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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Chave / The Key - Capítulo 4 - Reconhecimento; Consideração & Respeito - Por Luiz Domingues



Eu já estava em outra sintonia há meses, envolvendo-me em vários projetos musicais novos e simultâneos, principalmente a partir do segundo semestre de 1990 (tudo contado com detalhes nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos"), quando no início de outubro de 1990, recebi um telefonema do Beto Cruz. Ele queria comunicar-me que finalmente o Chicão, da loja / selo Devils Discos, sinalizara que o disco "A New Revolution", do "The Key", havia chegado da fábrica, e que começaria a trabalhar sua divulgação; distribuição, e que a banda poderia fazer sua parte, fazendo shows de lançamento.

 -"ótimo, legal, muito grato por avisar-me, parabéns e guarde minhas cópias de recordação, que eu pego assim que possível"... respondi-lhe. Mas ele tinha algo a pedir-me além desse comunicado. Segundo contou-me, quando soube que o disco sairia, marcou dois shows numa casa noturna chamada "Woodstock"(localizada na rua da Consolação, perto da Avenida Paulista), para serem os shows oficiais de lançamento, e que a nova banda que havia montado, estava toda animada e ensaiada, mas em cima da hora, o baixista que entrara no meu lugar, um rapaz chamado Hermes (havia sido baixista de uma banda de Heavy-Metal oitentista chamada "Sabotagem", e que havia aberto shows da Chave do Sol no Teatro Lira Paulistana, no ano de 1985), tinha abandonado a banda, seduzido por um convite de última hora que sinalizara um cachet melhor...
Ora, com tudo marcado, mesmo sabendo que eu já estava em outra sintonia há meses, e que não gostava daquela sonoridade, não tinha como pensar em recorrer a outro baixista com o pouquíssimo tempo de antecedência que tinha para cumprir tais datas. Nem precisava pedir duas vezes, pela amizade e total consideração ao fato de que ele era o responsável por ter mantido a chama acesa, desde a dissolução abrupta e sofrida da nossa Chave do Sol, claro que comprometi-me a colaborar. Apesar de ter esquecido aquele material, bastou um audição para eu retomar tudo e não seria por falta de um baixista que sua nova e renovada banda deixaria de apresentar-se dignamente, e fazer o lançamento do disco. Então, foi uma das situações mais bizarras da minha carreira, pois eu fui tocar como convidado de uma banda que eu não pertencia, mas havia sido membro de sua, digamos, "encarnação anterior", mas que reformulara-se inteiramente e até um novo nome tinha, e que por sua vez, em sua origem, havia sido uma banda montada emergencialmente para suprir as necessidades inadiáveis de uma banda recém dissolvida, chamada A Chave do Sol...era para dar um nó na cabeça de qualquer um...

Bem, a nova formação dessa "The Key", na verdade rebatizada pela terceira vez como "A Chhave" (assim mesmo, com dois "H"...), consistia de Beto Cruz, como único remanescente original d' "A Chave" de 1988; Pedro Loureiro (que pouco tempo mais tarde ficaria conhecido no mundo do Heavy-Metal, como "Kiko" Loureiro, guitarrista do "Angra", e hoje em dia, membro da banda americana, "Megadeth"); Gustavo Winkelmann, baterista (ex-aluno e roadie de Ivan Busic); e Marcelo Castilha, nos teclados.
Eu já tinha compromisso no Rio de Janeiro para tais datas, mas o Beto ofereceu-me um arranjo no qual não perdi meu apontamento, viajando de ponte-aérea após o segundo show, quando normalmente faria o trajeto usando ônibus.

Rara foto desse show de outubro de 1990, de autoria desconhecida, mas que uma amiga minha da época, Índia Dias, que era amiga da namorada do Edu Ardanuy, disponibilizou-me via Facebook

Bem, toquei nos dias 5 e 6  de outubro de 1990 (com público respectivo de 70 e 150 pessoas presentes), ajudando meu amigo Beto e seus novos colegas, e certamente confundindo a cabeça de muitos fãs ali presentes com minha inesperada presença naquele palco. Foi bastante estranho estar ali naquelas circunstâncias, por tudo o que já expus, naturalmente.

