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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Chave / The Key - Capítulo 3 - Escassez; Disco & Esgotamento - Por Luiz Domingues

O ano de 1989 entrou, mas o ânimo estava muito mais baixo. Tudo bem que o início de 1988, havia sido ainda pior sobre outros aspectos, com aquela hecatombe do final de 1987, ainda precipitando-se fortemente sobre nós, mas não poderia dizer que o início de 1989 fosse renovado de esperanças por dias melhores, aliás, no quesito "esperança", o panorama não era muito pródigo.
Bem, a despeito da cena não muito favorável, a luta continuava para essa banda, embora eu estivesse cada vez mais deslocado emocionalmente dessa ação. Um fato novo ocorreu logo no início desse ano novo, quando o Beto anunciou que havia feito um contato nos Estados Unidos, na sua última viagem àquele país. Sinceramente não lembro-me muitos detalhes, mas o fato é que havia conhecido um produtor de shows em Miami, e este interessara-se pela nossa banda, mediante exame de nosso material, incluso a demo tape gravada recentemente, e apesar de sua simplicidade total. Nesses termos, uma reunião foi marcada para aprofundar detalhes e assim, o Beto quis levar mais um integrante da banda nessa viagem para reforçar a nossa representatividade e o escolhido foi o Fábio Ribeiro.

Portanto, ambos viajaram para Miami e conversaram com o empresário que gostou de nossa banda e queria inserir-nos numa turnê, inicialmente de condições modestas, mas cabe explicar : "modestas" para os padrões americanos, pois para nós pobres Rockers brasucas e acostumados a conviver com as piores situações possíveis, seria uma turnê espetacular, com show seguidos em várias cidades, em lugares pequenos, é bem verdade, mas com uma infraestrutura que só poucos tinham acesso aqui no Brasil. Poderia ter sido a grande salvação para a banda naquele momento, não resta dúvida e mesmo profundamente contrariado com a estética adotada, no meu caso, eu teria aceitado a oportunidade logicamente, e a consequência disso é imprevisível se analisada aos olhos de hoje em dia. Poderia ter mudado a vida de nós cinco envolvidos, em vários aspectos. A banda poderia ter crescido lá fora e ter feito uma carreira sólida, portanto prosperado e alcançando fama internacional, com muito maior respeito dentro do Brasil, como é praxe para qualquer artista que consegue tal reconhecimento fora, para só depois então ser respeitado na sua própria pátria, vide Sepultura, só para ficar num exemplo mais perto do nosso espectro ("pero no mucho"...), mas também citando Carmen Miranda, como exemplo clássico desse tipo de tendência. Mas também poderia apresentar alternativas individuais para os seus membros. Edu e Fabio por serem virtuoses e impressionarem naturalmente, fatalmente receberiam propostas para atuar em bandas americanas. Bem, mera especulação, porque nada disso ocorreu. O fato é que o tal empresário americano ofereceu perspectiva sim de uma turnê de pequeno porte para começarmos, mas a contrapartida seria largarmos tudo e viajarmos para os Estados Unidos, imediatamente. E as condições financeiras não favoreciam-nos de forma alguma para tomar tal atitude, portanto, a proposta do empresário ficou só no sonho de dias melhores para essa banda, com uma possível etapa internacional de sua carreira. Sem verba para largarmos tudo sem receios e aventurarmo-nos nas mãos de um empresário desconhecido, num país estrangeiro e acima de tudo sabendo como são os americanos com a questão da imigração legal / permissão de trabalho / "green card", não fizemos a loucura. Restava-nos continuar labutando aqui na Terra Brasilis, absolutamente inóspita como de costume...

Lista dos melhores do ano de 1988, segundo a opinião dos leitores da Revista Rock Brigade, publicada logo na primeira edição de 1989, com três componentes de nossa banda, bem cotados nesse ranking 


O primeiro show de 1989, foi uma oportunidade boa, não resta dúvida. Fomos escalados para dividir uma noite com o Golpe de Estado, na casa de shows Dama Xoc, que tinha uma representatividade forte na cidade de São Paulo naquela altura.

Como já observei em capítulos anteriores, tratava-se de uma casa que era simpática aos artistas de pequeno e médio porte, mas isso não significava ser tarefa fácil agendar uma data ali. Portanto, quando surgia uma oportunidade dessas, claro que a agarrávamos.

Nesse dia em específico, a situação era bem clara : nós éramos uma banda derivada de uma banda que tivera tradição nos anos oitenta, mas na verdade, éramos uma banda nova em termos de status naquele instante. O Golpe de Estado surgira bem depois da Chave do Sol no cenário do Rock Paulista e brasileiro, mas agora, "A Chave" era uma outra banda, e não poderia usufruir do status alcançado pela banda extinta. Então, moralmente falando, era óbvio que o Golpe de Estado havia adquirido um patamar de direito maior que o que essa nova banda tinha, e daí a primazia em tocar como headliner.

