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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Chave / The Key - Capítulo 2 - Shows; Confusões & Virtuosismos - Por Luiz Domingues

Com a definição da banda em estabelecer-se como um quinteto doravante, e um tempo elástico em relação ao próximo compromisso marcado, partimos então para a elaboração de um novo material. Com isso, a intenção era clara de desvincular a banda da extinta Chave do Sol ao máximo, mas mantendo um elo saudável com os fãs daquele trabalho, não como uma continuidade pura e simples, mas marcando a ideia de tratar-se de uma nova banda, com outra sonoridade, mas que possuía em suas fileiras, dois ex-membros da velha Chave do Sol.

Eis um exemplo claro da confusão gerada... um DVD Pirata lançado muitos anos depois, com imagens capturadas de algum "copião" vazado da ilha de edição da Rede Bandeirantes de TV, nominando-nos como A Chave do Sol, quando na verdade, éramos uma banda dissidente chamada "A Chave", doravante... 

Se ainda saiam muitas matérias e resenhas confundindo essa nova banda com a velha Chave do Sol, não tínhamos culpa nesse processo, que parecia inevitável. Contudo, a ideia era tocar a vida para frente e nesse sentido, com sangue jovem sendo injetado nas nossas veias, tínhamos mais é que aproveitá-lo. Na época, claro que diante do panorama que amargava, com o fim abrupto da Chave do Sol, eu sentia-me exaurido em minhas forças e só restava-me mergulhar de cabeça nesse processo. Mas não era nem de longe o som que eu gostaria de fazer. Se já estava de saturado das sonoridades oitentistas e quem está lendo com atenção esta autobiografia, já está muito ciente de que a minha predileção no Rock vai na contramão da produção estética / artística daquela década, o que dizer então de um mergulho no mundo do Hard-Rock oitentista com ares de virtuosismos "Malmsteenianos" ?
Enfim, mesmo bastante a contragosto, embarquei na proposta que viria a seguir. De minha parte, além de estar sem forças para sugerir outro direcionamento artístico, estava cansado mesmo era de tantas mudanças radicais, perseguindo tendências e boatos.

Tal tipo de procedimento estava perseguindo-me implacavelmente desde meados de 1983, ou seja, assim que a minha ex-banda, A Chave do Sol começou a ganhar notoriedade na mídia. Antenado nos movimentos que o tabuleiro do jogo mainstream fazia, mas estando fora da contenda, na condição de aspirante a tornar-me uma peça da partida, também, acompanhava a partida tentando interpretar a estratégia dos jogadores, no afã de antecipar o que viria a seguir como próxima jogada a ser feita. Com isso, achava que seria a única chance de estar pronto para ser a bola da vez a seguir, e entrar enfim no tablado do jogo. Diante dessa prerrogativa, exerci minha influência, visando sempre dar o passo certo nesse sentido para a minha banda subir no mundo mainstream da música. Era a nossa única ferramenta a dar-nos esperança, além do óbvio trabalho de formiguinha que exercíamos no cotidiano, com todos os esforços para agarrarmos oportunidades.

Mas diante dos erros estratégicos que a banda cometeu nesses anos, culminando com a sua não chegada ao patamar que aspirávamos, claro que eu estava sentindo-me exaurido em minhas forças internas, e indo além, já bastante descrente de que valia a pena ficar elucubrando qual seria a moda do próximo verão para antecipar a minha banda na possível onda. Diante desse cenário todo que colocava-se a nossa frente nesse início de 1988, não forcei nenhuma barra para seguir a orientação A; B; ou C, deixando o barco navegar livremente. E nesses termos, Eduardo e Fabio estavam muito empolgados com essa onda de virtuosismo em torno do Hard / Heavy oitentistas, e tiveram carta branca do Beto nesse sentido, para apresentarem criações suas que já tinham compostas.
Da parte do Rapolli, não havia nenhuma contrariedade, também. Ele apreciava sonoridades setentistas como eu e Beto, mas estava acostumado com a estética oitentista, também. Então, sem pensar muito qual seria a nova moda no Rock brasileiro, mergulhamos nessas composições que Eduardo e Fabio tinham em mãos, e eram versadas nessa estética do extremo virtuosismo "Malmsteeniano".
Vendo pelo prisma de hoje dia (2016, acho que a situação de 1988, analisada como um todo e não só pelo mundo do Rock pesado underground, era periclitante na cena brasileira).

A verdade, é que o Br Rock 80's havia acabado...
Somente os que cresceram o suficiente para esticarem suas respectivas carreiras de forma individualizada, sobreviviam e continuariam sobrevivendo ainda por algum tempo, com poucos tendo sobrevida nos anos noventa, e no porvir. Sendo assim, não havia mais esperança alguma de chegar-se ao mainstream, e principalmente para bandas pesadas. E no nosso caso, com duas agravantes : cantando em inglês, proposta que fora aceita por todos, mas equivocadamente a meu ver, e sobretudo pela inserção no espectro do extremo virtuosismo e nesse caso, nem é preciso ser um expert em marketing corporativo da indústria da música, para discernir que estaríamos limitando-nos à um pequeno nicho de apreciadores do Rock pesado, e tal como uma boneca russa, mais fechados ainda no mundo do virtuosismo, apreciado tão somente por músicos e aspirantes a. Mas era o que tínhamos...e assim fomos trabalhar dentro dessas condições que apresentaram-se à nossa frente.

Os ensaios tornaram-se então rotineiros e adequados logicamente ao fator de todos (com exceção do Zé Luiz Rapolli), estarem ministrando aulas particulares em paralelo. Dessa forma, muitas músicas surgiram, e já na metade de março de 1988, essa banda nova tinha uma nova fachada, quase que completamente desvinculada da velha Chave do Sol. Ainda tocaríamos algumas músicas do LP "The Key" nos próximos shows, mas bem poucas, quase que caracterizando uma homenagem ao passado meu e do Beto, tão somente. Minha lembrança de tais ensaios é de uma rotina de muita tranquilidade. Chegávamos às 10:00 h. da manhã na residência do Beto Cruz, às terças; quartas e quintas. Tocávamos até por volta das treze horas, parávamos e almoçávamos juntos, quase que estabelecendo uma relação comunitária, aos moldes de bandas sessenta / setentistas e egressas da contracultura hippie.

Por esse lado social, era bastante prazeroso, reconheço, e a união da banda estabeleceu-se mais rapidamente por conta desse convívio amistoso. Um grupo de fãs da banda começou a frequentar esses ensaios, ainda bem no começo do processo e tal determinação dessas meninas, chegava a ser messiânica em acompanhar-nos diariamente.

Eram cerca de oito garotas, e nunca faltavam. Chegavam pouco depois de nós e carregadas de sacolas de supermercado em mãos. Ocupavam a cozinha e quando parávamos para almoçar, havia um banquete à nossa disposição, e com direito a sobremesas... inacreditável a mordomia. Era até engraçado, pois essa banda era praticamente "zerada" na cena artística de então, mas vivendo da fama da banda extinta que deu a chance dessa surgir posteriormente, não começara exatamente dessa estaca inicial. Independentemente disso, ter uma turma de fãs dispostas a cozinhar para nós, diariamente, tornou-se um luxo que não esperávamos ter naquele momento. Sobre o som, como já disse, foi  amoldando-se dentro das prerrogativas do virtuosismo típico de fim de década de oitenta, naquele espectro de admiradores do guitarrista sueco, Yngwie Malmsteen.

Da parte do Fabio Ribeiro, suas ideias tinham sutis referências ao Prog setentista, é bem verdade, mas eram sutis mesmo, pois ele também estava inebriado pela estética do virtuosismo e peso daquela cena oitentista de Hard / Heavy. Assim fomos construindo novas músicas e num curto espaço de tempo, julgávamos estarmos prontos para fazer shows com uma identidade própria, sem precisar canibalizar o cadáver recém enterrado da velha Chave do Sol.


Uma data enfim estava marcada e chegando para cumprirmos.
Tratamos essa data em questão como a verdadeira estreia da banda, pois os dois shows que fizéramos em janeiro, foram absolutamente emergenciais e pertenciam na verdade à agenda da velha Chave do Sol. Seria no Teatro Mambembe, onde tínhamos uma familiaridade, eu e Beto, pelos shows que ali fizéramos com A Chave do Sol, desde 1986. Tal data estava prevista para o dia 18 de abril de 1988, mas antes, ainda em março, tivemos compromissos midiáticos.

Em 9 de março de 1988, fomos ao estúdio da 97 FM de Santo André, e concedemos entrevista ao programa "Hora do Rush". Era a primeira entrevista em emissora de rádio, após a extinção da Chave do Sol e posterior formação dessa banda nova e dissidente, chamada "A Chave". Claro que perguntas foram feitas nesse sentido e cada vez que éramos indagados nesse aspecto, era naturalmente penoso ter que dar explicações para justificar o imbróglio todo. Em 25 de março de 1988, eu; Beto; Zé Luiz Rapolli, e Fabio Ribeiro, fomos ao programa "Over Shock", também da 97 FM. Foi a primeira vez que os novos membros participaram também, só faltando o Edu para completar o time.
Em 1º de abril de 1988, eu; Beto e Fabio, participamos do programa "Clip Independente", da emissora Brasil 2000 FM. O Fabio Ribeiro morava a um quarteirão do estúdio daquela estação, localizada ali entre os bairros da Vila Anglo-Brasileira e Vila Romana, na zona oeste de São Paulo.

Foi a primeira vez em que interagi com essa emissora que tratava-se de uma "College Radio", portanto subordinada à gestão de uma Universidade, no caso a Anhembi / Morumbi. E no futuro, eu teria inúmeras participações nessa emissora, tocando ao vivo, inclusive, com o Pitbulls on Crack; Patrulha do Espaço; Pedra e Kim Kehl & Os Kurandeiros. Às vésperas do show do Teatro Mambembe, fizemos um intensivo de ensaios, inclusive convocando um ensaio extra no domingo que antecedeu o espetáculo. Tínhamos que apresentar a banda nova com boa performance, para ganharmos enfim a confiança dos velhos fãs da Chave do Sol, e iniciarmos uma caminhada própria.


Chegou o dia do show, que tratamos como a real estreia dessa nova banda. Era o dia 18 de abril de 1988, e entraríamos no palco do Teatro Mambembe, com a expectativa de um ótimo público presente. Não que houvéssemos tido apoio retumbante de divulgação, aliás, muito pelo contrário, nossos recursos eram mínimos devido à penúria que enfrentávamos, imersos em dívidas contraídas por conta do lançamento do LP The Key e escassez de uma agenda mínima que garantisse-nos um respiro. Mas havia no ar uma expectativa gerada pelos fãs da antiga Chave do Sol, que atônitos e alheios aos nossos conflitos internos, simplesmente não entendiam o porque da extinção sumária e súbita da nossa banda anterior, e pior ainda, a radicalização que fôramos obrigados a adotar, eu e Beto, ao criarmos uma nova banda emergencial, e com nome parecido, mas diferente...

Enfim, esse confuso encadeamento de acontecimentos de aspectos radicais entre si, já garantia-nos a certeza de que muita gente nutria curiosidade para ver o que seria aquilo, a tal banda "A Chave", ou para muitos, em tom de brincadeira : "A Chave sem Sol"...
De nossa parte, estávamos bem preparados e com um repertório de músicas novas na ponta da língua para apresentar essa nova banda, ainda que para a maioria dos fãs, representasse simplesmente a continuidade da antiga banda e para muitos, havia também uma expectativa em ver como seria a banda sem Rubens Gióia, ícone da Chave do Sol, sendo substituído por um garoto jovem e então desconhecido. Enfim, eram muitos elementos que alimentavam a expectativa para muitos fãs e de nossa parte, quase davam-nos a certeza de que a lotação do Teatro estaria esgotada. Não seria no entanto um show exclusivo nosso. Dividiríamos a noite com a banda "Laser", que era nova no cenário do Rock pesado paulistano.

Apesar de teoricamente nós estarmos na condição de uma banda iniciante com apenas quatro meses de vida, pela ligação com a banda extinta e nossos curriculuns pessoais, ficamos com a primazia de tocar como headliner e o Laser fez o show de abertura. O público superlotou o teatro, até superando a nossa expectativa mais otimista. Não tive acesso ao borderô oficial, mas lembro-me de que havia mais de 600 pessoas presentes e portanto, quase o dobro da capacidade oficial do Teatro. Logo no começo, no tema de abertura, cometemos um erro infantil, que envergonhou-nos, mas é o tal negócio : quantas pessoas ali no momento, perceberam-no ?
Por não ouvirmos corretamente a contagem de baquetas do José Luiz Rapolli, um pequeno "Flan" (ato do desencontro de acentos entre um instrumento e outro), ocorreu, e convenhamos, logo na primeira nota do show começar errando, era um tremendo de um anticlímax...

Contudo, acertamo-nos e rapidamente disfarçamos, dando-nos a nítida impressão de que quase ninguém percebeu a falha. Fomos tocando muitas músicas novas que faziam parte da total reformulação da banda, esforçando-se portanto para imprimir a ideia de que se havia um vínculo com a velha Chave do Sol, a nossa intenção não era viver usufruindo de sua sombra. A cada música nova que tocávamos, ouvíamos urros da plateia. Gritos exaltando a performance principalmente do Eduardo Ardanuy, eram escutados com clareza, demonstrando que muita gente ali estava inebriada pela onda de entusiasmo pela estética do virtuosismo, típica do fim de década de oitenta. Tocamos menos músicas do LP The Key, já tirando aquela dinâmica dos dois primeiros shows realizados anteriormente, quando a urgência fez-nos tocar somente o material da velha Chave do Sol.

E demo-nos ao luxo de inserir solos individuais de todos, à moda setentista e por falar em anos 1970, mais uma novidade, fizemos uma versão em ritmo de releitura de uma música do Led Zeppelin ("No Quarter"). Com um tecladista de ofício na banda, e mais que isso, um virtuose ao instrumento, abriu-se essa possibilidade, e para mim, um setentista inveterado que sou, tal ideia foi um verdadeiro oásis em meio ao deserto oitentista em que estávamos vivendo...
Quando o Fabio iniciou a introdução ao piano elétrico, demorou alguns segundos para o público perceber a nossa intenção, mas logo ouvi alguém gritar da plateia : - "é No Quarter"... para insuflar a plateia que mesmo antes do Beto começar a cantar, já vibrava muito. Confesso que surpreendi-me, pois a despeito de levar em conta que em 1988, o final das atividades do Led Zeppelin ainda era relativamente próximo, numa distância de apenas oito anos, e que entre fãs da seara do Hard-Rock oitentista, havia um respeito por bandas Hard-Rock setentistas, principalmente Led Zeppelin e Deep Purple numa primeira análise, não era tão surpreendente em tese, mas a reação de comoção, foi muito além das minhas expectativas. Outro ponto memorável do show, foi quando fiquei bastante emocionado quando o público ovacionou-me, pessoalmente, quando o Beto apresentou a banda, e nessa reação, havia uma carga forte de apoio pela superação que estávamos mostrando em manter a chama acesa, depois de tantas adversidades que culminaram com o final das atividades da velha Chave do Sol, meses antes. Enfim, foi uma grande estreia para a nova banda e uma certeza : o público que acompanhava a velha Chave do Sol, aprovou esse novo trabalho deixando-nos a convicção de que apoiar-nos-ia doravante e claro que isso era um fantasma a mais que atormentava-nos desde dezembro de 1987, quando a velha Chave do Sol dissolveu-se.
Portanto, diante de cerca de 600 pessoas, saímos do palco do Teatro Mambembe, na noite de 18 de abril de 1988, com um sentimento de esperança renovada. E aos poucos, a agenda começava a mostrar-nos perspectivas, comprovando esse sentimento otimista.
A lastimar-se, a quase total ausência de fotos, com exceção de uma foto do Fabio Ribeiro (colocada acima). Existe uma versão com muitos momentos desse show capturados em câmera Mini-VHS, da parte de um grande amigo da banda, chamado Mário Abud. Se conseguir postar no You Tube, insiro-o aqui, de pronto.

