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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pitbulls on Crack - Capítulo 7 - Ainda Sonhando... - Por Luiz Domingues

E chegou 1997...
Cinco anos de Pitbulls on Crack, e um balanço precisava ser feito.
Após cerca de 60 shows; bastante material de portfólio; dois clips oficiais; muitas aparições na TV; execução maciça numa FM competitiva de São Paulo; uma participação numa coletânea feita por uma gravadora de médio porte, e um CD lançado por outra, igualmente de médio porte, a conclusão era de que a carreira da banda estava bem, se analisarmos por parâmetros do patamar underground, logicamente, pois tais números refletem cerca de dois meses de trabalho de uma dupla sertaneja com "esquema" por trás...

OK, o Brasil é assim, e acabamos acostumando-nos a lidar com um mercado fechado em monopólios vergonhosos, deixando as migalhas para serem compartilhadas por centenas de desafortunados (e dos anos 2000 em diante, creio que nem migalhas mais são passíveis de serem encontradas por quem não tem dinheiro e influência)...

Bem, dentro dessa realidade, o POC tinha números interessantes, apesar de ter formatado sua carreira cantando em inglês, ou seja, um verdadeiro tiro no pé, se a intenção era buscar um mínimo de competitividade no mercado nacional. O esforço desses cinco anos, nem foi tão sacrificante assim, visto por outro aspecto, porque o POC sempre foi uma banda "Low Profile", beirando o relaxo, até, na forma de autogerir-se (no bom sentido do termo, não ofendam-se os demais membros da banda, por favor !). Dessa forma, considerando o tipo de cuidado pessoal que a banda tinha, esses números eram até surpreendentes...
O "Canto do Cisne" passara, mas nós não tínhamos essa percepção, e em janeiro de 1997, a luta continuou, ao menos logo no começo.

E a primeira atividade desse novo ano, foi a entrevista / show ao vivo nos estúdios da Rádio Brasil 2000 FM. Essa emissora era uma Rádio Rock, concorrente da 89 FM, mas com bem menos poder de fogo. Apesar disso, o entusiasmo de seu mais prestigiado locutor / produtor, chamado Osmar Santos Jr. (nada a ver com o locutor esportivo, homônimo), fazia com que a emissora sempre prestigiasse o Rock Nacional, levando bandas underground para tocar ao vivo.
 

Duas únicas fotos disponíveis dessa entrevista / show na emissora Brasil 2000 FM. Na primeira acima, eu, Luiz Domingues; Deca e Toni Peres Rodrigues. No canto direito, só em detalhe : Zé Reis. Na foto abaixo, entre Chris Skepis e eu, Luiz Domingues, a fotógrafa Myrna Zapata, que assistiu-nos no estúdio daquela simpática emissora. As fotos são de seu acervo pessoal

Desta vez, tocamos no dia 27 de janeiro de 1997, com cerca de 20 pessoas assistindo-nos, alguns amigos, e outras pessoas sorteadas pela rádio, para ver ao vivo a nossa performance, e ganhar discos de brinde. Concedemos entrevistas para algumas revistas do meio musical (Rock Brigade, Cover Guitarra), e jornais menores, incluso um da cidade de Jundiaí, que deslocou repórter para entrevistar-nos na sede da gravadora. Ainda em janeiro, outra grande oportunidade de mídia, foi conceder entrevista no ótimo programa cultural, "Metrópolis", da TV Cultura de São Paulo. 

A equipe de reportagem marcou conosco na sede da gravadora, e com a "montanha" de latas, como cenário, o repórter Cunha Junior, foi muito simpático conosco. O problema interno da banda, foi que eu tentava falar sério, e os demais caiam nas brincadeiras, e muito do esforço para implementar um conceito com o aparato, era diluído completamente por tais pilhérias, numa espécie de autosabotagem.



O Deca insistia em demolir o conceito Hippie, brincando com clichês surrados como : -"eu sou Hippie, porque não tomo banho", e o Chris sempre alfinetando-me por eu não gostar da "revolução Punk de 1977"... claro que eram brincadeiras da parte deles, mas tal atitude aniquilava minha tentativa de fazer a banda, e sobretudo o conceito do resgate 1960 / 1970 ser levado a sério na mídia. Eis abaixo a entrevista no programa "Metrópolis" da TV Cultura de São Paulo :

Eis o link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=q9SnbIBkmkY


Bem, pensando por outros termos, aquilo era tudo uma farsa, e o "POC" não tinha nada a ver com tal conceito, e só eu estava delirando com esse "sonho de resgate". Tanto que meses depois, saí da banda para fundar o Sidharta, farto de lutar em vão, numa banda onde tal conceito não tinha nada a ver. E a primeira apresentação do ano, foi um show coletivo, um daqueles festivais sem sentido, típicos dos anos noventa, com muitas bandas", e mais músicos no camarim, do que público no recinto...

