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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pitbulls on Crack - Capítulo 1 - Muito Grunge; Indie Rock & Buracos do Underground - Por Luiz Domingues


Começo aqui, uma nova etapa da narrativa. Vou contar a minha história do Pitbulls on Crack, banda na qual passei quase os anos noventa, inteiros. Bem, no caso do Pitbulls on Crack, foi minha volta a uma banda, depois de um hiato de quase três anos, após ter saído da A Chave / The Key, em 1989. Depois disso, fiquei até o início de 1991, fazendo trabalhos avulsos, entrando em projetos que não evoluíram, e até show tributo realizei. Paralelamente, dedicava-me às aulas de baixo, que ministrava desde 1987. E foi nesse show tributo que fiz em 1990 ("Electric Funeral", um tributo ao "Black Sabbath", episódio relatado no capítulo dos "Trabalhos Avulsos"), que conheci o vocalista / guitarrista / compositor, Chris Skepis.



No início de 1992, ele convidou-me a integrar uma nova banda que estava formando, e eu aceitei a empreitada, pois a proposta era totalmente diferente de tudo o que eu realizara anteriormente, e achei que fazendo algo na contramão de minhas idiossincrasias, poderia colher frutos mais saborosos do que eu havia colhido com A Chave do Sol, na década de 1980. Se encaixava-me musicalmente ? Acredito que dois fatores incentivaram-me, a aceitar entrar nessa banda: 


1) A proposta acre do som, direcionando para o lado oposto de tudo o que eu acreditava, ou seja, a aposta no som que potencialmente agradaria o tipo de crítico musical, que pensa o contrário de minhas convicções, e; 


2) O fato dos rapazes serem absolutamente divertidos. O Pitbulls foi a banda onde mais ri, pois ninguém falava sério ali. Era um show de sarcasmos, piadas, imitações, ironias...

Nos cinco anos em que lá toquei, lembro-me de um ou dois climas tensos, no máximo. Foi uma banda desopiladora de fígado...


 
Em janeiro de 1992, recebi o telefonema do Chris Skepis, falando-me de sua intenção de formar uma nova banda de som autoral, onde dizia já ter um material grande composto, e que estava com dois outros músicos já contactados : outro guitarrista, e um baterista. Mostrei-me interessado em conhecer o trabalho, e marcamos um ensaio num estúdio perto da Estação Santa Cruz, do Metrô. Chegando lá, gostei do astral dos rapazes.



O baterista, Juan Pastor, era estudante de jornalismo, e estagiário na rádio 89 FM, que à época, era a principal rádio Rock de São Paulo.



E o guitarrista, chamado Luciano Curvello Cardoso, apelidado, "Deca", que havia morado muitos anos em Madrid, e na volta à São Paulo, havia passado por uma banda Pop Rock sem grande relevância (chamada "Trama"). Minha primeira impressão do som, era que pretendiam fazer um som indie, mas não descambando para aquelas esquisitices peculiares desse espectro. O guitarrista Deca tocava de forma bem Rock'n'Roll tradicional, com muita influência de AC/DC, e o Chris, apesar de insistir em roupagem moderna, era expert em Rock 1960 / 1970, com uma coleção de vinis gigantesca, inclusive, e uma enorme coleção de Bootlegs dos clássicos. Só de Stones, ele devia ter uns 100 discos piratas, perfazendo um material incrível. Gostei do astral dos rapazes e apesar de não ser o som dos meus sonhos, eu estava há bastante tempo sem um trabalho fixo autoral. Sendo assim, logo no primeiro contato, aceitei a oferta e formou-se aí o Pitbulls on Crack. Mas o nome só veio algum tempo depois. Mais ou menos em março de 1992, é que mediante uma lista e votação, decidiu-se por esse nome. 


A ideia original saiu de uma foto que o Chris viu numa revista americana, onde Steven Tyler (vocalista do Aerosmith), aparecia com uma camiseta, cuja estampa tinha essa frase. Particularmente, achei feio e votei contra, mas os outros nomes propostos eram ainda piores, como "Clap Queen" (Rainha da gonorréia), e outros piores. A intenção era mesmo ser em inglês e ser agressivo, ultrajante. Nada a ver comigo... mas...



Eu acho que se a língua oficial deste país é o português, não há justificativa para cantar-se em inglês, a não ser que um artista tenha planos de carreira internacional. A ideia inicial do Pitbulls era um lugar ao sol na cena nacional, portanto, na minha avaliação, deveria cantar em português. Mas as composições eram do Chris, e ele sempre escreveu em inglês, pois fala fluentemente, morou em Londres por muitos anos, e tocou numa banda famosa da cena punk de lá, o Cock Sparrer.


Chris Skepis fala com sotaque britânico, cockney, e alega que escrever letras em inglês, é muito mais fácil do que português.
Outro dado da época, é que no início dos anos noventa, havia uma cena, principalmente em São Paulo, de bandas cantando em inglês, e fortemente influenciadas pelo Grunge de Seattle. O Pitbulls no seu início, fez inúmeros shows com bandas dessas características.
O fenômeno "Raimundos" foi algo fora desse contexto, e atropelou essa cena de bandas cantando em inglês. 
Na segunda foto, um click proveniente da primeira sessão promocional feita pela banda, em abril de 1992. Foto : Maura Cardoso

Mas faço a ressalva que o nome da banda só foi definido cerca de dois meses depois, e não nos primeiros ensaios. Ensaiávamos num estúdio muito próximo à estação Santa Cruz do Metrô, na Rua Loefgreen, para ser preciso. Era um estúdio numa edícula, construída no fundo de quintal de um Buffet Infantil. Muitas vezes tivemos que passar no meio de festas infantis, e causar espanto por conta de sermos os quatro, cabeludos e carregando instrumentos.



Os donos do estúdio eram dois garotos bem jovens e aficionados de psicodelia sessentista, principalmente Mutantes e o Pink Floyd, fase Syd Barrett. Enquanto ensaiávamos, eles costumavam subir ao telhado da edícula, que já era suspensa e bem alta, para promoverem sessões esfumaçadas, olhando estrelas e dispersar o aroma, para não causar suspeitas ao pessoal do buffet infantil.


O New York Dolls, uma banda de Rock visceral, cru, beirando o mal tocado, mas nem assim, "Punk", como erroneamente é geralmente rotulada 
 
As primeiras músicas foram sendo ensaiadas, e eu notava que eles imprimiam sempre andamentos acelerados, dando aquele jeito de Punk-Rock. Então, eu amenizava, criando linhas mais elaboradas de baixo, e dessa forma tirando o ranço punk, e aproximando a banda mais do Rock'n'Roll tradicional e do Glitter Rock, que sempre usou como influência clara, o Rock'n'Roll cinquentista.


Mas não havia restrição alguma. Pelo contrário, os colegas gostavam das minhas criações, e incentivavam-me a prosseguir sofisticando as linhas.