"Heavy-Metal" com A Chave e Golpe de Estado ??? Esses jornalistas...

Isso era inquestionável, mas daí a reivindicar uma porcentagem maior de bilheteria, após o show estar acertado com valores iguais entre as bandas, e que foi uma hipótese que foi ventilada subitamente no camarim, gerou um clima tenso e desnecessário, visto que éramos amigos de longa data, há muitos anos. Fiquei chateado com essa conversa súbita, mas logo isso foi sanado e o combinado prevaleceu, com as duas bandas dividindo fraternalmente a féria dessa bilheteria, e que foi boa, com cerca de mil pagantes presentes no Dama Xoc.

A registrar-se, foi o último show com grande público que essa banda faria, pois daí em diante, até a minha saída, alguns meses depois, só faríamos poucos espetáculos, e com público bem menor.
Assista acima, "Sweet Surrender", uma música inédita, e que não entrou no repertório do disco que gravaríamos ainda em 1989, ao vivo nesse show do Dama Xoc, que estou mencionando. Acervo de Nelson Junior. Eis o Link para ver no You Tube : 

https://www.youtube.com/watch?v=pn33sfyekX4
Veja acima, "The Winds Blows Chill and Cold", também inédita e que não entrou no disco "A New Revolution", em versão ao vivo no Dama Xoc, no mesmo dia. Acervo de Nelson Junior. Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=igx2NjZOaRU


Na prática, era o mesmo show de sempre, e o meu ânimo cada vez menor para continuar participando daquele trabalho e de sua sonoridade que não apreciava. O público, alheio às minhas insatisfações pessoais, estava bem animado e claro que dei o meu melhor, mesmo contrariado, em respeito a eles e aos companheiros, mas aumentava em progressão geométrica a minha vontade de deixar tal trabalho, e buscar um novo rumo na minha carreira e de fato, foi questão de poucos meses para que isso concretizasse-se.
O show no Dama Xoc, dividido com o Golpe de Estado, aconteceu em 19 de fevereiro de 1989, com cerca de mil pessoas nas dependências dessa casa de shows.

Resenha desse show com o Golpe de Estado no Dama Xoc em fevereiro de 1989, na Revista Rock Brigade

O contato com o produtor que sinalizara ter interessado-se em produzir um LP dessa banda, havia esfriado desde o final de 1988.
Na verdade, seu interesse prosseguia, mas dificuldades financeiras alheias à sua vontade estavam protelando o fechamento do acordo, e consequente início dessa produção, concretamente falando.
Mais ou menos em março de 1989, ele voltou a dar-nos perspectiva de que estava sanando suas dificuldades financeiras e que em breve, liberaria verba para darmos início nessa produção.

Bem, hora de revelar quem ele era : o dono de uma loja na "Galeria do Rock", chamada "Devils Discos", que apesar desse nome, não era necessariamente uma loja focada no mundo do Heavy-Metal. Esse rapaz conhecido como "Chicão" (Francisco Domingos Souza), na verdade tinha postura anacrônica aos anos oitenta, pois mais parecia um hippie sessenta / setentista, fã que era de música Folk latinoamericana e acústica, nos moldes de bandas como o "Tarancón", especializada por tais tradições Folk de diversos países sulamericanos, principalmente. Portanto, chegava a ser exótico um rapaz com esse gosto musical interessar-se pelo Hard-Rock cheio de virtuosismos que nossa banda fazia nessa época. Muito gentil, calmo e educado, tinha uma postura Hippie, muito mais próxima das minhas raízes contraculturais, mas em relação àquela banda e seus outros membros, mostrava-se quase antagônica.

Enfim, seu interesse nem era pela música em si, mas por ter vislumbrado uma oportunidade de investimento, já que gostando ou não aquela estética, como homem de negócios, sabia que aquela escola estilística oitentista era uma onda que muita gente seguia na ocasião e que portanto, poderia dar impulso aos seus planos de fazer seu selo crescer. Claro que era salutar ter alguém interessado em investir e de fato, mesmo demorando mais alguns meses para isso ser formalizado e materializado-se, uma coisa tem de ser salientada : sua postura como produtor seria e foi, perfeita, do começo ao fim do processo. De minha parte, só lastimo que ele tenha conhecido-me num mau momento pessoal de minha parte, onde deve ter ficado com a impressão de eu ser um músico / artista sem grande entusiasmo por aquele trabalho. Isso, infelizmente estava acima das minhas forças naquele instante. Todavia, sabia na época e ainda mais hoje em dia, que seu esforço para "fazer acontecer" aquele LP, foi notável.

