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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Pitbulls on Crack - Capítulo 6 - Embarcando na Lata Psicodélica - Por Luiz Domingues



Passada essa entrevista na MTV, nossos esforços ficaram divididos.
Enquanto corriam as espaçadas sessões semi improdutivas de quatro horas, visando mixar o álbum, reuniões de brainstorm foram realizadas para elaborar a capa do CD, e também decidir sobre o aparato mercadológico em que a gravadora investiria para promovê-lo. Por sugestão minha, coloquei uma aluna que eu tinha, das minhas aulas de baixo, para trabalhar nesse sentido. Eu sabia que ela trabalhava como desenhista; web designer, e tinha experiência com computação gráfica, tendo visto diversos trabalhos seus, realizados para uma agência de publicidade onde trabalhava.

                      Marina Yoshie, em foto bem mais atual
 
Chamava-se Marina Yoshie, uma simpaticíssima nissei que tinha / tem a característica de ser extremamente carismática, cativando as pessoas de forma instantânea. Ela agradou em cheio aos executivos da gravadora, e seu trabalho foi aprovado, dando-lhe aval para tocar o projeto e apresentar rafs. Dessa forma, começamos a trabalhar no conceito da capa, inicialmente.

O Chris havia dado a ideia de lançamento de um foguete espacial, e o termo "Lift Off", veio à baila. Após várias ideias orbitando (perdão pelo trocadilho...), nesse tema, surgiu a ideia de um cão pitbull estar dentro do foguete, como tripulante. Daí até chegar à ideia do cão ser retratado dentro de um traje de astronauta, não demorou muito. Mas não ficou só nisso, e aí eu exerci mão de ferro nas reuniões, sempre forçando para tudo parecer evocar os anos sessenta. A ideia de estabelecer elo entre o cachorro astronauta, e a Era da exploração espacial, via Missão Apollo, era a porta de entrada para eu chegar onde queria, com uma explosão visual psicodélica para o conceito visual do disco. 

A Marina rapidamente ficou muito amiga de todos na banda, e cativou o pessoal da gravadora.

Inclusive, houve convite para ela trabalhar lá, como funcionária registrada, mas antes disso, o Juan Pastor agiu mais ligeiramente, e já a havia indicado para trabalhar na rádio 89 FM, e dessa forma, ela preferiu essa oportunidade, onde acabou ficando um bom tempo no staff dessa emissora, posteriormente. Enquanto isso, a lentidão era óbvia no processo de mixagem, pois com sessões espaçadas por dificuldade de agendar-se seguidamente, e sobretudo pelo fato de terem apenas míseras 4 horas de duração, ficava mesmo um processo moroso e contraproducente. Não tínhamos perspectivas de shows em curto prazo, e nosso foco era finalizar o disco e a capa.

Paralelamente começariam, todavia, as conversações sobre o aparato de lançamento e um possível show, com o apoio da gravadora. Isso deu margem para muitas peculiaridades e eu contarei com detalhes, obviamente.

As reuniões realizadas na sede da gravadora, visando o "brainstorm" sobre o aparato de divulgação do CD, foram hilárias.
Recentemente, haviam contratado um publicitário para comandar o marketing da gravadora (Alexandre Madeira), e esse rapaz era criativo e aberto às sugestões da banda. Foi nesse momento que eu exerci um poder de persuasão forte, e fui induzindo o brainstorm para tudo remeter aos anos sessenta.

Toda a ideia do encarte do disco, remeteu à psicodelia sessentista, com muita lisergia; cores, e evocações àquela década. Com isso, as ideias imprimidas para capa e encarte, acabaram dando sentido para todo o aparato que cercou o lançamento do disco. A ideia seria casar com um conceito e essa "ode", impulsionou tudo. O Pitbulls on Crack não era certamente a plataforma correta para fomentar tais ideias (e ideais), mas era clara a minha intenção em reaproximar-me de minhas raízes perdidas há tantos anos, e certamente, foi um embrião para que tudo isso explodisse um ano depois, com a criação do projeto "Sidharta", e que acabou culminando com a volta da Patrulha do Espaço à cena. Mas o assunto aqui é Pitbulls on Crack...

Nesses termos, as reuniões aconteciam na nova sede do selo Primal, que havia deixado de usar as instalações da gravadora Velas, embora ainda fosse um selo subordinado a esta gravadora. Com um escritório próprio, ganhou mais espaço e liberdade para trabalhar, inclusive ampliando seu quadro de funcionários próprios. Lembro-me de nessa época, eles terem encantado-se com uma banda chamada "Tiroteio", que fazia um som muito parecido com  uma outra banda que estourara no mainstream naquela época, chamada "Os Virgulóides".

Tratava-se de um punk rock pobre (com o perdão do pleonasmo !!), misturado à um tipo de sambão-joia, popularesco. Guitarras estilo "serra elétrica"; com surdão e cavaquinho; letras cheias de expressões chulas, e muita "malandragem" de boteco de periferia...
Bem, depois que os Raimundos explodiram em 1994, muitas bandas tentaram pegar esse vácuo, misturando punk rock com ritmos brasileiros inusitados, e explorando o linguajar chulo. Quando achávamos que a música chegara ao fundo do poço, descobrimos haver um subsolo a mais, para descer...

"Psycho 69", banda americana, com o brasileiro Supla nos vocais, era outro artista do selo. Desnecessário explicar do que tratava-se tal trabalho.

Outra contratação, era uma banda de Heavy-Metal tradicional e com uma carreira longa já naquele tempo, chamada "Genocídio".

Lembro também de uma dupla de cantores / dançarinos de Ribeirão Preto, que faziam um som techno, mas com influência da Disco Music dos anos setenta, que chamava-se "RodHanna".
Essa sede nova da Primal, era numa casa recuada, como se fosse uma vila antiga. Tratava-se de uma antiga residência, adaptada para o comércio, com várias salas de trabalho, um quintal grande etc.
E por ser recuada da rua, tinha um sossego muito grande, apesar de ser uma rua movimentada do bairro do Jardim Paulista (Rua Suzano), na zona sul de São Paulo, próximo a avenidas de trânsito pesado, como a Av. 9 de Julho; Av. São Gabriel; Av. Brigadeiro Luiz Antonio e Av. Santo Amaro, além da Av. Juscelino Kubitschek.
Passei algum tempo frequentando essa sede da Rua Suzana, pois todo o processo de criação da capa, encarte e aparato de promoção do CD, passou pelas reuniões de Brainstorm ali realizadas e posteriormente, todo o processo de preparação do material, também, conforme contarei. E ali, coisas bizarras aconteceriam nesse processo.

Enquanto o processo de mixagem do álbum arrastava-se, nossas baterias concentravam-se nessa criação toda da capa, e aparato de divulgação. O novo diretor de marketing da gravadora (Alexandre Madeira), parecia empolgado com as ideias, e mesmo não entendendo os propósitos contraculturais envolvidos, comprou a ideia pelo exotismo e devo ser franco, foi à luta no mercado, viabilizando patrocínios. Dessa forma, todo o conceito do aparato foi crescendo e ganhando uma dimensão maior do que imagináramos inicialmente. E certamente o papel desse diretor de marketing foi importante.

Surgiu a ideia do disco ser lançado dentro de uma lata, rotulada com motivos psicodélicos e dentro, além do CD, uma série de brindes, sem no entanto onerar o custo final ao consumidor, pois estaria tudo patrocinado. E um dos primeiros patrocínios que ele conseguiu, foi de uma famosa fábrica de rações para cães. Com isso, um pacote de 1 Kg de ração, estaria inserida nessa lata.