O jovem e então desconhecido, guitarrista, Pedro "Kiko" Loureiro", outro menino prodígio que o Beto descobriu e projetou para o Rock brasileiro, mais detidamente no mundo do Rock pesado 

Mas também foi prazeroso poder ajudar o Beto e seus novos companheiros, sem dúvida alguma. Sobre essa turma, não tenho grandes lembranças por um convívio tão curto. Eu só conhecia muito superficialmente o baterista Gustavo, por vê-lo em algumas ocasiões acompanhando o Ivan Busic, com quem estudara e trabalhara, mas nunca havíamos conversado. Pareceu-me na hora que tinha uma boa técnica e poderia crescer como músico.
Sobre o tecladista Marcelo Castilha, no pouco que conversamos, ele disse-me que aquele som não era a sua "praia", e que sua formação era mais jazzistica, em princípio.

E sobre o Pedro "Kiko" Loureiro, pareceu-me muito determinado do que queria na vida, e sendo ainda mais jovem que o Eduardo Ardanuy, quando este entrou naquela "A Chave", de 1988, demonstrava também uma técnica impressionante, e totalmente calcada em guitarristas virtuoses da egrégora de Yngwie Malmsteen, Steve Vai e congêneres. Na sua performance.mostrou uma postura de palco frenética, assemelhando-se ao Eddie Van Halen, correndo e pulando o tempo todo, demonstrando condição atlética, diferente do Edu que era bem comedido nesse aspecto, tocando parado, focado no instrumento. Bem, para os propósitos da banda e no intuito de dar continuidade àquele trabalho, que era o projeto do Beto, creio que mais uma vez ele descobrira um garoto prodígio para suprir tal necessidade de alto grau de excelência técnica. Outro fato, o Beto havia mudado seu nome artístico, aliás saíra grafado assim no LP "A New Revolution", cuja capa só fui conhecer ali nos bastidores da casa de shows "Woodstock". Agora, ele assinava como Roberto Malltauro, suprimindo o Cruz, sobrenome do pai. Malltauro segundo contou-me, era sobrenome da avó materna, e a troca de nome atendia a orientação de uma numeróloga que consultara. Aliás, a banda também não era mais "The Key", mas "A Chhave", assim com dois "H", também por obra da orientação dessa estudiosa. Um poster dessa nova fase da banda, com tais membros e nome renovado, chegou a ser publicado na Revista "Rock Brigade", em 1990, mas logo de início, o baixista já havia saído, sem ao menos ter feito um show sequer.

O poster citado acima, mostrando a derradeira tentativa do Beto em manter a banda na ativa, com formação inteiramente renovada e até com mudança ortográfica no seu nome, publicado na Revista "Rock Brigade", em 1990. Da esquerda para a direita em pé : Hermes; Pedro "Kiko" Loureiro; Marcelo Castilha, e Gustavo Winkelmann; Sentado : Beto Malltauro (Cruz) 

Tais agruras não diziam-me mais respeito, é claro, mas eu torcia para o Beto obter sucesso, pois sabia de sua luta que eu achava extraordinária, e certamente que ele merecia ter chegado a algum lugar melhor. Não sei dizer o que aconteceu-lhes detalhadamente após esses dois shows que cumpri a título de ajuda fraternal. Sei apenas que logo após esses shows de lançamento do LP "A New Revolution", ainda no final de 1990, o Beto recrutou um novo baixista para ser membro definitivo, chamado Carlos Zara Filho, que era conhecido como "Zarinha", e era filho do famoso, e já falecido ator, Carlos Zara. Mas logo a seguir, essa banda dissolveu-se definitivamente, e ele, Beto, mudou-se para os Estados Unidos em 1991, onde passou a viver desde então.

No meu caso, o fim havia sido ainda em 1989, com minha saída após a gravação do LP "A New Revolution", e essa participação em 1990, fora meramente ocasional, sem vínculos profissionais, e apenas por amizade. Portanto, dou por encerrada a história dessa banda surgida nos primeiros dias de 1988, e que na sua curta trajetória, teve poucos momentos bons, mas que apesar das diferenças e incômodos inerentes, fica na minha memória como um exercício de luta pela sobrevivência e respeito pelas pessoas que dispuseram-se a tentar manter uma chama acesa. 

Eis o link para ouvir tal álbum, "A New Revolution", em sua versão integral, no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=ZWpSUkxbthY




A seguir, faço as últimas considerações...

