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terça-feira, 1 de setembro de 2015

A Chave / The Key - Capítulo 1 - Reconstrução Após Holocausto - Por Luiz Domingues

Esta é uma nova história da minha trajetória na música, embora seja um começo sui generis, porque não foi um trabalho totalmente novo que desenhou-se na minha vida, mas a necessidade premente de montar uma banda dissidente da velha "A Chave do Sol", e com uma urgência absurda. Vamos aos fatos :
Sem tempo para pensar, quando uma bomba atômica caiu sobre a minha banda, A Chave do Sol, em dezembro de 1987, não pude dar-me ao luxo de ficar deprimido com tal final súbito de uma banda que construira uma trajetória muito consistente na história do Rock Brasileiro. Com compromissos marcados e absolutamente inadiáveis, por conta das contas contraídas para que o último LP da banda, chamado "The Key", fosse para as prateleiras das lojas especializadas e mesas de jornalistas, a banda não podia acabar, simplesmente. Contudo, da maneira como saiu rachada, tornou-se impossível uma continuidade.

Então sem saída, tive que tomar uma série de providências para não deixar ocorrer uma catastrófica maior, pois os compromissos urgiam e a mais razoável saída para esse imbróglio ser resolvido de imediato, foi procurar o escritório do INPI (Instituto Brasileiro de Patentes Industriais), para entrar com um pedido requerendo um novo nome para criar uma banda emergencial. Com o impedimento de continuar-se usando a marca "A Chave do Sol", que pertencia oficialmente ao Rubens, pela patente do INPI, eu precisava criar um nome que tivesse uma ligação com a minha ex-banda, não por maquiavelismo de minha parte, mas simplesmente porque o LP "The Key" tinha saído há pouco mais de 20 dias, e havia uma necessidade de promovê-lo ao máximo, porque as vendas, eram a nossa única esperança de saldar as dívidas provenientes dessa produção. Além disso, a Chave do Sol tinha compromissos inadiáveis para janeiro de 1988, e em hipótese alguma poderíamos deixar de fazê-los, sob o risco de sabotar a divulgação do disco e aí, num efeito cascata, ficarmos em péssima situação. Então, a solução mais razoável que arrumei, foi investir na marca : "A Chave", suprindo "do Sol".

Dessa maneira, manteríamos um elo com a banda que havia encerrado atividades e portanto, não distanciando-nos do LP "The Key"; dos jornalistas e principalmente dos fãs do trabalho. Não era uma solução mais adequada, todavia. Nos anos setenta, uma banda que alcançou fama nacional no meio Rocker, chamava-se "A Chave". Era uma ótima banda, por sinal, que eu inclusive apreciava e cheguei a ver ao vivo, certa vez num festival promovido pela Rede Bandeirantes de TV, chamado "Balanço", em 1977 (contei essa particularidade com detalhes nos capítulos sobre o Boca do Céu, minha primeira banda). Causava-me um desconforto batizar a nova banda dessa forma, é óbvio (muitos anos depois, tornei-me amigo do baixista d'A Chave, Carlão Gaertner, pelas redes sociais da internet, chegando a entrevistá-lo para uma revista onde fui colaborador, a "Bass Player", em 2016), mas acuado pelas circunstâncias dramáticas que cercaram o fim da Chave do Sol, não tive outra alternativa a não ser insistir nessa ideia. Causava-me um desconforto batizar a nova banda dessa forma, é óbvio, mas acuado pelas circunstâncias dramáticas que cercaram o fim da Chave do Sol, não tive outra alternativa a não ser insistir nessa ideia. Mas o fato de eu tentar, não significava ainda que lograria êxito, pois quando tenta-se patentear um nome no INPI, a primeira coisa a ser feita é um processo de "busca", onde aquele órgão vai pesquisar se não existe ninguém no território nacional, usando o mesmo nome para tal finalidade. Quando patenteia-se alguma marca, existe um número infinito de possibilidades, e quanto mais você tentar cercar, mais taxas tem que pagar. Por exemplo, eu poderia patentear tal marca para ser usada como nome de um conjunto musical, mas se quisesse cercar para outras coisas, como abrir um escritório de representação artística com o mesmo nome, por exemplo, teria que pagar mais uma taxa e assim por diante, para cada coisa que desejasse assegurar com tal marca.

Portanto, foram dias de angústia, pois corríamos contra o relógio, tentando formar uma nova banda e a burocracia da busca pela marca, demandava dias...
Sem alternativa, paguei a taxa pela busca e dei entrada em tal protocolo. Concomitantemente, saía às ruas para vender o LP "The Key", pois sem esquema de distribuição algum, era a única forma de conseguir angariar fundos em curto prazo, para amortizar dívidas. E pelo lado do Beto, seus esforços eram para arregimentar novos músicos para formarmos uma banda emergencial, e acompanhavam o mesmo frenesi desesperado.