Um acordo alinhavado em 1987, em favor da velha Chave do Sol, tomou contornos de ajuste, tardiamente, e por vias tortas...
Conforme já contei nos capítulos sobre A Chave do Sol, o Beto Cruz havia fechado um patrocínio com uma luthieria que estava entrando no mercado, chamada "Vintage", para o LP The Key, que lançamos em 1987. Porém, muitos acontecimentos fizeram com que tudo mudasse de figura, pois o combinado inicialmente não confirmou-se. Resumindo : os instrumentos prometidos não saíram da forma combinada, mas apenas o baixo tinha tal perspectiva de ser entregue, e pelo fato de que eu pessoalmente pressionei (educadamente, é claro), o luthier nesse sentido. E outro fato, após quase dois anos de espera, o rapaz em questão entregou o meu instrumento para outro luthier finalizá-lo, portanto, quando recebi-o por volta de julho de 1989, ele estava com outra marca no seu headstock (a chamada "cabeça" do instrumento, onde ficam as tarraxas), e assim, o patrocínio estava inviabilizado, tecnicamente falando, mas não por minha / nossa culpa...
Mas agora, na iminência de poder contar enfim com esse baixo, o Beto agilizou um acordo com a revista "Rock Brigade", e a luthieria "Tajima", e assim, uma propaganda saiu nessa referida revista, dando conta de que éramos patrocinados por tal luthieria.

Foto de Carlos Muniz Ventura, meu amigo fotógrafo, e coincidentemente, amigo do Luthier, Seizi Tajima, também

Era uma propaganda meio ilusória, pois não tratava-se de um patrocínio oficial e por tudo o que esclareci acima e também nos capítulos da Chave do Sol, o que valeu mesmo, além do meu baixo ter sido finalizado e entregue enfim, foi o fato da propaganda em si ter dado uma ajuda substancial na nossa divulgação. Essa foi a primeira e única vez em toda a minha carreira, que tive uma menção de patrocínio, ou "endorsement" como diz-se no jargão, pois nunca mais fui sondado por nenhum fabricante de nada que relaciona-se a equipamentos e acessórios, para tal disposição e nunca procurei ninguém, também. Conheço muitos colegas que tem muitos patrocinadores, mas eu nunca preocupei-me com isso, e sei que já fui criticado por tal postura de suposto "desprendimento", mas não é o caso. Se procurado, poderia até analisar a proposta, mas particularmente, eu nunca corri atrás disso, pois não gosto da ideia de ter que ficar vendendo a alma para ter um punhado de palhetas ou um joguinho de cordas gratuito a cada "X" tempo. Quando preciso, vou na loja, compro, e não tenho o rabo preso com ninguém. E também jamais usaria a postura de alguns colegas que ocultam marcas em instrumentos e equipamentos com fita isolante, para não fazer propaganda em fotos e /ou filmagens, para fabricantes que não "dão-lhes nada de graça".

Ora, uso instrumentos da Fender & Rickenbacker; amplificador Ampeg; cordas Rotosound... e não espero que tais indústrias "paguem-me" por eu usar seus produtos. Abomino a ideia da mesquinharia absoluta, que transforma a cabeça de alguns colegas numa ganância sem limites, mais se portando como pilotos de F1, com dúzias de patrocínios em seus macacões. Foi essa portanto a história da Chave fazendo propaganda da Luthieria "Tajima" nas páginas da revista Rock Brigade.


Os shows estavam muito raros nesse ano de 1989, e no primeiro semestre, após aquele show no Dama Xoc, já mencionado, só tocamos no Black Jack Bar, em poucas ocasiões. Isso ocorreu primeiramente em 31 de março e 1º de abril, com públicos respectivos de 120 e 280 pessoas. Repetiríamos a dose em 16 de maio de 1989, com 200 pessoas na casa. Uma explicação para tão poucos shows em muitos meses, além do desânimo interno na banda, e a escassez de melhores oportunidades, também tinha um outro componente. O fato, é que Edu e Fabio estavam envolvendo-se com outros trabalhos e diante das circunstâncias, não havia como exigir deles a atenção total à nossa banda.



O Fabio estava recebendo muitos convites e passou uma boa fase viajando para Belo Horizonte, onde em princípio gravou com a banda mineira "Overdose", mas recebeu outros convites, também.  




