Pesquisar este blog

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pitbulls on Crack - Capítulo 8 - Declínio; Atentado & Despedida - Por Luiz Domingues

Voltando à cronologia dos fatos...

Fomos convidados a participar de um evento de grande porte, como nos primórdios da banda em 1992, tempo em que tais oportunidades surgiam aos montes, graças aos contatos da rádio 89 FM e através do nosso baterista, Juan Pastor. Tal evento seria realizado num espaço novo de shows que estava com uma programação forte de artistas do mainstream, já há algum tempo. Tratava-se de um palco enorme e de concreto, portanto permanente. A estrutura de camarins era boa e o espaço estava acostumado a receber grandes multidões. Era rústico, é verdade, tanto que o espaço reservado ao público, além de ser descoberto, só permitia assistir-se os shows, em pé, por tratar-se de um pátio acimentado.


Chamava-se "Palco da Represa" e ficava no bairro Riacho Grande, em São Bernardo do Campo / SP, e de fato, fazendo jus ao nome, era à margem da represa Billings, uma enorme represa que abastece grande parte de São Paulo, e todas as cidades da região do ABC.
Portanto, era um lugar de bela natureza, mas com a tendência a ser difícil nos meses de outono e inverno, justamente por fazer um frio intenso. O evento era apoiado pela rádio 89 FM, mas tinha uma produção própria. Tinha a característica punk / hard-core como mote, e as atrações seriam : "Ratos de Porão", "Os Raimundos", "Golpe de Estado"; "Os Inocentes", e nós, o "Pitbulls on Crack".

Se fosse só pelas atrações punks envolvidas, teria sido desconfortável, mas com a presença dos amigos do Golpe de Estado (e posso citar também, Os Inocentes, e lendo os capítulos da Chave do Sol, o leitor descobre porque eu sempre tive boa relação de amizade com essa banda), ficou bem mais amena a nossa participação, embora no resultado final, tenhamos colecionado novos aborrecimentos. Aceitamos tocar, claro. O cachet oferecido não era nenhuma maravilha, mas a exposição num show de grande multidão, mais a mídia massiva que seria feita, valeria a pena.

Apesar do "POC" não ser nada sessentista em essência, estávamos com aquele invólucro, devido ao aparato de divulgação da gravadora, a criação da lata etc etc. Se fosse analisar por esse aspecto, certamente que a nossa presença num evento onde forças antagônicas prevaleciam, seria desaconselhável, mas em se tratando do POC, nem preocupávamo-nos com tais considerações estéticas, ou mercadológicas mais pormenorizadas. Então, é claro que aceitamos participar, e logo a propaganda mais vitaminada estava nas ruas (cartazetes e lambe-lambe), e nas ondas radiofônicas.
É lógico que isso era benéfico para nós, ainda mais em se considerando que havíamos recém lançado um novo álbum etc etc.

As fotos ao vivo até aqui, são do Olympia, em outubro de 1996. Clicks de Marcelo Rossi
Bem, a estrutura do festival era boa e disso, não tenho queixas, pelo contrário, elogios. O transporte chegou rigorosamente no horário combinado, tendo a minha casa como endereço base, e com motorista e um assistente de produção, simpáticos e solícitos; um camarim decente, embora fosse o menor (mas isso não incomodava-nos em nada), equipamento condizente com a envergadura do evento etc. Sabíamos de antemão que o público seria hostil, pelo fato de ter Ratos de Porão; Os Inocentes, e Raimundos como atrações principais. Amenizava a nossa barra, a presença do Golpe de Estado, um digno representante do Hard-Rock brasuca, e que tinha tradicionalmente, um público enorme na região do ABC, desde os anos oitenta. Outra capacidade extraordinária do Golpe de Estado, era a de ter uma convivência harmônica com bandas de searas hostis como Punk e Heavy-Metal, onde nunca soube que seu público ou a banda em si, tivesse sido hostilizada em shows híbridos dessa natureza. Portanto, pegando o vácuo dessa "proteção", sentíamo-nos mais seguros.

Claro, esse sentimento era mais meu do que uma expressão coletiva do POC, pois os outros três estavam pouco ou nada preocupados com a possível hostilidade de um público agressivo, hostil e de certa forma, antagônico. Faziam piadas como sempre, e a possibilidade de sermos apedrejados, literalmente, só despertava-lhes a chance de criarem inúmeras piadas, como de hábito.

E havia uma ligação clara do Chris Skepis, com o movimento Punk, o que talvez amenizasse um pouco essa barra. De fato, desde o início das atividades do "POC", sempre houve um assédio positivo de Punks para com o Chris, por conta de sua passagem pelo "Cock Sparrer", banda britânica de Punk, da cena de 1977, portanto contemporânea daquelas bandas iniciadoras do movimento. E assim, sempre observei que ele era realmente muito respeitado e admirado nesse meio, e nem o fato de ter cabelos longos pela cintura, um item antagônico aos ideais dessa gente, incomodava-os. Pelo contrário, vi muitas vezes ele ser abordado por fãs entusiasmados e venerando-o como a um ídolo. Claro que diante dessa perspectiva, também era um alento. Mas convenhamos, talvez isso ocorresse em relação à alguns fãs mais antenados dos Ratos de Porão e Inocentes, mas dificilmente aos seguidores da então última moda noventista. Enfim, era esse o panorama que apresentava-se para esse show, e lá fomos nós...
Fomos bem recebidos pela produção, fizemos o soundcheck sem problemas e fomos para o camarim esperar pela nossa vez de apresentarmo-nos, seria uma longa espera...


 
Apesar do clima galhofeiro e crônico nesse sentido nos bastidores do POC, e da identidade sessentista ser praticamente uma farsa como ideologia da banda, propriamente dita, claro que todo mundo curtia muitos ícones contraculturais e em certos aspectos, havia uma harmonia nesse sentido. Claro, com graus de comprometimento e entusiasmo, diferenciados. Eu estava enlouquecido pela questão do resgate, e vivia como se estivesse em 1967; O Chris e o Deca gostavam muito dessa "vibe", apesar das piadas e o Juan Pastor, bem menos, mas também apreciava alguns aspectos.

Por exemplo, a questão de tentarmos imprimir uma atmosfera sixtie no nosso camarim, para ambientação, e assim, absorvermos uma vibe legal para subir ao palco, e termos um recanto de pós-show, claro. Já estávamos criando esse ambiente em shows recentes, mas nesse, onde sabíamos que ficaríamos horas no camarim, demos uma caprichada maior e ficou bem agradável.