Era montar um time as pressas, pois tínhamos dois shows para fazer, fruto da agenda assumida da velha Chave do Sol, e como já salientei, era impossível pensar em cancelá-los, simplesmente, dada a emergência em levantarmos dinheiro e divulgar o novo disco.
Após alguns dias, já no início de 1988, consegui o resultado da busca do INPI. De fato, a marca "A Chave" pertencera a um dos músicos daquela extinta banda paranaense, mas há muitos anos o domínio fora abandonado, denotando falta de interesse de seus ex-membros em renová-lo. Com a consciência um pouco mais leve, dei entrada imediatamente no protocolo de patente em meu nome, e mesmo sabendo que o processo demoraria de três a cinco anos para dar-me a patente definitiva, o protocolo assegurava-me prioridade total nessa reivindicação, ou seja, ninguém no Brasil poderia "atropelar-me", e ter esse nome para si (asseguro-lhes, o nome pertence por uma questão de justiça, à velha "A Chave", do Paraná, e jamais, mesmo se o protocolo INPI desse-me tal primazia legal em definitivo, eu criaria problemas caso eles resolvessem reativar a banda), e se tomei tal iniciativa, fora apenas por um ato de desespero, vendo que o Rubens usara essa ameaça para obstruir o uso do nome da Chave do Sol. Era uma bobagem burocrática, mas diante da briga que eu e Beto tivéramos com o Rubens, tal racha na banda infelizmente obrigou-nos a tomar tal providência.

Vendo hoje em dia, ninguém imagina o quanto lamento aquela ruptura, conforme já deixei claro nos capítulos da história da Chave do Sol, e só lastimo o quanto de sofrimento de todos nós; eu; Beto e Rubens, teria sido evitado, se um ou dois dias depois daquela discussão, tivéssemos encontrado-nos de cabeça mais fria e decidido prosseguir com A Chave do Sol, onde o único desconforto premente, teria sido arrumar um novo baterista para seguirmos em frente. E nem mesmo isso talvez fosse necessário, pois o Zé Luiz Dinola já havia desistido de sua ideia esdrúxula de estudar odontologia nessa altura de dezembro de 1987, e muito provavelmente estaria disposto a dialogar e voltar a ocupar o seu posto na banda, lugar de onde jamais deveria ter saído...
Mas não foi assim que aconteceu, infelizmente...

Outra providência que precisava tomar com urgência, era a de alugar uma nova caixa postal para essa nova banda. Diante dos acontecimentos dramáticos que culminaram com o fim da Chave do Sol, não haveria nenhum cabimento em continuar com a histórica caixa postal que a nossa ex-banda usou por anos a fio, desde 1984, quando fundamos o fã-clube e tal contato com os fãs tornou-se direto nesses termos. Internet ainda era para a maioria, objeto de enredo de filmes Sci-Fi, em 1988, embora já estivesse disponível ao público em geral. Porém, claro que não era nada popular e os equipamentos disponibilizados para pessoas físicas naquele tempo, eram jurássicos, e caríssimos. Portanto, ter uma caixa postal para receber correspondências datilografadas ou manuscritas, ainda era a melhor maneira de ter comunicação com os fãs do trabalho. Creio que no calor da briga, não era nada conveniente continuar usando a histórica caixa postal 19090 - SP...

Portanto, foi outra tarefa burocrática e chata que tive que fazer às pressas, procurando desta feita uma agência do correio perto de minha casa, para abrir uma nova caixa, e pelo lado prático da situação, só lamentando também o quanto isso geraria confusão entre os fãs, acostumados com a caixa postal antiga. Somava-se a isso, anos de divulgação que fazíamos na TV; rádio; filipetas, fanzine e na própria capa dos nossos discos...
Inevitável portanto, a mudança traria prejuízo certo. Então, a nova banda, agora chamada "A Chave", receberia correspondência doravante, na caixa postal 15665 - SP, numa agência localizada na Rua Tuiuti, próxima a Praça Silvio Romero, no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Sobre os esforços do Beto, em questão de poucos dias, já estava anunciando um grupo de novos componentes arregimentados.

Foto de Zé Luiz Rapolli, do fim dos anos noventa, quando trabalhou numa loja de instrumentos da Rua Teodoro Sampaio

Para a bateria, José Luiz Rapolli, ex-baterista da banda "Jaguar", que encerrara atividades recentemente e que tratava-se de uma banda de qualidade, que alcançara razoável projeção na cena Hard-Rock paulistana. O tecladista Fabio Ribeiro, que tocara no último show oficial da Chave do Sol, em dezembro de 1987, estava confirmado também.