Nessa primeira leva de músicas ensaiadas logo no começo, lembro-me de uma releitura de "Ticket to Ride" dos Beatles, mas de tão acelerada, ficava descaracterizada. Para quebrar a "punkice", enchi de escalas de Rock'n' Roll e depois que acostumei-me, parei de estranhar aquela versão...



Definido o nome, tiramos as primeiras fotos promocionais num domingo de março de 1992; preparamos o primeiro release, e marcamos o primeiro show para o dia 9 de abril de 1992, numa casa noturna na Rua Augusta em São Paulo, chamada "Armageddon", e dividindo o palco com outra banda na mesma noite, chamada "Runa". Um bom público compareceu nesse show debut, cerca de 200 pessoas. E essa boa receptividade animou-nos.


A despeito da característica do som, diametralmente oposta ao que eu gostava, o Pitbulls foi a aposta no som indie que tanto agrada a mídia mainstream. Após anos dando murro em ponta de faca, resolvi apostar na turma que segura a faca pelo cabo. E o som tinha esse ranço punk, mas não era punk declarado. Era "indie", com um pé nessa modernidade, que de moderna não tem nada, pois não passa de uma eterna corrida de autorama em circuito oval...



E tinha o efeito grunge a ser considerado. 
Naquele início de década de noventa, essa era a onda a ser seguida, e de fato, haviam dúzias de bandas em São Paulo com a mesma característica: cantando em inglês; som calcado naquela moda de Seattle; todo mundo cabeludo novamente, e uma corrida às lojas atrás de instrumentos vintage, jogando no lixo aqueles instrumentinhos medíocres, e metidos a "futuristas" da década de oitenta. Então, falando friamente, acho que o Pitbulls era uma amálgama desses elementos todos e não uma banda de Punk-Rock simplesmente, mesmo porque, comigo no baixo e o Deca como guitarrista fazendo solos a la Angus Young, nem que a proposta da banda fosse essa explicitamente, o resultado final soaria desse jeito.



E tem mais uma coisa: o Chris era obcecado pela modernidade e buscava as últimas tendências de Londres, não de Seattle, mas apesar disso, e de ter feito história numa banda famosa da cena punk' 1977 de lá (tocou no Cock Sparrer), era (é), aficionado de som 1960 / 1970. Sua formação é inteiramente calcada nisso e o progressivo tem forte carga nisso. Ele ama Gentle Giant, por exemplo... 


Nesse primeiro momento da banda, essa carga indie estava mais pronunciada, mas aos poucos, os elementos setentistas começaram a aflorar, como falarei adiante.


Fizemos o show da casa noturna Armageddon, e logo vimos que a banda chamava a atenção, principalmente pelo fato do Chris ter tocado no grupo inglês Cock Sparrer, e eu por ter sido do Língua de Trapo, e A Chave do Sol. Uma pequena matéria com direito a foto, saiu rapidamente na revista Bizz, citando-nos como banda promissora, e na matéria, falavam que apesar de sermos "modernos", tínhamos um certo ar setentista, que remetia ao "Mott the Hoople"...



Portanto para eu e Chris, que adorávamos as bandas do Glitter Rock britânico setentista, foi uma grande menção. Então, aliado ao fato de que o baterista Juan Pastor tinha contatos fortes na cena underground, graças à sua condição de estagiário da 89 FM(que vivia um grande "Boom" de audiência à época, e por uns quatro anos liderou com folga, o ranking das rádios Rock de SP), mais essa certa facilidade que a mídia escrita dava-nos por causa do Chris e  eu (por sermos egressos de bandas significativas dos anos 1970 e 1980), muitas chances apareceriam, e nos próximos meses, mais ainda, como detalharei a seguir.



Shows foram sendo marcados no circuito underground da noite paulistana.Tocamos no Black Jack Bar, Armageddon (novamente); Victoria Pub; Der Tempel; Arkhan Club, e no Move's de Santo André. Uma curiosa ocorrência deu-se nessa ocasião...foi num show em Santo André / SP, numa casa chamada "Move's", no dia 16 de maio de 1992. Era apenas o segundo show oficial do Pitbulls on Crack, e fomos tocar nessa cidade do ABC. Santo André, nos anos oitenta houvera sido um reduto punk, e de Skinheads, também. As histórias de confrontos pela cidade entre as duas tribos, e ambas contra os Headbangers (adeptos do Heavy-Metal), eram inúmeras, e principalmente no entorno da estação central de trem, o perigo era iminente. No início dos anos noventa, esse panorama estava mais ameno, mas ainda havia focos. Fomos tocar no Move's, despreocupadamente, mas quando saímos da casa para irmos embora após o término, havia um grupo de punks na porta esperando-nos. Assim que desci as escadas do bar e saí na calçada, achei que teríamos problemas, mas qual não foi a minha surpresa quando vi os elementos com atitude dócil, esperando o Chris para autografarem capas de Lp's, e tirarem fotos com ele. E os sujeitos pouco importavam-se com o fato dele, Chris, ter cabelos longos, ao estilo Rocker setentista. Trataram-no como a um ídolo.





 


Mas o primeiro grande teste para o Pitbulls on Crack ocorreu num show organizado pela rádio 89 FM, onde abrimos o Golpe de Estado no estacionamento do Parque de Exposições do Anhembi, no dia 4 de julho de 1992, num evento para um público de 10.000 pessoas.




Acostumados a tocar em pequenos palcos de casas noturnas, foi um bom teste, apesar do público não ter empolgado-se, mas claro, seria esperar de mais pelo fato de sermos completamente desconhecidos. 


Mesmo assim, saí do palco satisfeito com as poucas palmas, mas muito mais pela ausência de vaias e hostilidades, tão comuns à bandas novas, sem condições de causar comoção, por não possuir músicas veiculadas no rádio e TV. 



Claro que engatinhávamos ainda, pois era um novo trabalho. Mas na minha ótica, foi um começo promissor e portanto, esse conceito de engatinhar é bem relativo...
Se considerarmos que em janeiro fazíamos o primeiro ensaio, e em abril já tocávamos ao vivo... eu considero um processo bem acelerado, pois montar um repertório de músicas próprias demanda tempo.

E só tocávamos duas releituras: "Ticket to Ride", dos Beatles, e "Cracked Actor", do David Bowie. Para o Pitbulls on Crack, em apenas seis meses, tocar para dez mil pessoas, foi algo espetacular.
Tudo é uma questão de proporcionalidade. Esse engatinhar tinha outra dimensão em relação ao começo do Boca de Céu, por exemplo.

E sendo sincero, acho que pelo fato de eu e o Chris já termos tido uma exposição midiática por conta de outros trabalhos anteriores, facilitou muito, mas sem dúvida que os contatos que o baterista Juan Pastor tinha dentro da Rádio 89 FM, foram os fatores preponderantes para a alavancada do Pitbulls on Crack. Como já mencionei, ele era estagiário dessa emissora logo no início da banda, mas foi crescendo rápido na instituição, e em poucos meses tornou-se locutor; redator de textos, e figura chave entre os programadores. Já naquela época, tornar-se-ia assessor do Tatola, o principal locutor da casa, além de ficar muito amigo do Fábio Massari, outro locutor, que por sua vez, apresentou-o ao Gastão Moreira da MTV etc etc. De contato em contato, portas foram abrindo-se bem rapidamente.


