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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pitbulls on Crack - Capítulo 2 - Coletânea em Gravadora de Médio Porte - Por Luiz Domingues

Nesse hiato de shows após a apresentação no Garage Rock Festival, entramos no estúdio para gravarmos as duas músicas da coletânea da Eldorado, em julho de 1993. As gravações ocorreram no estúdio Be Bop, que ficava localizado na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. A metodologia de gravação seguiria o método tradicional, com bateria gravada primeiro; seguido do baixo; guitarras, e vocal ao final.

O estúdio Bep Bop era bem badalado na época, e frequentado por artistas renomados. Não saberia dizer o valor cobrado, mas certamente a gravadora Eldorado gastou uma boa quantia ali, pois cada banda da coletânea gravou bem à vontade, sem atropelos.
O estúdio continha duas salas de gravação, A e B. As bandas da coletânea gravaram no B, que era amplo, super equipado, e do qual não tenho queixa alguma, mas o estúdio A era cinematográfico...
No A, tinha por exemplo um órgão Hammond B3, igual ao do Jon Lord (Deep Purple), e com uma caixa Leslie toda pintada com motivações sessentistas psicodélicas, lindíssima.

Começamos a gravar e na primeira sessão, levantaram o som da bateria. Lembro-me do Juan Pastor usando uma bateria Pearl, de cor cherry, do estúdio. E como eram só duas músicas, logo após equalizarem as peças, ele pôde gravar no mesmo dia, sem maiores dificuldades, visto que estávamos bem ensaiados, e essas duas musicas faziam parte do set list dos shows, desde o início da banda, em 1992. No dia seguinte, foi a minha vez, gravando o baixo. Usei o Rickenbacker nas duas músicas, plugado num amplificador Gallien Krueger, e acoplado à duas caixas Hartke.

Particularmente, acho essas caixas pavorosas, mas era a moda da época, e eu não tinha ainda as minhas caixas Ampeg. Eu tinha uma caixa Snake de 4 x 15', e uma outra "Handmade" com um falante de 15', portanto, um equipamento ruim para gravar. E foi usada também uma linha direto na mesa, para eventualmente somar-se ao som do canal do amplificador. Apesar de ter construído um clima amistoso com o produtor do disco, no decorrer da minha gravação, houve um momento de tensão...


Na sessão de gravação da bateria, havia estabelecido uma relação legal com o produtor Carlos Eduardo Miranda. Apesar dele ser todo aficionado de som indie, tinha algum apreço pelo Rock Vintage, e chegamos a conversar animadamente sobre o "Gong", banda que gostávamos em comum. Mas na hora da gravação, ele num dado momento, cismou em pegar no meu pé, achando que o trastejamento do Rickenbacker era por falha minha de digitação.

 
Sua reclamação não procedia, pois o som de trastejamento que ouvia na técnica não decorria de uma suposta falta de técnica de minha parte, mas sendo característica normal desse instrumento. Desconhecendo isso e não ouvindo a minha explicação, interrompia-me a todo instante para cobrar-me maior precisão e não era o caso. Insatisfeito, deixou-me gravando sozinho e foi tomar um café, quando o técnico que era também baixista, falou-me que eu estava certo e apoiou-me nas minhas ponderações.

Ele era / é muito bem relacionado no mundo fonográfico, mídia e entre empresários. Justiça seja feita, era / é um competente lobbysta, e geralmente está envolvido com a produção musical indie, indicando aspirantes a artistas, e produzindo em estúdio.
E normalmente o que indica faz sucesso, embora seja tecnicamente, sofrível. No trato pessoal, o Miranda mostrava-se bacana, não era arrogante. Só nesse instante, é que cismou comigo. Mas também teria problemas com os demais. Eu não teria problema algum em seguir sua orientação como produtor, se ele estivesse certo, mas não estava...