Mesmo parecendo uma bobagem óbvia associar ração de cachorro ao nome "Pitbulls on Crack", não podíamos deixar de comemorar tal patrocínio. Mas no restante do material, aí sim, as referências aos anos sessenta seriam explícitas (ou deveriam ser, como veremos no decorrer da narrativa).


Surgiu a ideia de inserir um book falando sobre os anos sessenta em vários aspectos. A contracultura e o Rock como elemento chave nesse processo, sem dúvida; mas também aspectos sociopolíticos seriam abordados em seu teor temático. Impossível não citar a guerra do Vietnã; crise dos mísseis em Cuba; luta pelos direitos civis na América; Primavera de Praga; Maio de 1968 em Paris, e estouro de ditaduras de direita na América Latina.

A conquista do espaço, também era muito importante e mais ainda se levarmos em consideração que o mote da capa era o cão Pitbull, usando uma roupa de astronauta. Portanto, tínhamos que abordar essa questão. E surgiu também a ideia de falar sobre a Art Pop nas artes plásticas. Esse assunto eu não dominava com profundidade, mas a Marina indicou um professor da sua Faculdade, que era um especialista e dessa forma, prontificou-se a abordá-lo, e fazer o convite para que ele preparasse um texto.

Assim como a questão espacial, abordar a Art-Pop era fundamental, também, pois a embalagem da lata que seria o grande invólucro do produto, seria uma simulação da famosa obra de Andy Warhol, a lata de "Sopa Campbells", estilizada. E com a Marina no projeto, tudo ficou muito facilitado, porque ela era extremamente competente como Web Desiner, e estava muito motivada. E com as coisas andando bem na produção, tudo correu bem nesse sentido, animando-nos.

O livrinho era sem dúvida o material adicional mais interessante e bem arrumado dentro da lata. O restante do material era meramente de apoio, mas à medida que o marqueteiro da gravadora foi agregando mais patrocinadores, o material aumentou em volume, fazendo da lata, um verdadeiro baú de coisas inusitadas. Uma camiseta com a estampa do cão em motivos psicodélicos estava agregada, também, mas itens como uma "carteirinha de hippie", chamava a atenção pelo caráter praticamente pejorativo. Tinha os traços infantis de um cachorrinho dócil, estilizado como "hippie bonzinho", e sinceramente aquilo parecia material de congregações religiosas tentando aproximar-se da linguagem jovem, mas de uma maneira totalmente fora da realidade, diluindo ideias em formato pasteurizado, e de extrema docilidade infantiloide.

Uma argola pseudo-psicodélica; um chaveirinho da garrafa de Coca-Cola; bolinhas de gude; um pacote de sopa; uma vela; e um pacote de incensos, também completavam a lata. Então, no cômputo geral, havia um desequilíbrio. Se por um lado o livrinho trazia textos sérios sobre os anos sessenta, o restante do aparato remetia a coisas infantis, ou mesmo antagônicas. A Marina fez um ótimo projeto gráfico desse material de apoio, baseada na capa de sua própria autoria, mas em alguns aspectos, o tom ficou dúbio entre seriedade e uma velada gozação, e claro que não era sua culpa, mas fruto de impressões não condizentes com o espírito que eu ansiava, portanto vindo de outros opinantes.

De fato, eu não podia controlar tudo e sendo justo, não era correto forçar uma barra, se nem todos compactuavam de meus ideais. E sendo muito realista, na prática, só eu estava 100 % imbuído de levar isso a ferro e fogo, com a determinação de um cruzado...

Analisando sob o ponto de vista do trabalho musical do Pitbulls on Crack, essa dubiedade até que fazia sentido, ainda que involuntariamente, porque o som tinha influências sessentistas (aliás, numa análise mais fria, eram mais setentistas, baseadas no Glitter Rock britânico), mas nem de longe era um "resgate" hippie, contracultural, ou que remetesse explicitamente a essa época.
Pelo contrário, as letras das canções tinham uma acidez cockney, muito mais ligada ao punk rock setentista pós-1977. Todo esse aparato pseudo-hippie nada tinha a ver com a letra de "Death on the Christmas Day", por exemplo, onde a história contada na canção, tinha mais a ver com os filmes de terror do tipo "Sexta-Feira 13" ou "A Hora do Pesadelo"...

Mesmo diante de certos sinais de dubiedade, é claro que estávamos contentes por ver o aparato materializando-se. E certamente que só a lata em si, já chamava bastante a atenção pelo seu porte. Quando acrescentávamos o invólucro impresso, todo concebido para imitar uma lata de sopas Campbell, evocando a Art-Pop de Andy Warhol, ficava sensacional, sem dúvida. E para completar, gostando ou não de um ou outro item, o fato da lata ficar abarrotada de bugigangas, era incrível. Chegamos a brincar entre nós, que a lata tinha tantos brindes, que inclusive tinha um CD do Pitbulls on Crack...

Era uma piada, mas a ironia cabia como uma luva para essa situação. Num dia, inclusive, o próprio Victor Martins contou-nos que seu sócio, Ivan Lins, estava boquiaberto com a ideia da lata e todo aquele monte de bugigangas, a preço zero, praticamente.
Ele admirou-se com a quantidade de coisas disponibilizadas como patrocínio, gerando um custo mínimo para a gravadora, e proporcionando assim um produto visualmente muito atrativo ao consumidor final, que chamaria a atenção nos displays e prateleiras de lojas de discos.


Pensando mercadologicamente, ainda vivíamos um tempo onde as pessoas compravam discos... e as lojas eram importantes nessa cadeia comercial, para qualquer artista. Mas, outro fator entrou também para a contabilidade da gravadora : para minimizar ainda mais os custos, a gravadora propôs que a montagem das latas fosse caseira. Se montadas em fábrica, além da confusão que seria administrar tantos brindes dentro da lata, custaria caro. Portanto, propondo à banda um mutirão de amigos e parentes, formaríamos turmas, como numa linha de produção de fábrica.

E para a sorte do Pitbulls on Crack, eu tinha em mãos o meu exército de Neo-Hippies, sempre prontos a ajudar, e convenhamos, seria uma farra ! Durante muitos dias, formamos equipes que passaram a trabalhar voluntariamente para montar tais latas. Nunca foi nada linear, mas chegamos a reunir uma turma de mais de dez voluntários num dia só, e era muito divertido, apesar de cansativo.

Nessa foto de 1996, uma pequena parcela de meus alunos e agregados de minha sala de aulas : amigos que sempre ajudaram com um tremendo entusiasmo. Da esquerda para a direita : Marcello Schevano (usando camiseta do "P.O.C."); Cali Keller; Marilu Postól; e Ricardo Schevano. Agachado : Edil Postól

De fato, com o apoio dessa tropa, formamos uma verdadeira linha de produção de fábrica. Além de meus alunos e agregados de minha sala de aulas, a inestimável ajuda de Jason Machado, arregimentando seus familiares e amigos, foi fantástica, com uma animação incrível, que mostrava o quanto ele gostava da nossa banda.

Alguns dos "Monges", mas desta feita, não caracterizados com sua vestimenta religiosa : da esquerda para a direita : Nathanael; Betina; Emmanuel e Wagner "Baiacu"

E acrescento aos meus "neo-hippes", a turma super animada do meu primo Emmanuel, seus colegas de bairro e escola, que tornaram-se amigos eternos, mesmo depois de passado o período da adolescência para eles. Inclusive essa turma, é bom que eu relembre, sempre apoiou o Pitbulls on Crack, mesmo antes dessa ação da montagem das latas promocionais.