Uma vista geral do Ginásio da Portuguesa de Desportos, no Canindé, em São Paulo, em foto de outro evento, nada a ver com esta narrativa

Graças a um convite do pessoal do "Velhas Virgens", um festival desses, realizado no Ginásio da Portuguesa de Desportos, seguiu essa cartilha noventista, pela qual o POC passou tantas vezes.
Foi mais uma noite desoladora e de muita reverberação sonora, num ginásio vazio, e com um monte de bandas de hard-core; punk; metal, e que tais (uma cambada de bermudeiros, repetindo a exaustão, o bordão típico da época : -"é ducaraio, véio"...).
De fato, era isso mesmo, mas com a conotação as avessas, em minha opinião, no pior sentido da metáfora...
Bem, desta vez, foi um show beneficente, que ocorreu em 22 de março de 1997, levando 200 pessoas, num ginásio que abrigava de 7 a 8 mil pessoas, tranquilamente. Meu único prazer nessa noite, foi subir ao palco e ficar olhando para aquelas arquibancadas vazias, relembrando os incríveis shows de Rock; MPB, e Jazz que eu ali assistira nos anos setenta. De "Rick Wakeman" a "Joe Cocker"; de "Mutantes" a "Gilberto Gil"; "Hermeto Pascoal"; "Novos Baianos"; "Chick Corea"; "John Mclaughlin"; "O Terço"; "Jards Macalé", e tantos e tantos outros.

Bem, momento muito particular meu ao relembrar tais fatos ocorridos entre 1975 e 1978, e agora eu estava ali, em cima do palco, tocando, como sonhara naqueles anos setenta. Porém, era uma reminiscência fugaz, pois a realidade ali naquele momento, não era a ideal. Gostaria de tocar no ginásio da Portuguesa de Desportos, em outras circunstâncias, e não naquela deprimente companhia, daqueles moleques de bermudas, e postura anti-rocker.
Enfim, era mais um prenúncio de que 1997 não traria grandes avanços para o "POC", e pelo contrário, apontaria a decadência do que construíramos nos cinco anos de existência da banda.
Eram os últimos estertores...

Sobre a nota publicada em jornal acima, não posso deixar de comentar... em qual release o jornalista baseou-se para afirmar que o fundador de nossa banda foi Gastão Moreira ?  Absolutamente insólito...

O próximo compromisso seria num bar pequeno, e de certa forma trazendo um pouco da atmosfera do começo da banda, em 1992.
Mas havia uma diferença, gritante : o que era normal e estimulante naquela fase primordial, agora, soava como algo decadente.

Entrevista concedida ao jornalista Régis Tadeu, para a Revista "Cover Guitarra", no início de 1997

Uma coisa foi tocar em diversos "buracos", bem no início, sem disco, vídeo clip e portfólio... e muito diferente era agora estar de novo tocando numa casa pequena, depois de tantas oportunidades perdidas e diante de um reduzido público. Reduzido é um conceito relativo, pois nessa noite de 12 de abril de 1997, cerca de 100 pessoas estiveram presentes no Black Jack Bar. Para os padrões daquela pequena casa, localizada no Brooklin, zona sul de São Paulo, era na verdade, um bom público. Mas, nessa altura dos acontecimentos para o POC, não representava nenhum alento.

O dado legal desse evento, foi a presença de duas bandas de alunos meus, na abertura. O "Eternal Diamonds", do meu aluno Alexandre "Leco" Peres Rodrigues, Rodrigo Hid e Fernando Minchillo, com seu som que mesclava a psicodelia sessentista; toques de prog setentista, e uma dose generosa de Heavy-Metal noventista. E o "Essex", banda do meu aluno Ricardo Schevano, com seu irmão Marcello, e também com Toni Peres Rodrigues (irmão do Alexandre, meu aluno, do Eternal Diamonds), e Marcelo Burani, sobrinho do baterista Diógenes Burani, ex-baterista da Gal Costa e do Moto Perpétuo, banda onde Guilherme Arantes era tecladista.
O Essex era bem Metal, mesmo, apesar do meu aluno Ricardo, e seu irmão Marcello, gostarem bastante de sonoridades 1960 / 1970, também.

Não nego, muito do sucesso desse evento, veio do esforço conjunto e decorrente da presença das bandas de meus alunos, e meu "exército Neo-Hippie" prestigiando a noitada, naturalmente. O Pitbulls on Crack tocou relaxado como sempre, sem reclamações sobre o momento que atravessava, aliás, como era a praxe dessa banda em seus bastidores. Animava-nos um fato extraordinário que estava fechado, e lembrava muito o começo da banda, mas por outro aspecto : oportunidades oriundas dos contatos do baterista Juan Pastor, graças a sua posição dentro da Rádio 89 FM. Estávamos escalados para participar de um evento de médio para grande porte, com o apoio daquela estação. Portanto, lembrava bastante o período 1992 / 1994, quando tivemos muitas chances dessa monta.

Antes de prosseguir na cronologia dos fatos, abro um parêntese para falar do encarte do CD, e do livrinho "Pitzine", que foi incorporado à lata correspondente ao lançamento do disco. Sobre o encarte, as fotos correspondentes dos membros da banda, foram obtidas numa sessão realizada num estúdio no bairro do Bexiga, zona central de São Paulo, chamado Pugliesi Privato Comunicações, num domingo de outubro de 1996.  O fotógrafo em questão, foi indicação minha, tratando-se de um velho amigo dos anos oitenta, chamado Carlos Muniz Ventura, que acompanhou a carreira da Chave do Sol, e além da amizade conosco, fez muitas fotos promocionais dessa banda, desde 1984, além de fotos dos encartes do EP de 1985, e do LP The Key, em 1987.

