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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pitbulls on Crack - Capítulo 4 - Sonhando com Manhattan, mas indo para Utinga - Por Luiz Domingues

Anúncio do estúdio Be Bop, na revista "On & Off", em 1995, citando artistas que já haviam gravado discos em suas instalações, e com o Pitbulls on Crack, entre eles

Em meio ao "Dominguestock", um fato interno agitou a vida do Pitbulls on Crack, e sobre o qual mantivemos sigilo absoluto à época. Acredito que não há mal algum em revelar esse fato hoje em dia, 20 anos depois (2016). Foi o seguinte : o Chris Skepis conheceu por volta de 1989 / 1990, o produtor / técnico de som, norteamericano, Roy Cicala. O fato era que Cicala tinha vindo ao Brasil por conta de uma namorada brasileira, e a despeito de nosso terceiro-mundismo, gostou do Brasil, e esticou uma boa temporada por aqui.


Sendo assim, o Chris tornou-se seu cicerone, e tradutor em muitas ocasiões, apresentando-lhe diversos músicos etc. Para quem não sabe, Roy Cicala trabalhou como técnico de som no Record Plant, famoso estúdio de Nova York, como assistente de Eddie Oddford, em discos históricos como "Electric Ladyland", do Jimi Hendrix, por exemplo.

E estava por trás de Alice Cooper em "School's Out"; John Lennon e David Bowie em "Fame", e tantas outras gravações seminais na história do Rock, que eu prefiro parar de citar, para não tomar espaço (e acredite, são dúzias e dúzias...). Por volta de 1995, Cicala voltou ao Brasil, e encontrando com o Chris, este mostrou-lhe o material do Pitbuls on Crack, e surgiu uma proposta : gravaríamos de graça em seu estúdio em Nova York, tendo que apenas bancarmos nossas despesas de viagem; estadia, e alimentação. Ficamos animados, claro. E tratamos de captar recursos assim que possível. O problema, era que estávamos numa curva descendente, desde o fim de 1994, e com poucos shows, o caixa estava vazio.
Pensamos em levantar recursos com patrocinadores, mas nossos contatos eram com patrocinadores pequenos, que só queriam bancar material de souvenir para a banda.

O próprio Cicala interveio, e propôs que hospedássemo-nos no seu estúdio, minimizando despesas com hotel. Claro que aceitamos, mas o dinheiro das passagens estava muito difícil de captar. Estava agendada uma data no estúdio, em agosto de 1995. Ele encaixou-nos entre as gravações do "Steely Dan", e da Patti Smith.
Frustrados, desistimos da empreitada, e o sonho de gravar em Nova York, com um produtor com status de mito, esvaneceu-se.


Alguns anos depois, o Roy Cicala mudou-se em definitivo para São Paulo. Ele abriu um estúdio no bairro da Vila Mariana, zona sul de São Paulo, e tornou-se figura carimbada numa padaria próxima, e que eu conheço bem...
Como adendo de 2015, acrescento que Cicala manteve esse estúdio por muitos anos, gravando muitas bandas ali numa casa próxima à Cinemateca Brasileira, no já citado bairro, incluso um álbum do Ciro Pessoa, com o qual passei a trabalhar em 2011. Infelizmente, Roy Cicala faleceu em 2014, aqui em São Paulo.


Essa tentativa frustrada de gravar de graça em Nova York deu um baque na banda, não vou negar, mas logo a seguir uma nova luz acendeu-se nesse quesito "gravadoras". Recebemos um convite para conhecer o escritório da gravadora "Velas", e lá, recebemos uma proposta de contrato / gravação. Tratava-se de uma gravadora independente, mas bem organizada, com estrutura interna de gravadora grande, e que tinha entre seus sócios, o compositor / cantor / pianista, Ivan Lins, e seu parceiro musical, o letrista Victor Martins.

                               Victor Martins & Ivan Lins

A sede paulistana da gravadora, ficava no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo. Era um escritório bem estruturado, com diversos funcionários trabalhando a todo vapor, tudo informatizado etc.

Em princípio, estavam abrindo um selo de Rock dentro da gravadora, denominado "Primal", e o diretor artístico desse núcleo, era o guitarrista d' "O Terço", Sergio Hinds, padrinho do filho de Victor Martins, portanto seu compadre, e amigo de longa data.
Numa primeira conversa, gostamos da proposta, que seguia o padrão tradicional das gravadoras à moda antiga, com cobertura de toda a cadeia de produção, do estúdio à divulgação final. Mas o acerto, obviamente não saiu no primeiro encontro. Muitas visitas ao escritório do Tatuapé suceder-se-iam, com direito a almoço nos restaurantes de seu entorno.

