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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pitbulls on Crack - Capítulo 3 - Portas Abrindo-se Sob o Luar... - Por Luiz Domingues


Marcaram enfim o início da nossa produção do vídeoclip para os primeiros dias de fevereiro de 1994. Ficou acertado que usaríamos como set de filmagens, um dos galpões do antigo matadouro da Lapa, bairro na zona oeste de São Paulo. Claro, aquilo foi matadouro até os anos vinte, talvez início dos trinta, mas já há muitos anos vinha sendo usado pela prefeitura como sede da Subprefeitura do bairro da Lapa.

A ideia do clip era bem simples : a banda tocando no galpão vazio, mesclando-se à algumas cenas de trens suburbanos passando (aproveitaram o fato de passar uma linha bem ali atrás dos enormes galpões da Subprefeitura), e algumas cenas filmadas de uma garota dançando ao luar, focando na letra da música em questão : "Under the Light of the Moon". Filmamos no início de fevereiro de 1994, sob forte calor. Foram poucos "takes", e com o diretor aproveitando muitas vezes a passagem dos trens suburbanos que dava para avistar dos janelões do velho galpão. Nessa filmagem, usei como instrumento o baixo Precision sunburst (um "genérico" de Fender, construído por um Luthier), do meu amigo José Reis, curiosamente, hoje ele pertence-me.

Eis abaixo o link para assistir o Clip no You Tube. 
https://www.youtube.com/watch?v=Pw946pVBYSQ

Cabe explicar que trata-se de uma cópia de VHS digitalizada e desconheço que uma cópia melhor esteja disponibilizada no You Tube, ou outro portal de imagens. As cenas da garota dançando, foram feitas alguns dias depois num estúdio fotográfico, e usando o Chroma Key, onde inseriram as imagens da Lua. Os takes do solo do Deca, também foram filmados nesse mesmo estúdio, e só ele acompanhou a filmagem da garota. Sinceramente não lembro-me do nome dela (desconfio ser Sofia), mas soube que fora contratada junto à agência Ford Models, e que o cachet cobrado da gravadora, fora de U$ 800,00.

O Deca foi filmado girando num minúsculo pedestal e ao final, quebra uma guitarra (ele usou uma carcaça arruinada de uma guitarra handmade). O clip tem fotografia preto e branco em 95 % do tempo e algumas inserções coloridas (quando a guitarra do Deca é estraçalhada, quebra-se um espelho e a garota aparece então em cores, destacando-se seus olhos azuis). O diretor do clip foi David Brazil, e não recordo-me do nome do diretor de fotografia, tampouco outros membros da produção. Como curiosidade, só o fato de que a gravadora bancou tudo, menos a refeição... a banda teve que bancar o almoço da equipe inteira de filmagem. Não dá para vencer todas...

Enquanto finalizavam o clip, enfim voltamos a apresentarmo-nos ao vivo. O primeiro show do ano só foi ocorrer em 17 de março de 1994. Foi um show num teatro exótico, localizado no bairro do Bexiga, chamado "Teatro Hall". Exótico, pois tinha uma estrutura não concebida originalmente para esse fim. Por isso, não havia coxia, e o público entrava e só conseguia dirigir-se às poltronas, praticamente passando ao lado do palco. Era bastante confuso, e de certa forma constrangedor. E havia outra anomalia: o palco era quase retangular, bastante incomum e incômodo. Nesse dia, dividimos a noite com "The Charts" e "The Ultimates". Gostei do The Charts (pois era nítida a intenção dessa banda em fazer som "Mod", a la "sixties"). Pouca gente compareceu, apesar de ter  a atração de três bandas na noite. Apenas 30 pessoas passaram pela bilheteria do teatro.

E logo a seguir, tocamos novamente no "Garage Rock", em dois shows realizados nos dias 18 e 19 de março de 1994. No dia 18, dividimos a noite com o "Vultos" e no dia 19, com o "Rip Monsters". 100 pessoas no primeiro dia e 300, no segundo, com plateias animadas e participativas.

E fechando o mês de março, um show no dia 31, dividindo a noite com o "Stigmata", novamente no Teatro Hall. Desta vez, com 40 pessoas no recinto. Mas a grande novidade era o clip finalizado, já sendo exibido na MTV, e a música "Under the Light of the Moon" começando a "pegar" na Rádio 89 FM. Sobre isso, falarei detalhadamente logo mais, pois tem uma história boa protagonizada pelo meu exército de Neo-Hippies, e também pelos esforços de Jason Machado, um rapaz que entraria na vida do "POC" em 1994, com muita vontade de ajudar. E falarei logo mais sobre um show que aconteceu em abril de 1994, onde aconteceu-me algo inédito. Foi inusitado, irritante, mas acabou entrando para o meu anedotário...


Então, o próximo show seria num evento coletivo, em prol das vítimas da Aids. Esse show estava sendo organizado pela revista "Dynamite", e o local escolhido foi um Teatro no bairro da Saúde, zona sul de São Paulo, chamado "Brittania". 
Era na verdade um ex-cinema desses de bairro, com instalações de grande porte e excelente localização, em plena Av. Jabaquara, e com estações do Metrô, próximas. 
Houve uma divulgação boa e cerca de 800 pessoas estiveram presentes. Nessa noite, além do Pitbulls on Crack, também tocaram : "Rip Monsters"; "Yo-Ho-Delic"; "Anjos dos Becos"; "Korzus", e outras. O que ocorreu de excepcional, foi que como o camarim não comportava tantas bandas acomodadas juntas, houve um remanejamento. Enquanto esperavam uma ordem de chamada, muitas aguardavam misturadas ao público. Então, na hora que a vocalista Tibet, uma das organizadoras do evento, foi chamar-nos, fomos todos seguindo-a normalmente pelo saguão lotado de gente e na porta de acesso aos camarins, todo mundo entrou, mas o segurança barrou-me, mesmo vendo que eu estava junto e carregando um case (estojo), de instrumento. Sei lá, cismou que eu não fosse da banda, e barrou-me.

Foi ridículo, pois os colegas passaram e do nada, o energúmeno colocou a mão no meu peito, e ficou irredutível dizendo que eu não estava autorizado a entrar. E em meio àquela zoeira, com uma banda tocando, aquela multidão berrando etc, os amigos nem ouviram meus gritos chamando-os, nem a Tibet. Então, cansado de argumentar com aquele senhor que doravante passou a adotar uma postura de múmia, fiquei bem perto da borda do palco e esperei uma oportunidade de sinalização visual com alguém da produção. E ninguém via-me naquela balbúrdia... a banda anterior terminou sua apresentação (não lembro-me, mas acho que era o "Viper"), e só depois que os três membros do Pitbulls on Crack começaram a ajustar-se, perceberam a minha falta !! Então, a Tibet foi ao microfone e chamou-me. Não deixou de ser ridículo também, pois muita gente deve ter achado a minha postura no mínimo amadorística, por estar desatento e longe do palco...

Só aí, ela (Tibet), viu-me na plateia e veio buscar-me, depois que eu sinalizei que estavam barrando-me. Quando apareceu na porta de acesso, deu uma bronca mastodôntica no segurança, que não sabia onde colocar a sua vergonha. Não deu tempo para ouvir as razões, ou melhor, a falta de razão de sujeito, pois estavam atrasando o evento, e eu fui arrumar-me no palco às pressas, coisa que detesto fazer. A sorte, foi que estávamos com dois roadies nessa ocasião, e o processo do set up foi rápido apesar dos pesares. Agora, a grande constatação : ninguém da comitiva do Pitbulls on Crack notou a minha súbita ausência !!!

Como eu era querido por todos... ha ha ha !!! Se eu saísse e simplesmente não aparecesse, só perceberiam se alguém dissesse-lhes que estavam sem baixista !! Brincadeiras a parte, o show foi de choque, claro, nessas circunstâncias, e bom na medida do que espera-se de shows de choque. O evento chamava-se "Rock contra a Aids" e foi um sucesso de público. Após toda essa confusão, pelo menos fomos recompensados, pois na edição posterior da Revista Dynamite, saiu uma matéria sobre o show e a única foto da matéria era do nosso baterista Juan Pastor, tocando.
As perspectivas para abril eram boas, pois haviam mais dois shows agendados, e a música "Under the Ligth of the Moon" estava começando a "pegar" na Rádio 89 FM, e com o clip passando na MTV. Falo agora da ajuda "extra"que meu exército de "Neo-Hippies" deu nesse processo para fazer a música tocar com bastante regularidade. A maré era boa em abril de 1994, para o Pitbulls on Crack.

Assim que a música "Under the Light of the Moon" entrou na programação da rádio 89 FM, o nosso baterista Juan Pastor disse-me que se houvesse uma pressão popular via telefone, seria muito bom para fazer tocar mais que as três vezes inicialmente programadas ao longo do dia. Então, como meu exército de Neo-Hippies (para quem não leu, refiro-me aos meus alunos, assunto amplamente comentado nos capítulos "Sala de Aulas"), estava solidificado à essa altura, foi fácil para eu organizar um revezamento de voluntários disponíveis e dessa forma, o meu telefone residencial tornou-se uma central de pedidos da música do Pitbulls. Com o telefone sendo usado durante horas a fio, a música foi catapultada, e entrou no ranking das mais pedidas. E uma vez entre elas, passou a tocar praticamente todo dia, no Top 10 do dia.