 

Como foi amplamente explicado desde o início deste específico capítulo, "A Chave" / "The Key" / "A Chhave", uma banda com três mudanças de nome em sua curta trajetória, nunca foi a continuação natural da Chave do Sol como muitos acreditam.
Ela nasceu sim, das cinzas da Chave do Sol, mas por pura necessidade proveniente de uma situação dramática, onde por um lado, a súbita e triste dissolução da velha Chave do Sol mostrou-se implacavelmente incontrolável para seus membros remanescentes (eu, Luiz Domingues; Rubens Gióia, e Beto Cruz), e por outro lado, havia o lançamento do disco "The Key" para ser trabalhado enquanto divulgação, mas bem pior que isso, dívidas pesadas para administrar-se, contraídas pela produção do disco, e com a qual não tivemos apoio externo algum.

Portanto, nesse cenário dramático, não havia outra solução a não ser montar uma banda em caráter de emergência, para suprir compromissos inadiáveis que a Chave do Sol já tinha firmado, e a duras penas, fazer a divulgação do disco que fora lançado poucos dias antes da discussão que fulminou a banda, de forma triste. O ideal, reitero, teria sido nós conversarmos dias depois dessa fatídica reunião tensa, e com a cabeça mais fria, termos colocado os nervos no lugar e dado prosseguimento à carreira da Chave do Sol, normalmente. Muito provavelmente teríamos inclusive a volta do nosso baterista original, José Luiz Dinola, que havia anunciado saída da banda no início do segundo semestre de 1987, mas que no fim desse mesmo ano, já havia desistido da ideia de estudar odontologia e abandonar a música. Essa teria sido a melhor das soluções para a crise que nossa banda atravessou no final de 1987, mas infelizmente não foi o que ocorreu.

Rompidos com nosso cofundador, Rubens Gióia, e sem nenhuma possibilidade de cogitar não cumprir os compromissos firmados e divulgar e vender desesperadamente o LP The Key, eu e Beto não tivemos alternativa. Quando comecei a escrever a minha autobio, em junho de 2011, ainda usando a plataforma da saudosa Rede Social Orkut (numa comunidade chamada "Luiz Domingues", aberta pelo meu amigo, Luiz Albano), minha proposta foi a de escrever tal relato focado em capítulos exclusivos dedicados a cada trabalho que fiz na minha carreira. E no caso específico da Chave do Sol, sabia desde o início que essa etapa final, onde teria que descrever seu final abrupto e triste (e consequente início de atividades forçadas de uma outra banda com outro nome, mas gravitando em sua órbita, então denominada "A Chave"), teria que ser muito claro na narrativa, e tomar muitos cuidados para não magoar ninguém. Isso porque é óbvio que o Rubens Gióia; eu, Luiz Domingues, e Beto Cruz, saímos muito magoados dessa história, e mesmo tendo resgatado a nossa amizade, ele, Rubens, ainda acha que a formação dessa nova banda foi um ato de traição de minha parte, e do Beto. E da parte do Beto, e estendendo aos três componentes que fizeram parte dessa nova banda formada em 1988, poderia ficar a impressão de que eu desprezo essa banda chamada "A Chave". Portanto, tomei todos os cuidados para deixar claro os motivos dessa banda ter sido formada, para que os fãs do trabalho da antiga Chave do Sol e principalmente, o Rubens Gióia, saibam que jamais quis que ele fosse substituído por outro guitarrista, e indo além, jamais quis que A Chave do Sol terminasse um dia, aliás, pior ainda do jeito que aconteceu.
E para o Beto; Ardanuy; Ribeiro; e Rapolli, que minha contrariedade com o trabalho dessa nova banda formada em 1988, era meramente estética, e que jamais teve algo de ordem pessoal com qualquer um deles.