Embalados por essa apresentação para um grande público, tratamos de gravar uma demo-tape, pois nessa altura, os contatos do Juan Pastor fervilhavam nos bastidores da Rádio 89 FM, e aliados aos shows que estávamos fazendo no circuito underground e "indie" da cidade, sugeria-se que oportunidades bateriam na porta, rapidamente.

                      Ao vivo na casa "Cais", em 1992
 

E assim, mais ou menos em junho de 1992, gravamos uma fita Demo, de espírito muito caseiro, no próprio estúdio em que ensaiávamos, usando uma máquina Fostex, com a qual o Chris costumava gravar suas demos caseiras, no seu apartamento.

Gravamos todas as músicas que tínhamos, com exceção das releituras dos Beatles e Bowie, claro. E daí, escolhemos as cinco melhores para compor o material definitivo. Enquanto isso, sucediam-se shows pelo circuito indie da cidade, e começando a melhorar o nível, quando oportunidades para tocar em casas de médio porte começaram a surgir.


 

 
Após tocarmos novamente em casas como "Der Tempel"; "Cais"; Armageddon"; "Victoria Pub"(este último não era uma espelunca, muito pelo contrário, todavia, estava decadente nos anos noventa), e fomos convidados a tocar no "Woodstock", uma casa noturna nos Jardins, que tinha uma estrutura de pequeno teatro, com ótimo palco; luz, e camarins bacanas. Numa segunda oportunidade, tocamos em setembro de 1992, e posteriormente, fizemos dois shows em outubro, abrindo a banda punk "Não Religião".

Essa banda era liderada pelo Tatola, o principal locutor da 89 FM, e obviamente aproveitava-se das benesses da Rádio. E nós, íamos na cauda desse cometa, pois o Juan Pastor era assessor direto do Tatola, e este havia afeiçoado-se ao som do Pitbulls on Crack. E por pura coincidência, o Tatola era (é) palmeirense fanático, e eu encontrei-o diversas vezes em estádios, assistindo os jogos do Palmeiras, o que também ajudou a estreitar nossos laços de amizade. Nesses dois shows no Woodstock, ocorreu um clima muito desagradável entre o Tatola e o dono desse equipamento que também seria o técnico nos shows. É que o equipamento de P.A. usado era o de um famoso músico do Rock brasileiro dos anos setenta, e na passagem de som, ocorreu um incidente.


 
O P.A. alugado para o show, era de propriedade deste famoso músico setentista, e ele mesmo operava-o costumeiramente, apesar de ter técnicos contratados ao seu dispor. Quem conhece-o pessoalmente sabe que ele é um sujeito legal, mas normalmente tenso. Não pise no seu calo, pois é estourado, e ele parte para a briga, decidido a não perder. Então, na passagem de som do "Não Religião", o Tatola pediu para aumentar sua voz no retorno. Não satisfeito com o acréscimo concedido, pediu novamente, e na terceira vez, gritou com ele...
Eu estava na coxia observando o soundcheck, e vi o técnico cortar o som, e pendurar-se literalmente na casinha da técnica, para iniciar um violento bate-boca com muitos xingamentos etc. O Tatola também era temperamental, a responder na mesma altura, e após vários impropérios e ofensas à dignidade das respectivas progenitoras de ambos, o clima serenou-se.

Veio o Pitbulls passar o som, e mesmo vendo o técnico transtornado, tudo correu tranquilo para nós. Conosco era sempre relax, pois os meus colegas não tinham essa característica de nervosismo (e nem eu), muito menos estrelismo.

O técnico foi acalmando-se e entrando no nosso clima descontraído, e rindo das piadas do Chris, que nunca parava um segundo de brincar. Quando encerrou-se o nosso soundcheck, ele passou por perto e disse-me que tinha gostado de nós, e que eu ia ver como a nossa mixagem seria um "brinco", e a do Não Religião, um lixo...
Claro que desaprovo sabotagens, mas isso era entre eles, e o que eu poderia fazer ?  E de fato, o nosso show foi muito bom, com uma monitoração muito caprichada, parecendo um disco para nós, e no show do "Não Religião", parecia uma maçaroca de frequências graves, que arruinavam qualquer chance de entender a voz do Tatola. Tudo bem que o som dos rapazes era no padrão "punk' 1977", com aquela pegada de anti-música etc e tal, mas as letras eram significativas, batendo nas religiões, e sem serem compreendidas, reduziram a banda a uma massa amorfa. E no segundo show, havia uma promoção na bilheteria da casa, e as mulheres entravam de graça. Acho que nunca toquei para uma plateia feminina tão grande (a não ser uma vez na Chave do Sol, mas conto no seu capítulo, certamente).



Apesar de estarmos abrindo para o "Não Religião", não havia muitos fãs deles, não. Aliás, essa banda nunca conseguiu obter grande êxito, mesmo entre o público punk, pois mais aparecia na mídia, devido aos contatos do Tatola, bem relacionado que era.
Tinha um músico legal tocando com eles, que era o Walter "Alemão", baixista experiente e gente boa, que já tocara no Santa Gang, banda de Rock´n´Roll, onde Rubens Gióia teve uma passagem antes de fundar comigo, A Chave do Sol em 1982.
Então, era um público híbrido, que não estava ali para ver as bandas em específico, mas por ser um evento patrocinado pela rádio 89 FM. Demo-nos bem, então, pois o nosso som era mais melódico e nossa postura de palco mais agradável a pessoas que não são aficionadas do tosco punk.

No show do domingo, dia 25 de outubro de 1992, fomos ainda mais favorecidos, pois com um público de mais de 300 garotas predominantemente, nosso show foi em clima de "Bon Jovi", mesmo com as garotas não fazendo nem ideia de quem éramos...
Gritavam, descabelavam-se e ficaram o show inteiro grudadas no palco, tentando tocar nas nossas pernas. Foi hilário !!


Após esses shows do Woodstock, coisas boas foram acontecendo em profusão. Demos entrevista para uma revista chamada "Tribo da Skate". O que tinha a ver com o Pitbulls ? 

Nada... mas a conexão do "pauteiro" da revista certamente foi o passado do Chris com o Cock Sparrer, na Inglaterra.

Tocamos a seguir no Aeroanta, uma casa de shows de médio porte com boa estrutura, na festa do programa "Rock Report", do jornalista e locutor Fábio Massari, da 89 FM e MTV. Concorrida, apesar de ser numa terça-feira, com cerca de 500 pessoas presentes, na noite de 27 de outubro de 1992. E nos bastidores, Tatola dava como certa a produção de uma coletânea com cinco bandas emergentes, pelo Selo Eldorado.

