoal para notar a precariedade, e não dimensionam o prejuízo que isso causa-lhes, ao apresentarem-se com um áudio horroroso. O equipamento de palco, também era deprimente, com a presença de amplificadores inadequados, não só pela baixa qualidade, mas sobretudo pela falta de potência conveniente para o tamanho daquele ginásio. A iluminação seguia o mesmo padrão, com duas torres laterais, e com poucos spots de 500, que no máximo serviriam como apoio, mas jamais como estrutura para um palco daquele tamanho. Então, alguém sugeriu uma solução paliativa para não arruinar o show de vez (hoje eu penso : não teria sido melhor cancelar ??), e daí, ligaram para o baixista da banda "Vulcano", o Zhema, que era dono de um equipamento de palco, e com algum reforço para vitaminar aquele P.A. ridículo que o empresário havia providenciado.

Por sorte, o Zhema estava em Santos e sem compromisso para aquela noite, pois o Vulcano não tinha show, tampouco a banda cover que ele mantinha regularmente, especializada em Creedence Clearwater Revival. Dessa forma, veio em socorro e solidariedade às bandas, das quais era amigo de quase todas, e não cobrou nada do rapaz, mas fez um pedido, que parecia óbvio : que o Vulcano fosse incluído e tocasse também. Da parte de todos, não haveria nenhuma objeção, pelo contrário, parecia-nos o mínimo em retribuição ao esforço de ajuda que ele empregaria. Alguns telefonemas depois, e após localizar seus companheiros de banda, o Zhema sinalizou que o Vulcano participaria, mas era certo que emprestaria seu equipamento, mesmo que não fosse possível a participação de sua banda. O fato, é que para quem não conhece-o, o Zhema é um sujeito extremamente gentil, cortês e prestativo, e todas as vezes em que interagi com ele, sempre fiquei com essa impressão positiva de sua pessoa.

A tarde corria e o horário para a realização de um soundcheck minimamente decente, já não existia mais. Era montar o equipamento do Zhema e tentar salvar a noite na base da "raça".
Ninguém ali tinha esperanças de um som de qualidade, e para quem é músico, ter essa realidade como perspectiva, desanima muito. O astral vai lá para o subsolo, diante de tais condições inóspitas. Claro, com esse panorama todo que delineava-se, os cochichos sobre um eventual calote do contratante em relação ao cachet acordado, começaram a crescer. Bem, talvez a única ação positiva desse sujeito, foi cumprir o compromisso de servir um almoço decente. E de fato, com o apoio do restaurante interno do Santos F.C., a comida servida foi farta e de qualidade. Montaram uma mesa gigante, e os membros das bandas misturaram-se em confraternização total. Lembro-me de ter sentado ao lado do Clemente e do Ronaldo, membros dos "Inocentes". Ambos eram extremamente simpáticos e eu já conhecia-os desde 1983. Eles foram assistir A Chave do Sol algumas vezes no Lira Paulistana, além de shows coletivos em que participamos juntos, além do fato do técnico de som deles, Canrobert, ter tornado-se nosso técnico, também. Nos cartazes e filipetas do show, estavam relacionadas as seguintes bandas : "Língua de Trapo"; "A Chave do Sol"; "Sparadrapo"; "Abutre"; "Os Inocentes"; "Eclipse"; "Santuário", e "Salário Mínimo". O fato do Língua de Trapo estar na relação do micro festival, foi um dos fatores que animara-nos a fechar também. Mas no dia do show, simplesmente não estavam no ônibus da produção, e ninguém fazia menção de que apareceriam por conta própria. Claro que era outro sinal de que as coisas estavam muito erradas nessa produção.

Se não apareceram e conhecendo bem o Língua, e sobretudo, o seu empresário, Jerome Vonk, era claro que não haviam assinado contrato e não apareceriam, certamente. Depois de algum tempo, soube que o Língua nunca acertara nada com esse energúmeno, e que pelo contrário, o Jerome estava a processar o sujeito, pelo nome da banda ter sido incluído, indevidamente nos cartazes e filipetas. Bem, o equipamento foi montado às pressas e mesmo com toda a boa vontade do Zhema, era claro que as condições seriam precárias, mesmo porque, nem que um P.A. de alto nível estivesse à disposição, sonorizar show de Rock em ginásio de esportes, é sempre traumático pelas condições acústicas inóspitas. Fora tudo isso, agravar-se-ia ainda mais a ruindade sonora do evento, se o público fosse pequeno, pois quanto mais gente presente, maior a possibilidade de abafar e coibir frequências desagradáveis. Sem tempo algum para um soundcheck decente, os portões do ginásio abriram-se para o público, e o Vulcano abriria o evento, servindo de cobaia das outras bandas, com o som sendo corrigido com o show em andamento. Tal prática é igual a de um mecânico fazer reparos num avião em pleno ar, com a licença da metáfora...


Outro fator muito desanimador, como se não houvesse vários naquele evento, foi a baixíssima presença de público. Sinal claro que a divulgação também falhara, pois se haviam cartazetes e filipetas, a pergunta era : quantos foram feitos na gráfica, e sobretudo, o que foi efetivamente para as ruas ? Olhando para o ginásio vazio, com apenas 80 pessoas espalhadas pelas arquibancadas e pista, onde caberia 3 mil ou mais, realmente era desalentador.

Ainda mais vendo as bandas apresentarem-se naquele palco todo improvisado, e sob uma iluminação vergonhosa, que certos festivais colegiais costumam ter bem mais estruturada...
No camarim (que também era para lá de improvisado, por tratar-se de vestiário de times de basquete; vôlei; futsal, e afins), a piada da noite entre os membros das bandas, era que haviam mais músicos ali, do que público para ver-nos. O tal "empresário" e seus asseclas estavam ainda mais tensos, naturalmente sentindo a iminência do prejuízo, mas o que poderia ser feito, se tudo era obra deles mesmos ?

Enfim, a cada banda que subia ao palco, era nítido o desânimo, e uns incentivavam os outros com aqueles comentários típicos para esse tipo de situação, ou seja, a coisa estava feia mesmo, e só restava-nos a dignidade de fazer o melhor possível pelo público que dignou-se a comparecer, e pagar por um lixo de produção daquele nível. Fomos um dos últimos a apresentarmo-nos. O combinado inicial era de 40 minutos para cada banda, mas todas, de comum acordo, abreviaram seus sets, visando minimizar o sofrimento generalizado, até do público, que realmente estava recebendo um produto deteriorado com aquelas condições de áudio e luz, de baixo nível. Nosso show foi de choque, como o combinado. Tocamos "Ufos"; "Segredos"; "Anjo Rebelde"; "Um Minuto Além", e "Luz".

O Beto cantou as músicas com toda a sua boa vontade, mas o equipamento não auxiliava de forma alguma. Tentamos tocar mais baixo do que o confortável para nós, mas a reverberação num ginásio de esportes era enorme, e tornava tudo uma maçaroca inevitável (e lastimável...). Por incrível que pareça, a reação do público foi calorosa, apesar do horror sonoro que ouviam naquelas condições. Acho que reconheceram o nosso esforço, tocando com uma performance normal, como se tudo estivesse às mil maravilhas.
Encerrada a noite de terror, voltamos para São Paulo em profundo silêncio naquele ônibus, pois definitivamente, não era aconselhável exercer qualquer tipo de comentário, e fomentar a irritabilidade daqueles indivíduos, ainda mais depois de um dia de tantas adversidades. Chegando a São Paulo no meio da madrugada, as despedidas foram discretíssimas, pois aquilo parecia um barril de pólvora prestes a explodir...
Para não dizer que tudo fora um desastre, contabilizamos a oportunidade do Beto quebrar o gelo com a banda.

E como curiosidade, o fato de termos dado um passeio pelo estádio da Vila Belmiro, o que foi legal, é claro. Além de termos visto e cumprimentado um grupo de ex-jogadores do Santos F.C., que jogavam uma partida de pôquer, animadamente, com o ator Nuno Leal Maia. Quanto ao cachet... ora, era pedir demais que o tal empresário honrasse o tal contrato, não é ?  E já que fomos obrigados a regularizar a nossa situação com a Ordem dos Músicos, levamos o contrato desonrado para o corpo jurídico da Ordem, que teoricamente existia para proteger-nos. Bem, isso aconteceu em novembro de 1985... estou escrevendo essa história em 2016 , e até agora o caso não foi resolvido. Brasil-sil-sil...
No dia seguinte, teríamos enfim um show dignamente produzido, e o Beto faria de fato sua estreia, decentemente...



Após um sábado difícil, lidando com adversidades para lá de presumíveis (mas que não tivemos a capacidade de discernir à época, ao ponto de evitá-las, simplesmente...), o domingo parecia ser mais promissor e digno para A Chave do Sol, e de fato, o foi mesmo. O compromisso era na unidade do Sesc, conhecida como Sesc Campestre, uma bela instalação com muita natureza; lagos; e equipamentos de lazer aos montes, incluso muitas piscinas.


O show seria numa concha acústica sui generis, pois ficava instalada dentro de um lago de razoável extensão de comprimento e largura, com o público acomodando-se na margem do outro lado, num declive que insinuava-se como uma pequena encosta. Visualmente falando, era muito bonito, e claro que foi bacana ter tocado ali, por esse e outros motivos. Alguns anos depois, esse mesmo palco seria o oficial para o programa da TV Cultura, "Bem Brasil", onde muitos artistas da MPB e Rock brasileiro tocaram, incluso o "Big Balls" do Xando Zupo, futuro companheiro meu no Pedra. Acho que o Golpe de Estado também tocou nesse programa. 