O Deca deu uma produzida, trazendo tecidos indianos de sua casa e dessa forma, montamos uma verdadeira "tenda hippie". Com muitas flores; incensos, e retratos de Deuses hindus e ícones do Rock etc.
E também, providenciou um som de lounge só com a cítara de Ravi Shankar fazendo uma atmosfera incrivelmente relaxante e inspiradora. Nosso camarim tornou-se atração do festival entre os assessores de produção do evento. Veio gente até para fotografar...
Muito interessante, foi que recebemos diversos representantes de fanzines pleiteando entrevistas. Em sua maioria, eram jovenzinhos representantes de fanzines focados no universo do Punk-Rock e enxergavam o POC, como uma banda Punk, sem perceber nada ao nosso redor...
Mesmo com toda a maquiagem sonora e no aparato todo, a questão semiótica é sempre complexa. Uma coisa é acharmos que estamos passando uma mensagem clara e outra, bem diferente, é a maneira pela qual as pessoas interpretam tal mensagem. Bem, confesso que também aprendi lições nesses anos de POC e com esse convívio com pessoas que transitavam entre o Punk; Pós-Punk; e seus derivados todos, incluso o "Indie", aprendi a ser muito mais tolerante e compreensivo nesse aspecto.

Nessa altura, eu já tinha a consciência de que nem todo mundo que gostava do Punk, comungava com aqueles conceitos agressivos de 1977. Moleques desses fanzines, por exemplo, nem suspeitavam que tal movimento em seu nascedouro, era carregado de preconceitos; revanchismos infundados; perseguições e preconceitos sem cabimento. Então, como poderia ter algo contra esses meninos ?
Outro aspecto interessante sobre a montagem de nosso camarim hippie, foi que muitos (muitos mesmo, não estou exagerando), vieram comentar conosco que a notícia de nosso camarim ser todo arrumado daquele jeito, e nós sermos receptivos, destoava do camarim de uma certa outra banda participante do festival, onde haviam sido tratados com rispidez. Bah... como dizia a Gal Costa, naquela velha (e ótima) canção : "Cultura e civilização, elas que se danem"...


Com o Golpe de Estado o convívio era sempre fraternal, claro. E o pessoal dos Inocentes e do Ratos de Porão, também eram bacanas.
Quando deram-nos aviso que em breve iniciar-se-ia o show, pedimos para um de nossos roadies, o meu aluno Ricardo Schevano, ligar o stand-by dos amplificadores, dar uma checada na bateria e mais uma tarefa, que era de ordem de detalhe cênico : colocamos muitos incensos em cima dos amplificadores e praticável de bateria, e muitos ramos de flores frescas que compráramos numa floricultura, naquele mesmo dia.

O conceito "Peace and Love", fazer-se-ia presente perante um público agressivo e avesso, fazendo jus ao aparato de lançamento de nosso disco, contudo, não estávamos no Festival de Monterey de 1967...
Quando o Ricardo subiu ao palco e acendeu os incensos, passou meio batido para aquele mar de moleques de camisetas pretas com estampas abomináveis, mas quando trouxe os ramalhetes e colocou-os nos amplificadores...
Uma vaia muito intensa foi ouvida por nós, chegando ao camarim, e pior, seguida de um coro típico de estádios de futebol, mexendo com ele, na questão de sua sexualidade...
Hoje, o Ricardo está acostumado a tocar em estádios de futebol lotados, para mega plateias, pilotando seu baixo no "Baranga" & "Carro Bomba", e domina qualquer público sem esforço, mas naquela época, ainda muito jovem e inexperiente, ficou bastante chateado com essa provocação e chegou bastante contrariado ao camarim, dizendo nunca mais fazer essa tarefa, e que deveríamos contratar outra pessoa para tal etc etc.

Claro, foi alvo das pilhérias automáticas dos humoristas do "POC"...
Depois ele acalmou-se, trabalhou normalmente durante e após o show e deu risada do bullying coletivo, de cerca de 3000 moleques...
Enfim, chegou a hora de subirmos ao palco e começarmos. Algumas poucas provocações foram ouvidas só por aparecermos no palco, mas nada acintosamente baixo astral. Até em shows tranquilos, a qualquer momento pode surgir uma manifestação inconveniente. Sempre tem um doidão, bêbado ou disposto a ter seus 15 "segundos" de fama...

Raríssima foto desse show no Palco da Represa. Acervo e cortesia de Jason Machado  

Começamos a tocar e aparentemente o público uniformizado de camisetas pretas (impressionante e sintomático, claro...), estava respeitando-nos, sem hostilidades. Foram duas, três, quatro músicas e estávamos até surpreendidos pela falta de manifestações nesse sentido, e até pelo contrário, ao final de cada música, palmas, ainda que espalhadas, eram ouvidas e muitos fazendo aquele ridículo sinal de "malocchio", claramente como demonstração de apoio à banda, devo reconhecer. No meio do show (claro, nosso set list era curto, de aproximadamente 45 minutos, num padrão de banda "open act"), subitamente, uma latinha de refrigerante voou do meio da plateia e caiu no palco.

Olhei para trás e vi o Juan Pastor rindo, pois ficamos dias imaginando que seríamos alvo de uma chuva de latinhas. Claro que se uma lata foi arremessada, na melhor tradição do "atirar a primeira pedra e atiçar o apedrejamento", deu margem ao pior....
Outras começaram a ser arremessadas, e chegou num ponto, onde ficou assustador, pois o volume ficou grande e algumas, vinham pesadas, com o líquido, onde certamente a intenção de seus respectivos arremessadores, era a de atingir o alvo, com o objetivo de machucar os artistas ali presentes, no caso, nós...
Perdoem-me, mas tolerância à parte, nesse quesito eu não consigo concordar com esse tipo de atitude e por favor, poupem-me de contra-argumentações sobre o "desconstrutivismo iconoclástico pós-moderno" ou qualquer outra imbecilidade travestida de um suposto sentido estético / comportamental. Posso ser um hippie démodé, mas ainda acho que se não gosto de um artista, retiro-me do local e não tento agredi-lo, ora, ora...

Por um verdadeiro milagre, nenhuma lata atingiu nenhum membro da banda. Algumas passaram perto e houve um auge dessa saraivada, que mesmo continuando a tocar, e nunca deixarmos de tocar, dava para ouvir o som do zunido de tais bólidos passando por nós, e batendo nos pedestais de microfone; amplificadores; praticável de bateria, e caixas de monitoração. Como continuamos tocando e rindo da situação (era o POC, ora...), o ataque diminuiu e parou, com a banda chegando a tocar mais uma ou duas músicas, não recordo-me com precisão. Pasmem ! O público ao final aplaudiu e aumentou muito o número de moleques que ergueram suas mãos para saudar-nos com o abominável "malocchio" (aquela imbecilidade de associar o Rock a um sinal que remete a uma manifestação oriunda da Idade Média), mas claro, eu entendia que era a forma "carinhosa" de expressar que haviam gostado, talvez não de nossa música, mas da atitude de continuar tocando e não retaliar o ataque de latinhas. Vai entender o raciocínio e visão ética desse tipo de moleque ??

Então, não resisti e vivendo aquela loucura idiossincrática de resgatar os valores que amava, forcei uma barra, aproveitando-me desse momento ameno : fiquei com os dois braços erguidos, fazendo o sinal de "Peace and Love", correndo o risco, mesmo.
Já estava convencido de que aquilo já não soaria como uma provocação, pois era claro que aquela molecada de 1997, nem sonhava com as implicações ideológicas de 1977. E surpreendentemente, muitos começaram a repetir o meu sinal.
Pouco importava se entendiam a implicação de tudo isso. O importante, é que apesar de tudo, o POC saiu respeitado do palco, apesar do ataque gratuito, e aquelas centenas de mãozinhas fazendo "peace and love", valeu-me, naquela tarde.