Os rumores davam conta de vários nomes, e o nosso era citado entre os favoritos. Muitas pessoas falavam-nos desses boatos : Fábio Massari, Tatola, Gastão Moreira...

E sabíamos que o produtor de estúdio seria um sujeito chamado Carlos Eduardo Miranda, um gaúcho que tocara numa banda punk obscura do Rio Grande do Sul, chamada : "Atahualpa y os Punks".

Eu lembrava dessa banda e sabia de sua fragilidade musical. Mas o fato é que esse tal Miranda agora morava em São Paulo e estava muito bem enturmado no meio fonográfico e mídia, pois tinha coluna na Revista Bizz.

Toda a cena paulistana efervescente no início dos anos 1990, seguia ou os ventos do grunge de Seattle, ou o indie britânico, ainda de inspiração oitentista do pós-punk. O Brit-Pop noventista (com ares sessentistas), ainda não estava em voga, infelizmente. Havia o lobby em cima do Pitbulls on Crack, graças aos contatos do baterista Juan Pastor, é claro, mas havia outros trunfos, e entre os quais, a atração que Chris Skepis exercia em certas pessoas (Miranda, incluso), por conta de ter tocado por anos no Cock Sparrer. Para os fãs do Punk-Rock '1977, o Cock Sparrer tem grande relevância, por ser contemporâneo dos Sex Pistols, e outros expoentes dessa cena. E convenhamos, falo sempre desses fatores, mas as músicas eram boas. O Chris compõe bem, e comigo e Deca na banda, mais parecia Glitter Rock setentista que qualquer outra coisa.



Fotos do show realizado no Aeroanta, no dia 27 de outubro de 1992, comemorando o aniversário do programa "Rock Report", da rádio 89 FM, apresentado pelo jornalista Fábio Massari.
Nessa noite, tocamos junto com bandas como "Não Religião"; "3 Hombres"; "Rip Monsters"; "Inocentes", e "Devotos de Nossa Senhora de Aparecida".

Não sei exatamente de quem foi a ideia da coletânea da Eldorado.
Mas certamente haviam várias pessoas envolvidas. Por parte do selo Eldorado, o produtor executivo Vagner Garcia, com certeza.



 
 
Na ordem das fotos acima : Wagner Garcia; Tatola; Fábio Massari e Carlos Eduardo Miranda, os artífices da coletânea em que o Pitbulls on Crack debutaria no mundo fonográfico, no ano posterior, 1993
 
Mas como era uma parceria com a emissora da rádio 89 FM, claro que o locutor Tatola tinha um peso nessa decisão, mais Fábio Massari, que ajudou a escolher as bandas e talvez o produtor de estúdio, Carlos Eduardo Miranda. Mas podem ter havido outras pessoas que influenciaram, e eu desconheça-as nesse processo.
O que era para ser mezzo punk / mezzo indie, foi ficando cada vez mais setentista, glitter-Rock, sobretudo.

Nessa altura, as músicas "Under the Light of the Moon" e "Answer Machine", despontavam como as nossas favoritas, internamente falando, para representar-nos na coletânea. E essas músicas, como ficou público e notório posteriormente, eram super setentistas; com riffs; boas melodias, e linhas de baixo e solos de guitarra, bem tocados. Eram, ambas, Glitter-Rock setentista puro. Caberiam portanto, em qualquer disco do David Bowie ou T.Rex...

Essa foto é de um ensaio do Pitbulls on Crack, aproximadamente de março de 1992

Para você, caro leitor, ter uma ideia de como a cena paulistana estava ligada no grunge de Seattle, no final de 1992, entrou em cartaz no circuito de cinema comercial, um filme do diretor americano Cameron Crowe, chamado "Singles" (em português, deram-lhe o nome de "Vida de Solteiro" ). 

Tratava-se de um comédia romântica bem "água-com-açúcar", sem maiores atrativos, se não fosse ambientada em Seattle (com o personagem principal, interpretado pelo ator Matt Dillon), e este personagem não fosse guitarrista de uma banda grunge (no filme, a banda era o Pearl Jam "de verdade").

Com takes de várias bandas daquela cena tocando em casas de médio porte, chamou a atenção dos músicos que seguiam aquele espectro artístico, e faziam a cena paulistana. Fui ver, achei o filme fraco, pois tratava-se na verdade de uma comédia romântica com "jeito de sessão da tarde"(embora adore o Cameron, que depois fez "Almost Famous", este sim, um grande filme ambientado no mundo do Rock setentista). Na sala de cinema onde fui assistir, membros de bandas como "Yo-Ho-Delic"; "Mighty Sound Jungle", e "Anjos dos Becos" estavam presentes na sessão em que eu fui. Chegaram a dar gritinhos em alguns trechos onde apareciam as bandas de Seattle.

Numa determinada cena, o personagem do ator Matt Dillon apareceu no cemitério onde Jimi Hendrix foi enterrado. Quando o close na placa de sua tumba encheu a tela, gritinhos foram ouvidos no cinema. Nessa hora, fiquei até surpreendido, pois naquela altura do campeonato, demonstrarem reverência à um ícone sessentista, era um alento e tanto...
Quanto ao movimento "grunge", isso evidentemente não dizia-me nada. Tirante um som "aqui e ali" do "Soundgarden"; "Alice in Chains", ou "Pearl Jam", o grunge não comovia-me. Curiosamente, o maior expoente do movimento, o tal de "Nirvana", na minha avaliação não passava de um continuísmo do punk Rock oitentista, e para corroborar minha impressão, claro que a "intelligentzia" estendeu seu tapetinho vermelho indevido para esses elementos... só lamento.

O único mérito que eu enxergava nesses artistas de Seattle era um certo resgate de Riffs setentistas; "som de homem", para quebrar a "Era" daqueles veadinhos do pós-punk britânico que dominaram a década de oitenta, e o resgate dos instrumentos vintage, embora isso não fosse algo proposital, pois mesmo de forma involuntária, o fato é que esses moleques de Seattle provocaram no mercado, a vontade de tocar-se com instrumentos de verdade. Após amargar aqueles dândis oitentistas perturbando-nos com sua insipidez musical atroz, e seus instrumentos de brinquedo, na década anterior, esses rapazes de Seattle apareceram empunhando Fender e Gibson, um alento aos nossos ouvidos. Dessas bandas paulistanas que eu citei, o Yo-Ho-Delic era a mais cotada para entrar na coletânea da Eldorado. Tocavam em todas as espeluncas do circuito indie da cidade, pelo menos desde 1991. Mas foram atropelados na reta final. Depois eu conto porque...



Quando a MTV foi inaugurada em outubro de 1990, o som que mais propagavam era o grunge de Seattle, e o funk-metal californiano.
Era a onda daquele momento.

O Pitbulls teoricamente era indie, corria numa terceira via, obscura.
Mas havia um ponto de similaridade com o grunge de Seattle.