E no caso do Edu, ele formalmente entrou numa outra banda, onde vislumbrou uma oportunidade de carreira melhor que as incertezas que A Chave tinha naquele momento. Tratava-se de uma banda chamada : "Anjos da Noite", cujo vocalista era filho do cantor sertanejo, Sérgio Reis e segundo consta, o seu pai não estava medindo esforços para usar todo o seu prestígio no meio artístico, para fazer a banda atingir o mainstream. Era uma proposta musical muito mais pop do que A Chave tinha, e claro que o Edu seduziu-se por tal oportunidade, mesmo porque um de seus irmãos, e que era igualmente um guitarrista virtuose, chamado Átila Ardanuy, já era componente da banda. Enfim, daí em diante, além de todas as dificuldades que estávamos enfrentando e o meu desânimo cada dia maior, passamos a lidar também com o choque de agendas e muitos impedimentos no tocante à disponibilidade de horários para ensaios.
Pior ainda, o Edu sinalizou que usaria algumas músicas suas no disco a ser gravado pela outra banda, e não disponibilizaria-as para o nosso LP.

Isso irritou bastante o Beto, que ainda acreditava e lutava bravamente por essa banda, principalmente, mas eu estava cada dia mais alheio, e na verdade, sentia-me emocionalmente fora da banda, embora estivesse protelando uma saída oficial, apenas para não deixá-la com mais um problema a resolver, tendo que procurar um novo baixista. Nesse ínterim, o produtor Chicão anunciou que estava quase pronto a dar-nos sinal verde para iniciar a produção do LP a ser gravado. Com esse clima todo que descrevi acima, era difícil reunir forças para animar-se. Mas tinha de haver um respeito um pelo outro, e sobretudo ao Chicão, que não sabia de nada disso que ocorria-nos internamente e pelo contrário, estava bem animado a produzir-nos. Portanto, isso tinha de ser levado em conta para que tirássemos não sei de onde, forças para não desapontá-lo.

Entrou o segundo semestre e dois novos shows no Black Jack Bar, seriam realizados. Estávamos muito limitados a shows esporádicos e sempre na mesma casa, mais pelo fato de seus donos serem nossos amigos, do que vivendo um momento bom na carreira. Aliás, o momento não era nada bom. Tocamos então novamente no Black Jack Bar, nos dias 14 e 15 de julho de 1989, com público respectivo de 200 e 300 pessoas. Para os padrões daquela casa com dimensões pequenas, muito bom, apesar de tudo. Uma última oportunidade para tocarmos numa casa de médio porte, ocorreria em agosto. No mesmo dia desse show, o Beto foi sozinho à emissora Brasil 2000 FM para promover tal show, durante a sua programação normal.

Novamente convocados a tocar no Dama Xoc, desta feita foi um show agendado de última hora, portanto sem muita chance de fazer-se uma divulgação decente. Dividimos a noite com uma jovem banda que praticava um Hard-Rock com bastante similaridade com o Hard setentista, chamada "Controlle", que estava para gravar um álbum, inclusive. Foi aí que conheci um bom amigo, o baixista Renê Seabra, que infelizmente já deixou-nos, recentemente (2013), de forma muito precoce e vencido por um câncer muito agressivo. Nessa noite de 9 de agosto de 1989, o público presente no Dama Xoc foi diminuto, com apenas 70 pessoas presentes no recinto. 
Veja acima, uma versão de "Paralell Paradise", proveniente desse show do Dama Xoc de agosto de 1989. Lançado por Will Dissidente no Blog A Chave do Sol em 2015. A captura de época foi de Cláudio Cruz, e a remasterização de Edgard "Bolívia Rock". 

O link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Rd7zz7bJq9k

No camarim, vieram dizer-me que os membros da banda estrangeira, "Destruction", estavam presentes assistindo-nos, mas ao contrário do que esperavam de minha pessoa, é óbvio que não comovi-me nem um pouco. Eram bem vindos como qualquer pessoa que estava ali pagando ingresso, mas eu não era nem de longe alguém simpático ao mundo do Heavy-Metal, e portanto, sabia de sua existência, mas não interessava-me nem um pouco pelo seu trabalho.
Acima, versão da música "Narrathan", também executada ao vivo no Dama Xoc em 9 de agosto de 1989. Lançada por Will Dissidente em seu Blog A Chave do Sol. Captura na época : Cláudio Cruz, com masterização de Edgard "Bolívia Rock".


O Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=E_lFkFyE1G4
Ouça, "The Call", em versão ao vivo deste show do Dama Xoc, em 9 de agosto de 1989. Lançado por Will Dissidente em seu Blog A Chave do Sol, em 2015. Captura na época de Cláudio Cruz. Masterização de Edgard "Bolívia Rock".

O Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=dA3Z_332RZg
Resenha do Show no Dama Xoc, em agosto de 1989, publicada na Revista "Rock Brigade" de outubro do mesmo ano, e assinada por André "Pomba" Cagni. Interessante a referência ao nome do álbum que ainda nem havíamos gravado, ser supostamente intitulado como "Runaway", coisa que aliás não confirmou-se a seguir, e o fato de que na foto do show em si, eu estar usando enfim o meu baixo Tajima, que havia sido entregue há poucos dias nessa ocasião, e no detalhe, um "knob" (botão), do instrumento estar faltando na foto, pois havia caído no palco logo no primeiro show, frustrando-me, naturalmente...

Alguns dias depois, faríamos o derradeiro show dessa banda, e cabe uma análise. Esse episódio, na verdade, já foi contado sob outro viés, no capítulo "Sala de Aulas", pois envolveu diretamente um aluno meu. Foi o seguinte : meu aluno Marcelo Dias, popular "Marcelo Carioca", era componente de uma banda chamada "Êxito", de São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista.
Um dia chegou na minha aula, dizendo-me que sua banda tinha conseguido uma data num dos três teatros mantidos pela prefeitura de São Bernardo do Campo, no caso o Teatro Elis Regina, e que pelo fato de sua banda ser desconhecida, não fazia sentido usarem a data sozinhos, sob o risco de não reunirem condições de arrebatar um grande público. Portanto, fez-me o convite para que A Chave fosse escalada nessa data, e sua banda fizesse a abertura do show. Poxa, muito bacana a atitude dele em formular-me tal gentil oferecimento, mas o que ele não sabia, é que o clima era desolador nessa banda, que tinha o compromisso de gravar um disco, mas na prática, estava quase dissolvida, com apenas o Beto ainda lutando bravamente para mantê-la em pé, e talvez com apoio do Zé Luiz Rapolli, em tese. Eu estava exaurido, e Fabio & Eduardo, entretidos com outros trabalhos. Então, passei tal informação aos demais e mesmo nesse clima desfavorável da banda em processo de desmantelamento, todos aceitaram fazer o show. Daí em diante, todo o mérito por tal produção ter sido um sucesso, deve ser creditado ao meu ex-aluno, Marcelo e seus companheiros, que trabalharam com muito afinco para tal. Muito compreensível, pois eram jovens e davam seus primeiros passos como músicos.
Essa história foi contada igualmente no capítulo "Sala de Aulas", mas agora eu avanço um pouco mais aqui.

Sob o ponto de vista do show em si, foi uma apresentação com bastante energia, pois o público respondeu com muito entusiasmo.
A banda estava dilacerada internamente, mas a sinergia no palco, com a devolutiva de um público muito quente, contagiou-nos, tornando a performance ótima, como se a banda estivesse em grande forma, e não era o caso, na verdade. Foi o último show dessa banda e dessa formação, pois a seguir só dedicamo-nos à gravação do álbum, e após o processo de gravação, um longo período seguiu-se até que o Beto novamente reformulasse-a inteiramente e tentasse prosseguir no ano de 1990, e parte de 1991.
Se A Chave nada tinha a ver com a velha Chave do Sol, embora para muitos fosse sua continuidade forçada, após mais uma reformulação e nova troca de nome (o LP que gravamos já seria creditado à uma banda chamada "The Key"), não havia nenhum cabimento em que algum fã ou jornalista ainda acreditasse que fosse uma continuidade...
Enfim, o show no Teatro Elis Regina, em São Bernardo do Campo, ocorreu no dia 13 de agosto de 1989, com abertura e preciosa produção dos componentes do "Êxito", e com cerca de 300 pessoas na plateia. Tal banda de meu aluno mudaria de nome, formação e orientação artística, alguns meses depois, e em 1990, convidar-me-iam para produzir uma Demo-Tape. Tal história, está contada com detalhes nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos" de minha autobiografia. O nome da banda tornar-se-ia : "Aura".
Algum tempo depois e eles mudariam de novo, adotando o nome de : "Via Lumini", gravando dois discos e fazendo relativo sucesso entre apreciadores do Rock Progressivo setentista, tão vilipendiado e desprezado na década de oitenta. No meu caso, era adorável, é claro... sobre A Chave, só restava-nos gravar o álbum...