Já tínhamos perspectivas de shows; aparições na TV, e mais entrevistas de rádio em vista. Matérias e resenhas ainda citando o LP The Key, e a velha Chave do Sol ainda apareciam nas bancas de jornais e revistas. E nesse embalo, uma perspectiva de fazer shows no interior de São Paulo surgiu, mas não tratava-se da "época gorda" da fase boa da velha Chave do Sol, onde o telefone tocou muitas vezes com convites bons...
Na verdade, era um arranjo familiar de minha parte, sem nada concreto que pudesse ser comemorado antecipadamente, mas claro que quando surgiu a chance, não tive dúvidas e com material na mão, entrei num ônibus e fui incontinente às cidades interioranas de Franca e Ribeirão Preto. Cabe explicação...

Ribeirão Preto é uma cidade onde eu tenho laços familiares. É a terra natal da minha mãe, onde meus avós maternos moraram por muitos anos, e lá sempre tive muitos tios e primos de três graus, aliás, até hoje. Meu tio, irmão de minha mãe, e meus primos, conheciam há anos o Kiko Zambiachi e sua família, também, igualmente habitantes daquela cidade. Vivendo seus dias de glória, com a carreira solo deslanchando e suas músicas sendo gravadas por outros intérpretes, Kiko poderia dar-nos uma "força", talvez  colocando-nos na situação de abrirmos seus shows, ou mesmo indicando-nos para alguma situação. 

                       Kiko Zambianchi em foto dos anos 1980

Essa era a concepção de meus tios e primos, que muito amorosamente sempre torceram por meu sucesso pessoal e viram-se com a oportunidade de prestar-me um auxílio direto, graças a essa proximidade que tinham com a família Zambianchi. De minha parte, já estava muito mais maduro naquela altura, com quase 28 anos de idade, e com uma rodagem de 12 anos na música, portanto, minha visão era mais realista sobre a maneira que os supostos "apadrinhamentos" ocorriam no show business, e indo além, creio que já tinha desapontado-me com tal tipo de abordagem anteriormente, fatos relatados nos capítulos sobre A Chave do Sol.
Mas claro, o gentil gesto de meus parentes, oferecendo-me mais que o contato com tal artista, mas todo o suporte de estadia na cidade, e claro, abrindo a perspectiva de divulgação na mídia local e venda de discos nas lojas, também eram vantagens para arriscar essa viagem.

E assim, fui para o interior alguns dias depois do show do Teatro Mambembe, e direto para Franca, onde eu também tinha dois tios, irmãos da minha mãe, morando naquela cidade, sendo que um deles já havia sido presidente da Francana, clube local com time no futebol profissional, e uma história forte no basquete. Ali, no dia 25 de abril de 1988, graças aos contatos de meu tio, concedi entrevista na emissora Hertz FM, falando do LP The Key, além de vender discos numa loja no centro da cidade. Sobre shows, era muito complicado pensar em algo, pois os contatos que ele tinha dentro do clube que havia presidido no passado, não garantiam nada, visto que o departamento social de tal agremiação tinha mentalidade popularesca, e as atrações musicais que agendavam, passavam anos-luz de bandas de Rock, ainda mais não conhecidas no mundo mainstream, nosso caso como agravante. Agradeci o apoio, foi bom rever tios e primos, e dali entrei num ônibus em direção a Ribeirão Preto, distante cerca de 100 Km de Franca, com o mesmo objetivo de divulgação e possível agendamento de shows. Na casa de meus outros tios, o entusiasmo deles e de meus primos em auxiliarem-me era grande, e claro, imbuí-me de toda a boa vontade em falar com Kiko Zambianchi, embora internamente, não achasse que isso resultaria em algo concreto.

Bem, minha prima fez a ligação telefônica, e logo colocou-me na linha para falar com ele em pessoa. Claro, Kiko mostrou-se educado, mesmo porque tinha bastante respeito pelos meus parentes que conheciam-no desde a sua adolescência, mas dava para sentir que aquilo era embaraçoso para ele, e claro que eu compreendia isso. Eu também estava constrangido, pois esse tipo de abordagem era um tanto quanto inconveniente pelas circunstâncias.
Enfim, falei da banda, de sua sonoridade, e da vontade de fazer algo em Ribeirão Preto e região, para divulgar esse trabalho. Ele, por sua vez, foi educado e cordial, mas bastante óbvio na resposta que deu, exortando-me a buscar apoio de indústrias da cidade, como por exemplo a Cervejaria Paulista; ou a Fábrica de Biscoitos Mabel, indústrias tradicionais e prósperas de Ribeirão Preto, para alavancar um possível patrocínio e pleitear datas na famosa Arena ao ar livre na "Cava do Bosque", equipamento cultural público, controlado pela prefeitura local, para um possível show.

De fato, essa Arena era famosa e ali, muitos artistas medalhões da MPB e do Rock já haviam apresentado-se, algumas apresentações até ficando históricas, caso dos inúmeros shows dos Mutantes no início dos anos setenta etc etc. Eu mesmo já havia apresentado-me ali com bastante sucesso, com o Língua de Trapo, em 1984. Portanto, a dica era ótima, mas absolutamente evasiva, denotando que ele estava educadamente saindo pela tangente, numa maneira cordial de não envolver-se, e ao mesmo tempo não gerar mágoas com meus familiares, que conheciam-no bem. Entendi perfeitamente a sua posição e nem na época, e muito menos agora, reclamo de sua postura, pois sei que a despeito de estar num momento bom na sua carreira, pouco ou nada poderia fazer para ajudar-me (nos), mesmo que conhecesse-se bem e fosse um ardoroso apoiador da minha banda. E pelo contrário, Kiko andava com a "intelligentzia" dos Post-Punkers do eixo São Paulo / Rio / Brasília, e não seria com cabeludos anacrônicos para a realidade oitentista hostil, que encantar-se-ia, normalmente. Agradeci, e disse aos meus familiares que uma perspectiva abrira-se com esse contato, para não frustrar o entusiasmo cativante de meus tios e primos em ajudar-me, mas na realidade, sabia que o contato não renderia nada. Mas minha ida a Ribeirão Preto renderia um fruto para a banda. Meu tio conhecia uma repórter da TV local, afiliada da Rede Globo, e convidou-a para jantar conosco naquela noite.
Ela não poderia agendar entrevista no jornalismo local, sem a perspectiva de um show em vista na cidade, mas foi simpática e agendou-me uma entrevista num dos jornais impressos locais, onde tinha contatos na redação, para o dia seguinte.

Fui, é claro, à redação desse periódico e fui bem recebido pela repórter que entrevistou-me. Lógico, foi uma entrevista recheada de colocações efêmeras, por não tratar-se de um órgão especializado, mas não posso queixar-me, deixei Ribeirão Preto com uma divulgação para o trabalho, que foi publicada alguns dias depois. Apesar de meu esforço para explicar-lhe que tratava-se de uma outra banda doravante, a matéria saiu com a manchete " A Chave do Sol prepara voo Internacional", numa típica confusão gerada pelo imbróglio todo. Engraçado também, na reportagem fez-se menção à minha baixa estatura... adjetivaram-me como "baixinho", colocação que não ofendeu-me, pois não tenho nenhum problema em ter tal característica anatômica, mas achei por outro lado, desnecessário. Nem em jornais e revistas popularescos em que já havia sido mencionado, isso ocorrera, portanto, surpreendi-me com essa citação tola, vinda de um jornal interiorano. 

Paciência... em Liliput também existem Rockers, acredito...
Além do fato de que toda a minha explicação sobre as mudanças, não foram levadas em conta, e na reportagem, citaram-nos como "A Chave do Sol", e o release oficial do LP The Key, foi o que prevaleceu. E como disse no início deste capítulo, tínhamos mais atividades na mídia para cumprir em São Paulo, e shows estavam marcados, doravante.

Voltei de Ribeirão Preto sem nada concreto (além de uma entrevista no jornal local e outra numa emissora de Rádio de Franca, cidade próxima), e muito pelo contrário, sem esperança de arrumar um show para a banda naquela cidade, tampouco em Franca. Meus familiares que moravam nessas duas cidades, foram extremamente gentis em tentar ajudar-me nesse sentido, mas os contatos eram efêmeros, infelizmente. Bem, por outro lado, o Eduardo Ardanuy comunicou-nos que havia feito um contato em nosso favor e havia a possibilidade de irmos a uma outra cidade interiorana paulista para um show. Seria em Espírito Santo do Pinhal, uma pequena cidade localizada perto de Campinas e de fato, esse show concretizou-se, mas ainda não é hora para falar dele (e que rendeu história). Um show no Rio também estava sendo articulado, e nesse caso, graças aos esforços de nosso representante carioca, o Ricardo Aszmann, que intermediou uma negociação para uma apresentação no Caverna II, tradicional reduto do Rock underground carioca, onde já havíamos apresentado-nos duas vezes anteriormente, 1986 e 1987 (com a velha, "A Chave do Sol", bem entendido).

Mas o concreto mesmo é que teríamos um show a ser realizado num mini festival, em São Paulo, a ser realizado numa imensa área livre localizada no pátio da estação Brás do metrô. Com apoio da Secretaria Municipal de Cultura e do próprio Metrô, a ideia era realizar festivais mensais nos moldes da antiga "Praça do Rock", com várias bandas apresentando-se em shows de choque, em caráter gratuito para o público em geral. Tal evento foi batizado como : "Estação Jovem".

A Chave apresentou-se com as seguintes bandas : "Harppia"; "Violeta de Outono"; "365" e "Gueto". Portanto, pelo teor dessa escalação, era clara a intenção dos organizadores em tornar tal festival, híbrido, misturando bandas da cena pesada do Hard / Heavy, com atrações mais leves, seguidores da cartilha do Pós-Punk.

Mas cabe ressalvas, pois o Violeta de Outono camuflava-se de Pós-Punk, quase que estrategicamente naquela década, mas seu comprometimento real, era com a psicodelia sessentista, sem nenhuma dúvida.

No caso do Gueto, se havia uma casca Pós-Punk no visual e no áudio de seu trabalho, sua sonoridade era muito mais próxima da cena pop britânica de metade / fim da década de oitenta, jogando doses generosas de R'n'B & Soul "pasteurizado e de branco", ao estilo de artistas ingleses como "Style Council" e "Blue Rondo a la Turk", por exemplo.

E no caso do "365", os rapazes eram egressos da cena Punk oitentista, mas haviam aprendido a tocar, portanto, pareciam muito mais um "The Clash", tendo alguns signos punks, mas com sonoridade palatável para tradicionalistas como nós que nunca engolimos a tosquice proposital do "Do It Yourself" como desculpa esfarrapada para amparar ruindade desoladora. Além do mais, os rapazes eram / são muito gente boa. 
Da parte dos "pesados", havia o "Harppia", que professava o Heavy-Metal oitentista tradicional, e nós, comprometidos naquela altura, com o Hard-Rock pleno de virtuosismos "Malmsteenianos".
Um grande público compareceu ao pátio da Estação Brás do Metrô.
Segundo o cálculo da PM, cerca de dez mil pessoas assistiram-nos nessa tarde de um sábado, dia 30 de abril de 1988. Os shows transcorreram sem maiores problemas, e o nosso, apesar de ser de choque, portanto com menor duração, foi bastante energético.
O público "misturado" não hostilizou ninguém, como seria de esperar-se naquela década tão dividida por "tribos" com comportamento de torcidas uniformizadas de clubes de futebol.
Existe um vídeo das apresentações de todas as bandas, mas que até hoje não foi disponibilizado no You Tube. Sei que o baterista do Harppia, Tibério Correa, tem uma cópia, mas desconheço que tenha-o postado. Como de praxe, deixo a perspectiva de postá-lo aqui, se for possível, um dia.


Resenha do Show do Teatro Mambembe, escrita pelo jornalista Antonio Carlos Monteiro, para a Revista Metal, nº 47


Após o show no pátio da Estação Brás do Metrô, tínhamos mais tempo para organizar ainda mais a banda, em vários aspectos.
Por exemplo, precisávamos urgentemente de fotos promocionais novas, pois como se não bastasse a tremenda confusão que essa banda lidava por ser uma dissidência da antiga Chave do Sol, precisávamos marcar presença mais incisiva como uma nova banda e mostrar a sua nova face.

Resenha do Show no Pátio da Estação Brás do Metrô, escrita pelo jornalista Antonio Carlos Monteiro, para a Revista Metal, nº 48

Outra questão que rapidamente surgiu, foi a de gravarmos uma nova demo, com músicas inteiramente novas, que já tocávamos nos shows, e o Beto mais uma vez movimentou-se de uma maneira muito incisiva, criando situações para que isso concretizasse-se e indo além, já sondando possíveis investidores para a produção de um novo disco. Nossa situação financeira era lastimável pelas dívidas contraídas pela produção do LP The Key, mas era uma necessidade vital livrarmo-nos do fantasma da Chave do Sol, pois ali estava uma banda inteiramente nova e precisando autoafirmar-se por suas próprias forças. Ela nasceu da necessidade de não deixar a fama da velha Chave do Sol espatifar-se no chão, num momento em que um novo LP havia sido lançado recentemente, mas na verdade, era uma outra banda e pela sonoridade que adquiriu, ainda muito mais. Somente no final de maio, engrenaríamos uma agenda com perspectiva de continuidade, portanto, nos primeiros vinte dias de maio de 1988, concentramo-nos nessa ideia de fazermos fotos e viabilizarmos uma nova demo tape.

Resenha do Show no Teatro Mambembe na Revista Rock Brigade e ao lado, uma nota na mesma edição, falando sobre a realização do Show na Estação Brás do Metrô
Antes de seguir na cronologia dos fatos, preciso abrir parêntese para falar de um personagem sensacional, que tornou-se um grande amigo da banda. O "seu" Ribeiro, pai do tecladista Fábio Ribeiro, foi um dos homens mais gentis e prestativos que eu conheci, não só em minha trajetória musical, mas acredito que na vida como um todo. Ele era o motorista e roadie de seu filho, praticamente, e sua bondade; boa vontade em sempre ajudar não só o filho, mas toda a banda, e sobretudo o seu gênio dócil, certamente foi um contraponto aos tempos amargos que vivíamos, por vários fatores.

"Seu" Ribeiro, além das qualidades que elenquei acima, era um "GPS humano", porque era impressionante o seu conhecimento sobre a cidade de São Paulo, e não só isso, mas praticamente todas as cidades vizinhas que compõe a região conhecida como "Grande São Paulo". É claro, naquela época, ninguém sonhava com telefones celulares; GPS; e nem mesmo em computadores, embora a Internet já existisse aberta ao público, mas poucos usufruíam dela.
O recurso que todo mundo usava, era o de consultar mapas para descobrir-se um endereço desconhecido, expediente usado por quase todo o motorista, guardando o "Guia 4 Rodas", ou o "Mapograf", no porta luvas do carro.