Theo Godinho, ex-guitarrista do Jaguar, em foto posterior à sua rápida passagem por essa nova banda que formávamos  

    Eduardo Ardanuy, aqui já em ação com A Chave, em 1988

E dois guitarristas : Theo Godinho, ex-guitarrista do Jaguar, também, e um garoto bem novo e que o Beto descobrira atuando na noite, com fama de virtuose, chamado Edu Ardanuy. E assim, em janeiro de 1988, começamos a ensaiar como um sexteto, visando cumprir dois compromissos que na verdade eram da agenda da velha, A Chave do Sol. Um, seria num evento de grande porte, promovido pela Rede Bandeirantes de TV, chamado "Verão Vivo", filmado numa praia da cidade do Guarujá, no litoral de São Paulo. Já o outro, ocorreria num salão de Rock, famoso e tradicional, localizado no Tatuapé, na zona leste de São Paulo, chamado, "Led Slay". Tudo era angústia; incerteza; e pressa nesses dias de janeiro de 1988...


Nesse cenário angustiante, pisando em terreno minado, fomos lutando duramente pela sobrevivência. Atormentados pelas dívidas; vendendo discos no braço, literalmente; montando uma nova banda desvinculada da velha banda extinta, mas ao mesmo tempo tendo que manter elo estratégico com o defunto ainda quente no caixão...
Já com o protocolo da nova marca em mãos, pelo menos sabíamos que o Rubens não poderia reclamar dessa dissidência forçada de nossa parte.

Agora era juntar os cacos, e tentar dar dignidade a esse novo trabalho. Em princípio, não havia nenhuma chance de pensarmos em renovação do repertório. Tínhamos que tocar as músicas do LP "The Key", mesmo correndo o risco de dar um nó na cabeça dos fãs da velha Chave do Sol. Mas um ponto positivo ocorreu, assim que começamos a conversar com o membros recém chegados : a ideia era renovar completamente o repertório, mostrando uma nova identidade. OK, os dois ex-membros da Chave do Sol, estavam montando uma nova banda, mas não podia ser encarada como a continuidade da Chave do Sol, simplesmente.

Enfim, era uma situação totalmente embaraçosa e desagradável portanto, porque o ideal teria sido A Chave do Sol ter superado sua crise interna, e estar disposta a tocar a vida em frente, prioritariamente, ou numa segunda hipótese, essa nova banda ser formada com nome completamente desassociado da Chave do Sol, e com calma. Mas não foi assim que aconteceu, infelizmente...
O contato inicial com os novos componentes foi muito cordial e melhor que isso, eu senti da parte deles, empolgação para começar a trabalhar. De certa forma, foi legal receber essa energia, pois eu e Beto estávamos bastante desgastados com os acontecimentos dos últimos meses, e principalmente pelo seu desfecho tristíssimo para todos nós, ex-membros da Chave do Sol. Ouso dizer que eu estava emocionalmente pior, primeiro pelo fato dele ter uma personalidade mais telúrica que a minha, e diante da adversidade, seu pragmatismo sempre levava-o a tomar providências imediatas para mudar o quadro, não deixando-se levar para um estado depressivo.

Zé Luiz Rapolli e Theo Godinho, eu conhecia superficialmente, por conhecer o Jaguar, sua ex-banda. Nunca havia conversado com eles, mas já cumprimentava-os pelo menos desde 1985, em  bastidores de shows, e cheguei a assistir um show do próprio Jaguar certa vez. Já Fabio Ribeiro, eu tinha tido a experiência dele tocar no último show da Chave do Sol, em dezembro de 1987, no Teatro Mambembe. Apenas não conhecia o Eduardo Ardanuy, que fora uma descoberta do Beto Cruz. Pelo que contou-me, ouviu boatos de que era um rapaz muito jovem que tocava pela noite, com pequeno combos improvisados e tinha a fama de virtuose, com estilo muito parecido com o do guitarrista sueco, "Yngwie Malmsteen".