Helder Pomaro, meu primo, e também um membro da irmandade dos "Monges"

Meu primo e seus amigos (incluso outro primo nosso em comum, o Helder), por diversas vezes fizeram ações de filipetagem de shows nossos, em portas de shows internacionais, inclusive de mega shows, como "Monters of Rock" e "Hollywood Rock", em estádios como o Pacaembu e Morumbi. E tinha uma particularidade divertida entre eles. Como eram exímios brincalhões por natureza, gostavam de tornar tal prática, algo performático e dessa forma, além de divertirem-se muito, chamavam a atenção nas ruas, e com isso turbinava-se a promoção que faziam com nossas filipetas.

Emmanuel Barretto, meu primo, e outro "monge"...hoje em dia, é dono do Site / Blog Orra Meu, onde colaborei como colunista entre 2011 e 2016.

Uma das brincadeiras mais tradicionais que gostavam de fazer, era a de vestirem-se com hábitos de monges franciscanos, com direito a capuz, e dessa maneira, arrancavam risos das pessoas, pois numa primeira visão, poderiam achar que seriam monges verdadeiros fazendo algum tipo de campanha anti-Rock, mas pelo contrário, sua ação era totalmente pró. A boca pequena, sei que tal fantasia também rendeu-lhes ótimos frutos pessoais, pois muitas garotas adoravam tal brincadeira...
E o resultado das filipetagens perpetradas pelos "Monges", era tão positivo para a banda, que eu realmente lamentava que eles fossem apenas meia dúzia, pois se tivéssemos mais membros, poderia ser ainda mais eficaz, principalmente na porta de estádios de futebol, por ocasião de mega-shows internacionais.

Concomitante a essa atividade de montagem do conteúdo das latas promocionais, a gravadora teve um gesto bacana ao ajudar-nos também na produção do show de lançamento do CD. Convenhamos, não era uma praxe das gravadoras envolver-se em tais produções. Pelo contrário, lembro-me de ter tido contato com gravadoras nos anos oitenta, e as conversas de seus executivos convergiam na direção contrária.

Por exemplo, era comum ao receber material de alguma banda emergente, preocuparem-se em saber se seus membros tinham condição socioeconomica avantajada, e se possuíam um bom empresário com contatos, em detrimento de sua música ser boa ou não. Por isso, foi promissor para nós, que o esforço da gravadora nesse sentido fosse concreto, dando-nos suporte para fazer um lançamento com barulho, e que de certa forma, justificasse todo a aparato da lata etc etc.

Claro, foram muitas as conversas para dar formato. Não seria um show tradicional numa casa noturna ou teatro, e fim de papo. Com todo a aparato da lata e do book, o Alexandre Madeira, marqueteiro da gravadora, vislumbrou fazer algo maior, e que aproveitasse essa onda toda criada. Ele tinha razão, pois seria um barulho e tanto na mídia, se fizéssemos algo maior, evocando essa atmosfera toda.

Marina Yoshie, minha aluna, e que comandou todo o projeto gráfico do CD, seu aparato, e apoio para o show de lançamento.

Então, nas primeiras reuniões de Brainstorm com a banda e a presença da Web Designer Marina Yoshie, falaram-se muitas coisas, mas já havia uma certeza : não seria possível realizar algo pretensioso desse nível, numa casa noturna de pequeno ou médio porte. Deveria ser num teatro, ou casa de show de grande porte.
Foi então que o marqueteiro Alexandre teve uma ideia que poderia lograr êxito : segundo ele, havia uma produtora de amigos seus que era especializada em realizar mega-festas em chácaras; sítios; fazendas, e afins. Estavam acostumados a providenciar a organização de festas com até 15 mil pessoas presentes, tendo diversos motes temáticos, inclusive raves de música eletrônica.
Bacana, poderia funcionar, mas desde que adequassem-se ao espírito sixtie do aparato todo, pensei eu. E claro que seria difícil passar esse conceito para pessoas sem a menor familiaridade com o assunto.

Mas antes de qualquer julgamento prévio, claro que aceitamos fazer uma observação de campo, a convite do Alexandre. Sendo assim, eu e o Deca fomos numa noite de sexta feira de outubro de 1996, a uma dessas festas organizadas pelos amigos dele. Tal evento aconteceu num sítio muito grande, localizado na cidade de Cotia, uma das 39 cidades que ficam anexas literalmente em São Paulo. Era uma festa sem um mote específico, mas inacreditavelmente, havia milhares de pessoas, e em sua maioria absoluta, jovens de origem socioeconômica avantajada. Apesar disso, pareciam divertir-se num ambiente rústico, com poucas atrações, a não ser um ambiente fechado de música eletrônica, e um palco ao ar livre, num campo de futebol, onde uma banda tocaria ao vivo.

The Central Scrutinizer Band, uma banda especializada em reproduzir o som de Frank Zappa

Com um P.A. razoável, mas com luz muito insuficiente, surpreendi-me ao tomar conhecimento da banda que tocaria : era a "Central Scrutinizer", uma banda cover do "Frank Zappa & Mothers of Invention". Ora, se vivo, seria bizarro ver um show do Frank Zappa para uma plateia de playboys, imagine uma banda cover...

Sem preconceito, mas sendo muito realista, era óbvio que seria no mínimo interessante como uma atração musical desse naipe (diga-se de passagem, essa banda era (é) impressionantemente boa, apesar de usar seu talento para "covers", ainda que de um gênio, como Zappa), seria digerida por 12 mil playboys, sem identidade Rocker alguma. Ficamos um pouco no ambiente assistindo e de fato, no campo de futebol devia haver umas mil pessoas presentes, e apreciando muito a performance Zappeana dos rapazes. Eu também gostei da perfeição com que executavam diversos temas complexos do mestre. Independente dessa revelação surpreendente, é claro que a imensa maioria dos presentes na festa, estavam circulando pelo sítio e alheios ao som ao vivo. OK, não era nosso problema, e certamente que não esperaríamos que uma multidão concentrasse-se no campo de futebol para ver o nosso show, se o nosso lançamento fosse ser realizado ali, eventualmente. Por outro lado, eu e Deca gostamos de observar outros aspectos.

A organização como um todo parecia eficiente. Vários pontos que observamos, eram satisfatórios. Havia muitas barracas de comidas e bebidas, a segurança parecia sob controle, com vários profissionais espalhados, e não notamos brigas ou confusões, com as pessoas aparentemente felizes pela "balada". Eu e Deca, representando a banda, concedemos o nosso aval e as negociações começaram para viabilizar o nosso lançamento nesse mesmo sítio, e sob a administração desse pessoal. Mas antes de ter essa confirmação de negócio fechado, tivemos um bom compromisso, anteriormente. Não tocávamos desde fevereiro daquele ano de 1996, pois passamos meses dedicados à gravação do CD. Mas esse convite foi bastante salutar, pois envolveria várias questões. Fomos convidados a abrir o show da banda "Velhas Virgens", que lançaria seu novo CD no Olympia, casa de Shows top naquela época em São Paulo, e o CD deles era um lançamento da nossa gravadora, também. Portanto, seria uma ação bacana para todos os envolvidos.

Dessa forma, é claro que aceitamos. Primeiro que o pessoal do "Velhas Virgens" era gente boa, principalmente na figura extrovertida de seu vocalista, Paulão. Segundo, por tratar-se de um artista de nossa gravadora, portanto, era simpático estar participando de um lançamento do nosso próprio elenco.

Terceiro, por ser obviamente uma oportunidade de mais uma apresentação numa casa de shows de grande nível, e claro que isso seria muito bacana. Mesmo sendo um show de abertura, certamente com curta duração (no padrão de "show de choque"), era uma boa oportunidade de voltar a tocar num grande palco, com P.A. e Luz de alto nível, e com a possibilidade de fotografar a banda em um palco grande, muito bem equipado e iluminado.