No caso do Beto, muito pelo contrário, sou-lhe eternamente grato pela sua luta; determinação, e forte poder de iniciativa, para num cenário de hecatombe nuclear, sair correndo para buscar salvação, quando a reação normal da maioria das pessoas nessa situação, seria a de apenas resmungar pelos cantos, lamuriando e chorando o leite derramado. Portanto, realço a força de vontade e garra do Beto Cruz, que reputo ser o grande artífice da criação desse trabalho, fazendo-o ter vida; visibilidade; notoriedade e também credito-lhe o descobrimento de três talentos jovens que após essa passagem pela banda, cresceram uma barbaridade nas suas carreiras, individualmente falando : Eduardo Ardanuy; Fábio Ribeiro, e Pedro "Kiko" Loureiro, sendo este último citado, numa etapa em que eu nem estava mais presente na formação da banda.
De fato, o Beto tinha / tem talento como "garimpeiro de talentos", e poderia até ter colocado-se no mercado musical como executivo de gravadora, ou mesmo um "manager", para ganhar dinheiro nessa específica função, que requer um talento quase extra sensorial, eu diria. Sobre a banda, acho que ela cumpriu sua função inicial que era de suprir necessidades prementes.

Posteriormente, quando assumiu-se como um novo trabalho e buscou sua identidade, pecou por vários motivos e escolhas a meu ver. Faço a minha mea culpa, é claro, pois nada fiz para exercer minha influência para coibir aspectos que desagradavam-me, mas não querendo justificar, mas apenas constatar, não era o momento para eu forçar mudanças que aproximassem-me do que eu realmente gostaria de fazer como estética artística. Não havia clima algum para propor uma guinada para sonoridades sessenta / setentistas em 1988, e apesar de eu estar começando a ter vontade de voltar às minhas raízes, naquela época em específico, isso ainda não era forte o suficiente dentro da minha realidade, e principalmente pelo ambiente externo que era totalmente avesso, é claro. Fora isso tudo, meus novos colegas jamais aceitariam tais ideias, pois sua mentalidade estava em outra esfera, pura e simplesmente.

E por fim, a "situação financeira da época versus dívidas", não permitir-nos-iam devaneios estéticos. O negócio era tocar o máximo possível, promover o novo trabalho e vender o disco The Key, que nem pertencia diretamente à essa banda, mas era a única forma de livrar-nos de dívidas contraídas para que ele, o próprio LP, pudesse ter sido lançado. Portanto, era uma condição estranha e muito incômoda. Pelo aspecto da exposição pública, esse novo trabalho gerou inúmeras confusões, é claro. Para muitos fãs e jornalistas, tal banda foi a continuação simples da Chave do Sol, mas isso não era correto. Tal confusão também só serviu para acirrar melindres, e isso entristece-me até hoje, é claro.

Portanto, quando comecei a escrever a autobiografia, tomei a decisão de separar os respectivos capítulos, para firmar na história a clara divisão que existe entre uma banda, A Chave do Sol, e a outra, A Chave / The Key. Para efeito biográfico, lamento ter poucas fotos desse trabalho, por isso a escassez de opções para ilustrar os capítulos. Foram poucos shows entre 1988 e 1989, e também não muitas peças de portfólio. Conforme descrevi nos capítulos, também foram poucos os momentos felizes que tive, ou ocorrências amenas e divertidas, pois além de eu não ter afeiçoado-me ao trabalho, o clima nesses meses era mais de apreensão pelas dívidas contraídas, portanto, minha visão desse trabalho é mais taciturna, aliás, foi o trabalho mais sombrio sob esse aspecto, da minha carreira. Isento os companheiros dessa jornada de qualquer culpa nesse processo, é claro !!

É bastante controverso o resultado sonoro do LP "A New Revolution", não só pela estética adotada, mas pelo áudio que foi bastante prejudicado pela mixagem, que achatou os instrumentos, para privilegiar os solos de guitarra. De minha parte, não posso queixar-me, pois tão aborrecido que estava por não gravar da forma que desejava, fazendo minhas linhas de baixo livremente, não acompanhei as sessões e assim, moralmente falando, não tenho o direito de reclamar a posteriori, contudo, o resultado é decepcionante, a meu ver. Todavia, vendo pelo lado heroico com o qual o Beto Cruz tanto lutou para isso ser alcançado, é uma conquista, é claro. Não tenho absolutamente nada contra os companheiros dessa jornada e pelo contrário, agradeço-lhes muito por terem aceitado a proposta insalubre que o Beto fez-lhes de segurarem um explosivo nas mãos, naquele início de 1988...
Agradeço-lhe também pelo esforço em dar dignidade para essa banda nascida em condições tão inóspitas, tão inadequadas pelas circunstâncias. 