Mas ele, não... qualquer rua que perguntávamos-lhe, ele sabia onde ficava, e citava caminhos possíveis, demonstrando conhecer a cidade na palma da mão. Outra característica sua, era a da paciência absoluta. Eu considero-me uma pessoa zen, com alto grau de paciência e tolerância, mas o "seu" Ribeiro ia muito além.

Seu comportamento era exemplar no trânsito, e uma vez, com Fabio e eu como passageiros andando com ele, passou por nós um carro conduzido por um garoto impulsivo e bastante agressivo, fechando-o de forma acintosa, em alta velocidade. Qualquer motorista ficaria revoltado com a manobra agressiva do sujeito, mas ele não abalou-se nem um milímetro. Apenas freando para evitar a colisão e segurando o carro na mão com uma habilidade incrível, continuou dirigindo tranquilo, e disse-me : -"nunca se sabe se um motorista desses faz uma barbaridade assim por necessidade e não pela transgressão pura e simples. Vai saber se não está com a esposa em trabalho de parto; ou se leva um ente querido infartado para o hospital, ou mesmo se acabou de saber que estão assaltando sua residência ? Por isso eu nunca julgo, xingo ou exijo satisfação, e se for mesmo só uma transgressão, é problema dele, não meu"...

Sua habilidade para acomodar todo o equipamento do Fabio, num Fusca 1969 (e impecável, aliás, pois parecia ter saído da concessionária há quinze minutos e que estávamos portanto em 1969, de fato), era quase um número circense de contorcionismo.

Eu não acreditava que ele dava um jeito e levava cinco teclados, e um mini P.A. que o Fabio usava para alimentar a tecladeira toda, fora suportes, cases com cabos e utensílios, mixer e amplificador.
Com aquela calma zen budista que era-lhe peculiar, montava tudo com muito cuidado, e não importava se eram 4 horas da manhã, coisa que muitas vezes ocorreu, naturalmente em shows realizados em casas noturnas. Uma vez eu não aguentei e perguntei-lhe : como era possível conhecer a cidade de São Paulo dessa forma, de maneira enciclopédica e ele respondeu-me com sua simplicidade :-" fui taxista por muitos anos, começando em 1958"...

OK, claro que taxistas conhecem a cidade muito melhor que motoristas amadores, mas o conhecimento dele superava qualquer expectativa. A mãe do Fabio também era de uma bondade incrível. Costureira de muita técnica, chegou a confeccionar camisas que encomendei-lhe, e que usei em shows, muito bem feitas, e com caimento perfeito.

Todas as fotos de Fuscas "1300", ano 1969 que ilustram estes últimos parágrafos, são apenas ilustrativas e nenhuma era do fusca do "Seu" Ribeiro. Mas dão ideia de como era o seu bólido...

Soube, anos depois, que o "seu" Ribeiro havia partido para o outro lado. Certamente deve ser uma das mais queridas figuras lá onde está e claro, dá informações aos anjos, sobre caminhos no céu, que já deve ter mapeado inteirinho no seu cérebro. Grande figura !
Saudade, "seu" Ribeiro !!

No final de maio, tivemos mais uma apresentação, mas desta feita, foi algo sui generis...
O Eduardo Ardanuy fora convidado a fazer uma exibição num evento patrocinado pela escola "IG & T", uma escola moderna de aprendizado musical, e tendo como um dos seus proprietários, o guitarrista do Rádio Táxi, Wander Taffo.

Tal evento realizou-se no Victoria Pub, e de fato, foi curioso voltar ao palco daquela casa noturna, cinco anos após a velha Chave do Sol ter tido um momento de uma certa euforia, decorrente do primeiro pico de ascensão que experimentáramos na nossa iniciante carreira como banda. Agora, era uma situação bem diferente.
Tratava-se de uma outra banda, e não seria uma temporada como a que A Chave do Sol tivera entre fevereiro e abril de 1983. A ideia era um show de choque, e o foco nem era a nossa banda em si, mas o holofote sobre o Eduardo Ardanuy, exclusivamente.

Tratado como uma exibição de guitarristas que eram alunos de tal escola, cada um fez-se valer de sua própria banda como apoio, mas o foco era tão somente a performance dos guitarristas. Tudo bem, não ficamos constrangidos em participar e entre nós, tratamos o evento como um show normal da banda, mesmo porque era aberto ao público em geral, e não tinha caráter de recital de conservatório, tão somente, e restrito a alunos; professores, e parentes de alunos.
Tocamos quatro ou cinco músicas normais de nosso repertório, e todas tinham longos solos de guitarra, como era praxe desse material novo dessa nova banda. Lembro de haver uma bancada de professores, como se fosse um júri de festival de MPB, mas sinceramente não recordo-me se havia alguma intenção em estabelecer algum tipo de premiação para os que fossem considerados "melhores" etc e tal.


Em tal bancada, entre outros, lembro-me das presenças de Wander Taffo e André Christovam, e que este último, brincou comigo bastante, soltando gritos de brincadeira, eu sei, falando que eu é que era o destaque da banda...
Enfim, tocamos como num show normal, dando o nosso recado.
Aconteceu no dia 25 de maio de 1988, com cerca de 300 pessoas no recinto, aliás, para os padrões do Victória Pub, era uma baixa frequência...

Numa entrevista concedida para a Revista "Wanted", em 1988, o baixista do Ultraje a Rigor, Maurício, citou-nos como banda que ele recomendava, mas na verdade, referindo-se à velha Chave do Sol... 

Poucos dias depois, uma nova apresentação, mas desta feita, num espaço novo que surgiu na cidade de São Paulo. Chamado de "Alquimia", tratava-se de um pequeno auditório localizado no bairro da Vila Buarque, no centro de São Paulo, e vizinho de espaços culturais que eram muito tradicionais na cidade, templos de cultura importantes para o teatro e a música na cidade, há décadas.

Entrevista da Chave publicada na Revista "Rock Brigade", conduzida pelo presidente da "Sociedade Brasileira dos Apreciadores do Deep Purple" (fã Clube oficial do Deep Purple no Brasil, chancelado pelo Fã Clube britânico e oficial da banda), João Cucci Neto

Contudo, ao contrário de sua vizinhança ilustre, suas dependências eram bem modestas e minha lembrança é a de um palco pequeno, tímido mesmo e que aliás, deu-nos uma certa dose de exercício de contorcionismo para colocar o backline da banda no seu espaço cênico e mais que isso, garantir um mínimo de possibilidade de mobilidade para os componentes da banda. Apesar de nosso esforço em disparar o mailing do fã-clube e contar com um pequenino apoio de filipetas, não conseguimos levar um grande público ao espaço.

Rara foto desse show no "Alquimia. Estou em destaque e com Fábio Ribeiro atrás e encoberto pelos teclados. Acervo e cortesia de Índia Dias
 
Foi um show bem burocrático, eu diria, com um certo desânimo por parte da banda, ao deparar-se com um palquinho claustrofóbico. De fato, foi um pouco desagradável tocar nessas condições. Era o dia 2 de junho de 1988, e diante de apenas 100 pessoas, tocamos no Espaço Alquimia.

Como havia conhecido o João Cucci Neto, por ocasião da entrevista que fez-nos, representando a Revista "Rock Brigade", fizemos amizade pela óbvia similaridade de apreço que tínhamos pelo Rock sessenta / setentista, e apesar dele ser um inveterado fã do Deep Purple, pelo cargo que mantinha no seu fã-clube oficial, e em constante comunicação com o fã clube britânico dessa grande banda setentista, ele também gostava de muitas outras bandas dessas duas décadas fundamentais para o Rock e daí, claro que aproximamo-nos. E partiu de sua iniciativa formular-me um pedido que julguei inusitado à época, mas que aceitei de pronto. Pediu-me portanto para escrever uma matéria a ser publicada no fanzine do seu Fã-Clube "SBADP", focando nos baixistas que o Deep Purple teve em sua história. Bem, eu sempre gostei de escrever, desde criança, mas a música obscureceu de certa forma esse prazer paralelo que eu sempre tive, mas que só comecei a exercer para valer a partir de 2011, e salvo um poema de minha autoria que fora publicado num jornal de bairro, em 1979, e a redação de quase todo material para a Chave do Sol e seu Fã Clube, usando pseudônimos, eu não tinha mais nada publicado de minha autoria e assinado, até então. Claro que aceitei e entreguei-lhe o material, o mais rápido que pude, mas infelizmente não tenho cópia para ilustrar aqui na autobiografia.

Outra coisa que ele tentou fazer pela nossa banda, foi intermediar uma reunião com um conhecido seu que tinha muitos contatos no exterior e esse rapaz em questão, havia sido fundamental para sedimentar o sucesso internacional do "Sepultura", pois tinha contatos com centenas de fanzines e fã clubes de Heavy-Metal e Rock pesado em geral, em inúmeros países do mundo, e graças a esses contatos, o Sepultura fez uma longa via crucis de envio de material, desde 1986 para tais publicações underground, que deram-lhes respaldo para serem descobertos no mundo do Heavy-Metal internacional. Num encontro intermediado pelo João Cucci Neto em sua própria residência, no bairro do Ipiranga, zona sudeste da cidade de São Paulo, encontrei-me com esse rapaz cujo nome não revelarei, mas a conversa foi desanimadora. Ele esclareceu-me que seus contatos eram centrados no mundo do Heavy-Metal, e que o Sepultura lograra êxito por ter o som certo para agradar essa tribo com a qual ele tinha contatos, mas o nosso som, diferentemente, não fazia sentido algum naquele universo.
Claro que isso era lógico, óbvio e ululante, mas mesmo assim, chateei-me, não com o rapaz em si, mas com a dura realidade de ser outsider até para os mais radicais outsiders...

Outra curiosidade a respeito do João Cucci Neto, foi que ele confessou-me que estava desapontado com a cúpula da Revista "Bizz", pois através do jornalista Leopoldo Rey, fora contatado para escrever uma resenha do LP "Machine Head", do Deep Purple, para uma sessão da revista que tinha a missão de resgatar a história dos álbuns clássicos da história do Rock. Claro que o Leopoldo que eu conhecia bem e sabia que era um jornalista não comprometido com a "Intelligentzia" do Pós-Punk, deve ter brigado na reunião de pauta para assegurar uma ideia dessas, mas infelizmente, em meio àquela mentalidade abominável que a revista adotava acintosamente, "clássico" para eles, eram os álbuns Punks e Post-Punkers, de 1977 em diante...
A cada edição, a Revista em questão postava exemplos abomináveis de obras e artistas que só na cabecinha doente deles poderia ser classificada como "importantes" na história do Rock, e assim, apesar dos esforços do Leopoldo Rey, a matéria escrita por João Cucci Neto, enfocando o LP Machine Head, do Deep Purple, foi vetada... Beatles; Led Zeppelin; Cream; Janis Joplin; Bob Dylan; The Who e Jimi Hendrix não tinham importância... e ainda tem gente que pergunta-me por que eu tenho bronca da década de oitenta... e durma-se com um barulho desses...


 

Na semana seguinte ao show no claustrofóbico palco do "Espaço Alquimia", tínhamos dois shows fora de São Paulo. Um seria no interior de São Paulo, numa pequena cidade chamada "Espírito Santo do Pinhal", fruto de um contato vindo da parte do Eduardo Ardanuy. E o outro, seria no Rio de Janeiro, graças aos esforços de Ricardo Aszmann, nosso colaborador no Rio. Sobre o show na pequena cidade interiorana, não esperávamos muita coisa, portanto, tínhamos mais expectativas sobre o Rio, onde seria uma boa oportunidade de apresentarmos nosso som nessa importantíssima capital, onde a velha Chave do Sol tinha muitos fãs, e a sua súbita extinção, seguida da criação não menos surpreendente de uma nova banda dissidente, gerara especulações e certamente a curiosidade dos fãs cariocas. Reforçando, o show na pequena cidade interiorana não despertava-nos grande esperança de expansão promocional de nossa banda, mas evidentemente, seria bacana pelo cachet oferecido.

Tocamos bem na porta da Igreja da Matriz dessa simpática cidade interiorana de Espírito Santo do Pinhal / SP

Bem, seriam shows num final de semana, o que dar-nos-ia um cansaço inevitável, visto que seriam em dias seguidos, sem intervalo para viagens mais confortáveis e tempo para descanso entre eles.
OK, isso era raro para uma banda nova, sem empresário e com pouco espaço midiático, portanto, cansaço a parte, comemoramos essa micro tour. Fomos para a cidade de Espírito Santo do Pinhal, no início da tarde no dia do show, 11 de junho de 1988. Usando uma velha e valorosa Kombi e levando, o backline (equipamento de palco), da banda, pois o prometido ali era só ter o P.A. do evento disponibilizado, foi uma viagem tranquila pela estrada boa, mas um pouco sofrida pelo aspecto do conforto. Apesar de estarmos no final do outono, estava um dia quente, aliás padrão comum no interior de São Paulo.

Chegando na cidade, que fica perto de Campinas e Mogi-Guaçú, nos dirigimos diretamente ao centro da cidade, onde tocaríamos num evento ao ar livre, com o palco improvisado na escadaria de acesso da Catedral da cidade, logicamente localizada na principal praça do centro, como é típico em cidades interioranas. Montamos o backline com apoio da produção local e fomos avisados que o soundcheck seria feito a toque de caixa, sem maiores requintes, e já com o público à espreita, pois não podíamos fazer os testes antes da Missa das 18:00 horas, e haveria outra Missa às 20:00 horas.
Bem, acostumados a tocar em condições de monitoração insalubres, como quase todo Rocker brasuca, nem ficamos muito contrariados, mas claro que era mais uma situação aviltante a ser contabilizada na carreira. Arrumado tudo, fomos levados para jantar numa pensão local, e bem próxima, indo a pé, sem nenhum constrangimento, pois era muito perto da Praça central. Na pensão, fomos muito bem tratados pela proprietária e seus funcionários, além dos seus hóspedes que eram quase todos idosos. Era um estabelecimento simples, mas muito aconchegante, com clima de "Lar".

Quando chamaram-nos à mesa para o jantar, tomamos um susto, pois a despeito da simplicidade generalizada, a fartura na mesa era impressionante, ou seja, honraram a tradição típica interiorana de absoluta hospitalidade e fartura nas iguarias.

Comemos tanto, que quando foi-nos servida a sobremesa, ficamos constrangidos, mas não tivemos pudor em atacarmos violentamente aqueles doces e bolos maravilhosos, dignos da Tia Anastácia, do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Estávamos todos empanturrados, quando fomos convidados a sentarmo-nos na sala de estar do estabelecimento, e aí serviram-nos o cafezinho, como tiro de misericórdia naquele bando de cabeludos gulosos.

Foi quando o Zé Luiz Rapolli, do nada, olhando para a TV que exibia o "Jornal Nacional" da Rede Globo, soltou uma pérola inesperada : -"o que será que vai passar no "Super Cine", hoje ?"
Ha ha ha... caímos numa gargalhada coletiva, pois estávamos tão empanturrados, que a perspectiva de assistir um filme e cochilar nas poltronas como se estivéssemos cada um na sua respectiva casa, por um segundo foi cogitada por todos, com as respectivas panças inchadas, quando ouvimos a brincadeira do Rapolli...
Mas tínhamos um show para fazer, a despeito dos respectivos estômagos absurdamente cheios...
Quando voltamos à Praça, a segunda Missa da noite ainda estava em curso e tivemos que esperar o seu término, mas já havia uma multidão na praça, aguardando pelo show. Claro que não tratava-se de um público Rocker, mas haviam uns poucos ali, com alguma noção de quem éramos e o que aconteceria com nossa performance ali.