Entramos em processo de gravação do álbum, em julho de 1989.
O Chicão, produtor, fechou acordo com um estúdio de bom nível, mas que não era badalado no meio. E exatamente por estar iniciando-se no mercado, praticava precificação mais acessível.
Contudo, tinha uma maquinário de primeira qualidade e suas instalações cheiravam a tinta, com tudo novinho em folha e instalado num belo e amplo sobrado no bairro do Alto de Pinheiros, que é um quadrante extremamente residencial do bairro de Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo, e com a maioria das casas sendo de alto padrão, ou mesmo mansões. Tal estúdio chamava-se : "Big Bang". Um dos sócios era Marcelo Galbetti, membro do "Premeditando o Breque", banda contemporânea do Língua de Trapo, egressa portanto daquela cena da "Vanguarda Paulista", surgida entre 1979 e 1982, mais ou menos. O outro sócio, e que era dono do imóvel, chamava-se Marco Mattioli. Não ensaiamos muito, mas aquelas músicas eram bem rodadas, sendo que as tocávamos desde 1988, nos shows, portanto, não havia o que temer em termos de perda de tempo nas tomadas básicos de gravação. A metodologia foi na base do "um-por-um", portanto fizemos a captura da bateria mediante guia no primeiro e segundo dia, com o Rapolli gravando sua parte com bastante eficiência. De última hora, resolvemos gravar "No Quarter", do Led Zeppelin, e claro que era inviável inseri-la no disco por conta da fortuna que seria ter que pagar as taxas à editora que controla tal canção, mas gostamos de ter uma versão nossa dessa canção épica, talvez pelo simples prazer de ouvir em casa, secretamente. Contudo, na hora da mixagem, claro que tal devaneio foi descartado e muito provavelmente essa versão foi apagada ali mesmo em 1989, assim que deixamos o estúdio e outro cliente foi usar as fitas, prática comum em estúdios comerciais. 


A música "Before the Bridge Falls Down", era uma versão com outra letra de "Sun City", do repertório da Chave do Sol, e acho hoje em dia muito constrangedor que tal canção forjada nesses termos, tenha sido inserida no LP, embora muitas modificações na melodia principal tivessem sido efetuadas. Deveríamos na verdade, ter gravado uma música inédita e de fato, havia várias que acabaram ficando de fora da seleção final, caso de "Paralell Paradise", que era um tema instrumental do Fabio Ribeiro, muito inspirado no Prog Rock setentista e bem bonito, na minha opinião.
Algum tempo depois, já em agosto de 1989, eu passei umas três horas da minha vida gravando a minha parte, sozinho, sem a presença de outros componentes da banda, apenas com a companhia do técnico, Michael Angel, numa noite de sexta feira, quando lembro-me que ficamos conversando animadamente sobre os anos setenta. E nessa altura, era tudo o que eu queria, ou seja, voltar para as minhas raízes e livrar-me da década de oitenta. 


Assista acima, o clip da música "When We Was Fab", do então mais recente disco do George Harrison, que havia acabado de ser lançado, e cujo mergulho na nostalgia da psicodelia sessentista começou a fazer-me crer que, sim, era possível resgatar a minha verdade, e ela contrastava com o mundo oitentista hostil.
"Muito tempo atrás quando éramos fabulosos"... pois é, isso deu-me o "click" que eu precisava para dar um chute no pesadelo oitentista, e voltar a sonhar com minhas raízes 1960 / 1970... apesar de que na letra da canção, Harrison não fala em nostalgia pelos anos sessenta propriamente dita (pelo contrário, tem um certo escárnio embutido, mas tudo bem, ele era britânico e esse tipo de humor sarcástico faz parte da cultura deles), causou-me tal efeito emocional, e daí, minha vida começou a mudar, de volta às minhas raízes. Não que tivesse-as abandonado, isso jamais. Mas por um longo período (a década de oitenta inteira), convivi com a ideia de que tudo o que eu amava havia sido destruído, portanto, uma semente de esperança começou a germinar... 
 

Tal música e o disco inteiro do Harrison ("Cloud Nine"), mais o LP solo do Keith Richards também recém lançado em 1989 ("Talk is Cheap"), representavam um fio de esperança na minha combalida expectativa "vintage" e o descarte do ranço oitentista em que inseri-me por absoluta falta de escolha, estava prestes a ocorrer. Um dissabor ainda na gravação da guia, reforçava tudo o que enfatizo. Ouvindo as convenções que eu e Rapolli havíamos criado para enriquecer algumas canções, o Edu pediu para não as gravarmos, mas fazermos uma base simples, pois julgava que aquelas frases atrapalhavam-no nos seus solos. Bem, reduzido a um baixo reto, quase sem frases, a gravação do disco tornou-se ainda mais penosa para a minha discografia. Portanto, esse trabalho é certamente o mais simples que fiz em minha carreira inteira, com uma participação pífia, tocando baixo contínuo, numa nota só, na maior parte do tempo, de forma medíocre. Aborreci-me tanto com isso e somado a toda a insatisfação acumulada desde 1988, que desliguei-me completamente dessa produção, fato raro e que entristece-me, pois sempre gostei de acompanhar todo o processo.
Mesmo alheio e chateado, ainda acompanhei a gravação dos companheiros, para dar apoio moral, mas nessa altura, o Beto já sabia que eu estava desligado da banda. Aliás, esse comunicado já havia sido feito antes mesmo de entrarmos no estúdio, quando ele pediu-me para eu gravar o disco. É claro que não deixaria-o sem apoio, tampouco os companheiros e o produtor Chicão que estava super entusiasmado e gastando muito dinheiro.