Apesar de tudo, acho que o esforço de todos valeu a pena, e fico contente por verificar que eles demonstram carinho por esse momento de suas carreiras, em entrevistas que concedem na mídia, e que de certa forma, foi o estopim de suas carreiras, caso dos mais jovens na ocasião, Edu e Fabio, e mesmo numa situação posterior até à minha participação, de Kiko Loureiro. E ao Beto, principalmente, por ter sido a força motriz dessa banda. Hora de falar de seus membros e de agregados que gravitaram na sua órbita.

Falando sobre quem apoiou essa banda...
Claro que por ter nascido das cinzas da Chave do Sol, infelizmente diga-se de passagem, muitas pessoas que eram apoiadoras da antiga banda extinta, deram seu apoio à essa nova banda criada.
 

Sou grato portanto a Carlos Muniz Ventura, que entendeu perfeitamente as circunstâncias com as quais ela foi criada, e continuando normalmente sua amizade com Rubens Gióia, soube entender e separar as divergências que separaram-nos e assim  acompanhou a trajetória curta desta nova banda, e participou, fazendo fotos promocionais, e até catálogo para patrocinador, caso do poster para a Revista "Rock Brigade", com propaganda da luthieria "Tajima" (cujo set fotográfico foi sua própria residência no bairro da Vila Pompeia, na zona oeste de São Paulo).

Eduardo Russomano, que muito ajudou-nos nos momentos iniciais e dramáticos, e que por ter sido roadie e colaborador da Chave do Sol, compreendeu bem a situação que precipitou a criação dessa nova banda.

Ricardo C. Aszmann, nosso colaborador e amigo no Rio de Janeiro, que comprou essa luta, e muito apoiou-nos. Grato por tudo, incluso as tentativas em 1989, quando eu mesmo já estava praticamente de saída, mas ele acabou acompanhando-me pessoalmente a fazer contatos no Rio e Niterói, visando shows e entrevistas (até no escritório da "Artplan", levou-me).

Chicão, o dono da loja / selo Devil Discos, que acreditou nesse trabalho e foi muito prestativo na produção do LP "A New Revolution". Ele era inexperiente na ocasião como produtor, mas foi de um entusiasmo e força de vontade exemplar, não medindo esforços para colocar nas prateleiras o melhor resultado possível e dele, não tenho queixa alguma, e pelo contrário, só tenho elogios e guardo um pequeno constrangimento pessoal, pois acho que ele conheceu-me num momento ruim de minha trajetória pessoal, e deve ter ficado com a impressão de que eu desprezei tal produção, e na verdade, minha contrariedade era outra, e está bem explicada nos capítulos anteriores. Portanto, deixo claro que minha impressão sobre o seu papel na história dessa banda é a melhor possível.

César Cardoso, meu aluno, que foi roadie e muito entusiasmado por essa banda, meu muito obrigado por tudo !

Paulo Toledo e Fernando Costa, ex-membros do "Inox", que eram os donos do Bar Black Jack, e que abriu suas portas para muitos shows nossos.

João Cucci Neto, que tentou ajudar, intermediando contatos internacionais.

Antonio Carlos Monteiro; Sérgio Martorelli; André "Pomba" Cagni e Fabian Chacur (mais que isso, Fabian deu-me muitas dicas nessa fase, sobre a mídia), que assinaram várias resenhas e matérias em suas respectivas publicações na imprensa escrita.

Os irmãos do Beto Cruz, principalmente Claudio e Marcos Cruz, por inúmeras manifestações de ajuda em shows e nos bastidores. E não esquecendo de Mario Sodré, sócio do Claudio na ocasião, que também foi solícito conosco.

Tibério Correa, que também nos ajudou em várias indicações para shows.


Todo o staff do estúdio Big Bang pela gentileza, hospitalidade e profissionalismo.

Os irmãos do José Luiz Rapolli : Fernando, que também é um ótimo baterista, e Sueli Rapolli.

Os pais do Fábio Ribeiro, pessoas amabilíssimas e cuja bondade e solidariedade, até mereceu menção específica na história desta banda.

Os irmãos e primos do Eduardo Ardanuy, que também ajudaram bastante.