O convívio nos bastidores foi bastante amistoso, e no soundcheck fomos bem tratados pela equipe técnica. A camaradagem com o pessoal das "Velhas Virgens", foi ótima, também.

Ao contrário do que experimentáramos dois anos antes ali nessa mesma casa, o clima era ameno, sem tensões. E claro, com tantos camarins disponíveis, ocupamos um deles só para nós, curiosamente o mesmo que ocupáramos em 1994, e desta feita, sozinhos.

E num passeio que fiz pelo enorme labirinto dos bastidores, achei uma saleta onde havia duas enormes placas com o nome de todos os artistas que ali apresentaram-se desde o início das atividades da casa. Fiquei orgulhoso por ver o nome do Pitbulls on Crack, ali mencionado, junto a monstros do Rock internacional; grandes astros da MPB; Blues; Soul; Jazz etc. Fiquei muito contente por ver o nosso nome em meio à nomes históricos como : "Deep Purple"; "Black Sabbath"; "Uriah Heep"; "Peter Frampton"; "Santana"; "Nazareth"; "Emerson, Lake and Palmer", "Yes", "Jethro Tull"; "James Brown'...

Nosso show foi tranquilo, sem problemas técnicos e com uma performance descontraída, ao contrário daquele show de 1994, quando ficamos no fogo cruzado de um público hostil e de motivações opostas entre si (um terço era entusiasta do Heavy-Metal melódico do Angra; outra fatia, gostava do Hard-Rock virtuose do Dr. Sin, e a parcela restante, admirava o som pobre e apelativo daquela última atração da noite em questão.


Desta vez, era o dia 30 de outubro de 1996, e cerca de 500 pessoas compareceram ao show. 



Era um público pequeno em se considerando a grandeza da casa, porém, bastante gente se levarmos em conta que tratava-se de uma quarta-feira, e o "Velhas Virgens", apesar de estar na estrada há tempos já naquela época, era na verdade uma banda que estava acostumada a tocar no circuito de bares e pubs, e mesmo lotando tais casas costumeiramente, daí a levar um grande público numa casa como o Olympia, havia uma grande diferença.

Mas, computamos que foi tudo legal e agradecemos a oportunidade dada pelo Paulão dos "Velhas Virgens" e da parte da cúpula da gravadora Primal / Velas. O próximo passo, seria o show de lançamento do CD "Lift Off"...

Todas as fotos de camarim, e ao vivo desse show no Olympia, são clicks de Marcelo Rossi

Passado esse show no Olympia, as atenções permaneciam com a "mini linha de produção", em relação aos esforços para preparar as latas que envolviam os CD's, e seu aparato promocional, além da produção do show de lançamento. Fechado com aquela equipe que já mencionei, e selado o contrato com aquele mesmo sítio, onde eu e Deca fomos ver o esquema, em outubro (conforme já relatado), em novembro, os esforços eram para criar ideias e sobretudo, colocá-las em prática.

Nas reuniões com o Alexandre, marqueteiro da gravadora, e com a presença da Marina Yoshie, muitas ideias foram ventiladas. Minha pressão era total para que a festa fosse calcada em anos sessenta, e logo surgiu a ideia de batiza-la de "Pitstock", uma clara alusão ao Festival de Woodstock. Sinceramente não lembro-me de quem foi a autoria dessa denominação, mas arrisco dizer que veio da Marina.

Sugerimos um telão passando imagens de ícones sessentistas diversos. No Brainstorm, foi cogitada a hipótese de projetar-se cenas de séries de TV daquela década, e cogitaram usar minha coleção pessoal como base para tal. 



Chegamos a pensar em colocar episódios inteiros de séries como "Batman"; "Lost in Space", e "Mod Squad", e isso seria adorável, claro, contudo, a razão falou mais alto e bastaria um fiscal do Ecad aparecer, e isso causaria um tremendo de um problema...
A questão da sala de som mecânico também foi discutida amplamente. Claro que teria que existir para que as pessoas alheias ao show ao vivo, pudessem divertir-se com a opção do som mecânico, mas desde que obedecesse a questão temática...

Ou seja, nada de "bate-estaca", som eletrônico e que tais noventistas destoantes, e muito menos Techno-Pop oitentista. A ideia era mandar Black Music sessenta / setentista de qualidade, transformando essa noitada num autêntico "Soul Train" da Philadelphia...


Uma exposição sobre Art-Pop e outra sobre a chegada do homem à Lua, foram cogitadas, também, mas demandaria patrocínios extras para bancar tal ideia. Em princípio, cogitamos também contratar uma banda cover para executar clássicos 1960 e 1970, pois o nosso show não seguraria a festa inteira. Mas algumas nuvens negras começaram a aparecer nessas reuniões de brainstorm... 

Paulatinamente, o marqueteiro foi cortando as ideias que mais remetiam aos anos 1960, e alegando inviabilidades, foi minando o projeto inicial, de maneira a transformar o nosso "happening sessentista", numa festa comum, como aqueles produtores, amigos dele, estavam acostumados a fazer. Então, o golpe final no nosso sonho woodstockiano, deu-se quando o sujeito anunciou que estavam cogitando trazer uma banda internacional como atração, no intuito de reforçar a festa.

Show no Olympia, outubro de 1996. Foto de Marcelo Rossi

Nós deveríamos ter adorado a ideia deve ter pensado o Alexandre, mas nossa reação foi de estupefação, pois o show de lançamento do NOSSO DISCO, agora parecia relegar-nos à condição de um mero coadjuvante, e as baterias centrar-se-iam numa atração internacional. E o pior... ainda se fosse um dinossauro sessentista, do tipo, "Iron Butterfly" ou "Joe Cocker", sei lá, estaria no espírito, mas é claro que a intenção dos rapazes não era essa, e realmente não foi...

Bem, a festa passou a degringolar nesse ponto, e paulatinamente foram aumentando as restrições às nossas ideias que eram temáticas. Num dado instante, chegou a ficar ridículo para nós, pois era evidente que tornáramo-nos um mero coadjuvante em nosso próprio show de lançamento. Toda a "badalação" estava concentrada na banda internacional que trariam para o evento, para ser headliner.

Tal banda chamava-se "Honey Island" (quem ??), e que seria uma dissidência do "famoso" "Spy  vs. Spy", uma obscura banda australiana de Surf Music. Segundo o Alexandre e seus amigos, era uma banda ideal para o evento, por conta do público habitue de suas festas, adorá-la...
Muitas vezes, fenômenos assim acontecem no mundo da música.
Artistas com nenhuma visibilidade midiática, surpreendem por ter público numeroso. Nos anos setenta, um artista brega chamado Amado Baptista, vendia milhões de discos, e não aparecia na TV e mal tocava nas estações populares de Rádio AM, contudo, tinha uma agenda lotadíssima de shows. Isso aconteceria com o "Honey Island" ?? Segundo os organizadores do "nosso" show de lançamento, seria a solução para atrair um grande público.

Ora, se recordarmos a narrativa, mencionei o fato de que eu e o Deca fomos ao tal sítio, previamente para avaliar a organização. A grande atração da festa era uma banda cover, de um artista hermético como Frank Zappa !! Se nessas circunstâncias a festa levara algo em torno de 12 mil pessoas, qual seria o temor ?

Parecia-nos uma desculpa esfarrapada dos elementos, e começamos a achar que se dependesse deles, só faltava tirarem-nos do evento...
Mas às vésperas do espetáculo, algo ainda pior aconteceria...