Tal guitarrista internacional havia tornado-se uma febre entre os guitarristas de Hard Rock oitentistas no mundo todo, pela sua absoluta destreza ao instrumento, mas num patamar muito acima do normal para um guitarrista considerado excelente. Esse tal Malmsteen, tocava com uma técnica absurda, e sob uma velocidade tamanha, que tratou de encantar muitos guitarristas que passaram a estudar de uma forma estonteante para alcançar tal patamar de sua técnica. O som era uma mescla do Hard com o Heavy-Metal oitentistas, mas havia um quê de Hard setentista nessa mistura, principalmente via Ritchie Blackmore, o mítico guitarrista do Deep Purple, que arregimentara milhões de seguidores de sua guitarra super técnica, mesclando os riffs de Jimi Hendrix (incluso o uso e abuso de alavancas e efeitos gerados pela microfonia), com música barroca, principalmente Bach. Malmsteen era um desses fanáticos fãs de Blackmore, mas ali na década de oitenta, sua pegada ficou muito mais puxada para o Hard / Heavy oitentista, naturalmente.
Edu Ardanuy era um admirador de Malmsteen, e sua técnica era tão impressionante, que mesmo ainda sendo um garoto desconhecido, tinha o apelido de Edu "Malmsteen." Particularmente, eu nunca gostei de Malmsteen, e muito menos de tudo o que seguiu-se a ele, culminando com o tal do "Heavy Melódico", aliás, nem Heavy-Metal tradicional eu jamais gostei, e não haveria de gostar dessa histriônica variação de virtuosismo extremo. Mas naquele cenário que desenhava-se em 1988, parecia que não havia muita saída para nós, e com a agravante de estarmos aflitos e fazendo tudo as pressas, nem tinha muito cabimento questionar linhas a serem adotadas. Indo com a maré, portanto, e tendo Edu e Fabio (que igualmente era um virtuose das teclas e estava encantando-se muito aquela onda de virtuosismo "malmsteeniano", apesar de ter boa formação prog setentista), tornou-se inevitável que entrássemos nessa senda. Sobre Theo, era uma guitarrista de muitas virtudes, mas não necessariamente um virtuose como Edu. Mais parecia um guitarrista clássico de Hard-Rock oitentista, embora apresentasse uma bagagem setentista interessante, também. A respeito do temperamento desses novos companheiros, achei em princípio, o Zé Luiz Rapolli bastante simples e amigável; Fabio Ribeiro era muito brincalhão, mas sem dúvida um bom menino, e uso esse termo, pois ele tinha 17 para 18 anos na ocasião; Theo Godinho pareceu-me gente boa, mas mostrava-se tímido, e Edu era calado, parecia um rapaz focado na música e sem muitas palavras. Em suma, em meio a tantas adversidades que estávamos enfrentando, ao menos ficamos aliviados em constatar que arrumáramos quatro músicos muito competentes; com vontade de encarar o desafio dos compromissos em cima da hora, e com poucos ensaios; e todos, pessoas de muito boa índole.
E assim, em janeiro de 1988, começamos a ensaiar como um sexteto, visando cumprir dois compromissos que na verdade eram da Chave do Sol. E começaram os ensaios.

O tecladista Fabio Ribeiro em foto mais ou menos da época em que entrou na nova banda que formamos.

Nossa primeira missão era o compromisso da TV. Com esses músicos reunidos e agrupados na sala de estar da residência do Beto Cruz, tínhamos dois dias apenas para prepararmo-nos. No show da TV, seria uma típica apresentação de choque. Sete ou oito músicas apenas, e com a possibilidade de três ou quatro irem ao ar, posteriormente.

Mas dois dias depois teríamos um show completo para fazer num salão de Rock da zona leste de São Paulo e aí, teríamos que no mínimo, tocar o LP "The Key" inteiro, pois não havia a menor chance de termos tempo hábil para compormos músicas novas. Aliás, mal tínhamos tempo para deixar o material da velha Chave do Sol pronto para ser tocado ao vivo, honrando suas tradições rompidas indevidamente por uma série de lamentáveis mal entendidos. Ao término do primeiro ensaio, o Zé Luis Rapolli mostrou-se pessimista em relação à sua participação. Achava que precisava de mais um tempo para decorar convenientemente as músicas, e talvez estivesse mais seguro para o show completo no tal salão que mencionei, mas para o compromisso da TV, estava inseguro. Portanto, o Beto não teve dúvidas e ligou para o José Luiz Dinola, ex-baterista da Chave do Sol e formulou o convite para que ele apresentasse-se conosco na TV, expondo a situação que seu xará recém ingresso na nova banda, precisava de mais um tempo para adaptar-se etc etc.

Era incrível, mas de uma forma absolutamente bizarra, tocaríamos com nosso velho colega, mas sem ser A Chave do Sol a pisar num palco, porém ao mesmo tempo, tocando seu material, e cujo disco recém lançado ainda com a banda clássica, tendo sido gravado por outro músico, no caso, Ivan Busic...
Era muito confuso e certamente que só aumentava a nossa percepção de que tudo havia sido um grande equívoco. Era para estarmos unidos e trabalhando normalmente com nossa banda, fazendo shows promocionais de nosso novo álbum, com a nossa marca, e formação clássica sobre os palcos. Mas estávamos ali, com um novo nome; rompidos com o nosso guitarrista cofundador da banda, cumprindo compromissos que eram da nossa banda, mas que, diante de tais dramáticas novas circunstâncias, obrigaram-nos a criar uma nova banda as pressas, com outros componentes, e tendo que recorrer ao nosso velho baterista que fora o primeiro a deixar o nosso bote. Então, o lado bom disso, se é que existisse algo positivo nesse imbróglio, foi que o Dinola aceitou socorrer-nos de pronto, e mesmo sem tempo para ensaiar, deu-nos segurança de que tinha as músicas na cabeça. Não era para menos, ele conhecia-as de cor e salteado, talvez com exceção de três que haviam sido incluídas nos estertores de sua permanência no cotidiano da banda.
Quanto aos demais novos membros, estavam mais seguros, mas também não tratava-se daquela segurança absoluta de uma banda perfeitamente entrosada e afiada, características inclusive que eu acostumara-me em cinco anos atuando na antiga Chave do Sol.
Bem, não adiantavam lamentos... era o cenário com o qual tínhamos que lidar e fim de conversa. Chegou o dia da viagem para o litoral, enfim...