Eu lembro-me do Chris Skepis por perto, mas como sempre, ele emendou mil brincadeiras, e trocadilhos, desanuviando o ambiente, com seu bom humor habitual. E depois de acalmados os ânimos, o produtor voltou mais "relax" do café. Além do mais, chegaram duas visitas famosas para acompanhar a minha gravação : Paulo Miklos e Kiko Zambianchi. Estavam, digamos, bem "alegrinhos"...

O Miklos ficou elogiando o meu Rickenbacker, mas nitidamente repetia as frases que proferia a esmo, pois isso fazia parte de sua viagem.

E o Kiko não lembrou-se de minha pessoa, pois conversamos uma vez ao telefone, em 1988, quando eu estava tentando fechar um show para A Chave (sem Sol), em Ribeirão Preto, sua cidade natal, e sabendo que ele era conhecido de meu tio que mora lá, e da minha prima, eles fizeram a ponte ligando, e apresentando-me. Mas não deu em nada, pois ele não passou-me nenhum contato forte, e limitou-se a dar dicas óbvias. Encerrando o caso do "trastejamento", esse stress foi contornado rapidamente. Primeiro porque eu sou um sujeito zen, e raramente estresso-me. Depois, porque como já falei várias vezes neste capítulo do Pitbulls on Crack, essa foi a banda mais "desencanada" que eu toquei na vida.
Rara foto da gravação dessa coletânea no estúdio Be Bop em 1993. Da esquerda para a direita : Érico (técnico); Carlos Eduardo Miranda (produtor); Deca e Chris Skepis. Acervo e cortesia de Chris Skepis. Autor do click, desconhecido

Era só brincadeira o tempo todo, pois os três outros componentes tinham / tem essa verve espirituosa. Qualquer coisa que era falada por um, virava trocadilhos; ironias, e um festival de sarcasmos imediatamente para os demais, e assim ficavam num eterno desencadear de piadas sobre piadas.

E tem mais uma coisa : o Miranda adorava o Chris também por esse humor de "Monty Python" 24 h. por dia, e principalmente pelo fato do Chris ser antenado em som indie. E assim, ficavam horas falando de bandas insípidas, que só eles conheciam...

A despeito desse imbróglio, eu concluí a minha parte muito rapidamente. Quem toca ou tocou comigo, sabe que costumo gravar muito rápido, pois minha timbragem é simples, e no quesito execução, eu costumo focar na gravação sem dispersões, sendo muito objetivo. Outra coisa, cada um pensa de uma forma, mas o meu jeito é o seguinte : quando estou gravando, tenho a mesma postura de quando toco ao vivo. Deixo levar-me como um ator para outra dimensão e ali, naquele momento, deixo os Deuses do Rock manifestarem-se. Foco o pensamento na emoção, e tento imprimir esse sentimento nas notas que toco. Todos os discos que gravei na vida tem isso, com exceção de "A New Revolution", da Chave "sem Sol", onde definitivamente, não tem alma, mas isso eu expliquei no seu capítulo adequado. Depois que terminei, vieram as sessões do Chris, alguns dias depois. Deveriam ser tranquilas, pois ele toca simples. Faz bases eficientes, mas bem simples, sem grandes voos, mais ou menos como o Marc Bolan tocava, mas o Chris toca melhor que o velho Bolan, na minha avaliação, pois entre outras coisas, este morreu sabendo fazer apenas seis acordes...
Aliás, uma tremenda influência dele, que adora o Glitter Rock setentista (eu também adoro).

Chris tentando timbrar sua Fender Stratocaster, mas o produtor imbuído de vontade de buscar um timbre condizente com o que estava acostumado a gravar, com suas bandas punks. Acervo e cortesia de Chris Skepis
Se estivéssemos gravando de forma independente, essa gravação teria sido rápida. Mas como dependíamos da direção da gravadora, as sessões foram espaçadas, arrastando a agenda, mesmo porque, haviam outras bandas da mesma coletânea gravando.Veio a sessão do Deca, mais sossegada, mas nem tanto...

Lembro-me da sessão dele também por um fato inusitado e agradável, posso dizer. Como já havia contado, o estúdio tinha duas salas. Na sala A, que era muito maior, nesse dia, estava o Jorge Benjor.