Por pressão da gravadora, uma recém contratada banda estava sendo "encaixada" à nossa revelia na festa.

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Era uma banda chamada "Tiroteio", que praticava um som na onda dos "Virgulóides", banda que estava estourando no mainstream naquele momento. O grande trunfo que o Tiroteio tinha, era o fato de seu líder, um rapaz chamado Sérgio "Boneca", ter tido uma música sua gravada pelos Titãs, e estes, assumidamente "apadrinharem-no" artisticamente. Nem é preciso dizer, a aposta da gravadora, era que esse "Tiroteio" abocanhasse uma fatia do mercado, roubando público dos Virgulóides. A estética do trabalho deles, era uma espécie de continuação da saga iniciada pelos Raimundos, misturando Punk-Rock a ritmos brasileiros, no caso do "Tiroteio", o "Sambão Joia"...
Em suma, um bando de sujeitos de bermudas; cheio das malandragens de periferia; com a ruindade musical suprema do Punk Rock na ponta da língua; e uma tentativa de assassinato do Samba em mãos. Conheci os rapazes e pessoalmente eram gente boa, mas as ideias deles, abomináveis. Incluir tal banda, com sua tosquice e proposta estética, foi mais um duro golpe para o nosso show de lançamento.

         No Olympia, em outubro de 1996. Click de Marcelo Rossi

As latas estavam prontas para a distribuição nas lojas. Esse quesito era fundamental, e uma das coisas que mais animava-nos em estar numa gravadora de médio porte, pois sabíamos que o quesito "distribuição" era um gargalo histórico a atravancar a vida do artista independente.

E de fato, tivemos uma ótima noticia nessa área, ainda antes do show de lançamento. Segundo o marqueteiro da gravadora, o departamento comercial sinalizara que havia anotado um grande pedido de uma loja de departamentos muito famosa em São Paulo, chamada "Mappin". Com isso, já sabíamos de antemão que a nossa lata estaria exposta num grande magazine popular, saindo daquele mundinho restrito das lojas especializadas da Galeria do Rock, e digo isso sem menosprezo algum a tais lojas, mas apenas salientando que era raro para nós, estarmos em lojas populares e com o advento da lata, obviamente isso seria possível, chamando muito mais a atenção. Aliás, a lata tornou-se um estouro pelo chamariz natural que arregimentou, todavia, também gerou controvérsia em algumas lojas menores. 

Alegando ser "espalhafatosa", alguns donos de lojas pequenas não achavam lugar nos seus tímidos balcões para expô-las, e alguns tiraram-na da vista dos clientes, colocando o CD, isoladamente na prateleira, onde era apenas mais um item em meio a outras centenas de opções. Lembro-me de ir a uma unidade do Mappin, no bairro do Itaim-Bibi (e essa loja tinha o porte de um Shopping, na Rua João Cachoeira, esquina com a Av. Juscelino Kubitscheck). 

Confesso, fiquei orgulhoso de ver a maneira com a qual os funcionários empilharam as latas e de fato, chamavam muito a atenção no departamento de CD's do magazine. Uma pena apenas, que o Pitbulls on Crack não era popular o suficiente. Pelo contrário, como underground e dentro de um nicho fechado, o fato da lata chamar a atenção, esbarrava nessa realidade de nosso tímido status. 

Esse aparato mercadológico, se a favor de uma banda mainstream, seria um estouro, sem dúvida alguma. Tanto era assim, que o próprio Ivan Lins elogiou muito essa criação e produção do marqueteiro da gravadora. Felizes com essa notícia da lata estar no Mappin, não podíamos falar o mesmo em relação à organização de nosso show de lançamento. Nessa altura, às vésperas, todo o enfoque era para o tal de "Honey Island", tratado por eles como a salvação do evento...

Lembro-me de muitas vezes, quando questionávamos os rumos que a produção do show estava adotando, o marqueteiro respondia que estava preocupado com o sucesso da festa e daí, sua aposta na banda australiana parecia a coisa mais certa a ser feita, em sua opinião. Uma falácia, pois como já disse, quando eu e Deca fomos inspecionar uma dessas festas organizadas pelos seus amigos, a grande atração da noite, era uma banda cover do Frank Zappa, ou seja, tinham medo do que, se a atração musical não era o grande chamariz do evento ?  Essa resposta eu nunca obtive, claramente...
mas em contrapartida, aproximava-se o show...


Na semana do show, tivemos boas e más surpresas. As boas, eram por conta da assessoria de imprensa da gravadora, que funcionou bem, e tínhamos a certeza de que nosso show seria anunciado no "Vídeo Show", da Rede Globo.

Nessa mesma ótima toada, soubemos também que a redação da "Ilustrada", o caderno de artes e cultura do jornal "Folha de São Paulo", queria fazer uma matéria, e convocou a banda para tirar fotos especialmente para ela. Na hora "H", a Folha não mandou repórter fotográfico e nesse detalhe, apenas solicitou uma foto da assessoria da gravadora. Ao invés de mandarmos fotos tradicionais de estúdio (tínhamos feito muitas num estúdio no Bexiga, para a sessão de fotos do encarte do CD, e clicadas pelo meu amigo, Carlos Muniz Ventura, que eu conhecia desde os anos oitenta, e que fizera inúmeras fotos da Chave do Sol, incluso fotos oficiais do encarte do LP The Key, em 1987), improvisamos.


Então, surgiu a urgência de fazer uma foto na própria gravadora, aproveitando a montanha de latas que ali estavam armazenadas e de súbito, um amigo nosso, o Alex, ex-baixista do Proteus (banda que fez relativo sucesso na cena Hard-Rock oitentista), acabou clicando-nos de improviso, e tais fotos foram parar na Folha !!

Convenhamos, para uma banda underground como nós éramos, estar em dois veículos de mídia mainstream na mesma semana, era um fato extraordinário, e realmente ficamos contentes com o empenho da gravadora nesse sentido. As más, ficavam por conta da organização da festa, que a cada dia parecia tratar-nos como um incômodo intruso dentro da sua estrutura, que supostamente devia ser a nosso favor.

A gota d'água deu-se quando flagramos uma conversa do marqueteiro com os seus amigos da organização, e eles falavam sobre uma verba para buscar os componentes do "Honey Island", com helicóptero, do aeroporto até o sítio, pois não conseguiriam traçar outra logística, visto que o voo que os traria de Sydney /  Austrália, para São Paulo, chegaria em cima da hora. Fora o fato de que estavam entretidos com a logística deles, e fechando outros shows para eles, para compensar a viagem. Parece que articulavam para tocar numa casa de shows em São Paulo, e também no Rio de Janeiro.

Bem, estava caracterizado o que temíamos desde o início, ou seja, todo o foco do nosso lançamento estava desviado da atenção deles, apesar das boas conquistas em termos de mídia. Era clara uma coisa : o marqueteiro teve muitos méritos em batalhar pela história da lata, e pelo show no sítio, mas perdeu o foco, fazendo com que sentíssemo-nos intrusos no nosso próprio show de lançamento...

Coisa rara, raríssima (para quem conhece-me, e ao meu temperamento de monge zen), eu indispus-me com o marqueteiro quando flagrei essa conversa, e disse-lhe tudo isso que descrevi acima, mas seus contra-argumentos eram os mesmos de sempre, falando que preocupava-se em "salvar" o evento, daí as modificações na estratégia etc etc. Nessa altura, a despeito de tudo, eu já lamentava o fato de não termos feito algo mais modesto, com um show numa casa de pequeno ou médio porte, no esquema tradicional de lançamento. O clima amenizou e na semana do show, toda a movimentação em torno da matéria na "Folha de São Paulo" desviou um pouco o foco das nossas insatisfações em relação aos desmandos na organização do mesmo, mas o fato é que mesmo antes de chegarmos ao dia do evento, ele já parecia fadado ao fracasso.