Lembro-me de ter visto o esforço que o Fabio fez para gravar várias camadas de teclados, inclusive alugando um órgão Hammond e sua respectiva caixa Leslie, do Fernando Costa, o "The Crow", que deu um trabalho incrível para ser levado à sala de gravação, que só era acessada mediante uma ínfima e perigosa escada espiral. Portanto,  entendo-o perfeitamente quando concede entrevistas tocando nesse assunto e sente-se chateado pela mixagem ter arruinado quase que inteiramente seus esforços, transformando a participação dos teclados nesse disco, numa mera "caminha" harmônica chinfrim, que não condizia com a técnica e criatividade de um músico de seu nível. De minha parte, nem tinha como queixar-me da mixagem, pois não participei de suas sessões, já considerando-me fora da banda. De fato, o baixo está "lá para trás", mas não importava-me muito, visto que as linhas são burocráticas, simples e sem atrativos.

Todo o trabalho de produção da capa e encarte foi feito pelo Beto e pelo Chicão. A escolha da ordem das músicas; o texto da ficha técnica e escolha das fotos, e até mesmo o título do álbum. "A New Revolution" foi o nome escolhido para esse álbum.

A capa foi obra de um rapaz chamado Marcos Aurélio, com o Logo a cargo de Sandra Regina Gonçalves Jacinto



Fotos da capa, de Eric de Haas, extraídas de dois shows no Dama Xoc, em São Paulo, em 1988 e 1989

Por problemas que eu nem sei dizer quais foram, pois já não era mais membro da banda, esse disco só foi lançado no mercado, muitos meses depois, ao final de 1990, tornando sua divulgação extremamente confusa. Não tenho um recorte sequer de jornal ou revista com uma nota ou resenha sobre o seu lançamento. Nem sei se saiu algo de fato, mas claro que deve ter saído, suponho.

Não sei dizer quanto tempo mais os demais membros ainda ficaram nessa banda, pois a partir dessa obrigação moral em gravar o disco, eu despedi-me. Creio que ninguém ficou, pois soube que o Beto iniciou imediata reformulação da banda. Contudo, por motivos dos quais também desconheço, que eu saiba, tal nova formação não chegou a fazer shows no final de 1989, tampouco no decorrer de 1990. Todavia, por incrível que pareça, em outubro de 1990, quando finalmente o disco ficou pronto, o Beto ligou-me para formular-me um pedido que era inacreditável pelas circunstâncias, mas que eu não poderia recusar em consideração a todo o esforço e sofrimento que esse amigo teve para manter a chama acesa (explico isso depois)...

Ouça acima o disco, enquanto lê a análise de cada faixa abaixo e leve em consideração que por enquanto não existem postagens das faixas em separado no You Tube ou outros portais, e quando houver, posto aqui, naturalmente. Eis o link para ouvir tal álbum, "A New Revolution", em sua versão integral, no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=ZWpSUkxbthY


Sobre o disco em si, apesar das contrariedades todas já expostas ao longo da narrativa, claro que tem seus méritos musicais para quem aprecia tal estética e o nível dos músicos que gravou-o é indiscutível. Eis abaixo uma breve análise, no meu ponto de vista.


Welcome" (Intro)       


Eis abaixo o Link para escutar "Welcome" (a música seguinte, "We Hear The Call" está acoplada, sem divisão entre ambas) 
https://www.youtube.com/watch?v=LfbtSMgRm6c
           


Era a introdução que fazíamos nos shows, a partir de abril de 1988 quando a banda enfim adotou postura própria, desvencilhando-se da ideia de ser uma banda montada para suprir datas da extinta, A Chave do Sol. Bem épica, lembra o "Rainbow" de certa forma. O "sinth" em forma de Chorus é bem típico desse tipo de arranjo melodramático.

“We Hear the Call” (está também representada no vídeo acima, também)

Soa bem "modernosa", com jeito de Hard-Rock oitentista. Tem lampejos de convenções de baixo e bateria que não foram suprimidos e isso é bacana. A melodia é boa, não dá para negar e para quem gosta de virtuosismo, claro que a guitarra é excelente, inegavelmente. Os teclados ficaram muito prejudicados, pois tem intervenções de piano que são bem bonitas, mas não destacam-se exatamente por tais equívocos da mixagem. O Riff é bom e a frase padrão feita em looping, idem. 