Quando a Missa encerrou-se, e os fiéis deixaram a Igreja, fomos autorizados a começar. Por incrível que pareça, o nosso som, certamente muito pesado para os padrões de ouvintes não acostumados a tal sonoridade, não espantou a massa. Aplaudiam com entusiasmo a cada canção encerrada, e na minha ótica, acho que o clima ali entre tais pessoas, era de festa, e por isso, qualquer som os divertiria, mesmo o nosso, que era pesado; cantado em inglês, e repleto de solos virtuosisticos. Enfim, melhor dessa forma para todos e assim, saímos muito satisfeitos do palco, pois fizemos o nosso show normal e completo, para um público que pareceu divertir-se. Além do mais, ganhamos um bom cachet, pago regiamente, e aquele jantar... bem, acho que já falei sobre isso.
Voltamos imediatamente para São Paulo, pois no dia seguinte, bem cedo, partiríamos para o Rio de Janeiro, onde uma nova apresentação no "Caverna II" aguardava-nos, e aí sim, seria um show importante para a evolução na carreira, mas infelizmente, ao contrário de um público não rocker de uma pequena cidade interiorana, tocando numa capital importantíssima como o Rio, tivemos problemas. Então foi assim, tocamos na praça da matriz da pequena Espírito Santo do Pinhal, no dia 11 de junho de 1988, com cerca de cinco mil pessoas a assistir-nos, segundo a estimativa oficial da PM.



Pelo tipo de filipeta absolutamente amadorística e feita nas coxas, nós deveríamos ter desconfiado que desta feita as coisas não dariam certo no Rio, como em outras ocasiões...
 
Chegamos a São Paulo no início da madrugada, e tínhamos pouco tempo para descansarmos, pois a viagem para o Rio seria no início da manhã seguinte. Partimos para o Rio, e chegamos na hora do almoço, num dia nublado e atípico para o padrão carioca de sol e calor escaldante. Chegando ao espaço onde funcionava o Caverna II, tínhamos, eu e Beto, a lembrança de shows realizados nos anos de 1986 e 1987, com nossa ex-banda, A Chave do Sol, mas agora as circunstâncias eram diferentes, com uma nova banda, e um novo som.  
A expectativa entre os cariocas era grande, sabíamos, por conta dos acontecimentos que culminaram com o fim das atividades de nossa ex-banda, e a criação as pressas dessa nova banda dissidente.
Tocaríamos com duas bandas pesadas da cena local, e formada por bons músicos e pessoas bacanas, com as quais teríamos certamente uma boa ambientação. Eram : "Destroyer" e "Calibre 38". 


Conhecíamos o pessoal do Calibre 38, e estava garantido portanto o clima de camaradagem nos bastidores. Contudo, algo inexplicável ocorreu nessa tarde / noite.

Em primeiro lugar, o público que compareceu às dependências do Caverna II, foi diminuto para os padrões daquele espaço. Nos anos anteriores, havíamos apresentado-nos (falando da Chave do Sol, logicamente), para mais de mil pessoas espremidas no salão retangular e muito quente. Mas nesse dia, o público informado pela produção, de forma aproximada, foi de apenas 300 pessoas.

O segundo ponto, e mais chato, foi que o público habitual do Caverna II, simplesmente não compareceu e o que vimos ali, foi um público radical e adepto de tendências radicais de Heavy-Metal extremo, absolutamente agressivo e hostil. Ficamos surpresos quando ao subirmos ao palco, e os que estavam mais próximos da grade de segurança, hostilizaram-nos bastante. Não eram xingamentos pesados, mas abusaram da ironia e do deboche, satirizando nosso sotaque paulista / paulistano, e aí sim, achincalhando nossos clubes de futebol, como maneira de atingir-nos. Até aí tudo bem, pensamos em princípio tratar-se de meia dúzia de bairristas idiotas e dispostos a praticar bullying coletivo, pelo simples prazer mórbido de incomodar-nos.

Mas quando começamos a tocar, sentimos que não havia sinergia alguma, pois mal ouvíamos aplausos educados dos poucos que ali compareceram com vontade de assistirem os shows das três bandas e, havia a constatação também de que as duas bandas cariocas que tocaram na mesma noite, também haviam sido recepcionadas friamente pela plateia. Segundo meu amigo Ricardo Aszmann, que era nosso contato no Rio, e conhecia bem a cena local, tais elementos eram radicais xiitas vindo de bairros longínquos da periferia e cidades da Baixada Fluminense, e que só tinham o objetivo de tumultuar; praticar bullying; e azucrinar quem quer que fosse que subisse ao palco. Está bem, mas onde estava o público habitual da casa ? A única resposta plausível para tal surpreendente ausência, era a da divulgação mal feita, e nessa altura, de fato, o Caverna II já não tinha a força de anos anteriores, infelizmente.
Foi um show bastante estranho, portanto. Saímos do palco aborrecidos por não termos apresentado-nos para o verdadeiro público carioca Rocker, mas sim para uma massa alheia ao nosso som, e disposta a tumultuar, simplesmente. Na semana subsequente, teríamos dois shows no "Black Jack Bar", em São Paulo, uma casa minúscula, mas tradicional no circuito do Rock paulistano.


Resenha do show no Rio de Janeiro, escrita pelo jornalista Sergio Martorelli para a Revista Metal, nº 49

Voltamos do Rio frustrados pelo resultado pífio da apresentação, mas resignados pelo consolo efêmero de nós não termos sido responsáveis por tal situação. Nosso próximo compromisso seria duplo na verdade, com dois dias no Black Jack Bar, tradicional reduto do circuito de Rock underground na cidade de São Paulo.

Foto promocional do "Inox", com Paulo Toledo sendo o primeiro, em destaque

Tal estabelecimento já tinha tido vários donos e agora estava sob administração de Paulinho "Heavy" Toledo, ex-vocalista da banda Inox. Portanto, privilegiava em sua agenda, bandas da cena do Hard-Rock. Tocamos nos dias 17 e 18 de junho de 1988, sexta e sábado. Na sexta, levamos cerca de 100 pessoas ao bar; e no sábado, foram 250, portanto, um bom público na média, e principalmente se considerarmos que tratava-se de um pequeno espaço. O som ali era caótico, e o ideal era tocar bem baixo, para nivelar com o pequeno e tímido P.A. da casa, visando não obscurecer as vozes, mas era quase impossível manter tal dinâmica.
Claro, quando a casa apresentava uma boa frequência de público, a tendência era melhorar a qualidade sonora, com a massa corpórea das pessoas inibindo a incidência de reverberação, mas mesmo assim, tocar com baixo volume era uma necessidade ali. Os shows foram bons, apesar das condições tímidas da casa. Alguns dias depois, recebemos convite da TV Cultura de São Paulo e fomos participar de uma edição do programa "Boca Livre". Tínhamos participado desse programa, eu e Beto, no ano anterior, 1987, mas ainda como componentes da Chave do Sol. Aliás, fora o último programa de TV feito pela velha Chave do Sol, com o guitarrista cofundador da banda, Rubens Gióia, mas já sem a presença de José Luiz Dinola, substituído provisoriamente por Ivan Busic. Agora era outra banda e um outro som, naturalmente.

O programa ainda era apresentado pelo radialista Kid Vinil, mas desta feita tinha a companhia de uma apresentadora chamada Dadá Cyrino, que também era cantora. Figura espalhafatosa, apresentava o programa aos berros, num estilo histriônico que assemelhava-se às apresentações de programas infantis e / ou circenses, sendo bem exagerada, portanto. Na verdade, as bandas não eram o foco ali, mas sim uma disputa entre estudantes representando seus respectivos colégios, ao estilo de uma "gincana", daí talvez justificar-se a figura estrambótica de Dadá Cyrino, em detrimento do Kid Vinil que era bem mais comedido, por incrível que pareça...
Nessa noite, ali no Teatro Franco Zampari, tivemos a companhia de duas bandas. Os veteranos do "Placa Luminosa", uma banda que era híbrida por atuar no circuito de bailes, e ter um trabalho autoral em paralelo; e a banda Punk, "Kães Vadius". Tocamos duas músicas. Uma era "Stole My Heart", uma canção bem pop, pelo menos no conceito do que era pop para quem professava o Hard Rock oitentista de viés norte-americano. Lembrava bastante o som do "Van Halen", fase Sammy Hagar, para situar o leitor melhor.
Já a outra canção, "Narrathan", tinha uma roupagem bem calcada no Hard-Rock britânico, com espaço para longas intervenções de solos. A despeito de eu ser um peixe fora d'água naquela seara do hard virtuosístico de apelo "malmsteeniano" que essa banda havia adotado, confesso que algumas cadências harmônicas dessa música que remetiam ao Hard-Rock setentista, agradavam-me.

Havia um longo solo dividido entre os teclados e a guitarra, que era feito sob uma sequência de alternância de meio tons, que muito lembrava-me o som do "Rainbow", nos anos setenta. Épico; barroco & dramático, e com timbres de mini-moog ultra setentistas que o Fabio executava, deixando-o ainda mais desse jeito do Hard-Rock daquela década. Bem, fizemos um micro entrevista e tocamos as músicas. "Flashs" da reação das pessoas na plateia demonstravam um desinteresse absoluto pelo som cheio de firulas de nossa banda, mas o que devia incomodar mesmo era o fato das canções serem cantadas em inglês.

Se isso fazia sentido para o universo do Rock underground de final de década, graças ao sucesso internacional retumbante do Sepultura e muitas bandas daquela cena haviam adotado tal expediente linguístico, para o grande público alheio a essa movimentação estratégica dos bastidores da música, não fazia sentido algum. 

Eis o vídeo dessa apresentação no Boca Livre em 4 de julho de 1988, resgatado por Will Dissidente em seu Blog, "A Chave do Sol", em 2015.

O Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=eLeK3fjyf6g


Bem, vendo o vídeo, acho que foi uma apresentação boa, com a banda bem ensaiada e tendo uma performance muito convincente, mas aquela sonoridade realmente não haveria de empolgar pessoas não antenadas nas tendências mais atuais do Rock oitentista, portanto, era muito questionável o rumo que estávamos tomando.
Se estivéssemos com grandes contatos internacionais abrindo-nos portas, certamente faria todo o sentido, pois a banda soava bem, tinha grande poder de performance e contava com dois solistas virtuoses na sua formação, mas não era o caso e o que tínhamos, era a dura realidade brasileira, ainda favorável ao pop diluído do fim da feira do Pós-Punk e o som peso pesado, circunscrito aos seus devidos nichos do underground. O "Sepultura" transitava por meios do mainstream, mas de uma forma absolutamente incompreensível sob o ponto de vista de sua sonoridade e estética. Mas isso jamais significou em tese, que o público não adepto de sonoridades do Metal extremo realmente havia absorvido tal estética. Mais parecia uma assimilação pelo modismo, na base da formação de opinião, pois definitivamente, nada havia de pop no trabalho deles.
Enfim, tal aparição nossa na TV, com essa estética e sonoridade, aliada ao fato de cantarmos em inglês, era na verdade, a constatação de que estávamos dando vários tiros errados, mas claro, não tínhamos esse discernimento à época. E sem tal visão clara dos fatos, continuamos insistindo nessa estratégia, pensando em gravar uma demo, gravar um LP etc etc. Como curiosidades dessa aparição na TV Cultura, acrescento que tive uma surpresa com a tal apresentadora Dadá Cyrino, cerca de uma ano depois, 1989, quando fui convidado pelo ex-guitarrista do Terra no Asfalto, Aru Junior, para conhecer um projeto de banda autoral que ele tinha em mente. Não era a minha intenção abandonar essa dissidência chamada A Chave, principalmente para não deixar o Beto sem meu apoio, ele que lutara tanto para criar a banda e mantê-la de pé, desde o início de 1988, mas fui falar com o Aru, um amigo e músico que admirava e fora meu colega de banda entre 1980 e 1982.

Quando entro na residência dele, eis que descubro que sua nova esposa era... Dadá Cyrino... mundo pequeno mesmo...
E além do som que ele queria fazer, havia a possibilidade de tocar com ele na banda de apoio de sua esposa que movimentava-se para ter uma carreira latinoamericana, fazendo uma música pop cantada em castellaño, com vários signos de latinidade, principalmente de sabor caribenho em sua música. Bem, não deu para aceitar tais propostas, mas foi curioso ir visitar um velho amigo e surpreender-me com Dadá Cyrino, como dona da casa...
Ainda falando do vídeo, tem flashs que mostram em close a irmã do Zé Luiz Rapolli, Sueli Rapolli, e a então namorada do Eduardo Ardanuy, cujo nome esqueci-me completamente.

E também a curiosa presença da atriz Cristiane Tricerri, que na época fazia parte do premiado grupo de teatro "Ornitorrinco", do diretor Cacá Rosset, e seu semblante não era de quem estava empolgada...
E assim ocorreu no dia 4 de julho de 1988, no Teatro Franco Zampari, acoplado à estação Tiradentes do Metrô, no bairro do Bom Retiro, centro da cidade, e com cerca de 500 pessoas na plateia. O próximo compromisso, seria uma volta ao Teatro Mambembe, ainda em julho.

Voltaríamos ao palco do Teatro Mambembe, onde em abril havíamos feito o que consideramos a estreia oficial dessa nova banda. E claro, já tínhamos uma longa convivência com tal Teatro, eu e Beto, principalmente, com grandes performances da nossa velha Chave do Sol ali. O Teatro Mambembe ainda tinha fôlego em 1988, apesar da cena underground estar também apresentando sinais de declínio, tal como a cena mainstream do BR Rock 80's. Não percebíamos isso com muita clareza, mas olhando com distanciamento histórico, em 2015, momento em que escrevo este trecho, claro que isso era nítido. Sem muitos recursos, fizemos a nossa divulgação mais calcada no disparo do mailing do Fã-Clube via correio, e fomos para o show. Dividiríamos a noite com uma nova banda que estava debutando no cenário do Rock pesado e underground, chamada "Naja", comandada pelo guitarrista Micka, que fora membro de outra banda da cena oitentista, chamada "Santuário". Essa antiga banda dele, era proveniente de Santos, litoral de São Paulo, e que tivera relativo êxito na cena do Heavy-Metal oitentista. Bem, notícia boa, porque o Micka era (é) gente boa, e o convívio seria bom nos bastidores, sem dúvida.

Fizemos o show praticamente igual ao que havíamos feito em abril, com a inclusão de algumas músicas novas, inclusive, mas o resultado não foi o mesmo, com aquela comoção toda gerada.
A começar pela bem menor presença de público, desta feita, com quase a metade em relação ao público que havia comparecido em massa na ocasião. Foi um show mediano, pela minha lembrança, pois a baixa frequência de público tirou-nos um pouco de ânimo, é claro, mas também já havia sinais de desgaste interno, por incrível que pareça, para uma banda que tinha apenas seis meses de vida.
A maneira abrupta com a qual fora formada; a sombra da velha Chave do Sol; a trilha estética adotada; a falta de recursos financeiros e a cena diluindo-se, eram fatores para explicar as dificuldades dessa banda, sem dúvida, mas eu vou além. Acho que o primeiro fator que citei, sobre o caráter abrupto de sua formação, foi significativo num sentido quase romântico, mas que reputo ser fundamental na formação de qualquer banda : a empolgação inicial em agrupar-se forças em torno de um objetivo, é primordial para dar o primeiro impulso criativo e neste caso, a banda fora montada de forma emergencial, e para cobrir compromissos de uma banda recém extinta.