Na madrugada de quinta, para sexta-feira, dia do show (que realizou-se na sexta), a matéria saiu na Folha de São Paulo. Ocupando meia página do caderno "Ilustrada", tinha uma mega foto da banda, com uma montanha de latas atrás de nós. A reportagem falava do aparato com entusiasmo, sem o desdém típico que jornalistas mainstream nutrem por tais manifestações, ainda mais em tratando-se de um apanhado retrô explícito, e focado no período histórico da música, que eles adoram odiar...
Pelo contrário, a matéria mostrou-se positiva, e certamente ganhou pontos na redação, o fato da lata ser uma referência à arte de Andy Warhol, baseada na lata de Sopa Campbell etc etc. O fato do Chris Skepis não estar constando na foto clicada pelo amigo Alex, foi meramente circunstancial e motivado pelo caráter improvisado de tal produção fotográfica.


Assista abaixo a menção ao nosso show de lançamento, no "Vídeo Show", da Rede Globo de Televisão :  

Eis o link para assistir no YouTube :
https://www.youtube.com/watch?v=B8wxsdut-EY


Às 13:30 h., vimos no Vídeo Show da Rede Globo, a chamada do show. Algumas colocações da locução foram equivocadas, no entanto. Não querendo ser chato, mas realista, isso foi lamentável para algo que durou pouquíssimos segundos. Por exemplo : como assim, "Pitbules"on Crack, dona Cissa Guimarães (sei que a culpa não foi dela, que apenas leu a ficha que a produção preparou-lhe, mas...) ??
E outra coisa, como assim sermos a atração principal da Festa ? Aquilo era para ser o show de lançamento do nosso próprio disco, portanto, a festa e suas atrações análogas, é que seriam secundárias...

Frame da nossa meteórica aparição no Vídeo Show, da Rede Globo


Todavia, o fato de nosso show ter sido anunciado na Globo, era extraordinário para uma banda underground, não podíamos reclamar. E mesmo bem curto, não passando de 20 segundos, comemoramos muito a citação, que teve o apoio de imagens do Clip oficial de "Under the Light of the Moon".

Enfim, fora mais algumas notas menores em outros veículos, o fato de termos saído com meia página na Ilustrada da Folha, e citação no Vídeo Show, da Globo, já teriam valido todos os esforços de divulgação.


Preparamo-nos para o show, agregando um convidado. Por indicação minha, o então muito jovem Rodrigo Hid, ensaiou conosco para tocar teclados. Na verdade, tocaria apenas Mini-Moog, fazendo intervenções mais psicodélicas. Estávamos bastante ressabiados com os rumos do show, e já não achávamos que seríamos a atração principal, há muito tempo, contudo, na hora "H", nossas expectativas pessimistas tiveram acréscimos de coisas ruins...

Justiça seja feita, mesmo sinalizando tudo ao contrário, na prática, ao menos nos crachás, éramos o "headliner" do nosso próprio show de lançamento...


Fomos ao "Sítio do Espanhol", local do show, no período da tarde.
Quando chegamos, vimos que haviam muitos funcionários empenhados em preparar o local para o evento. Os portões abrir-se-iam para o público às 18:00 h, mas por volta das 15:00 h. já estávamos lá, à disposição para o soundcheck.

Se por um lado, era bom ver tanta gente trabalhando para fazer a festa acontecer, por outro, era decepcionante verificar que das ideias originais, quase nada, ou nada, literalmente, havia sobrado.
Toda a estrutura parecia a de uma festa comum, e a nossa presença é que parecia ser um estorvo...

O primeiro golpe, veio quando fomos ver o equipamento e o palco do nosso show. Era um palquinho, que não diferenciava-se muito de uma barraca de pastéis de feiras livres (com todo o respeito às barracas de pastéis nas feiras...). O equipamento era modestíssimo, e claramente inadequado para um campo de futebol ao ar livre. Só as primeiras fileiras, com muita sorte, receberiam o som com equalização razoavelmente inteligível, e vinte metros adiante, ouviriam uma maçaroca sonora, à mercê do vento que soprasse na hora do show.

Já havia caído uma boa chuva na madrugada anterior, e o campo estava bem enlameado. Convenhamos, seria um anticlímax até para fãs de uma banda consagrada, e o que dizer de nós, nesse caso ?
Outra péssima notícia chegou particularmente para o meu gosto : o marqueteiro da gravadora abordou-me, e parecendo muito preocupado, contou-me que a banda australiana contactara-o, e que um acidente acometera o baixista da banda. Ele estava vindo junto na comitiva, mas sem condições de tocar. O marqueteiro queria que eu tocasse no lugar dele. Claro que eu não achava adequado tocar, por todos os motivos plausíveis e já elucidados neste relato. Mas o sujeito parecia apavorado, mais uma vez denotando que apostava todas as suas fichas nessa banda como atração principal, e o fantasma de um possível cancelamento, causava-lhe calafrios.

Argumentei que não fazia nem ideia do que era o som do tal de "Honey Island", e o rótulo de "Surf Music", era vago, pois no meu conceito isso evocava artistas como "Link Wray"; "Dick Dale", e "Beach Boys", mas certamente que esses sujeitos rezavam outra cartilha e o que chamavam de "Surf Music", devia ser um Pop-Rock de raízes oitentistas, se não tivesse Ska entre elas. Bem, essa conversa atormentou-me por horas (e convenhamos, ficar mais incomodado do que eu já estava, vendo a festa fugir completamente de seus propósitos, era um fator a mais para lamentar-se), e chegou num ponto onde cheguei a aceitar "passar vergonha", tocando um som completamente obscuro para os meus propósitos, mas ao final da longa noite que seguiu-se, isso acabou não confirmando-se (ainda bem)...

Claro que o soundcheck foi caótico. Não dava para fazer milagres com um P.A."zinho" daqueles, e com técnicos despreparados. Pelo "naipe" dos indivíduos, deviam estar acostumados a sonorizar quermesses de igrejas; festas provincianas de bairros, e que tais.
Ameaçava chover mais, e o marqueteiro estava enlouquecido com a logística dos australianos, acima de qualquer outra preocupação.

Entre o Deca e o Chris, está o jornalista Antonio Carlos Monteiro, que foi visitar-nos no estúdio, por ocasião das gravações do CD Lift Off, em 1996.

Por volta das 19:00 h, recebo a presença do jornalista Antonio Carlos Monteiro; sua esposa, e filha. Estavam chegando ao evento, devidamente convidados por nós, naturalmente. Mas por desmandos da organização, foram maltratados por seguranças ríspidos. Só soubemos do ocorrido, ouvindo o relato do próprio Antonio, que estava bastante indignado, e com toda a razão. Segundo contou-nos, demorou muito para alguém liberar a sua entrada com a família, além do clima de tensão e má educação com a qual foram tratados.

Até cachorro bravo fora atiçado contra eles, tirando todo o prazer da família em aproveitar a festa. Emblemático, o próprio Tony ironizou, dizendo que aquela recepção fora "Muito Paz e Amor'", como havíamos propagado o "Pitstock", no release oficial que enviáramos-lhe, e pelo material promocional do evento.