Esse show fora marcado graças à intervenção do Luiz Calanca, e nós dividiríamos o palco com o Centúrias e o Platina, bandas do cast da Baratos Afins, também. Chegamos no Sesc Campestre no horário combinado, e o soundcheck foi muito rápido, pois por tratar-se de um palco ao ar livre, não era possível realiza-lo com a devida calma, o que seria de bom alvitre.

Mas esse não seria um grande problema, pois o equipamento era de bom nível e os técnicos, competentes. Portanto, estávamos confiantes de que mesmo sem um soundcheck mais apurado, tudo daria certo. O Centúrias tocou primeiro, e da coxia, o som da banda parecia agradável na monitoração, para tocar-se com segurança. Mas quando o show deles encerrou-se, vimos que saíram com queixas sobre a monitoração, e isso acendeu a luz amarela para nós. 

Levamos o Edgard Puccinelli Filho, popular "Pulgão", como roadie, e ele insistiu para recitar um de seus poemas antes do nosso show.
Achamos que não teria nada de mau ele entreter o público um pouco antes de entrarmos em cena, mesmo porque, ele era extremamente divertido, e suas performances tresloucadas arrancavam risadas e euforia, geralmente. 


Mas vendo hoje em dia, será que agimos certo ? Bem lá foi ele declamar "A Morte", um de seus poemas. Apesar da declamação ser muito exótica, o tema era mórbido e convenhamos, não era um show Dark ou Gótico no "Madame Satã", mas um show no período da tarde; num ambiente bucólico; ao ar livre; com muito sol e calor; portanto, com as pessoas aproveitando o dia, quase num clima de pic-nic. 

Enfim, muita gente riu, houve aplausos, mas quando lemos a resenha do show, publicada na revista "METAL", algum tempo depois, ficamos surpresos por ver que o crítico Antonio Carlos Monteiro, não aprovou a performance, e deixou registrado assim, seu desagravo. O show foi curto, pois era compartilhado com outras bandas, mas foi muito bom. O Beto já conseguiu soltar-se um pouco mais e nesse aspecto, o desastre em Santos na noite anterior, acabou sendo benéfico. 

Lembro-me que a energia foi muito grande. Um dado curioso ocorreu nesse dia e que desencadearia uma mudança de vida para o Beto, dali em diante, acompanhando-o pelo resto de sua estada à frente da banda. Acho que posso revelar isto, pois não é nada comprometedor, e ele não teria motivo para chatear-se. Graças a esse show, alguns comentários sobre a aparência dele chegaram até nós. Por ser vocalista e estar mais exposto, sem um instrumento às mãos, qualquer pequena saliência que apresentasse no seu abdômen, poderia ser detectada, principalmente pelas mulheres, sempre mais observadoras.

E assim, uma gordurinha chamou a atenção desse tipo de audiência, e tais comentários incomodaram-no. Não deu outra, na segunda-feira posterior, ele matriculou-se numa academia de ginástica perto de sua casa, e a chamada "malhação", tornou-se rotina na sua vida. Mas ele tinha razão em cuidar-se, pois vocalistas são os músicos que mais chamam a atenção do público em geral, e sendo assim, tinha mais é que observar isso com atenção. 

E não era nada demais a gordurinha extra que ele apresentava nesse início, e confesso, no lugar dele, eu não teria tomado providência alguma...
Assim foi o show no Sesc Campestre, no dia 10 de novembro de 1985, um domingo quente. Segundo os produtores do Sesc, havia cerca de mil pessoas assistindo-nos.


 
Resenha sobre o Show realizado no Sesc Campestre, em São Paulo, publicada na Revista Metal, algum tempo depois, e também contendo a resenha sobre os shows de lançamento do EP, no Teatro Lira Paulistana, ainda com Fran Alves na banda. 
Sobre a performance do Edgard no Sesc Campestre, Antonio Carlos Monteiro observou :-"Após uma pausa em que uma figura estranha surgiu no palco para declamar alguns poemas sem senso, nem lógica, apareceu A Chave do Sol"...

E não havia muito tempo para respirar (ainda bem !!), pois o próximo compromisso seria logo em seguida. Tínhamos sido convidados para um show num evento no interior de São Paulo, e seria realizado numa chácara, próximo à cidade de Botucatu, no centro do estado. O cachet acordado era muito bom, mas ao contrário do show de Santos, onde havia um contrato formal, assinado e com reconhecimento de firmas mediante cartório, desta feita o acordo fora verbal, mas a confiança que tivemos era total, mesmo não sendo os organizadores do festival, conhecidos nossos, propriamente disso. Fomos cedo para Botucatu, no dia do show, com carros particulares, e a viagem transcorreu de forma tranquila e prazerosa.

Foto ilustrativa, não era esse o Dodge Dart que o Zé Luiz tinha naquela época, mas era nessa linha de pintura cor de vinho com capota de vinil, embora o dele fosse o modelo, "Charger RT" 


Na nossa comitiva, além dos quatro integrantes, a aspirante a produtora, Cristiane Macedo, também foi; além de Edgard "Pulgão" Puccinelli; Eliane Daic (namorada do Zé Luiz desde o início de 1984, e que sempre ajudava como quebra-galho de tudo na produção, inclusive acionando explosões pirotécnicas...); e o técnico de som, Nico, que conhecêramos no estúdio Vice-Versa, por ocasião da gravação do EP, recentemente. Nossa primeira ideia era levar o amigo Canrobert, mas este estava compromissado com outro artista na mesma data (provavelmente "Os Inocentes", não recordo-me com certeza), e assim, levamos o Nico, que era bem competente e gente boa. Chegando na cidade, fomos à residência de um dos contratantes, e de lá, fomos guiados à chácara, que localizava-se na zona rural daquela cidade.

O evento, por sinal, chamava-se "Rock in Chácara", numa alusão ao "Rock in Rio", aliás, em 1985, isso tornou-se uma febre, com muitos festivais por todo o Brasil copiando tal título, tentando aproveitar-se do vácuo do festival realizado no Rio. A tal chácara era muito simpática, e a estrutura do festival era simples, com um palco de sustentação de madeira, relativamente baixo. O P.A. e o sistema de luz disponibilizados eram dignos, sem muito luxo, mas suficiente para suprir a área onde o palco fora montado. Os organizadores esperavam entre mil e 2000 pessoas presentes, e nós seríamos a atração principal da noite, com duas bandas locais fazendo a abertura. A hospitalidade dos organizadores foi muito grande, e um almoço muito farto, tipicamente interiorano, foi-nos servido, e com direito a sobremesas maravilhosas, feitas com frutas colhidas no próprio pomar da referida chácara. Mas, a hospitalidade não ficaria só nisso. Com todo o tipo de drinks sendo servidos, e em sua maioria à base de aguardente interiorana e de "boa fonte" (segundo os entendidos), com minha exceção óbvia, que sou abstêmio, todo mundo foi bebendo a vontade...

Alguns contiveram-se, mas outros, não resistiram à ação da pinguinha maledetta...
Quando chegou a hora do soundcheck, o pior de todos no estado etílico, infelizmente, foi o Nico, o técnico que leváramos para operar o nosso show. Já na passagem, ele estava apresentando sinais de tal transtorno etílico, e se não houvesse a compreensão do técnico local, e dono do P.A. que prontamente ficou ao lado, auxiliando, infelizmente tudo arruinar-se-ia...


Não deu outra, o sujeito "capotou" depois do soundcheck, e nós optamos por deixá-lo dormindo, pois não reuniria condições de recuperar-se da embriagues, a tempo de operar o som da banda na hora do show. Resultado : fizemos o show sem a presença dele na pilotagem dos botões. O técnico local não era nenhuma sumidade no quesito áudio, mas operou razoavelmente.

Nessas circunstâncias, dava-nos por felizes em ter um sujeito coibindo microfonias básicas, pois todo o nosso esforço em levar um técnico nosso, que conhecia as músicas e poderia dar-nos o luxo de uma pilotagem de "levels" nos momentos chave de solos & afins, havia ido para o ralo. Como poderíamos suspeitar que o sujeito não conter-se-ia e cairia na armadilha da fartura interiorana, e com direito ao típico : -"experimente esta aguardente da região... blá blá blá"...?

Enfim, nem ficamos bravos com o rapaz, mas claro que ficamos desapontados e na volta a São Paulo, ele mostrou-se bem chateado,  pedindo-nos mil desculpas etc etc. O show foi bom, em se considerando que aquele dito festival não atraíra um público interessado em bandas de música autoral. A maioria ali presente, esperava bandas cover, e o clima era o de um "churrascão de fazenda", com todo mundo querendo mais era "farrear" ao som de covers internacionais. Mas não posso queixar-me, pois se o público foi meio frio, toda a hospitalidade dos produtores foi ótima (até no mau sentido da pinga farta...); e o cachet acordado foi pago em dinheiro vivo, e regiamente, meia hora antes de subirmos ao palco.

Apesar do dia bom, com sol; calor; e consequente noite de céu aberto e estrelado, o público esperado pelos organizadores foi aquém. Cerca de 500 pessoas estiveram presentes. Se fosse um teatro de porte médio, ou uma casa noturna, eu diria tratar-se de um número excelente, mas para um festival realizado numa chácara ao ar livre, decepcionou. Era 15 de novembro de 1985, uma sexta-feira de eleições no feriado nacional. Só para constar, houve eleição municipal nesse dia, e todos, tivemos que votar bem cedo para poder viajar ao interior. Botucatu fica a 245 KM de São Paulo, ou seja, uma distância razoável.


 
As pesquisas davam como certa a vitória de Fernando Henrique Cardoso à prefeitura de São Paulo, e num ato tresloucado, ele deixou-se fotografar no gabinete de prefeito, sentado imponentemente, um dia antes da eleição.