Como de praxe, as bandas que apresentar-se-iam no dia, reuniram-se num ponto de encontro determinado pela produção do show / filmagem. No caso, viajamos num ônibus da Rede Bandeirantes de TV, acompanhados da agradável presença dos amigos do "Proteus", banda com a qual interagíamos desde 1987, quando ainda éramos a velha Chave do Sol. No ônibus, além da comitiva das duas bandas, muitos técnicos da TV viajaram conosco.

Fazia um calor de rachar, e claro, era o normal para o mês de janeiro, ainda mais levando-se em conta de que descíamos a serra em direção à uma cidade praiana, tradicionalmente quente, ainda mais em pleno verão. A viagem foi bastante prazerosa, quebrando um pouco o clima pesado com o qual eu e Beto vivíamos nos últimos 40 dias aproximadamente, por conta dos acontecimentos terríveis que culminaram com a extinção da Chave do Sol e abrupta formação dessa nova banda dissidente. Não só por isso, eu diria, mas também pela incidência de dívidas que atormentava-nos, e cuja única saída, era promover a nova banda e vender discos para pagar a conta da anterior que desintegrara-se...
Chegando na cidade do Guarujá por volta do meio da tarde de uma quinta-feira, dia 28 de janeiro de 1988, fomos conduzidos diretamente à praia onde o palco estava montado e com o P.A. já inteiramente erguido e sendo afinado pelo técnico.

                   Visão de algumas praias da cidade do Guarujá

Fizemos o soundcheck sob forte calor e um sol causticante, com poucos banhistas interessando-se com a movimentação toda pela produção, ainda bem, eu diria, para não tumultuar o trabalho. Claro, foi um soundcheck rápido, sem maiores requintes e contando com a má vontade generalizada de técnicos e auxiliares "estrelas", que tem a estúpida praxe de maltratar artistas que não são proeminentes na mídia mainstream, como se os incomodássemos com nossa simples existência, e muito pior, pela falta de projeção midiática avantajada, como se isso fosse nossa culpa...
Encerrado esse trabalho feito bem superficialmente para o nosso gosto (e convenhamos, era um show para uma grande, supostamente, multidão ao vivo, e com a responsabilidade de tratar-se de uma filmagem para a TV, portanto, deveria haver apuro na qualidade do áudio, muito maior), levaram-nos para um hotel, onde descansaríamos e aprontar-nos-íamos para o show.

Infelizmente, o hotel alugado pela Rede Bandeirantes era precário e não reunia condições para que descansássemos adequadamente. Sou muito grato a essa Rede de TV por ter inserido-nos nessa programação do seu programa "Verão Vivo", pela evidente oportunidade de uma exposição em cadeia nacional, mas deixo a pergunta : será que artistas mais famosos do que nós, usavam normalmente aquele hotel "pulgueiro" ?  Duvido que algum medalhão da MPB, ou até mesmo do BR Rock 80's fosse hospedado ali, mas enfim...
Fomos para o show, então e o Proteus tocou primeiro. Sua apresentação era sempre convincente, e tendo ou não público, portavam-se em cena como se estivessem num estádio de futebol lotado, e isso era louvável a meu ver, sob o ponto de vista cênico, na postura deles. Quando fomos para o palco, nossa preocupação, além de tocar o melhor possível diante de uma monitoração bem ruim e totalmente diferente da estabelecida no soundcheck (para que equalizar o som antes dos shows, se na "hora h" eles mudam tudo ??), era ter a melhor performance cênica possível, pensando na audiência de milhares, talvez de milhões de telespectadores, mas a motivação tinha que vir de um foco muito forte nesse sentido, porque ali, no calor do show, seria bem difícil extrair ânimo para tal.


Abaixo, uma abertura de show com bastante energia, com "Profecia", primeira faixa do lado B do LP The Key, e que era a mais pesada do disco 

O link para assistir o vídeo no You Tube
https://www.youtube.com/watch?v=qCLUfoAQYSc


Isso porque o público presente era diminuto e muito frio no geral. Havia sim um pequeno público Rocker perto do palco, mas a grande massa, dos poucos que manifestavam-se, estavam ali para tumultuar, e não mediram esforços para tal...

 
Abaixo, assista "A Woman Like You", primeira faixa do LP The Key. O áudio da mix da TV é sofrível (a caixa da bateria parece uma caixa de sapatos, e quase não dá para se ouvir o baixo etc etc), mas dá para ver um registro da participação da nova banda na TV, ao vivo.

Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=IeQPAr0vxWw



Assista abaixo, "Sweet Caroline", a segunda faixa do LP The Key. No fim da música, deu uma pane geral entre os guitarristas que esqueceram-se da pausa, mas eu e o Zé Luiz Dinola não deixamos "a peteca cair", fazendo os acentos e quase ninguém percebeu o "branco" dos demais.