Nota esdrúxula na Revista General, arrolando pessoas "cool" que tinham "visual de mendigo"...e Chris Skepis figurou nesse rol...

A mais pedida a cada dia, ganhava execuções extras e dessa forma, entre abril e agosto de 1994, conseguimos fazer a música tocar muito e vencer várias vezes o top 10 que acontecia todo dia às 18:00 h, horário nobre do mundo radiofônico. E a melhor música do dia tinha uma segunda execução no mesmo programa, encerrando-o. Dessa forma era a última música executada antes de começar o famigerado programa "A Voz do Brasil" e assim, as pessoas tendiam a ficar com ela na memória, desligando o rádio para evitar o baixo astral oficial e obrigatório da "Voz do Brasil".
E havia um reforço extra. Uma outra equipe formada pelo líder do Fã-Clube do Pitbulls on Crack, chamado Jason Machado (eu sei que parece piada pronta, mas não tratava-se de um apelido motivado pelos filmes "Sexta-Feira 13", mas era mesmo o nome do rapaz), também engajou-se na luta. Mais modesta que a minha equipe, onde 12 a 15 garotos revezavam-se durante horas, paralelamente às minhas aulas, o Jason também montou um esquema caseiro com amigos e parentes e evidentemente que ajudava muito a atingirmos essas metas de manter a música no Top 10, durante bastante tempo. Há de destacar-se também que nos esforços de Jason Machado, presidente do Fã-Clube do Pitbulls on Crack, que armou um exército de amigos; familiares e parentes para ligar o dia inteiro, até sua avó entrou no mutirão e ligou muito !!
Claro que minhas aulas nesse período ficaram tumultuadas pela algazarra que os adolescentes criavam, mas além de ter sido divertido, ajudou demais a banda. 

E assim, com esse esforço todo no meu telefone residencial, e no do Jason, passamos a figurar durante meses no top 10 da Rádio, todo dia. E muitas vezes, vencemos como a mais pedida do dia, com direito a reexecução ao final do programa, e mais execuções ao longo do dia. 

A seguir, falarei sobre o patrocínio de merchandising que foi-nos oferecido, e como só eu tive o propósito de colaborar com o patrocinador, sacrificando-me em alguns shows para honrar o compromisso firmado...


A história desse patrocínio foi mais um contato aberto pelo nosso baterista, Juan Pastor. A verdade é que paralelo ao crescimento da banda, ele também ascendia na sua carreira como radialista. Quando o Pitbulls on Crack começou, em janeiro de 1992, ele era estagiário na emissora, e ainda concluía seu curso na Faculdade. Mas nesta altura de 1994, havia crescido na empresa, e já era figura-chave na engrenagem da rádio, com colaboração nos textos; programação, e locução. Dessa forma, tornou-se também muito assediado por artistas e aspirantes a; mais produtores; jornalistas, divulgadores de gravadoras etc etc. E num desses contatos, conhecem um rapaz que tinha uma confecção de surf / streetwear, e que ofereceu-lhe patrocínio para o Pitbulls on Crack. Era uma quantidade razoável de camisetas por mês, em troca de ações de merchandising simples de nossa parte, tais como : o nome deles exposto em cartazes e filipetas, e que usássemos nos shows, suas camisetas e / ou bonés, exibindo a logomarca deles. Simples, sem sacrifícios maiores. Evidentemente que aceitamos. Não havia contrato, apenas um acordo verbal. Então recebemos o primeiro lote de camisetas. Eram simples, com o logo do Pitbulls on Crack, mais a figura do cão pitbull que usávamos no cenário, e na parte de trás, a logomarca da empresa. O grande problema, é que na "Hora H", de usar as camisetas com a marca deles, que eram as mais gritantes nos shows, ninguém quis usar, pois eram espalhafatosas demais !! Como resultado, só eu passei a usá-la regularmente para honrar o compromisso. Era uma camiseta preta, com letras garrafais em laranja. 

Nessas fotos informais, clicadas pelo presidente do fã-clube, Jason Machado, por ocasião de um ensaio da banda no estúdio Spectrum, em 1994, dá para ver o Chris Skepis usando uma camiseta que o patrocinador fez para nós, e eu, Luiz Domingues, usando outra, de cor preta, com sua espalhafatosa logomarca...

Quem conhece-me, sabe que raramente, para não dizer nunca, uso camisetas. E se tiver que usar, jamais seria preta, e ainda mais com aquela logomarca gritando e evocando "Streetwear", algo que abomino. Foram poucos shows, porque a confecção entrou em crise interna e ficou impossibilitada de fornecer-nos mais camisetas... e nesse caso, não sabia se ria ou chorava...
Ainda em abril de 1994, tocamos numa casa noturna com excelente infraestrutura, chamada "Columbia", localizada na Rua Estados Unidos nos Jardins, bairro elegante da zona sul de São Paulo, e que ficava ao lado da delegacia de polícia do bairro, a famosa 78ª DP, notória por invariavelmente deter playboys milionários que aprontam pelas ruas do bairro, e pelo vai-e-vem de carrões importados com os respectivos papais ricos, e seus advogados caros.

Na mesma edição do "Jornal da Tarde", tijolo pago pela gravadora anunciando o show no Columbia, e nota falando do evento do Ginásio do Ibirapuera, onde participaríamos no dia seguinte.

Esse show foi bem energético, com um público de 400 pessoas, e a participação também das bandas "Anjos dos Becos" e "Não Religião".

Isso foi numa sexta-feira (23), mas no sábado, iríamos participar de um Festival de grande porte, patrocinado pelo Fundo de Solidariedade do Governo do Estado de São Paulo, que foi realizado no Ginásio do Ibirapuera.

Era uma grande oportunidade para aparecer a um grande público, tocando ao lado de diversas bandas consagradas e pegando carona numa mídia de grande porte, pois o governo investiu pesado em divulgação e dessa forma, o nosso nome estava estampado em milhares de cartazes e filipetas espalhadas pela cidade, além de maciça propaganda em várias rádios, TV e matérias nos principais jornais.

O objetivo era angariar agasalhos e cobertores para ajudar pessoas carentes e dessa forma, essa foi a forma pela qual as pessoas obtinham ingressos, doando agasalhos. Animados pelo momento bom que estávamos atravessando, com música estourando na 89 FM, mais clip passando bem na MTV, e fazendo um show desse porte com grande exposição midiática, eu particularmente estava achando que o "POC" estava quase chegando num momento de uma porta grande, enfim abrir-se. E chegado o sábado e animados pelo bom show da noite anterior no "Columbia", fomos confiantes ao Ibirapuera.

O nome oficial do evento era : "Rock For Help ! O Rock Contra o Frio". Foi realizado no dia 23 de abril de 1994, e no cast constavam : "Fickle Pickle"; "Neanderthal"; "Raimundos"; "Rip Monsters"; "Golpe de Estado"; "Anjos dos Becos"; "Não Religião"; "Doctor Sin"; "Ratos de Porão"; "Yo-Ho-Delic"; "Inocentes"; "Ira", e "Pitbulls on Crack". Quando chegamos ao Ginásio do Ibirapuera, ele já estava inteiramente tomado. Acredito que com a soma da pista, deviam ter ali cerca de 12 mil pessoas.

Os locutores da 89 FM faziam o trabalho de apresentadores do evento, e parecia tudo animado e organizado. Chegamos ao camarim, e havia uma confraternização de músicos de todas as bandas que citei. De minha parte, conhecia todos, praticamente.
A ideia era tocar entre quatro e cinco músicas cada um, para evidentemente ficar razoável para a continuidade do evento.
Na nossa vez de entrar, quem estava apresentando era o locutor Edgard, que hoje ficou famoso após fases na MTV, e Canal Multishow.

O meu amigo / roadie, José Reis, foi montar o meu transmissor "Nady", mas ele pifou segundos antes de sermos chamados no palco. Às pressas, ele substituiu-o por um tradicional cabo de conexão P10. O Edgard fez a nossa apresentação e chamou-nos. Fomos recebidos com aplausos, mas nada triunfal.

Começamos a tocar e apesar do equipamento bom, com monitoração bacana, sentimos que não estávamos empolgando a audiência. Tudo bem, veio a segunda música, e um grupo "ali e aqui" aplaudia, mas sem ser nada efusivo. Quando o Chris executou os primeiros acordes de "Under the Light of the Moon", a guitarra, pensei comigo :  -"agora vai ter uma reação", pois era justamente a música de trabalho, que estava "bombando" no rádio, e na MTV.
Após os acentos de peso do baixo e bateria juntos, a tendência seria causar um frisson na plateia, mas só via grupos esparsos dançando e apreciando. Foi quando um violento impacto no corpo do meu baixo, tirou-me a concentração. Alguém havia atirado um rolo de papéis amassados para afrontar-me. Parece incrível, mas em meio à 12 mil pessoas...


Pitbulls on Crack no Ginásio do Ibirapuera em abril de 1994. Fotos de Marcelo Rossi

Inacreditável, mas eu consegui olhar na multidão, e identificar o agressor. Era um garotão de longos cabelos "Dreadlock"; bermuda; cheio das tatuagens, e piercings. Quando percebeu que mirei-o e na minha expressão facial havia contrariedade, ele enlouqueceu, e passou a gritar a plenos pulmões que era ele mesmo que havia atirado, e que pretendia "matar-me"... claro que não ouvia a sua voz, mas compreendi sua intenção pelo gestual, principalmente pelo típico sinal de que gostaria de cortar a minha garganta, mediante uma faca...
Fiquei muito chateado, pois estava no meio da mais conhecida música da banda, não tendo a reação que eu esperava, e um sujeito daqueles agredindo-me gratuitamente... 