Tal foto saiu na capa do jornal Folha de São Paulo, no dia da eleição, e quando o resultado oficial apontou Jânio Quadros como vencedor, sua primeira atitude, muito deselegante por sinal, foi querer ser fotografado com um desinfetante spray à mão, higienizando a poltrona de prefeito...
Um dos outros atos deselegantes que esse senhor perpetraria como prefeito a seguir, foi o de perseguir, até fechar implacavelmente, o Teatro Lira Paulistana. Preciso dizer mais o que achei dessa vitória dele ?

Paralelamente às primeiras ações da banda com seu novo vocalista, Beto Cruz, matérias e resenhas iam saindo na mídia impressa, motivadas pelo lançamento do EP. Vou transcrever algumas delas, neste momento. Na coluna do Leopoldo Rey na revista Som Três, chamada "Dr. Rock", foi só uma nota, mas gostávamos muito em sermos citado ali, pois o Leopoldo era um dos mais respeitados jornalistas especializados, e mantinha uma postura íntegra, sem ater-se ao modismo em voga, e sua indefectível má vontade com tudo o que não rezasse pela cartilha do Punk' 1977, caso da maioria esmagadora de seus pares na ocasião, infelizmente.




Dr. Rock - Leopoldo Rey - Revista Som Três 



-"A Chave do Sol, segundo disco de 45 rpm (EP) desse grupo, que mistura Rock pesado com progressivo. A formação é : Zé Luiz (bateria), Rubens Gióia (Guitarra), Luiz "Tigueis" (Baixo) e Fran (vocal).



Apenas uma nota, como já havia salientado, mas a visibilidade da coluna do Leopoldo era enorme, e comemoramos a sua publicação, certamente. Saiu na edição nº 82, de outubro de 1985, e contendo a capa do EP como ilustração. Na revista "Metal", nº 13, uma nota anunciou o disco, com direito a foto promocional do quarteto. Na edição posterior, nº 14, aí sim, foi publicada a resenha do jornalista Antonio Carlos Monteiro, outro grande nome do jornalismo especializado, e também de conduta ilibada, bem diferente dos proclamadores de hypes indecentes, e adeptos do niilismo barato oitentista.
Eis a nota :

"Chave em Disco

Quem acaba de lançar-se em disco é o grupo paulista Chave do Sol, que soltou um EP de 45 RPM pela Baratos Afins. O grupo foi formado em 1982 e conta com Rubens Gióia na guitarra, Fran nos vocais, Luiz Domingues no baixo e Zé Luiz na bateria. É mais uma banda de qualidade que a Baratos  joga no crescente mercado nacional".


Uma nota sucinta, mas bem objetiva. E no mês posterior, aí sim, a Revista "Metal" lançaria uma ótima resenha.


Na Revista Metal, em seu nº 14, foi publicada a resenha oficial do EP. Assinada pelo jornalista Antonio Carlos Monteiro, que aí sim, foi fundo na análise do trabalho. Eis a transcrição :

"Depois de muita expectativa entre os roqueiros de Sampa, foi lançado, finalmente, o primeiro EP do grupo A Chave do Sol, através do selo Baratos Afins. Mas apesar da demora, quem teve´paciência não se viu frustrado com o disco. O grupo, formado por Zé Luis (Bateria), Luiz Domingues (Baixo), Fran (Vocais) e Rubens Gióia (Guitarra), mescla o Heavy Metal com o Hard Rock e com o Jazz Rock, e dentro desse estilo, obteve um excelente resultado em sua segunda experiência em estúdio - a primeira havia sido um compacto independente, lançado em 1984. O EP é aberto com "Anjo Rebelde", um Hard-Rock que lembra, em algumas passagens, o início do Heavy-Metal (vide Purple e Zeppelin), e que se torna primoroso pela bela guitarra do Rubens e pelo vocal bem colocado de Fran. "Um Minuto Além", a faixa seguinte, trata-se de uma belíssima balada, bem construída e bem executada, e  que possui também uma letra interessante. Nota-se nessa música, toda a influência de Blues que envolve o trabalho fe guitarra de Rubens. "Segredos" e "Ufos", dois poemas de Julio Revoredo musicados pela banda ( "nós temos muitos amigos poetas que nos dão trabalhos para colocarmos músicas, explica Luiz Domingues), não apresentam grandes novidades. Já "Crisis (Maya)", número instrumental, é o ponto altro do disco. Nessa faixa é possível perceber nitidamente a tendência "jazz-Metal" da banda : o baixo de Luiz Domingues fazendo uma bela linha e o teclado de Daril Parisi (membro do Platina) dando o clima que a música exige. Nota dez. E "Ímpeto", composição assinada por todos os membros da banda, é um hard'n roll" vibrante que encerra o EP com chave de ouro. Vale esperar por esse disco. As eventuais falhas que possam existir acabam sendo passadas para segundo plano pela performance extremamente profissional de cada instrumentista e pelo bom gosto das composições. E a isso ainda some a qualidade das letras, que se destacam dentro da mesmice que invade o Rock nacional".

Antonio Carlos Monteiro


O grande jornalista Tony Monteiro, em foto bem mais recente e devo observar...que bela camiseta, hein ? Exilado na rua principal !

Uma excelente resenha do ótimo jornalista Antonio Carlos Monteiro, que era um dos poucos naquela década, que não estavam inebriados pela estética do pós-punk, e escreviam sem o ranço niilista e odioso, baseado na infame cartilha de Malcolm McLaren.
Sua isenção era total, e de fato, apesar de ser um fã confesso da banda, tinha liberdade para tecer críticas negativas em aspectos que detectava, e assim o fez, conforme está no texto acima.


Uma exposição bacana foi-nos proporcionada quando recebemos o inusitado convite para uma entrevista numa revista de alcance popular. Estávamos habituados a sairmos publicados em revistas especializadas de música e Rock em específico, mas uma publicação fora desse mundo era uma novidade, e muito bem vinda por sinal, pois tratava-se de uma oportunidade para expandir nossos horizontes. Era a revista "Amiga TV Tudo", especializada em assuntos de TV; fofocas de artistas desse mundo; novelas etc etc.
Claro que não era o "nosso" mundo, mas o simples fato de termos sido abordados espontaneamente pela produção da revista, foi comemorado, pois denotava um crescimento. 


Se recebemos tal convite, realmente era um indicativo de que estávamos começando a desgarrar-nos do mundo fechado do underground, e chamando a atenção da mídia mainstream, ainda que nesse caso, o público alvo desse tipo de publicação, era totalmente insólito para uma banda com a sonoridade e propósitos da Chave do Sol. Enfim, aceitamos fazer a entrevista que foi realizada na residência do Rubens, numa tarde de um dia útil, e a matéria foi publicada no nº 816, com direito à uma foto promocional daquela sessão "equivocada" (que tanto já citei...), mas este click ao menos, estava mais razoável. E claro, mesmo apreciando muito essa enxurrada de resenhas que só promoviam-nos ainda mais, havia a constatação de que a troca frenética de membros só nos prejudicava. Já estávamos com novo vocalista e preparando nova sonoridade, contudo, tais resenhas mostravam outro vocalista, e falavam sobre um disco recém lançado e que no entanto, já não representava-nos condizentemente de acordo com nossas pretensões...

Eis a transcrição da matéria :

"A Chave do Sol só nos Baratos (primeiro LP anima grupo)

Há três anos surgia em São Paulo  um grupo que se definia eclético, misturando Rock, Jazz e Heavy-Metal. Formado por Rubens (22 anos, Guitarra), Luiz Domingues (25 anos, Baixo), Zé Luis (24 anos, Bateria) e Fran (vocalista), A Chave do Sol resolveu mostrar que é possível fazer uma música no estilo metaleiro com muita criatividade e qualidade. Dispostos a conquistar seu espaço, o grupo lança seu primeiro LP pela Gravadora Baratos Afins. A banda existe desde 82 e ano passado gravou um  compacto simples cuja faixa principal é a canção "18 Horas", que foi bastante executada pelas rádios paulistas, na maioria alternativas. Depois de algumas modificações, os rapazes do A Chave do Sol afirmam que o grupo agora está perfeito. Inspirados no Jazz e Rock dos anos 60, eles partem com uma proposta diferente : criar um som voltado e preocupado com a parte técnica e combinação de metais, ou seja, criatividade. Segundo Rubens, a intenção da banda é acabar com aquela ideia de que Heavy Metal é apenas uma música barulhenta".

Solange Guarino
 


Bem, a moça foi extremamente simpática conosco, mas cometeu deslizes na edição da conversa que tivemos, e de nada adiantou a gravação da entrevista num gravador e suas anotações de apoio, pelo visto. Bem, já começou com o subtítulo da matéria. Dou o desconto que a história do EP gerou muita confusão na mídia, conforme já venho relatando, mas afirmar logo de início que estávamos lançando um "LP", já foi demais. Outra observação que faço, não é uma queixa, mas uma constatação : incrível como nesse ramo de jornalismo especializado em TV, existe a tola preocupação em definir a idade das pessoas. Qual a relevância em determinar a idade de cada um de nós ?
E admitindo que isso era uma praxe nesse tipo de mídia de TV, esqueceram-se de definir a idade do Fran...
Outro ponto interessante, em dado instante, ela embaralhou a conversa, pois afirmou que usávamos "metais" nas nossas músicas, certamente confundindo-se com toda aquela baboseira de "metaleiros". Enfim, a boa intenção dela foi ótima e a despeito dessas falhas, ficamos contentes por sair numa revista popular e tendo assim a oportunidade de atingir um público diferente.