Link para ouvir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=rtna5DWn07g


Tratava-se de um pequeno, mas bastante impetuoso grupo de maloqueiros, que debochavam o tempo todo de nós, provocando-nos com gritos de : -"ei roqueiros, toquem um pagode aí", e esse tipo de pedido galhofeiro, foi a coisa mais suave que disseram-nos naquela noite. Não contentes em hostilizar-nos verbalmente, arremessaram alguns tufos de areia, mas felizmente a distância da grade de segurança que os continha era o suficiente para que seus arremessos não chegassem até nós diretamente, mas apenas emporcalhando a pontinha do palco, antes mesmo da linha do "side fill" (um micro P.A. posicionado nas laterais do palco, visando reforçar a monitoração para os músicos ouvirem-se melhor), mas mesmo assim, o baixo astral de passarmos por isso, gratuitamente, era um horror...


Abaixo, "Sun City", numa performance sem grandes novidades em relação ao arranjo original do disco. 

https://www.youtube.com/watch?v=Kia9ARQQ_U8
O Link para ver no You Tube


Bem, independente dessa deprimente manifestação de um público frio e com manifestações hostis como as que descrevi acima, por parte de alguns "gatos pingados", acho que a nossa performance foi digna. Demos o nosso recado para a TV, e quebramos o gelo entre eu & Beto, em relação aos demais novos músicos, e de fato, era o que mais importava ali naquele instante. A performance foi bastante energética. Com a segurança do José Luiz Dinola, muito habituado com aquelas músicas, a banda soou como se estivesse junta há tempos. Não parecia que havíamos agrupado-nos há poucos dias, e que a maioria dos músicos não tinham intimidade com aquele repertório. Ali, logo nessa primeira apresentação, uma amostra do que seria essa nova banda, foi dada com eloquência eu diria, pois o virtuosismo do Edu Ardanuy e de Fabio Ribeiro, foi proeminente. Diante de alguns poucos improvisos, pois a base eram as canções do LP "The Key", já mostraram a sua face, com pequenas "camas" harmônicas feitas para dar vazão aos solos longos e virtuosísticos de ambos. Aliás um raro momento em que fugimos do repertório do LP The Key, trazendo algo diferente e que de fato, nortearia o trabalho dessa nova banda doravante.


Eis abaixo, um pequeno solo individual do Edu Ardanuy naquela noite, amparado por uma cama harmônica de teclados feita pelo Fabio Ribeiro

Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ZWq82zrlTFo

O Zé Luiz Dinola tocou como nos velhos tempos, mas não havia a menor possibilidade de cogitar juntar-se a nós, apesar de estar claro que desistira da ideia esdrúxula de abandonar a música, fato que motivou a sua saída da Chave do Sol, cerca de seis meses antes, e mesmo porque, mesmo que houvesse tal possibilidade, estávamos fechados com Zé Luis Rapolli, e se fosse para o Dinola voltar, o correto seria a Chave do Sol reconciliar-se e Rubens Gióia retomar seu posto, simples assim...
 

Depois do show, fomos abordados por alguns fãs, mas poucos sabiam realmente quem éramos. Havia um diminuto contingente de rockers naquela noite ali presentes, e a maioria que foi abordar-nos no improvisado camarim atrás do palco, estava ali pelo oba-oba, simplesmente. Então, algo ainda mais bizarro ocorreu. Um sujeito ficou abordando-nos com uma insistência bem desagradável, pedindo um LP de presente. E era nítido que mal sabia quem éramos, infelizmente. No show, o Beto arremessara algumas capas para o público, para fazer um agito, e fazendo a promessa de entregar-lhes a bolacha de vinil no pós-show como meio de promoção. Os sujeitos que conseguiram capturar as capas no ar, apareceram para reivindicar seus vinis, mas isso também atraiu outros tantos, que queriam ganhá-los também. Eu vendo aqueles garotos pedindo discos com insistência, e pensando comigo : -"estamos precisando vender cópias desesperadamente e esses sujeitos que nem sabem quem somos, aí, pedindo discos que provavelmente vão tentar vender num sebo, no dia seguinte, ou mesmo jogar no lixo"...
Foi quando um deles e seguramente o mais chato, abordou-me e veio com uma conversa absurda de que havia ajudado-nos na produção naquele dia, e que "merecia" ganhar um disco !!
Foi uma das poucas ou talvez única vez em que fiquei muito aborrecido com uma abordagem de pós-show da parte de um estranho em toda a minha carreira, tamanha a insistência pegajosa do sujeito, e somado ao cenário dramático em que estávamos mergulhados, desde a dissolução da Chave do Sol, com inúmeros dissabores e preocupações para resolver e ali, aquele sujeito chato, passando dos limites...
Sei que tudo resolver-se-ia se eu tivesse cedido e dado-lhe um disco de cortesia, mas simplesmente, não o fiz. Primeiro, que criaria um precedente terrível. Se tivesse ofertado-lhe o disco, havia pelo menos mais uns trinta pedintes ali na mesma situação e isso geraria um tumulto; segundo, que a abordagem dele houvera sido tão descortês, que ele não fazia por merecer, de forma alguma; terceiro, porque provavelmente nem interessava-se pelo som da nossa banda; e quarto, pela situação dramática em que encontrávamo-nos naquele instante, onde a ideia de "doar" cerca de trinta discos a esmo, seria uma heresia financeira para nós. E além de tudo, não era da produção coisa nenhuma, e não fizera nada para ajudar como alegara pateticamente. Então, contrariado, passou a proferir um discurso revanchista de baixo nível. Não partiu para agressões ou ofensas, mas ficou falando alto para todo mundo ouvir, algo do tipo : -"é assim mesmo... você ajuda um artista e ele vira-lhe as costas quando sobe um pouquinho"...
Não contente com esse discurso absurdo, em imputar-nos "soberba" indevidamente, rogou-nos uma praga... afirmando aos seus amigos, que por conta de "atitudes mesquinhas desse tipo", nós fracassaríamos na nossa carreira etc e tal. Acho que nunca vi uma pessoa tão chata e baixo astral assim num bastidor de show, e no cômputo geral, falando do alto de 40 anos de carreira que somo neste momento em que escrevo este trecho (2016), tive inúmeras experiências com outros chatos de plantão...
Bem, entrei no ônibus e pela janelinha, ainda ouvia-o falando e mostrando-me ironicamente um copo d'água, que usava para enfatizar sua contrariedade na forma de um brinde que oferecia-me, como forma de deboche...
Alheio a essa situação, fomos jantar num lugar bacana e o fim da noite foi bastante agradável entre amigos, dissipando a nuvem de baixo astral perpetrada pelo assédio indevido, como desse rapaz que citei acima. De volta para São Paulo, tínhamos mais um pouco de tempo para ensaiar, mas bem pouco, pois no sábado subsequente, teríamos que encarar um show completo.  