Tentei voltar ao foco da música, mas aquilo chateou-me por vários motivos. Primeiro pelo óbvio, que foi ser agredido gratuitamente.
Em segundo lugar, por desconcentrar-me num momento crucial para a banda no show, e por surpreender-me num momento onde eu divagava mentalmente enquanto tocava, sobre o motivo da nossa performance não ter comovido a plateia, mesmo com a música que executávamos estando no topo da parada, de uma emissora de rádio que tinha picos de audiência de um milhão de pessoas...isso sem contar o também maciço apoio da MTV, veiculando o respectivo vídeoclip da referida canção...
Ainda tocamos mais duas músicas, e saímos do palco com a missão cumprida em termos.


No camarim, só eu estava com essa percepção de que havíamos perdido uma oportunidade para deslanchar, pois os outros três, estavam contentes com a performance. Aquilo deixou-me confuso à época, pois cheguei a raciocinar que talvez estivesse sendo excessivamente exigente conosco. Mas com o passar do tempo e distanciamento histórico, hoje tenho a certeza de que esse show foi decisivo para mostrar que o Pitbulls, apesar das enormes chances que estava tendo, jamais alcançaria o mainstream.

Mas a vida seguiu, e outras chances grandes o Pitbulls ainda teria...
A seguir, falarei sobre o patrocínio de merchandising que foi-nos oferecido, e como só eu tive o propósito de colaborar com o patrocinador, sacrificando-me em alguns shows para honrar o compromisso firmado. E não passou muito tempo, encontrei o agressor do Ibirapuera numa situação bizarra, mas ele não matou-me, como havia prometido...

Todas as fotos ao vivo desse show do Ibirapuera, são clicks de Marcelo Rossi 

Então, logo após o show beneficente no Ginásio do Ibirapuera, patrocinado pelo Governo do Estado, tivemos um choque térmico e tanto. Em pouco mais de sete dias, tocamos para um reduzidíssimo público em detrimento das 12 mil pessoas do Ibirapuera. Foi um show realizado na casa de shows "Brittania" e com a presença das bandas "Mantra" e Yo-Ho-Delic.

O som do Mantra era um Heavy-Metal modernoso, com jeito de anos noventa, e a despeito de serem bons músicos, não empolgava ninguém, pela sua insipidez.

Mas o grande revés desse domingo, dia 1° de maio de 1994, foi que o Ayrton Senna faleceu nesse dia, pela manhã, disputando um GP na Itália, e o país caiu numa comoção total. Já o Yo-Ho-Delic cancelou participação em cima da hora e nem apareceu no local.

Dessa forma, 50 testemunhas foram ao Brittania para ver Pitbulls on Crack e Mantra, e pareciam mesmo mais interessadas em ver a cobertura do falecimento do piloto, pelos telões espalhados pela casa.

No dia 18 de maio de 1994, uma apresentação numa pequena casa noturna chamada "Noni-Noni", no bairro do Bexiga, também com um público de 50 pessoas. Era uma rara oportunidade em que uma banda autoral ali apresentava-se, pois tratava-se de um reduto tradicional de bandas cover.

E finalmente no final de maio, dois shows mais agitados, com a participação das bandas "Paty up" e "Velhas Virgens", num show triplo no "Garage Rock", de Pinheiros. 250 pessoas estiveram ali presentes no dia 27 de maio, e no dia seguinte, dia 28, melhor ainda com 360 pessoas. No início de junho (dia 4), tocamos no Centro Cultural Vergueiro, participando do projeto "Sintonia do Rock".

Dividimos a noite com uma banda chamada "High-Low", da ex-vocalista da "Volkana", Marielle.

200 pessoas assistiram os dois shows. Nesse dia, recordo-me  de ter cometido um ato falho, pois no Centro Cultural era praxe usar o equipamento de palco cedido pelo evento, para todos os artistas e quando fui plugar meu baixo no amplificador, a baixista do "High-Low" advertiu-me ríspidamente que aquele era o seu amplificador pessoal, e não admitia que eu usasse-o.

Claro que era seu absoluto direito de não emprestar-me, mas eu não sabia que era dela, e nada justifica a truculência com a qual tratou-me (ou destratou, no caso), não considerando que eu não estava agindo de má fé, mas também por falta de educação de sua parte, denotando arrogância e prepotência.

Isso sem contar que de minha parte, perdi as contas de quantas vezes emprestei meu equipamento até para músicos estranhos e portanto, tal demonstração de pedantismo causou-me espécie.

Pedi desculpas, naturalmente, ela tirou o cabeçote de marca "Gallien-Krueger" do palco, e o assistente de produção do Centro Cultural trouxe o cabeçote comunitário para eu usar...era um Gallien-Krueger igualzinho, e portanto, mesmo estando no seu direito de não querer emprestar, como ela poderia supor que eu adivinhasse que aquele amplificador, de marca e modelo idêntico, era particular ?

Digno de nota, o fato de que na música "Under the Light of the Moon", o nosso roadie e presidente do Fã Clube, Jason Machado, foi quem executou-a à bateria. Segundo contou-nos, foi de súbito que o baterista da banda, Juan Pastor, percebendo que sua namorada, Carol, aproximava-se do palco, levantou-se e sem cerimônias entregou as baquetas para ele e disse-lhe :  -"se vira, entra aí e toca"...
Mesmo estupefato pela loucura de improviso, ele tocou direitinho, sem comprometer a performance da banda, e pelo contrário, mantendo um bom nível.

Conforme narrei quando abordei o show no Ginásio do Ibirapuera, um sujeito provocou-me de maneira agressiva e gratuitamente, arremessando um chumaço de papéis contra o meu baixo, e não satisfeito com tal agressão sem sentido, depois ficou ameaçando-me à distância etc e tal.

Pois em junho, no dia 18, para ser preciso, houve uma "barca furada" onde o Pitbulls esteve envolvido. Um produtor megalomaníaco, quis fazer um show nos moldes do que havia sido realizado no Ginásio do Ibirapuera, com ingressos cobrados na forma de alimentos, e roupas de inverno para a caridade. Até aí, tudo bem, fomos convidados, aceitamos de pronto pelo caráter beneficente, e naturalmente pela exposição toda que geraria na mídia. Em princípio, era para ter sido realizado ao ar livre no Largo 13 de maio, em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, mas foi cancelado e anunciado para o estádio do Pacaembu, a seguir. 

Mas à medida que o dia do show aproximava-se, víamos que a divulgação prometida estava muito tímida, e incompatível com as promessas do fulano, tendo em vista que o local do evento era o Estádio do Pacaembu. Ora, para deslocar 50 a 80 mil pessoas, era preciso uma divulgação pesada e apenas cartazetes e filipetas na "Galeria do Rock", parecia uma piada. E foi mesmo...
E se no início, a ideia era a de um festival com 10 ou 12 bandas (número excessivo, sem dúvida !), o que dizer da bizarrice de ter 60 atrações agendadas ?
Quanto tempo  tocaria cada banda ? Uma música só ?

Mesmo sabendo de antemão que seria um fiasco, como estávamos apalavrados, fomos ao Pacaembu no horário combinado.
Era para ser um mega festival com mais de 60 bandas, e por aí, já dava para perceber que não seria uma coisa séria. Só as infinitas trocas de bandas no palco único, seria um fator inevitável de atraso monstruoso. Nem festival de colégio, com bandas de alunos adolescentes seria tão caoticamente desorganizado !

Então, quando chegamos ao Pacaembu, vimos que o público presente era ridículo para o tamanho de um estádio de futebol !
Não deviam ter nem 100 pessoas presentes, entre arquibancadas; setores numerados, e a pista !!!

Da esquerda para a direita, degrau mais alto : José Reis; eu, Luiz Domingues; Juan Pastor. Fileira abaixo : Deca e Chris Skepis. No último degrau, Luiz Gustavo. Click de Jason Machado, em foto recentemente (2015), disponibilizada pelo Jason, via Facebook, gentilmente para o meu Blog.

Conclusão : havia mais músicos concentrados atrás do palco, com o "tobogã", sendo usado como "camarim / louge", do que público no estádio inteiro.

Outra foto da "roubada do Pacaembu"...aqui, só a banda clicada numa escadaria de acesso entre os bastidores do tobogã e o ginásio de esportes, que fica anexo, na parte traseira do estádio. Acervo de e cortesia de Jason Machado

Para quem não conhece o Estádio do Pacaembu, o "tobogã" é uma arquibancada construída atrás do gol oposto ao do gol do portão de entrada principal do estádio. Aí aconteceu o fato mais bizarro da noite, pior ainda que essa bagunça amadorística.

Resenha do show no Ibirapuera, em abril, na revista "Dynamite"

Em meio à várias rodinhas de músicos, e ali haviam muitos conhecidos, não só da cena rocker noventista, mas de gerações mais antigas também, havia uma roda de pessoas perto de nós, do Pitbulls, e percebi que um sujeito alto, com cabelo enorme, falava com seus amigos, e olhava-me com uma expressão facial não amistosa. Relevei, pois nunca vira-o antes e ignorei. Mas de-repente, ele começou a falar um pouco mais alto, com a intenção deliberada de que eu ouvisse-o. Não lembro-me textualmente do que falou, mas era algo do tipo : -"é, então eu "taquei" (sic) um maço de papel no baixista... fiz de propósito, aquele babaca"... era o idiota que atacou-me no Ibirapuera !!