Na Revista Rock Stars nº 16, saiu a seguinte resenha :

"Firme no propósito pela conquista de um lugar ao sol, prossegue em sua batalha o grupo paulista A Chave do Sol, que está lançando agora seu primeiro LP, através do selo independente Baratos Afins. A banda existe desde setembro de 1982, e iniciou suas atividades como um trio, contando com Rubens Gióia (guitarra); Zé Luis (bateria) e Luiz Domingues (baixo). Recentemente, um quarto elemento se juntou a eles : foi o vocalista Fran, que já comparece no LP. É interessante perceber que tais grupos se esmeram no sentido de proporcionar à juventude brasileira algo melhor que os campeões de danceteria (Barão Vermelho, Titãs & Caterva),  que  se acomodaram em seu modelo pequeno-burguês, e se esqueceram que o Brasil está mais para favela do que para glitter. No LP da Chave, destaque para "Um Minuto Além" ("O mundo teria de ser um lugar onde todos pudessem viver / Com a certeza de um amanhã melhor / Com a certeza de um lugar ao sol / Eu só queria entender  por que tantas diferenças sociais ? / Tantas discriminações ? Somos todos iguais"...
Presente também no LP, a faixa instrumental "Crisis (Maya)", que conta com a participação do tecladista Daril Parisi (do Platina). Estamos torcendo para que a banda atinja seus objetivos, marcando assim, uma importante etapa da música jovem brasileira".

 

A resenha não está assinada, mas pelo estilo e vocabulário usado, está patente tratar-se da autoria do editor Valdir Montanari, que realmente expressava-se com bastante formalidade, pois além de ser jornalista musical, era também professor de física num colégio tradicional da zona sul de São Paulo, e nos seus textos, a formalidade; o bom uso do idioma; e a ausência de gírias, eram marcas registradas. Infelizmente, ele citou tratar-se de um LP, o tempo todo, mas na verdade, era um EP. Mais uma confusão gerada pela falta de ênfase na capa do disco, para deixar clara a rotação alternativa e adequada para ouvi-lo.

Bem, muito interessante ele ter pego o gancho da política, baseado na letra de "Um Minuto Além". A alfinetada no BR-Rock 80's parece não ter sido no alvo correto, pois a despeito da fragilidade musical das duas bandas que citou, no quesito letras, não eram nem de longe as piores, e pelo contrário, muito provavelmente tinham nesse quesito, o seu ponto forte. Aliás, justiça seja feita, no caso do Barão, o Cazuza escrevia boas letras, com conteúdo e poesia, e se haviam restrições, sem dúvida eram relacionadas à duvidosa performance dele como cantor, e a fragilidade da banda, na parte instrumental (deixo a ressalva, que a banda melhorou muito, anos depois). Mas ele estava enaltecendo-nos, e naturalmente que apreciamos essa colocação, ainda que em termos comparativos inadequados, a meu ver. Acho que ele gostou mesmo foi do teor sociopolítico da letra, e acabou citando "Crisis (Maya)", por ser instrumental e com elementos nítidos de Jazz-Rock, ou seja, algo muito mais próximo da sonoridade setentista que ele apreciava.
A resenha saiu com uma foto da banda, daquela sessão toda equivocada cuja história já contei, e é lastimável que a fotógrafa tenha enquadrado-nos num fundo negro improvisado e todo torto.
Bem, posso dar a desculpa de que tratava-se de um cenário "expressionista alemão" inspirado em filmes do Fritz Lang, para dourar a pílula, mas na real, era um pano preto; muito mal fixado na parede branca, e que ficou abominavelmente torto... ha ha ha...


Na Revista Bizz, nós tínhamos ao menos um elemento não compactuado com aquele tipo de jornalismo de rabo preso com a estética niilista oitentista. Era o Leopoldo Rey, que parecia um oásis humano, naquela redação infestada de lobotomizados de Malcolm McLaren... e ele teve a audácia de publicar uma resenha sobre o EP, ainda que pequena, pois ali era realmente jogo duro ter espaço para algum artista que não fosse da estética apreciada pela "intelligentzia"oitentista.

Eis a transcrição :

"No início de carreira, A Chave do Sol era um power-trio e depois do primeiro compacto, já na Baratos Afins,resolveu-se por um novo elemento na presença de Fran. Surgem agora nesse extended-play (45 rpm) com seis faixas de qualidade. Som e vocal bem equilibrados (note em "Um Minuto Além"). Algumas letras ficam devendo, mas Rubens come sua guitarra e Tigueis (Luiz Domingues) e Zé Luis estão entrosadíssimos. Muita garra e energia".

Leopoldo Rey


Nada como ser um jornalista do ramo, e mesmo com pouco espaço que deram-lhe, dar o recado preciso. Só por afirmar ser um "Extended Play", o popular "EP", já fez um golaço, diante de tantos chutes fora do estádio, por parte de outros jornalistas.

                     Leopoldo Rey, em foto bem mais atual

Reconheceu a qualidade de "Um Minuto Além", enaltecendo o Fran, e teceu elogios ao trio de instrumentistas da banda, além de dar um mega resumo da trajetória da banda. Achei vaga a referência negativa sobre as letras, mas claro que respeito a posição dele em não ter gostado, de uma maneira geral. Essa resenha saiu no nº 4, de novembro de 1985.


Aproveitando o gancho na narrativa, onde relato a repercussão do EP na mídia escrita, preciso relembrar dois eventos ocorridos em 1985, relacionados a publicações, mas que fugiam um pouco da abordagem tradicional de reportagem / resenha / nota & entrevista, quatro modalidades clássicas do jornalismo musical. Não sei precisar as datas em que ocorreram, mesmo porque, em ambas, foram situações que desdobraram-se, e demandaram muitas reuniões e fatos gerados. Vamos lá, a primeira história :

O Luiz Calanca comunicou-nos que um rapaz abordara-o com uma proposta interessante no campo do marketing. A ideia era lançar um álbum de figurinhas, com todo o cast de artistas da Baratos Afins, ao lado de artistas do Rock internacional. Claro que gostamos da ideia e aceitamos participar. Aliás, quem em sã consciência, não aceitaria ? Bem, daí a ser efetivamente lançado nas bancas, o álbum teve um longo processo de etapas burocráticas e técnicas a serem vencidas, e nesse quesito gráfico, inclusive, nós acabamos sendo prejudicados, pois houve uma pressão do editor para fechar o material (o que aliás era natural e legítimo da parte dele), mas infelizmente, essa pressa fez com que perdêssemos a oportunidade de termos duas figurinhas da Chave do Sol no álbum, pois não deu tempo de incluir a capa do EP. Nesses termos, ficamos representados somente com a figurinha da capa do compacto de 1984, mas não podemos reclamar, pois foi um apoio de divulgação e tanto, e motivo de orgulho para a banda, claro. Apesar desses aspectos positivos que arrolei, havia um negativo, também. E era inevitável, pois estávamos em 1985...
Isto é, claro que o álbum tinha um ranço Heavy-Metal acentuado, muito mais do que outras vertentes. Se por um lado era legal estar no álbum,  por outro, estar inserido em meio à cena heavy, não era exatamente o ambiente que desejávamos.

O álbum chamava-se "Rock Stamp", com boa apresentação gráfica, ilustrações e as figurinhas tinham boa impressão, com cores bem definidas e sem distorções. Lógico que eu comprei um álbum e revivi a minha infância, visitando as bancas de jornais e revistas com frequência e tendo assim o prazer de comprar os famosos "pacotinhos". Contudo, assim que arrumei a figurinha da Chave do Sol, e colei-a no álbum, parei de comprar as figurinhas, pois realmente não tinha interesse em completar o álbum, com toda aquela carga de bandas de Heavy-Metal. Essa foi a primeira história. A seguir, falo da segunda ocorrência, que consumiu-nos muitos dias de dedicação.


A outra história também passou pelo famoso balcão da loja Baratos Afins. O Luiz Calanca contactou-nos para comunicar-nos que fora abordado por um rapaz que desejava lançar "Song Book" de artistas do cast da Baratos Afins. A ideia parecia bastante interessante, e mesmo ponderando ser um tipo de ação de marketing meio elitista, claro que aceitamos de pronto, pois o outro lado dessa suposta elitização, era o fato de ser algo bem chic para o portfólio da banda.
Bem, o rapaz queria fazer o Song Book, nos moldes dos que existem normalmente no primeiro mundo, com rica ilustração de fotos, biografia da banda e acabamento de luxo, com papel de alta qualidade e capa dura. O único problema, é que nenhum de nós sabia ler e escrever música para transcrever corretamente as nossas músicas e o editor queria a transcrição completa de todos os instrumentos e a melodia dos vocais.

                            O genial trombonista, Bocato

Sendo assim, o Luiz Calanca resolveu contratar um músico de grande capacidade teórica para fazer a transcrição e nós apreciamos muito quando tomamos ciência de que esse teórico seria o Bocato, trombonista superb da música brasileira, com "trocentos" trabalhos como side man de artistas da MPB; Rock; Pop; Música instrumental; Black Music; Música latinoamericana & Caribenha; Jazz; experimental etc etc, fora seus trabalhos próprios, discos solos e trilhas de cinema, teatro, TV e publicidade. Daí em diante, foram muitas sessões de transcrição marcadas na casa do Rubens, onde ele gastou muitos cadernos de pentagrama, transcrevendo nota por nota de cada instrumento.