Abaixo, um pequeno vídeo de bastidores pós-show, filmado a esmo pela equipe de cinegrafistas da Rede Bandeirantes e que não foi ar, mas muitos anos depois, alguém disponibilizou-o para um DVD pirata que passou a ser vendido em lojas da Galeria do Rock, e agora está no You Tube, aliás, caso da maioria das músicas desse show e que na época, também não foram ao ar.

O Link para ver esse curto vídeo de bastidores :


Então foi assim, quinta-feira, dia 28 de janeiro de 1988, tocamos no palco do projeto "Verão Vivo", patrocinado pela Rede Bandeirantes de TV. Ali na praia, não deviam haver mais que 500 pessoas na plateia, mas quando o programa foi ao ar, dias depois, em 11 de fevereiro de 1988, a edição "maquiou" a audiência, mesclando-a com outros shows onde o público fora bem maior. Naquelas circunstâncias de um show gravado ao vivo numa praia durante o verão, acredito que nem medalhões do BR-Rock 80's fariam papel muito melhor. Toda a atmosfera era para artistas populares, quiçá popularescos e bandas de Hard-Rock do underground não faziam sentido, mesmo, para aquela audiência.


Abaixo, assista, "A Chave é o Show", música que era emblemática nos shows da Chave do Sol, sendo executada por essa nova banda, que ironicamente apresentava-se doravante como "A Chave", dando certo sentido maior ao título da canção... 

O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=OAgnRlVPros

Portanto, a confusão gerada pela criação de um novo nome e uma nova banda , mas tocando o material e divulgando o recém lançado LP de uma banda extinta há poucos dias, não fazia diferença aos
poucos Rockers antenados ali presentes in loco que viram-nos naquela noite ao vivo e para a imensa maioria que assistiu-nos na TV, dias depois.


Outra versão da música "A Chave é o Show", mas fora de sincronia, e pelo menos com a bateria mais alta mix, quando possibilita-nos ver o Zé Luiz estraçalhando em sua performance.

O link para ver no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=ASSwPowUeME


Com a ressalva óbvia de que em tratando-se de exibição na TV, dias depois, claro que o público Rocker tomou conhecimento também, incluso os fãs da velha Chave do Sol, e a confusão gerada foi grande. Pois é... onde está o Rubens ? Onde está o "Sol" ? Zé Luiz Dinola voltou ? E sobretudo, quem são esses dois guitarristas e o tecladista ? Paciência, foi o que aconteceu ...

Feito o show para a TV, numa praia do Guarujá, dois dias depois fomos à zona leste de São Paulo para um show completo. Nem tão completo assim, eu diria, pois tratava-se de um mini festival, e tendo que compartilhar o palco com outras atrações, naturalmente.
No caso específico desse dia, dividimos o palco com o Made in Brazil, tradicional banda do circuito do Rock brasileiro, e que já era longeva naquela ocasião, dada a circunstância de ser egressa dos anos sessenta. Desta feita com a presença daquele que seria o baterista dessa nova banda, José Luiz Rapolli, fomos mais preparados para esse compromisso.