Encontramos com ele no cafezinho, que foi extremamente simpático, levando-nos para a sala A, para assistirmos um pouquinho da sessão de gravação das bases de sua banda. O clima entre os membros de sua banda era de muita camaradagem, dando-nos a certeza de que trabalhar com ele devia ser muito legal. 
Jorge tinha algumas presenças femininas consigo, e de fato, a alquimia estava boa para ele, ali. Salve simpatia...

Na mesma sessão, estava presente um dos membros do Duo performático, "Os Mulheres Negras", provavelmente  a convite do Jorge. Mas esse cidadão não foi nem um pouco simpático conosco, lamentavelmente. E por fim, a sessão do Chris para gravar o vocal também deveria ter sido relax. O Chris apesar de ser um brincalhão incorrigível, na hora de ter que desempenhar, é focado. Todavia, o produtor atormentou-o, e raro, vi o Chris irritado, e de tão contrariado gravou de costas para a técnica, pois não suportava mais as interrupções constantes do cidadão. Apesar dos pesares, ele conseguiu gravar mesmo com essa tensão. Dias depois, fomos convidados para participar do coro de um refrão de uma das músicas da banda brasiliense "Little Quail", da mesma coletânea.

A ideia era a de ter uma multidão reforçando o coro que dizia "Não tem cinco, não tem seis..." , respondendo ao vocalista da banda que cantava : "Um , dois, três, quatro..."
Além de membros de todas as bandas da coletânea, lembro de músicos de outras bandas presentes, o pessoal do Viper; Anjos dos Becos, e Okotô, por exemplo. 


Dividi o meu microfone com o Lee Marcucci, e o guitarrista do Okotô. Foi uma bagunça total, com mais de quarenta pessoas berrando, mas foi divertido. E foi nessa sessão que autografamos (todas as bandas), uma pele de caixa de bateria, cuja foto aparece na ficha técnica do CD / LP (sim, esse disco ainda saiu no velho formato de vinil).

No cômputo geral, foi muito tranquila a gravação. Além de estarmos bem ensaiados, o astral da banda era sempre leve, com tanta palhaçada que surgia. Ser membro do Pitbulls on Crack era como ser do Monty Python's Flying Circus...

Era impossível não gargalhar o tempo todo com os três, Skepis; Deca & Pastor, pois todos eram extremamente espirituosos e seus estilos de humor diferentes entre si, complementavam-se. Até eu, que mesmo não considerando-me mal humorado, estou longe de ser um piadista e pelo contrário, tenho temperamento sério, enquanto estive lá, não tinha jeito, tinha de conviver com as pilhérias intermináveis. E vou lhes contar : cada um recebeu uma mísera cópia de um LP apenas. A gravadora só lançou em formato CD, tempos depois, e nós não recebemos nada. A cópia em CD que eu tenho, eu comprei numa loja de discos usados, em 1995. Ha ha ha...
Nós músicos que militamos no underground (não por vontade própria...), estamos tão acostumados com esses maus tratos, que relevamos esses absurdos...
E tem mais uma : a Eldorado tinha fama de ser uma gravadora diferenciada, que tratava muito bem os artistas de pequeno e médio porte. Imagine se não cuidasse...


Ouça abaixo a gravação de "Under the Light of the Moon", na coletânea "A Vez do Brasil, da gravadora Eldorado, lançado em 1993.

Eis abaixo o link para ouvir o áudio oficial de "Under the Light of the Moon"
https://www.youtube.com/watch?v=vpBNVjsprj4
Sobre as músicas que gravamos, digo que “Under the Light of the Moon” tem uma camada de guitarra limpa e violões muito interessante, a adocicar a base pesada. O produtor queria timbrar guitarras pesadas à moda de bandas de Heavy-Metal mas acabou cedendo aos nossos apelos, evitando serras elétricas destoantes ao nosso trabalho. O baixo está na frente e as frases são bem ouvidas, não posso queixar-me nesse aspecto. Mas o timbre poderia ter sido bem melhor. Rickenbacker fala muito e apesar do peso que ficou no disco, faltou o estalo característico dele. Gosto da frase cheia de harmônicos que o Deca fez várias vezes ao longo da canção, além do solo com muita energia. O peso de baixo e bateria no refrão é intenso e dá ênfase ao clímax da música. Essa foi sem dúvida a música que mais projetou o “POC” em sua carreira, com execução radiofônica maciça e clip na TV a reforçar.