Não teve o fator "sonho" nessa formação inicial, e isso era uma condição importante para que se tivesse uma química inicial que fosse capaz de aguentar os primeiros tempos que são sempre difíceis para uma banda nova. Mais que isso, pressupõe que as pessoas arregimentadas para a formação de uma banda, tenham mais afinidades em comum, do que diferenças. Que as influências sejam parecidas em pelo menos 70 % no cômputo geral, presumivelmente; que haja um consenso básico sobre qual linha estética seguir doravante, tanto em termos musicais, quanto poéticos em relação às letras e sua mensagem. Enfim, nada disso foi levado em conta para a criação dessa banda e portanto, em poucos meses, os primeiros sinais de desgaste entre os membros, começaram a aparecer. Nessa circunstância, eu quase não comunicava-me com o Eduardo Ardanuy. Achava-o circunspecto, fechado nas suas convicções musicais e com pouca ou talvez nenhuma similaridade com meus valores. Fabio Ribeiro era um menino educado, cordial e solícito, mas a diferença de idades (e convenhamos, nem era tanta assim, coisa de 10 anos), fazia com que eu comunicasse-me mais com seu pai, o saudoso "seu" Ribeiro.

Portanto, foi com o Zé Luiz Rapolli que mais conversava, e nossas conversas giravam muito em torno das nossas predileções do Rock das décadas de sessenta e setenta, e graças a essas conversas, tive a falsa impressão, dez anos depois, de que ele talvez fosse o baterista ideal para o projeto do Sidharta, mas isso foi um equívoco de minha parte. Sobre a parte musical, tentei manter uma tradição que tinha e estava muito acostumado com o outro Zé Luiz, o Dinola, que era a de criar em parceria, arranjos rítmicos elaborados para enriquecer o trabalho da banda. Ele, Rapolli, gostou da ideia e nós chegamos a ensaiar sozinhos, criando divisões rítmicas a serem executadas nas músicas, mas a mentalidade dessa banda não comportava tal tipo de procedimentos de baixo e bateria, pois logo o Edu reclamou de nossas "quebradeiras rítmicas" alegando que isso atrapalhava os seus solos. Não era da parte dele um arroubo de arrogância, mas de fato, uma questão de mentalidade, pois o Jazz-Rock setentista não interessava-lhe, e no seu espectro de influências, o Hard-Rock pop oitentista e o acento virtuosistico que adorava, tinha como padrão, a extrema simplicidade de baixo e bateria, como ponto pacífico no arranjo, a fazer dos solos, o grande destaque a ser realçado.

O som do guitarrista sueco Yngwie Malmsteen, foi o exemplo que norteou os trabalhos dessa banda, predominantemente...

Trocando em miúdos, mais um fator para desanimar-me ainda mais com essa banda e sua estética que desagradava-me inteiramente.
Contudo, apesar dessas contrariedades, não eram nada graves as desavenças internas sob o ponto de vista humano, que caracterizassem um clima insuportável, brigas ou mau humor generalizado, mas o suficiente para gerar pequenas insatisfações, que só tendiam a crescer e foi o que aconteceu. De minha parte, aquele som não era o meu, definitivamente. A aposta no Hard-Rock pop que fosse híbrido o suficiente para flertar com o mainstream, havia sido um sacrifício calculado nos momentos finais da Chave do Sol, mas no caso dessa nova banda, a guinada para o som pensado para atender o virtuosismo "malmsteeniano" jamais teria sido uma opção que eu gostaria de experimentar.

Essa linha era uma escolha do Edu, que além de professá-lo por prazer estético, acreditava piamente que era um caminho que teria vazão comercial internacional, coisa que o Beto também estava convencido naquela altura, e daí a opção para adotar o inglês como língua oficial da expressão dessa banda. Fabio Ribeiro tinha boa escola progressiva setentista, tecladista versátil e virtuose que era, portanto fã de tecladistas dessa vertente da década de setenta, todavia, também apreciava a nova onda de virtuosismo oitentista e era compreensível no sentido que tal escola "moderna" no Hard-Rock, dava vazão também a longos e virtuosos solos de teclados. No caso de José Luiz Rapolli, ele gostava muito do som das décadas de sessenta e setenta, mas não importava-se em tocar aquela tendência moderna oitentista e absorvia-a sem problemas.
Resumindo, o único que apresentava desconforto com a opção musical ali adotada era eu, e se haviam sinais de insatisfações dos demais, aí sim, eram pelos outros fatores que arrolei alguns parágrafos atrás. Vida que seguia, apesar de tudo, seguimos em frente nessa metade de 1988, e novos compromissos foram surgindo. Sobre o show no Teatro Mambembe, ocorreu no dia 12 de julho de 1988, com cerca de 300 pessoas na plateia.

Nos dias 11; 14; e 20 de julho de 1988, tivemos aparições rápidas num novo programa de TV, que mostrava-se moderno para os padrões da época, chamado "TV Mix", veiculado na TV Gazeta de São Paulo. Aparentemente caótico e avant garde, tinha a proposta de ser uma mescla de programa de jornalismo cultural, com cobertura de cotidiano em geral da metrópole. Para dizer a verdade, era bem bacana a sua proposta de dinamismo e informalidade, tirando o ranço de seriedade de um jornal tradicional, sendo leve; "moderninho"; e de certa forma, irreverente.

Com exibição diária e ao vivo (apresentava três edições por dia), tinha uma série de âncoras, entre eles, figuras que não eram ainda famosas na TV nessa ocasião, como Serginho Groisman; Alê Primo; o escritor Caio Fernando Abreu; o então jovem Cleber Machado (atual narrador esportivo da TV Globo); Marcelo Mansfield ("Terça Insana"); Luis Henrique (travestido como "Condessa Giovanna", e que depois disso ficaria famoso a fazer a "Mamma Bruschetta" em programas femininos na TV), e Astrid Fontenelle (na ocasião, futura MTV), só para citar alguns jovens (e alguns veteranos também, caso de Ricardo Corte Real e Tadeu Jungle (ex-A Fábrica do Som), e de certa forma antecipou a extrema informalidade que dois anos depois marcaria o início das atividades da MTV no Brasil.

No caso da Astrid, certamente que sua atuação na TV Mix, assegurou sua contratação para a MTV, em 1990. E no dia 20, aproveitando a passagem pela TV Mix novamente, agendamos participação no programa "Realce". No tempo da Chave do Sol, éramos habitues desse programa onde apresentamo-nos diversas vezes fazendo dublagens hilárias, e participando das loucuras improvisadas do apresentador argentino e "loucaço-mor", Mister Sam.

Mas agora o Realce havia reformulado-se muito. Mister Sam não fazia mais a apresentação que ficara a cargo de um locutor de FM chamado Beto Rivera. Ele era extremamente profissional e gentil, mas não tinha o carisma e a insanidade do Mister Sam, tornando o programa muito "certinho", portanto, subtraindo muito do seu charme anterior.

Nesse dia, dividimos o programa com uma figura super ilustre do Rock / MPB brasuca setentista, Pepeu Gomes, que foi muito gentil conosco nos bastidores e conversou bastante com o Edu Ardanuy sobre guitarras, equipamento etc. O próximo compromisso seria no Centro Cultural São Paulo. Desta feita, ao contrário do público presente que havíamos considerado decepcionante no Teatro Mambembe, tivemos bastante gente nessa apresentação. Tocamos perante cerca de 600 pessoas, no dia 24 de julho de 1988, e foi um show com energia, devo registrar.

Foto de João Cucci Neto, cobrindo esse show do Centro Cultural São Paulo, para a revista Rock Brigade

Mas o que mais marcou nesse dia, não foi a nossa performance boa, tampouco a reação calorosa do público, mas um acontecimento de bastidores. Através do Eduardo Ardanuy, o empresário que estava trabalhando com o João Ricardo, Ex-"Secos & Molhados", foi assistir o nosso show, e talvez daí surgisse o interesse em contratar-nos. Bem, desde o final da velha Chave do Sol que não tínhamos mais contato com empresários, e agora que uma nova banda estava articulada e fazendo relativo barulho na mídia especializada, se arrumássemos alguém para auxiliar-nos, não seria nada mal. Alguns dias depois, uma reunião foi marcada para uma conversa com o rapaz que chamava-se Enzo, mas fico devendo o sobrenome. O ponto de encontro foi o próprio Centro Cultural São Paulo, mas ao contrário do que supúnhamos, sua real intenção não era contratar-nos. Contudo, só percebemos isso alguns minutos depois...
Dando uma desculpa esfarrapada sobre ali não ser um local adequado para conversarmos (e não procedia, pois o CCSP tem vários lounges, ambientes de convivência, café etc...), convidou-nos a irmos a uma cantina no bairro do Bexiga, onde degustando uma bela massa italiana, conversaríamos com mais calma.

Chegando lá, entre inúmeras que existem na Rua 13 de maio, entramos na "Lazzarella Due" (excelente, claro), mas surpreendemo-nos com João Ricardo a nossa espera...
Bem, era uma mera armadilha, com o tal Enzo não interessado em ser nosso empresário, mas na verdade, arregimentar músicos para compor uma nova tentativa de volta dos Secos & Molhados, que João Ricardo estava planejando.

O interesse ali era convidar Edu e Fabio, nossos solistas. E a conversa girou em torno disso, pelos cantos, enquanto comíamos e o Enzo fazia esforços para que eu; Beto e Zé Luiz Rapolli não prestássemos atenção no assédio sobre nossos companheiros, mas isso era praticamente inútil em tentar disfarçar. E convenhamos, se fosse em 1973, eles não teriam nem o que pensar, e nós só poderíamos amargar a perda de nossos companheiros, desfalcando nossa banda, mas em pleno 1988, a perspectiva de uma terceira ou quarta "volta" dos Secos & Molhados, e sem Ney Matogrosso e Gerson Conrad em suas fileiras, não seduziu-nos. 

Quando o jantar terminou, o tal Enzo estava muito diferente. Falante e brincalhão no início da noite, estava agora mal humorado, num misto de contrariedade pela não concretização de seu intuito, visto que Edu e Fabio não mostraram-se empolgados com a proposta, e talvez potencializado pela ingestão de vinho. Antes disso acontecer, horas antes, quando de conversas sobre amenidades, havia oferecido-me carona, pois descobrira que eu era morador do bairro do Tatuapé, na Zona Leste de São Paulo, e ele era da Mooca bairro da mesma "ZL". Agora, não havia como retroceder na sua gentil oferta, apesar de estar visivelmente contrariado pelo rumo da conversa.

Portanto, no caminho, foi dirigindo em profundo silêncio e quando o carro alcançou o viaduto Bresser, na avenida Radial Leste, tomou impulso e perguntou-me se eu não importava-me em prosseguir a minha viagem usando o metrô, pois estava cansado, e queria virar ali para embrenhar-se no bairro da Mooca, rumo à sua residência. Claro que não importei-me, eram apenas duas estações para eu chegar à minha casa, mas tal episódio ilustra a contrariedade do rapaz. Bem, nem precisa dizer que ele parou de atender telefone logo a seguir, e seu suposto interesse em empresariar-nos, nunca existiu...


Dois dias depois desse jantar estranho numa cantina italiana do Bexiga, tínhamos uma apresentação num espaço novo que arriscava-se a produzir shows de Rock onde não havia nenhuma tradição nesse sentido. E sempre que surge uma iniciativa assim, a cena fica agitada, com o boato correndo entre músicos; produtores; agitadores culturais; jornalistas, e público cativo em geral. Claro que aceitamos o desafio e arriscamos a bilheteria, acreditando que poderia vir a tornar-se um novo ponto sustentável para o Rock na nossa cidade.

Era uma produção do baterista do "Harppia", Tibério Correa, que esforçou-se para dar tudo certo, com toda a boa vontade e interesse que um músico de Rock poderia ter nisso, mas infelizmente a sua iniciativa não deu o resultado esperado, e logo a casa fecharia as suas portas para o Rock, infelizmente. Um dia antes, em 27 de julho, Fabio Ribeiro e Zé Luiz Rapolli haviam concedido entrevista na emissora Brasil 2000 FM, mas nem assim, nesse esforço extra de divulgação, fez com que tal agito ajudasse-nos a ter mais público no local. E aproveitando a abertura que o programa TV Mix da TV Gazeta, estava dando para nós, fomos também lá participar na base de uma rápida entrevista, na verdade, um testemunhal só para reforçar a divulgação dos shows no Dunny's Club e Projeto Leste I.

É bem verdade que quatro dias antes havíamos levado cerca de 600 pessoas ao Centro Cultural São Paulo, e isso quase que anulava a possibilidade de movimentarmos uma nova multidão à um local totalmente sem tradição de shows de Rock, e desconhecido portanto, de nosso público habitual. Então, mesmo sob tal perspectiva sombria, fomos ao Dunny's Club, um salão localizado na Lapa, Zona Oeste de São Paulo, e demos o nosso recado para uma plateia de apenas 50 testemunhas. Além da pequena frequência de público, o palco e o equipamento não eram de muita qualidade, portanto, foi um show um tanto quanto sofrido para nós.
E havia uma agravante para justificar a ausência de público : dois dias depois, tocaríamos num gigantesco espaço na Zona Leste, chamado "Projeto Leste I". Com uma propaganda razoável que estava nas ruas, portanto, o show nesse clube da Lapa ficara encravado entre nossas apresentações no Centro Cultural São Paulo, e essa do enorme "Projeto Leste I", portanto, obscurecendo o show nesse pequeno clube da Lapa. Com abertura na Brasil 2000 FM, Fabio Ribeiro foi fazer entrevista no programa "Clip Independente" nessa emissora, para reforçar a divulgação.
Então foi assim, com apenas 50 pessoas na plateia, fizemos o show no Dunny's Club da Lapa em 28 de julho de 1988, e claro, a piada pronta estava na ponta da língua : "Dane-se clube"...mas quem "danou-se" fomos nós mesmos...

 
Não era um baile de formatura, como sugere o cabeçalho da filipeta, mas apenas propaganda do patrocinador, aliás muito inusitado. E grafar a palavra Rock, como "Roque", denotava a total falta de proximidade do tal patrocinador, com o nosso universo, ou, um arroubo xenófobo, digno de um Policarpo Quaresma...

Chegamos ao Projeto Leste I, e impressionamo-nos com sua dimensão gigantesca. Tratava-se de um enorme galpão localizado na Rua Siqueira Bueno, no bairro da Mooca, Zona Leste de São Paulo.

Os responsáveis por tal espaço queriam fazer dele um novo polo de shows de grande proporção e na Zona Leste, o que era louvável, mas sua missão era bastante difícil apesar da boa localização, com a Mooca sendo um bairro muito perto do centro de São Paulo, cercada de outros tradicionais bairros da região, como Brás; Belém; Pari; Tatuapé, e Vila Prudente, entre outros, além dessa rua em específico, ficar a três quarteirões de uma estação de Metrô. Mas o desafio era enorme, pois naquela época, as grandes casas de shows ficavam nas zonas sul e oeste, tradicionalmente e portanto, quebrar essa rotina na cidade era bastante difícil. Outro ponto, era que a febre das "danceterias" havia acabado há muito tempo. Portanto, em 1988, a proposta ali era a de promover espetáculos, focando nos artistas, na mais bela tradição dos shows de Rock de outrora, todavia, manter uma rotina de shows com dez a quinze mil pessoas que certamente o espaço comportava, era difícil ao extremo, a não ser que produzissem shows com artistas internacionais de grande apelo. Convenhamos, naquele momento de 1988, abrir um local enorme desses e sem muita perspectiva de que desse-lhe subsídios concretos de continuidade, foi um ato de coragem ou de loucura, como queiram.