 
Voltando aos shows, a próxima apresentação foi novamente num local pouco glamoroso, e com baixíssima audiência. Era como se estivéssemos novamente em 1992, galgando humildemente o calvário inevitável de uma banda estaca zero...
Dessa forma, estávamos no palquinho do "Advance", uma modesta casa noturna, e desta feita perante um público (ou seriam testemunhas ?), de apenas 20 pessoas (9 de junho de 1995). Tendo a banda "Out of Bounds" como abertura, e nenhuma ocorrência especial que tenha marcado na minha memória. Mas no dia seguinte, estávamos num evento de maior projeção.

Era um evento ao ar livre, patrocinado pela Prefeitura de São Paulo, e que realizou-se no Largo da Matriz, no tradicional bairro da Freguesia do Ó, zona noroeste de São Paulo. Com o palco montado de frente para a bela Igreja, no Largo que é exatamente igual ao das pracinhas de cidades interioranas.

A Freguesia do Ó, e bairros vizinhos daquela região, era um tradicional reduto de adeptos do Punk-Rock nos anos oitenta, tanto que o Gilberto Gil fez sucesso com a música "Punk da Periferia", que falava sobre isso, e cita a Freguesia do Ó. Mas ali, no calor da metade dos anos 1990, isso estava bem diluído, e o público que formou-se tinha de tudo, incluso punks (sempre atraídos pela presença do Chris, e sua ligação com o "Cock Sparrer"), mas tudo num clima tranquilo.

Um dos organizadores do evento era o Clemente, dos Inocentes, e ele estava meio chateado porque esperava um público maior do que apresentou-se.

Foi um evento no início da noite, onde dividimos o espetáculo com o "Rip Monsters", dos amigos Zique; Johnny; Alja, e Gastão.
Como já disse, em se considerando o fato de ser um evento ao vivo, deveria ter tido um público maior. Mas, tudo bem, as 500 pessoas presentes (na estimativa da PM), agitaram e gostaram, apesar de serem duas bandas evidentemente sem nenhum apelo popular, e ambas cantando suas canções em inglês. Aconteceu em 10 de junho de 1995.

O próximo show, foi um encaixe de última hora. Tratava-se de um evento chamado "Sintonia do Rock", realizado por um empresário Free-Lancer chamado Evon Patrocínio, em parceria com o Centro Cultural São Paulo. Estávamos escalados para participar no dia 28 de junho, mas de última hora, uma banda desistiu de participar no dia 30, e nós aceitamos o improviso.

Sendo assim, no dia 28 de junho de 1995, subimos ao palco do CCSP e tocamos. A banda que dividiu a noite conosco, foi o "IML", cujo som, era o punkinho gutural de sempre, tanto apreciado e incensado no Brasil. 120 pessoas passaram pela bilheteria, e o show não apresentou grandes novidades em termos de repertório, ou adendos cenográficos. Já no dia 30, fizemos então o show que surgira como oportunidade extra. Nessa noite, o público foi por outro lado, decepcionante, com apenas 50 pessoas. E a outra banda da noite foi o "Oloman", que caprichava no visual, mas o som era um Heavy-Metal com ares modernosos, mas igualmente maçante, como sempre...

Enquanto a negociação com a gravadora Velas caminhava de forma muito positiva, e já a poucos passos de uma resolução, fizemos mais um show no Black Jack Bar, dividindo a noite com outras duas bandas. Nessa noite de 29 de julho de 1995, tocamos junto com o "Cheap Tequilla", e o "Motorcycle Mama"(que foi encaixado no evento em cima da hora, portanto ficando fora da divulgação, como vê-se no cartaz acima), com um ótimo público de 300 pessoas aproximadamente. Praticamente fechado o contrato com a Velas / Primal, só faltou mesmo assinar e protocolar no cartório, burocracia que ocorreria de fato, alguns dias depois.

Já preparávamo-nos para entrar no ritmo de estúdio, escolher o repertório e preparar a pré-produção. Mas um novo compromisso apareceu antes de mergulharmos nessa produção. O baterista Juan Pastor fechou um show de choque dentro da "Feira de Música". Apresentar-nos-íamos no stand de uma empresa chamada "Advance", fabricante de potências para P.A.