Eis acima o áudio oficial da música "Answer Machine", do Pitbulls on Crack.

O link para escutar no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Yr8n8FIXuAQ 

Sobre “Answer Machine”, o riff da música é super seventies, num misto entre o “Led Zeppelin” e o “AC/DC”, evocando o Hard-Rock. O Refrão lembra “Alice Cooper”. Usei o Rickenbacker também, e o timbre está obviamente bastante parecido com a canção anterior pela obviedade de tê-la gravado em seguida na mesma sessão, usando a mesma timbragem. Gosto bastante das intervenções do Deca, inclusive alavancadas e raspadas de palheta pelas cordas como adornos extra. Isso sem falar da frase contínua em notas semicolcheias, que caiu como uma luva no refrão. A bateria apresenta timbres razoáveis e ao menos um mérito, o reverber foi comedido, principalmente na caixa, o que é um alívio !!


A voz do Chris é bastante gritada e dobrada mas não ipsis litteris, o tempo todo, portanto, em alguns trechos com pequenas diferenças sutis nos respectivos desenhos, dando a ideia de pessoas diferentes cantando e sem muita preocupação com a precisão. Essa canção foi tocada em quase todos os shows do POC em que estive na banda entre 1992 e 1997 e certamente dava-me prazer em executá-la. As fotos da banda para a capa e encarte foram feitas numa sessão clicada por Rui Mendes. A capa foi desenhada por Fabio Cobiaco. Trata-se de um tipo de ilustração que eu jamais gostaria de usar num disco meu, a retratar o Rocker padrão como um adolescente retardado em meio a signos os mais idiotizantes possíveis e claro, usando as indefectíveis bermudas, mas o rapaz não tem culpa alguma nesse processo, certamente. Trata-se de uma mentalidade e a diretriz que passaram-lhe, que ele cumpriu e assim a sua capacidade como ilustrador é inquestionável. Arte final de capa e encarte por Michel Spitale e Rui Mendes. No mais a produção de estúdio foi de Carlos Eduardo Miranda; engenharia de gravação e mixagem por Érico Rondon e Beto Machado; masterização no estúdio Cia de Áudio por Érico Rondon e Carlos Freitas. Produção da gravadora Eldorado por Vagner Garcia. Produção do Programa “A Vez do Brasil” da 89 FM por Tatola; Ricardo; Fábio Massari e Denise.
Com a nossa participação na gravação de nossas duas músicas encerrada, nosso próximo show só foi ocorrer em setembro. Foi um evento com apoio da Rádio 89 FM e marcando a inauguração de uma nova casa de shows, com aparente boa estrutura, denominada "Rádio Show", em 16 de setembro de 1993. Ficava na Rua Turiaçu, no bairro das Perdizes, zona oeste de São Paulo. Era na verdade, o aproveitamento de um antigo cinema do bairro. Infelizmente esse Rádio Show não durou muito, e logo virou uma cafona casa de shows sertanejos, e logo a seguir, Igreja Evangélica, até hoje.

Mas com o apoio da Rádio 89 FM, o show de inauguração foi bom, com o "Pitbulls on Crack"; "Exort"; "Rip Monsters", e "Anjos dos Becos", como atrações. E no final, ainda teve uma jam com alguns músicos, eu incluso, tocando três músicas do Black Sabbath, junto à banda cover, Eletric Funeral, do Hélcio Aguirra e Vitão Bonesso.


Cerca de 500 pessoas estiveram presentes naquela noite. O som estava mais ou menos, mas a luz era razoável, apesar dessas fotos que ilustram o capítulo, estarem escuras. A casa prometia ser um espaço legal para shows de Rock underground. Uma pena não ter existido por muito tempo.