Isso se analisarmos o grunge como uma árvore de dois galhos. Num deles, a orientação era o hard setentista britânico, e nessa fonte, foram beber o "Soundgarden"; "Alice in Chains", e "Pearl Jam".
E no outro galho, bandas como "Mudhoney"; "Sonic Youth", e "Nirvana", seguiam a cartilha do punk '1977. Nesse caso, essas três bandas tinham a admiração do Chris, Pastor e Deca. Eu sempre achei o Nirvana, um embuste. Um dos casos mais gritantes de superestimação da história, e um mero continuísmo do punk sofrível. Infelizmente, tornou-se o maior expoente do movimento.
Chegando ao final de 1992, os boatos ficavam mais fortes sobre estarmos entre as bandas escolhidas para estar na coletânea da gravadora Eldorado.

Enquanto isso, fizemos os dois últimos shows do ano: no dia 9 de dezembro de 1992, numa casa chamada "Cadeira Elétrica", para um surpreendente público de 100 pessoas, considerando-se o fato de ser um dia útil....
E o gran finale de 1992, foi um show de choque, num Festival com várias bandas, promovido pela 89 FM. Esse convite veio a calhar, pois selava o ano de 1992, com um show para uma multidão.

Esse show de fim de ano da Rádio 89 FM era tradicional da emissora (a sua concorrente, Brasil 2000 FM também produzia um show de final de ano com várias bandas autorais, curiosamente na mesma casa de shows), e costumava reunir uma multidão numa casa noturna no bairro da Barra Funda, chamada "Broadway". E não foi diferente nessa edição de 1992. Fomos a abertura do show e por conta disso, o público estava muito agitado. Havia 3000 pessoas acotovelando-se dentro da casa, quando subimos ao palco, e no primeiro acorde da primeira música, ficaram ensandecidos.
Claro que não era nenhuma comoção especial para o Pitbulls, mas a excitação para ver começar logo o show, com o forte calor que fazia em dezembro, e com aquela aglomeração humana. Nesse show, tocaram bandas da nova e velha cena paulistana, como "Golpe de Estado"; "Inocentes"; "Não Religião"; "Rip Monsters"; "Viper"; "Yo-Ho-Delic"; "Volkana", e nós, Pitbulls on Crack.
Não tinha a ilusão sobre tal comoção ser referente à nossa presença, pois éramos uma banda dando seus primeiros passos ainda, mas certamente pelo fato de estarem ansiosos pelo show, e ao primeiro sinal de som na caixa, explodiram num frenesi !
Lamento muito, mas as fotos desse show foram perdidas, portanto, fico devendo ilustrações para corroborar a minha narrativa.

Essa foto é de 1993, no camarim da casa "Rádio Show", mas mostra os roadies que auxiliavam-nos naquele período 1992 / 1993. O José Reis é o rapaz de óculos; e o Luis Gustavo, está agachado, usando camiseta escarlate.

Uma história engraçada: um moleque tentava escalar o palco para mexer nos pedais do Deca. Chegou bem perto disso duas vezes.

Na terceira tentativa, o meu amigo José Reis, que trabalhava como roadie do Pitbulls, deu um murro no queixo do infeliz, que voou (literalmente), sendo amparado pelo público. O soco foi tão forte que eu ouvi o ruído desse impacto, embora o som no palco estivesse altíssimo. Temi por uma confusão generalizada, mas nada ocorreu.
Não paramos de tocar, e o Chris teve uma crise de riso vendo essa cena bizarra. Esse moleque deve ter aprendido a lição, e nunca mais tentou azucrinar um artista no palco.


Outra história engraçada desse show, deu-se quando um punk surgiu do nada, vindo correndo da coxia e convenhamos, o que  podia-se esperar de um sujeito com aquela mentalidade truculenta e cheio de preconceitos contra tudo e todos, mas surpreendentemente, seu objetivo era pacífico e prosaico até, eu diria, pois ele abraçou o Chris, dentro daquela prerrogativa de que ele era adorado pelos admiradores do Punk Rock, graças à sua experiência pregressa como componente da banda britânica, Cock Sparrer. Claro que o Chris assustou-se, mas desta vez o propósito de um invasor de palco foi amistoso, e o José Reis não precisou exercer seus dotes de pugilista...


Certamente que foi engraçada a história do soco (menos para o infeliz do moleque...), mas convenhamos, teve o que mereceu o vandalozinho safado, que saiu de casa não para ver um show de Rock, mas para tentar sabotá-lo de alguma forma. Quanto à expectativa em torno da gravadora Eldorado, claro que era grande.
Muitas bandas, não só as de São Paulo cobiçavam essa oportunidade, e cada uma tinha o seu lobby. Nessa hora, quem tem lobby sai na frente, pois qualidade artística é o que menos conta na cabeça de executivos de gravadora. Aliás, esse tipo de gente raramente entende de música. E se entende, cala-se quando adentra o sistema, e aprende a obedecer a cartilha.

Claro, faço a ressalva que na Eldorado isso era atenuado, pois por tratar-se de uma gravadora de médio porte, e ter no catálogo artistas alternativos e nada fabricados para o mainstream, a mentalidade era diferente, ainda bem...

As especulações falavam de várias bandas. Nessa altura, dávamos como certa a contratação do Yo-Ho-Delic, mas isso não ocorreu, porque o dedo do produtor musical Miranda, driblou o favoritismo dessa banda paulistana, e escalou o "Graforréia Xilarmônica", de Porto Alegre. Essa banda era liderada pelo Frank Jorge, um artista famoso na cena underground portoalegrense. O som do Graforréia Xilarmônica era de certa forma muito parecido com o que tornou-se o "Pato Fu", anos depois. Ou seja, misturavam diversas tendências, numa salada musical que atirava para todos os lados. Como no release mesmo deles na coletânea deixou claro, dizendo que iam de Roberto Carlos fase Jovem Guarda, a King Crimson...
Todavia, apesar de parecer uma mistura improvável, a banda era boa, com músicos de qualidade, tanto na execução, quanto composição, e capacidade de arranjar seu material.

Os rumores em torno de uma banda punk de Brasília eram fortes.
Tratava-se de um tal de "Os Raimundos". E de fato, essa banda era a paixão do Miranda no momento, paixão tão forte, que no último momento, resolveu tirá-los da coletânea, para assumir direto um álbum solo, graças ao novo selo chamado "Banguela", que os Titãs acabavam de lançar dentro da multinacional Warner. O Pitbulls continuava bem cotado, mas o acerto mesmo só veio lá por abril de 1993. Enquanto isso, prosseguíamos a nossa rotina de shows no circuito underground. E assim entramos no ano de 1993, com esperanças renovadas, e soando melhor ao vivo, pois estávamos completando um ano de banda.