“Before the Bridge Falls Downs”
Eis o link para escutar essa canção no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=UDvr-ld11xI&t=188s

Que ideia maluca regravar “Sun City” com modificações até radicais na linha melódica, letra e arranjos !! Por quê não gravamos uma música inédita ? Que nó na cabeça dos fãs da velha Chave do Sol isso gerou, e absolutamente desnecessário. O resultado não é ruim, o arranjo novo tem seus méritos e acho que a melodia modificada é até bacana. Ouso dizer que ficou mais americanizado, no sentido pop e benéfico do termo, mas como estratégia da banda, acho um desastre.

“Storm Clouds”
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=RbTfTN-pNxs&t=66s

Essa é ultra oitentista. Parece uma canção do “Toto”, “Journey’; “Foreigner” e similares. Até acho o refrão bom, mas a roupagem toda é muito pasteurizada para o meu gosto. O solo em parte desdobrada é bonito, não nego...

“Pretty Old Lover”
Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=vUFsa8hbjyE

Essa talvez seja a minha predileta, pois ainda que de forma recôndita, evoca algo que remonta vagamente ao glitter Rock americano do “Edgar Winter’s White Trash” e “Shock Treatment”. Com partes bem marcadas por convenções fracionadas, dava-me tal associação com o som do albino texano e seus asseclas (sim, eu gosto muito do baixo executado pelo saudoso, Dan Hartman !). Apesar do desastre sonoro em que esse disco, “A New Revolution” tenha revestido-se, o timbre do Fender Jazz Bass soa bem em alguns trechos dessa canção. A melodia é pop e ao final, o Beto soltou o Robert Plant que habitava-o interiormente... mas apesar de até exagerar na imitação, não é que é agradável...? Baby, baby, baby... 

“Empty Bed”
Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ATtoWiCEAQ4

Um surpreendente blues como introdução, mas claro, pelo viés modernoso oitentista, certamente pensado para soar como Steve Vai, e logo a cair num Hard-Rock acelerado ao estilo "Van Halen", que poderia constar em qualquer álbum daquela banda. Parece “Panamá”, inclusive... só faltava o Beto sair dando saltos pelo palco, a la David Lee Roth...
E por que aquela pasta de reverber na bateria ?? Todo produtor de discos nos anos oitenta era obcecado por essa mania, por quê será ??

“Waiting for Tomorrow”
Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=fcjMv0KzyHA

Parece a pegada do Deep Purple dos anos oitenta, com certos signos setentistas, mas mediante roupagem “modernosa”. Acho boa a melodia e o refrão, assim como o riff primordial. Aqui o meu Fender Jazz Bass soou como deve-se, e dá para sentir seu ronco característico.

“This is my Way”
Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=sdvEH63MaHc

Essa música é tão pop oitentista que parece estarmos ouvindo um disco do “Poison”, “Bon Jovi”, sei lá... mas reconheço que o refrão é bom, inclusive na modulação de backing vocals, todo desenhado com dinâmicas acentuadas. Tem uma pegada mais Rock’n Roll no solo, apesar do virtuosismo inevitável da guitarra.

“A New Revolution”
 
Eis o Link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=V32TFH6OKJk

Outro Hard oitentista pop, é absolutamente calcado no Van Halen daquela época, via Sammy Hagar, com objetivo nítido em soar no padrão de rádio FM americana. Bom riff e melodia, não resta dúvida. Tem algumas passagens onde cometi o indefectível “slap” no baixo... onde minha cabeça estava ? Perdão aos Deuses do Rock !! Os arpejos da guitarra com aquele timbre e chorus em excesso são bem a face daquele período de fim de anos oitenta, e lembram o som do Trevor Rabin, naquele “Yes” de plástico dos anos oitenta, naturalmente.

Encerrando, músicas como “Paralell Paradise”; “Wind Blows Chill and Cold”; “Narrathan”; “Sweet Surrender”; “Open Your Heart and Your Soul”, ficaram de fora desse álbum e eram mais significativas na história dessa banda, mas na hora da escolha do repertório, optou-se por canções mais “pop”. Bem, não recrimino a intenção dessa estratégia que era válida pelo aspecto mercadológico, mas artisticamente foi uma pena, pensando em arte, exclusivamente.

Ouça abaixo o álbum "A New Revolution", na íntegra :
https://www.youtube.com/watch?v=ZWpSUkxbthY 
Agradeço aos canais de You Tube, "Hard'n Heavy Brasil e A Chave do Sol (capitaneado por Will Dissidente), pela postagem das músicas individualmente, além do álbum, na íntegra.

Continua... 

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