Assistimos boa parte do show do Golpe de Estado, e quando estavam mudando o palco para o set up dos Ratos de Porão, desmontamos a nossa tenda hippie, e embarcamos na van, voltando para a casa. Já era noite e toda essa história ocorreu no dia 26 de abril de 1997, um sábado. Cerca de 3000 pessoas estavam presentes no "Palco da Represa", nesse micro-festival. Curiosamente, ainda haveria um lampejo de oportunidade gerida pelos contatos do Juan Pastor. Seria o penúltimo, de uma longa série iniciada em 1992...
Finzinho de meu tempo com o Pitbulls On Crack...

Passado esse show no "Palco da Represa", foi diminuindo bem a onda em torno da novidade do último CD, o que aliás, era algo muito natural. Tirante grandes artistas do mainstream, que tem muito mais exposição, não dava para esperar muito mais sobre a atenção que poderíamos despertar na mídia. Sem empresário, e com a gravadora tirando o pé do acelerador de forma acintosa, praticamente ficamos sem chão, novamente. Eu não diria que voltar à luta de 1992, fosse a melhor solução, mas francamente, não parecia restar-nos outra alternativa, doravante, ou seja, sairmos tocando novamente no circuito off do off, os buracos do circuito indie paulistano etc etc.

De minha parte, não teria nenhum problema em adotar essa estratégia de recuperação do fôlego, mas desde que estivesse fazendo um som que realmente acreditasse e o POC, apesar de eu gostar do trabalho, não era 100 % o que eu gostaria de fazer.
Enquanto a banda vivia esse conflito interno, ainda haveria um último suspiro das boas chances que surgiram em toda a história do "POC", graças aos contatos e esforços do nosso baterista, Juan Pastor.

Seria um show no interior de São Paulo, mais precisamente na cidade de Sorocaba, onde num clube local, haveriam os shows de duas bandas que despontavam no mainstream naquele momento : "O Rappa" e "Planet Hemp". Claro que aceitamos, e de fato seria uma boa oportunidade de tocar novamente para um grande público, com estrutura de som e luz de primeira etc etc. Desta feita, sem cachet, mas com despesas pagas etc.

Nessa altura, com quase 37 anos de idade e 21 de carreira, começava a incomodar-me essas propostas supostamente boas, de fazer shows gratuitos como "investimento de carreira". Essa conversa equivocada de empresário e marqueteiros, na prática era uma tremenda de uma mentira e continua sendo, é claro. Quase como um jogo de roleta, a possibilidade disso gerar um dividendo certo, é quase nula. Você entra para o mainstream por uma conjunção de fatores e o simples sacrifício de tocar de graça, nesse tipo de show, não é garantia de nada. Bem, aceitamos, tínhamos um disco novo para divulgar e uma carreira para seguir, ainda que numa fase que apresentava-se como decadente, e com sinais de irreversibilidade bem nítidos, enfim...
Mas antes de falar sobre o show em si, às vésperas dessa data, quase passamos por uma tragédia, os quatro, e vale a pena contar essa história, ainda que seja baixo astral e com jeitinho de programas policialescos da TV aberta...

Estávamos desde o segundo semestre de 1994, ensaiando num estúdio no bairro do Ipiranga, zona sudeste de São Paulo. Chamava-se "Spectrum" e lá, no ano de 1996, acabamos gravando o CD "Lift Off", conforme já relatei amplamente. Éramos bem tratados pelos donos e pelos funcionários, e estávamos habituados ao seu funcionamento etc etc. Mas eles tinham um problema estrutural em relação à estacionamento para clientes. Apesar de ser instalado num antigo casarão residencial bem amplo, não dava para garantir o abrigo para 15 a 20 carros de clientes que ali frequentavam-no todas as noites...

Eles tinham quatro salas de ensaios e, na parte de cima, funcionava o estúdio de gravação, ou seja, ficava um trânsito de 25 a 30 pessoas, fora os funcionários do estúdio, e possíveis convidados das bandas. A solução encontrada foi alugar o espaço de uma empresa que ficava no outro lado da avenida, e que só funcionava até as 18 horas, portanto liberava para os clientes do Spectrum, no período noturno. Acostumamo-nos com a rotina de entrar pela Av. do Estado, dar a volta no quarteirão e pegar a pista da Av. Dom Pedro I, sentido centro, para poder estacionar naquele local alternativo e depois atravessar a perigosa avenida para acessar o Spectrum, por etapas, pois são quatro pistas, separadas por ilhas com árvores grandes.

Um visão noturna da avenida Dom Pedro I, no Ipiranga, com suas quatro pistas separadas por ilhas arborizadas

Foi assim por bastante tempo e nunca sentimo-nos inseguros, pois mesmo tendo que atravessar a avenida por etapas e carregando instrumentos, havia um segurança armado do estacionamento alternativo, que dava um suporte etc. Mas não contávamos com um evento digno de seriados policiais americanos, justo no ensaio prévio que antecederia o show de Sorocaba...

Chris Skepis e Juan Pastor, conversando com o simpático Ítalo, um dos proprietários do Spectrum.

Era uma quarta-feira normal, chegamos para ensaiar as dez da noite, com encerramento previsto para a meia-noite, como de costume. O estúdio estava lotado e tudo correu normal, como de praxe. Na saída, o clima era ameno, estávamos tranquilos e outras bandas também estavam indo embora, simultaneamente. Eram cerca de 20 músicos saindo juntos com instrumentos na mão, e todos tendo que atravessar a avenida, e caminhar em direção aos vários carros que ali aguardavam-nos. Eu não notei (e acho que ninguém), que o guardinha do estacionamento não estava ali esperando-nos, e isso era a sua praxe, pois costumava esperar por eventuais "caixinhas" dos clientes do estúdio. Atravessamos a primeira parte da avenida e quando estávamos chegando à segunda ilha de proteção, um bando de homens vestidos de preto, com feições orientais e munidos de pistolas prateadas e reluzentes, saíram muito rapidamente de trás de nossos carros, atirando com tudo !!


Numa fração de segundos, pensei ser um assalto, mas logo percebi que nós não éramos o alvo, pois eles passaram por nós atirando em direção de onde saíramos, e alguém contra-atacava, pois balas vinham pelas nossas costas, também. Todo mundo saiu correndo em disparada, e abrigou-se nos carros. Era bala para tudo o que é lado, num tiroteio muito forte, e nós todos ali no fogo cruzado, podendo ser alvejados a qualquer momento !!

Lembro do Chris ter tido o ímpeto de jogar o estojo de sua guitarra na pista da Avenida Dom Pedro I, e sair correndo. A guitarra ficou jogada na pista interna sentido centro, onde tem fluxo pesado de ônibus e por sorte, não havia grande movimento, devido ao horário.
Mas o fato dele ter jogado a guitarra no chão não fora um caso pensado de autodefesa, para com isso ganhar mais mobilidade para correr. O fato lastimável, foi que ele foi alvejado de raspão no cotovelo e o impacto, ainda que não certeiro, deu-lhe o reflexo de soltar o estojo e na correria, depois de achar um abrigo, não haveria meios de voltar à avenida, em meio àquela saraivada de tiros.
Enquanto todos correram e abrigaram-se com muita rapidez, a minha reação foi muito estranha e preciso explicar bem para não ser interpretado mal.