Ele foi muito camarada e teve uma paciência de santo. Lembro-me de passar tardes inteiras com ele, com o baixo em mãos e o apoio de um pick-up, com os dois discos da banda a postos, para audições ad nauseam de pequenos trechos, e em momentos de dúvida, eu mostrava-lhe a frase executada, ali na hora. E assim foi com a bateria e a voz do Fran Alves, pois esses trabalhos ocorreram ainda com a presença dele na banda, como membro oficial. Na hora de transcrever a guitarra, o Bocato sofreu um pouco no quesito "efeitos, alavancadas & ruideiras" em geral. Claro que tais efeitos não entram na teoria musical oficial, representados no pentagrama, de forma tradicional. Mas por outro lado, sem a menção de tais efeitos, a transcrição não ficaria fidedigna, pois tais artifícios estavam explícitos na gravação de quase todas as músicas. Então, o Bocato deu um jeito de fazer menção de uma forma criativa e dessa forma, todas as músicas do EP, mais "Luz" e "18 Horas" (do compacto anterior, de 1984), foram fielmente transcritas, num trabalho magnífico de sua parte.

Infelizmente, por conta da desistência do editor, esse Song Book nunca foi editado, e dessa forma o projeto foi engavetado. Ficou a frustração, pois realmente deu um trabalho danado, e teria ficado muito bonito o registro. Hoje, como peça de memorabilia, seria um luxo tê-lo no acervo. Essas foram as duas histórias extra resenhas / entrevistas, que tinha a relatar neste instante.


Seguindo com as principais matérias sobre o EP...

Na Revista Roll, nº 22, uma nota saiu dessa forma :

"Chave de Ouro
 

O grupo paulista A Chave do Sol ( Rubens Gióia, guitarra; Fran, vocais; Luiz Domingues, baixo e Zé Luis, bateria), acaba de lançar um LP pela Baratos Afins. O som da banda é definido por eles mesmos como "Jazz-Metal-Rock" (de muita qualidade, aliás) e eles já possuem um fã-clube com mais de 200 sócios. Bola cheia".

Interessante darem ênfase ao fato de que tínhamos um fã-clube organizado e em franca expansão. E por falar em Revista "Roll", preciso mencionar um fato extra, nada a ver como disco que acabáramos de lançar. Uma enquete foi publicada e comemoramos muito o fato de termos sido mencionados. Foi publicada na edição de nº 19, quando notamos que estávamos mencionados em igualdade de condições (empatados na 24ª posição) pelos leitores ao lado de nomes como "Elis Regina"; "Ivan Lins"; "Ira"; "14-Bis"; "Marina"; "Roupa Nova"; "Titãs"; "Eduardo Dusek"; "Plebe Rude", e "Ritchie". Ou seja, nomes consagrados e inclusive, até em alguns casos, artistas oitentistas na crista da onda. E na frente de muitos nomes que tiveram cotação bem menor do que a nossa, naquele meio de 1985, como : "Ratos de Porão"; "RPM", e "Sempre Livre", entre outros tantos que supostamente tinham muito maior visibilidade de mídia. O RPM então, foi muito sintomático, pois essa pesquisa foi feita na metade de 1985, e não passou nem dois meses, eles explodiram numa super exposição midiática, alçando-os à condição de mega estrelato.

Moral da história : com esquema de empresários e gravadora major bem amarrado, além de super exposição na mídia, tudo mudava da água para o vinho naqueles tempos...
Mas comemoramos, pois estarmos colocados em 24º lugar, num ranking com mais de 100 artistas, e em sua maioria, "tubarões do mainstream", sem ter esquema algum, no nosso caso, era digno de nota e orgulho para nós.


A Folha de São Paulo, um dos maiores, senão o maior jornal do país, a partir do início dos anos oitenta, adotou uma linha editorial fechada no seu departamento cultural, e que perdura até os dias atuais, infelizmente. Nesses termos, artistas não coadunados com a "revolução" Punk de 1977, tendem a ser desprezados; desdenhados e preteridos em favor de artistas de qualidade técnica muito duvidosa, para ser muito elegante. No início de janeiro de 1986, soltou uma resenha coletiva, falando sobre quatro discos de Rock pesado lançados pela Baratos Afins, entre eles, o nosso EP, evidentemente. Eis a transcrição :

"A estréia (sic) de "A Chave do Sol", em álbum, tem seu momento alto em "Um Minuto Além", onde a voz gutural de Fran (o mais novo integrante do ex-trio) só quer entender porque tantas diferenças sociais. Por trás, a guitarra de Rubens Gióia costura e caseia um clima delicado, diferente do que faz em "Anjo Rebelde", "Segredos" e "Ufos", quando o que vale é o muro desabando sob os ouvidos dos ouvintes. Segunda constatação : a competência está a caminho. A mesma "Chave do Sol" peca por tentar unir um baterista (atenção Zé Luis : ouça Max Webster) de influências jazzísticas e um baixo comandado por Luiz Domingues (também Língua de Trapo), resultando em problemas nas passagens da introdução ao tema central. A salada dá certo na instrumental "Crisis", mais para o Jazz-Rock".

Bem, considerando-se a praxe da Folha em vilipendiar quem não comunga pela infame cartilha de Malcolm McLaren, até que as críticas foram amenas...
Primeiro ponto : por que o jornalista sugeriu que o Zé Luiz ouvisse o trabalho da banda canadense Max Webster ?
Nada contra a banda, pelo contrário, trata-se de um trabalho legal, construído por músicos de grande capacidade técnica; qualidade e ótimas influências. O que causa-me espanto, é perder espaço na lauda para uma observação fora de contexto completamente a meu ver. O que quis dizer com isso, afinal de contas ? Ele é que era fã do Max Webster e talvez gostaria que A Chave do Sol adotasse tal linha musical ? Farejou similaridades entre as duas bandas ?
De minha parte, deixo claro que acho muito legal o trabalho do Max Webster, mas essa banda não é nem de longe, uma referência na minha vida, nem para A Chave do Sol, em momento algum de sua carreira, e tampouco para o Zé Luiz, que eu tenho certeza que tinha outras preferências. Não ofendi-me na época, e muito menos hoje em dia, mas quais seriam exatamente os "problemas" detectados pelo resenhista em relação à atuação da cozinha da banda ? É realmente uma observação vaga, e a única explicação plausível para que tivesse reprovado a linha de baixo e bateria ao longo do trabalho inteiro, talvez residisse no simples fato de não ter apreciado-a, pessoalmente. Aceito isso numa boa, é claro, mas publicar que era um "problema", pareceu-me uma observação vazia, sem argumentação plausível. Fora a contradição no próprio parágrafo, pois se "a competência está a caminho", o que estaria errado ? Poderia afirmar também que sua resenha tem "problemas", deixando vaga a ideia do que achei inadequado nela, e isso sinaliza o quanto foi infeliz na observação. Melhor teria sido falar de forma clara que achou exagerado os arranjos, com excesso de convenções, e isso seria mais aceitável como uma crítica realista. Legal a menção ao fato da letra de "Um Minuto Além" ter uma conotação de crítica social, mas no contexto da resenha completa e refiro-me às observações sobre os outros discos, a intenção do jornalista era clara de fazer a ponte entre a infantilidade reinante das letras de bandas de Heavy-Metal, falando sobre demônios, inferno & afins ou sob outro clichê óbvio, o de sexo; drogas, e Rock'n Roll, neste caso, sai o Rock, e entra o Metal...
Bem, como já disse, por tratar-se da Folha de SP, e sua costumeira rejeição à tudo que não deriva da metástase punk de 1977, até que foi uma resenha positiva...
E Max Webster é legal, mas... o que tinha a ver ??
Quer que eu ouça Steely Dan, também ? Pode deixar que eu ouço, desde os anos setenta e gosto muito !

Uma contrapartida interessante à resenha da Folha de São Paulo, deu-se na resenha publicada num jornal de bairro, de infinito menor alcance do que o poderoso jornal paulistano. Foi no "Jornal do Cambuci & Aclimação", a resenha do EP saiu assim :

"A Chave do Sol vem com segundo lançamento do selo Baratos Afins, só que agora é um LP. Depois da entrada de Fran para os vocais, a proposta é de fazer um Heavy-Metal e não um Jazz Rock que a Chave propunha anteriormente. O disco é um petardo e mostra que os rapazes da Chave do Sol são bons mesmo. A canção "Um Minuto Além" é bem no estilo do grupo alemão 'Scorpions'. Um prato cheio para aqueles que curtem Rock de boa qualidade. O negócio é correr nas lojas, antes que os discos se tornem raridades".

 
Ricardo Dalan  


É o tal negócio...um jornal de bairro humilde, e uma resenha bem mais objetiva do que o tubarão do mainstream publicou...
De fato, o resenhista detectou que o Jazz Rock que norteava o trabalho da banda anteriormente ficara um pouco obscurecido pelo peso do Heavy-Metal, mas não saíra de cena totalmente (e talvez tenha sido esse o fator que o jornalista da Folha detectara em sua resenha e provocou seu desagrado, que laconicamente chamou de "problema"). A menção ao "Scorpions" foi precisa, na medida que o sucesso radiofônico da canção "Still Loving You", realmente inspirou a banda a procurar uma balada nos mesmos moldes, como peça autoral para o novo disco. Acho que exagerou um pouco na sua avaliação final, ao dimensionar que os discos venderiam dessa forma tão efusiva, mas encaro como uma frase de efeito positiva, tão somente. Não tenho certeza, mas acho que Ricardo Dalan é irmão do Dalan Júnior, baixista e colaborador do jornal, e um dos principais articuladores do evento "Praça do Rock". E considero a menção ao fato do disco ser um LP, como um ato falho. Realmente, era uma constante essa confusão, e mais uma vez fomos prejudicados por conta desse formato não usual de 45 rpm...


Voltando a falar dos shows e demais acontecimentos no final de 1985, o próximo compromisso após o "Rock in Chácara" realizado na cidade de Botucatu, seria mais próximo da capital. Tratava-se de uma casa noturna chamada "Shock", localizada na cidade de Santo André, na Grande São Paulo. Realizou-se no dia 23 de novembro de 1985, com um público de 70 pessoas. Foi um show bacana, mas o equipamento disponibilizado não era bom e mais uma vez, fizemos o show mais na base da raça do que com condições ideais.