Enfim, análise meramente contemplativa, não tínhamos nada com isso e se dependesse de nossa óbvia vontade, o espaço lotaria com uma grande multidão, mas nossa banda não reunia condições para tal, e nem somando forças com as bandas que fazer-nos-iam companhia naquela noite, isso seria possível. Bem, estávamos escalados para tocar ao lado de "Centúrias"; "Harppia"; e uma banda argentina chamada "Nemesis". O equipamento era bom, havia luz de qualidade e o palco era grande, num padrão internacional. As instalações, incluso camarins, eram rústicas, mas tudo funcional e o equipamento de qualidade, portanto, a infraestrutura para fazer uma bela apresentação, existia. Mas a despeito disso tudo, o público que compareceu nessa noite, beirou o ridículo...

Claro que a divulgação poderia e deveria ter sido muito melhor, mas o resultado na bilheteria foi desalentador. Diante de cerca de 70 testemunhas, num espaço que comportaria de dez a quinze mil pessoas, não dá para pensar nesse resultado a não ser como um fiasco, mas o que podíamos fazer ? Sobre os shows, foram bastante "malemolentes", eu diria. O desânimo nos bastidores era grande pelo resultado pífio de bilheteria. E o pessoal do "Nemesis", a banda argentina, portou-se com bastante altivez, impossibilitando uma confraternização.

Talvez julgassem-se o último alfajor de Buenos Aires e por isso, sua postura era de arrogância, mas na prática, era uma banda comum de Heavy-Metal oitentista, sem nenhuma diferença em relação a qualquer banda brasuca, a não ser o fato de que cantavam em castellaño. Sobre o nosso show, foi o de sempre, mas sofrido pela reverberação causada pela ausência de público. Com 70 gatos pingados naquele hangar para muitos "Concordes", não tinha como não haver um verdadeiro tiroteio de frequências ricocheteando pelas paredes e teto do ambiente.

Outra coisa engraçada, é que era tão pouca gente presente, que muitos tomaram a postura de assistirem os shows sentados e alguns até deitados, como se estivessem numa praia...ridículo e desanimador para todos que ali apresentaram-se, sem dúvida.
Assim foi a experiência no Projeto Leste I, na noite de 30 de julho de 1988.

No dia seguinte, 31, Fabio Ribeiro e José Luiz Rapolli concederam entrevista ao programa "Noites Futuristas", da Brasil 2000 FM.
O próximo show seria realizado apenas em setembro e o ânimo, cada vez mais baixo, numa banda que parecia nunca ter dado "liga", e não era para menos, pela forma com a qual foi formada, a despeito de serem ótimos músicos e boas pessoas, todos. Hora de pensar numa demo-tape, talvez a salvação para tentar fazer desse trabalho algo para estabilizar-se.

O Beto mobilizou a todos para gravarmos uma demo-tape com o material novo que essa banda tinha composto até então. Seu irmão, Claudio Cruz, emprestou um gravador de quatro pistas da marca "Fostex", que era bem simples, e com apenas 4 canais, claro que seria um gravação com muitas limitações e obrigatoriamente, teríamos que fazer uma ginástica para minimizar ao máximo o efeito limitador de uma drástica redução, inevitável. Com uma sonoridade que era encorpada ao extremo e com a presença de longos solos e geralmente duplos em quase todas as músicas, seria necessário um estúdio de 24 canais no mínimo, para tal sonoridade sair a contento. Porém, sem recursos para bancar nem um estúdio simples de oito canais, o jeito seria registrar as novas músicas desse jeito simplório.

Nessa foto ilustrativa de um estúdio que nem conheço pessoalmente, veja a presença de uma parte de pedra num dos cantos, fundamental na acústica.

Fora essa limitação, claro que havia a agravante dessa gravação não ser possível de ser realizada num ambiente adequado, com vedações e rebatimento de vários tipos, como madeira, pedra e vidro, componentes importantes no quesito da acústica. E pior ainda, não dispúnhamos de microfones adequados para a captura geral. Em suma, seria uma demo caseira, onde o resultado final, com muito esforço, seria o de um ensaio gravado com um pouco mais de requinte de áudio, que o habitual.

E assim, gravamos num domingo de agosto de 1988, na sala de estar da residência do Beto Cruz. Improvisamos biombos com móveis; cobertores e almofadas, para isolar prosaica e precariamente a bateria dos amplificadores dos teclados; baixo e guitarra, e era o máximo que poderíamos fazer para coibir vazamentos, ou seja, quase nada. Gravamos tudo ao vivo, incluso solos, pois não havia possibilidade de fazer-se overdubs para os instrumentos. Somente a voz teve essa possibilidade, no dia seguinte.

O resultado sonoro dessa captura até que surpreendeu, ficando além das expectativas que tínhamos em relação a uma gravação de ensaio "melhorada". Claro que a mixagem foi feita na base do "Ping Pong" (gíria usada entre músicos, para descrever a ginástica que era promover a redução dos instrumentos em poucos canais), e claro, sofrida. Baixo e bateria inteira ficaram juntos num canal e quem é músico e / ou produtor, sabe o quanto isso é desastroso, praticamente arruinando qualquer possibilidade de obter-se timbre e tratamento para cada peça da bateria e achatando o baixo ao patamar de quase não entender-se as frases feitas pelo baixista. A guitarra e os teclados também prejudicaram-se ao extremo, pois mesmo ocupando um canal cada um, o fato de ter uma base apenas e o solo no mesmo canal, limitava-os tremendamente.

Enfim, de graça, com essa maquininha que nem nossa era, e alguns poucos microfones "Shure SM 58", inadequados portanto para uma gravação, era o melhor que poderíamos fazer. Apesar de tudo, consideramos que o material atenderia a necessidade premente e nessa altura, havia dois contatos interessados em ouvir o material e não seriam gravadoras de médio, muito menos grande porte.
Tratavam-se de dois pequenos selos, oriundos de lojas de discos, que entravam no mercado para concorrer com a Baratos Afins, que nessa altura tinha status de gravadora, e não de um simples selo.
Um era de uma loja na mesma Galeria do Rock de São Paulo, e outro, de uma loja no Rio de Janeiro, localizada em Copacabana.
Com tal demo em mãos, nem precisávamos preparar material gráfico, pois a conversa seria coloquial com tais lojistas que estavam aventurando-se no mundo da produção artística e fonográfica.

O contato do Rio era meu, pois costumava vender discos nessa tal loja, sempre. Cheguei portanto com a fita K7 em mãos e fomos ouvi-la no tape deck ali mesmo no balcão da loja. Passei vergonha, no entanto, pois alguma configuração na reprodução da fita master para a minha cópia, fora feita de forma errada, e assim, o volume estava baixíssimo. Simplesmente não dava para distinguir as músicas, mesmo colocando-se o tape deck no volume máximo.
Pedi desculpas ao rapaz, e fiquei de providenciar uma cópia audível na minha próxima ida ao Rio, mas isso nunca mais aconteceu, pois fatos novos aconteceram em São Paulo. Primeiro, que os amigos do Golpe de Estado indicaram-nos um contato na gravadora Eldorado, para onde estavam mudando-se, deixando a Baratos Afins.
E segundo, que antes mesmo que o rapaz do Rio ouvisse a fita, o lojista da Galeria do Rock em São Paulo havia antecipado-se e demonstrando forte interesse, marcou reunião no nosso ensaio, com forte propósito de fechar acordo.

Sobre o contato na Eldorado, uma reunião foi marcada na sede da gravadora que nessa época ainda ficava no centro da cidade. Fui com o Beto, e ali havia aquela formalidade básica de empresa, embora a Eldorado fosse apenas de médio porte como gravadora, e muito aberta a ouvir artistas do underground sem rabo preso com estéticas A; B, ou C; marqueteiros inescrupulosos etc etc. Tanto que seu elenco era eclético, com artistas nada afeitos ao sistema, como bluesman; artistas folk obscuros; música de raiz; MPB muito alternativa e agora, investindo no Rock, sem preconceitos, pois tinham de bandas Punk ao Hard-Rock quase setentista do Golpe de Estado, que estava chegando e onde aliás, atingiu seu clímax nos anos seguintes, com a Eldorado quase levando-os ao mundo mainstream. Tal reunião aconteceu com um diretor artístico chamado Ota, um japonês que recebeu-nos friamente, mas pelo menos não teve a soberba típica com a qual eu e Beto estávamos acostumados a lidar, em abordagens com produtores "estrelas" que esnobaram-nos nos tempos da velha Chave do Sol. Talvez se cantássemos em português, houvesse uma chance de nosso som passar pelo seu crivo, mas além dessa contrariedade, o excesso de firulas virtuosísticas não entusiasmou-o. Se tivéssemos um som mais direto, como o do Golpe de Estado que estava entrando na gravadora, talvez conseguíssemos lograr êxito, todavia, nosso som pecava pelos excessos e até certas músicas que julgávamos "pop", na verdade, não sensibilizavam produtores acostumados com o mercado, nem mesmo no caso de uma gravadora diferenciada como era a Eldorado, acostumada a dar chances para artistas "outsiders".
Bem, com Ota não deu certo, e eu posso até elucubrar se o resultado não pudesse ser diferente se a conversa tivesse sido com outro produtor da casa, chamado Vagner Garcia, que anos depois eu vim a conhecer por conta do ingresso do Pitbulls on Crack nessa gravadora. Mas mesmo assim, sabendo hoje em dia, que o Vagner era bem mais acessível, esse som dessa "Chave sem Sol", era mesmo inadequado. Sobre a conversa com o lojista da Galeria, falo depois, esclarecendo quem ele era, logicamente...


Entretidos nessa questão de alinhavar um selo para gravar um álbum, só fomos ter agenda novamente no final de setembro. Escalados para participar de um mini festival, fomos apresentarmo-nos no "Megafestival", designados para tocar no dia "Hard'n Heavy", um evento realizado num salão sem nenhuma tradição em shows de Rock na cidade e desse forma, claro que sempre que aparecia uma possibilidade nova, todo mundo envolvido com a cena, animava-se. Seriam dois dias, com uma noite mais amena, dedicado ao Hard-Rock, onde inserimo-nos e a noite peso-pesado, com o Heavy-Metal. O tal salão era o do Clube dos Aeroviários, localizado na Avenida Washington Luis, quase em frente ao aeroporto de Congonhas, logicamente fazendo jus ao fato de ser uma associação de profissionais ligados à aviação.

O organizador esforçou-se para fazer o festival dar certo, e na minha ótica, foi um sucesso, pois no nosso dia, deu cerca de 500 pagantes, e em se considerando ser um espaço pequeno, que se ultra lotado talvez comportasse pouco mais do que isso, creio ter sido um ótimo resultado. E para reforçar, soube que a noite do Heavy-Metal deu ainda mais público, portanto, deu-lhe suporte financeiro. Só que algo chato ocorreu. Contratando-nos mediante cachet fixo, na hora de acertar contas conosco alegou estar com dificuldades para cumprir o compromisso acordado. Talvez o bom resultado de bilheteria não tivesse sido o suficiente para cobrir-lhe os gastos da produção, pois era possível que contasse com patrocínios que faltaram-lhe e assim, a bilheteria, mesmo gorda, não cumprisse a meta de sanar a despesa e desse-lhe o lucro esperado, mas... e nós com isso ? Bem, o Beto foi tratar do assunto num lugar reservado e como estava demorando, fui ver o que ocorria e quando cheguei o clima estava esquentando. Desculpas esfarrapadas não colavam e o Beto com pavio curto subiu o tom e aí o rapaz chamou seus seguranças e infelizmente eles vieram com agressividade e claro que apelaria se a conversa não parasse ali.  Enfim, tivemos que contentar-nos com parte do cachet combinado. Não vou revelar seu nome, mas ele militou no meio até meados dos anos 2000 pelo que eu saiba, e tomara que seja feliz, hoje em dia. Tenho certeza de que não agiu com má fé, mas apenas não era experiente na época e dimensionou mal a produção, não preparando-se adequadamente para arcar com os compromissos firmados previamente e diante de revés fora de sua expectativa, ficou descapitalizado para honrar os acordos. Sobre o show, foi energético, com um público que não era exclusivamente nosso, mas que respondeu com bastante entusiasmo. O som e a luz eram apenas razoáveis no cômputo geral, e na "hora h", os amplificadores disponibilizados deram-nos canseira com falhas, principalmente o da guitarra do Edu. Mesmo assim, o show foi bom em termos gerais. Foi assim então, tocamos no Clube dos Aeroviários, em 17 de setembro de 1988, com cerca de 500 pessoas na plateia. Na outra semana, voltaríamos ao Black Jack Bar, para mais dois shows. Tocamos nos dias 23 e 24 de setembro de 1988, com frequência excelente. No show da sexta, dia 23, 250 pessoas viram-nos tocar e no sábado, 24, 320 pessoas passaram na bilheteria da casa. Apesar desse bom público, claro que as condições do bar não eram ideais, com um palco minúsculo e um equipamento de P.A. absolutamente insuficiente para um show de Rock. O lado bom de tocar-se no Black Jack, além do sempre bom público, era a hospitalidade dos seus donos que eram Rockers como nós, caso do Paulo Toledo, e Fernando Costa, ex-membros do Inox. Portanto, era sempre agradável e de certa forma, amenizava a falta de condições físicas para fazer-se um show de Rock à altura das bandas que ali apresentavam-se.

Resenha do show no Clube dos Aeroviários, publicada na Revista Rock Brigade, escrita por André "Pomba" Cagni

Nessa altura, o meu ânimo que nunca foi grande com essa banda e esse som, sobretudo, estava ainda mais baixo. Não tinha nada contra ninguém pessoalmente, e pelo contrário, achava todos pessoas de bem, sob todos os aspectos. E era grato ao Beto pelo seu esforço descomunal em manter tudo isso funcionando, e sem dúvida, era seu grande mérito ter tirado essa banda da cartola quando ficamos numa situação dificílima no final de 1987. Mas a estética desagradava-me inteiramente, numa oposição sistemática aos primeiros e tímidos sinais que começariam a impulsionar-me na direção diametralmente oposta. Cansado das adversidades hostis da década de oitenta, comecei a perceber que havia uma chance de buscar-se uma reciclagem no que eu realmente amava, e assim, uma semente pequenina começou a germinar na minha mente, levando-me de volta às décadas de sessenta e setenta.

Tudo o que ocorreu depois desse início de retomada de posição, mais ou menos em 1988, foi crescendo e nos capítulos sobre os meus trabalhos avulsos, está contado a partir de 1990, assim como toda a trajetória do Pitbulls on Crack que só fez tal sentimento crescer, para explodir na trajetória do Sidharta, a partir de 1997, e posterior concretização desse sonho de resgate retrô, com a Patrulha do Espaço no pós 1999. Mas é importante assinalar : foi em 1988 que tal semente inicial começou a fazer-me sonhar novamente, resgatando meus ideais Rockers sedimentados nos anos 1970, quando iniciei minha trajetória na música. Portanto, é preciso esclarecer que o surgimento de uma pequenina semente, não faz com que o semeador possa animar-se, verdadeiramente e nesse caso, eu ainda não achava possível tal resgate, e pelo contrário, ainda vivia sob o sentimento amargo de que tudo o que amava havia sido destruído pela deflagração da bomba Punk e seus derivados radioativos posteriores.