Nessa sessão, quase nenhuma foto foi aproveitada posteriormente, porque os companheiros vetaram a maioria dos clicks, alegando que havíamos ficado muito caricatos com o uso e abuso de uma suposta indumentária hippie sessentista. Bem, havia algumas que ficaram um pouco exageradas mesmo, e de fato, uma caracterização pesada assim requeria uma produção extra. Não foi culpa nossa, e muito menos do Carlão, fotógrafo. Uma coisa, era uma sessão de fotos de uma banda como o "Black Crowes", caracterizados como Rockers sessenta  / setentistas, com uma naturalidade incrível, e bom gosto muito bem direcionados, mas outra, era arrumarmos roupas supostamente nessa vibração, e sem um olhar mais avalizado de uma pessoa entendida de moda (e sob rígida compreensão da época em questão), irmos de peito aberto para uma sessão, e correndo o risco da caricatura; mau gosto kistch, exagero etc.

Lembro-me que a própria Marina Yoshie arrumou-nos o patrocínio de um brechó bacaninha na Vila Madalena, e lá, reforçamos o figurino apanhando algumas peças. Mas não havia nada "100% hippie sessentista" disponível, portanto, abastecemo-nos com peças que lembravam vagamente tal intenção. A única peça marcante que achamos, ficou com o Chris, e tratava-se de um colete de pele de carneiro, impossível de usar-se no calor tropical do Brasil, mas realmente chamativo. Quando o Chris vestia-o, lembrava muito o Graham Nash em seus mais gloriosos tempos de freak das montanhas... 
Nesses termos, eu também concordei que cometemos erros nessa sessão, por absoluta falta de noção estilística, sem portanto, capacidade de discernimento para distinguir o estilo "Hippie Chic" que ambicionávamos, em detrimento de uma caracterização infeliz que remeteu-nos ao uso de fantasias mal arrumadas para festas temáticas. Infelizmente, não tenho nenhuma cópia sequer dessas fotos promocionais, para publicar aqui. Os negativos ficaram com a gravadora. No caso do encarte, as fotos foram aproveitadas, justamente porque foram closes dos rostos, com alto contraste de luz e sombra, numa proposta do Carlão, visando buscar inspiração explícita no álbum "With the Beatles", um clássico referencial nessa concepção de rostos obscurecidos por sombras. 


Sobre o cão pitbull que aparece na capa principal, vestido de astronauta, e no encarte interno ao natural, na verdade era uma fêmea. Tratava-se de uma cadela, chamada "Miss Bull Orioli". Não  recordo-me ao certo, mas creio que foi produção de campo da própria Marina Yoshie, que conhecia o dono da cadela.


 
Todo o texto do encarte foi escrito por eu mesmo e traduzido para o inglês, pelo Deca. Também tive crédito por ser o responsável pela inspiração toda da atmosfera sessentista que norteou o lay-out, e por ter acompanhado a sessão de masterização. Meu exército Neo-Hippie também ganhou menção na lista de agradecimentos, creditados como "time de adolescentes do Luiz". Sobre a masterização, realmente fui o único representante da banda no estúdio do Egídio Conde, numa manhã de outubro de 1996.

Mas nada contribuí para o processo, pois sendo um procedimento técnico, e cujo caráter digital era inteiramente novo para a minha compreensão na ocasião, minha ajuda foi a de manter-me quieto o máximo que pude para não atrapalhá-lo. Nos poucos momentos em que conversamos, disse-lhe que acompanhara-o nos anos setenta, vendo-o tocar em bandas como o Moto Perpétuo e Som Nosso de Cada Dia, e de fato, era um ótimo guitarrista nessas duas bandas. Ele ficou muito surpreendido por eu saber e respeitá-lo por isso. Ora, certamente que ele não conhecia-me e não poderia supor essa minha vivência rocker setentista, mas chega a ser irônico de certa forma, para quem está lendo a minha autobiografia, pela obviedade...
Outra ideia que tive e foi aprovada por todos, foi a da inclusão de uma citação a um "guru" indiano. Minha intenção não era fazer pilhéria, mas sim homenagear as bandas sessenta / setentistas, das quais muitas, tinham um "guru" indiano que seguiam, admiravam etc etc.

Mas claro, era o POC, e o Chris sugeriu um nome indiano com duplo sentido, que foi aprovado pelos demais em aclamação... tinha que vencer a opção pela galhofa, como marca registrada da verve humorística dos três, e assim, foi grafado (em inglês) : "Toda a glória para o nosso Guru Indiano, Batumahapa Grandhi"...
Acho que explicar o sentido malicioso desse nome fantasia, não é necessário...
E também concordamos em dedicar o disco ao Arnaldo Baptista, e por sugestão do Chris, o designamos pela grafia brincalhona com a qual, ele mesmo, Arnaldo, costumava usar, para ser lida com fonética em inglês : "R Now Do".

Cabe acrescentar que o Arnaldo foi convidado para participar da festa de lançamento do CD, mas recusou o convite por motivos particulares. Mesmo assim, foi simpático ao receber um Kit da lata de presente, e retribuiu, dando-nos quatro camisetas com pinturas suas feitas à mão. Usei a minha no show, e em muitos outros shows de outras bandas por onde passei, doravante. Finalizando, todo o lay-out seguiu o padrão do aparato de lançamento (na verdade, o contrário), com bastante motivação psicodélica; citações à Pop-Art, e foguetes espaciais ao estilo Apolo 11, além é claro, da presença da cadelinha Pitbull. Crédito total e mérito de Marina Yoshie.