Fiquei duplamente chateado com essa revelação dele. Primeiro pela vergonha de expor pessoas amigas a esse tratamento vexatório; e num segundo instante, por essa frase irônica ter espelhado fielmente a completa desvirtuação do projeto (que competia aos garotões da organização da festa). Já falei várias vezes, mas reforço : a gravadora não tinha obrigação alguma de produzir um show de lançamento. A ela, cabia produzir o CD; distribuí-lo, e divulgá-lo na mídia. Portanto, estávamos gratos pelo apoio extra, inicialmente.

Contudo, todo o projeto saiu de controle, quando o marqueteiro sentiu-se pressionado pelos seus amigos, produtores da festa, a cortar nossas ideias e dessa forma, praticamente transformar o nosso lançamento, numa festa comum, nos moldes em que estavam acostumados a produzir. Dessa maneira, deve ter surgido a ideia da banda australiana, que no mundo particular deles, devia ser grande, e agradaria o público que atingiam normalmente. Isso eu até entendo. E também não chateio-me por saber que uma verba da gravadora foi gasta para investir na festa. Se haviam prontificado-se a fazer o evento, e isso não era uma "obrigação" deles, é compreensível que tenham tido gastos nessa história.

Mas a partir do momento que o nosso lançamento tornou-se secundário, eticamente tornou-se discutível que esse dinheiro empenhado para cobrir despesas, que competia aos garotões da organização da festa, tivesse sido usado. Sendo apenas uma festa normal onde o mote "Pitstock" perdera o sentido completamente, e apesar do aparato mercadológico assim denominá-lo, ter tornado-se festa com "Honey Island" e bandas nacionais de abertura, é claro que o dinheiro teria sido melhor empregado em um novo vídeo clip, ou outras ações de divulgação do CD. Enfim, estou apenas conjecturando, com vinte anos de distância do evento (2016), pois o leite do Pitbulls on Crack foi todo derramado nessa ocasião...

Não posso deixar de observar, que de nossa parte, fizemos todo o esforço para manter o nosso astral legal, a despeito de estarmos vendo tudo errado ao nosso redor. Nesse aspecto, é importante relembrar que o Pitbulls on Crack foi a banda mais "low profile" em que toquei, no bom sentido do termo. Conforme já registrei diversas vezes na narrativa, foi a banda onde mais diverti-me pelo aspecto extra musical, pelo fato de todos os outros três membros serem comediantes de stand-up comedy, natos...

Por isso, se estou relatando desatinos em relação a esse show de lançamento, e esta parte em específico ter ficado grande pela complexidade de detalhes, não significa que estivéssemos, ainda assim, amuados no tal sítio.

Pelo contrário, rimos muito da "barraca de pastel", onde ficou instalado aquele palquinho triste, no meio de um campo de futebol enlameado, entre outras coisas. Claro, ficamos chateados com coisas sérias, como os maus tratos perpetrados contra o jornalista Antonio Carlos Monteiro e família.

Mas no cômputo geral, internamente foi mais uma típica noitada do Pitbulls on Crack, com um festival de piadas sarcásticas que desopilaram nossos fígados indignados, com os desmandos todos.
Os membros do "Tiroteio" eram legais como pessoas, não tenho queixas, deixo isso claro, mais uma vez. 

Sua empresária, Lu Brandão, era a mãe do Titã, Branco Mello, e logicamente uma pessoa com contatos no meio. A banda tinha um "apadrinhamento" dos Titãs, pelo fato de seu líder, um sujeito chamado Sérgio "Boneca" ter composto uma música que fizera sucesso na interpretação deles, Titãs ("Eu não aguento"). A estética do trabalho deles era intragável, infelizmente, como já descrevi. E o fato deles terem sido "escalados" para a festa sem nossa consulta, causou um mal estar duplo para nós. Primeiro pela prepotência do ato da parte de quem impôs tal decisão (isento a banda nesse processo); em segunda instância, pelo choque estético entre as duas bandas, e portanto, de antagonismo ao aparato todo da festa que desejávamos ter.

Tudo bem que o Pitbulls on Crack estava um tanto quanto contraditório com esse aparato "hippie", quando na verdade tinha um "pezinho" no Indie Rock noventista (com raízes do Punk' 1977). Eu admito isso, mas em termos. Mas por outro lado, o caráter híbrido do nosso som, sempre fora garantido pela minha presença, principalmente, e pela atuação do Deca como guitarrista solo.

Deca delirando no palco do Olympia, em outubro de 1996. Click de Marcelo Rossi

Mesmo o Chris tendo esse lado, e sendo o compositor da maioria do material, a neutralização sempre foi automática devido às minhas linhas de baixo, trabalhadas ao estilo 1960 / 1970, e aos solos de guitarra do Deca, 100% baseados no Rock visceral do AC/DC.
Então, mesmo não sendo uma banda retrô assumidamente, o Pitbulls on Crack estava com um pé nesse sentimento sessentista, e a inclusão de uma banda como o "Tiroteio", foi um grande "tiro" de fato, mas no nosso pé, no sentido de vilipendiar o ideal de um suposto "Pitstock", evocando valores "Woodstockianos". O punk misturado ao sambão-jóia dos rapazes, mais aquelas malandragens meio "Planet Hemp", representavam uma antítese aos nossos ideais.

Claro que o marqueteiro nem suspeitava disso, e muito menos os seus amigos organizadores do evento. Mas o crítico Antonio Carlos Monteiro sabia das coisas, e na sua resenha publicada na Revista Rock Brigade, posteriormente, deixou isso claro, lamentando a presença do "Tiroteio" no evento. Em suma, outra bola fora, da organização.



E um fato curioso, nosso baterista passava pelo corredor quando ouviu a empresária deles, falando para alguém, algo do tipo : -"Não gosto desse Pitbulls on Crack... eles nem deveriam estar neste evento..."

Alguém esqueceu-se de informar à essa senhora, que aquele "evento" era ou deveria ser, o lançamento do nosso CD, e se havia alguém que chegara àquele sítio, usando um paraquedas, não era a nossa banda...

A festa estava em andamento, mas o público estava muito aquém do que esperavam. Tinham esperança de que a meta traçada, de 12 a 15 mil pessoas, fosse atingida, e achavam que o grande fluxo chegaria no momento quando o "Honey Island" fosse tocar. Aliás, cabe a pergunta : contrataram uma banda internacional, e os colocariam naquele palquinho medonho, e para tocar naquele P.A. de quermesse ?? Onde fomos parar ??
No show do Frank Zappa cover que víramos, não era um equipamento de primeiro mundo, mas estava digno.

Desta feita, nitidamente economizaram contratando um equipamento de terceira linha, e queriam colocar os gringos ali ??
Com a notícia do mau tempo em São Paulo, o marqueteiro ficou ainda mais nervoso, pois foi informado que o voo dos australianos  atrasar-se-ia. O jeito foi postergar a entrada do "Tiroteio", e a nossa, para ganhar tempo.

Frame da entrevista que a MTV fez conosco no lounge do sítio onde realizamos a festa / lançamento do CD "Lift Off". 13 de dezembro de 1996

Nesse ínterim, uma equipe de reportagem da MTV chegou, e gravou uma entrevista conosco, e com o Tiroteio. Falamos bastante sobre o aparato da lata, e a atmosfera "sixtie" que evocáramos, mas essa conversa não tinha respaldo algum. Embora nos anos noventa não houvesse mais a ojeriza sobre tal assunto, que existia nos oitenta, por outro lado, tirante manifestações isoladas, o público alvo da MTV nem entendia essa questão.