 
Infelizmente, o embalo bom que tivemos em 1992, não repetiu-se em 1993, em termos de shows. Daí desse show de setembro, só fomos tocar novamente em novembro.

Foi também um show grande, com apoio da Rádio 89 FM, e num teatro bem estruturado.

Aconteceu no dia 24 de novembro de 1993, no Teatro Mars, localizado no bairro da Bela Vista, popular Bexiga, no centro de São Paulo. Antes de falar do show, tem um fato curioso para relatar...


Cometemos uma gafe ridícula no camarim do show que demos no Teatro Mars. Não fui o culpado, mas estava envolvido involuntariamente no mal-estar...

Foi o seguinte : a caminho do Teatro, no meu carro, estavam dois roadies que trabalhariam conosco. Quando estávamos descendo a Rua Rui Barbosa, ou seja, muito próximo da localização do Teatro Mars, os rapazes viram algumas garotas bem produzidas, e que obviamente estavam caminhando para irem ao Teatro.

O locutor da 89 FM, Tatola, entrevistando-me entre as músicas que tocamos

Sem que eu pudesse evitar a pilhéria, colocaram suas cabeças para fora do carro e gritaram alguns " elogios" machistas para elas, que reagiram mostrando-lhes os dedos. Meus passageiros esborracharam-se de rir pelo ato cometido, e quando já estávamos no camarim, o mal-estar...

Uma das moças que haviam mexido na rua, era a namorada do baixista do Rip Monsters e as demais, suas amigas (e se não engano-me, havia uma irmã ou prima dele, entre elas)...
E mais uma : nesse show, usamos pela primeira vez o nosso novo cenário, um imenso painel com a figura de um Pitbull furioso, babando de raiva. OK, era a ideia explícita no nome da banda, mas mais parecia adequado para uma banda de Heavy-Metal ou Punk-Rock. Esse cenário não foi usado muitas vezes. Era grande e trabalhoso para ser instalado e só cabia mesmo em locais de grande porte, com estrutura cenotécnica.

Desta feita, Fábio Massari, outro locutor da emissora, entrevistando o Chris Skepis. Deca no canto direito, e eu com meu Fender Jazz Bass, ao fundo...

Era o show de lançamento da coletânea, com a presença das cinco bandas, e o Golpe de Estado como convidado. O show foi transmitido ao vivo pela rádio 89 FM, e os locutores Tatola e Fábio Massari foram os apresentadores do evento.

Matéria da Folha de São Paulo especulando sobre a cena de 1993, e as bandas emergentes, incluso a nossa. Incrível como o nome da banda era inadequado, e o jornalista, desinformado em contraponto. "uma das bandas mais violentas do Rock Brasileiro" é risível, no mínimo...

O teatro tinha um porte pequeno, mas lotou completamente, com seus 200 lugares tomados. O show foi bom, energético, e em clima de euforia com um público muito jovem e frenético que gritou o show inteiro, como se adorassem-nos, mas era mais pelo frenesi do evento, essa euforia desmedida. 

A movimentação foi essa em torno desse show no Teatro Mars. Sobre mais shows nessas características com o caráter de festa organizada pela gravadora, isso não era nenhuma praxe. Nos Estados Unidos havia uma tradição de até turnês organizadas pelas gravadoras e os empresários de seus contratados conjuntamente, para promover seus artistas, mas isso nunca aconteceu aqui, a não ser sazonalmente, como no tempo em que as gravadoras apoiavam festivais na TV (décadas de sessenta e setenta), e o caso do "Som Livre Exportação" (no início dos anos setenta), um programa criado pela gravadora Som Livre e com tal intuito, fato raro no Brasil.
E gravadora nenhuma mexe uma palha nesse sentido, pois não é (era) atribuição delas. Explico : gravadora estabelece contrato de cuidar do produto fonográfico e divulgá-lo na mídia, além de, claro, distribuir em lojas. Claro, estou falando de um esquema que durou décadas, mas hoje em dia na Era pós-Internet, diluiu-se.