O Pitbulls estava forte na disputa, pois o Tatola gostava de nós. Sua admiração não era só pelo som, mas pelo fato do nosso baterista, Juan Pastor, ser seu assessor direto na rádio, e principalmente por admirar o fato do Chris Skepis ter tocado numa banda de Punk-Rock britânica, e histórica da cena de 1977. Muita gente bajula o Chris até hoje por isso, e a maioria não sabe que ele tem uma coleção incrível de discos de Rock progressivo dentro de casa...

Ficar sabendo dos rumores de bastidores era fácil. Tinha o Tatola; Fábio Massari, e Gastão Moreira sempre comentando coisas para o Juan Pastor.  E no caso do Gastão, ele era parte interessada também, pois sua banda, o Rip Monsters, estava no páreo, também. Definitivamente, acho que se "Os Raimundos" tivessem sido escalados para a coletânea, não seria o Pitbulls on Crack que seria descartado. Tanto é verdade, que Graforréia Xilarmônica, e Little Quail and the Mad Birds, é que chegaram atropelando, por serem escolhas do produtor Carlos Eduardo Miranda, desbancando favoritos como "Yo-Ho-Delic"; "Virna Lisi", e "Anjos dos Becos", sem contar o "Jazzumbi" e o "Might Sound Jungle". No cômputo final, creio que o Pitbulls estava garantido, assim como o "Rip Monsters" e o "Neanderthal". O fato dos Raimundos serem catapultados a um disco solo, abriu caminho para o "Little Quail" e o "Graforréia Xilarmônica", em minha visão.

Iniciamos o ano de 1993 com um show no Black Jack Bar. Era uma casa pequena, com equipamento de P.A. precário, mas assim mesmo, muito tradicional no circuito Rocker de São Paulo, desde os anos oitenta, com tradição no Hard-Rock e Heavy-Metal, principalmente. Nos anos noventa, abriu mais o seu leque, atraindo também o punk-Rock, o grunge e o indie-rock. Considerando que era janeiro, um mês tradicionalmente fraco por causa das férias escolares, levamos um bom público nesse show, com 100 pagantes aproximadamente (em 8 de janeiro de 1993). Foi um show legal, apesar do áudio prejudicado pela má qualidade do P.A. precário da casa.

Lembro-me que tive a infeliz ideia de usar nesse dia uma camisa bastante estampada, e fui ironizado pelos meus colegas a noite inteira por esse deslize na escolha do figurino, onde compararam-me ao falecido apresentador "Bolinha", que ficara famoso pelo mau gosto no uso de camisas espalhafatosas... mas, claro, era o Pitbulls on Crack, e tudo virava piada imediata !!

O próximo show, demorou para acontecer. Só conseguimos marcar uma nova data em 18 de março de 1993, numa exótica casa noturna chamada "Circular Paulista", no bairro do Bom Retiro, e na verdade, tratava-se de um galpão rústico, onde a atração era um ônibus estilizado, estacionado dentro da casa. Nesse show, dividimos a noite com a banda "Maldades de Pandhora", do meu aluno, Marcos Martines. O Marcos, que era meu aluno e amigo, ficou constrangido pelo fato da filipeta dar destaque à sua banda, e nos colocar como "abertura". O fato, é que obviamente eu sabia que isso não era ideia dele, e para nós do Pitbulls, não importava tal referência em tom de inferioridade, na menção ao nosso nome. Tal colocação foi na verdade uma imposição da vocalista da banda, que tinha uma postura altiva e certamente descortês. Mesmo que a banda dela tivesse esse status de superioridade, e não tinha, pois o Pitbulls era uma banda emergente e com portfólio de mídia mainstream, coisa que a banda dela não tinha, tal atitude era tresloucada, pois estávamos no mesmo barco do underground. Falo isso como dado histórico, deixo claro, pois se não incomodou-me na época, imagine hoje em dia...

Em seguida, outra casa exótica, chamada "Phoenix Rock Theater", no bairro da Barra Funda. Aconteceu no dia 25 de março de 1993.
Nessa altura, já estávamos quase certos na coletânea da Eldorado e providenciávamos documentação para assinar o contrato de gravação. Considerando que todos os discos que eu gravei na Chave do Sol foram independentes, ou parceria com um pequeno selo (Baratos Afins), era a primeira vez na minha carreira, que assinaria com uma gravadora, apesar de já estar com 32 (quase 33 anos de idade, na verdade), e 16 anos de carreira. Coisas da vida...
Começamos a discutir internamente quais seriam as nossas duas músicas escolhidas. "Under the Light of the Moon"; "Answer Machine", e "You've Got Me on The Run", eram as mais cotadas.
Tínhamos que eliminar uma. Já tínhamos também aparições na TV.
Num programa obscuro da TV Gazeta, um pedaço pequeno de nosso show na Broadway em 1992, e uma mini entrevista foi ao ar. E em março de 1993, fizemos uma boa entrevista no programa do Gastão Moreira na MTV.  Aliás, conheci o Gastão Moreira pessoalmente no show da Broadway em dezembro de 1992, e ele contou-me um fato inusitado, naquela noite no camarim...

O caso do Gastão, que mencionei anteriormente, foi que no show que fizemos na casa Broadway, em 1992 na festa da Rádio 89 FM, o Rip Monsters, sua banda, também tocou. No camarim, ele só conhecia o Juan Pastor, e ao ser apresentado aos demais membros,  cumprimentou-me dizendo ser meu fã do tempo da Chave do Sol, e que assistira shows da Chave, no Teatro Lira Paulistana. Falou com grande entusiasmo de tais lembranças, e claro que fiquei surpreendido e honrado, naturalmente.

Na questão da escolha das músicas, visando a gravação do disco / coletânea, tudo foi decidido num consenso entre os quatro.
Não houve interferência da gravadora, ou do produtor de estúdio.
Aliás, só fomos ter contato com ele, no estúdio. Sim, o Gastão já era uma estrela da MTV em 1992, pois fazia parte do primeiro time de VJ's, desde a inauguração da emissora, em 1990. Sua atitude foi de humildade ao contar-me essa passagem no camarim da Broadway.
E dali em diante tornamo-nos amigos, e num futuro bem próximo, dividimos muitos camarins por conta de shows e compromisso de mídia que tivemos em conjunto, por conta da coletânea da Eldorado em que participamos com nossas respectivas bandas. A votação para a escolha das duas músicas que iríamos gravar, foi tranquila mesmo. No final, chegamos à conclusão, sem maiores conflitos.
A documentação era a praxe de qualquer gravadora.
Documentos pessoais; carteira da ordem dos músicos; papelada do GRA para o ECAD etc etc. E dados bancários, claro...

Eu sou membro da Ordem dos Músicos do Brasil, desde 1982. Os demais precisaram adequarem-se nessa burocracia.
Aproveitando, vou contar um caso engraçado :

Na primeira vez que fomos à MTV, fizemos uma boa entrevista.
Nos bastidores, havia outras bandas, esperando a vez de gravarem suas entrevistas, também.