Eu continuei caminhando calmamente, segurando o estojo do meu baixo e só quando cheguei à calçada, fui buscar com calma, um abrigo atrás de um carro. Ouvi os gritos do Juan Pastor e do Deca, chamando-me pelo nome e cobrando-me mais agilidade, mas não sei dizer o motivo exato, porém não senti medo algum, apesar de ser um cenário de massacre, literalmente. Uma vez atrás dos carros, o cenário era de front. Senti-me numa trincheira literalmente, pois víamos a cena da guerra, agora de frente e as pessoas ali entrincheiradas comunicavam-se com certo desespero. Cada banda parecia procurar por seus membros e ouvíamos gritos chamando por nomes, todos preocupados com todos.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff200611.htm
 

Matéria na Folha de São Paulo, na época,cobrindo tal evento criminoso.

Havia um temor óbvio de que aqueles pistoleiros voltassem para liquidar ou assaltar-nos sei lá, mas depois ficamos sabendo que aquilo era um acerto de contas de uma organização mafiosa de orientais e nada tinha a ver conosco. Só estávamos na hora errada, e no lugar errado para correr o risco de morrer gratuitamente, pela briga de estranhos. Ainda com o tiroteio pegando fogo, eu vi um dos homens que os pistoleiros estavam atacando, morrer, caindo lentamente escorado numa árvore na ilha da avenida. Foi muito parecido com cenas de filmes policiais americanos, mas era estranho ver algo acontecendo assim, na vida real. Era um sujeito também oriental e morreu sentado, escorado na árvore, com o revolver na mão. De longe, parecia um convencional "38", mas os matadores profissionais usavam armas automáticas modernas que reluziam de tão prateadas, e naturalmente eram mais precisas e de maior calibre. Por sorte, no auge do tiroteio, uma viatura virou a esquina da Rua Independência e entrou na Avenida Dom Pedro I. Claro que dois policiais com revólveres 38 não tinham como enfrentar e dominar pistoleiros hábeis e fortemente armados, e convenhamos, naquele fogo cruzado, quem deveriam defender ou confrontar ?  Mas chamaram reforços que começaram a aparecer e alguns minutos depois, muitas outras viaturas apareceram, ambulâncias etc.

Quando amenizou, o Deca levou o Chris ao Pronto-Socorro e por sorte foi só raspão, mesmo, mas o médico imobilizou o braço dele.
Ficamos dois dias pensando em cancelar a nossa participação em Sorocaba, mas o Chris não abria mão de fazer o espetáculo e na última hora, convenceu-nos a fazer o show só com a guitarra do Deca, e ele cantando como frontman, coisa que aliás ele cumpria bem, também, mas seria com o braço na tipoia. Quanto ao massacre da Avenida Dom Pedro I, a explicação fora essa : tal avenida, era extremamente residencial, muitas décadas atrás. Muitos casarões de grande porte compunham-na, alguns, até eram suntuosas mansões. Com o tempo, as famílias foram alugando seus casarões para comércio, caso do próprio Spectrum. Então, nós nunca havíamos percebido, mas a casa ao lado era um prostíbulo de garotas coreanas. Com muita discrição, ninguém percebia o que acontecia ali e nesse dia demos o azar de haver um acerto de contas com o dono do estabelecimento. Portanto, os tiros que vieram pelas nossas costas e um deles passou perto do cotovelo do Chris, eram dos seguranças do dono do prostíbulo que tentaram defendê-lo. Bem, teve mortes, prisões, vimos as prostitutas coreanas sendo presas, alguns feridos para a ambulância e o Chris ficou mais pelo susto, ainda bem...

Só complementando  o episódio do tiroteio de coreanos, a repercussão desse caso foi enorme. No dia seguinte, todos os jornais publicaram matérias gigantes, e foi destaque nas suas respectivas capas. Todos os noticiários de rádio e TV deram destaque, também, e até no Jornal Nacional, da TV Globo, foi falado com ênfase. Ainda na cena do crime, um dos músicos que estavam nesse sufoco, e que eu não conhecia, achou uma pistola deles na calçada, e entregou-a para um policial, depois que estava tudo sob controle.

Outro, de outra banda, pegou cápsulas de projéteis que achou pelo chão e pasmo, disse ter contado mais de 90, só ali naquele pequeno espaço onde ficamos abrigados. Vários carros foram alvejados, buracos nos muros das casas, e algumas vidraças foram quebradas...
Conclusão : foi um milagre ninguém ter morrido ou ter sido ferido gravemente. Só o Chris foi alvejado de raspão, sem gravidade. O fato de termos ficado num fogo cruzado, entre 6 pistoleiros de um lado e 4 do outro, significava um autêntico campo de batalha. Só um último detalhe : e o guardinha do estacionamento ??  Quando tudo acalmou-se, ele saiu da casa e disse-nos, que os orientais chegaram e de armas em punho, "convidaram-no" a entrar na casa e não chamar a polícia. Disseram que não eram assaltantes e que ele não metesse-se em seu negócio, pois o matariam se ele não cooperasse. Pode ser verdade, claro.

Mas também correu a história que ele protegeu-se assim que viu os elementos chegando. Nesse caso, já deveria ter chamado a polícia e avisado o pessoal do Spectrum a não deixar ninguém sair do estúdio. Prefiro acreditar que foi omisso pela primeira hipótese...
Convencidos a fazer o show com o Chris de braço imobilizado, o próximo passo foi ir à Sorocaba. E claro, era o POC...
Na van, em uma hora de estrada, foi uma sessão de gargalhadas ininterruptas, e adivinhem quais eram as piadas...


Chegamos em Sorocaba, em cima da hora, sem chance para fazer um soundcheck confortável. De fato, era a sede social de um clube.
Bem afastado da cidade, lembro-me de chegarmos àquela grande cidade interiorana, já ao anoitecer e andarmos naquela enorme avenida que circunda a cidade inteira, uma espécie de marginal local.

Passamos rapidamente pela sede da 89 FM local, que era uma afiliada / filial da estação de São Paulo, e apoiava o show, logicamente. Após dar um alô rápido para os ouvintes, num esforço final de promoção do evento, fomos para o clube. Chegando, fomos conduzidos ao camarim, que tinha um lanche farto, mas havia uma certa tensão no ar. Não era nada conosco, mas dava para notar que havia algum problema relacionado aos seguranças contratados, talvez por alguma discordância sobre metodologia de trabalho, pois chegamos a ouvir alguns produtores irritados, dando-nos a entender que houvera ocorrido algum desrespeito da parte de um segurança etc. Enfim, não era problema nosso, e de clima tenso queríamos distância, após o tiroteio ocorrido na quarta-feira anterior...