Eu ainda usava aquele apelido que fazia menção à minha origem lusitana, portanto, nas fotos estou assim designado. Sobre o livrinho da lata, falo a seguir...

Sobre o livro que acompanhou o aparato da lata, claro que seguiu toda a temática inspirada nessa ode aos anos sessenta. Creio que foi o maior ponto de apoio que eu, particularmente, tive para tentar manter um mínimo de seriedade no conceito todo, pois além da disparidade musical entre a proposta, e o som da banda (incluso, letras, também), a inclusão de um monte de bugigangas dentro da lata, mais chamava a atenção pelo inusitado, mas não necessariamente havia uma ligação entre si, e principalmente à célula mater, que era o conceito.

É discutível portanto, nesse sentido, a inclusão de um pacote de sopa, e um chaveirinho da Coca-Cola, supostamente insinuando a Pop-Art sessentista. Bolinhas de gude, podiam remeter à infância vivida naquela década, com a sugestão desse tipo de brincadeira prosaica, mas era algo muito vago, e certamente sem conexão com a Contracultura; Flower Power, ou movimentos correlatos de ordem estéticos ou sócio políticos daquela década. O mesmo raciocínio para a mola, que era chamada como "psicodélica" na propaganda, mas na verdade, mesmo sendo bem colorida, não caracterizava tal atributo, sendo apenas um brinquedo infantil sem apelo com o mote. Dava para entender a inclusão de um pacote de ração para cães, por conta do nome da banda citar a raça canina, Pitbull, mas outros itens, nada tinham a ver com o conceito sessentista, necessariamente.

Diante dessa panaceia, e tirante a inclusão de um pacotinho de incensos indianos, e uma vela, onde sugerir-se-ia que fosse acendida durante o show de lançamento, acredito que o livro, pelo seu teor de temáticas abordadas, foi mesmo o item incisivo nesse aspecto. A tal carteirinha de "Hippie-Mor" não agradava-me, pois sabia que tornar-se-ia um alvo fácil para os detratores de plantão, tornando-se possivelmente alvo de piadas prontas. A inclusão de um ingresso para o show de lançamento do CD, nas latas vendidas até a data, foi uma boa jogada de marketing, mas em termos de conceito, foi neutro, acredito. Portanto, na força do texto desse livro, residia o único elo de seriedade para tratar a temática, e mais uma vez, eu contribuí bastante, tanto no direcionamento editorial, quanto em textos, propriamente ditos. O editorial oficial no entanto, foi escrito pelo diretor do selo Primal, subordinado da gravadora Velas. Foi ideia de Rodrigo P. Martins, filho de um dos donos da Velas, o poeta / letrista Victor Martins, parceiro de Ivan Lins em muitas composições famosas na MPB, e Ivan era um dos sócios da Velas, também. Eis a transcrição literal do que ele escreveu :

Comentando as colocações feitas em forma de editorial por parte do Rodrigo Martins, digo que gostei de seu raciocínio. A síntese do que achei mais significativo em sua explanação, veio no final do texto, quando afirmou que tínhamos uma transição de milênio alvissareira, justificada pela própria capacidade da pop art de recriar-se, portanto, enxergava nesse projeto, algo além da homenagem; saudosismo retrô, ou lágrimas derramadas por um passado que não volta mais. Era exatamente o que eu pensava e buscava, pessoalmente, e que só fui aproximar-me mesmo, através do projeto Sidharta, que aconteceu depois que saí do "POC" em 1997, e posteriormente na fusão com a Patrulha do Espaço (leia tudo a respeito, detalhadamente, nos respectivos capítulos dessas duas bandas onde atuei). Curioso apenas, o fato de que ele, Rodrigo, nunca verbalizou-me tal pensamento seu. Só lendo seu editorial, tomei conhecimento de sua visão sobre o conceito todo.
Por outro lado, suas atitudes no cotidiano, contratando bandas de estéticas antagônicas, demonstrava não ser algo vital para ele, artisticamente falando, e que o lado comercial de ter que gerir um selo com pressões por resultados financeiros imediatos, norteava seus esforços. Não cabe nenhuma crítica pessoal nisto que afirmei, mas apenas uma constatação. O segundo item do livro, era uma descrição sumária dos produtos que constavam na lata. Tal descrição foi feita pelo marqueteiro da gravadora, e justiça sendo feita, o grande viabilizador do aparato ter materializado-se, o Alexandre Madeira.

Nada a comentar, pois foi uma descrição meramente em formato de bula, como sugeriu o subtítulo. A seguir, um micro histórico da banda foi-me sugerido para ser publicado, e eu senti-me muito incomodado eticamente falando, em ter que assinar tal texto. Portanto, assinei-o sob o pseudônimo de "Zeca Flocos", para homenagear um dos jornalistas / críticos de Rock mais divertidos que conheci, chamado Ezequiel Neves, que também usava a alcunha de "Zeca Jagger"...


A despeito do pseudônimo engraçado, citando Ezequiel Neves de forma subliminar, esse super resumo da carreira da banda até então, cumpriu sua função, sem nenhuma intenção de fazer graça, como certamente Zeca Jagger o faria. O próximo texto também foi de minha autoria, e o pseudônimo que usei, diferente do anterior citado, foi o de Tony Bauducco. Ao contrário de "Zeca Flocos", que usei somente nesse trabalho, Tony Bauducco já existia como opção de pseudônimo, desde 1994, quando criei-o para assinar três resenhas num fanzine chamado "In Rock Signo Vinces", como convidado de seu editor. Existe uma longa explicação sobre a criação desse pseudônimo, e encontra-se disponível nesta autobiografia, no capítulo "Sala de Aulas". Vale a pena ler, pois Tony Bauducco tem uma razão de ser.