O evento ocorreu no último fim de semana de agosto, do ano de 1995, no Expo Center Norte, um gigantesco espaço em Santana, na zona norte de São Paulo, onde geralmente ocorrem Mega-Feiras de expositores. Estávamos escalados para apresentarmo-nos no final da tarde do dia 27 de agosto de 1995. Soubemos na hora, que uma das bandas que também apresentar-se-ia, seria o "Raimundos". Outras que apresentar-se-iam também, seriam "Mundo Livre", e "Little Quail", entre as quais lembro-me. Difícil lembrar-se daquelas bandas, pelo seu suposto "legado que não seja pelo aspecto negativo, primeiro pela uniformidade sonora; segundo por um conjunto de signos inerentes dos quais nem preciso arrolar, acredito.
Quando fomos informados por alguém da produção que tocaríamos depois dos Raimundos, recebemos também a orientação de permanecermos do lado de fora do stand, pois não havia estrutura de camarim para aguardarmos a nossa vez. Era um stand fechado, parecendo um container de navio de carga, sem ventilação alguma, e onde cabiam aproximadamente 200 pessoas. Naturalmente, estourados na mídia como estavam, os Raimundos superlotaram o improvisado micro-teatro, deixando muita gente de fora, o que causou um pequeno tumulto, com pessoas forçando a entrada. Com isso, seguranças tiveram que agir com aquela "simpatia e poder de persuasão" que lhes é peculiar...
Acalmados os ânimos, mesmo estando do lado de fora, ouvíamos o som muito alto, com a pressão que era enorme vinda de lá de dentro. Apesar da pequenez do ambiente, os técnicos da Advance mandaram a equalização num volume absurdo, pois afinal de contas o que contava ali era vender o seu produto, as potências que alimentam P.A.'s...
Os Raimundos terminaram o seu set, e fomos aconselhados a esperar o público evacuar o local. Uma equipe de limpeza fez uma faxina relâmpago no local, enquanto outros funcionários improvisavam uma exaustão do ar, com ventiladores manuais. Mesmo assim, quando entramos, o cheiro era insuportável !!


Era um odor azedo de suor humano, concentrado num nível absurdo, que chegava a embrulhar o estômago. Tocamos para um público de 200 pessoas, lotando o stand, mas sem a comoção de público da banda anterior ante seus seguidores.


A seguir, concentramos as nossas baterias no processo do CD que gravaríamos.

Apesar de sermos uma coletividade, todas as composições eram do Chris Skepis, e isso não gerava nem um desconforto; brigas, ou ciumeiras que pudessem inflamar egos.

Achávamos normal apenas escolhermos as músicas, entre as dúzias que ele tinha gravadas em suas demo-tapes caseiras, com uma certa sofisticação, até, pois ele desenvolvera uma pratica nessas gravações, e mesmo contando com as terríveis baterias eletrônicas, ele manejava-as de tal forma, que não chegava a causar calafrios, como geralmente músicos sentem nessas circunstâncias. A ideia era escolher entre 12 e 15 músicas; ensaiar, e arranjar esse material, para na "Hora H", de entrar em estúdio, reduzir para 12. Algumas escolhas eram óbvias, por serem músicas que estavam no repertório da banda, há tempos, algumas desde o início de 1992, até. Com o fechamento do contrato com a Velas / Primal, começaram então as definições em relação à pré-produção.

Algumas conjecturas foram feitas em relação à escolha de um estúdio de gravação, mas com verba modesta, não dava para sonhar com estúdios Top de linha de São Paulo. Sendo assim, o Sergio Hinds, que era o diretor artístico do selo Primal, sugeriu uma saída providencial, mas com a ressalva de que tratava-se de um estúdio simples, e que estava começando as suas atividades no ramo.

O elo de ligação era a presença de um velho amigo dele, também músico, e que fora famoso na cena do Rock brasileiro setentista, chamado Geraldo D'arbilly, ex-baterista de "O Peso", uma significativa banda de Blues-Rock setentista, e também com atuação numa banda inglesa oitentista, chamada "Blue Rondo a La Turk", que teve relativa fama na cena do pós-punk britânico. Para confirmar a nossa anuência, o Sergio Hinds pediu que nós fôssemos conhecer o estúdio, e conversar com o Geraldo.