Depois desse compromisso em Santo André, tivemos um tempo enfim para dedicarmo-nos aos ensaios e pensarmos na reformulação do repertório, com a inclusão de muitas músicas novas e já coadunadas com a nova mentalidade da banda. Nessa época, já trabalhávamos em músicas como "O Cometa"; "O Que Será de Todas as Crianças ?"; "Solange"; "Saudade"; "Sun City"; "Forças do Bem" etc. Tais canções surgiram nos ensaios, com exceção de "Solange", que o Beto trouxe pronta, pois fazia parte do repertório de sua ex-banda, "Zenith". Como já relatei, para que essas novas músicas nascessem, muita conversa existiu no interno da banda, pois elas representavam mais uma troca de paradigma na carreira da Chave.
Era a terceira mudança de sonoridade e estética para a banda e nós só tínhamos três anos de vida. De fato, demos um passo errado ao lançar músicas com tanto peso. Como agravante os arranjos cheios de firulas do Jazz-Rock, tornaram as músicas mais difíceis para serem digeridas por um público não especificamente simpatizante dessa mistura. E mesmo assim, convenhamos, era o nicho do nicho, eu diria, pois não estávamos agradando o público "headbanger" radical tradicional e nossos velhos fãs estavam um pouco desapontados com o peso imprimido, com raras exceções.

Bem, internamente, tínhamos a resistência do Zé Luiz no tocante à simplificação de arranjos. Em sua concepção, a marca registrada da banda, era justamente a sofisticação via Jazz-Rock. Tirar o peso e o ranço Heavy-Metal, era ótimo, mas passar a exercer arranjos simples, era demais para ele. Lembro-me bem, na sua argumentação, costumava citar o "Rádio Táxi", como banda formada por músicos de alto nível, mas que deliberadamente faziam pop simplista para atingir o público popular. Isso para ele, era execrável. No meu caso, eu temia pelas letras, já que gostava da linha que adotávamos desde o início, falando sobre questões sociais, ecológicas, ou partindo para o hermetismo sofisticado, quando do aproveitamento dos poemas de nosso colaborador, Julio Revoredo. Mas o Beto insistia que a reformulação deveria ser total se quiséssemos de fato pleitear um lugar no mainstream, e nesse caso, não bastava adequar a parte musical, mas era importante também buscarmos letras mais populares. Ele tinha razão nos dois aspectos, é claro, ainda que fosse doloroso para nós, pois ficava a sensação de que estávamos "vendendo-nos" para o sistema...
Bem, a única coisa que era unânime para nós, era que erráramos na estratégia de imprimir peso ao trabalho, no início de 1985, motivado por falsos boatos de que o Heavy-Metal teria oportunidades no mainstream, e tirar esse ranço era mais do que necessário para 1986.

Após o show em Santo André, no final de novembro, tivemos um tempo maior para dedicarmo-nos aos ensaios e acelerar assim o processo de composição e arranjos para muitas músicas novas, algumas aliás que já citei nominalmente na postagem anterior. Estava delineada então a nova fase da banda, amenizando bastante o peso imprimido no EP. Tornava-se nítida a nova tendência de privilegiar-se o Hard-Rock, como base das novas ações. Dessa forma, o peso estava bem mais amenizado, e além disso, as letras estavam mais coloquiais, com o Beto trazendo sua visão mais direta, mais próxima do POP. Se em algumas ainda falava-se de questões sociais (a questão do apartheid na África do Sul, em "Sun City", é o emblema dessa fase com o Beto, é óbvio), mas em "O Que Será de Todas as Crianças ?" e "Guerra Quente", o enfoque era aquela fase final da "Guerra Fria" entre Estados Unidos e União Soviética, ou seja, assuntos nem tão "pop", assim.

Mas claro, em "Solange" e "Saudade", o Beto levou a banda para o caminho do Rádio Táxi (para desespero do Zé Luiz...), mas aprovando ou não o romantismo extremo dessas letras, passaram a representar esperanças de dias melhores para a banda, quiçá no mainstream, pois em 1986, conforme contarei na correta cronologia dos fatos, eram importantes apostas nas duas demo-tapes que gravamos e mandamos às gravadoras majors. Em termos estéticos, a aproximação ao Hard-Rock tinha um aspecto bastante interessante a meu ver, pois se o Hard-Rock (então) moderno, oitentista, era mais aceitável do padrão pop radiofônico e midiático em geral, haviam similaridades visíveis com o Hard- Rock clássico setentista.
Muitas nuances das músicas novas, mais coadunavam-se com "Led Zeppelin"; "Humble Pie", e "Bad Company", do que "Ratt"; "Motley Crüe", e "Quiet Riot". No meu caso, era um alívio, evidentemente. Bem, em dezembro de 1985, ainda tivemos dois compromissos. Um deu-se no interior, quando tocamos como "headliner" de um festival numa cidade do interior de São Paulo, e o outro, foi praticamente uma festa realizada num bar em São Paulo.

Essa nova investida no interior era mais um fruto que colhíamos graças aos esforços de três anos de trabalho. Nessa época, já não eram incomuns os convites espontâneos vindo de contratantes de outras cidades, buscando A Chave do Sol como banda emergente que éramos. Olhando esse fenômeno hoje em dia, não posso deixar de analisar que se por um lado era um "momentum" mágico, por outro, era desesperador não termos tido a oportunidade de contar com um empresário com real poder de fogo que interessasse-se por nós e vislumbrasse o potencial de crescimento. Dentro dessa análise calculista, não posso também deixar de observar que se havia o potencial, o material estava mal direcionado. É claro que na hora "H", nem o compacto, e pior ainda o EP de 1985, eram adequados para dar uma amostragem do nosso áudio. Por isso, tornou-se premente a gravação de uma demo-tape, o mais rápido que pudéssemos, contendo o material novo que estávamos criando. Não dá para deixar de notar que mais uma vez, lutávamos contra o relógio...

Bem, voltando a falar do show, o convite era para participarmos de um festival de Rock na cidade de Aguaí, no interior de São Paulo.
Era uma iniciativa da Secretaria de Cultura Municipal daquela cidade, tratando-se de um festival com cunho competitivo, mas pelo menos no formato de uma mostra, e não participações de uma música apenas, com a participação de bandas locais, além de cidades da região, também, e dois headliners "famosos" nos seus dois dias. O "Ira" faria o encerramento numa noite, e A Chave do Sol, no outro. Ficamos lisonjeados por sermos considerados banda com "aura" de mainstream, sem o sermos de fato, diferentemente do Ira, que gozava desse status. Era um sinal claro da nossa condição de emergente ao final de 1985, e que ficaria ainda mais acentuada no ano seguinte, 1986, conforme relatarei na cronologia adequada. A aspirante a empresária, Cristiane, estava conosco há pouco menos de dois meses, mas na prática, não havia  proporcionado-nos absolutamente nada de concreto, a não ser boatos sobre colocações que nunca viabilizaram-se. Mas, assim como em Botucatu, e nos shows que fizemos nesse período por São Paulo e adjacências, acompanhar-nos-ia como membro da comitiva, para Aguaí, na condição de produtora / empresária etc etc.

Desta feita, além do Edgard Puccinelli como roadie, levamos também o Canrobert para operar o P.A. e um amigo que conhecíamos há algum tempo, de uma forma inusitada, o Rodolfo Tedeschi, popular "Barba". Abro um parêntese para falar dele, pois não obstante o fato de ser um rapaz legal, a curiosa maneira com a qual o conhecemos, merece registro. O "Barba", era morador do mesmo bairro onde o Rubens morava, e era aquele tipo de vizinho do qual fica-se por anos, cumprimentando, mas do qual nada se sabe, nem mesmo o nome. Segundo o Rubens, fazia tempo que conheciam-se "de vista", mas nunca haviam conversado ou estabelecido amizade de forma concreta. Um dia, surgiu a oportunidade, falando de música, naturalmente vendo a movimentação de entra e sai de cabeludos e estojos de guitarra; baixo, peças de bateria etc. Enfim, daí, o "barba" disse ser fotógrafo e logo mostrou alguns trabalhos dele, e nós apreciamos os seus clicks. Dessa forma, surgiu assim a ideia de levá-lo para fotografar alguns shows. Tínhamos sempre amigos fazendo essa função, como o Carlos Muniz Ventura, por exemplo, mas nessa ocasião, convidamos o "Barba" para ir conosco e fotografar-nos em Aguaí e ele aceitou. Tremenda figura legal, era um prazer contar com ele na viagem e da parte dele a recíproca era verdadeira, gostando da possibilidade de viajar conosco, show de rock etc etc. E assim fomos para Aguaí, onde logo de início, tínhamos uma matéria no jornal local com destaque, pois o Rubens concedera entrevista por telefone alguns dias antes e chegando à cidade, verificamos que haviam cartazes, filipetas e faixas nas principais ruas e avenidas, ou seja, o trabalho de divulgação fora bem conduzido e os organizadores estavam motivados, esperando um bom público.

Na noite em que tocaríamos, estavam escaladas as bandas locais e algumas de cidades vizinhas, como já salientei, mas entre elas, uma coincidência interessante, na presença do "Zenith", banda onde o nosso vocalista, Beto Cruz, havia tido passagem recente. As bandas eram : "Cabeças y Lustres";  "Draco"; "Calibre 12"; "Sociedade Anônima"; "BR";  "Éden" e o "Zenith", já citado. Assim que chegamos no local onde realizar-se-ia o show, um enorme pátio, ficamos contentes em ver que o P.A. contratado era de bom nível e adequado à demanda de público que esperavam contar no local, fora a luz, que se não era o equipamento do "Queen", era razoável.