Um pouco antes de subirmos ao palco, haveria uma intervenção em off de um trio de humoristas que estavam na crista da onda da programação da 89 FM. Chamavam-se : "Os Sobrinhos do Ataíde".
Esses rapazes acabaram migrando para a MTV posteriormente e lá prosperaram com o "Rock Gol", aquele campeonato de bandas (o Pitbulls chegou a ser sondado, mas como o Deca e o Chris alegaram não ter interesse, só eu e Juan Pastor e mais roadies para formar o time, não caracterizaria a banda, e assim, fomos descartados).
Mas nesse dia, apesar deles serem amigos do Juan Pastor, particularmente não apreciei a postura deles no camarim. Bastante altivos, pareciam estar já no processo do sucesso subindo-lhes à cabeça. Para ser justo, um deles era legal e foi educado conosco.
Curiosamente, foi o rapaz que sumiu, pois os dois outros que ficaram famosos na MTV e posteriormente na TV Bandeirantes, estavam com postura diferente. Após a intervenção deles, que foi caótica pelo fato de seus microfones não estarem com uma boa equalização, entramos para o nosso show.

Estávamos apreensivos por tocar sem a guitarra do Chris, não que não virássemo-nos em trio, mas mais pela falta de costume, visto que nunca deixamos de ter sua base harmônica, em todos os shows da banda, desde o início.
Rara foto no camarim desse show em Sorocaba, com a web designer / ilustradora da capa do nosso CD Lift Off, Marina Yoshie. Foto do acervo dela, Marina Yoshie (grato pela cortesia !)

Mas a apresentação foi muito energética, talvez pelo fato de que quiséssemos compensar a falta de uma guitarra, todos pareciam estar dando um algo a mais. E o Chris, sem a obrigação de tocar e ficar estático no centro do palco, assumiu com muita naturalidade o seu lado de "frontman". Desde o primeiro instante, apanhou o microfone, e saiu andando pelo palco, com grande desenvoltura.

De fato, foi assim que eu o conhecera sete anos antes, quando fizemos parte de uma série de shows / Tributo ao Black Sabbath, na banda cover, "Electric Funeral". Então, ele tinha essa capacidade e não foi nada difícil ter essa presença de palco. Arrancamos aplausos, mas nada entusiasmado, pois o público era certamente interessado nas duas bandas cariocas, "O Rappa" e o "Planet Hemp".

Bem, não posso queixar-me, pois não houve hostilidades, e se não houve uma reação arrebatadora, de certo não foi nada mau e arrancamos alguns aplausos. Era óbvio que bandas mainstream massacradas na mídia, fizessem mais sucesso que uma banda underground como a nossa, fora o fato de cantarmos em inglês, realmente um grande erro estratégico, mercadologicamente falando. Isso ocorreu no dia 21 de junho de 1997, na cidade de Sorocaba, com a presença de 4000 pessoas na arena. Lamento muito não ter fotos desse show, com palco grande; boa iluminação, e uma multidão na plateia.


O próximo passo seria enfim um show só nosso, e num espaço onde costumava ser sempre agradável apresentar-se pela estrutura boa à disposição, tradição de shows na cidade e localização excelente. Tratava-se do Centro Cultural São Paulo, um enorme complexo cultural multiuso e acoplado a uma estação do metrô. Tocaríamos sozinhos, embora a nossa participação estivesse vinculada a um festival anual, geralmente produzido no mês de julho, naquele espaço, e denominado "Sintonia do Rock".

Eu, Luiz Domingues e Rodrigo Hid, em foto de 1996, na minha sala de aulas

Como já tinha ocorrido no show do "Pitstock", convidamos novamente o jovem Rodrigo Hid para tocar teclados e desta vez, com a possibilidade de usar o piano acústico do CCSP, sua participação seria muito mais rica, do que naquela ocasião, onde sua participação restringiu-se ao uso do sintetizador Mini-Moog.

Como a banda não esmerava-se muito na parte estrutural e entre outros atributos, a divulgação de shows, essa parte foi feita muito precariamente, como de costume. Praticamente contando com a tímida divulgação da parte do Centro Cultural São Paulo, apenas, e quase nada mais (se fosse hoje em dia, a internet cairia como uma luva para a mentalidade "low profile" da banda, nesse quesito), realmente não dava para esperar uma multidão presente.

O show foi tranquilo e a participação do Rodrigo enriqueceu mesmo o som, com ele tocando bem piano e Mini-Moog. Interessante notar que toda aquela atmosfera "hippie" evocada no aparato da lata e na tenda que montamos no camarim, já era a vibe que eu e Rodrigo construiríamos pouco tempo depois ao formarmos o "Sidharta", e que desembocar-se-ia na Patrulha do Espaço, a partir de 1999. Mas é fácil observar essa coincidência agora, com tantos anos de distância. Pois nessa época, eu só sentia cansaço por ver o "POC" não ter mais para onde ir, e todo aquele "sonho", não passar disso, na prática : um "sonho"...

Daí passei a fomentar na minha cabeça a ideia de buscar o meu caminho, saindo do POC e indo formar uma banda de características radicais nesse sentido, enfim, mas ainda não era uma decisão tomada. Só dois meses depois isso aconteceria de fato. Portanto, quando digo que eram os estertores do POC, baseio-me muito mais na minha perspectiva pessoal, pois eram de fato meus últimos momentos na banda. O POC continuaria sem a minha presença, com dois baixistas sucessivos após a minha saída, mas de fato, a perspectiva que eu sentia, de forma pessoal, confirmar-se-ia, pois a banda arrastou-se por mais algum tempo, e naquela toada de shows sazonais.

Enfim, ainda falando desse show, a presença melancólica de apenas 60 pessoas, em sua maioria esmagadora, formada pelo meu exército de Neo-Hippies, dava a mostra de que o POC, infelizmente, esgotara as suas possibilidades de expansão. Foi assim, em 4 de julho de 1997, que apresentamo-nos no Centro Cultural São Paulo, com 60 pessoas na plateia.


Alguns dias depois, ainda no mês de julho de 1997, faríamos um show num festival realizado na cidade mineira de Caxambu. Era mais uma vez um contato do nosso baterista, Juan Pastor, mas não tratava-se de um show patrocinado ou apoiado pela Rádio 89 FM, mesmo porque ficava fora do seu domínio natural. Esse festival era uma tradição anual daquela simpática cidade interiorana, e privilegiava bandas independentes, e autorais, o que era sem dúvida, algo muito louvável.

Uma série de bandas apresentar-se-iam em quatro dias de eventos, e estávamos escalados para tocar no sábado, dia 26 de julho. Mas, por conta da logística do transporte que fora-nos oferecido, partimos para Caxambu na noite de quinta-feira, chegando lá na sexta pelo início da manhã, bem cedinho. Tratava-se de um ônibus fretado pela organização, e que teve como ponto de partida, o Centro Cultural São Paulo, onde geralmente muitas empresas de turismo marcam saídas para excursões particulares. Haveria bandas de Minas Gerais; São Paulo; e Rio de Janeiro, nesse festival e lembro-me de que no nosso ônibus, viajarmos com o "Pin Ups", da baixista Alê (com a qual tivemos conversações em 1994, visando assinarmos com a gravadora "Roadrunner"); "The Charts", e "Soul 4 Everybody", entre outras. A primeira lembrança dessa viagem, foi de um produtor do festival, falando em tom duro, meio militarizado, que todo mundo que estava carregando drogas na bagagem, deveria tratar de livrar-se do material ilícito, porque era praxe da polícia rodoviária, surpreender ônibus fretados naquela região toda do sul de Minas, porque era grande o número de "malucos" transitando por ali, principalmente pelo fato de existir uma enorme tradição de hippies indo à São Tomé das Letras, uma cidade onde definitivamente, "o sonho nunca acabou"...