O foco noventista naquele instante no Brasil, era o de bandas agressivas; derivadas do Hard-Core; com sujeitos de bermudas; jeitão de maloqueiros, malandragens, etc. Inclusive, ignorando o Brit-Pop noventista, que só ganhou relativa força por aqui no final daquela década, com atraso, portanto. Conversa de resgate de psicodelia, não era compreendida por esses telespectadores, simples assim...
Mesmo assim, por parte da equipe e do repórter, fomos bem tratados, certamente, e a matéria ficou legal, indo ao ar, já no dia seguinte, como posteriori. Veja abaixo, o vídeo dessa entrevista, onde inclusive aparece a banda tocando no palquinho já citado...


O link para assistir no You Tube :
https://www.youtube.com/watch?v=Y2FD1Tp0LV4


O público da festa, parecia ser o mesmo habitual das
festas organizadas por esses sujeitos. Andavam para lá e para cá, à cata de bebidas e paqueras, alheios às bandas.

Mesmo antes de irmos ao palco, sabíamos que não faria diferença alguma os shows para eles, e pelo contrário, talvez os aborrecêssemos com nossa música autoral desconhecida. A chuva apertava e acalmava, mas mesmo nos momentos mais amenos, nunca deixou de pingar, e com isso a inibir a presença das pessoas no campo de futebol, que estava comprometido pelo
lamaçal produzido. Era, sem dúvida, um fator negativo a mais, e potencializador para o fracasso...


Quando chamaram o "Tiroteio" para tocar, chovia bem leve, mas o campo estava um horror, como já disse várias vezes. É claro que nada mudaria em poucos minutos, e de fato, quando fomos tocar, o panorama era idêntico. Fizemos o nosso show sob uma chuva bem leve, mas com quase ninguém disposto a enfrentar o barro. A iluminação beirava o ridículo, com duas tímidas torres, com poucos spots de 500, em cada uma, e sendo operada por um sonolento iluminador, certamente com noção de mapa de luz, baseada em árvores de natal.

Ninguém na festa parecia saber que estávamos lançando um disco, e nessa altura, estávamos só cumprindo tabela, resignados com a festa muito equivocada, e plena de anticlímax. O show foi na verdade, um ensaio a céu aberto, numa "barraca de pastéis", e iluminado por árvores de natal. Não lembro-me de ver mais de 50 pessoas dispostas a assistir naquele campo escuro, enlameado, e sob chuva, mesmo leve.

Mas, era o Pitbulls on Crack... e dentro de suas características normais, tocamos e divertimo-nos, mesmo sob tais condições ruins, e claro, fazendo piadas sobre a noite tenebrosa...
Quando voltamos à casa que servia-nos como camarim, tivemos a surpresa de que uma outra banda internacional estava ali e comendo o nosso lanche....

Sinceramente não lembro-me do nome da banda, mas lembro-me tratar-se da nova banda de um ex-baixista dos Ramones (Dee Dee Ramone), e os gringos estavam no Brasil fazendo shows no circuito underground. Alguém levou-os à festa e claro, naquela zona que estava generalizada, claro que foram convidados a tocar na barraca de pastel, digo, palco...
Estava uma certa bajulação em cima deles, mas de minha parte, parecia a cereja no bolo de fel, cuja receita estava lotada de ingredientes indigestos, que fora-nos servido. Mais uma bandinha punk irrelevante, a destruir o "Pitstock"... já aproximava-se da meia noite quando resolvemos ir embora. Os australianos do "Honey Island" ainda nem haviam desembarcado em Cumbica. O marqueteiro estava resignado com a ausência deles, e dizia estar disposto a anunciar o cancelamento de seu show. Mas nessa altura, anunciar isso naquele palquinho triste, não faria a menor diferença. Aliás, o público debandava, cansado de abrigar-se da chuva, e da festa entediante.

Depois que fomos embora, soubemos que os sujeitos acabaram chegando, mas sem delírio de helicóptero, foram de van mesmo, e chegaram ao sítio, por volta das 4:00 h. da manhã. A festa acabara, praticamente, com gatos pingados e bêbados sendo expulsos pelos seguranças. Claro que não tocaram e convenhamos, ainda bem...
Assim foi o "Pitstock", uma ideia muito legal, mas que desvirtuou-se completamente. O saldo positivo para a banda, ficou por conta da propaganda elaborada pela Web Designer, Marina Yoshie, com o suporte à lata promocional.

Claro, a matéria de destaque na Folha de São Paulo; a reportagem da MTV; a resenha na revista Rock Brigade, matérias no Estadão e no caderno Folhateen, da Folha de São Paulo; e a citação no Vídeo Show da Rede Globo, foram os nossos maiores êxitos nessa empreitada. A festa em si, foi uma sucessão de erros, lamentavelmente.

Indo além, hoje enxergo esse evento como o "canto do cisne" do Pitbulls on Crack. Era a última esperança em dar um salto na sua carreira, e pleitear assim um lugar melhor no mercado musical. No ano de 1997, o Pitbulls on Crack teria alguns poucos momentos felizes, mas sem dúvida, o último impulso significativo na carreira da banda, tinha ocorrido com a questão do lançamento desse CD, e principalmente a criação do aparato todo de divulgação. O "Pitstock" foi portanto, a última esperança, e a julgar pelo seu deprimente resultado, tal energia criativa esvaíra-se pelo ralo...
Realizou-se no dia 13 de dezembro de 1996, e a festa recebeu cerca de mil pessoas, somente...


Release oficial em inglês, do CD Lift Off, disponibilizado pela gravadora

O dia seguinte dessa festa malograda, na verdade estendeu-se, pois já avançava-se sobre a segunda quinzena de dezembro e convenhamos, o Brasil já estava todo parado, falando do Papai Noel; ceias pantagruélicas; reveillon, e férias de verão...
Não dava para esperar outra coisa da gravadora, e todos os esforços posteriores para continuar a divulgação e distribuição, só mesmo com a entrada de 1997.

E a versão do release oficial do CD Lift Off, em português, logicamente

Não canso-me de dizer, o Pitbulls on Crack não abalava-se com nada. O fato da festa ter sido decepcionante, não tirou o humor de ninguém e pelo contrário, só gerou um saco de piadas fresquinhas...
A barraca de pastel / simulacro de palco; a lama generalizada; a empresária do "Tiroteio", dizendo não gostar de nós, mas sem perceber que a festa era nossa; o público playboy, completamente alheio a tudo, e a segurança agressiva, com cães nada "Peace & Love"...

Bem, esse era o lado leve do Pitbulls on Crack, uma banda cujos membros dificilmente teriam problemas estomacais, decorrentes de stress e / ou nervosismo. Os próximos compromissos seriam mesmo só em janeiro de 1997. O programa "Metrópolis", da TV Cultura de São Paulo (uma ótima revista cultural por sinal), daquela emissora estatal, havia ventilado o interesse em entrevistar-nos, e o programa "Brasileiros e Brasileiras", da Rádio Brasil 2000 FM, também agendara uma entrevista / show ao vivo, no estúdio da emissora.
Havia também pedido de entrevistas de algumas revistas, como Rock Brigade e Cover Guitarra.

Então, quando mencionei o "Canto do Cisne" da banda, anteriormente, é óbvio que eu, e ninguém da banda, tinha essa perspectiva naquela época. Pelo contrário, diante desses agendamentos de órgãos de imprensa, para falar do recém lançado disco, dava-nos esperanças de dias melhores.

Com exceção dos órgãos de imprensa especializada, outras manifestações de apoio que tivemos, foram fruto do esforço da gravadora pelo aparato de divulgação, muito mais que interesse em nossa música, tínhamos consciência disso. Mas independente desse fator, queríamos aproveitar ao máximo, tal perspectiva. E assim encerrou-se o ano de 1996...
Foi de fato a última gota de esperança para o "POC", hoje vejo esse fato histórico, com total precisão.


Continua...

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