Confesso, fui bastante incisivo nesse texto, mas modéstia a parte, muito coerente com a questão da temática que queria implementar para a banda. A alfinetada explícita na mentalidade pós-1977 deu-se no trecho : "...Tantas correntes, tantas influências e uma só amálgama : a música melodiosa, legado máximo dos anos 1960 e 1970, que há muito tempo foi deixado de lado no Rock". 
A frase final também é significativa : "Talvez esteja aí a grande homenagem que a banda presta aos seus grandes ídolos dos anos 1960, resgatando a melodia para o Rock".
 

 O próximo texto, falava sobre a questão da Era Espacial, tentando estabelecer um elo entre a corrida espacial, pelo lado do avanço científico ; a guerra fria, que impulsionou tal esforço das duas super potências para tal, e o lado lúdico do sonho, que move a imaginação, portanto leva o mundo para o avanço. E membro da geração "Baby Bloomer", que sou, claro que essa faceta da década de sessenta também é-me simpática. Usei outro pseudônimo lúdico de minha infância : Louis Smith Robinson". Dei uma "anglo-americanizada" no meu nome Luiz, traduzindo-o para "Louis", e acrescentei o sobrenome duplo : "Smith Robinson". Com isso, minha homenagem ficou aos personagens do Dr. Zachary Smith, e Will Robinson, de "Lost in Space" ("Perdidos no Espaço"), uma das séries de TV que mais influenciaram-me na década de sessenta.

O próximo assunto extrapolava o conceito de arte simplesmente e ia além do item cotidiano. Sendo fundamental para entender-se toda a magia sessentista, a questão da contracultura, de onde mil ramificações das mais variadas motivações descende, fazia-se mister ser entendida para dar substância ao mote geral deste conceito do disco, e de seu aparato. Claro, elaborando um texto conciso e coloquial, dei um apanhado geral sobre a contracultura como um todo, e no final lancei uma pergunta emblemática : "Por que não sonharmos novamente ? "
Tal indagação tinha a força da indignação de quem nunca conformou-se com o surrado conceito de detratores da Era Aquariana, e que usaram a frase "O sonho acabou", referindo-se ao movimento hippie, com desdém. Depois de anos, estava patente que se o sonho morrera como tanto queriam, o pesadelo advindo, jamais valeu a pena, e que voltar a sonhar era uma mera questão de se querer sonhar novamente. Como uma semente, tal conceito ficou registrado no livrinho. Tal texto foi assinado por um último pseudônimo que criei, chamado "Tim Lee", e que era uma evidente referência ao Dr. Timothy Leary, o chamado "guru" da contracultura sessentista.

Por fim, o professor de faculdade de Marina Yoshie (Wilton Azevedo), colaborou com um sucinto texto sobre a Pop Art, focado em Andy Warhol. Tal texto foi montado com frases que ele mesmo escrevera num livro chamado "Os signos do Design".

Gosto do texto todo, e em especial da frase final, onde diz : "O Pop influenciou a massa, e Warhol deu à mesmice, a visão e o sentido erudito de quem aprecia árvores em um bosque".
Ainda constando do encarte, quatro fichas individuais dos membros da banda. Mediante informações que eles forneceram-me, eu mesmo escrevi a ficha de cada um, incluso a minha, mas sem assinar nada, assumindo característica institucional do encarte. Sem nada muito significativo a comentar, tais fichas seguiram o padrão de press-release de gravadoras para alimentar os órgãos de imprensa.


Fechando, duas páginas foram reservadas para a ficha técnica específica do livro, onde Marina Yoshie foi creditada pela produção gráfica; a banda e a gravadora pelo conceito; Alexandre Madeira pela supervisão de produção, e todo o staff da Primal foi citado. Também foram publicados os logotipos dos patrocinadores do aparato da lata, e uma página inteira dedicada à Coca-Cola, que foi a patrocinadora master. Essa foi a concepção e execução do livrinho que acompanhou a lata, e posso afirmar, o item mais robusto, artisticamente falando, que deu amparo ao CD, dentro desse aparato de divulgação do produto. Indo além, um dos poucos itens dessa ideia maluca toda, no qual houve uma seriedade e profundidade para tratar do conceito todo que eu sonhara imprimir.
Volto à cronologia dos fatos, no próximo capítulo.

    Show no Olympia - outubro de 1996 - Click de Marcelo Rossi



E sobre o CD em si, traço agora uma breve resenha sobre o material musical que gravamos. Como não poderia ser de outra forma, o disco inicia-se com a locução clássica do lançamento da “Apolo 11” em 1969. “ten; nine; eight; seven; six; five; four; three; two; one… fire ! We Have a Lift off” !! Estava justificado o título do disco e todo o mote especial por conseguinte.