Então, estava explicado o motivo do ataque !
O sujeito era músico, e naturalmente achava que sua banda era mais categorizada do que a minha, e portanto devia achar-se "injustiçado" por ver-me tocando e ele, não, naquele palco enorme de um ginásio histórico em São Paulo. Atitude deplorável sob todos os sentidos, e não perderei meu tempo, e nem o do leitor, esmiuçando possíveis explicações de cunho musical; artístico; psicológico, ou seja lá qual campo onde esse comportamento possa ser explicado. Minha atitude foi usar a mesma estratégia, e falando mais alto também, ironizei dizendo algo do tipo : -"sabe aquele sujeito que atacou-me no Ibirapuera ? Deve estar aqui hoje, já que tem tanta banda para apresentar-se..."
Ficou por isso, com o sujeito dispersando a seguir. Qual era a sua banda ? Não faço a menor ideia, mas pelo visual dele, devia ser algo derivado do Metal. Ficamos ali por uma hora mais ou menos, e vendo a completa bagunça que a (des)organização estava perpetrando, fomos embora a seguir, e certamente ninguém notou a nossa falta. Nossa atitude foi seguida de diversas bandas conhecidas nossas, e só tocou mesmo bandas obscuríssimas de adolescentes que estavam loucos para tocar, mesmo com o som e a luz deficientes, e inadequadas para um estádio de futebol profissional.
Era uma maçaroca sonora, com uma iluminação digna de uma árvore de natal...
Fomos embora com a certeza de que havíamos perdido tempo, pois era óbvio que não valeu a pena o deslocamento até lá, vendo que a produção do evento estava péssima, desde a divulgação.








E finalmente, preciso de um espaço maior para relatar um show de grande proporção que realizamos no início de julho de 1994.

 

Nessa fase, colhíamos os frutos de dois anos e meio de trabalho. 

Na metade de 1994, tínhamos uma situação espetacular, pois a música "Under The Light of The Moon" tocava exaustivamente na 89 FM, ficando todo dia por meses, no top 10 das mais tocadas, e muitas vezes sendo a "1ª do dia", ganhando destaque numa promoção criada pela Rádio, chamada "Super Power". O "campeão do dia", ganhava mais execuções, e gerava assim, um efeito cascata. Por outro lado, o clip da música tinha grande exibição na MTV, também, aumentando o efeito dessa divulgação. Estávamos fazendo muitos shows, e o portfólio já ostentava um considerável volume de matérias de jornais e revistas.

Carta oficial que recebemos do Fundo de Solidarieddade do Governo Estadual de São Paulo, agradecendoi por nossa participação no Festival Beneficente do Ginásio do Ibirapuera em abril de 1994, assinada por sua diretora, a então primeira Dama do Estado, Dona Ika Fleury
 
Tínhamos feito um show de grande repercussão, recentemente (o show beneficente para 12 mil pessoas no Ibirapuera), e com toda essa movimentação, recebemos um convite irrecusável da MTV. Eles queriam produzir um show com quatro bandas para um especial denominado "Peso Local".

Claro que aceitamos, pois seria gravado ao vivo numa casa de shows muito famosa na época (Olympia), com promessa de divulgação maciça, fora a exibição na TV. E assim, fomos gravar a nossa participação nesse evento, no Olympia, uma casa que costumava abrigar shows internacionais nos anos 1980 e 1990.
Eu mesmo assisti ali, diversos artistas internacionais famosos da décadas de sessenta e setenta, tais como : "Uriah Heep"; "Black Sabbath"; "Rainbow"; "Peter Frampton"; "Santana"; "Emerson, Lake and Palmer"; "Jethro Tull"; "Nazareth"; "Ian Gillan Band", e "Yes". Era uma grande casa; com estrutura de palco; camarins; cenografia; iluminação, enfim, uma grande oportunidade pelo show em si, e também pela exibição na MTV, claro. O Olympia era um sonho de consumo para todo artista emergente. A estrutura de Luz e P.A. era da casa, e era de alto nível, obviamente. O equipamento de palco (backline), foi fornecido como patrocínio pela "Meteoro", fábrica de amplificadores. Colocaram uma montanha de amplificadores, como manda o figurino de um show de Rock de porte.


Apesar de estarmos eufóricos pela participação, sabíamos que éramos a menor atração da noite. Para o staff da MTV, o tratamento era de igualdade entre a bandas, mas veladamente era óbvio que cabia ao Pitbulls on Crack a posição de abrir o show. Havia três camarins grandes, e um pequeno, quase um quartinho. Portanto, não daria para colocar-nos nesse cubículo.

Dessa maneira, numa autêntica separação por classe de importância (não estou criticando, tampouco ironizando), o "Angra" e o "Dr. Sin" ficaram com um camarim cada, e nós tivemos de dividir o nosso com "Os Raimundos". De nossa parte, não haveria problema algum, pois estávamos acostumados a usar camarins terrivelmente mais simples, ou até mesmo tocar em lugares sem camarim. 

Fizemos a passagem de som com tranquilidade, e a pressão sonora no palco estava muito boa. Colocamos nosso banner com apoio dos cenógrafos da casa, e tudo corria bem. Com a chegada da noite, ouvíamos o barulho do público entrando na casa, e pelo murmúrio, sabíamos que iria lotar. A MTV entrevistou-nos no camarim, de forma bem descontraída, pois o entrevistador era nosso amigo de longa data, o Gastão Moreira.

Fomos chamados então para o palco, as luzes apagaram-se e nós começamos a nossa apresentação, perante um público de aproximadamente 500 pessoas. Estávamos numa situação bem constrangedora ali, no entanto. Explico : o grosso do público era formado por três tribos muito distintas. O público do Dr.Sin, mais adulto e respeitoso; o público do Angra, formado por adolescentes metaleiros e vestidos como se estivessem nos anos 80; e uma turba agressiva, fãs dos Raimundos, bem condizentes com a banda a qual devotavam sua adoração. Sendo assim, apesar de entrarmos imprimindo um peso, e com muita energia, logo após a execução da música "Under the Light of the Moon" (nosso maior "Hit", e que tocava diariamente na 89 FM, de forma exaustiva e com apoio de um Clip super veiculado na própria MTV), percebi que provocou uma reação modestíssima da plateia. Seguimos em frente, pois isso não abalou-nos, e tocamos "Answer Machine". Foi uma performance muito boa, com bastante energia, tanto foi assim, que a MTV editou essa versão ao vivo, e transformou-a num segundo clip da banda, passando a exibi-lo com força na grade da emissora, a partir do segundo semestre.
O Deca que tradicionalmente imprimia um mise-en-scené alucinante em qualquer show, diante da possibilidade de um palco de grandes proporções, alucinou de vez. Pelo canto dos olhos, vi que jogou sua Fender Stratocaster diversas vezes para o alto, a la Ritchie Blackmore, e sem dó, esfregou-a no amplificador; no pedestal de microfone; mexeu com a plateia gesticulando etc etc.

Eu também movimentei-me bem, e o Chris sempre tinha aquela performance segura, parecendo pouco importar-se se havia uma pessoa, ou um milhão de pessoas na plateia. Arriscamos uma música nova, chamada "Blind", soturna, bem estilo "indie esquisitinha", que também pareceu não ter sido digerida pelo público interessado em outras atrações. E por fim, tocamos ainda "Never Mind", com o clássico comentário do Chris em tom de sarcasmo : -"não tem nada a ver com o Nirvana"...
Ao final dessa música, um misto de apupos com debochadas manifestações de alegria, por estarmos encerrando, fechou o nosso show.

Eu particularmente saí do palco tranquilo, consciente de que ali nem os Rolling Stones agradariam aquele público fechado numa ideia fixa em torno de seus artistas prediletos, e claro, nossa performance havia sido boa, com poucos incidentes. Tanto foi assim, que as quatro músicas foram exibidas no especial da TV, em pé de igualdade com as outras bandas, e ainda "Answer Machine" virou um clip extraída desse show. O único incidente desagradável, acontece com qualquer um; eu e o Deca estávamos usando sistema 'Wireless", mas o Chris não gostava, e usando um cabo longo, mesmo assim, num movimento brusco que fez, desconectou a sua guitarra por alguns segundos do Direct box que ligava-a ao seu amplificador.


Por azar, o nosso roadie, Zé Reis, estava distraído, e nem percebeu que a guitarra dele sumiu, pois a pressão no palco estava enorme, com uma massa sonora violenta da guitarra do Deca; meu baixo; bateria, e voz. Eu tive que locomover-me em sua direção, e na medida do possível, pois não tinha muitas pausas para tirar a mão do braço do baixo, e gesticular para chamar-lhe a atenção.
Ainda assim, ele demorou para entender o que eu solicitava-lhe, gerando alguma angústia de minha parte, e o Chris estava completamente vendido lá na frente, pois estava cantando. Sua atitude foi legal, pois continuou tocando, mesmo com o som da sua guitarra completamente sumido. Fora isso, foi mesmo uma boa apresentação, apesar de uma certa hostilidade do público.  