Então, na tarde de um dia de setembro de 1995, eu e Chris Skepis fomos fazer uma visita ao estúdio sugerido pela gravadora, e bater um papo com o Geraldo D'Arbilly. O Chris já conhecia-o desde o final dos anos oitenta, quando o Geraldo era produtor da casa de shows Aeroanta. Inclusive, conforme relatei no capítulo "Trabalhos Avulsos", eu e Skepis chegamos a montar um "T.Rex" Cover com o baterista Paolo Girardello, motivados pela perspectiva de tocarmos no Aeroanta, visto que o Geraldo havia adorado a ideia, sem contar que ele também era um fã da banda de Marc Bolan, como nós. O estúdio em questão, era longínquo. Ficava localizado no bairro de Utinga, em Santo André, cidade da região do ABC paulista.

Era próximo ao Moinho São Jorge, para quem conhece bem a cidade de Santo André. Na base do mapa impresso (via Guia impresso, numa Era pré-GPS), achamos com dificuldade a rua, e a nossa primeira reação foi de espanto. Isso porque tratava-se de uma casa aparentando estar ainda em fase de construção, com a parte da frente sem nenhum acabamento.

Foto meramente ilustrativa, não é a casa em questão, mas era semelhante

E fora isso, havia um recuo enorme, com o terreno à frente, talvez projetado para dar espaço a um belo jardim no futuro. Mas se era essa a intenção do proprietário para o futuro, naquele presente o que havia ali, era um aspecto desolador. Aparentando ser um terreno baldio, com mato selvagem e muita sujeira, tinha um aspecto muito ruim. E demoramos de fato para acreditar que ali funcionava um estúdio de gravação. Mais parecendo uma casa abandonada e invadida por mendigos, demorou para certificarmo-nos de que ali era de fato um estúdio. Mas era... e mediante uma conversa com o dono, e com o Geraldo, demos uma olhada geral.

O básico de um estúdio existia em seu interior, com uma mesa importada de 24 canais, e de bom nível (não recordo-me com certeza, mas acho que era uma Mackie). E a máquina de gravação, ainda analógica, era uma Ampex.

Havia periféricos bacanas "espetados", alguns microfones de respeito, e a sala de captação estava amadeirada, portanto com possibilidades acústicas mínimas. O dono, cujo nome não recordo-me, foi educado e prestativo, e a conversa com o Geraldo animou-nos, pois notamos nele o entusiasmo em gravar-nos. Fora o fato dele ser um Rocker de história & curriculum, portanto, na parte artística, seria muito legal tê-lo como "tape operator", e quiçá coprodutor. Marcamos então para começarmos a gravar no início de outubro (mas fatores alheios à nossa vontade, obrigaram-nos a postergar para o feriado de 15 de novembro). Baseado nesses fatos, e também levando-se em conta que a gravadora não deu-nos outra opção, fechamos o acordo.

O Grande Geraldo D'Arbilly, trabalhando num estúdio. Não posso afirmar que fosse aquele lá de Santo André que cito nos últimos parágrafos, mas a instalação física lembra bem e pode até ser. E seguramente, em se tratando do mesmo estúdio, certamente alguns anos depois, com tecnologia digital incorporada como vê-se na foto, visto que em 1995, a tecnologia disponível ali era a antiga, analógica
 
E assim, no feriado de 15 de novembro de 1995, demos entrada no tal estúdio.Foi o início de uma fase muito difícil para o Pitbulls, mas como nessa banda, nem tragédia alterava a sua vocação para a pilhéria, é claro que tudo tornou-se motivo para piadas. Foi assim : logo de início, houve uma confusão perpetrada pela falta de comunicação entre a gravadora e o estúdio, em relação às fitas de 2 polegadas que usaríamos. Com esse impasse, quando chegamos ao estúdio, simplesmente não havia fita disponível.


Diante dessa situação constrangedora para todos os envolvidos, até tudo esclarecer-se, e ser tomada uma providência, perdemos mais de duas horas, para que um motoboy da gravadora aparecesse com as fitas em mãos. Mas como o clima já estava estranho com essa quebra de foco, o próprio Geraldo sugeriu que apenas dedicássemos o restante do período para a preparação da bateria, levantando o seu som. O planejamento inicial de começarmos a gravar a bateria no mesmo dia, ficou descartado então.