A primeira música, Winding Moon, tem um jeito Glitter Rock setentista bem acentuado, mas acredito que graças aos fraseados de baixo que criei, bem em cima da escola clássica cinquentista. Talvez não tivesse tal característica se um outro baixista com mentalidade diferente tivesse-a gravado. Dessa forma, parece uma canção “outtake” de algum álbum do David Bowie ou “Mott the Hoople”, dos anos setenta. Acho que o mapa dela tem um equívoco, quando força uma repetição à parte A, tornando-a longa em demasia. Se não fosse por isso, teria dado o recado bem melhor. Gosto das intervenções bem Rock’n Roll do Deca, super Glam Rock anos setenta também, embora ele tivesse incluído alguma modernidade em outras trechos, como por exemplo certos acentos percussivos explorando o reverber natural do amplificador bem ao estilo de guitarristas então “modernos” dos anos noventa. A voz do Chris lembra bem o Alice Cooper e ainda mais ultra processada daquela forma. Usei Fender Precision e pareço o Trevor Bolder tocando com o “Spiders from Mars”. Usei e abusei de bicordes nessa linha de baixo. A lamentar-se, a captura muito equivocada dos timbres das peças da bateria. Parece uma caixa de sapatos e é uma pena, porque o Juan Pastor criou uma linha com efeitos tribais sobre os tons e isso prejudicou-se muito com um som tão aquém em termos de áudio. Gosto da letra, que versa veladamente sobre loucura. Destaco a frase : “Now, it’s time for my cozmic trip”.
“Dead News”, a segunda faixa, é baseada num riff de “Acid-Rock” explícito. Parece super “sixties” em essência, mas um maldito reverber ultra exagerado na caixa da bateria faz-nos ficar amarrados aos anos oitenta, lastimavelmente... que mania desses produtores que gostavam dessa pasta oitentista horrenda e nesse caso, foi o ônus que levamos pela mão de ferro exercida pelos responsáveis pela mixagem e da qual não conseguimos dobrar na queda de braço. Solo de guitarra do Deca bem legal de “Wah-Wah” e um final interessante explorando tal efeito, também. Não sei onde eu estava com a cabeça em não ter usado um Fender Precision nessa faixa com uma sonoridade lembrando Jimi Hendrix. Mas o Rickenbacker deu certo afinal de contas. Foi como se o Roger Glover estivesse no “Experience”, ao invés de Noel Redding, digamos assim. A letra é ultrajante pelo sarcasmo, brincando com o fato de uma pessoa estar vendo o noticiário na TV e absorvendo noticiário policial mórbido, mas reconheço, muito criativa. O que dizer de uma frase que afirma : The murdered star ain’t no Jerry Lee Lewis, Don’t turned it off, it’s all fun, Michael Jackson joined the Ku Klux Klan”...
Sobre “Ups and Downs”, digo que gosto bastante do riff criado pelo Deca. A melodia que o Chris criou também é bastante agradável. Bem, lembra bastante “Rolling Stones” e nesse caso, não tinha como não dar certo, inclusive no belo solo a La Ron Wood. Acertei na escolha de baixo, eu creio, mas o áudio da mixagem não favoreceu em nada o meu Fender Jazz Bass. Está bem “flat”, no mau sentido do termo. E um baixo desses quando bem timbrado, não fala, grita...
Ouça o áudio oficial da música ”The Dying Day”, através do link abaixo :
https://www.youtube.com/watch?v=AVsYbhPSMeg&feature=youtu.be
E já que falei de Rolling Stones, a quarta faixa é ainda mais explicitamente no estilo da mega banda dos “Glimmer Twins”. Numa bela harmonia e com ótima melodia, tal balada chamada “The Dying Day”, é uma das minhas prediletas do álbum. O arranjo é pleno de acertos, com muitos detalhes memoráveis. As intervenções de contra-solos do Deca, são belíssimas, mais uma vez relembrando Ron Wood e também Mick Taylor. O uso de delicadas intervenções com harmônicos em vários trechos, são incríveis, fora que mais uma vez fez acentos percussivos “noventistas”, dando ar de modernidade em contraponto à balada de sabor “seventies”. A base de violão riscado do Chris é simples, mas além da sua funcionalidade tem a beleza que sustenta a balada. Meu baixo nessa faixa é o Fender Jazz Bass e seu registro grave ornou de forma condizente. Nessa faixa, o baterista do “Angra”, Ricardo Confessori, gravou a bateria com muita classe, embora respeitando o arranjo, sem grandes voos no entanto. Por conta de sua fama naquele mundo do Heavy-Metal, tal participação foi destaque em muitos fóruns sobre ele e o “Angra” em várias publicações internacionais especializadas. Vimos até em revistas japonesas comentários sobre isso. E um super destaque para o convidado especial, Johnny Boy que criou de total improviso um arranjo sensacional de piano e com um swing incrível, parecendo o Nicky Hopkins tocando com os Rolling Stones, sem dúvida alguma... de fato, parece mesmo uma canção dos Rolling Stones daqueles álbuns memoráveis que gravaram na década de setenta. Em todo o disco, o sotaque do Chris é hiper britânico, ao estilo “cockney”, mas nessa faixa, escancarou-se de forma absurda. É um autêntico crooner inglês cantando com aquela forma de pronunciar palavras com uso de W+ A ou Y+A, abrindo a sílaba, pronunciado “Auei”, ao falar “Way” (“uei”), por exemplo... super David Bowie, portanto. Importante destacar igualmente, os backing vocals em efeito vocalises que o Chris criou, são sensacionais, ultra Rolling Stones. A causar estranheza diante de tanta beleza, o teor da letra, mas digamos que era a porção Alice Cooper que o Chris sempre trazia / traz junto no bojo de sua criação. Outro detalhe, no encarte, a letra não fica junto às demais canções do disco mas está no fundo do espelho, onde o CD fica guardado.