E as namoradas de todos na época, que foram presentes, também.  No meu caso em específico, sou muito grato a minha namorada nesse período, Sandra Regina, que acompanhou toda a transição entre o fim da velha Chave do Sol e toda a saga da formação da banda dissidente, "A Chave / The Key", apoiando-me muito nos momentos difíceis e ajudando, inclusive fazendo de seu apartamento no bairro de Copacabana, na zona sul do Rio de Janeiro, hospedaria para a banda por ocasião de show naquela cidade, realizado em 1988. Lembro-me de que a namorada do Rapolli ficou grávida em 1988, portanto, sua filha Rebeca, hoje uma mulher madura, foi concebida durante a existência dessa banda.

Hora de falar dos componentes...

Falando sobre os companheiros dessa jornada :

Theo Godinho

Theo Godinho era guitarrista da banda oitentista Jaguar, ao lado do baterista José Luiz Rapolli. Ótimo guitarrista, tinha uma orientação pesada, mas certamente vinha de escola setentista. Sua participação na banda foi curtíssima, apenas pelo fato de que em comum acordo, verificamos que um sexteto era inviável pela massa sonora envolvida. Ele poderia ter ficado tranquilamente se não houvesse também a presença do Edu Ardanuy. Pessoa de ótima índole, apesar de sua super curta participação, a impressão que deixou-me foi a melhor possível. Depois dessa breve participação em nosso conjunto, foi membro de muitas bandas nos anos posteriores, e também envolveu-se com produção de audiovisuais. Infelizmente  deixou-nos em 2012, muito precocemente por sinal, e deixando uma lacuna. Atualmente sua filha, Thais Godinho, que é jornalista, está fazendo pesquisa de campo reunindo elementos para fazer uma biografia de seu pai, e quem sabe até um documentário para resgatar sua história e legado artístico. Acho tal atitude dela, belíssima como filha, e certamente merecida por parte do Theo.

José Luiz Rapolli 

Eu conhecia-o superficialmente desde 1985, mais ou menos, por conta de ter visto sua banda, "Jaguar" atuando, mas só cumprimentávamo-nos nessa época, sem estabelecer amizade.
Quando o Beto anunciou que ele seria o baterista da nova banda, fiquei contente com a escolha e sua aceitação, e não desapontei-me, posteriormente. Rapolli não tinha a mesma técnica de José Luiz Dinola, com o qual trabalhei por cinco anos na Chave do Sol, mas era / é um ótimo baterista. Por outro lado, ao contrário do Dinola que era muito fechado no conceito do Jazz-Rock, Rapolli era muito mais próximo de minha formação no quesito das preferências musicais, demonstrando grande apreço pelo som das décadas de sessenta e setenta, itens proibitivos em tempos xiitas de pregação niilista, naquela década de oitenta. Dessa forma, ficamos rapidamente amigos e sem dúvida, as conversas que tivemos, principalmente em viagens de ônibus onde dividimos os assentos, representam os poucos momentos agradáveis que guardo na memória sobre o período dessa banda. Tal impressão favorável, motivou-me a procurá-lo, cerca de nove anos depois, em 1997, para integrar o projeto de uma nova banda que eu estava criando, chamada Sidharta (história inteiramente contada em capítulo específico na minha autobiografia), mas não deu certo, pois eu interpretara mal essa situação de 1988, e anos depois, não fazia sentido algum, conforme está explicado na história daquela outra banda. Independente disso, Rapolli é um rapaz calmo, gentil e solícito, com o qual gostei de ter contado nesse período difícil que foi esse de 1988 /1989, na trajetória curta da A Chave / The Key.

Anos depois, soube que estava tocando em bandas cover pela noite paulistana, e que firmara-se com um "Pink Floyd Cover", que tornou-se uma dessas bandas tributo que primava pela perfeição em executar o repertório da banda homenageada etc e tal. E também foi membro do "Big Balls", banda do guitarrista Xando Zupo, com o qual eu tocaria no "Pedra", anos depois.