Na montagem, o clima foi ficando mais ameno, com o Geraldo soltando-se, deixando de lado o mau humor que acometera-o pelo episódio das fitas, e convenhamos, com Chris; Deca, e Pastor por perto, era só uma mera questão de tempo para as gargalhadas tomarem conta do ambiente, espantando o baixo astral, e o Geraldo entrou no clima, divertindo-se com as palhaçadas desse trio de humoristas natos, enquanto microfonava a bateria, e começava a buscar a sua equalização inicial de captura. Apesar do clima ter melhorado, o estúdio "judiava" do Geraldo, pois haviam problemas técnicos terríveis nos cabos de microfones; no multicabo, e nas entradas de patches dos periféricos. A todo instante, alguma falha acontecia, obrigando-o a levantar-se para promover modificações, quando não verdadeiros "banhos" de "WD 40", em "jacks" que insistiam em falhar, e / ou produzir ruídos insuportáveis que inviabilizavam a equalização, e deixava-nos com "a pulga atrás da orelha", em relação à continuidade dessa gravação.

Mesmo assim, insistimos bastante em tentar gravar ali naquele estúdio, mesmo porque o Geraldo estava super empolgado com a perspectiva, pois havia gostado do nosso som. De fato, esse foi um dos fatores que prendeu-nos ainda por algum tempo naquele estúdio, sofrendo com as limitações técnicas gritantes, que eram-lhes peculiares. As tentativas para equalizar-se o som de captura da bateria, foram feitas em  tardes / noites de agonia, e só eram amenizadas com o costumeiro bom humor dos membros do Pitbulls, que contagiavam o Geraldo.

Mas o fato era que os cabos falhavam, e as mandadas de patches eram revistas o tempo todo, para checar a fonte das intermináveis interferências de ruídos etc. E assim arrastou-se novembro e dezembro, sem que conseguíssemos passar dessa fase primária da produção de estúdio. Minhas lembranças desses últimos meses de 1995 para o Pitbulls on Crack, resumem-se à esse estúdio, no que teve de ruim nessa agonia sem fim, e eventualmente nos momentos de descontração com o festival de piadas & pilhérias sempre perpetradas pelos membros da banda, onde o Geraldo acabava entrando também, o que certamente aliviava a tensão dos momentos em que ele aborrecia-se muito com as deficiências técnicas que insistiam em sabotar seu trabalho. Nesses momentos bons, relaciono também as histórias dos anos setenta que contava-nos, sobre a sua trajetória musical com "O Peso", banda que eu admirava (e continuo admirando), muito.


Nessa segunda foto, com o "Blue Rondo a La Turk", Geraldo é o terceiro da esquerda para a direita, de chapéu e bigode, parecendo caracterizado para atuar num filme dos anos trinta do século XX...

E falava também sobre a banda britânica, "Blue Rondo a La Turk", banda onde foi seu baterista, em Londres, que aliás, fez discreto sucesso no meio da década de 1980.


Um vídeo-clip engraçado do "Blue Rondo a la Turk", com um som pop, ultra oitentista, naturalmente...

Era uma banda "dândi", naquela transição do pós-punk para aquela safra de artistas dândis e blasés, tipo "Style Council"; "Sade Adu"; "Frankie Goes to Hollywood" etc. O grande feito do "BRLT" foi uma participação num longa-metragem protagonizado pelo David Bowie ("Absolute Begginers"). Segundo o Geraldo, o Bowie foi simpático com eles no set de filmagem. E claro, muitas histórias malucas dos anos sessenta. Contou-nos várias sobre os Hippies do Rio de Janeiro naquela época etc etc. Mas a despeito desses momentos descontraídos de conversa informal, o trabalho no estúdio foi tornando-se um martírio para todos, com as inacreditáveis paralisações devido às falhas do equipamento. O clima foi ficando tenso, e vendo que o estúdio não conseguiria resolver tais falhas, pressionamos a gravadora para colocar-nos em outro estúdio, com condições técnicas mínimas.

E foi nessa circunstância que encerramos o ano de 1995. Estava insuportável conviver com aquele estúdio, e a despeito do Geraldo ser super gente boa; competente como técnico; e estar 100 % motivado pelo trabalho, era impossível gravar uma nota sequer, pois nem levantar a equalização da bateria, conseguimos.