Outra faixa que eu gostava muito de tocar ao vivo e estava no repertório da banda desde 1992, “The Shadow of the Light” era uma das peças mais psicodélicas do nosso repertório, para não dizer a única, visto que “Candle Light” tinha um pezinho nos sixties, igualmente. Sentia-me tocando no “Grateful Dead” em algum “Acid test” dos anos sessenta, toda vez em que toquei-a ao vivo. Com uma bela levada, harmonia bacana e uma melodia bem pop, tinha um refrão forte (e que lembra “Dark Horse”, do George Harrison). Nossa idéia em utilizar uma cítara indiana foi frustrada pela nossa ignorância na época em não saber que existem restrições harmônicas em conciliar tal instrumento com instrumentos tradicionais ocidentais, mas a inclusão da Tamboura, um instrumento indiano menos invasivo, deu muito certo no nosso afã de trazer um elemento bem “sixties” na sonoridade dessa canção e aí, o saudoso Marcus Rampazzo auxiliou-nos e abrilhantou o disco, sem dúvida. Nessa faixa, o Deca alucinou de vez. O espírito de Ritchie Blackmore “baixou” nele, com uma guitarra ensandecida, quase o tempo todo da duração da canção. A participação de Johnny Boy tocando órgão Hammond é espetacular. Também na base do improviso total, a luz vermelha acendeu e ele criou tantos desenhos “swingados” e com um tipo de equalização de draw bar tão “Allman Brothers”, que só por esse detalhe a faixa já vale a pena. Por uma questão de choque de frequências, tem certas frases do órgão que soam como solo de flauta. Parece que chamaram o Thijs Van Leer para tocar escondidinho lá no fundo da sala, fazendo solos viajantes. Ao final, a percussão de Will Carrara entra com bastante molho. Acho até que as congas deveriam ter entrado antes no arranjo, de tão legal que é. Usei Fender Jazz Bass e soltei meu lado Motown / Stax, fazendo fraseados de Black Music. Sou o Donald “Duck” Dunn tocando com Otis Redding nessa faixa... quem me dera ! O ponto negativo ficou por conta dos timbres horríveis da bateria e o “trigado” nos tons e caixa que faz com que as viradas feitas em colcheias e semicolcheias pelo Juan Pastor soem como ruído de vídeo-game. Um show de horrores o que fizeram na mixagem nesse aspecto.
“Nevermind” era uma canção emblemática para o Pitbulls on Crack e reveladora também. Ao mesmo tempo que a banda foi ganhando aura sessenta / setentista ao longo do desenrolar de sua carreira, tal canção marcava território em lembrar-nos que a despeito de qualquer devaneio  nosso e principalmente de minha parte, o que a banda era na verdade revestia-se de cunho indie noventista. Gravá-la era obrigatório portanto, pela sua importância nos shows desde o começo da banda, em 1992. O refrão causando a estranheza onomatopaica gerava reações nos shows tanto quando a frase lapidar que o Chris usava em todos os shows ao início ou término dessa canção : -“não tem nada a ver com o “Nirvana”. De fato não tinha na intenção do seu título que coincidia com o famoso álbum de tal banda norteamericana e mega superestimada pela mídia, mas por outro lado, mostrava o lado indie da nossa banda, portanto, tinha a ver ainda que subliminarmente com o tal do Nirvana...
Sobre o instrumental dessa faixa, mais uma vez o Deca alucinou com muita ruideira proveniente de alavancadas na sua Fender Stratocaster. A linha de baixo é extremamente simples, condizente com o espírito da canção, mas pelo fato do baixo ter ausência de frases quase o tempo todo, ficando na repetição contínua, dá para sentir um timbre de Fender Precision, fidedigno. O famoso “estalo” de médio-agudo desse modelo está ali na palhetada proeminente. Essa faixa ficou com problemas de andamento, infelizmente. O “freio de mão” foi puxado várias vezes no decorrer da canção. Gosto das guitarras base limpas e violões “sombra” bem escondidos no fundo da mixagem.
“Down at the “Hellhole”, parece Hard-Rock a La “Aerosmith”. Tem “riffão” de guitarra, órgão Hammond e melodia bem clássica nesse sentido. Teoricamente eu escolhi errado o baixo a ser usado numa faixa dessa característica, mas a despeito de ter sido mais conveniente usar o Fender Precision, o Rickenbacker ficou bonito. Dessa vez o espírito de Angus Young é que baixou no Deca... só faltou sair correndo com mochila escolar nas costas...
Outra música que tínhamos desde 1992, era “Candle Light”. Um misto de Folk com psicodelia, tinha ares místicos e misteriosos, sendo uma canção bem bonita a meu ver. O uso de vários violões e o exótico “Buzuki”, um instrumento de cordas do folclore grego, deram-lhe uma atmosfera bem legal. Gravei com Rickenbacker e acho que acertei em minha escolha. As intervenções de percussão de Will Carrara foram ótimas. Com bongô, pandeirola e carrilhão, creio que ajudou muito para a canção ficar sofisticada em seu arranjo. E o sintetizador de Johnny Boy com a locução da voz do Chris alterada de forma fantasmagórica no “pitdown”, no início, foi como dizia o Chacrinha : “eu vim para confundir”, pois se o ouvinte esperava a entrada de um Heavy Metal como seria de supor-se com tal introdução “macabra”, se enganou meu bem, pode vir quente que eu estou fervendo... belo solo do Deca em escalas “árabes” (modo mixolídio ?).
A canção mais complexa desse disco, é sem dúvida, “Overload”. Não era o propósito do POC certamente, mas é quase um “Rock Progressivo”, dado o seu desenrolar com várias partes, numa espécie de suíte. Lembra certamente canções mais sofisticadas do David Bowie, notadamente as arranjadas pelo pianista Mike Garson nos discos “Aladdin Sane” de 1973, e “Diamond Dogs”, de 1974. Sobre a parte “C”, o Chris confidenciou-me que inspirou-se em uma cena do filme “Casanova” de Federico Fellini, aquela em que o personagem título entra numa estranha casa de ópera. Em alguns trechos o Chris gravou-a sem o processador que permeou o disco inteiro praticamente, e a sua voz soando em registro grave, ficou bem bacana. Meu baixo é novamente o Rickenbacker e algumas frases mais exageradas lembram muito o estilo do Gary Thain, certamente ajudado pelo fato de certas cadências harmônicas lembrarem o som do “Uriah Heep”. Gosto das intervenções de teclados do Johnny Boy, além de bases de guitarra com flanger e chorus, causando efeitos fantasmagóricos. E a parte final é muito David Bowie, teatral ao extremo. Dá para imaginar o Chris fazendo uma performance de mímica com aquele olhar vidrado mirando o infinito, como o camaleão faria... enfim, uma das melhores canções do disco e mesmo que tenha sido tocada pouco ao vivo, é uma em que orgulho-me em ter gravado.
 