Resignado em viver num mundo sombrio, cinzento e sem Jimi Hendrix; Beatles e ecos Woodstockianos, estava acostumado com a desolação oitentista que fazia com que o cenário parecesse o set de filmagem de "Blade Runner", com seus famigerados "Cyber Punks" e sua indecente rudeza e agressividade gratuita. Portanto, se o som dessa banda era estupidamente oitentista sob o prisma do Hard-Rock virtuosístico, era óbvio que eu sentisse-me contrariado. Eu queria mais é voltar para o The Who; Beatles e Rolling Stones, e não mergulhar em Yngwie Malmsteen e seus congêneres. Alheios a esses conflitos internos, os colegas nada tinham a ver com tais anseios meus, e naquela momento, eu não tinha nem meios de sair e ir buscar o meu caminho e a minha verdade, mas seria por pouco tempo, no entanto. Estávamos entrando em outubro de 1988, e em menos de um ano, tal resolução seria concretizada, enfim.

Matéria que escrevi para a Revista Rock Brigade, a convite de seu editor, Antonio D. Pirani, falando sobre baixo e baixistas. Meu foco era a velha guarda, naturalmente, mas claro que citei exemplos oitentistas pela preocupação em não ser anacrônico e principalmente nas páginas de uma revista que era focada no mundo do Heavy-Metal, prioritariamente

Daqui em diante, só fui ficando na banda para não deixar meus amigos sem apoio, principalmente o Beto, com o qual tinha uma dívida moral por tudo o que ele fez para manter essa banda de pé, e o mínimo que eu poderia fazer nessa altura, era dar-lhe o suporte que precisava para chegarmos pelo menos na gravação de um álbum, e pelo desencadear dos acontecimentos, estávamos perto de realizarmos tal feito.

Um dos vários motivos pelos quais aboli o apelido "Tigueis" em 1999, foi sem dúvida a questão dos muitos aborrecimentos que tive com tal grafia sendo constantemente publicada de forma errônea. Louvo a boa vontade do funcionário do Teatro Mambembe em datilografar a filipeta acima, mas sua falta de cuidado na digitação foi grande. "Tiguels" até  que soou bonito, parecendo sobrenome estrangeiro, mas faça-me o favor ! E no caso do Zé Luiz, a família Rapolli deve ter chateado-se por ser chamada de "Ramolle", que inclusive sugere um estilo de massa italiana, talvez... 

Uma nova investida no Teatro Mambembe, no dia 10 de outubro de 1988, seria não só a última vez dessa banda pisando nesse palco, mas também, a minha derradeira, na carreira. O fato, é que o velho Teatro estava sendo pressionado a vender suas instalações para a ampliação de um hospital / maternidade que era seu vizinho, o Santa Joana, famoso no bairro.

Foto mais atual da fachada do Hospital Santa Joana, na ladeira íngreme da Rua do Paraíso. O prédio envidraçado ao lado, era onde funcionava o Teatro Mambembe nos anos oitenta, e que depois tornou-se um anexo desse complexo hospitalar

Ouvíamos há meses os boatos de que o Hospital estava reclamando do barulho e aglomeração noturna, muitas vezes ultrapassando a marca de 500 pessoas que na entrada e saída dos shows, naturalmente faziam barulho, com inevitáveis manifestações de euforia da parte de muitos, ainda com a adrenalina de um show de Rock, a dar-lhes impulso. Mas pensando hoje em dia, creio que sim, devia haver um incômodo por tratar-se de um hospital, mas no fundo, tal reclamação era estratégia para pressionar os proprietários a ceder ao ímpeto do Hospital em buscar ampliação e foi inevitável, com o Teatro sendo vendido e rapidamente transformando-se num ambulatório anexo do seu complexo. A cidade de São Paulo perdia mais um palco democrático e honesto, tal como o saudoso Lira Paulistana e assim, artistas independentes e outsiders ficavam órfãos mais uma vez. Falando portanto dessa última vez em que toquei nesse teatro, ocorreu no dia 1º de outubro de 1988, como já havia dito, e nessa noite, dividimos o palco com os amigos do Viper.
Nessa altura, o Viper já não era aquela banda de garotinhos imberbes e havia amadurecido muito, não só na idade de seus componentes, mas como banda, propriamente dita. Cerca de 400 pessoas compareceram ao show, e isso era um pouco mais do que a capacidade total do Teatro, portanto, ótimo público, porém, acostumados que estávamos a superlotar, com ocasiões até em que havíamos levado mais do dobro dessa lotação máxima, consideramos o público dessa noite, apenas razoável, ora vejam só como os conceitos eram diferentes nessa época em relação ao panorama tétrico do ano de 2016, quando 50 pagantes num evento, é comemorado como um "triunfo"...
O nosso show foi no padrão normal do que estávamos habituados a fazer na época, sem grandes novidades.

Uma equipe de reportagem do programa jornalístico SPTV - 3ª Edição, da Rede Globo, filmou alguns trechos dos shows das duas bandas e colocou tal material no ar, no dia seguinte. Infelizmente, não tenho tal material disponível. Cerca de quinze dias depois, tínhamos mais uma oportunidade de apresentarmo-nos em São Paulo. E para promover tal espetáculo, fomos no dia 25 de novembro de 1988, novamente ao programa de TV,  TV Mix, da TV Gazeta, numa rápida inserção só para falar do espetáculo.
Estávamos escalados para tocar no "Dama Xoc", uma casa de médio porte que abrira em Pinheiros, na zona oeste de São Paulo.
Se por um lado perdíamos o Teatro Mambembe, havia o Dama Xoc e o seu concorrente no mesmo bairro, o Aeroanta, como casas de espetáculos de médio porte a suprir a necessidade de bandas desse patamar, sem chances de tocar em casas mais sofisticadas como o Olympia e o Palace, acostumadas a promover shows internacionais, mas ao mesmo tempo, sem relegar-nos ao limbo das pequenas casas sem estrutura. Contudo, ao contrário dos Teatros Lira Paulistana e Mambembe, para tocar-se no Dama Xoc e no Aeroanta, não era tão fácil assim. Havia uma burocracia e uma velada barreira que só poucos tinham acesso, portanto, quando surgiu a oportunidade, claro que comemoramos. Não seria no entanto, um show exclusivo nosso. Teríamos que dividir o palco e a noite com duas outras bandas, "Vodu" e "Viper". Sobre o Viper, eram velhos amigos e não haveria nenhum problema, e sobre o Vodu, apesar de nós não termos a mesma amizade, eu conhecia o seu baixista, André "Pomba" Cagni, e este era um rapaz extremamente gente boa e muito esperto em termos de envolver-se em produções.

André "Pomba" Cagni, baixista do Vodu, em foto mais atual, onde também atua na militância política e em questões de cidadania, além dos agitos culturais 

Tanto que logo a seguir, ainda em 1988, estava articulando mil coisas nos bastidores da música pesada underground e praticamente já podia-se dizer que paralelo à sua carreira artística como músico, ele era um produtor e empreendedor, pois abriu um espaço que transformou-se num mini Centro Cultural; articulou a criação de uma revista que durou anos nas bancas ("Dynamite"); passou a produzir shows e festas etc etc. De nossa parte, queríamos usar esse show para algo a mais, talvez numa das últimas tentativas de dar um salto, mas sinceramente, por tudo o que já explanei nesta particular história dessa banda, só se fosse algo muito restrito ao mundo do Rock pesado underground e adepto desse específico nicho dos apreciadores de virtuosismo, a semente embrionária do tal do Heavy-Metal melódico que infestaria a década de noventa, nesse mundo pesado.

E nesse sentido, o Beto quis trazer um elemento diferente para incrementar o show que seria filmado, e assim, convidou e preparou uma aluna sua de canto para fazer Backing Vocals. Essa garota chamava-se Marcinha e fico devendo o seu sobrenome que realmente fugiu-me. Lembro-me do Beto promovendo ensaios particulares com ela, ajudando-a e corrigindo-a em alguns aspectos, dias antes desse show. O fato, é que nessa época, eu não fazia Backing Vocals a contento, apesar do Beto insistir muito para a minha participação, aliás desde o tempo da Chave do Sol. Eduardo Ardanuy não esboçava vontade de cantar e de fato, só queria ater-se à performance de sua guitarra. Fabio Ribeiro fazia alguma participação, mas era tímida e o nosso baterista José Luiz Rapolli, apesar de ter um vozeirão grave de "locutor de FM", não arriscava-se. Portanto, com essa sua aluna, Beto queria ter um suporte, para não esgoelar-se tanto, desgastando-se nos shows, além de possibilitar o enriquecimento do som da banda. A Marcinha era gente boa, e apesar de não ser uma garotinha, mas já uma mulher feita, com vinte e poucos anos, acredito, não tinha experiência de palco alguma, e mesmo sonhando com essa oportunidade, estava bastante receosa.

Seu nervosismo pela situação toda, era compreensível. Seria seu primeiro show, embora não ficando exatamente na frente no palco, mas numa posição discreta, próxima ao praticável da bateria, portanto menos inibidora para alguém inexperiente. No show, ela não comprometeu, mas pelo vídeo, dá para notar que estava bem inibida. Tenho cópia desse show, e está nos planos lançá-lo no You Tube, um dia. Foi um show sem grandes novidades, correto musicalmente, e com performance boa da banda. 
Foto da banda no camarim do Dama Xoc, minutos antes de entrar em cena. Note leitor, que estamos com o visual de algumas fotos assinadas por Eric de Haas, que compuseram a capa do LP "A New Revolution", que só seria lançado dois anos depois. Acervo de Fabio Ribeiro

Aconteceu em 27 de novembro de 1988, no Dama Xoc e com presença de cerca de 400 pessoas no seu amplo ambiente rústico, com a proposta de todo mundo assistir os shows, em pé, sem maior conforto. Uma ocorrência mencionável, foi quando o Beto fez propaganda da camiseta que estávamos lançando, com a capa do LP The Key como estampa e reputo ser esse um dos maiores erros cometidos por essa banda, pois definitivamente, não éramos a continuidade da velha "Chave do Sol". Por sorte, tal acordo com um patrocinador não logrou êxito e desfez-se a seguir, confinando tais camisetas ao lote experimental de dez ou doze peças iniciais. Eu nem tenho uma camiseta dessas na minha memorabilia. No vídeo, o Beto faz uma brincadeira com nosso roadie na ocasião, César Cardoso, que era meu aluno e indicação minha para trabalhar conosco, já que tinha uma certa experiência, por ser primo de um dos membros da banda "Civil", com a qual trabalhou nessa mesma época mais ou menos. Ele, Cesar, aparece no vídeo subindo ao palco e exibindo a estampa da camiseta em questão.

Micro resenha do show no Dama Xoc, publicada na Revista Rock Brigade, em sua edição de nº 33

No dia 15 de dezembro de 1988, fomos no programa TV Mix, da TV Gazeta, para prover o último show do ano. E curiosamente, esse seria o último programa de TV que essa banda participaria em sua carreira. No dia seguinte, fizemos o último show do ano de 1988, no Black Jack Bar. Cerca de 350 pessoas compareceram, e apesar dessa super aglomeração para aquele diminuto espaço, tive um aborrecimento com a banda nesse dia.

Numa somatória de insatisfações que vinham crescendo em volume, mas como já salientei anteriormente, nada tinham a ver com as pessoas em si, mas com a situação toda que angustiava-me, nesse dia, saindo de meu padrão de tolerância zen budista e monástica habitual, irritei-me com uma questão prática do show em si. Como era sabido e já salientei aqui neste relato, o Black Jack Bar era uma casa de dimensões diminutas e tinha um equipamento de P.A.compatível com tal tamanho de instalações arquitetônicas, porém inadequado para suprir as necessidades de uma banda de Rock, ainda mais na nossa formação de quinteto, com a presença de teclados, além da guitarra; baixo e bateria. Portanto, não dava para tocar alto naquele palquinho, sob o risco de tornar o som, uma maçaroca incompreensível, anulando qualquer possibilidade de ouvir-se o vocalista, com um mínimo de inteligibilidade.
Nessa noite em específico, desde o soundcheck, a banda pareceu não estar disposta a fazer uma ferrenha dinâmica para tornar o espetáculo audível aos fãs e sob volume absurdo, começamos a tocar. 




Após três ou quatro apelos que fiz para que abaixassem seus respectivos amplificadores, sem nenhum esboço de que pretendiam ceder nesse quesito, tomei uma decisão radical, abaixando o meu amplificador ao patamar zero...
Inacreditável, mas não toquei quase todo o show na verdade, apenas digitando no instrumento mudo e mesmo assim, nenhum dos meus quatro colegas, notou a ausência do baixo, e nem mesmo ninguém do público !!

O volume era tão absurdo dos demais, que a ausência de um instrumento como o baixo, que naturalmente sobrepõe-se pelo seu peso amparado pelas frequências graves, passou-lhes batido completamente. Lógico que fiquei chateado com eles por não atenderem meus pedidos para fazer-se uma dinâmica estratégica que adaptasse-nos às condições sonoras inadequadas da casa. Mas também fiquei chateado por ter tomado tal atitude, que era desrespeitosa aos fãs que pagaram ingressos para assistir o espetáculo. Ponderei isso na hora, é claro. Mas meu impulso de fazê-lo, também baseou-se na constatação de que para o bem dos próprios fãs, um instrumento a menos, poderia contribuir para dar-lhes um show melhor no aspecto do áudio. Além do mais, o fato de eu ter tocado digitando verdadeiramente, mas sem som no amplificador, despistou qualquer possibilidade de alguém achar a minha postura desrespeitosa. Se tivesse cruzado os braços, ou simplesmente abandonado o palco, aí sim, seria uma afronta ao público e à própria banda, e claro que jamais o faria. Por fim, analisando pelo aspecto emocional, certamente que esse meu protesto velado representou a minha insatisfação com esse trabalho, e mais uma vez reitero, não era nada contra as pessoas em si, embora nesse dia eu tenha irritado-me com a teimosia de todos em tocar muito alto, mas principalmente porque eu estava sobrando ali, com aquela sonoridade / estética que não apreciava, definitivamente. 

Assim encerrou-se 1988, um ano muito difícil na minha carreira, pelos acontecimentos terríveis que acometeram-me no final de 1987, obrigando-me a tomar um rumo que eu jamais quis ter tomado, mas lutando muito para não deixar a casa cair.
Hoje em dia eu penso que nada disso deveria ter acontecido, por um aspecto : o mal entendido que precipitou o fim da Chave do Sol poderia ter sido contornado mediante uma conversa alguns dias depois daquela tensa reunião onde o impasse levou à extinção da banda. Muito provavelmente a banda poderia ter continuado sua trajetória sem prejuízos, inclusive com a volta de nosso baterista, José Luiz Dinola, que já havia desistido da ideia maluca de abandonar a música. Todavia, o pior cenário possível manteve-se e sem saída, tivemos que montar uma banda às pressas, por conta da necessidade premente de vender discos. Indo além, estávamos desesperados e não havia outra alternativa.