Dessa forma, tivemos uma conversa com ele, e deixamos claro que não era nada pessoal. Pelo contrário, ficamos chateados por ele também, que sofreu um forte stress naqueles dias, tentando administrar as adversidades e sobretudo por sentir-se frustrado em não concretizar essa produção. O Geraldo é um grande artista, e não merecia ter passado por isso, certamente. Por outro lado, o dono do estúdio ficou contrariado, mas diante daquela situação insustentável, liberou as fitas, e o próximo passo seria a gravadora entender, e apoiar-nos em nossa decisão. Tecnicamente, teríamos a compreensão do Sérgio Hinds certamente, por ele ser músico, e ter a noção de que era impossível ficar persistindo naquele estúdio, com sérios problemas de manutenção.

E foi o que aconteceu em relação a ele, mas a cúpula da gravadora não gostou muito de termos tomado essa atitude. Dessa forma, cobraram-nos uma solução, ao invés deles aparecerem com uma, já que haviam colocado-nos naquele imbróglio. Claro que isso não era legal, mas também não era hora de cobrarmos posturas, portanto...
Então, pensamos numa solução muito alternativa...
A ideia seria convencer o estúdio onde ensaiávamos regularmente, a gravar-nos, sob forma de patrocínio alinhavado com a gravadora.

Nós já éramos patrocinados para ensaios, desde 1994, mas daí a gravar, era outra história, e com a agravante de ter que estabelecer forçosamente, uma tríplice aliança com a gravadora. Fechou-se o ano de 1995, e o ano novo começaria com essa missão :  a procura de um estúdio, tendo essa vaga esperança de que o Estúdio "Spectrum" pudesse aceitar tal proposta de nossa parte.

Como balanço final, 1995 foi um ano difícil, com poucos shows; consequentemente com poucas oportunidades na mídia, e certamente que o embalo de 1992; 1993 & 1994, havia arrefecido-se. Com o distanciamento histórico, hoje fica muito fácil alinhavar motivos para tal, em forma de uma análise :
 

1) O baque estético de cantar em inglês, perdendo o bonde da história, visto que se isso era aceitável na cena do início da década de noventa, a partir de 1994, foi duramente cerceado por uma safra de bandas que entraram no mercado de forma avassaladora, com letras em português, porém extremamente apelativas, com conteúdo chulo, e até contendo abordagem de sexo explicito e / ou escatologia, e isso caiu no gosto popular ("Os Raimundos", "Mamonas Assassinas" e outras). Com o advento da extrema massificação de artistas popularescos do Samba, também enveredando pelo caminho da abordagem chula em suas letras, e utilizando dançarinas sensuais como chamariz apelativo em suas formações, o Rock proposto pelas gravadoras majors nessa época, também seguiu tal tendência, e bandas como o Pitbulls on Crack ficaram relegadas ao limbo da cena underground e indie;

2) O grande embalo que tivéramos em 1994, com exposição midiática de nível mainstream, não foi devidamente aproveitado. Se tivéssemos tido um empresário astuto o suficiente para capitalizar tal "momentum", talvez a vida tivesse tomado outro rumo, mas o melhor que conseguimos foi o Jefferson, que tinha boa vontade, mas seus contatos eram por demais underground;

3) Outro fato, reputo ter sido por azar. Se no momento em que a gravadora Roadrunner abordou-nos, nós tivéssemos agilizado a gravação do álbum, ainda poderíamos aproveitar a onda que já demonstrava-se descendente. Mas com o imbróglio gerado por eles mesmos, em termos de postergação para assinar, concomitantemente, a onda quebrou-se na areia da praia, sem que pudéssemos evitar que isso acontecesse;

4) Já em 1995, mesmo numa situação de inferioridade gerencial, se tivéssemos arrumado meios de viajar à Nova York para gravar no estúdio de Roy Cicala, talvez pudéssemos ter tido a chance de uma reação, até que rápida. Mas com a não concretização dessa oportunidade, perdemos de vez o embalo;


5) Muito provavelmente, a grande realização de 1995, foi ter fechado com a Velas /  Primal. Em se considerando tudo o que disse no primeiro item dessa análise, foi até surpreendente que uma gravadora de médio porte tivesse aparecido na nossa vida, de forma espontânea, pois a "onda" no panorama mainstream de meio de década de noventa, era totalmente desfavorável para um banda com nossas características;

6) Mas claro, corroborando a ideia de que 1995 foi um ano desfavorável para nós, a aventura gerada pela questão de um estúdio totalmente inadequado para uma gravação profissional, mostrava-nos que uma nova oportunidade de retomar uma onda ascendente, somente poderia ocorrer em 1996, mesmo...

Continua...

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