Uma delas era o Viper. Eu conhecia-os desde 1984, e muitas vezes dividimos o palco em shows coletivos, quando eu estava na Chave do Sol. Lembro-me de estar com o Pit Passarel, e o Felipe Machado na sala de maquiagem. Da minha banda naquele instante, estavam o Deca, e o Juan Pastor comigo, e também o meu amigo José Reis, roadie do Pitbulls na época. Foi quando subitamente, entrou uma VJ famosa da casa, que era considerada bonita pela audiência da emissora, para maquiar-se.

Sentou-se na cadeira, e a maquiadora começou a trabalhar etc.
Depois que passou por nós, alguém do Viper (não revelarei quem, mas recordo-me certamente...), disse : -"essa é que a fulana ? Parece bonita na TV, mas não é nada disso..."
Não foi exatamente com essas palavras e diante da pilhéria, ainda que maldosa, caímos na risada...
E no mesmo dia, aguardávamos numa rodinha no corredor, quando entediados pela demora sepulcral e típica de programas de TV, cansamos e sentamo-nos nos degraus da escada. Estávamos também com os membros do Viper juntos, e eu conversava com o César Cardoso, que agora trabalhava na MTV, e houvera sido meu aluno em 1988 / 1989.

Aí apareceu subitamente a VJ Astrid Fontenelle descendo a escada, e vestida com uma saia curtíssima. A conversa parou, ela constrangeu-se por um segundo, mas aí descontraiu dizendo : -"vocês já viram, mesmo" e todo mundo caiu na risada, incluso ela mesma, que desceu brincando, quebrando o constrangimento.
O programa em que fomos entrevistados, foi o "Fúria Metal". Claro que o Pitbulls on Crack não tinha nada a ver com Heavy Metal, mas comparecemos, sem preconceito algum. O astral com o Gastão era ótimo, e a entrevista foi com a banda inteira.

Em relação aos funcionários, a recepção era fria, blasé. Se fôssemos famosos, certamente seria diferente, mas no caso do Pitbulls, éramos somente mais uma banda a andar por aqueles corredores. A questão não era ser uma banda iniciante. Pois todos tínhamos semblantes maduros. A questão era não sermos "hypados". Principalmente no meio onde a MTV inseria-se também, isso é causa preponderante na relação entre artistas e pessoal de mídia, determinando o tipo de tratamento despendido.

Os próximos shows foram com multidão. No dia 3 de abril de 1993, fomos convidados a participar de um micro festival ao ar livre, com o palco montado na porta da loja de discos "Woodstock".

Essa loja era (é), muito tradicional em São Paulo, e nos anos oitenta, era predominantemente frequentada por admiradores do Heavy-Metal, e durante anos, foi um ponto de encontro aos sábados para tal "tribo", quando chegava a reunir centenas de pessoas na calçada próxima a uma das saídas da estação Anhangabaú, do Metrô. No momento noventista, havia perdido muito de sua força, mas ainda tinha fôlego como loja, e a maior prova disso, é que existe (e muito bem, obrigado), até os dias atuais (2014). O festival teve algumas bandas da cena indie noventista, e alguns expoentes do Heavy-Metal. Sinceramente só recordo-me da presença do "Anjo dos Becos" e do "Viper", ao nosso lado. O equipamento disponibilizado para o evento não era dos melhores, mas para o Pitbulls on Crack, que era uma banda de Rock'n Roll visceral e bem básico, tal falta de maior refinamento no áudio não chegava a atrapalhar decisivamente a performance. Mas claro que era incômodo tocar nessas condições...
Duas lembranças extra show vem-me à cabeça :
 

1) No camarim improvisado, no escritório reservado da loja, uma rodinha de músicos conversava tranquilamente enquanto aguardava-se a hora dos shows iniciarem-se, quando surgiu uma conversa falando sobre o comportamento do público de Rock nos anos 1960 e 1970, muito diferente da postura agressiva e alheia, adotada a partir da "revolução punk" de 1977, com o público quase que odiando o artista no palco, a ponto de cogitar-se até a agressão física, de fato. Claro que argumentei sobre isso e expus minha visão, denunciando o estrago causado nessa mentalidade anti-musical, e iconoclástica. É óbvio que nunca simpatizei com "rodas de pogo" (é show de Rock ou rebelião na penitenciária ??); "Stage Dive" / "Mosh", e outras práticas que mais parecem denotar que a música não importa para essa gente, e diante de tais fatos, como posso concordar com tal predisposição ?

No entanto, um componente da banda "Anjo dos Becos" exaltou-se com minha opinião, e simpatizante de tal filosofia, passou a falar que minhas ideias eram ultrapassadas, e estavam lá atrás no Festival de Woodstock, coisa de "hippies e bichos grilos" etc etc. Dizia que eu "não entendia", que o público "moderno" de Rock, fazia essas coisas, porque queria "divertir-se" ...
Ora, ora... que comprasse uma luva de boxe e esmurrasse as paredes de sua casa ouvindo discos de suas bandas prediletas, então, pois o efeito seria o mesmo enquanto diversão e dispêndio de energia infantojuvenil, não é mesmo ? O que ele "não entendia", era que a magia do Rock foi para o ralo quando institui-se que o artista não tinha mais importância, e saber tocar um instrumento era "coisa do passado", pois o bacana era formar bandas com gente que não sabe tocar, e por não saber tocar, ninguém interessa-se por sua música mal feita, e esta só serve como pano de fundo para estripulias juvenis truculentas, como as que citei acima. Esse rapaz na verdade era gente boa, mas sua mentalidade era arraigada num paradigma errôneo, cuja formulação não era culpa dele. Na verdade, era mais uma vítima dessa desgraça perpetrada pelos famigerados "formadores de opinião". Nesses termos, o melhor era encerrar a conversa, pois essa turma que pensava dessa forma, era adepta da máxima sintetizada numa gíria em forma de palavrão, e que denotava o absoluto nivelamento por baixo nos parâmetros culturais. Para eles, tudo, absolutamente tudo, era definido da seguinte maneira : "É ducaraio, véio". Triste.

2) É fato consumado que muitos rockers brasucas ligam-se em futebol, e nos bastidores de shows, é muito comum que sempre haja uma movimentação extra, com muita gente buscando um monitor de TV, ou no mínimo um radinho de pilha para saber dos resultados da rodada, em dias de jogos...