Fábio Ribeiro

Desde meados de 1986, eu ouvia dizer de um jovem tecladista que despontava no cenário do Rock underground, chamado Fábio Ribeiro. Tais comentários, inicialmente vinham de meu amigo e roadie da Chave do Sol, Eduardo Russomano, hoje saudoso, e que conhecia e admirava-o. No final de 1987, ele foi convidado pelo Beto Cruz e fez uma participação especial com A Chave do Sol, no Teatro Mambembe e caprichosamente, seria o último show dessa banda que dissolver-se-ia poucos dias depois graças à um desentendimento entre seus membros remanescentes : eu; Luiz Domingues; Rubens Gióia e Beto Cruz. Quando uma nova banda foi criada emergencialmente para suprir a agenda da Chave do Sol recém implodida, Beto não teve dúvidas e convidou Fábio Ribeiro para fazer parte. Tecladista de sólida formação teórica, gostava, e isso era raro naquela época, de Rock Progressivo setentista, apesar de estar bem antenado nas sonoridades modernas e oitentistas, também. Muito técnico, era um solista virtuose e piloto de vários sintetizadores, à moda antiga dos tecladistas setentistas clássicos.
Como pessoa, era / é um rapaz muito educado, simples e isso era fruto de ter sido criado por pais extremamente bondosos, que inclusive já citei bastante nesta história desta banda. Muito jovem; versátil; muito técnico; com vasta bagagem teórica; e virtuose como solista, era inevitável que chamasse muito a atenção, e recebesse muitos convites. Portanto, ainda fazendo parte de nossa banda, estava também envolvido com muitas outras bandas de Hard-Rock e Heavy-Metal, onde gravou discos; tocou ao vivo com tais artistas, e manteve sempre uma banda autoral e de orientação progressiva setentista, chamada "Desequilíbrios", além de um projeto solo e experimental, "Blezki Zatsaz". Nos anos 1990 e 2000 foi membro de bandas como "Angra" e "Shaman" do mundo do Heavy Metal, e do "Violeta de Outono", além de abrir seu estúdio particular. Toca com muita gente hoje em dia e é representante de várias marcas de teclados internacionais no Brasil, além de ser um experiente professor de música e programação de teclados / tecnologia. Em 2003, acompanhei as gravações de bateria do Rolando Castello Junior, como membro da Patrulha do Espaço, fazendo a respectiva guia para ele gravar em duas faixas nas quais a nossa banda participou do disco solo do guitarrista Xando Zupo, "Z-Sides", no estúdio do Fábio Ribeiro. Falamo-nos pelas redes sociais da internet e devo-lhe uma visita, eu confesso, para um café no qual ele convida-me há anos.


 
Eduardo Ardanuy

Descoberto pelo Beto Cruz, Edu Ardanuy chegou nessa nova banda com fama de virtuose, e de fato o era. Tocava com uma técnica absurda, e era obcecado por tocar muito mais ainda, estudando com muito afinco. Circunspecto e calado, passou-me a impressão inicial de que era obcecado pela técnica e se essa não era a minha visão da música e nunca será, ao menos eu respeitava-o em sua determinação e admirava-o por ser focado no seu objetivo, coisa rara para um menino de 20 anos de idade, que geralmente tem dificuldade em focar numa meta. Foi por sua mentalidade que a banda pautou-se doravante, e construiu sua curta carreira e isso não era o que eu desejaria, certamente. Mas claro que sou-lhe grato pela sua participação, e se não era a minha predileção aquela sonoridade, isso não era nem de longe sua culpa, e apenas foi um arranjo do acaso que uniu-nos ali naquela situação. Não comunicávamo-nos muito nesse período em que trabalhamos juntos. Seu diálogo mais direto era com o Beto e o Fábio, musicalmente falando. Mas sempre houve respeito mútuo e sou-lhe grato por ter socorrido-nos naquele momento inicial muito difícil e pela persistência, também. Dentro do mundo do Rock pesado e em específico das vertentes do Hard e Heavy oitentistas / noventistas e de orientação virtuose, Edu é referência e certamente é considerado um dos maiores guitarristas do mundo, e isso é extraordinário, é claro. Ele é reverenciado em publicações especializadas internacionais; citado por guitarristas do nível de Steve Vai, e tudo isso é muito merecido, logicamente. Tocou por muitos anos no super trio "Dr. Sin", uma das mais significativas bandas brasileiras do mundo pesado e ultra técnico, além de muitos trabalhos solo. Tornou-se um dos maiores professores do Brasil e recentemente abriu com seus irmãos uma escola de música que é referência nesse mundo dos apreciadores do Rock pesado e do virtuosismo, chamada "Clã Ardanuy". Apesar de na época não termos ficado muito próximos, sei que ele é gente boa, e em muitas ocasiões em que encontramo-nos em bastidores de shows, nos anos 1990, e 2000 em diante, sempre foi muito cordial e simpático comigo.