Foto promocional clicada na residência do fotógrafo/amigo Carlos Muniz Ventura, na Vila Pompeia, zona oeste de São Paulo, em 1988

Mas no fim do ano, embora ainda houvessem muitas dívidas a serem pagas, era claro que essa banda não tinha nada a ver com a velha Chave do Sol, portanto, suas receitas não poderiam servir para pagar as dívidas de uma outra banda, a não ser pela disponibilização de minha parte, e do Beto Cruz, além da venda de cópias do LP The Key, naturalmente.


Então, pelo simples fato de ser outra banda com outro trabalho distinto, e sem levar em consideração o fato da emergência causada pelo final abrupto da velha Chave do Sol como principal agente motivador de sua criação, tal banda na minha trajetória estava pesada emocionalmente falando, pelo fato de não estar apresentando resultados artísticos e / ou financeiros interessantes, e pior, não dar-me grandes perspectivas para médio ou longo prazo.
Resumindo : era um som que eu não gostava; não estava justificando-se pelos seus parcos resultados financeiros e / ou artísticos, e não esboçava apresentar perspectivas de melhora para o futuro, em 1989, que batia à porta. Diante desse panorama, eu tinha poucas coisas a comemorar nesse ano de 1988, em relação à essa banda :

1) A sobrevivência heroica após uma hecatombe, e o mérito por essa sobrevida era todo do Beto Cruz, que lutou como um leão para não deixar a chama apagar;

2) A boa vontade de uma parcela muito grande dos fãs da velha Chave do Sol que mesmo sem compreender corretamente o que ocorrera-nos, apoiou essa nova banda, e estendo tal observação à uma grande parcela dos jornalistas especializados;

3) O espírito de cooperação dos novos membros agregados, Edu; Fabio e José Luiz Rapolli, e incluo Theo Godinho, mesmo que este último tenha tido participação meteórica nesse processo.

O ano de 1989 estava chegando, e apenas dois fatos novos para esse ano novo, poderiam segurar essa banda unida e com certo comprometimento mútuo : um disco e uma perspectiva que ocorreria em breve, mas que ainda não era conhecida no final de 1988.

Continua...    

10 comentários:

  1. EXCELENTE resenha!!! Voltei no tempo! Quanta emoção!

    Conheci a banda Chave ao vivo na noite do dia 28/01/1988, uma quinta-feira (já conhecia o som/disco antes dessa data), na praia da Enseada no Guarujá, SP, Projeto Verão Vivo, por acaso, passando férias escolares na praia, quando já curtia heavy metal, mas nem sabia quem iria tocar naquela noite. Aliás, no ano de 1988 fui em TODOS os shows da Chave em SP!!! Sem exceção! Teatro Mambembe, Black Jack Rock Bar, Dama Xoc, Projeto SP, Programa Boca Livre, Centro Cultural de SP, Clube dos Aeroviários etc. Uma curiosidade: no show no Clube dos Aeroviários em SP, região do Aeroporto de Congonhas, no dia 17/09/88, um sábado frio, fui por causa do VIPER quer era a grande sensação do momento, e por causa da CHAVE, mas principalmente por causa do EDU (mas isso já vou contar). O local não estava cheio, tinham espaços enormes na platéia. Lembro-me do Paulão, baterista do Centúrias, xingando e gritando, chutando um dos bumbos da sua bateria, dizendo: "vamos agitar, porra! Cadê os headbangers desse lugar!!!" Algo assim. O Viper tinha músicas contagiantes, mas os garotos, na época, tocavam mal ao vivo, e o baterista VALDER SANTOS (VALDÉRIO) era muito ruim!!! O Rhpasody era uma superbanda! Músicos excelentes, e o vocalista Fernando tinha uma voz poderosa, alcançando altas notas. Em outras palavras, gritava pra cacete! E a Chave deu um show à parte, pois era a banda MAIS TÉCNICA da época; de nível internacional. O único "problema" da nova Chave era que as músicas não "pegavam", não "colavam", eram na sua maioria chatas de se ouvir. Sem grande empolgação. Se valia mais da técnica apurada de seus músicos do que da criação musical. A Chave de Sol, na formação anterior, tinha uma pegada mais rock e mais consistente, dava gosto de ouvir. Outro "problema" é que o EDU "MALMSTEEN" ARDANUY, que acabei conhecendo (ele morava no bairro de Santana, SP, na época), que aliás foi quem completou com R$ 3,00 faltantes o dinheiro da entrada para mim (isso porque Cz$ 700,000 equivaliam hoje a R$ 7,00. Fui a esse show do Aeroviários só com o dinheiro do ônibus - ida e volta - eu tinha 16 anos, na época - e mais R$ 4,00 nos dias de hoje). Ele estava na porta e puxei conversa com ele. Acreditem! Mas eu estava dizendo que o outro "problema" da nova Chave, com a nova formação, é que o EDU era um fenômeno de músico, único para a época (tinham outros grandes guitarristas rock, é claro, como o Theo Godinho da Chave, que foi professor do Edu, Zé Luíz, "Xinho", da banda Spitfire, Michel Perié da banda Jaguar, Joe Moghrabi da banda Proteus, Robertinho do Recife da banda MetalMania, Wander Taffo da banda Rádio Táxi etc.), mas ele era um SHOW À PARTE. Brilhava demais e "apagava" os outros músicos, se me permitem dizer assim. Eu, como fã, falando na perspectiva de fã, e os demais fãs que eu conhecia, queriam ver o EDU e não a Chave! O Edu era o cartão postal. No mundo rocker, underground, todos só falavam no Edu, no tal jovem guitarrista que entrou na Chave, num cara que tocava como o sueco Malmsteen que explodiu no mercado musical 4 anos antes, que era a febre do momento, juntamente com o americano Vinnie Moore, em meados dos anos 80. Guardadas as devidas proporções, as pessoas iam ao show da Chave para ver o EDU, e não para ver a Chave em si. Essa era a verdade! (continua...)

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    1. Olá, Sandro !

      Mas que comentário rico em detalhes e acredite, minha autobio enriquece-se quando comentários vindo de leitores com tal teor são postados como esse seu.

      Sua análise é mais que uma visão vinda de outra pessoa, mas impressionante como em muitos aspectos corrobora a minha lembrança pessoal dos fatos, como componente da banda enfocada neste capítulo.

      De fato, foi isso mesmo o que disse, ou seja, quando Edu Ardanuy (e Fabio Ribeiro, também, eu acrescento),entraram nessa banda, o direcionamento que ela adotou foi todo calcado para privilegiar os solos quilométricos. A sua percepção em dizer que as músicas não tinham grande apelo pop que prendessem a atenção do público, procede, justamente pelo fato inquestionável de que eram meras peças concebidas para dar vazão aos longos solos de ambos e principalmente do Edu.

      Portanto, fico feliz de ouvir de um fã desse trabalho que acompanhou com bastante atenção ( e impressionei-me com a quantidade de shows que assistiu dessa banda, conforme relatou com precisão sobre locais e datas), que a minha percepção pessoal sobre o que foi esse trabalho, não era só uma impressão minha por ser um estranho no ninho ali, visto que nunca gostei de Heavy-Metal, mas nem entre apreciadores dessa escola, escapava a ideia de que tudo girava em torno da necessidade de fazer o Edu brilhar além da conta para um trabalho de grupo, mais parecendo uma carreira solo dele, com músicos de apoio a lhe dar suporte.

      Sendo assim, se já tinha muitas contrariedades sobre o direcionamento pesado e oitentista desse trabalho, imagine numa circunstância assim tão desfavorável. Desta forma, meu relato fica amplamente lastreado com o seu adendo.

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  2. Continuação...

    Apesar disso, o som não emplacava, não agradava. Se a Chave tivesse tido um guitarrista com a veia mais rock/blues, como era o caso do RUBENS GIÓIA, menos virtuoso e técnico, menos estrela, no sentido de destaque, porque como pessoa o Edu era simples e amigável, teria existido até hoje, acho eu. Enfim, o EDU OFUSCAVA a Chave.
    De qualquer forma, foram épocas boas para mim, época em que os shows eram baratos, o rock nacional vivia do boca a boca, dos flyers feitos em máquina de escrever, caseiros, dos fanzines impressos, da venda de discos e fitas K-7, tinha seu público fiel, tanto que em plena SEGUNDA-FEIRA, o Teatro Mambembe, no Paraíso, SP, por exemplo, abarrotava de gente; e eu estava lá toda segunda!!!

    Tigueis, seu blog é excelente, pois é escrito com a ALMA e com o CORAÇÃO; com riqueza de detalhes. Nos faz viajar no tempo (para àqueles que viveram nesse tempo, como eu).

    Um abraço,

    Sandro Molina

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    1. Respondendo a continuação de seu ótimo comentário, eis aí mais um fato claro sobre como eu não considero essa banda uma continuação da velha Chave do Sol.

      Apesar da velha Chave do Sol ter se aproximado do Hard-Rock e do Heavy-Metal oitentistas em um momento da sua carreira, isso não caracteriza exatamente o teor do nosso trabalho, que era muito mais afeito, com cômputo geral, à escolas clássicas do Rock setentista, com o Jazz-Rock na linha de frente.

      Portanto, como você bem observou, o Rubens Gióia era o guitarrista mais adequado para esse trabalho, com escola sessenta-setentista, forte influência de Jimi Hendrix; Alvin Lee; Johhny Winter etc etc.

      Dessa forma, A Chave / The Key nasceu com outra mentalidade completamente diferente e, infelizmente, fora de minha influência pessoal, pois como deixei claro no texto da minha autobio, vivendo momentos dramáticos sob o ponto de vista emocional e na questão financeira, vi-me sem forças para impor ideias de direcionamento artístico e quando me dei conta, o som era esse, gostasse ou não...

      Sobre o que disse na sequência, está coberto de razão. Havia uma cena underground pulsante nessa época e mesmo com toda a precariedade logística que enfrentávamos pela falta de recursos, não necessitávamos de muitas coisas para lotar teatros, pois havia um público muito ativo. Portanto, para não dizer que não enxergo nada de positivo na década de oitenta, digo que sim, tenho admiração por haver nessa época muito mais interesse por parte das pessoas, isso é um fato.

      Hoje temos a fantástica ferramenta da Internet à nossa disposição, mas também poucos lugares para tocar; não se vendem mais discos e os shows, raros, vivem vazios, com pouca gente que se dispõe a comparecer embora nas redes sociais todos digam que irão estar presentes...

      Por fim, estou muito feliz pela sua participação e elogio ao final. Fico muito gratificado por saber que gostou do Blog e da minha redação autobiográfica, e assim, deixo-lhe o convite para ler os outros capítulos em que relato minha trajetória com outras bandas por onde passei,esperando que aprecie, igualmente.

      Grande abraço, amigo Sandro Molina !!

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    2. Tigueis,

      A Chave do Sol no formato power trio fez história/escola e depois com 4 integrantes era muito boa (eu só gostei do BETO nos vocais, os demais não!)!!! Pena que ficaram apenas os vídeos e a memória de quem viveu essa época. Porque tenho certeza de que se a banda não tivesse cindido talvez estaria até hoje na ativa e com todos juntos!!!

      Mas, na minha fé cristã, as coisas acontecem da maneira que Deus quer e permite, e no seu devido tempo. O que há de ser, será! O que era pra ser, foi! Nada se pode acrescentar e nada se pode subtrair.

      O Edu se consagrou como "guitar hero" brasileiro (merecidamente), por mais que eu ache todos eles CÓPIAS do pioneiro e único no estilo: Yngwie Malmsteen! O Fábio Ribeiro nem sei o que está fazendo. E o José Luiz Rapolli estava/está no Pink Floyd Cover.

      Só você que não sei o que está fazendo? (o Pedra era uma grande banda!).

      Abraço!

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    3. Olá, Sandro !

      A Chave do Sol teve várias fases num curto espaço de tempo, cinco anos de existência. Mas sem dúvida que duas dessas fases distintas são as mais festejadas pelos fãs do trabalho : a fase do trio que apareceu por cinco vezes no programa "A Fábrica do Som" entre 1983 e 1984, e a partir do final do ano de 1985 até o seu final em 1987, como um quarteto Hard-Rock oitentista, tendo Beto Cruz no vocal.

      Observei isso bem no texto dessa banda, e também fiz minhas conjecturas sobre as variáveis que poderiam ter nos favorecido a prosseguir,vencendo nossas diferenças e administrando assim as crises internas. Sim, também acho, a banda poderia ter durado mais e ter escrito uma história mais robusta, incluso com o lançamento de mais álbuns etc etc.

      Tanto que ao longo da história desta outra banda chamada A Chave e que posteriormente mudou de nome para "The Key", certamente ficou claro que lastimo que a velha Chave do Sol tivesse tido final abrupto e nos obrigado a criar A Chave / The Key numa questão emergencial.

      Sobre o que eu faço atualmente, é só seguir lendo os demais capítulos desta autobio, meu amigo. Depois do Pedra (grato pelo elogio à esse trabalho !!), vieram mais três bandas e duas das quais eu ainda sou membro e numa delas, estou gravando um EP neste momento de 2016.

      Falo sobre Os Kurandeiros, banda de Rock e Blues, liderada pelo guitarrista Kim Kehl. Também sou da banda de apoio do cantor / compositor Ciro Pessoa, chamada Nu Descendo a Escada.

      E também tenho uma intensa atividade como escritor e blogueiro, sendo colaborador de muitos Blogs, duas revistas impressas e mantenho três Blogs próprios, sendo este, o número 3, exclusivo para tratar da minha autobio na música.

      Super feliz com sua leitura e intervenções, um grande abraço !!

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  3. Luiz, parabéns pela biografia, muito bom de ler, riquíssima em detalhes.
    O show da Estação Brás em 30/04/1988 foi postado pelo Tiberio em seu canal do YouTube, segue o link:

    https://www.youtube.com/watch?v=2upQ3263Y-c

    Qual música do The Key foi executada nesse show, só reconheço a intro "Welcome"!?
    Obrigado por compartilhar histórias tão boas.

    Abraços.

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    1. Mas que sensacional esse adendo que ofertou-me !!

      Maravilha !! Em tempos de autobiografia, todo o material raro que surge é de fato um tesouro de valor inestimável para compor esse enorme quebra cabeças de tantas lembranças, dados e citações de pessoas, datas e situações.

      Desde a época, o Tibério fala-me que tinha essa filmagem e dizia que faria uma cópia, mas isso não aconteceu, de fato. Fico imensamente feliz, portanto, em saber que ele tomou a providência de postar tal material no You Tube.

      Vou examinar e assim que possível respondo-lhe sobre o set list das músicas desse show. E também tomarei as devidas providências para incorporar o link aos blogs.

      Agradeço-lhe efusivamente por tal indicação e estou muito feliz por saber que está lendo o texto autobiográfico e apreciando as histórias arroladas.

      Grande abraço !!

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    2. Olá, amigo !

      Respondendo a sua pergunta, a participação da Chave nesse vídeo postado pelo Tibério tem de fato a vinheta "Welcome" que costumava abrir os shows dessa banda, e a segunda canção chama-se "We Hear the Call".

      Mais uma vez agradecido pelo inestimável apoio !!

      Abração !!

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    3. Boa tarde.

      Já suspeitava que seria "We Hear The Call", porém está um pouco diferente da versão do álbum.
      Se me permitir, neste domingo onde faz 29 anos desta apresentação, gostaria de postar em meu canal o vídeo com esta apresentação de vocês, colocando na descrição o link com os 4 capítulos da história da The Key e o link com a apresentação completa de todas as bandas neste evento. Ah, e futuramente gostaria de postar Pitbulls on Crack também! rs

      Abraços.

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