O festival chamava-se "ERA", e tratava-se de sua primeira edição.
No soundcheck, foi tudo muito tranquilo e amistoso, conosco e com o suporte que o técnico Canrobert teve para trabalhar e sempre tende a ser tensa a relação dos técnicos de equipamentos com o técnico da banda, fora a velada (as vezes, explícita), "disputa" para ver quem "entende mais", gerada por ciumeiras tolas, mas típicas desse meio. Um fato curioso deu-se quando notamos que a nossa "empresária" sumira de nossa vista. Ao sermos procurados pelos organizadores do festival para tratar de alguma questão burocrática de última hora, é que demos falta da presença dela que teoricamente deveria cuidar de tais atribuições. Bem, esse sumiço teria desdobramentos...

Eliane Daic, namorada do Zé Luiz à época, descansando dentro do famoso Dodge Charger RT, que transportou-nos à Aguaí.

Encerrado o soundcheck, fomos conduzidos à Kombi da produção e levaram-nos para jantar num bom restaurante da cidade. Procuramos pela "empresária", mas ela simplesmente sumira. Resolvemos ir jantar sem sua presença, nessas circunstância enigmática de sua falta.

Beto Cruz aguardando o soundcheck, na tarde quente interiorana

Estávamos muito satisfeitos com o tratamento e atenção dos organizadores, e parecia que seria um show tranquilo e bem sucedido. E foi, a não ser por dois eventos que não foram causados por culpa deles, mas quase estragam a noite. O primeiro, ocorreu no restaurante, pois quando chegamos ao estabelecimento, nem lembrávamos que nossa aparência Rocker ainda poderia causar reações em meio à pessoas desacostumadas a conviver com pessoas, digamos, "fora do padrão". Após tantos anos, era inacreditável que essas coisas pudessem acontecer ainda, mas numa cidade interiorana, na metade dos anos 1980, ainda acontecia...

Eu, Luiz Domingues, e Edgard Pucinelli Filho aguardando o soundcheck, e atrás de nós dois, o velho Dodge Dart do Dinola

Enfim, quando entramos no restaurante, as conversas pararam em todas as mesas e a atenção caiu em cima de nós, como se fôssemos alienígenas acabando de aterrissar numa cidadezinha do meio-oeste americano, conforme enredo de filme de Sci-Fi da década de cinquenta. Claro que foi constrangedor, mas em questão de segundos já estávamos sentados na mesa e preocupados em analisar o cardápio e formular pedidos...

Canrobert com microfone à mão, iniciando primeiros testes de áudio; atrás dele, Rubens Gióia e eu, Luiz Domingues, estou no nível do solo. 

Esse não foi o problema, contudo. O que ocorreu, foi que tal evento incomodou um membro da nossa comitiva e após a ingestão de bebida alcoólica, tal membro mudou seu comportamento e passou a fazer performances para chamar a atenção geral e assim, demonstrar seu desagrado pela recepção quase hostil que havíamos tido na nossa chegada. Tornando-se inconveniente, passou a exagerar ao ponto de alguns clientes reclamarem com o gerente do restaurante...

Essa foto é de "contato", portanto está sem qualidade. Mas como registro histórico dessa passagem em Aguaí, serve naturalmente...no pequeno estádio de futebol local, em formação de time, Beto Cruz; Rubens Gióia e José Luiz Dinola em pé. Agachados : Edgard; eu - Luiz Domingues, e Can Robert.


Aí, inverteram-se os papéis, pois o semi-bullying pelo qual havíamos passado, passou a ser justificável, pois os "freaks" (e possivelmente "drogados", sabemos como é  imaginário popular...), estavam incomodando, agora de fato...
Bem, era só uma pessoa alterada na nossa mesa e internamente, falamos-lhe para parar com aquele comportamento que estava envergonhando-nos, mas ficamos no fogo cruzado, pois quanto mais o advertíamos, mais ele irritava-se, justamente por estar fora de consciência devido à bebida. Bem, alguns produtores do show intervieram, tentando convencer o dono do restaurante de que era uma manifestação isolada e não representava a banda, tampouco o festival, mas o clima já estava azedado e só restava-nos encerrar o jantar e sair dali. Não revelarei quem foi o protagonista dessa ação, mas isento a banda. Nenhum de nós quatro, músicos, foi tal pessoa. Voltando do restaurante ao local do show, um fato totalmente inesperado deixou-nos atordoados, e por pouco não vira um tumulto generalizado e estraga não só o nosso show, mas o próprio festival. "Do nada", ouvimos o nosso fotógrafo, o "Barba", indignado, berrando pela presença da polícia. Quando fomos entender o que havia acontecido, no meio daquela confusão em meio à multidão e uma banda tocando a todo vapor no P.A., finalmente o "Barba"  contou-nos que estava caminhando tranquilamente, quando um grupo de rapazes perguntou-lhe agressivamente porque não cortava sua barba...
Atônito com tal abordagem gratuita e despropositada, retrucou-lhes perguntando se a barba incomodava-os e aí, arrancaram-lhe um chumaço dela, na mão, e uma troca de socos sucedeu-se.

Foi tão inusitado e tão rápido, que só percebemos quando ele berrava e os rapazes já haviam sumido em meio à multidão. Bem, fora uma provocação gratuita, com o intuito claro de provocação e nossa reação de imediato foi ajudá-lo, talvez localizando os vagabundos, mas naquela balbúrdia, foi impossível. Fora a indignação pessoal e o desconforto de ter um pedaço de barba arrancada de forma agressiva, ficou por isso mesmo, pois ele não quis ser socorrido e de fato, não era caso de procurar pronto-socorro, tampouco quis prestar queixa na polícia, pois sabia que os PM's dariam de ombros etc etc. Absolutamente inadmissível pela gratuitidade em atacar alguém da nossa comitiva, certamente estragou a nossa noite, porque ficamos abalados com esse baixo astral.

Outra foto sem nitidez alguma, servindo apenas para registrar o momento antes do soundcheck. Deduzo estar o Rubens, atrás e na frente, Beto Cruz e Can Robert

Mesmo chateados com essa ocorrência totalmente imprevisível e desagradável, tocamos com o foco habitual em dar o nosso melhor.
Minha lembrança é a de ter sido um show energético, com um número interessante de fãs da banda, que vieram inclusive das cidades vizinhas, e que acompanhavam-nos desde as nossas aparições na Fábrica do Som, entre 1983 e 1984.

Claro, nem todo mundo que estava ali presente conhecia-nos, pois ao contrário da expectativa criada por nós termos sido colocados como banda headliner, e com o mesmo status do "Ira", era óbvio que não tínhamos a mesma fama que dessa banda, que gozava das benesses de estar no mainstream, via gravadora major.

Portanto, claro que a despeito de termos fãs ali, não era todo mundo que conhecia-nos, e não vou mentir, claro que não houve uma "comoção" pela nossa presença no festival.

Outro ponto, nessa apresentação, nós tocamos duas músicas novas que já faziam parte da nova safra que estávamos produzindo, e evidentemente coadunadas com nossos esforços de levarmos a banda para o Pop, dentro do possível, e tirando com veemência o ranço Heavy-Metal do EP. Mas as mudanças eram ainda mais profundas e posso afirmar, estávamos imbuídos de também coibir as firulas do Jazz-Rock, e as letras "cabeça"...
Enfim, nesse festival, tocamos "O Que Será de Todas as Crianças ?" e "Saudade".

No caso de "Saudade", aí sim, a aposta no Pop era emblemática, pois a música tinha uma estrutura muito simples e o arranjo fora elaborado para ser acintosamente pop, com uma linha de baixo e bateria inusitada para a história da banda até então, com extrema simplicidade. Chegava a ser engraçado tocar a música numa única nota, sem um desenho sequer, por mais simples que fosse. Aquilo para eu e para o Zé Luiz era quase um haraquiri...

Mas, estávamos convictos nessas mudanças, visando um bem maior e com resignação, incluímos a música no set list. Para ser sincero, não achava-a ruim, e até hoje em dia, não a considero dessa forma, mas em comparação ao trabalho que fazíamos anteriormente, era um baque ter algo tão simplório no set list.




Voltando ao show, lembrança bacana também foi a do Beto confraternizando-se com os membros de sua ex-banda, o "Zenith", nos bastidores do festival. Encerrado o nosso show, ainda ninguém sabia do paradeiro de nossa "empresária", desaparecida desde o momento em que chegamos no local do festival.

Então, alguém veio contar-nos que ela fora vista evadindo-se do local na companhia de alguém da produção local. A história não para por aí, e adoraria contá-la por ser engraçada de certa forma, mas não vou comprometer ninguém e dessa forma, digamos que ela teve suas razões para não acompanhar o processo todo do show e pelo que soubemos, fora bem aproveitada a sua estada em Aguaí.
De volta a São Paulo, resolvemos por bem terminar a experiência dela como "empresária" e tantos anos depois, nem cabe lamentos sobre sua meteórica e pífia atuação na função. Tomara que tenha sido feliz dali em diante, nos empreendimentos em que envolveu-se, doravante.