Bem, não era absurda a advertência do rapaz, mas confesso que achei sombrio o seu tom de voz, embora ele mesmo, tivesse visual de "grunger". Certamente estava acostumado com as batidas da polícia e com os transtornos acarretados por tais eventos, já que ônibus fretados, e cheio de músicos doidos, e freaks em geral, devia fazer parte de sua rotina de vida. A viagem foi tranquila e demorada, pois apesar da distância não ser tão grande (olhando no mapa do Brasil, Caxambu fica bem perto daquela tríplice fronteira entre São Paulo; Minas; e Rio de Janeiro, numa região serrana), o fato de ser um trecho muito montanhoso e sinuoso, era por conta de que depois que utilizamos uma estrada menor, após ultrapassarmos Campos do Jordão, tornava o percurso lento. Fazia um frio de rachar, com muita neblina e por ser noite, claro que o motorista foi bem prudente e pisou no acelerador com parcimônia...
Mas quando estávamos quase chegando, uma inevitável batida policial realmente aconteceu, causando um atraso significativo.

Foto rara dessa viagem, do acervo de Jason Machado, que viajou conosco, trabalhando como roadie. Eu, Luiz Domingues e Juan Pastor, na porta do hotel, em Caxambu-MG, manhã de 25 de julho de 1997. Acervo e cortesia de Jason Machado

A segunda lembrança, foi chegar ao hotel com o dia amanhecendo e ser recebido com um café da manhã muito bom. Confesso, foi o melhor pão de queijo que comi na minha vida, saindo do forno naquele instante, e muito quente, contrastando com aquele frio intenso que fazia. Honrou a fama que tal iguaria mineira, tinha. Não tínhamos atividades naquele dia e pudemos dormir até tarde, quando após o almoço, saímos para conhecer a cidade. Foram momentos divertidos vividos no hotel, sempre com o tradicional festival de piadas imediatas dos humoristas do POC, etc. No período noturno, fomos à praça pública onde realizavam-se os shows do festival. Era um frio forte, com um pouco de névoa. No termômetro público, por volta das 23:00 h. , marcava-se 7°...
Lembro do show do "Pin Ups" e que estava agradável com aquele trabalho deles, meio inspirado no glitter rock setentista (ao menos era o que eu enxergava de positivo neles), mas a vocalista Alê perdeu-se um pouco ao fazer um discurso inflamado sobre o direito de cantar em inglês etc etc. Claro que ela tinha o direito de cantar no idioma que quisesse, mas daí a irritar-se por ter gente que não concorda com tal determinação, podia até ser, mas achei que passou da conta falar isso no microfone, publicamente, como um desabafo...
Por outro lado, o clima na praça estava um pouco tenso. Havia tantos policiais à paisana, que o fato de estarem supostamente "disfarçados", nem fazia diferença. Seus semblantes tensos e de intenção de vigilância, denunciavam-nos. Fiquei cansado dessa tensão psicológica e não havendo nenhuma banda que despertasse a minha intenção para justificar minha presença naquele frio, e sob esse tipo de baixo astral miliciano, portanto, despedi-me dos amigos que resolveram ficar mais, e preferi voltar ao hotel, onde o cobertor quentinho e uma TV, far-me-iam mais feliz...


Acordamos com um quase susto. Recebemos a informação de que um roadie nosso, o nosso amigo Toni Rodrigues Peres (guitarrista do Essex, e irmão do meu aluno, Alexandre), tivera um problema ao tentar passear num teleférico que ali existia. De fato, era uma atração muito bonita para turistas, tratando-se de um passeio com uma vista fantástica das montanhas de Minas. Mas por azar, deu um problema na cadeira que ele usava, e por alguns minutos, uma tensão fora instaurada, porque a altura era muito grande. São e salvo no chão, novamente, mas bastante assustado com o perigo que vivenciara, tal notícia deixou-nos apreensivos. Bem, com a calma restabelecida, tínhamos ainda muitas horas antes de irmos ao palco do festival para o soundcheck. Nesse ínterim, fomos, eu e Chris Skepis ao centro da cidade, e resolvemos tomar um suco, numa lanchonete.

Impressionante, estávamos em 1997, o festival já existia há anos e todo o sul de Minas é frequentado por freaks; hippies; rockers, e doidos em geral, desde o final dos anos sessenta, contudo, sofremos um bullying !! Pessoas da lanchonete estavam olhando-nos como se fôssemos alienígenas !! Quando saímos, e estávamos caminhando de volta ao hotel, um grupo de crianças veio andando atrás de nós e uma perguntou-nos : -"por que tínhamos "cabelo de mulher"...?
Ha ha ha... O Chris adorou, dizendo-me estar sentindo-se em 1962, com esse tipo de questionamento social ocorrendo conosco em pleno 1997...

Achei muito estranho esse comportamento, por todos os motivos que já expus acima. Enfim, fomos passar o som, e como era de se esperar, o soundcheck foi tenso e bastante superficial. Mas como o POC era uma banda tranquila e sem grandes exigências no seu "imput list" e "rider técnico", tudo encaixava-se rapidamente. Só tínhamos um vocalista e todo o instrumental resolvia-se de forma muito simples. O ponto negativo deu-se com o contato agressivo e arrogante de uma banda do Rio, que estava fazendo um pequeno barulho na mídia, seguindo o vácuo de bandas de trogloditas usando bermudas, contemporâneas suas. Sendo bastante arrogantes, pressionaram os organizadores para que a nossa passagem fosse encurtada, visto que queriam realizar a sua. Sua empáfia era absurda, e de certa forma coerente com a droga de música que faziam, com suas péssimas influências e intenções. Enfim, uma cambada de moleques de bermudas, sem educação e achando-se o máximo, por terem uma musiquinha mequetrefe tocando no rádio, naquele efêmero instante. Voltamos ao hotel e após o jantar, dirigimo-nos ao local do show, onde já havia começado o evento. A banda que antecedia-nos era o "Soul 4 Everybody", que surpreendeu-me positivamente. Era de fato, uma banda de soul music; com ótimas influências 1960 / 1970 dentro da Black Music; bons músicos e vocalistas, e com bastante swing. Um verdadeiro oásis dentro de um festival, onde a maioria era indie, ou peso pesado das cavernas habitadas por seres cro-magnon, como a banda que citei acima. Menção honrosa, gostei também do "The Charts", que nitidamente fazia um som de "Bubblegum" sixtie, na onda do "Supergrass" e outras bandas similares, e oriundas do "Britpop" noventista. Chegou a nossa vez de tocar. Nosso show foi morno, devo dizer. Não empolgou, mas tampouco despertou contrariedades no público presente.