Os camarins estavam em polvorosa, quando retornamos. O "Dr. Sin" ficou isolado no camarim mais longínquo do palco (onde Ritchie Blackmore ficou a sós com sua entourage pessoal nos shows do Deep Purple, em 1991, recusando-se a ficar no camarim com os outros membros da banda). Mas os irmãos Busic; Edu Ardanuy, e seu staff, andavam por todos os lados, inclusive visitando-nos no nosso, onde dividíamos com os Raimundos. Os realmente grandes, são humildes, como diz o poeta. O Angra ocupou o maior, e isolou-se, com a presença de seguranças, e só de longe víamos que estava animado, com um cocktail farto, e servido por garçons de impecáveis luvas brancas. E nós estávamos humildemente dividindo o espaço com aqueles rapazes brasilienses. O grande problema ocorreu quando esses senhores já estavam no palco tocando.


Subitamente, o roadie deles entrou desesperado no camarim, e perguntou-me se eu poderia emprestar o meu baixo, pois o baixista daquela banda, havia estourado uma corda, e não tinha levado um segundo instrumento, sobressalente. Claro que emprestei-o, sem pestanejar, pois independente de eu não gostar daquela estética deles, não poderia deixar de ajudar num momento desses. Uma coisa não tinha nada a ver com a outra, evidentemente. O roadie deles levou então o meu "Tajima", que eu levara como segundo baixo naquela noite (toquei ao vivo com o "Rickenbacker"). Do camarim, ouvi  o som sendo retomado, e o show dos rapazes prosseguiu, com todo aquele sucesso, e seus fãs delirando.
O evento que veio a seguir, foi que me aborreceu profundamente...
Quando terminou seu show, voltaram ao camarim, e o baixista, nem olhando no meu rosto, jogou meu baixo bruscamente numa cadeira, e ele só não foi parar no chão porque o roadie deu um mergulho cinematográfico para salvá-lo da queda no chão. Mais preocupado em desfrutar dos louros da sua fama entre bebidas e groupies, ignorou-me completamente. Seu roadie ficou enrubescido e pediu-me desculpas. Ponto para o roadie, que foi humilde; educado, e teve a atitude minimamente decente de uma pessoa de bem. Um ano depois, esses senhores cruzariam o nosso caminho novamente. No momento oportuno, contarei.


E assim foi a nossa participação no evento denominado, "Peso Local". Alguns dias depois, o especial foi ao ar na MTV, e a edição foi digna para nós, embora desse para ver pessoas fazendo gestos obscenos, e ouvir alguns apupos na última música. A entrevista com o Gastão Moreira também foi legal, bem naquele padrão do Pitbulls, ou seja, com direito a piadas; sarcasmos, e afins. E a constatação final desse show era de que o Pitbulls vinha de uma série de eventos muito proeminentes, que deu-lhe bastante exposição midiática. Esse momento do Pitbulls só era comparável ao bom momento do Língua de Trapo em minha segunda passagem por lá, e na melhor fase da Chave do Sol, após quatro anos de batalha dura. Com o Pitbulls, as oportunidades surgiam de uma forma fácil, e talvez se cantássemos em português, poderíamos ter capitalizado essa exposição de uma maneira melhor. Aliás, "talvez", não. Com certeza... 

Assista abaixo a performance de "Under the Light of the Moon" desse show do Olympia de julho de 1994 :

O link para assistir "Under the Light of the Moon no You Tube" :
http://www.youtube.com/watch?v=Hx4qQF5n56A


Abaixo, a execução de "Blind", no mesmo show : 

O link para assistir "Blind" no You Tube :
http://www.youtube.com/watch?v=-VzKbzNBvKM&feature=relmfu

E abaixo, "Never Mind" ao vivo no Olympia : 

O link para assistir "Never Mind" no You Tube : 





https://www.youtube.com/watch?v=afFXOAwwETk


Resenha do show no Ibirapuera, em abril, na revista Dynamite 

Nessa mesma época, um empresário que o Chris conhecia de outros trabalhos seus, aproximou-se de nós, e entusiasmamo-nos, pois naquele crescente de exposição que estávamos tendo na mídia, tudo o que precisávamos era de um empresário que capitalizasse esse bom momento que vivíamos, em oportunidades de shows e outras benesses. Esse sujeito chamava-se Jefferson, e empresariava uma banda indie, chamada "The Pills". Ele tinha vários contatos, e chegou já mostrando serviço, pois agendou shows, logo de início.
E uma de suas ações como empresário, foi acompanhar-nos num show no Rio de Janeiro, contudo, não era um show que ele havia marcado. Apenas marcou presença como nosso novo agente.

O empresário Jefferson, no momento em que viajava ao Rio, conosco, numa das viagens mais malucas que a banda havia realizado até então...

E foi uma experiência rica em histórias bizarras, conforme relatarei.
Para início de conversa, digo que esse show seria realizado numa casa de shows chamada "Garage", que segundo lembro-me, não tinha relação com a casa de mesmo nome, de São Paulo. Mas quando disseram-me o endereço, fiquei pasmo... Praça da Bandeira...

Quem conhece o Rio, sabe que aquela área é muito deteriorada, e corresponde ao Glicério, em São Paulo, num ambiente de forte mendicância; sujeira; crime; ausência do poder público etc etc.
Por outro lado, estava também acostumado com esse tipo de situação, pois depois do manifesto punk de 1977, associar o Rock aos escombros desoladores e decadentes, tornou-se mote, e verdade absoluta para essa gente. Passei os anos 1980 e 1990 inteiros convivendo com pessoas dessa mentalidade, infelizmente. E sendo assim, ninguém estranhava ir tocar numa pocilga desse naipe, e pelo contrário, era comum aquela interjeição entre eles :
-"É ducaraio, véio", para qualificar situações aviltantes dessa estirpe, como algo salutar, na visão deles...
Viajamos em linha comercial comum, na hora do almoço, e chegamos ao Rio no final da tarde, quando então, começou a nossa aventura tragicômica...

Eric De Haas, fotógrafo e produtor musical holandês, há muitos anos radicado em São Paulo 

Veio buscar-nos na rodoviária, o fotógrafo / produtor holandês, Eric de Haas, figura carimbada no meio Rocker paulistano, mas que estava envolvido nessa produção no Rio de Janeiro. Já começou pelo veículo que usou para buscar-nos. Era uma Kombi podre, cujo motorista era completamente louco, querendo correr como num "fórmula 1", naquele simulacro de automóvel...
Dava para ver o asfalto da rua, com buracos abertos no piso daquela carcaça putrefata !!

Após essa aventura maluca na Kombi, que mais parecia o veículo da família "Flintstone", chegamos ao local, e o clima era pesado na rua, e imediações. Não eram nem 19:00 h. ainda, e o "mundo cão" pegava pesado na rua.

Uma matéria e uma resenha, na mesma edição da "Revista Rock Brigade", em maio de 1994

A casa era bonita, por tratar-se de um casarão amplo, e muito antigo. Contudo, estava em péssimo estado de conservação.
Naquela noite, tocaríamos com outra banda paulistana, o "Ajna", da vocalista Tibet, e uma banda indie carioca, "Scar Soul".

         A vocalista Tibet (Elisabeth Queiróz), e sua banda, "Ajna" 

O som da casa era razoável para os padrões do mundo underground, e havia uma iluminação nesse mesmo padrão. O palco era até que amplo e alto, e o enorme salão comportava um público de pelo menos 300 pessoas, acredito. O Eric estava hospedado na casa do inglês Ronald Biggs, famoso foragido da justiça britânica, por ter escapado da prisão onde cumpria pena pelo assalto do trem pagador em 1963, um crime escandaloso na Inglaterra.

O Chris aventou a possibilidade de irmos para a casa dele para tirar fotos da banda com o Biggs, mas não haveria tempo e além do mais, o Eric disse-nos que ele, Biggs, costumava cobrar U$ 200 por cada foto, o que o desanimou-o na hora...
Fizemos o soundcheck, e o som estava razoável para o show.

O soundcheck da banda carioca "Scar Soul", nessa noite no Rio.

Então, enquanto o Ajna, e a outra banda realizavam seus respectivos soundcheck, fomos comer, e eu lembro-me que assistimos um pedaço do jogo do São Paulo FC na TV, pela Taça Libertadores da América, com o nosso baterista, fanático sãopaulino, roendo as unhas.

Mas aí começou a bizarra noite de terror no Rio. De súbito, o corpo de bombeiros apareceu e mediante uma inspeção, resolveu lacrar a casa por absoluta falta de segurança nas instalações elétricas. De fato, era visível até para leigos, não precisando ser bombeiro, que o estado da instalação elétrica da casa era péssimo.

Com a interdição, o dono do estabelecimento ficou bem nervoso e houve bate-boca com os bombeiros. Sob clima tenso, a casa foi lacrada, e todo mundo convidado a retirar-se !! Não fazer o show não incomodou-nos exatamente, pois a perspectiva não era das melhores. Mas quando o novo empresário da nossa banda foi falar em angariar apoio para bancar a nossa viagem de volta (pelo menos, ora bolas), o proprietário da pocilga "soltou-lhe os cachorros"...

Na rua, com guitarras; baixo; peças da bateria; mais bagagens, ficamos esperando uma solução atenuadora, mas à essa altura, o clima estava tenso no submundo da rua, com tráfico de drogas comendo solto em cima dos capôs dos carros; brigas (saiu tiroteio, sem cerimônias, algumas vezes naquela noite), e prostituição de baixíssimo nível. Nervoso, e perdendo a paciência conosco, o responsável pela casa ficou irredutível. Mediante alguns palavrões, mandou-nos sair da frente dele, e ponto final. Foi aí que um dos nossos roadies (Jason Machado estava conosco, também), que era um aluno meu (Marcos Martinez), resolveu intervir, e com a guitarra do Deca na mão, chegou falando para o sujeito, algo do tipo : -"você sabe quanto custa uma guitarra Fender Stratocaster ?
O indivíduo não fez-se de rogado e levantando a barra da camisa, deixou à mostra o revólver "38" e respondeu : -"e você, sabe quanto custa uma azeitona no meio da testa" ?