Dessa maneira, havia um "zum zum zum" por parte de alguns, e claro que incluo-me nesse rol, tentando buscar informações sobre o jogo que acontecia naquele momento, válido pelo campeonato paulista de 1993 : Palmeiras x Santos, no Morumbi. Muitos palmeirenses comemoraram a virada do time e o resultado final de 2 x 1, quando já começava a anoitecer e aproximava-se a hora do Pitbulls subir ao palco. Foi quando um ônibus lotado de torcedores do Santos passou, e claro que um palco com bandas de Rock tocando ao ar livre e uma multidão de cabeludos, virou um prato cheio para o bullying inevitável dos sujeitos, gritando impropérios das janelas do veículo. Foi quando numa reação imediata, vários que ali estavam presentes e sabiam do resultado da partida, retrucaram ironizando os santistas ao fazer menção ao resultado do jogo. Os santistas enlouqueceram e ameaçaram precipitar a parada do ônibus para descer e procurar as vias de fato, e nesse caso, não seria nada surpreendente vindo deles, que eram membros de uma das mais tradicionais torcidas uniformizadas daquele clube, e com longo histórico de truculência no curriculum. Não pararam, mas se viessem, não teriam moleza, pois havia também um bom contingente de adeptos do Heavy-Metal, os tais headbangers, e esses sujeitos também não gostavam de levar desaforo para a casa...  
A seguir, no dia 10 de abril de 1993, tocamos no "Garage Rock", uma casa de shows que localizava-se em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. Tocamos junto com bandas como "Anjos dos Becos"; "Jazzumbi", e "X-Rated". O público foi muito bom, com cerca de 1000 pagantes, e como o local era enorme (literalmente uma garagem imensa), organizamos um futebol entre bandas para espantar o tédio da demora entre o soundcheck, e a hora do show.

Começou com uma tampinha de garrafa, mas logo improvisaram a clássica bola de meia, conferindo mais "qualidade" à disputa...
Como salientei acima, acho que desde os Novos Baianos, o futebol tem papel importante entre rockers brasucas. Outra curiosidade engraçada foi que um membro de uma das bandas foi surpreendido pelos seguranças da casa, à vontade com uma groupie, embrenhados na parte abaixo do palco, entre as estruturas metálicas de sustentação. Não vou revelar quem era, mas digo que era conhecido nosso.

E o próximo compromisso, foi participar do tradicional programa ao vivo da Rádio Brasil 2000 FM, que era muito cobiçado pelas bandas, não só de São Paulo, devido à sua boa audiência e sobretudo pelo formato. Isso porque era um programa que permitia às bandas, tocar por uma hora, com entrevista intercalada. E assim, apresentamo-nos no dia 3 de junho de 1993, com a presença de cerca de dez pessoas convidadas apenas, pela dimensão diminuta do estúdio, e entrevistados pelo jornalista / locutor Osmar "Osmi" Santos Jr., idealizador do programa.

Eis abaixo uma versão de "The Shadow of the Light", dessa apresentação na Brasil 2000 FM, num promo criado em 2015, com a ajuda dos produtores Fernando Ceah e Jani Santana Morales, especialmente para o You Tube :
Eis o Link para assistir no You Tube :

https://www.youtube.com/watch?v=R1RQ7CGKEOg&feature=youtu.be



Abaixo, a versão de Cracked Actor, do David Bowie, e que adorávamos fazer, principalmente eu e Chris, porque gostamos muito do mestre camaleão; dos "Spiders From Mars" e toda a cena do Glitter Rock britânico e setentista.

Eis o Link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=nA1oAjzFB6Y


Foi uma apresentação muito divertida com muitas piadas no ar, é claro, sendo proferidas pelos humoristas natos do POC. Tocamos oito músicas nessa apresentação no programa "Clip Independente" : "Under the Light of the Moon"; "The Shadow of the Light"; "Cracked Actor"; "Answer Machine"; "Back in the Junkyard"; "Killers"; "Never Mind"; "Candle Light"e "Ticket to Ride".
"Cracked Actor" e "Ticket to Ride" eram releituras, do David Bowie e Beatles, respectivamente. Dali em diante, começariam as gravações da nossa participação na coletânea "A Vez do Brasil", nome do programa da 89 FM, que ironizava a famigerada "Voz do Brasil", e só tocava bandas nacionais (uma atitude nobre, sem dúvida).


Essa nota publicada no jornal "O Estado de São Paulo", logo no primeiro dia de 1993, dá uma ideia de como havia uma efervescência Rocker em São Paulo, no início dos anos noventa, insinuando levemente que poderia haver uma nova onda de BR-Rock, reeditando a onda oitentista, porém com a estética indie, e ainda que fosse uma espécie de filhote do Pós-Punk oitentista, tinha atenuante por conta da influência que o Grunge de Seattle estava exercendo.

E nesta avaliação de "melhores" de 1992 da Revista Bizz (que era a Bíblia" dos formadores de opinião, infelizmente), o Pitbulls on Crack teve menção espetacular a meu ver. 

Nota-se que o "Skank" ainda era um ilustre desconhecido off-mainstream, e eu recordo-me de que seus membros autoclassificavam-na como uma banda de reggae nessa época, mas já despontavam, e questão de dois anos depois, passariam a visitar o hit parade do mainstream. O mesmo caso de Daniela Mercury, que estouraria como cantora de "axé music", logo a seguir, nos holofotes do mundo mainstream. Quanto aos demais, eram nomes que despontavam no underground, como "Mickey Junkies"; "Virna Lisi"; "Yo-Ho-Delic", e "Gothic Vox". Curiosa a presença do "Second Come" em primeiro lugar, pois ao que consta-me, e corrijam-me se eu estiver errado, essa banda não aconteceu, simplesmente. "Justa Causa" é outro exemplo que não deu em nada, e convenhamos, nem no âmbito underground eu sabia de sua existência à época. "Exhort" era uma banda de Heavy Metal formada ainda nos anos oitenta, cujo baixista, Nando Machado, fora meu aluno, e ele é irmão do Felipe Machado, guitarrista do "Viper", e jornalista. O "Gangrena Gasosa" era uma banda de metal extremo, mas tinha uma curiosa temática, pois todos os seus membros usavam vestimentas ritualísticas do candomblé, e as músicas giravam em torno da terminologia usada entre os membros de tal religião afro-brasileira. Por esse detalhe, era bastante criativa pois investia no surrado espectro do satanismo / ocultismo / demonologia, exaustivamente usado por bandas internacionais desse gênero, mas usando de folclore genuinamente afro-brasileiro para impressionar seus fãs...
Finalmente, o tal de "Xicotinho e Salto Alto" (escrito com X, errado, eu sei...), era uma incógnita para a minha percepção. O que era aquilo, uma dupla sertaneja, ou uma banda de rock satírica ?
Para efeito de autobiografia, chama-me a atenção que no virar de 1992 para 1993, nós tenhamos suplantado o "Yo-Ho-Delic", que vinha de uma labuta mais antiga que a nossa, desde 1991, pelo menos. Além de ter maior longevidade, tal banda quando começamos a dar nossos primeiros passos, era a mais "hypada" nas conversas de bastidores pelas casas noturnas do circuito indie de São Paulo, e também nas rodinhas de jornalistas, músicos e produtores musicais. O fato de nós a termos superado na reta final, mesmo entrando na corrida depois, era extraordinário, e explica um pouco o porque deles terem sido preteridos pela gravadora, a constar da coletânea, e nós confirmados.

Continua...

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