Death on The X-Mas Day” é um rockão novamente ao estilo do “Aerosmith”. Slide guitar rasgada e andamento rápido, conta com um piano super Rock’n Roll “fifties”, nas melhores tradições de Jerry Lee Lewis, da parte do ótimo Johnny Boy, nosso convidado. Usei Fender Jazz Bass e gostei do grave que consegui. Fender Precision teria sido a escolha mais lógica para essa canção, mas fiquei contente com o Jazz Bass. E o Johnny Boy, foi na mesma toada em que gravou as demais faixas em sua participação, tudo na base do mais puro improviso no estilo : –“ como é a próxima ?” –“ah, Rock’n Roll ? OK, pode por para gravar”... play and record e pau na máquina, num take só, sem errar e criando frases incríveis... ou seja, só para os fortes, mesmo. Coisa que entusiastas do Punk Rock nem em sonhos conseguiriam, não acha “véinho” ? E a letra da música evocou filmes de terror modernos, desses baseados em psicopatas e o uso de torturas inimagináveis sem explicação plausível alguma, extrapolando o conceito do sado-masoquismo puro e simples...
“You’ve Got on the Run” era outra canção dos primórdios da banda. Tinha um potencial pop sem dúvida e acertadamente a meu ver, gravamos num andamento bem mais lento do que a tocávamos ao vivo. Sobre a canção, a despeito disso, creio que sua aparência era bem noventista, como ”Nevermind”, mostrando bem o que era o POC realmente. Will Carrara adicionou uma percussão agradável na forma de um bongô e há uma sombra de teclados sutil feita pelo Johnny, que dá uma certo “ar” de música caribenha (é muito sutil mesmo o que estou insinuando). Infelizmente essa canção também apresenta problemas de andamento e a impressão é que a banda conduziu-a pisando no freio a cada placa avisando haver um radar à frente...
Fechando o disco, eis que gravamos uma inusitada música que não era só do Chris Skepis, mas creditada a todos, fruto de uma Jam Session realizada em sala de ensaio. E nesse espírito, sem ser uma música pré-concebida como todas as que o Chris trazia-nos prontas de casa, a gravamos com dose generosa de improvisações. Tratou-se de “Plastic Surgery Brain”. Ivan Busic gravou-a e claro que com sua categoria, abrilhantou nosso disco. Mesmo com sua pegada de baterista hiper técnico que é, os timbres deixam a desejar. Realmente a captura do som de bateria é um ponto falho nesse disco. Johnny Boy improvisou com piano e intervenções de sintetizador. O som de “sinth” que escolheu remeteu a timbres “modernosos” dos anos oitenta, que eu não gosto, mas suas frases foram muito boas, é claro. A canção é boa, mas repetitiva dentro de uma quadrado harmônico, portanto, na minha opinião, deveria ter sido encurtada. Usei Rickenbacker, mas não explorei as frases que o Ivan Busic fez, e hoje arrependo-me de ter sido tão parcimonioso, pois se eu tivesse dividido as frases junto com ele, teria sido melhor para a canção, visto que não havia a menor intenção de que essa faixa fosse tratada para ser pop radiofônica. Portanto, a livre criação deveria ter sido observada de minha parte... gosto do efeito inusitado com o fim abrupto, simulando o fim da fita no rebobinador e de fato, o combinado foi esse mesmo, pois era o fim da fita e a idéia foi seguir tocando até a fita acabar e desenrolar-se, aproveitando o ruído dela na máquina saindo da bobina. Lastimo mas só existe um link de faixas individualizadas, mas não do álbum inteiro, disponibilizados no You Tube ou outro portal semelhante, ao menos por enquanto. 
E assim foi... We’ve have a lift off…


Volto à cronologia dos fatos, no próximo capítulo.
 
Continua...

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