A questão do marketing e vendas de shows, eram de atribuição do artista e seu empresário. Na maioria dos casos, um dos pontos que eram levados em consideração para se contratar um artista novo, era justamente a questão da estrutura de empresário que o artista possuía. Gravadoras queriam artistas com agenda ativa e um empresário dinâmico por trás. Muito artista novo, achava que entrar para a gravadora era a resolução de todos os seus problemas, mas o fato era que dificilmente a gravadora interessar-se-ia por ele, se não estivesse com agenda lotada; portfólio volumoso graças a muitas matérias de jornais e revistas importantes; apresentações em programas de TV, e sobretudo, um empresário com estrutura profissional, dinheiro e contatos. Nesse esquema, a Eldorado até que fez muito, pois alavancou uma entrevista de meia página no Jornal da Tarde, apoiou esse show em coprodução com a Rádio 89 FM, e usou espaços publicitários no "Estadão" e Jornal da Tarde, para anunciar o disco.


Mas como era coletânea, tudo ficava diluído. Um exemplo foi a entrevista para o Jornal da Tarde. Era um repórter do Jornal, e o fotógrafo para ouvir 12 pessoas presentes, representando as cinco bandas. Ficou disperso. E a sessão de fotos foi hilária. Resolveram tirar a inevitável foto coletiva na rua, onde ficava a sede da gravadora e da Rádio Eldorado. Era coincidentemente, muito perto da minha casa, no tempo em que morei no bairro da Aclimação, zona sul de São Paulo. Dois anos depois, o Estadão usou a minha foto dessa sessão, recortada, e num contexto ridículo, nada a ver com o Pitbulls !! Acabei jogando fora essa reportagem e arrependo-me...

Acho que vale a pena abrir um parêntese na narrativa para contar essa história da foto recortada, que mencionei anteriormente. Dois anos depois dessa foto sair publicada no Jornal da Tarde, com  12 pessoas representando as bandas da coletânea, tive uma surpresa bizarra e completamente fora do contexto da foto originalmente feita. Num domingo qualquer de 1995, comprei o "Estadão" de domingo, e ao olhar a capa do Caderno 2, que trata de Cultura, tive uma surpresa bizarra ! Era uma reportagem sobre a relação entre o Punk-Rock e o som "Oi" dos Skinheads, com a violência das torcidas uniformizadas de clubes de futebol. Haviam várias fotos misturadas de torcedores da Mancha Verde do Palmeiras, e da Independente do São Paulo FC, e punks e carecas. Qual foi a minha surpresa ao olhar a minha foto inserida !!

Não havia nenhuma identificação, portanto, era a minha face ali como anônimo... o fato, é que o Jornal da Tarde pertence (pertencia, na verdade, pois o jornal foi extinto depois que escrevi esse trecho da narrativa), ao grupo editorial "O Estado de São Paulo", portanto, compartilhava o mesmo banco de dados e fotos. Algum energúmeno da diagramação / Lay-Out olhou a minha face na foto de 1993, e achou-me com perfil de de punk; careca, ou hooligan...
Recortou a minha cabeça, pois era uma foto coletiva com várias pessoas ao redor, e resolveu colocar-me ali entre punks; carecas & torcedores de uniformizadas violentas... tudo a ver , não é mesmo ?
Na hora, fiquei muito bravo e pensei em tentar buscar uma satisfação, mas logo desisti, pois seria um trabalho inútil. Guardei o jornal por um bom tempo, mas um dia joguei-o fora. Arrependo-me, pois seria um material de memorabilia curioso, hoje em dia. A minha única dúvida é : qual teria sido a motivação do diagramador que entre "bilhões" de possibilidades dentro de um banco de fotos de um jornal desse porte, para ter escolhido justo a minha foto ???
Não deixa de ser curiosa essa dúvida, pois a despeito de gostar de futebol e muito, abomino a violência das uniformizadas, e no campo da música, tenho profunda aversão ao Punk-Rock, por diversos motivos. O que teria sido então ? Coincidência ou uma provocação de alguém que sabia que eu antipatizava com tudo isso ?