Tocamos o nosso set, sem sustos, e a receptividade do público não passou do "respeitoso". Se fosse para dar uma nota, seria um show nota 5... ou seja, muito pouco para uma banda com estrada e que recém havia lançado um novo CD, com repercussão em mídia mainstream etc. Era o dia 26 de julho de 1997, e 2000 pessoas estavam nessa praça pública, aproximadamente. Mais um sinal de que a sua vitalidade como banda nesse instante, era bem baixa... 

Voltando ao hotel, uma viagem instaurou-se coletivamente. Alta madrugada e com um frio de rachar, o Chris estava bem animado pela trip que experimentava e quis esquentar os pés numa lareira que o hotel possuía. Aproveitando o calor nos pés, e sabe-se lá onde estava sua cabeça nessa viagem, só percebeu que corria perigo quando o porteiro do estabelecimento contou-lhe que as respectivas solas de borracha de seus dois pés de tênis, haviam descolado-se dos calçados, e estavam colando-se uma na outra, o que era bizarro.
Foi quando o porteiro passou a contar histórias sobre discos voadores e alienígenas, um assunto bastante recorrente naquelas cidades do sul de Minas com tantas ocorrências nesse sentido ufológico, e também pela forte tradição de cultura hippie que existe por ali. Minutos depois, no quarto, vendo desenhos animados sem som na TV, e naquele estado lisérgico, um estranho barulho começou a incomodar. Influenciados pelas histórias do porteiro, alguém aventou a possibilidade de haver um "chupa cabras" ali dentro, e isso gerou uma paranoia digna de filme de Cheech & Chong. Foi quando o Chris abriu a janela para a rua e descobriu a origem do ruído seco e contínuo que julgáramos ser o de um alienígena... era um funcionário da prefeitura, um varredor de rua, varrendo a sarjeta usando uma exótica vassoura de piaçaba...
O que a lisergia é capaz de promover na mente humana...


A viagem de volta foi longa e cansativa. Saímos por volta das 15:00 h. da bela Caxambu, mas quando atingimos a via Dutra, estrada que liga São Paulo ao Rio, o tráfego era muito intenso naquele horário (17:00 h. aproximadamente), e isso retardou-nos bastante. Para piorar as coisas, o ônibus quebrou, atrasando ainda mais nossa volta. O lado ameno disso, foi que muita gente estava viajando de ácido nesse ônibus, e uma daquelas bandas que viajavam (nos dois sentidos...), conosco, levara um som portátil e que tocou no percurso inteiro uma coletânea contendo bandas obscuras dos anos sessenta, com trabalhos gravitando entre o Bubblegum; Garage Rock; Acid Rock, e Psychedelic ao extremo, portanto num dado instante, muita gente flutuava, literalmente dentro desse verdadeiro "magic carpet ride" em que transformou-se o ônibus...
Chegamos extenuados em São Paulo, já passando das 21:00 h., e com a certeza de que tocar-se no festival não mudaria nada na nossa carreira, ao menos tínhamos divertido-nos bastante. Mas como eu tinha 37 anos de idade recém completados naquele instante, minha tolerância com esse tipo de situação estava bem baixa.

Nessa altura do campeonato, fazer shows de "investimento de carreira", ainda que bem tratado, com direito a um bom hotel, comida farta de qualidade e tudo mais, não parecia-me condizente com minha idade; tempo de carreira, curriculum acumulado etc.
Portanto, isso só corroborava a minha visão de que o POC era para a minha percepção de momento, um bagaço de laranja sem mais nenhuma gota a ser explorada, e falo isso com todo o respeito aos companheiros, e ao trabalho da banda, mas sendo apenas muito realista. Nessa altura, já estava então, formatado o desejo de sair e formar uma nova banda, em busca de meu sonho primordial, sem concessões e radical em seus propósitos, pois isso refletia a minha total insatisfação de lutar dentro das regras dos inimigos. Se nem assim conseguia um espaço, mínimo que fosse, estava disposto a largar mão dessa busca frenética e despreocupado, fazer apenas o que gostava, sem importar-me em ser anacrônico. Faltava muito pouco para a minha história com o POC, encerrar-se...




Depois que passou o show de Caxambu, eu já estava elucubrando a criação de minha nova banda. Em conversa particular com o Deca, soube que ele estava também cansado dos rumos do POC, não pela banda em si, que ele gostava sem reservas pela parte artística, mas por também sentir que as grandes chances tinham passado e a tendência, era a da banda ficar marchando no mesmo degrau doravante, num processo decadente e desanimador. Diante dessa afirmativa, convidei-o a integrar a minha nova banda, onde já tinha convidado Rodrigo Hid para ser guitarrista; vocalista, e tecladista.
Eu estava esperando só o momento propício para anunciar a minha saída para o Juan Pastor e Chris Skepis, mas ainda surgiu um novo compromisso. Desta vez, esse contato surgira da parte do guitarrista "Perna", da banda "Genocídio", e seria um show dividido com outras bandas, numa casa noturna na cidade de Mogi das Cruzes, na grande São Paulo.

Perna, "gente fina" e guitarrista da banda de Heavy-Metal, Genocídio

O "Perna" era gente boa, e nos últimos meses de 1996 e nos primeiros de 1997, estreitamos contato, pois ele fora contratado pelo selo Primal / Velas e tornara-se então, um funcionário da gravadora, onde quase diariamente víamo-nos. Os últimos ensaios do POC, foram bastante desanimadores, pois ninguém parecia ter mais motivação para tal.

Fazer músicas novas foi proposto, e o Chris sempre tinha kilos de músicas prontas em suas demo tapes caseiras, pois seu tempo era gasto habitualmente em compor e gravar músicas em seu port-estúdio. Mas ninguém estava com vontade para tal, pois aquele ânimo do início, tinha esvaído-se pelo ralo, para todos, dava para sentir.

Com isso, fomos tocar nessa casa em Mogi das Cruzes (chamava-se "Espaço Oito"), no dia 22 de agosto de 1997, onde dividimos a noite com o "Zero Vision", "P.U.S." e "Genocídio".  Era uma casa muito grande e bem decorada. O palco era muito bom e alto, com um equipamento legal de som e luz. A decoração da casa, lembrava a de quiosques de praia, com móveis rústicos etc. Por ser uma cidade que vive em função da sua famosa universidade, a presença de jovens estudantes universitários era maciça. Cerca de 300 pessoas estiveram presentes nessa noite de uma sexta-feira. O público era o típico de uma casa noturna, com bastante dispersão. Nem todo mundo presente na casa estava interessado nos shows, claro. Mas quando tocamos, foi bastante respeitoso e razoável em termos de número.

Syang, a guitarrista da banda "PUS", que fazia Metal extremo

Nem mesmo durante o show do "P.U.S.", com sua bela guitarrista, Syang, esse panorama mudou, portanto, não era pelo POC em si, mas a dispersão era para qualquer banda. Aliás, cabe lembrar que poucas semanas antes, havíamos tido um convívio com o "P.U.S.", dividindo os bastidores de um programa de TV obscuro, onde eles estiveram presentes também. Não consigo nem lembrar-me o nome dele, que era obscuríssimo, e a cópia que tinha dessa aparição, em VHS, foi perdida num desses "empréstimos" dos quais arrependo-me amargamente, principalmente agora que escrevo minhas memórias e cada item desse, vale ouro...