Era um sábado, dia 30 de janeiro de 1988, no salão conhecido como "Led Slay", no Tatuapé, zona leste de São Paulo. Eu havia tocado ali uma única vez, com o Língua de Trapo, no início de 1984, mas o Língua era uma banda de sátira e humor, portanto, seria a primeira vez que tocaria ali com uma banda de Rock num ambiente que supostamente era adequado para tal afinidade cultural. Indo além, a Led Slay tinha a fama de ser um salão anacrônico nos anos oitenta. Assim como seu grande rival, o "Fofinho Rock Club", cujo endereço ficava na mesma avenida, mas separado por quase três Km entre um e outro. Portanto, ali naquele ambiente, apesar de haver espaço para as manifestações típicas oitentistas de apelo Hard e Heavy, havia tal como no "Fofinho", uma predileção por cultura sixtie e seventie.

Era um dos poucos ambientes para freaks da "velha guarda"; hippies; bichos-grilo; seguidores de Raul Seixas e "micróbios" (uma pejorativa pecha para designar hippies sujos, quase mendigos).
Bem, alheios a essas constatações socioculturais, lá fomos nós com nossa banda montada às pressas, quando urgia divulgar o LP The Key, e vendê-lo, a todo custo...
Tocamos antes do Made in Brazil, logicamente, pelo aspecto respeitoso de seu status maior adquirido por anos de labuta, mas também pelo fato do Oswaldo Vecchione ser o organizador do festival e seu equipamento alimentar o palco e o P.A. do evento.
Fizemos um set maior que o show de choque que havíamos feito dois dias antes no "Verão Vivo" da TV Bandeirantes. Ou seja, tocamos o LP The Key inteiro, além da pequena intervenção de solos individuais do Edu Ardanuy e Fabio Ribeiro, que já haviam apresentado-os no show do Guarujá. Foi um show mais seguro, é verdade, pois o gelo havia sido quebrado no show da praia. Rapolli tocou tranquilo e ficou o sentimento de que poderia ter tocado no show anterior, mas, tudo bem, creio que sua decisão fora acertada pelo fator da prudência.

O palco montado era pequeno e estava num outro ambiente do salão que era enorme. Do lado de fora inclusive, tinha uma área ao ar livre que era gigantesca e anos antes havia promovido shows de estrelões da MPB, como "Gilberto Gil", "Alceu Valença" e "Zé Ramalho", por exemplo, com multidões de mais de vinte mil pessoas, mas nesse festival em que tocamos, o palco havia sido montado na parte interna e era bem menor. Em se considerando o tamanho do referido salão, creio que o resultado de cerca de 300 pessoas presentes não poderia ser comemorado como um grande público, inclusive para os parâmetros oitentistas onde o comparecimento do público era muito maior, costumeiramente.
Os irmãos Vecchione, Celso e Oswaldo, impressionaram-se com a técnica do Eduardo Ardanuy e chegaram a formular convite para ele ingressar no Made in Brazil, naquela momento. Eu e Beto resignamo-nos, pois era claro que Eduardo despertaria a atenção não só deles, mas à medida que avançássemos com essa banda, outros assédios seriam inevitáveis. Mas o Eduardo não seduziu-se com a proposta e seguiu apostando nessa nova banda que formávamos, mas num futuro não muito distante, tal fidelidade não seria mais levada à risca e logo mais chego nesse ponto. Nossa luta prosseguia e agora, tínhamos mais tempo para ensaiar, pois o próximo compromisso de show só estava marcado para o mês de abril. Enquanto, isso, concomitante aos ensaios, matérias e resenhas ainda tratando da velha Chave do Sol estavam saindo nas bancas de jornais e revistas; e a árdua batalha para vender discos "no braço", literalmente, prosseguia, juntando moedas para pagar as dívidas adquiridas pela produção do LP The Key.

E na parte artística, esse sexteto montado de forma emergencial, enxugou-se, pois o guitarrista Theo Godinho deixou-nos. Foi uma decisão tomada de comum acordo, e muito amigavelmente. De fato, com Edu e Fabio, estávamos super servidos com a parte harmônica e de solos da banda, e indo além, com duas guitarras e teclados, o som ficou pesado e embolado demais. Não havia a necessidade de duas guitarras, mesmo porque, se no caso de uma ou outra música houvesse tal situação de uma base de guitarra a mais ser útil, o próprio Beto poderia suprir tal lacuna, por também ser guitarrista.
Além do mais, com o Theo, que era ótimo guitarrista, sempre teria a questão de inserir seus solos, também, é claro. Portanto, com três solistas na banda, pois o Fabio também era um virtuose nos teclados, a tendência seria a de estabelecermos uma overdose de solos nas músicas, tornando-as maçantes para os ouvintes. Então, ponderando tudo isso, Theo Godinho e a banda despediram-se amigavelmente, e de nossa parte, ficou o agradecimento pela contribuição muito boa que deu-nos, num momento de dificuldade de nossa parte, aceitando o convite para tirar a toque de caixa, as músicas de um LP inteiro, para executá-las em dois shows, com pouco tempo de preparo prévio.

Continua...

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