Ha ha ha... o Marcão com quase dois metros de altura, e cheio de vontade de intervir, teve que conformar-se em voltarmos por nossa conta à São Paulo. Chamamos dois táxis, que percebendo a nossa situação, queriam fazer um preço combinado, sem taxímetro. 

Juan Pastor e Marcos Martinez, voltando para São Paulo, depois daquela noite bizarra...

Após cansativa argumentação, enfim conseguimos seguir para a rodoviária com um carro apenas e uma parte da comitiva, arriscou-se a pé, em plena Praça da Bandeira, um lugar insalubre.
Certamente, em condições normais, o percurso não durava nem cinco minutos dali até a rodoviária e o preço seria mínimo, pouco além da bandeirada inicial, normal. Chegamos em São Paulo no início da manhã, muito cansados, mas com mais uma história bizarra para contar...
E o início do novo empresário, não podia ter sido pior; com um show não ocorrido; 12 horas de estrada, entre ida e volta, e uma situação desagradável vivida, com perigos iminentes. O que não sabíamos, é que mais histórias engraçadas ocorreriam perpetradas por esse empresário.

Mesmo não sendo um show fechado ou produzido pelo empresário Jefferson, ele suportou essa situação, estando junto conosco nessa aventura maluca no Rio. E sua primeira ação concreta para a banda foi fechar um show numa casa noturna que na verdade pertencia ao pessoal da banda que ele empresariava. O local chamava-se "Pill 100 Bar" e a tal banda, "The Pills". 

 O The Pills, em foto de seu disco, de 1995. Click de Marcia Zoet

Os rapazes eram conhecidos do Chris Skepis desde 1988, mais ou menos, pois o Jefferson tentou empresariar a banda que o Chris planejou formar no Brasil, assim que voltou da Inglaterra em definitivo, e que seria uma espécie de franquia do "Cock Sparrer", sua banda lá na terra da Rainha. Dessa banda, saiu o baixista Kuky, que é muito gente boa, e anos depois faria sucesso com a banda pop, "Pedra Letícia".



O próximo passo após o show do Olympia, foi bem menos glamoroso. Ainda aproveitando exposição na mídia de forma contundente, com shows grandes, rádio e TV tocando-nos diariamente, o próximo compromisso foi uma apresentação modesta no Bar "Pill 100 Bar". Lá, dividimos a noite com os donos do estabelecimento, a banda "The Pills", empresariada pelo empresário Jefferson, e uma outra, chamada "Rose Avalanche".
O Rose Avalanche era bem influenciado pelo Guns'n Roses, claro, e o The Pills fazia um pop, mas com elementos do indie Rock britânico. Por ser localizado próximo à represa de Guarapiranga, um local longínquo, no extremo da zona sul de São Paulo, tivemos público fraco de 50 pessoas, formado pelos amigos dos membros do The Pills, e habitues da casa. Isso ocorreu no dia 19 de agosto de 1994.

No dia 30 de setembro, o empresário Jefferson havia marcado uma apresentação nossa num salão em Osasco, cidade da Grande São Paulo. Quando perguntei a um aluno meu que residia naquela cidade, se conhecia aquela casa em específico, ele fez uma expressão facial de espanto, e disse-me achar impossível acontecer shows de Rock naquele lugar !! Segundo ele, tratava-se de um obscuro salão num bairro de periferia, onde só apresentavam-se artistas do underground da música brega. Ele achou inacreditável acontecer um show de Rock naquela espelunca. Mas era verdade... e no dia marcado, ao chegarmos no local, ficamos desolados ao ver suas instalações, mas como o Pitbulls era uma banda onde todos brincavam o tempo todo, tornou-se piada pronta para o resto da noite, certamente. Iríamos dividir a noite com a banda "Pandhora", do meu aluno, Marcos Martines, que também atuava como roadie do Pitbulls, vez ou outra. O equipamento era tão pavoroso, tão precário, que na impossibilidade de fazermos um som minimamente decente, resolvemos cancelar. 

O empresário negociou e os proprietários da pocilga alegaram que todos os artistas que ali apresentavam-se, não reclamavam etc e tal.
Claro, posso imaginar o naipe dos artistas que ali apareciam...
Então tocamos, para um reduzido e atônito público de 30 pessoas, todas habitues, com exceção de meu aluno Edil e sua esposa, Marilu, que gentilmente foram prestigiar-nos, naquele lugar insalubre. Voltaríamos contudo àquele lugar medonho, pois o Jefferson fechou outra data, garantindo-nos que o dono da casa melhoraria o equipamento. Ora, nem se colocasse um super P.A. com a iluminação do Pink Floyd, adiantaria alguma coisa. Mas como estávamos dando votos de confiança a ele, julgamos que o sacrifício valeria a pena, visando dias melhores em termos de shows. Pensando com o distanciamento histórico, não tinha nenhum cabimento continuarmos com um empresário com tais contatos.
Estávamos com uma música explodindo na principal rádio Rock da cidade; dois clips na MTV; shows no Ginásio do Ibirapuera & Olympia, portanto, que sentido fazia ir tocar no "Evidências Dancing" ??

Depois dessa experiência bizarra, o próximo show não tinha nada a ver com o empresário Jefferson. Era um convite do Tatola, para que participássemos do show de lançamento do novo CD do "Não Religião", sua banda.

Ocorreu no Aeroanta, dia 7 de outubro de 1994, com a presença do Pitbulls e do Neanderthal, entre as bandas convidadas, com o encerramento logicamente feito pelo Não Religião. Época ainda de "vacas gordas" para casas que só abrigavam bandas autorais, pois 350 pessoas entraram catraca adentro. Contudo, a seguir tivemos que cumprir então o show extra que o empresário fechou no horrendo "Evidências Dancing". Para tentar "vitaminar o show", convidou o "Não Religião", que lançava novo CD na ocasião e claro, por ter mais "status", que nós, ganhou destaque na filipeta.

Com o perdão do trocadilho infame, era "evidente" que seria uma outra grande noite perdida, naquela espelunca desoladora...
E foi mesmo, "evidentemente", mas aconteceu uma coisa insólita que salvou a noite de tanto que divertiu-nos. Quando chegamos ao local (além de dividirmos a noite com o "Não Religião", teríamos novamente a presença do Phandora), havia na plateia, um homem negro usando um terno todo branco, e com um exemplar da Bíblia debaixo do braço.

Pensamos ser um fundamentalista com o intuito de fazer uma pregação para as pessoas que tencionavam ver o show, ou coisa do gênero. O rapaz entrou e procurou-nos no camarim. Dizendo-se adepto da religião Mórmon, não parava de falar que vivera em Salt Lake City / Utah, e que lá, apesar de ser Mórmon, apaixonou-se pelo Punk-Rock.. estava ali no "Evidências", para ver o Pitbulls, e o "Não Religião", e no nosso caso, motivado pelo fato do Chris ser ex-membro do Cock Sparrer.
E pasmem, quando o som mecânico da casa começou a tocar, correu para a pista, e passou a dançar violentamente, chamando a atenção das pessoas que estavam aguardando pelos shows. Era bizarro vê-lo dançando como Punk, com aquele visual de crente, e Bíblia na mão. E como se não bastasse tudo isso, ainda tinha o mais insólito : afirmando ser homossexual, disse estar interessado no nosso baterista ! Trancamo-nos no camarim, depois de saber disso, pois o rapaz insistia em voltar para lá, e aí seria uma confusão ver o crente / punk  /gay por ali importunando-nos mais, e pior ainda para o nosso baterista...
Isso ocorreu no dia 14 de outubro de 1994, e como os membros do Pitbulls eram humoristas por natureza, tornou-se assunto para uma semana aquela figura insólita. E quanto ao show, foi medonho com aquele equipamento. Claro que o dono do infame salão não colocou um equipamento melhor, conforme prometera. Dessa forma, fizemos um show de choque, e "zarpamos" dali, o mais rápido possível...

 
E finalmente o empresário sinalizou com algo mais animador...
Mas, se por um lado o novo show que agendou-nos, foi sucesso de público, por outro lado, era de novo numa casa onde não fazia sentido uma banda como a nossa, apresentar-se. Foi no dia 15 de outubro de 1994, que apresentamo-nos no "Babillon", perante um público de 800 pessoas, mas certamente alheias ao nosso som ultra barulhento para os padrões popularescos deles. 

Não fomos hostilizados, mas tratados com indiferença, o que foi um alento em se considerando o tamanho da adversidade a que estávamos expondo-nos. E finalmente, na última ação dele como empresário, cumprimos tabela num festival de colégio estadual, fazendo o show da eliminatória. Festival bagunçado e com pouco público, aliás injustificável para um evento escolar de adolescentes. 

Ocorreu no colégio Ibraim Nobre, no dia 5 de novembro de 1994, e com um público fraco de apenas 80 pessoas. E com a sequência de apresentações equivocadas que ele arrumou-nos, só restou-nos solicitarmos o rompimento da associação. Foi educado e tranquilo e seguimos o nosso rumo, tentando recuperar o embalo bom que tivéramos antes dele levar-nos a shows em lugares insólitos, e dignos do filme "This is Spinal Tap"...