Só lembro-me de que o apresentador do programa era Otaviano Costa, ainda desconhecido do público, mas hoje bastante conhecido por conta de novelas na Rede Globo, e nos dias atuais (2016), ser apresentador do "Vídeo Show".
No camarim do show de Mogi das Cruzes, em foto do acervo de Jason Machado 


Voltando ao show de Mogi das Cruzes, creio que não foi um show ruim, mas tal como em Caxambu, foi um show que nada acrescentou à nossa vida. Foi o meu último show com o "POC", o glorioso Pitbulls on Crack...

Depois desse show de Mogi das Cruzes, não havia mais perspectiva para o Pitbulls on Crack. Sem shows marcados; sem compromissos de rádio e TV; e nem entrevistas na mídia impressa em vista, restava-nos ensaiar e mergulhar numa nova safra de músicas, e talvez voltar à estratégia inicial de 1992, abraçando o circuito underground. Mas além de eu não estar mais interessado em continuar nesse trabalho, mesmo que estivesse com gás para permanecer, era hora de fazer uma séria reflexão sobre o panorama da música naquele momento, e muita coisa havia mudado.

Se no início, em 1992, o panorama inicial que encontráramos era o da euforia pelos ventos do "grunge" que vinham de Seattle, isso tinha outras implicações que agora, no segundo semestre de 1997, não faziam mais sentido. Naquela época, em São Paulo, existiam pencas de bandas desenvolvendo seu trabalho em inglês e nesse sentido, o Pitbulls estava bem respaldado.

Havia uma profusão de casas noturnas abertas para shows de tais bandas e a cidade borbulhava nessa vibe. Por outro lado, a rádio 89 FM explodia e puxava a concorrência, com a Brasil 2000 FM seguindo os passos, e só fazendo bem à cena. Outro fator importantíssimo, a MTV ainda era muito forte no quesito musical, e engrossava esse poder de fogo na mídia.

Portanto, com esses fatores aliados, o momento em que surgiu o POC, era muito propício para a banda. Agora, em 1997, era muito diferente a cena, e eu tinha sérias dúvidas de que uma tentativa de prosseguir com o POC seria saudável, e de fato não foi. Então, na segunda semana de setembro de 1997, o Deca aconselhou-me a não ir falar com Juan Pastor e Chris Skepis diretamente, por não ser necessário, visto que eles já sabiam que eu sairia.

Confesso, arrependo-me de não ter ido, pois não custava-me nada comunicar-lhes isso diretamente, ainda que fosse uma mera formalidade, aparentemente desnecessária. E como não tenho nenhuma vergonha de confessar minhas máculas nesta autobiografia, portanto, estou aqui confessando minha falha, e pedindo desculpa em público aos companheiros, por tal deslize.
Sei que eles não ofenderam-se com isso, pois continuei amigo de ambos, até hoje, mas não foi uma atitude bacana de minha parte, de forma alguma. Como diria a jornalista Sandra Annenberg : "que deselegante" !!
Bem, foi assim... era setembro de 1997, e eu estava fora do Pitbulls on Crack, pronto a iniciar uma nova etapa na minha carreira.

Continua...

2 comentários:

  1. Eu tava no show... para de falar merda se cretino... vcs tocaram meia musica e sairam de tante pedrada e latada que a galera mandou pro palco... ainda sairam cuspindo no publico... otarios... todos queriam ver logo o RATOS e os RAIMUNDOS

    ResponderExcluir
  2. Prezado autor do comentário acima :

    Baseado no teor de sua manifestação, faz-se mister alguns esclarecimentos de minha parte.

    Em primeiro lugar, o senhor usou na sua primeira frase, uma afirmação bastante agressiva e descabida.

    Veja bem, este texto refere-se à minha memória pessoal dos fatos e assim que me propus a escrever, assumi o compromisso de não distorcer ou omitir a verdade, sob pena da quebra da minha credibilidade pessoal construída ao longo de 40 anos de carreira. Portanto, mencionei vários momentos tristes e não só os alegres, sendo justo e honesto comigo mesmo.

    Nesses termos, sobre a descrição do episódio em si, onde o senhor esteve presente, falei tudo, baseado na minha visão pessoal dos fatos, e está claro no texto que era uma apresentação perante uma imensa maioria de público, formado por fãs de estética antagônica ao nosso trabalho na ocasião.

    Particularmente, sou contra fazer esse tipo de participação em festivais híbridos, onde o público certamente será hostil. Não acho uma estratégia válida, no sentido que pouco agrega ao artista, se apresentar perante uma plateia agressiva e que não vai lhe receber bem. Mas meus colegas votaram a favor da participação, e fui voto vencido.

    Sua afirmação de que tocamos "meia música" é uma inverdade. É clara a sua real intenção em desdenhar da banda em questão, e de minha pessoa em específico, com tal afirmação mentirosa. Nosso set era de fato mais curto em relação aos outros artistas, pois éramos mesmo "open Act" do festival, mas lhe asseguro, tocamos todas as músicas previstas, apesar do vilipêndio desagradável a que fomos submetidos.

    Não omiti o fato de que não éramos queridos e esperados por 99% das pessoas ali presentes, incluso o senhor.

    Eu não saí cuspindo em ninguém, outra falácia de sua parte. Isso não é o meu modus operandi no convívio social, muito menos como artista, sendo assim, jamais o faria, pois tenho respeito ao público e a qualquer pessoa.

    Meu texto é cristalino, redigido sob a égide cartesiana e não uso de nenhum recurso literário para edulcorá-lo ou sofisticá-lo ao ponto de afastá-lo da linguagem coloquial, sendo assim, não há a menor possibilidade de não ser compreendido por qualquer pessoa alfabetizada, que tenha cursado o ensino fundamental pelo menos.

    Por último, não aceito a pecha que o senhor me imputou de forma alguma, por dois aspectos : primeiro, que é inadmissível que alguém entre no meu Blog para ofender-me pessoalmente e sem nenhum cabimento. Sua argumentação é pífia, não se sustenta tal qual um castelo de cartas. O senhor não me conhece, não tem o direito de vir aqui me agredir, mesmo que tivesse alguma razão, e certamente que não tem.

    Segundo, eu não sou o que o senhor afirmou. Não perderei o meu tempo que é escasso, para demovê-lo de sua opinião absurda, mas registre-se que não sou o que disse.

    Diante dessa infâmia, o senhor outorgou-me o direito de uma resposta à altura de seu insulto, mas é óbvio que não o farei, pois isso seria rebaixar-me à um patamar de absoluta falta de educação e civilidade, que não condiz com os meus princípios.

    Não formularei nenhuma ofensa em relação à sua pessoa, pois recuso-me a ser grotesco com qualquer ser humano.

    Os tópicos de sua afirmativa equivocada foram esclarecidos.

    Sem mais,

    Passe bem, senhor.

    ResponderExcluir