Após o show de lançamento no Teatro Mars, fizemos a seguir mais uma apresentação no Victoria Pub. Nesta altura, o Victoria estava decadente e nos seus dias finais, muito diferente de experiências anteriores que tive ali naquela casa com outros trabalhos, e em épocas onde o local era "cool" e vivia lotado de gente bonita e endinheirada, fora os"famosos". Esse show ocorreu em 1° de dezembro de 1993, com um diminuto público de 120 pessoas, muito pouco para o padrão antigo que a casa tinha, quando no seu auge, colocava média de mil pessoas por noite em suas dependências, de segunda a segunda. Mas encerrando um ano fraco de agenda de shows, tivemos ao menos um dezembro mais movimentado, com mais duas datas ainda.

O primeiro, foi mais um show considerado de lançamento da coletânea, e realizado no "Garage Rock", onde tocáramos meses atrás (a história do futebol de bandas...). Desta vez, no dia 5 de dezembro de 1993, tocamos com a abertura das bandas "Sir Rock'n Rollmes" e "Tomate Inglês" (banda do futuro vocalista do Golpe de Estado, Kiko Müller).


Folha de São Paulo falando da coletânea em matéria

Foi um show Ok, mas sem grandes novidades que marcassem na memória, por algo excepcional ocorrido. Acho oportuno e curioso  lembrar-me de um fato a mais para relatar. Muitos punks haviam aparecido ali para ver o Pitbulls on Crack. Por incrível que pareça, o Chris Skepis é muito reverenciado por essa tribo, exatamente por ter tocado no "Cock Sparrer", banda inglesa da cena "1977". Ele tocou com essa banda britânica, nos anos 1980, quando morou cinco anos em Londres.

             Propaganda oficial do álbum, no "Jornal da Tarde"



Os últimos shows de 1993 estavam no ritmo de lançamento da coletânea. Tocamos sozinhos no Victoria Pub no dia 1° de dezembro de 1993, para um público de apenas 120 pessoas. Ao contrário de anos anteriores onde apresentei-me com A Chave do Sol ali, o Victoria Pub estava decadente. A decoração continuava a mesma, mas a frequência não era mais da alta burguesia jovem paulistana, e a casa não lotava como nos anos oitenta. Fizemos outro show no Garage Rock com um público de 300 pessoas aproximadamente. Nesta noite de 15 de dezembro de 1993 foi compartilhada com as bandas "Sir Rock'n Holmes" e "Tomate Inglês".

E o último do ano foi na festa de fim de ano da Rádio Brasil 2000 FM, realizado na casa de shows Broadway, no bairro da Barra Funda, zona oeste de São Paulo.

Matéria no Revista "Bizz", falando da coletânea da gravadora Eldorado

Era logicamente um show coletivo e neste ano, tocamos com "Anjos dos Becos"; "Inocentes"; "Viper"; "Vultos"; "Ira"; "Rip Monsters"; "Little Quail"; "Neanderthal"; "Okoto"; "Violeta de Outono", e "Não Religião". O público presente foi de 1500 pessoas aproximadamente.

      Matéria falando sobre a coletânea, no jornal "Diário Popular"

Foi um show de choque, como deveria ser, e muito bom, pelo agito geral da festa etc e tal. Lembro-me de que o clima no camarim era bem amistoso. Havia uma boa camaradagem entre todas as bandas presentes ali.

                            Outra matéria na Revista "Bizz"

O "Rip Monsters" iria tocar "21st° Century Schizoid Man" do "King Crimson", e ficamos conversando sobre anos setenta, com o Lee Marcucci contando passagens do "Coqueiro Verde", sua banda no início dos anos 1970, que tinha a ousadia de tocar músicas do "Flash", banda do primeiro guitarrista do "Yes", Peter Banks.