Nessa época, recebemos um telefonema vindo da gravadora Roadrunner. Esse selo europeu (da Holanda), que tinha o "Sepultura" em seu cast, havia recentemente aberto uma representação no Brasil, e por uma feliz coincidência, a diretora artística da seção brasileira havia indicado-nos ao diretor geral, e este, ao ver-me na foto da banda, reconheceu-me de pronto...

    Jerome Vonk, diretor geral da Roadrunner Brasil, em 1994

Era Jerome Vonk, o empresário com quem trabalhei na minha segunda passagem pelo Língua de Trapo, entre 1983 e 1984.
Em princípio, foram marcadas reuniões prévias com a Alê, diretora artística e baixista / vocalista do "Pin Ups", uma banda Indie famosa na cena paulista. 

Alê, baixista / vocalista da banda indie, "Pin Ups", e diretora artística da Roadrunner Brasil, naquele momento de 1994

A ideia inicial era lançar um CD, com gravações no bom estúdio Be Bop, onde havíamos gravado a coletânea da gravadora Eldorado, em 1993. As primeiras conversas giravam em torno dessa ideia. Segundo disse-nos, a gravadora estava disposta a contratar cinco bandas da cena indie daquela atualidade, e com uma verba fixa para cada banda, a ideia seria cada uma cuidar de sua produção, com a obrigação de gravar no Be Bop (naturalmente haveria um desconto por ser um pacote "1x5"), e entregar o tape mixado no prazo estabelecido. Era um esquema bastante confortável, no sentido de cuidarem de toda a produção, nos moldes das gravadoras grandes, com o advento de não haver ingerências desagradáveis no nosso conteúdo artístico, embora com a responsabilidade de sermos muito rápidos no estúdio, e com a advertência de ter de cobrir do bolso, qualquer despesa contraída além da verba destinada pela gravadora. Nos contatos iniciais, tivemos a informação que já haviam contratado outras bandas. Lembro-me do Viper, nessa altura uma banda sedimentada e veterana no cenário do Heavy-Metal, entre elas. O "Garage Fuzz", de Santos / SP era outra e as outras eram : "Zero Vision"; "Lethal Charge"e "Killing Chainsaw". O tempo foi passando, e começamos a notar que o clima mudara. Agora pediam-nos sempre mais tempo, e o contrato nunca era assinado. Cansados, pedimos uma definição, e só aí a Alê disse-nos que o Viper estourara a verba no estúdio, e dessa forma, inviabilizou a nossa contratação. Mas... e aquela conversa de verba fixa, e equânime entre os artistas ? 

Bem, o Viper era mais famoso, e tornou-se prioridade da gravadora, segundo ela. Em conversa reservada com o Jerome com quem eu tinha liberdade, infelizmente a justificativa também foi evasiva, pois alegou cuidar de questões gerais da gravadora, e na parte artística, não envolvia-se, dando carta branca à Alê. Então, tá...
Foi assim o efêmero contato com a gravadora Roadrunner, resumindo-se a uma série de reuniões que revelaram-se infrutíferas, na "Hora H". Como fato curioso, apenas relato que o Jerome disse-me uma coisa inusitada numa dessas ocasiões no pequeno escritório situado na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo : -"vocês são a única banda que entrou neste escritório, cujos membros não tem sequer uma tatuagem ou piercing..." 

Respondi também na base do humor, mas com uma verdade implícita : -"somos Rockers, não somos marinheiros, tampouco presidiários..." Na piada, tem embutido um conceito perdido no Rock, e que representa bem o que foram os anos noventa, enquanto cenário antagônico aos verdadeiros ideais Rockers...

Sem empresário e sem gravadora, ainda tínhamos ecos do embalo adquirido, e mesmo sendo uma banda onde a estratégia era a absoluta falta de estratégia (isso é para rir ou para chorar ??), tínhamos a preocupação em estabelecer um novo rumo para tentar aproveitar o embalo. E assim sendo, a próxima atividade da banda deu-se na festa da Revista Rock Brigade, que comemorava a sua centésima edição lançada.

O show ocorreu no Aeroanta, no dia 28 de novembro de 1994, com a presença também de duas outras bandas : "Neanderthal", nossos amigos e companheiros de coletânea da gravadora Eldorado, e "Avalon", uma banda de Heavy-Metal oriunda do estado do Piauí, recém radicada em São Paulo. Era um dia útil (segunda-feira), portanto um dia difícil para angariar público, mesmo sendo um show gratuito ao público. Contudo, cerca de 100 pessoas compareceram, e algum tempo depois, estávamos numa matéria da própria revista, cobrindo a sua festa.

Nossa apresentação foi desprovida de energia, devo registrar.
Apesar da banda ser norteada pela absoluta falta de preocupação com nada, e entre seus membros o bom humor sempre predominar pela veia humorística que tinham, nesse show, todos pareciam estar taciturnos, e sem energia. Não havia um motivo explícito para tal, mas era evidente que os ecos da perda de embalo que duramente havíamos construído através de dois anos e meio de atividades, estavam implicitamente no ar. Enfim, apesar de tudo, tocamos...


E o último compromisso de 1994 aconteceu novamente no Aeroanta. Desta vez foi um show compartilhado com as bandas "Party up" e "Stigmata A Go Go".

O "Party up" era uma banda indie com elementos de punk, e doses de metal no seu som. O grande atrativo era sua vocalista, uma garota muito bonita (Natacha), e que tinha uma pronúncia perfeita de inglês. Graças ao bom relacionamento que seu líder tinha no meio (o baterista que era um ex-membro do Viper, e muito amigo dos irmãos Cavalera, do Sepultura), estavam na iminência para serem contratados pela Roadrunner internacional, e entrar num circuito forte de shows pelo mundo. Na prática, era apenas mais uma banda indie com sonoridades modernosas, baseada na extrema simplicidade do punk-Rock, e o maior atributo recaía sobre a garota, que chamava a atenção pela beleza.

E esse  "Stigmata A Go Go" era uma banda americana. Também outro exemplo de indie Rock, sem nada que atraísse-me, muito pelo contrário, com um som eletrônico misturado à ruindade Punk, realmente era difícil achar algum mérito naquela maçaroca esquisitinha. O show foi  morno, sem grandes novidades, e ocorreu no dia 16 de dezembro de 1994, para um público de apenas 100 pessoas. O embalo sensacional que havíamos obtido desde 1992, estava diluído, infelizmente. O melhor teria sido lançar logo um CD, mas a quebra de palavra por parte da Roadrunner impossibilitou-nos nesse sentido. Fazendo shows esporádicos, e sem perspectiva de lançar um disco, foi uma fase de desânimo geral, que consumiu-nos algum tempo para realizarmos um esboço de reação.

Olhando hoje, com distanciamento histórico, fica claro que foi o fim da primeira fase da banda. Após o hiato de alguns meses, entraríamos na segunda, e última fase da banda (pelo menos sob a minha perspectiva, pois após a minha saída, eles teriam uma terceira fase, sem a minha presença). A insistência em cantar em inglês era um ponto sempre trazido à tona por parte de jornalistas na época.

Realmente, essa cena de bandas emergentes do início dos anos noventa, cantando em inglês estava sendo atropelada por bandas cantando em português. Era o caso a pensar-se, mas o Chris não queria nem saber disso. E assim encerrou-se 1994, com o embalo perdido, e esvaído pelo ralo, infelizmente. 


 
Entrevista concedida ao crítico de Rock e escritor Glauco Matoso, para a revista Top Rock nº 21, e mais focada no Chris Skepis por conta de sua passagem pela banda britânica, "Cock Sparrer", daí o título "Chris Skepis : Do Cock ao Crack".  


A virada para 1995 foi um pouco desalentadora, portanto. 
Descartados pela gravadora Roadrunner, e com a Eldorado desinteressada em investir no time da coletânea de 1993, após ver as cinco bandas dispersarem cada uma por si, apenas ensaiamos e trabalhamos em músicas novas nos primeiros meses de 1995.
Uma entrevista do Chris Skepis ao Jornal da Tarde, em março de 1995, falando de sua aventura na Inglaterra, como membro do Cock Sparrer, uma banda famosa da cena do Punk' 1977 

Então, o primeiro compromisso do ano em termos de show, foi uma autoprodução completamente maluca que tinha tudo para ser uma mera e prosaica reunião em clima de festa particular, mas que ganhou dimensão inesperada, e foi um sucesso de público. Foi assim : o presidente do fã-clube do Pitbulls on Crack, Jason Machado, tinha uma data no Black Jack Bar, e perguntou se nós gostaríamos de tocar lá, visto estarmos há muito tempo sem shows.
A data teria um significado especial para o Jason, e para o Pitbulls on Crack, pois marcava um ano de existência do Fã-Clube. Seria no dia 30 de abril de 1995, ou seja, na véspera de um feriado (1° de maio), com a possibilidade das pessoas saírem despreocupadamente para a noite, como se fosse o sábado. A despeito de também muita gente sair da cidade, achamos que a custo zero, não seria ruim, nem que a casa ficasse com público tímido. Mas a ideia evoluiu, e pensamos em colocar alguma banda de abertura. Mais um pouco e passamos a pensar em duas, depois três e estava configurado aí, um micro-festival. A grande sacada, seria que as bandas de abertura também arrastariam público, numa ação conjunta de divulgação.
E dessa forma, aproveitando o fato de eu ter cerca de 35 alunos regulares de baixo, era óbvio que de minha parte seria fácil arregimentar bandas novas. Tendo tantos alunos, e quase todos terem uma banda, seria uma oportunidade de ouro para eles também apresentarem-se. Para incrementar, o Jason Machado atuaria com força total no evento, e ele tinha um trunfo em mãos.