Todas as fotos desse show são do Rodolfo Tedeschi, o "Barba". Como as cópias não foram reveladas, eu consegui apenas "scannear" essas imagens sem qualidade técnica, do "contato". Portanto fica essa ressalva.
Esse show no Festival "1º ERA", na cidade de Aguaí, ocorreu no dia 19 de dezembro de 1985 e cabe aqui, a transcrição da matéria que saiu publicada no "Jornal de Aguaí" :

"Um Muro de Decibéis

'A ideia de um encontro de Rock como esse é excelente porque abre espaços, principalmente para o interior, que sempre foi muito criativo'. A opinião é de Rubinho, guitarrista do grupo Chave do Sol, que tocará no encerramento da primeira eliminatória do ERA, no dia 19 de dezembro. Formada em outubro de 1982, a banda apresenta uma interessante fusão, juntando alguma música de Jazz-Rock com um pesado som de Heavy-Metal. O público, por sinal, costuma referir-se com frequência ao "Jazz-Metal Rock da Chave do Sol" e exemplos claros dessa linha podem ser encontrados nas seis faixas do disco que gravaram pela produtora Baratos Afins. Nesse disco estão presentes o tempo todo, os ritmos inusitados e as viradas do criativo baterista Zé Luiz, as frases e desenhos criados pelo baixista, Luiz Domingues, que não se limita à marcação de compassos e duela constantemente com os solos melodiosos de Rubinho na guitarra, que aliás, já tem condições de brigar por um espaço entre os melhores guitarristas do Rock brasileiro.
Os vocais que no disco eram de Fran, agora estão por conta de Roberto, um músico muito experiente, com passagens em várias bandas, e que está com a Chave, há cerca de três meses. Extremamente profissional, o grupo já fez mais de 100 shows pelo interior do Estado de São Paulo e Rio de Janeiro e completou mais de 20 aparições na TV. Para a apresentação o 1º ERA, Rubinho promete o lançamento de duas músicas inéditas, compostas nos últimos 15 dias. Rubinho aproveita a oportunidade para 'louvar os organizadores do encontro pela iniciativa e desejar que ele se repita sempre com muito sucesso'. E emenda seu recado : "Com relação à Chave do Sol, os que comparecerem vão ter uma grande surpresa, tanto os que conhecem, como os que não conhecem nosso trabalho. Não vamos deixar pedra sobre pedra".


Bem, a jornalista Célia Coltro usou frases de efeito colhidas durante sua entrevista telefônica, e mesclou-as à informações contidas no release da banda, isso é nítido. Bacana terem dado essa ênfase, sem contar a foto promocional publicada, já da mais recente sessão de fotos, com o Beto.


Passado esse show em Aguaí, estávamos novamente sem empresário, mas analisando friamente, e com todo o respeito à boa vontade da moça, estávamos na verdade, sem, mesmo com sua presença no cargo. O próximo compromisso seria o último de 1985, e tratava-se de um contato iniciado pelo Beto Cruz, que agregava mais essa qualidade à banda, ou seja, ele tinha iniciativa e contatos.
Seria um show a ser realizado numa casa noturna e a novidade, era que o dono do estabelecimento teve a iniciativa de contratar-nos com o intuito de fazer uma experiência. Tratava-se de uma casa bem montada e localizada, mas acostumada a abrir suas portas para apresentações de bandas cover. Claro que tal intenção era salutar e apreciamos fazer parte desse balão de ensaio, torcendo para dar um público legal, e assim o dono tornar uma rotina a apresentação de bandas autorais. 

Chamava-se "Café Brasil" e a localização era excelente, na Rua Santo Antonio, quase esquina com a Rua 13 de maio, o grande local de agito noturno no bairro do Bexiga, de São Paulo. Mas nessa experiência, não estaríamos sozinhos e portanto, o Beto teve a ideia de transformar o nosso show numa festa de fim de ano, com certeza já alertando diversos colegas nossos para a oportunidade nova que a casa oferecia e ao mesmo tempo, tratando de vitaminar o interesse do público, com a presença de alguns convidados para lá de especiais. Nesses termos, fizemos o nosso show quase normal, pois cedemos um pouco do nosso espaço para mini shows do "Centúrias"; "Harppia", e "Golpe de Estado", o que foi muito legal !

O Golpe de Estado, aliás, fazia um de seus primeiros shows como banda recém montada. Tinham poucas músicas compostas ainda e justiça seja feita, o Beto Cruz foi um elemento importante para que a banda fosse formada, pois indicara o guitarrista Hélcio Aguirra para Paulo Zinner e Nelson Brito, que há pouco tempo haviam retornado de Londres, onde moraram por alguns meses. E a dupla levou Catalau para pilotar os vocais, pois conheciam-no desde o início dos anos oitenta, quando formaram o "Fickle Pickle", ou melhor, deram continuidade ao trabalho, pois essa banda existia desde os anos setenta. Enfim, dera super certo a junção de um guitarrista egresso do Heavy-Metal (Harppia), com forte influência de Black Sabbath, UFO e Judas Priest, com uma cozinha ultra antenada em Rolling Stones, Deep Purple e The Who e um vocalista super influenciado em Alice Cooper e Mick Jagger.
A noitada foi excelente no Café Brasil e o dono animou-se. Daí em diante, agendou shows de bandas autorais, ao menos uma vez por semana, tornando sua casa, num outro espaço legal para o Rock autoral na cidade de São Paulo. E A Chave do Sol voltaria nessa casa no ano de 1986, por mais duas vezes, conforme comentarei no momento oportuno. Essa primeira oportunidade no Café Brasil ocorreu no dia 22 de dezembro de 1985, e 80 pessoas assistiram o nosso show e os mini shows das bandas citadas. Ano novo que chegava e novamente estávamos cheios de esperança para o ano de 1986, e sobretudo, com a certeza de que as mudanças que estávamos promovendo, colocar-nos-iam em condições de pleitear enfim, dias melhores para a banda. 


Permito-me fazer um balanço com poder de análise, e embasada pelo distanciamento histórico :
Chegamos ao final de 1985 com mais uma mudança radical de planejamento. Exatamente um ano antes, estávamos fechando 1984 na mesma situação, num misto de euforia pelas perspectivas, com preocupação pelas mudanças que precisávamos empreender. Tínhamos uma carência vocal que achávamos crucial para poder aspirar um lugar no mainstream, daí demos muita sorte em achar o Fran Alves, num momento em que ele colocara-se em disponibilidade, e pouco tempo depois de termos perdido o vocalista gaúcho, Chico Dias.


Os boatos que cercavam a proximidade do Festival Rock in Rio, davam conta de que uma nova onda de Rock chegaria, e nela, ao contrário da onda em voga e oriunda do Pós-Punk, nós teríamos uma chance. Não era nada confortável para nós, mas era menos invasivo e doloroso do que o Pós-Punk, esse sim, intragável para nós, por motivos óbvios. Contudo, o Festival Rock In Rio passou, e nenhum indício muito claro surgiu, dando a entender que as gravadoras majors, abririam cast de Rock pesado em seus quadros. Pelo contrário, continuou sua toada em prol do pop, com a estética do Pós-Punk dando as cartas. Com isso, nossos esforços em mudar nosso trabalho, imprimindo peso extra, fracassaram e trouxe-nos alguns prejuízos. Não agradamos fãs nossos antigos, que apreciavam-nos com a vestimenta do Jazz-Rock setentista. E esse mal-estar explodiu com maior truculência nas mãos do novo vocalista, Fran Alves. Este por sua vez, era um tremendo vocalista, e pagou o preço dessa incompreensão generalizada. Como saldo, ficou a necessidade de uma nova e radical mudança, e no bojo, perdemos Fran Alves, o que não era parte do plano de novas mudanças. E novamente trocamos de vocalista e roupagem estética, repetindo o padrão da mesma época do ano, em 1984. Claro, assim como estávamos esperançosos no final de 1984 com as providências que estávamos adotando, chegávamos ao final de 1985 na mesma situação, o que era sintomático.

Vendo hoje em dia (2016), está claro que faltou-nos um direcionamento orientado por alguém que realmente conhecesse o mercado. Empreender tantas trocas de membros e orientação artística da banda, só prejudicou-nos em todos os sentidos. Como consolo, fico com a consciência tranquila de que fizemos o que achamos melhor na época. Faltou-nos apoio de algum consultor realmente de visão, e não posso penitenciar-me por isso. Analisando friamente, talvez jamais teríamos que correr tanto atrás de um vocalista. Pense bem, leitor, que cantor do BR-Rock oitentista, era realmente um grande vocalista ? Nós sonhávamos com um frontman de nível internacional, baseado em nossas percepções sessenta / setentistas, mas duas perguntas ocorrem-me hoje em dia  :
1) Para que ? e; 2) Onde achá-los ?
O "para que" é emblemático por si só, pois sendo práticos, o vocal do Rubens teria sido suficiente para suprir necessidades pop de mercado. O próprio Zé Luiz tinha potencial vocal, e nós três fazíamos back (ainda que no meu caso, eu reconheça que só fui melhorar depois do Sidharta, em 1997, e aprimorar ao vivo com a Patrulha do Espaço, a partir de 1999). Isso é uma análise fria e calculista. Que fique bem claro que não estou chorando sob o leite derramado. E jamais pense o leitor que lamento a presença de Fran Alves na formação da banda, pois foi importante demais para a história da banda e onde deixou sua respectiva marca, de forma indelével. Até a tentativa com Chico Dias foi válida e no início da narrativa, deixei claro que lamentei que Verônica Luhr não tivesse prosseguido como vocalista de banda, pois seu potencial era o de uma estrela, e em condições, com produção e apoio, ela teria suplantado em milhas, vocalistas femininas muito inferiores a ela, e que tornaram-se estrelas do BR-Rock oitentista. Por conseguinte, a entrada de Beto Cruz também jamais poderá ser questionada, tanto pela tentativa em si de mudança de estratégia da banda, quanto pelas qualidades artísticas dele, pessoalmente, e o quanto agregou como vocalista; frontman; compositor, e sobretudo pela força de trabalho que trouxe para a banda. Encerrando, chama-me a atenção que num espaço de apenas um ano de distância, estivéssemos repetindo o mesmo padrão de expectativas e de providências. Assim encerrou-se 1985...

Continua...

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