          Nota no jornal "O Globo", do Rio, falando da coletânea

Essas conversas que traziam memórias distantes dos anos 1960 / 1970, fascinavam-me, e borbulhavam na cabeça...





Matéria no jornal "Folha de São Paulo", falando do "Pasley Underground", um festival que simplesmente não foi realizado...

Sementes que levar-me-iam ao Sidharta, anos depois...
E assim, terminamos o ano de 1993, com a "bolacha" pronta, e a perspectiva da Eldorado realizar um vídeo clip para cada banda da coletânea, logo no início de 1994.

Por tratar-se de um festival com várias bandas, cada uma tocava apenas três músicas, sendo portanto um show de choque. A troca de bandas e tempo para "setar" cada uma (termo aportuguesado e derivado do inglês "Set up"), era maior que o tempo de show de cada banda. O show, apesar disso foi, como no ano de 1992, muito energético. O público dessas festas da rádio Brasil 2000 FM, era um público jovem, e que gostava do som dessas bandas nacionais, portanto, a resposta era imediata. O som estava bom. Não lembro-me que empresa contrataram, mas era uma das grandes que fazem grandes eventos em SP. Era um P.A. compatível com o tamanho da casa, claro, mas de grande qualidade. E o equipamento de palco, idem, amplificadores importados, bateria boa etc.

Entrando em 1994, as perspectivas eram magníficas. Com o disco lançado e um clip a ser produzido, contávamos com um aumento de shows e consequentemente, novas oportunidades, quiçá com um empresário legal interessando-se pelo nosso "passe", etc e tal...
Era certeza de que a música "Under the Light of the Moon", entraria na programação da Rádio 89 FM, mas em princípio, tocando em horários alternativos. O aumento dessa execução e sua recolocação para os horários nobres, ocorreria apenas se houvesse uma resposta popular.


O encarte do CD, lançado tempos depois, acompanhou o encarte do LP, com as letras das músicas disponibilizadas

Em tempos ainda de internet restrita à uma camada pequena da população, essa pressão popular esperada pela estação, era predominantemente através do telefone, mas as velhas cartas manuscritas e entregues pelos nossos valorosos carteiros, também tinham a sua força. Dessa forma, já com um batalhão de "Neo-Hippies" à minha disposição na minha sala de aulas, essa pressão que desejavam seria exercida a nosso favor, e assim foi, como contarei na cronologia dos fatos.

No tocante ao clip, a Eldorado estava disponibilizando verba mensalmente. A ideia era um clip ser produzido por mês, e paulatinamente entrarem na grade das estações de TV. Inicialmente, era certeza que a MTV apoiaria, quanto às estações abertas, havia uma pequena esperança, e na TV a cabo, que ainda tinha atuação bem tímida nessa ocasião, também, embora os canais existentes dessem prioridade ao material estrangeiro naquela época. Sabíamos que seria um clip simples, sem pirotecnias. Deram-nos liberdade para dar algumas ideias, mas o básico seria : a banda dublando como ênfase. Apesar dessa animação toda, estávamos sem perspectiva de shows no início do ano. Só começamos a engrenar novamente a partir de março de 1994.

Resenha da coletânea na Revista "Rock Brigade", em janeiro de 1994

Ainda assim, comemorávamos matérias de jornais e revistas aludindo ao lançamento do LP. Paralelamente, surgiu uma possibilidade de um contato obtido pelo nosso baterista Juan Pastor para patrocinar camisetas. Essa negociação começou em fevereiro, mais ou menos, logrou êxito, parcialmente e sobrou para a minha pessoa...contarei detalhes no próximo segmento.

Resenha da coletânea na Revista "General". O comentário a nosso respeito é absolutamente hilário, e ao mesmo tempo inadmissível em se tratando supostamente de uma revista "especializada". Como assim, "o nome diz tudo"...? Se tivesse ouvido as duas faixas de nossa autoria, teria percebido, ao contrário do que o nome da banda sugeriu-lhe, que não éramos uma banda de vertentes radicais do Heavy-Metal ou Punk-Rock, ora bolas...

Continua...

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