Graças a um patrocinador que tinha para o seu fanzine, havia um acordo para a publicação de um tijolo de jornal, com o apoio da gravadora Eldorado, e dessa forma, no dia do show, tivemos um tijolo no Jornal da Tarde, como apoio de divulgação, fora cartazes e filipetas. Muitas bandas poderiam ser escolhidas, mas na "Hora H", as que puderam aceitar o convite, confirmando presença, foram : "Parental Advisory" (do meu aluno, Ricardo Garcia); "Eternal Diamonds" (do meu aluno, Alexandre Peres "Leco" Rodrigues), e "Equinox" (do meu aluno Marcos Nannini). Os garotos ficaram super empolgados, claro, e imediatamente engajaram-se na divulgação. Era a oportunidade deles tocarem num bar que tinha tradição no Rock Paulistano, e pelo fato de serem adolescentes imberbes, contava muito como façanha pessoal para eles, em início de carreira. Como nessa fase, eu ainda era conhecido por um apelido que após 1999, cortei com veemência, o nome do show que foi usado em profusão, fazendo a junção dele, com a palavra Woodstock. reescrevendo a história, chamo-o de outra forma nesta autobiografia. Não falava-se em outra coisa nas minhas aulas, a não ser a realização do "Dominguestock". Confesso que essa produção deu o ânimo que o Pitbulls on Crack precisava para sair da fase letárgica em que encontrava-se, desde o fim do segundo semestre de 1994, quando todo o impulso alcançado, parecia ter diluído-se pelo ralo.

Por ser um bar de pequenas dimensões, não comportava um P.A. grande, e sendo assim, o Black Jack Bar não tinha uma estrutura de som e luz adequada para shows de Rock com muita potência.
O soundcheck foi lento, com a inexperiência da garotada atrapalhando também, e lembro-me que o guitarrista do Equinox foi bastante grosseiro comigo, pois atribuiu à minha pessoa, a culpa pelo atraso, sendo que isso fugia à minha alçada. E o combinado era meia hora para cada banda apresentar-se, quando o Equinox tocou por quase uma hora e meia, talvez "vingando-se" da minha pessoa, mas apenas sendo deselegante com todo mundo que bocejava diante de seu show maçante, pleno de clichês oitentistas de Heavy-Metal.

Mas a primeira banda a apresentar-se foi o "Parental Advisory".
A despeito do som ser um Thrash Metal ultra agressivo, os garotos tinham uma postura muito engraçada, que arrancaram gargalhadas do público.

Entre uma música e outra, o vocalista, que era um garoto enorme e com o cabelo pela cintura, falava com uma voz de adolescente, em processo de maturação, ou seja, "desafinava" falando, mas quando cantava (ou melhor dizendo, "urrava"), nas músicas, parecia um troglodita das cavernas, matando dinossauros a gritos... hilário !!
E uma música arrancou gargalhadas extras. Quando anunciaram-na, fizeram a contagem para iniciá-la, e ela resumiu-se à um acorde de acento único...
Mais um fato engraçado aconteceu também sobre essa banda.
Assim como para todas as bandas de abertura presentes, havia muitos familiares dos músicos envolvidos. Parecia uma festa escolar de fim de ano...
E contaram-me que durante a performance do "Parental Advisory", o pai do meu aluno Ricardo Garcia, suava, literalmente, espremido na multidão, e só resmungava, dizendo : -"que merda...que merda..." Ha ha ha !!!

E conforme o prometido, o "Parental Advisory" tocou o seu set de meia hora, e despediu-se. A voz esganiçada do vocalista adolescente, tornou-se hit imediato, e apesar da agressividade da banda, foi uma apresentação divertida que agradou o público (com a devida exceção de alguns pais, digamos assim, e fato já mencionado anteriormente...). Nesta altura dos acontecimentos, a casa estava super lotada, e o acúmulo era tanto, que o pequeno espaço interno inteiramente lotado, fazia com quem estava do lado de fora não conseguisse entrar, literalmente. O dono do bar estava eufórico, pois decadente, o Black Jack, há muitos anos não lotava daquela maneira.

A próxima banda a entrar no palco seria o "Eternal Diamonds", banda de meu aluno, Alexandre "Leco", Peres Rodrigues, e que praticava um som pesado, quase no patamar do Heavy-Metal, mas tinha enormes influências boas de anos 1960 / 1970, principalmente a psicodelia sessentista, e o Prog setentista. Seus outros componentes eram Rodrigo Hid (guitarra e voz), e Fernando Minchillo (bateria). Conhecia-os todos desde 1993. Com aquelas feições faciais de adolescentes, e muita conversa sobre o Rock dos anos 1960 e 1970 etc. Sabia do potencial dos três, e apesar de serem inexperientes e muito novos ainda, o poder de fogo deles era enorme. O show começou, e a sonoridade era radicalmente mais leve que o "Parental Advisory", e as boas influências dos meninos eram nítidas no seu trabalho.

Eu, Luiz Domingues, e Rodrigo Hid numa foto de 1996, na minha sala de aulas

Eles tocaram suas canções compostas em inglês, e cuja mais famosa, pelo menos no círculo de amigos, era "Meet the Power", praticamente um Heavy-Metal. Mas surpreenderam positivamente ao tocar um cover do Pink Floyd, "Insterstellar Overdrive", trazendo uma excelente interpretação ao clássico da psicodelia Barrettiana. Lembro-me bem que durante o show do "Eternal Diamonds", o Deca reparou bem na performance do Rodrigo, e olhando-me a seguir, fez expressão de espanto (positivamente, é claro), demonstrando que também percebia o talento nato do menino. Tocando com desenvoltura e cantando muito bem, o Rodrigo tinha rosto de adolescente, mas postura de veterano no palco, brilhando intensamente. Dois anos depois disso, ele estaria iniciando o projeto "Sidharta" comigo, e com o próprio Deca, e mais dois a seguir, estaria na Patrulha do Espaço comigo. Dez anos depois, estaria no Pedra, comigo, novamente...
E os demais também tinham diferencial. O Alexandre, mesmo muito novo, apresentava percepções de psicodelia que muito lembravam o Roger Waters, fora seu talento nato para criar linhas de baixo nada usuais, e que são sua marca registrada no Klatu, sua banda atual, com dois discos lançados. E o Fernando também tocava de maneira segura, apesar da idade. Foi uma pena que tivessem apenas meia hora para tocar, pois o show do "Eternal Diamonds" foi muito agradável. Saindo do palco, chegou a vez do Heavy-Metal, do Equinox.

Infelizmente, o "Equinox" extrapolou, e contrariando o combinado, tocou por mais de uma hora e meia, entediando o público com seu Heavy-Metal oitentista; defasado, e enfadonho. O guitarrista solo estava nervoso, e por estar contrariado, motivado pelo atraso no soundcheck, quis propositalmente afrontar-me, e prejudicar o show do Pitbulls on Crack. Atitude lamentável em que nada contribuía para divulgar o som de sua banda, pelo contrário, só criou um anticlímax. O meu aluno, Luiz, era extremamente gente boa, e ficou constrangido com as atitudes de seu guitarrista, mas o estrago estava feito. Enfim, o público cansou daquele som maçante e absurdamente alto. Dispersou, abrindo um clarão na frente da banda, e mesmo assim, insistiram em tocar mais e mais.

Pior que isso, hostilizou nosso roadie, o Jason Machado, que pedia insistentemente para que encerrassem, devido ao tempo estourado.
Claro, arrependi-me por tê-los incluído no evento. Teria sido muito melhor incluir outra banda de alunos, e havia várias que desejavam ter tido essa oportunidade. Já noite avançada, beirando a madrugada, o Pitbulls on Crack entrou em cena, e o público já estava pela metade.

Se a intenção do guitarrista rancoroso houvera sido essa, creio que o maior prejudicado foi ele mesmo, por ter entediado as pessoas, espantando-as. Claro, era de esperar-se que as pessoas cansassem-se de ficarem confinadas num bar minúsculo, com um áudio deficiente, e bandas de Rock tocando em volumes inacreditáveis. E também era esperado que muitos dispersariam após verem seus parentes e amigos apresentarem-se, tal como um festival juvenil. Isso não abalou-nos em nada, e fizemos o nosso show normal, sem preocupações, e contentes por ter sido um sucesso um evento do qual não esperávamos nada.

Isso ocorreu então, no dia 30 de abril de 1995, e o público foi excelente, com 520 pessoas presentes (informação oficial revelada-me pelo Jason Machado, no ano de 2015), para a alegria do dono do bar, que vendeu muita bebida nessa noite. Existe uma versão editada desse evento, gravado em Mini-VHS e digitalizada nos anos 2000. Pretendo lançar no You Tube em breve. Só não sei ainda se lanço separadamente cada banda, ou se mando tudo junto, como um documentário de Festival. E mais uma coisa : vou mudar o nome do Festival, passando por cima da história...vai ser "Dominguestock"... Ha ha ha !!!

Continua...  

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