Beto Cruz

Considero Beto Cruz, a força motriz dessa banda chamada A Chave / The Key. Sua determinação em tirar da cartola um coelho que parecia impossível de ser encontrado, foi extraordinária no início.
Agindo como um verdadeiro produtor executivo, não mediu esforços para criar uma banda "do nada", e fazer com que ela tornasse-se apta a competir no difícil mercado da música, em tempo recorde. Sou-lhe muito grato por todo o esforço empreendido; pela solidariedade; pela garra; pela luta; pelos sacrifícios pessoais que teve; pela mão na massa, e tudo mais que puder elencar em termos de trabalho árduo e obstinado. Peço-lhe desculpas se de minha parte, não correspondi na mesma intensidade, mas creio que está bem explicado neste relato, os motivos de minhas contrariedades e acentuada perda de energia no decorrer do processo, que esvaiu-me as forças. Seu prêmio por esse esforço hercúleo, é o disco que registrou tal momento e a descoberta de valores artísticos que muito brilharam, brilham e brilharão ainda, graças ao seu olhar arguto.
Sobre sua personalidade; o que fez depois dessa banda; e faz atualmente em termos artísticos, já descrevi no final do capítulo sobre A Chave do Sol, portanto, é só consultar ali. Está encerrada essa etapa da minha trajetória na música.

Agradeço aos companheiros dessa jornada e mais uma vez peço-lhes desculpas por ter sido excessivamente franco em relação às minhas impressões contra o trabalho em si na minha ótica e gosto pessoal, e reitero, nenhuma contrariedade de minha parte tem caráter pessoal contra quem quer que seja, e pelo contrário, sou grato a todos pelo companheirismo, numa etapa que foi muito difícil particularmente na minha carreira. De todos os capítulos que escrevi na minha autobiografia na música, este foi sem dúvida o mais difícil, pela complexidade de escrever e não deixar margem de dúvida a alimentar melindres para ninguém envolvido, seja o Beto Cruz; os membros novos, e tampouco o Rubens Gióia. Espero sinceramente que todos entendam as colocações com a máxima clareza. E agradeço também aos fãs do trabalho, que não são muitos, devido as circunstâncias que essa banda enfrentou e pela maneira a qual expressou-se artisticamente. 

Para efeito de cronologia desta minha autobiografia, daqui em diante, vem a história do Pitbulls on Crack, iniciada em janeiro de 1992, contudo, do período em que saí desta banda, 1989, até o início do Pitbulls, tem muitas histórias de projetos e tentativas de bandas autorais, além de trabalhos alternativos que fiz, e que estão relatados nos capítulos dos "Trabalhos Avulsos". Basta consultar ou reler, por ali.

Um agradecimento ao saudoso Theo Godinho, pela força inicial nos dois primeiros shows emergenciais de 1988 !
Muito obrigado aos amigos Fábio Ribeiro; Eduardo Ardanuy e José Luiz Rapolli !! Muito obrigado, Beto Cruz, por absolutamente tudo o que envolveu essa banda !! Grato, A Chave / The Key, pelo esforço em tentar manter uma chama viva ! Muito obrigado, amigo leitor, por ter acompanhado esta etapa da minha autobiografia na música !!

2 comentários:

  1. Excelente resenha!!!

    Lembro do JOSÉ LUIS RAPOLLI em 1989, passeando com a sua esposa (ou namorada, não sei), pela Rua Augusta em SP (acho que ele devia morar por ali), empurrando um carrinho de bebê, com uma bebezinha pequenininha (recém-nascida). Eu trabalhava numa loja de móveis na Rua Augusta perto da Av. Paulista e o via quase todos os dias na hora do almoço por ali.

    Grande banda foi a A Chave do Sol e A Chave!!!

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    1. Exatamente, Sandro !

      O Rapolli morava ali perto, nas imediações da Rua Frei Caneca, portanto passear ali na região da Rua Augusta com a filhinha recém nascida deve ter sido sua rotina na época que que você o via ali, certamente.

      Maravilha que esteja lendo com atenção os capítulos !

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